Perplexo (de Carolyn Wells)
Em Vila Plumitiva havia um velho escrevedor,
Chamado Homero Cícero Demóstenes Doutor.
“P’ra variar,” disse ele, “dos tratados ou ensaios,
Durante este serão escrevo um livro de catraios.”
Buscou seus calhamaços com bolor latino e grego;
Sondou enciclopédias, manuscritos de outro tempo,
Pesquisas sociológicas, estudos de equilíbrio –
“Para este público-alvo tal saber vem em auxílio.”
Obrou até bem tarde, escrevinhou certo e sabido,
Sentiu-se realizado ao dar o afã por concluído;
“O mérito do livro,” pensou ele, “é todo meu.”
E agora está perplexo pois nenhuma criança o leu.
quarta-feira, julho 31, 2013
domingo, julho 28, 2013
sábado, julho 27, 2013
Traduções 29 + 30
INTRODUÇÃO À POESIA (de Billy Collins)
Peço-lhes para tomarem um poema
E o segurarem contra a luz
Como um diapositivo
Ou então para encostarem o ouvido à sua colmeia.
Digo-lhes deitem um rato dentro do poema
E vejam como ele descobre a maneira de sair,
Ou caminhem dentro da sala do poema
E procurem às cegas um interruptor.
Quero que façam esqui aquático
À tona ondulante de um poema
E acenem ao nome do autor na margem.
Mas eles só sabem e querem
Amarrar o poema a uma cadeira
E torturá-lo até ele se confessar.
Começam a bater-lhe com uma mangueira
Para descobrirem o que ele quer dizer.
CANIS MAJOR (de Robert Frost)
Esse Acima de cão
Grande besta celeste
Com uma estrela num olho
Dá um salto no leste.
Ele dança de pé
No caminho do ocidente
E nem uma vez cai
Sobre as patas desistente.
Já eu sou abaixo de cão
Mas esta noite vou ladrar
Com o grande lá de Cima
Que corre o escuro a brincar.
Peço-lhes para tomarem um poema
E o segurarem contra a luz
Como um diapositivo
Ou então para encostarem o ouvido à sua colmeia.
Digo-lhes deitem um rato dentro do poema
E vejam como ele descobre a maneira de sair,
Ou caminhem dentro da sala do poema
E procurem às cegas um interruptor.
Quero que façam esqui aquático
À tona ondulante de um poema
E acenem ao nome do autor na margem.
Mas eles só sabem e querem
Amarrar o poema a uma cadeira
E torturá-lo até ele se confessar.
Começam a bater-lhe com uma mangueira
Para descobrirem o que ele quer dizer.
CANIS MAJOR (de Robert Frost)
Esse Acima de cão
Grande besta celeste
Com uma estrela num olho
Dá um salto no leste.
Ele dança de pé
No caminho do ocidente
E nem uma vez cai
Sobre as patas desistente.
Já eu sou abaixo de cão
Mas esta noite vou ladrar
Com o grande lá de Cima
Que corre o escuro a brincar.
quarta-feira, julho 24, 2013
Partilha 151
Tudo a postos menos o sol
No areal
Uns rapazes jogam à bola
No areal
Uns rapazes jogam à bola
segunda-feira, julho 08, 2013
Partilha 150
(estrela de mel)
Muda de amor, sim. Mas não como quem muda de camisa, nem como esses restaurantes chineses que, todos, de repente, se tornaram japoneses. Muda de amor como a agulha de uma bússola raramente se inicia no seu ponto final. Muda de amor como a nave sucumbindo ante a camisa-de-forças marcianas, ou como a aurora, que após ter sido crismada pelo príncipe, se passou a chamar boreal. Muda de amor, sim. Mas como quem faz, de um direito de esquerda, um gancho de boxeur. Muda de amor como aquele condutor que o GPS converte em, do mundo, um Teseu, ou como muda o sangue feminino à passagem dos meses, à passagem da uberdade e das traições da idade.
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Obra pessoal,
poemíssimos
10%, 90%
Numa entrevista televisiva, o grande humorista Ricardo Araújo Pereira disse não acreditar no mito do talento, defendendo assim que o seu sucesso profissional se deveria essencialmente à famosa trilogia: trabalho, trabalho, trabalho. RAP é um homem extremamente culto, e conhece a humildade polida dos literatos. Para além disso, tem ar de ser um gajo porreiro. Mas, na verdade, a justificação da criatividade pelo trabalho não é menos mítica, o que no presente caso quer dizer desonesta, que a justificação pelo talento.Saltando imediatamente por cima da ideia de dom divino (este é um blogue agnóstico), começo por confessar a minha ignorância em assuntos genéticos. Nasce-se poeta, humorista, cientista? Acho difícil que, estando tanta característica prevista no património genético de um indivíduo, as suas inclinações (ou talvez devêssemos dizer facilidades) talentosas não encontrem aí igual provimento. Mas isso não quer dizer que se nasça seja o que for... Pode é uma criança ter mais ou menos jeito para chutar à bola, para se exprimir verbalmente, para distinguir alturas de sons, etc.
Escrevo e fiz um filme (gostaria de fazer muitos mais). Para ser o mais sincero possível, defendo que o que determinou a capacidade para fazer alguma dessas atividades foi a evolução (quase mutante) da minha atenção. O que possa existir de predisposição genética é muito menos relevante do que a narrativa que o meu prazer foi biograficamente estabelecendo em torno de um conjunto determinado de poiesis, de práticas criativas. Só comecei a escrever de forma razoável aos vinte e seis anos, mas sempre fui seduzido por aulas de português, por livros (que sempre gostei de sujar escrevendo imbecilidades nas margens), por línguas, até por fatores embaraçantes como a fama dos escritores, sempre gostei de escrever, sempre perdi tempo a escrever, sempre ganhei tempo a escrever, mal ou bem.
O que aconteceu, com o passar do tempo, é que desenvolvi uma espécie de músculo de atenção poética, que me predispôs a estar constantemente alerta para tudo o que possa fazer parte dessa minha aventura. E, como sempre acontece nestas coisas de comportamento humano, é muito difícil encontrar um indivíduo que seja absolutamente equilibrado nas suas aptidões, pois aquilo que nos chama (a vocação), fá-lo com poder obsessivo e egoísta: o músculo de atenção poética é tão feio, tão exagerado, tão ambicioso como aqueles músculos que fazem, do halterofilista, uma aberração. Só que todos somos aberrantes.
Especialmente porque essa chamada que um determinado tipo de fazer exerce sobre nós se vai lentamente configurando como um destino. Não quer isto dizer que quem queira ser poeta acabe poeta. Mas para que isso não suceda, tem de haver uma tragédia que mude o curso da paixão. Sempre tive pessoas que quiseram fazer de mim político ou médico (juro!), com a desculpa de que, sendo eu uma pessoa sem grandes inibições intelectuais, me deveria dedicar a uma atividade útil para a sociedade... Acontece que, se a minha atenção não for direcionada para esses campos, eu funcionarei como um absoluto idiota nos reinos da política ou da medicina. Há quem se traia a si mesmo, mas eu sobre isso nada sei. Sei, isso sim, que tenho o direito de seguir o fio de Ariadne da minha vocação, e que todo o homem tem a hipótese de chegar ao fim da vida com uma perfeição inconsútil ao nível desse fio.
A qualquer momento da vida, o talento pode emergir. Não interessa falar de dom, prodígio ou génio. Interessa escutar, o mundo, escutar-se a si mesmo, abrir o seu espírito (como Rimbaud falava a propósito dos comprachicos), abrir o seu corpo, a sua sexualidade, o seu apetite, o seu sofrimento, interessa seguir o instinto, aprender a estar atento.
Quanto ao trabalho, a sua quantidade, qualidade e teor dependem da atividade, da pessoa e do projeto que ele pretende servir. Não me venham dizer que um poeta que escreve um livro de cinquenta páginas precisa de passar tanto tempo a especificamente escrevinhar como um romancista filado na grandeza-tolstói... Isso é hipocrisia. Não me venham dizer que todos os poetas têm de rescrever até à exaustão, como o Carlos de Oliveira. No caso deste, isso teve todo o significado. Mas o que iria Benjamin Péret rescrever quando, passado algum tempo da criação de um poema, se esquecia por completo da lógica que o havia gerado? No meu caso, posso dizer que, em termos de poesia, o meu trabalho é sobretudo a leitura. Preciso de ler como o pianista precisa de praticar oito horas diárias no teclado. Mas não vou fingir que passo uma manhã a pôr uma vírgula, e uma tarde a tirá-la... (como dizia o Oscar Wilde, com piada). Já o trabalho que preside à produção de um filme se configura mais ao modelo de sangue, suor e lágrimas com que as pessoas enfeitam a sua nostalgia operária. Mas não haja ilusões: todo o trabalho de vigília efetuado pelo artista, duro ou leve, longo ou curto, mental ou físico, só serve para acionar o trabalho das suas verdades subterrâneas.
Era bom que começássemos a dizer a verdade sobre estas coisas...
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Praxis (de toque)
Aprendi na escola (faço esta ressalva para deixar aqui a desconfiança que eu tenho de que muita gente brava já deve ter outra visão sobre o assunto), dizia eu então que aprendi na escola que a filosofia marxista se tinha declarado como um sistema de pensamento sobretudo prático, ou seja, o exercício de uma inteligência destinada a mudar a vida, a redimir o curso da História. Isto, em contraste com a putativa indigência meditativa dos pensadores que haviam feito, da filosofia, uma torre de marfim.
Talvez o pragmatismo deva ser sobretudo iluminado por um pensamento, não diria ad hoc, mas pelo menos um pensamento menor, diário, corrigível em tempo útil, localizado. Conheço tanta gente, boa gente, a tentar cumprir os preceitos de x ou y senhor que se dedicou à grande reflexão, gente a tentar devastar, sovieticamente, tudo o que germine de outra respiração ideológica, mesmo que esse outro produto se ofereça ao mundo com máximas generosidade e eficácia, gente que continua a receber ordens, a cumprir o papel de bom aluno tornando-se mau aluno porque o professor assim o preceituou... É claro que eu também escolhi o meu pensador: mas o Espinosa construiu um sistema de pensamento que precisamente abre os braços a outras formas de sistematizar o respirar. Em todo o caso, não juro por ninguém que não ame aqui, à beira-coração...
Volto ao cinema do John Ford, homem conservador, mas que na sua visão política descreve sociedades que tomam decisões coletivas eminentemente vitais: quem quiser participar da felicidade terá um lugar no mundo, quem já não o puder fazer tem o nobre direito de ficar para trás. Uma praxis do respeito absoluto pela vida, a despeito teimosias, irritações, nojos.
Penso que já disse neste blogue que me parece que a função do pensamento é provocar, no outro, o desejo de continuar a pensar. Mas, em boa verdade, devo fazer a defesa dos velhos meditadores. Se a filosofia sempre se quis confundir com a racionalidade, se sempre se quis apoiar na matemática, é porque pretendeu criar pedras duríssimas, preciosas, diamantes de radical intensidade humana que, uma vez alojados na alma do resistente, lhe permitem cruzar o mundo enlouquecido sem se perder nessa loucura e nas várias agressões que ela engendra. Não são valores, são raciocínios, gritos cristalizados, vértebras de sinceridade, são as coisas todas no seu sítio mesmo quando, no exterior, essa mise en scène só possa existir como utopia. É sabermos que, a despeito de toda a estupidez, de toda a violência, de toda a intolerância, a verdade que sabíamos na infância não é negociável.
Parece-me que é esta a função prática da filosofia. Pouco mais.
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Excel Latte (homenagem a Vítor Gaspar)
Recentemente, na minha atividade como pianista acompanhador, trabalhei com uma aluna de teatro musical uma canção cuja letra evocava a paixoneta de uma jovem por um rapaz empregado num café Starbucks.
Eu também fui um pouco mais adolescente do que hoje sou, e compreendo a força da paixão que tudo oblitera com o seu espaço obsessivo. Não há cinismo que afete esse estado imperioso, e talvez fosse sempre assim que as coisas deveriam decorrer (who cares about boring stuff?).
Sou também devoto das manifestações de arte popular, não apenas pela função social que esta consegue cumprir, mas sobretudo porque muitas vezes ela fornece o contacto mais fundo e sincero com o inconsciente coletivo. Perdido em tradições eruditas, o grande autor pode por vezes não ser mais que o funcionário de uma vaidade estéril, algo que nunca acontece no conto de fadas, no canto greco-salentino ou na dança sufi.
No entanto, e a despeito de continuar a adorar adolescentes (confesso que mais à maneira do João César Monteiro), os meus quarenta anos de idade impedem-me de ver nessa canção outra coisa que não seja uma rapariga apaixonada por um rapaz que trabalha num franchise. Não mais encontro numa romaria, num café gorduroso, numa praia de suspensão, numa festa de garagem, não mais rapazes musculados pela cerveja e pelo disparate: o capitalismo até o pop juvenil destrói.
Nota: o Starbucks, em rigor, não é um franchise. Em todo o caso, seja qual for a sua definição económica, a merda é a mesma.
Eu também fui um pouco mais adolescente do que hoje sou, e compreendo a força da paixão que tudo oblitera com o seu espaço obsessivo. Não há cinismo que afete esse estado imperioso, e talvez fosse sempre assim que as coisas deveriam decorrer (who cares about boring stuff?).
Sou também devoto das manifestações de arte popular, não apenas pela função social que esta consegue cumprir, mas sobretudo porque muitas vezes ela fornece o contacto mais fundo e sincero com o inconsciente coletivo. Perdido em tradições eruditas, o grande autor pode por vezes não ser mais que o funcionário de uma vaidade estéril, algo que nunca acontece no conto de fadas, no canto greco-salentino ou na dança sufi.
No entanto, e a despeito de continuar a adorar adolescentes (confesso que mais à maneira do João César Monteiro), os meus quarenta anos de idade impedem-me de ver nessa canção outra coisa que não seja uma rapariga apaixonada por um rapaz que trabalha num franchise. Não mais encontro numa romaria, num café gorduroso, numa praia de suspensão, numa festa de garagem, não mais rapazes musculados pela cerveja e pelo disparate: o capitalismo até o pop juvenil destrói.
Nota: o Starbucks, em rigor, não é um franchise. Em todo o caso, seja qual for a sua definição económica, a merda é a mesma.
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Jornal O PRIVADO
domingo, julho 07, 2013
Livrem-se de se esquecerem do sal
Já sei: se eu puder escolher a minha última refeição, quero que seja uma Margarita.
In arms
Um dos aspetos mais sedutores da arte de Sergei Paradjanov é a desnecessidade (o quase desprezo) que o cineasta tem da figura do contracampo (a partir de "A cor da romã"). Identifico-me muito com essa postura.
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Paradjanov
quinta-feira, junho 27, 2013
Partilha 149
Os meus pés
De novo sobre a areia
São os pés de outro povo
De novo sobre a areia
São os pés de outro povo
quarta-feira, junho 19, 2013
O meu contributo para a história da bissexualidade
Gosto do purismo linguístico, daquelas pessoas que nunca conjugarão o verbo "haver" quando ele não estiver a ser usado como auxiliar, e que nunca se esquecerão de unir a preposição "de" ao verbo "gostar".
Gosto também dos erros quotidianos da linguagem, da impureza das gírias e dos calões, dos colóquios juvenis, dos disparates de palmatória, de toda essa força vital que pega nos latins estafados e deles retira variações vulgares e sublimes.
Tanto o nobre como o rebelde podem ser sensuais. Depende de quem habita o hábito.
Homero
Há uns posts atrás, falei sobre o filme "Johnny Guitar" de Nicholas Ray. Considero-o um objeto notável, ainda que em seu torno não acalente a obsessão típica do cinéfilo. Os seus primeiros dois terços são do melhor que se fez no cinema americano clássico. No entanto, a última parte da obra sempre me pareceu maçuda, desajeitada (no mau sentido da palavra), como se Ray estivesse apenas a cumprir os encargos típicos do género a que se decidiu submeter, e neles não conseguisse fazer ecoar o seu poderoso talento lírico e dramático.
Ora, é precisamente o contrário disso que sinto no cinema de John Ford. Uma simples cavalgada filmada em travelling, e parece que o mundo mítico do western se nos oferece em toda a sua inteireza e quilate de sugestão. Podemos discordar da ideologia do realizador (afinal, ele acreditava na bondade de instituições como o exército), podemos ficar de pé atrás perante o género que o celebrizou (o western é pura propaganda americana, e a imagem que nele se costuma dar do povo índio é no mínimo insultuosa), mas a verdade é que o velho cineasta parece absolutamente fundido com esse género, nenhuma das suas regras lhe é extrínseca, nenhum dos seus recantos lhe é desconhecido, nenhuma das suas tonalidades consegue deixar de soar a verdadeiro. Como Schubert e o lied ou Duchamp e o ready made, John Ford não era um cineasta ou um autor, mas o único "fazedor de westerns" (era assim, de resto, que ele gostava de se apresentar).
Não é quando vejo Barack Obama a fazer stand up comedy (e que jeito para isso ele tem) que consigo acreditar um pouco nos E.U.A. A dignidade yankee existe sobretudo nas imagens deste contador antigo e frontal, para quem toda a cultura e produção humana só faziam sentido quando ao serviço do humano.
Ora, é precisamente o contrário disso que sinto no cinema de John Ford. Uma simples cavalgada filmada em travelling, e parece que o mundo mítico do western se nos oferece em toda a sua inteireza e quilate de sugestão. Podemos discordar da ideologia do realizador (afinal, ele acreditava na bondade de instituições como o exército), podemos ficar de pé atrás perante o género que o celebrizou (o western é pura propaganda americana, e a imagem que nele se costuma dar do povo índio é no mínimo insultuosa), mas a verdade é que o velho cineasta parece absolutamente fundido com esse género, nenhuma das suas regras lhe é extrínseca, nenhum dos seus recantos lhe é desconhecido, nenhuma das suas tonalidades consegue deixar de soar a verdadeiro. Como Schubert e o lied ou Duchamp e o ready made, John Ford não era um cineasta ou um autor, mas o único "fazedor de westerns" (era assim, de resto, que ele gostava de se apresentar).
Não é quando vejo Barack Obama a fazer stand up comedy (e que jeito para isso ele tem) que consigo acreditar um pouco nos E.U.A. A dignidade yankee existe sobretudo nas imagens deste contador antigo e frontal, para quem toda a cultura e produção humana só faziam sentido quando ao serviço do humano.
terça-feira, junho 18, 2013
Uma lágrima no canto do olho
As pessoas têm qualidades fantásticas: o sentido de humor, a combatividade, a alegria improvável contra todas as circunstâncias... Contudo, também as qualidades têm uma hierarquia, um fluxo de mobilidade social e um código de etiqueta. Assim sendo, não há quase quem queira prescindir da sensibilidade.
A sensibilidade é uma qualidade de alta categoria. Não pode portanto ser evocada durante o jogo de futebol exclusivamente masculino (sob pena de marginalização imediata do sensível). Não pode ser chamada na noite de copos, na despedida de solteiro, no círculo em que se masturba charutos. Exatamente como uma sociedade, a despeito das suas elites, não pode viver sem lixeiros, trolhas ou pescadores, nenhum humano pode prescindir das suas qualidades rasteiras (que não são as que enumerei no princípio deste post), e ai de quem delas prescinda, que acaba no psicólogo ou na prisão. Talvez elas até sejam mais importantes?
Há um lugar para tudo, diria a Paula Bobone. Há um tempo para ser sensível e um tempo para ser grosseiro, é preciso conhecer esses tempos e agir em conformidade. Penso que, patologias à parte, não haverá humanos desprovidos de qualquer sensibilidade (até os déspotas costumam gostar das suas amantes, dos seus filhos e dos seus gatinhos). Mas cada qualidade, seja fina-flor ou ralé, tem o seu próprio espaço de exibição, o seu ecossistema de vanglória.
Um dos sítios onde os portugueses podem cumprir a instituição da sensibilidade é o programa televisivo "Alta definição" onde até Pedro Santana Lopes (após ter repetido um inseguríssimo número de vezes a palavra "serenidade") verteu os seus quinze segundos de lágrima. Homem da noite, dos meandros do poder, do futebol e da intriga, mas com a inevitável costela sensível...
Eu presumo que tenho um síndroma qualquer que me impede de fazer aquilo que toda a gente faz (não estou a ser irónico). Em todo o caso, penso que se chama lucidez ao síndroma que me faz desconfiar que, se toda a gente chora num determinado programa televisivo, isso se deve: a) a um cenário todo descascadinho em cebolas, ou b) ao cumprimento de um ritual social. E mais lúcido penso ser quando suponho que a real sensibilidade dos entrevistados de Daniel Oliveira (e que pode ser imensa e muito maior do que a minha, e que obviamente não existe apenas no íntimo mas em interação com o mundo) não tem nada a ver com o controlado espetáculo que eles oferecem aos seus fieis espetadores. E que pena não insistirem mais no sentido de humor, na combatividade, na alegria...
Escrevo este post porque já pude presenciar pessoas mais ou menos próximas a comoverem-se com a comoção pouco definida do programa em causa. E se eu tenho necessidade de escrever semelhante evidência, não haverá muita gente com quem possa, neste mundo, manter entrevista.
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Televisão
segunda-feira, junho 17, 2013
segunda-feira, junho 10, 2013
Sinédoque
Mas o que é que, exatamente, se está a celebrar hoje em Portugal: Badajoz à vista?
domingo, junho 09, 2013
Légende dorée
Não existem pessoas de exceção, mas existem pessoas consideradas enquanto tal e que, por causa disso, estão sujeitas aos mais inimagináveis horrores.
sábado, junho 08, 2013
Quatro sequências do filme "Bande à part"
1. Há uma aula em que uma professora de inglês dita excertos de "Romeu e Julieta" para estes serem traduzidos pelos seus alunos (nos quais se inclui o trio protagonista). Nunca um disparate, em Godard, passa sem sentido (ainda que permaneça disparate): o amor é uma tradução amadora do mito do amor; o amor não passa da repetição dos "fins de frases" do seu discurso mítico; discurso que, contudo, é absorvido de forma aparentemente distraída: os alunos estão a viver a emoção que o mundo julga que lhes está a ensinar. Se o "clássico é igual ao moderno", como o realizador reivindica neste filme, é porque já o par shakespeariano sofria do mesmo nível de iliteracia universal.
2. A famigerada corrida pelos corredores do Louvre faz eco dessa aula. Vivemos, na verdade, sob os mitos da cultura que julgamos per-correr sem lhes darmos atenção. No entanto, o dadaísmo aparente da sequência revela a relação específica que o erudito Godard mantém com essa Cultura: ele não erige um Museu Imaginário (as citações não estão lá para isso), mas sobrevoa a hipótese de museu. Os fins de frases que ele aproveita de tudo (quadros, poemas, músicas, filmes, ensaios, etc.) são transformados pela vertigem veloz com que o citador os confunde, funde, revigora e metamorfoseia.
3. Talvez a mais brava (e a mais simples) das cenas de "Bande à part" seja a dança do trio de jovens. A sua coreografia prossegue mesmo quando a música é substituída por comentários psicológicos de "narrador de romance": a música torna-se narração, a narração torna-se música. Na verdade, aquelas personagens parecem ter uma "psicologia de jazz", ou pelo menos não podem ser descritas de outro modo. Basta aplicar uma pequena perversão ao divertimento, e a coreografia já é de vanguarda (dançar palavras) e a composição já é de vanguarda (música só falada).
4. Quando se faz um minuto de silêncio, na vida moderna, faz-se por absolutamente nada, apenas porque sim. Se nada relevante há para celebrar, celebre-se o nada. Todavia, a experiência da eternidade implica sempre uma quebra na essência do que se está a viver. Não basta, por isso, que os personagens se calem, é preciso que o cinema se torne mudo, que sofra um ataque às características definidoras do seu ser. Um minuto de silêncio no cinema é um minuto sem banda sonora.
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Godard,
O coleccionador
No escrínio 57
H
"Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos
e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no infinito
e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra
lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos."
António Maria Lisboa
"Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos
e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no infinito
e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra
lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos."
António Maria Lisboa
Mais importante do que a remissão que o texto faz para a poética de Rimbaud (um dos poemas das "Illuminations" tem exatamente este estranho título) ou do entendimento do "H" como hipotética abreviatura dum nome concreto de mulher, é o facto de a oitava letra do alfabeto português não ter qualquer consequência sonora (pelo menos quando grafada em solidão).
O poema de António Maria Lisboa parece falar de uma recordação sentimental. Ora, os dez anos que separam a escrita do texto da verdade amorosa evocada (essa verdade está "lá longe") impedem que, nos ouvidos, existam sinais sensuais de presença e de definitividade (as pedras, as raízes). O que neles existe é um mudo H que, do ponto de vista visual, de certo modo corresponde à dimensão fantasmática dos fogos-fátuos.
Apaixonado por egiptologia, Lisboa talvez soubesse que o passado provável da letra em questão é um hieróglifo representativo do objeto "peneira". Peneirar é precisamente o que a memória faz, e o que é belíssimo neste texto é a ficção que ele engendra do que poderiam ser os destroços de uma paixão passada que não abandonaram a mente: uma cor intensa, dois humaníssimos traços de caráter (a ternura e a bondade, que não são propriamente evidências para os convulsivos surrealistas), um paradoxo hiperbólico (a Borboleta no infinito cujo voo é afinal a queda de uma estrela apocalíptica). Falará o primeiro verso de dez emocionais anos-luz? Em todo o caso, é a condição fátua do amor que permite a eclosão das imagens (o texto é um fulgurante "filme mudo"). Talvez tudo no amor seja recordação da imaginação.
O poema de António Maria Lisboa parece falar de uma recordação sentimental. Ora, os dez anos que separam a escrita do texto da verdade amorosa evocada (essa verdade está "lá longe") impedem que, nos ouvidos, existam sinais sensuais de presença e de definitividade (as pedras, as raízes). O que neles existe é um mudo H que, do ponto de vista visual, de certo modo corresponde à dimensão fantasmática dos fogos-fátuos.
Apaixonado por egiptologia, Lisboa talvez soubesse que o passado provável da letra em questão é um hieróglifo representativo do objeto "peneira". Peneirar é precisamente o que a memória faz, e o que é belíssimo neste texto é a ficção que ele engendra do que poderiam ser os destroços de uma paixão passada que não abandonaram a mente: uma cor intensa, dois humaníssimos traços de caráter (a ternura e a bondade, que não são propriamente evidências para os convulsivos surrealistas), um paradoxo hiperbólico (a Borboleta no infinito cujo voo é afinal a queda de uma estrela apocalíptica). Falará o primeiro verso de dez emocionais anos-luz? Em todo o caso, é a condição fátua do amor que permite a eclosão das imagens (o texto é um fulgurante "filme mudo"). Talvez tudo no amor seja recordação da imaginação.
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