domingo, outubro 20, 2013

Partilha 156

(estilo, featuring Pharrell Williams) 


Nem a beleza doce do algodoal alivia a ferida do escravo que dela cuida, nem o arrozal liberta um pó capaz de maquilhar o céu e a terra com a dança da verdade. Ainda assim, as coisas brancas têm a generosidade daqueles universos que podem ser caligrafados com galáxias negras.

sábado, outubro 19, 2013

Pelo menos tantos planos quantas as letras do alfabeto

1. A comunidade não paga aos seus governantes, não lhes assaca o privilégio inexcedível do poder e não fecha os olhos perante a teia de interesses predadores que a partir desse poder eles constroem, para que esses governantes venham candidamente dizer que não têm alternativas.

2. O capitalismo é suportável, de facto, para aqueles que usufruem do seu conforto enquanto triunfadores relativos. Os portugueses estarão agora a sentir na pele o que é ser o oprimido no seio de um sistema capitalista.

3. Se não há alternativa dentro do capitalismo, talvez seja necessário propor uma alternativa ao capitalismo.

4. É doloroso assistir à invasão da linguagem no seu todo pelo linguajar de uma ideologia. O pensamento fica inquinado desde o seu nascer. Por exemplo, ainda não ouvi ninguém dizer que um incompetente, a despeito de ser incompetente, também precisa de sobreviver e de sobreviver bem.

terça-feira, outubro 15, 2013

Songlike

"It is reasonable to suppose that the first "lyrical" poems came into existence when human beings discovered the pleasure that arises from combining words in a coherent, meaningful sequence with the almost physical process of uttering rhythmical and tonal sounds to convey feelings."


The New Princeton Encyclopedia of Poetry and Poetics (edição de 1993)

segunda-feira, outubro 14, 2013

Vozes

Bach? Aquele senhor que compôs fugas de informação sobre a transcendência?

sábado, outubro 12, 2013

"The quiet man" - imagens





O INATUAL 81

"The quiet man" - John Ford (1952)


O velho fazedor de westerns tenta nesta obra filmar a Irlanda como filmava os Estados Unidos, não só em termos da mestria visual na encenação de grandes espaços de exterior (a que o verde da ilha esmeraldina traz uma ressonância rara em termos das virtudes do technicolor), mas sobretudo ao nível de uma opção pela lenda em detrimento do realismo. Para um irlandês, o esforço de Ford pode parecer eventualmente folclórico (os portugueses, que passam trezentos e sessenta e quatro dias por ano sem ouvir fado ou pensar na saudade, sabem o que isso é), mas, independentemente deste ou daquele detalhe mais constrangedor, a verdade é que o Homero do ecrã consegue aqui inventar um país ao mesmo tempo mítico e só seu, um lugar-cinema que se acorda ao seu discurso e dispensa veleidades documentais.

Ford tinha ascendência irlandesa (ele próprio se chamava Sean, como o personagem protagonista deste filme). "The quiet man" funciona, portanto, como uma evocação do passado, mostrando John Wayne e Maureen O'Hara a percorrerem aquelas paisagens intocadas como se fossem crianças em brincadeira. É uma estratégia cara ao conservador, claro, mas essa evocação equivale em rigor a uma oportunidade de geografia política: no imaginário do cineasta, e ao contrário do que a América do seu tempo talvez lhe pudesse oferecer, a Irlanda rural teria conseguido conservar até ao presente algumas evidências primitivas da possibilidade de vida em grupo.

O assunto está presente na maior parte desta filmografia, mas em "The quiet man" parece ter chegado ao nível da conscencialização por parte do seu autor, permitindo-lhe assumir toda a sua originalidade. Se a Irlanda-mito é equiparada a um paraíso, isso é porque nela as relações humanas seriam sobretudo governadas pelo humor. O dramalhão a que a backstory do boxeur levaria na cultura contemporânea americana é magicamente desfeito na magistral cena final que faz o filme passar da profecia trágica para uma celebração do gosto de viver (como "Le pas suspendu de la cigogne", "The quiet man" adquire toda o seu sentido e toda a sua comoção numa sequência de bravura conclusiva que ao mesmo tempo desvia o filme e o faz transcender-se a si mesmo). É o humor que permite viver em comunidade, que permite que as diferentes visões do mundo nunca entrem em colisão irremediável.

A presença de dois grupos religiosos não deixa dúvidas: Ford faz uma apologia exemplar do pequeno pecado, pois só a sua prática assumida e alimentada pode impedir o grande horror. É o gosto pela pancadaria viril, e não a sua abolição civilizada, que pode constituir uma válvula de escape contra o crime. O mesmo se pode dizer a propósito da pequena mentira, da bebedeira ou da curiosidade sensual dos namorados. Esta visão pragmática e tolerante da vida é o sinal mais evidente da moderação ideológica do cineasta, mas é também um sinal que o distingue e enobrece perante todos os políticos no ativo que militam pela moderação. Em todo o caso, ela tem de ser entendida em contexto: hoje, talvez Ford fosse um defensor dos perseguidos fumadores, mas talvez já não pudesse lançar mão do erotismo enquanto indutor de pequenos pecados...

A consumação do amor (mais até do que a sua fatura sexual) precisa sempre de passar por um conjunto de rituais prévios. Ainda que a chuva e o vento inundem o par com a poesia da sensualidade, esses rituais têm de ser cumpridos para que o amor seja sentido como ponto de chegada e ponto de partida. Nisso, Ford é nostálgico. Mas a coerência mantém-se: é preciso que os namorados fujam das regras de namoro que lhes pretendem impor, mas também é preciso que o façam com baby steps (passos de criança), que o façam governados pelo sentido de humor. Pergunto aos meus leitores quantos filmes já viram que tornem, como este o faz, o amor indissociável do humor? A cultura é que nos faz, é um facto, mas nós só a podemos refazer - o que é outro facto.

Um dos meus filmes favoritos.

quarta-feira, outubro 09, 2013

Três questões para Pedro Passos Coelho

Não tendo sido convidado para o programa que decorre neste momento na RTP, deixo aqui as perguntas, sintéticas e abrangentes, que gostaria de fazer ao senhor Primeiro Ministro de Portugal:


1. Acha que a elite nacional pode impor à restante população um conjunto de medidas indutoras de grande sofrimento sem que essas medidas a prejudiquem a ela própria? Se há uma justificação para a política que o governo está a praticar (até porque boa parte dessa política é definida por agentes estrangeiros), está o Senhor Primeiro Ministro disposto a assumir, para si e para os seus, as consequências destrutivas a que ela leva? Se vamos rever a Constituição, poderemos nela incluir, como elemento fundamental, a necessidade de todo e qualquer governante se ter de comportar mediante a obediência ao imperativo categórico tal como Kant o definiu na sua teoria moral?


2. Este é um tempo excecional que exige governantes excecionais que, mais do que serem meros gestores das adversidades que ameaçam o país, as tentem combater com uma coragem muito superior àquela que seria aceitável em tempo normal. O senhor considera-se um desses governantes, ou não passa de um funcionário do sistema e da contingência?


3. O senhor Primeiro Ministro tem consciência de que, após a sua governação, a sociedade portuguesa estará completamente transformada? Nomeadamente em termos do trabalho, tem noção de que a suposta mera gestão de uma crise está a levar a um aviltamento profundo do seu valor?

sexta-feira, outubro 04, 2013

Escolha sempre o humor

Quem desafia a monstruosidade do mercado das artes plásticas não é o autor conceptual, mas sim o falsário.

quarta-feira, outubro 02, 2013

Pus moderno

Hoje, porventura com razão, nenhum autor se deve sentir obrigado a assumir uma postura de vanguarda. A ingenuidade, contudo, talvez já não seja perdoável.

sábado, setembro 28, 2013

Partilha 155

Diapasão


Pode o lá estar às vezes tão longe
que nos parece um injusto ralhete.
O mundo afina-se então nesse dia
por alguma coisa que esteja mesmo aqui.
Como o gafanhoto.

Nos seres que não se mexem, portanto,
já só interessa o que neles pode saltar:
as cores nas casas,
os frutos nas árvores,
as histórias na cabeça do avô.

Chove só para as nuvens não estarem quietas,
e faz logo sol
ou logo neva
só para a água não ser sempre o mesmo líquido.

Os meninos deixam de jogar à macaca
e vão para o estrangeiro,
para o macaquinho chinês.

Entretanto,
já ninguém sabe onde para o gafanhoto.
Teremos de encontrar outra coisa,
amanhã,
mesmo aqui.

domingo, setembro 22, 2013

Parar com a cagança

Certas publicações culturais referem-se ao Senhor X como sendo: poeta, prosador, romancista, novelista, contista, dramaturgo, guionista, letrista, tradutor, ensaísta, crítico, diarista, cronista, polemista, jornalista... Apesar de esta frase ter o aspeto exato de uma piada, ela é contudo representante de uma monstruosidade de estilo facilmente verificável na realidade da nossa imprensa.

Quando um determinado autor adquiriu o seu relevo dentro dos pressupostos de um género específico, é natural que esse género seja mencionado. Camões foi um poeta (apesar de também ter escrito teatro) e George Steiner cumpre os requisitos de um ensaísta (apesar de por vezes tentar a ficção).

Quando um autor partilhou a sua atividade em duas frentes muito distintas e muito específicas, também não incomoda ouvir dizer que Tchékhov foi um dramaturgo e um contista.

Mas no caso das serigaitas que vão a todas (eu próprio sou bastante promíscuo...), pedia o especial favor de, quando mencionarem o Senhor X, nos dizerem simplesmente que ele é... escritor.

quarta-feira, setembro 18, 2013

Partilha 154

(impressão)   


O limoeiro do meu quintal é semipresidencial: no inverno ele é Belém, no verão, São Bento. No inverno ele acolhe a embaixada dos três reimosos magos: a chuva, o frio e o vento. No verão é porta aberta para o assunto que se segue: as estações suportáveis são muros entre cor de Píramo e cor de Tisbe – qual graffiti de amora qual quê? Os frutos fazem de gémeos melhor do que atrizes de telenovela, mas deixam-se abrir como se fossem cadernos de inédito artista, in-quarto, in-octavo (a esmo, nunca a ismo)… Mandarei para o Tribunal Constitucional esta proposta de lei de talião que diz que o limoeiro apenas dá possibilidades de limão.


sábado, setembro 14, 2013

Lucas 11, 33-36

Leitura: o que decide a higiene moral do corpo é a maneira como este olha para o mundo.

sexta-feira, setembro 13, 2013

Fail again...

Quando, interrogado pelos fariseus sobre a validade do divórcio, Jesus Cristo deu a célebre resposta: "o que Deus uniu não o separe o homem", ele poderia na verdade estar a defender a legitimidade do divórcio, alegando que, quando este se revela necessário, é porque nada de divino foi unido num determinado casamento (a união é ilegal). Ora, é preciso tentar de novo...

quarta-feira, setembro 11, 2013

Uma impossibilidade, uma possibilidade

Observo o esforço épico dos operadores de câmara (e seus associados) que registam as imagens dos programas de divulgação da vida natural. Lado a lado com perigosos leões a caçarem elefantes, passando semanas em convívio com milhões de baratas que fazem a sua vida sobre fezes de morcegos, partilhando o impossível inverno da Antártida com pinguins (os únicos animais que suportam tais rigores), eles são a demonstração mais expressiva e hiperbólica que existe do sofrimento vital que é sempre necessário para se produzir imagens de fotografia ou de cinema.

Tímido, preguiçoso e não nadando propriamente em coragem física (para além de algo inepto para assuntos técnicos), nunca poderia eu ser fotógrafo. A paixão por criar imagens de cinema é imensa, mas ela só se torna possível porque o compromisso coletivo que se produz em torno da responsabilidade de uma rodagem me impede de fugir.


(Fotografia de Elliott Erwitt)

segunda-feira, setembro 09, 2013

Obs

1. Julgo poder afirmar com segurança que reconheço, em cada pessoa com quem já me cruzei, uma certa quantidade de grandes qualidades. Ainda que o conceito de "qualidade" seja dúbio, aceitemos a simplificação provisória e intuitiva de que ele se refere a traços de personalidade caracterizados por uma espécie de positividade vital. É óbvio que em toda a gente reconheço também grandeza no outro lado do espectro ético...

O curioso, todavia, é que esse set de grandes qualidades, dependendo do tipo específico que as define e da forma como elas se conjugam entre si e com os grandes defeitos, não garante nem a felicidade das pessoas que se relacionam com o possuidor do set (às vezes muito pelo contrário) nem sequer a felicidade desse mesmo possuidor (às vezes muito muito pelo contrário).

Para ingerir tudo isto, é preciso ter um certo gosto pelo romanesco.


2. Os anfitriões de um encontro recente, pródigos em simpatia, amizade e talento para receber, revelaram-se, no fim dessa tarde bem passada, inveterados fascistas (estou a escolher a palavra com rigor). Projetado para uma fantasia de guerra civil, vi-me de imediato a trocar morte com pessoas que para comigo só tiveram ternuras.

A paixão sentimental pode levar ao crime, mas o saldo da faca e do alguidar raramente excede uma ou duas vítimas. A paixão político-ideológica, igualmente irracional e igualmente difícil de prever nas mais modestas personalidades, é capaz de engendrar assassinos em série e genocidas (tanto naqueles que se aproximam da nossa razão como nos que dela se afastam).

Retribuo o conselho com que toda a gente me persegue: estabeleçam relações de cidadania que sejam sobretudo estáveis e racionais, e deixem a paixão para as coisas que não interessam.

Discordância

1. Na sequência de uma investigação requerida por um projeto criativo pessoal, estou neste momento a ler o excelente "The Cambridge Companion to the Sonnet". Aconselho vivamente a quem se interessar por tal assunto que não interessa nem ao menino Jesus (o único senão é que, a partir do capítulo dedicado ao Shakespeare, o enfoque dos ensaios se reduz à literatura anglo-saxónica). São textos claros, com a extensão justa, sem demasiadas remissões, partilhando teses que em simultâneo resumem o conhecimento mais relevante sobre cada assunto e propõe novas perspetivas. 

Até agora, o artigo que mais apreciei foi o da professora Catherine Bates, mas é também aquele que mais me apetece rebater.

A ideia defendida pela académica de que aquilo que o escritor de sonetos medievais/renascentistas vê na mulher amada não é tanto a integridade desse objeto mas a própria ideia de Amor (ideia essa que reflete muito mais o poeta-Narciso do que a destinatária desse seu afeto espetacular), precisa de ser contrabalançada com o reconhecimento de que, numa obra de arte (ou seja, de pensamento), todo o ser real é vampirizado pelo intelecto até se tornar um lugar mental. 
Quando Godard filma Anna Karina em "Vivre sa vie", é verdade que nos dá belas imagens da sua beleza e que quase nos consegue convencer de que, em alguns momentos, podemos olhar para a alma da atriz sua mulher. Mas, apesar de toda essa comoção (mais do que mimética), Anna Karina não deixa de ser um lugar mental, um lugar de cinema, e é só nessa condição que ela pode existir e comover no contexto de um filme. Mesmo que o filme abra brechas psíquicas na sua encenação que o façam por vezes ultrapassar o mero fingimento.
Agora, se as sequências de sonetos da Renascença britânica não conseguem construir uma imagem relevante da amada por estarem demasiado dependentes das convenções retóricas iniciadas por Petrarca, isso já é outra história...


2. Outra tese de Catherine Bates: toda a paródia (pelo menos no contexto da lírica renascentista) não deixa de ser uma forma de bajulação do modelo parodiado, modelo esse de que o poeta que se julga inovador não se consegue afinal libertar.
É uma ideia muito perigosa. Todos nós temos uma infância na nossa relação com a cultura, e essa infância a todos coloca mitos no imaginário. É muito difícil abandoná-los por completo (impossível?), especialmente porque os mitos têm o condão prático de permitirem uma comunicação célere e eficaz, na medida em que tendem a ser universais. Todo o poeta que escreve sobre amor, escreve de facto com a lírica de Petrarca algures em suspenso no seu pensamento. Mas isso não significa que o diálogo com o modelo seja sempre sorvido por este.
Poderemos afirmar que o "Ulysses" de Joyce não é um objeto formal e materialmente distinto da "Odisseia" de Homero? Ou que "Une femme est une femme" (Godard de novo) é um filme com a mesma índole conceptual dos musicais de Hollywood?

Ouro invertido

Gosto mais de cinema português que de cinema anglo-saxónico.
Gosto mais de poesia anglo-saxónica que de poesia portuguesa.

sábado, setembro 07, 2013

Partilha 153

(places to visit before you die)


Cai nevoeiro sobre a cidade do porto: é um tira-olhos que põe olhos a quem quer continuar a ver. Os caçadores de imagens saem para a rua. Torres cortadas ao meio, o rio em paisagem onomatopaica, e diz-se que vão fechar o mercado do bolhão, é uma pena, era o único sítio naquele sítio onde se podia comprar maçãs de Adão. Sentado em cima de um cato, eu aguardo com linha e anzol. Parece-vos demasiado recato? Vereis os meus poemas-tordos, os meus poemas-lebres, os meus poemas-javalis.




Urbi et orbi















Certas pessoas, indecisas entre uma futilidade cruel e a intelectualidade da culpa, fazem a defesa daqueles filmes que, apesar de oferecerem uma mensagem importante, são divertidos, ou daqueles filmes que, apesar de serem divertidos, oferecem uma mensagem importante.

Isto de gostos na cama e no cinema tem muito que se lhe diga. Mas um filme divertido que se preze tem de fazer da diversão a sua própria mensagem.