sexta-feira, setembro 13, 2013

Fail again...

Quando, interrogado pelos fariseus sobre a validade do divórcio, Jesus Cristo deu a célebre resposta: "o que Deus uniu não o separe o homem", ele poderia na verdade estar a defender a legitimidade do divórcio, alegando que, quando este se revela necessário, é porque nada de divino foi unido num determinado casamento (a união é ilegal). Ora, é preciso tentar de novo...

quarta-feira, setembro 11, 2013

Uma impossibilidade, uma possibilidade

Observo o esforço épico dos operadores de câmara (e seus associados) que registam as imagens dos programas de divulgação da vida natural. Lado a lado com perigosos leões a caçarem elefantes, passando semanas em convívio com milhões de baratas que fazem a sua vida sobre fezes de morcegos, partilhando o impossível inverno da Antártida com pinguins (os únicos animais que suportam tais rigores), eles são a demonstração mais expressiva e hiperbólica que existe do sofrimento vital que é sempre necessário para se produzir imagens de fotografia ou de cinema.

Tímido, preguiçoso e não nadando propriamente em coragem física (para além de algo inepto para assuntos técnicos), nunca poderia eu ser fotógrafo. A paixão por criar imagens de cinema é imensa, mas ela só se torna possível porque o compromisso coletivo que se produz em torno da responsabilidade de uma rodagem me impede de fugir.


(Fotografia de Elliott Erwitt)

segunda-feira, setembro 09, 2013

Obs

1. Julgo poder afirmar com segurança que reconheço, em cada pessoa com quem já me cruzei, uma certa quantidade de grandes qualidades. Ainda que o conceito de "qualidade" seja dúbio, aceitemos a simplificação provisória e intuitiva de que ele se refere a traços de personalidade caracterizados por uma espécie de positividade vital. É óbvio que em toda a gente reconheço também grandeza no outro lado do espectro ético...

O curioso, todavia, é que esse set de grandes qualidades, dependendo do tipo específico que as define e da forma como elas se conjugam entre si e com os grandes defeitos, não garante nem a felicidade das pessoas que se relacionam com o possuidor do set (às vezes muito pelo contrário) nem sequer a felicidade desse mesmo possuidor (às vezes muito muito pelo contrário).

Para ingerir tudo isto, é preciso ter um certo gosto pelo romanesco.


2. Os anfitriões de um encontro recente, pródigos em simpatia, amizade e talento para receber, revelaram-se, no fim dessa tarde bem passada, inveterados fascistas (estou a escolher a palavra com rigor). Projetado para uma fantasia de guerra civil, vi-me de imediato a trocar morte com pessoas que para comigo só tiveram ternuras.

A paixão sentimental pode levar ao crime, mas o saldo da faca e do alguidar raramente excede uma ou duas vítimas. A paixão político-ideológica, igualmente irracional e igualmente difícil de prever nas mais modestas personalidades, é capaz de engendrar assassinos em série e genocidas (tanto naqueles que se aproximam da nossa razão como nos que dela se afastam).

Retribuo o conselho com que toda a gente me persegue: estabeleçam relações de cidadania que sejam sobretudo estáveis e racionais, e deixem a paixão para as coisas que não interessam.

Discordância

1. Na sequência de uma investigação requerida por um projeto criativo pessoal, estou neste momento a ler o excelente "The Cambridge Companion to the Sonnet". Aconselho vivamente a quem se interessar por tal assunto que não interessa nem ao menino Jesus (o único senão é que, a partir do capítulo dedicado ao Shakespeare, o enfoque dos ensaios se reduz à literatura anglo-saxónica). São textos claros, com a extensão justa, sem demasiadas remissões, partilhando teses que em simultâneo resumem o conhecimento mais relevante sobre cada assunto e propõe novas perspetivas. 

Até agora, o artigo que mais apreciei foi o da professora Catherine Bates, mas é também aquele que mais me apetece rebater.

A ideia defendida pela académica de que aquilo que o escritor de sonetos medievais/renascentistas vê na mulher amada não é tanto a integridade desse objeto mas a própria ideia de Amor (ideia essa que reflete muito mais o poeta-Narciso do que a destinatária desse seu afeto espetacular), precisa de ser contrabalançada com o reconhecimento de que, numa obra de arte (ou seja, de pensamento), todo o ser real é vampirizado pelo intelecto até se tornar um lugar mental. 
Quando Godard filma Anna Karina em "Vivre sa vie", é verdade que nos dá belas imagens da sua beleza e que quase nos consegue convencer de que, em alguns momentos, podemos olhar para a alma da atriz sua mulher. Mas, apesar de toda essa comoção (mais do que mimética), Anna Karina não deixa de ser um lugar mental, um lugar de cinema, e é só nessa condição que ela pode existir e comover no contexto de um filme. Mesmo que o filme abra brechas psíquicas na sua encenação que o façam por vezes ultrapassar o mero fingimento.
Agora, se as sequências de sonetos da Renascença britânica não conseguem construir uma imagem relevante da amada por estarem demasiado dependentes das convenções retóricas iniciadas por Petrarca, isso já é outra história...


2. Outra tese de Catherine Bates: toda a paródia (pelo menos no contexto da lírica renascentista) não deixa de ser uma forma de bajulação do modelo parodiado, modelo esse de que o poeta que se julga inovador não se consegue afinal libertar.
É uma ideia muito perigosa. Todos nós temos uma infância na nossa relação com a cultura, e essa infância a todos coloca mitos no imaginário. É muito difícil abandoná-los por completo (impossível?), especialmente porque os mitos têm o condão prático de permitirem uma comunicação célere e eficaz, na medida em que tendem a ser universais. Todo o poeta que escreve sobre amor, escreve de facto com a lírica de Petrarca algures em suspenso no seu pensamento. Mas isso não significa que o diálogo com o modelo seja sempre sorvido por este.
Poderemos afirmar que o "Ulysses" de Joyce não é um objeto formal e materialmente distinto da "Odisseia" de Homero? Ou que "Une femme est une femme" (Godard de novo) é um filme com a mesma índole conceptual dos musicais de Hollywood?

Ouro invertido

Gosto mais de cinema português que de cinema anglo-saxónico.
Gosto mais de poesia anglo-saxónica que de poesia portuguesa.

sábado, setembro 07, 2013

Partilha 153

(places to visit before you die)


Cai nevoeiro sobre a cidade do porto: é um tira-olhos que põe olhos a quem quer continuar a ver. Os caçadores de imagens saem para a rua. Torres cortadas ao meio, o rio em paisagem onomatopaica, e diz-se que vão fechar o mercado do bolhão, é uma pena, era o único sítio naquele sítio onde se podia comprar maçãs de Adão. Sentado em cima de um cato, eu aguardo com linha e anzol. Parece-vos demasiado recato? Vereis os meus poemas-tordos, os meus poemas-lebres, os meus poemas-javalis.




Urbi et orbi















Certas pessoas, indecisas entre uma futilidade cruel e a intelectualidade da culpa, fazem a defesa daqueles filmes que, apesar de oferecerem uma mensagem importante, são divertidos, ou daqueles filmes que, apesar de serem divertidos, oferecem uma mensagem importante.

Isto de gostos na cama e no cinema tem muito que se lhe diga. Mas um filme divertido que se preze tem de fazer da diversão a sua própria mensagem.

Tradição, tradução

Nunca compreenderemos uma experiência se a abordarmos com as mesmas palavras com que ela se costuma apresentar.

terça-feira, setembro 03, 2013

Relatório astronómico


1. Um divulgador de ciência informava na televisão que, perante a suposição muito forte da existência de grandes quantidades de água na Lua, já havia empresas privadas interessadas na exploração do recurso.

Se o capitalismo também conseguir foder o céu, Deus não existe.


2. Há escritores que escrevem muito rápido, e outros que o fazem com vagar ponderado. Há textos que surgem de improviso e outros que estão há décadas a ser pensados. Há quem reveja muito, há quem pratique escrita automática. 

Mas nada disso releva. Cada texto demora mais tempo a escrever do que demora a um rio escavar um Canyon. Cada texto começou a ser escrito no início da vida no planeta, talvez na própria explosão do Big Bang, e foi um processo de escultura por erosão que, passo ante passo, o fez chegar à mão do escritor enquanto memória viva, e na forma que ao escritor parece (e de algum modo também é) sua.

domingo, setembro 01, 2013

Primeiro pensamento

Não é só o texto que é declamado no teatro. Os corpos dos atores, as luzes, os cenários, o guarda-roupa... é tudo declamado.

sábado, agosto 31, 2013

Ich bin eine Frau

Acho bem que se discuta o piropo. E, embora ainda seja cedo para falar de legislação, defendo que, por exemplo, no meu caso, que sou elemento do sexo masculino, obeso, feio e a caminhar para o envelhecimento, o piropo à minha pessoa passe a ser obrigatório. É um crime não o fazer. 

Agora a sério, não haverá legislação suficiente que controle a eventual passagem de um comentário ao insulto? E o intuito de lutar contra a permanência de uma cultura machista na sociedade (que, em todo o caso, já nem é o que era...), será bem servido com a implicação com uma questão tão localizada e menor (quando todos os esforços são poucos para se lutar contra a violência doméstica ou a impunidade dos violadores)? Se vamos começar a considerar que um ato de linguagem é assédio sexual, não estaremos em breve a tentar criminalizar os maus pensamentos?

Havendo uma real desigualdade entre géneros no que concerne a esta prática, sugiro então que as mulheres comecem a dizer piropos. Aposto que, dentro de alguns anos, elas já levam a palma aos homens!

sexta-feira, agosto 30, 2013

Efeito imediato

Vi na televisão um psicólogo chamado Ludgero Panhinho.
Já não me sinto tão sozinho.

O pus dado

Num artigo que saiu hoje no jornal PÚBLICO, Gonçalo Portocarrero de Almada assume a sua defesa, absolutamente legítima, do casamento civil e religioso, com base numa argumentação tão desonesta e tão deselegante que me conseguiu predispor ao comentário da espuma dos dias (o que, convenhamos, não é tão fácil quanto isso):

O senhor em causa assumiu um contrato de trabalho com um Patrão que se fartou de falar, sobretudo, de amor (e não de vínculos contratuais). E como o senhor saberá, todo o tema pode ter tratamento tanto de telenovela como de filosofia, pelo que o enlamear contingente pela ficção televisiva do tema amor não o condena necessariamente à futilidade e à inoperância. Mas a comparação de que o senhor se socorre na sua trapalhada sofista traça-lhe de imediato o retrato: há de o senhor arder no Inferno da solidão por ter equiparado o casamento a um contrato de trabalho.

Se eu fosse tão desonesto quanto o senhor, escreveria algo do género: "Apliquemos as regras do direito laboral ao casamento. Quando o patrão do casal chega a casa e a sua operária não cumpre o débito conjugal, ele pode de imediato descontar-lhe o tamanho da mesada. Esta aplicação da Lei a todos os aspetos da vida humana, mesmo os mais íntimos, será fantástica, pois finalmente, na família e na sociedade, se observará, escrupulosamente, o espírito do fascismo..." 

Mas eu não vou escrever isto. Depois de lhe lembrar que, na selva, tudo corria bem até os colonizadores e seus alucinados missionários terem ido perturbar o seu equilíbrio divino (em todo o caso o senhor sabe que uma união de facto não é uma selva), vou dizer-lhe uma só frase: não sois digno de entrar em minha morada.

Political Geographic

1. A dificuldade arriscada e a infinita paciência que é exigida aos operadores de câmara dos documentários sobre a vida natural nunca transparece na montagem (no sentido de conceção geral) do produto audiovisual acabado. O pacote final é tão lustroso, tão limado, tão ilusoriamente inconsútil, que não faz justiça nem ao cinema nem à natureza. Ao técnico virtuoso (que recolhe imagens notáveis) corresponde um realizador/montador desonesto. Mesmo os making of são decalcados da estrutura narrativa mais grosseira do entretenimento.


2. No primeiro episódio da série da BBC "Planet Earth", a atividade natural mais exibida é o ritual predatório de várias espécies. Pergunto-me se nos documentários do mesmo género produzidos pelos países comunistas se insiste na mesma leitura da natureza...

Percurso do método

Não tenho grande imaginação para produzir conceitos. Se escrevo ensaios, é para combater o delírio cultural. Nesse aspeto sinto-me próximo da sensibilidade de um autor como Luis Buñuel, que filmava contra o obscurantismo (mas com muito mais piada, claro).

Mesmo assim os poemas parecem-me sempre mais verdadeiros do que os ensaios.


(Na verdade, o corpo essencial do meu ensaísmo é o exercício independente da leitura)

quinta-feira, agosto 29, 2013

Europa 2013

O mais provável é que as corporações de bombeiros voluntários sejam uma das raras manifestações de generosidade organizada, genuína e consensual que existem no mundo contemporâneo.

quarta-feira, agosto 28, 2013

I have a dream

Eu tenho o sonho prático (já que o dinheiro está a desaparecer) de que tudo o que seja necessário para providenciar a saúde das populações seja colocado fora da esfera da economia de mercado. 

Os lobbies? O tempo dos lobbies para sempre acabou. E podem sempre criar o seu próprio (e novo) lobby.

terça-feira, agosto 27, 2013

Discurso do método

1. Há poemas que se impõem de repente e quase inteiros (no meu caso isso funciona porque só faço poemas curtos). Mas há outros, bem mais numerosos, que ficam a pairar em projeto, a alimentar-se do quotidiano e da imaginação, a usar criteriosamente o seu rigorosíssimo poder magnético, e que só se deixam escrever quando uma estranha gravidade da vida e da mente cria as condições de entrega adequadas para tal execução.


2. Por vezes, um determinado pensamento formulado revela-se medíocre, mas, logo que eu substituo essa forma por uma verbalização muito mais exigente, o próprio pensamento parece ganhar pontos na escala da racionalidade (sem que eu o tenha conscientemente reformulado no mero conforto da mente). Nada disto me incomoda. O pensamento é algo que só conseguimos fazer por via da linguagem, e a perfeição que o fundo pode atingir não se distingue da perfeição da forma. Pensar bem é usar bem a linguagem. Não há mais matemática filosófica do que esta.

Duas pequenas

1. A minha sobrinha Joana, que tem neste momento três anos e meio, já domina por completo a base do mecanismo da linguagem. Discursos patetas, algumas pronúncias cómicas, mas o essencial está lá (sintaxe, tempos verbais, consciência de pronomes, uso de preposições, etc.). Curiosamente, comete os mesmos erros daqueles falantes do português que todos acusamos de ignorância linguística (ex.: "eu puse-a" em vez de "eu pu-la"). Talvez isso confirme que regras como a que este exemplo subverte são preciosismos algo estranhos à lógica intrínseca da maquinaria da nossa língua.


2. A minha gata Clara que, segundo o seu veterinário, terá no máximo quatro meses de idade, era uma criança destravada e tresloucada que passava o dia a brincar. Muito rapidamente (oh! splendor in the grass...), adquiriu a disciplina apática da sua congénere muito mais velha (a gata Kika), ou seja: dormir, dormir e dormir. Pensámos que a maturidade tinha enfim chegado. Acontece que a bicha estava doente, aparentemente intoxicada por uma planta. Após a devida medicação, o destravão e a tresloucura regressaram. Quod erat demonstrandum.

segunda-feira, agosto 26, 2013