sábado, agosto 31, 2013

Ich bin eine Frau

Acho bem que se discuta o piropo. E, embora ainda seja cedo para falar de legislação, defendo que, por exemplo, no meu caso, que sou elemento do sexo masculino, obeso, feio e a caminhar para o envelhecimento, o piropo à minha pessoa passe a ser obrigatório. É um crime não o fazer. 

Agora a sério, não haverá legislação suficiente que controle a eventual passagem de um comentário ao insulto? E o intuito de lutar contra a permanência de uma cultura machista na sociedade (que, em todo o caso, já nem é o que era...), será bem servido com a implicação com uma questão tão localizada e menor (quando todos os esforços são poucos para se lutar contra a violência doméstica ou a impunidade dos violadores)? Se vamos começar a considerar que um ato de linguagem é assédio sexual, não estaremos em breve a tentar criminalizar os maus pensamentos?

Havendo uma real desigualdade entre géneros no que concerne a esta prática, sugiro então que as mulheres comecem a dizer piropos. Aposto que, dentro de alguns anos, elas já levam a palma aos homens!

sexta-feira, agosto 30, 2013

Efeito imediato

Vi na televisão um psicólogo chamado Ludgero Panhinho.
Já não me sinto tão sozinho.

O pus dado

Num artigo que saiu hoje no jornal PÚBLICO, Gonçalo Portocarrero de Almada assume a sua defesa, absolutamente legítima, do casamento civil e religioso, com base numa argumentação tão desonesta e tão deselegante que me conseguiu predispor ao comentário da espuma dos dias (o que, convenhamos, não é tão fácil quanto isso):

O senhor em causa assumiu um contrato de trabalho com um Patrão que se fartou de falar, sobretudo, de amor (e não de vínculos contratuais). E como o senhor saberá, todo o tema pode ter tratamento tanto de telenovela como de filosofia, pelo que o enlamear contingente pela ficção televisiva do tema amor não o condena necessariamente à futilidade e à inoperância. Mas a comparação de que o senhor se socorre na sua trapalhada sofista traça-lhe de imediato o retrato: há de o senhor arder no Inferno da solidão por ter equiparado o casamento a um contrato de trabalho.

Se eu fosse tão desonesto quanto o senhor, escreveria algo do género: "Apliquemos as regras do direito laboral ao casamento. Quando o patrão do casal chega a casa e a sua operária não cumpre o débito conjugal, ele pode de imediato descontar-lhe o tamanho da mesada. Esta aplicação da Lei a todos os aspetos da vida humana, mesmo os mais íntimos, será fantástica, pois finalmente, na família e na sociedade, se observará, escrupulosamente, o espírito do fascismo..." 

Mas eu não vou escrever isto. Depois de lhe lembrar que, na selva, tudo corria bem até os colonizadores e seus alucinados missionários terem ido perturbar o seu equilíbrio divino (em todo o caso o senhor sabe que uma união de facto não é uma selva), vou dizer-lhe uma só frase: não sois digno de entrar em minha morada.

Political Geographic

1. A dificuldade arriscada e a infinita paciência que é exigida aos operadores de câmara dos documentários sobre a vida natural nunca transparece na montagem (no sentido de conceção geral) do produto audiovisual acabado. O pacote final é tão lustroso, tão limado, tão ilusoriamente inconsútil, que não faz justiça nem ao cinema nem à natureza. Ao técnico virtuoso (que recolhe imagens notáveis) corresponde um realizador/montador desonesto. Mesmo os making of são decalcados da estrutura narrativa mais grosseira do entretenimento.


2. No primeiro episódio da série da BBC "Planet Earth", a atividade natural mais exibida é o ritual predatório de várias espécies. Pergunto-me se nos documentários do mesmo género produzidos pelos países comunistas se insiste na mesma leitura da natureza...

Percurso do método

Não tenho grande imaginação para produzir conceitos. Se escrevo ensaios, é para combater o delírio cultural. Nesse aspeto sinto-me próximo da sensibilidade de um autor como Luis Buñuel, que filmava contra o obscurantismo (mas com muito mais piada, claro).

Mesmo assim os poemas parecem-me sempre mais verdadeiros do que os ensaios.


(Na verdade, o corpo essencial do meu ensaísmo é o exercício independente da leitura)

quinta-feira, agosto 29, 2013

Europa 2013

O mais provável é que as corporações de bombeiros voluntários sejam uma das raras manifestações de generosidade organizada, genuína e consensual que existem no mundo contemporâneo.

quarta-feira, agosto 28, 2013

I have a dream

Eu tenho o sonho prático (já que o dinheiro está a desaparecer) de que tudo o que seja necessário para providenciar a saúde das populações seja colocado fora da esfera da economia de mercado. 

Os lobbies? O tempo dos lobbies para sempre acabou. E podem sempre criar o seu próprio (e novo) lobby.

terça-feira, agosto 27, 2013

Discurso do método

1. Há poemas que se impõem de repente e quase inteiros (no meu caso isso funciona porque só faço poemas curtos). Mas há outros, bem mais numerosos, que ficam a pairar em projeto, a alimentar-se do quotidiano e da imaginação, a usar criteriosamente o seu rigorosíssimo poder magnético, e que só se deixam escrever quando uma estranha gravidade da vida e da mente cria as condições de entrega adequadas para tal execução.


2. Por vezes, um determinado pensamento formulado revela-se medíocre, mas, logo que eu substituo essa forma por uma verbalização muito mais exigente, o próprio pensamento parece ganhar pontos na escala da racionalidade (sem que eu o tenha conscientemente reformulado no mero conforto da mente). Nada disto me incomoda. O pensamento é algo que só conseguimos fazer por via da linguagem, e a perfeição que o fundo pode atingir não se distingue da perfeição da forma. Pensar bem é usar bem a linguagem. Não há mais matemática filosófica do que esta.

Duas pequenas

1. A minha sobrinha Joana, que tem neste momento três anos e meio, já domina por completo a base do mecanismo da linguagem. Discursos patetas, algumas pronúncias cómicas, mas o essencial está lá (sintaxe, tempos verbais, consciência de pronomes, uso de preposições, etc.). Curiosamente, comete os mesmos erros daqueles falantes do português que todos acusamos de ignorância linguística (ex.: "eu puse-a" em vez de "eu pu-la"). Talvez isso confirme que regras como a que este exemplo subverte são preciosismos algo estranhos à lógica intrínseca da maquinaria da nossa língua.


2. A minha gata Clara que, segundo o seu veterinário, terá no máximo quatro meses de idade, era uma criança destravada e tresloucada que passava o dia a brincar. Muito rapidamente (oh! splendor in the grass...), adquiriu a disciplina apática da sua congénere muito mais velha (a gata Kika), ou seja: dormir, dormir e dormir. Pensámos que a maturidade tinha enfim chegado. Acontece que a bicha estava doente, aparentemente intoxicada por uma planta. Após a devida medicação, o destravão e a tresloucura regressaram. Quod erat demonstrandum.

segunda-feira, agosto 26, 2013

domingo, agosto 25, 2013

Livre

Às tantas, os evangelhos são textos escritos por pais amargurados com a possibilidade de largarem os seus filhos pelo mundo...

Ato de contrição

Fiz um filme em torno do conto da Gata Borralheira, e escrevi recentemente (para acabar de vez com a obsessão) um texto dramático a partir do mesmo material feérico. No entanto, em nenhum dos momentos me passou pela cabeça a evidência de que, no presente, as verdadeiras Cinderelas (ascensões principescas a partir de eleições podais) são os jogadores de futebol.

quinta-feira, agosto 22, 2013

Confissão seguinte

Não considero que a linguagem seja um meio limitado para exprimir seja o que for. É um instrumento: pode ser usado para barrar manteiga ou para matar. Em todo o caso, a poesia é uma ferida aberta na impossibilidade de viver apenas na imaginação.

segunda-feira, agosto 19, 2013

Perceber

Os dois últimos filmes que vi, comme il faut, numa sala de projeção pública ("Dans la maison" de François Ozon e "The Bling Ring" de Sofia Coppola) abordam praticamente o mesmo tema: a vontade do adolescente invadir o espaço doméstico das pessoas que ele sente estarem num plano socialmente superior ao seu.

A premissa do filme francês era muito mais original e fascinante (na medida em que pressupunha que uma classe social é um trabalho de ficção), mas Ozon parece não ter percebido as implicações do seu material. A variação de Coppola é bastante melhor pois a realizadora, talvez por ter ligações biográficas ao mundo do luxo e da celebridade de Los Angeles, percebeu com muito mais perspicácia que tipo de filme poderia fazer a partir da história verídica que o informou.

É tão simples quanto isso: perceber (algo que Hitchcock, cineasta do consenso contemporâneo, fazia com uma perna às costas).


PS - Em abono da verdade, diga-se que "Dans la maison" consegue fazer o espetador perceber melhor o fascínio em causa na casa a invadir. Coppola parece presumir que todos estamos sintonizados com os encantos das marcas e do lifestyle dos famosos, o que faz com que, nesse aspeto, o seu filme seja menos eficaz.

domingo, agosto 18, 2013

Confissão de meados de agosto

A minha tentação é sempre fazer um comentário inesgotável a um poema de três versos e reduzir um livro de mil páginas a um mero parágrafo.

sábado, agosto 17, 2013

E agora, uma máxima a sério

Um determinado saber só se encontra adquirido quando pode ser reinventado por aquele que o adquiriu.

Pianista?

Quem pode querer tocar Chopin, Liszt e Rachmaninoff, quando há Dowland e Bach, John Cage e Messiaen, o flamenco e Billie Holiday, música para serrote e para harmónica de vidros, Chico Buarque e Leonard Cohen, a poesia declamada e a voz de António Zambujo?

quinta-feira, agosto 15, 2013

Técnica Marinho-Pinto

1. Gilles Deleuze dizia que a filosofia não se faz em debate, mas em solidão.

Na verdade, a gente só se entenderia a conversar (e agora falo por mim e não pelo autor francês) se os conversadores fossem mais amigos da verdade do que performers. Ora, não é isso que acontece (basta ver uma sessão dos "Prós e Contras", caso se tenha fígado para tal). Ganha o debate quem for mais rico em competências sociais, e o seu sucesso público não deixa de ser um acordo semelhante àquele que, por via do panes et circenses, mantinha o mundo sempre igual à sua própria mediocridade.


2. Um dos momentos em que um debate sempre me exaspera é quando um argumento, cujo teor de verdade se encontra já decidido por prova, regressa à praça pública por causa do seu vigor demagógico. Por exemplo, está documentado que, numa espécie de símios, as fêmeas apenas praticam a genitalidade heterossexual para poderem procriar e que, posteriormente, assumem relações lésbicas duradouras para tomarem conta das suas crias. Contudo, a frase forte "a coadoção homossexual nunca existiria na natureza" continuará a ser invocada nas discussões sobre o assunto porque ela é pródiga em populismo imediato e eficaz. 

Percebo que o problema mencionado não seja pacífico e que muitas das resistências que se lhe opõem sejam de facto conversáveis. Mas, a partir do momento em que um determinado argumento deixa de ser utilizável pela reflexão, por favor deixem o lixo onde ele merece estar.

domingo, agosto 11, 2013

Vida oral, vida escrita

Todo o autor lírico (e é difícil encontrar um que, como Artavazd Pelechian, pareça estar completamente isento dessa energia) é o Platão do seu próprio Sócrates, o evangelista do seu próprio Cristo.