sábado, março 09, 2013

"Johnny Guitar" - imagens







O INATUAL 78

"Johnny Guitar" - Nicholas Ray (1954)



Está em convulsão a terra inexplorada de um ponto cardeal. Os explosivos com que os ambiciosos da prata a dramatizam ecoam nos relacionamentos entre as pessoas: sempre a vertigem do confronto, o risco de vida, a atitude de arrogância sobrevivente. Mas isso não impede (ou é isso que obriga?) que essa terra seja matéria de lenda. Se dúvidas houvesse, o esconderijo do bando de pré-criminosos que só se descobre caminhando sob uma queda de água traz um sabor oriental à fábula que, como sempre no western, inventa uma razão para a América ir nascendo.

Ray clarifica a diferença que existe entre a mentira-que-diz-a-verdade (não há outra forma de a dizer nesse mundo de primitivos em segunda mão) e a verdade-que-é-pura-manipulação-pública. Ficaram justamente famosas as cenas em que Johnny pede sinceríssimas mentiras a Vienna, ou em que esta, vestida de branco e tocando o seu piano, encena a inocência que de facto tem. Mais ainda do que narrar a difícil constituição de um par (o tema mais bem tratado do cinema hollywoodiano) ou de exorcizar a perversidade macarthista que embruxava o país na época em que o filme foi rodado, a clarividência de "Johnny Guitar" vai até aos alicerces de qualquer civilização: esta funda-se sempre numa ficção (a mentira de que as armas não são necessárias) que revela a verdade imensamente mais profunda que é o desejo humano de dizer adeus às armas, de viver em paz. Rings a bell sobre assuntos ainda atuais?

Que Johnny abandone o seu nome de pistoleiro mítico e assuma um apelido de instrumento musical é pura obra de Vienna. A força quase máscula que dela emana, o seu passado amoral e épico, a desmesura do seu empreendimento que parece inverosímil para uma autoria de sexo fraco, tudo isso é a sintomática hiperbólica, histérica, da sua ambição de assentar. O duelo entre as duas mulheres é aquele que de facto se trava na cultura humana (como conviver com o impulso de parar), não podendo os machos nessa verdade ser outra coisa senão crianças ou fascistas.

Estudos fisionómicos

1. As pequenas coisas dão indícios. A maneira como as extremidades da boca de Pedro Passos Coelho caem num sinal de gravidade que não existia na sua juventude, bastaria para impedir um qualquer cidadão alerta de votar em semelhante personagem. Não adiro aqui às teses de Lombroso, apenas me visto de alguma intuição romanesca.

2. Ainda a propósito de intuição, tenho a teoria não provada de que, sempre que um corpo/rosto se torna acontecimento numa imagem parada, essa fotogenia prossegue para a imagem em movimento. O movimento contrário é que não acontece necessariamente. Ao cuidado dos teóricos de tais coisas.

Estudos canhotos

1. É porque acredito profundamente numa atitude filosófica de esquerda que só posso abominar um cretino narcísico e demagógico como o recém-falecido Chávez. Anna Karénina à sua alma.

2. Talvez o maior erro dos militantes de esquerda tenha sido a vontade de seguirem religiosamente a cartilha dos autores de esquerda. Ora, seguir religiosamente uma cartilha é uma atitude de direita.

domingo, março 03, 2013


Adenda ao post anterior

Ainda a respeito do tópico do poeta enquanto alimento em "A cor da romã", deve salientar-se que, após a imagem que postamos na mensagem anterior (o peixe e os dois pães), surge no filme uma outra na qual o número de peixes subitamente aumentou. Tratar-se-á de uma evocação oblíqua do milagre da multiplicação dos peixes (e dos pães) narrado nos Evangelhos do Novo Testamento. O alimento não só perdura como se potencia.

Nota "A cor da romã"

No prólogo do filme "A cor da romã" (Sergei Paradjanov, 1970), ouvimos uma voz que repete uma frase atribuída ao poeta arménio Sayat Nova, na qual este reclama que a sua vida e a sua alma são feitas de sofrimento. A frase é repetida várias vezes, o que nos leva a crer que as imagens que a marginam, a despeito da sua individualidade, são todas elas concretizações plásticas da mesma ideia fixa (a montagem sonora repetitiva ecoa na montagem visual).

Que imagens são essas? Por exemplo, um grupo de romãs numa toalha branca que parecem verter o seu suco interior sobre o tecido (um punhal, na imagem seguinte, esclarece que o líquido vermelho é claramente o sangue). Por exemplo, um pé que esmaga um cacho de uvas (dando origem a um derrame equivalente).

Imagens de sofrimento. Mas, desde logo, surge uma ligação aos labores populares imemoriais (o tingimento de tecidos, a vindima, a pesca, a produção de pão). Mesmo que, na língua arménia, a palavra "poesia" não tenha a ideia de fazer como respeitável antepassado etimológico, não deixa de ser notável a intuição que o cineasta teve de ligar o fazer poético a um artesanato mais lato e até decisivo em termos da sobrevivência.

Se Kafka talvez se considerasse um artista da fome (o que, eticamente, o incitava a renegar o trabalho artístico e a contemplar a morte como único corolário desse desespero), Paradjanov parece oferecer o seu poeta biografado (e oferecer-se a si mesmo) como um artista do alimento. Fruta, vinho, peixe, pão: símbolos religiosos, populares, é certo, mas alimentos num primeiro grau de leitura. Note-se como, na imagem que reúne os dois últimos exemplos (mostrada em cima), os pães parecem ser uma espécie de solidificação do estado do peixe que se debate pela vida fora da água. Se atentarmos aos movimentos do animal, pressentimos que, quando ele cristalizar, terá a mesma forma arrebitada da dádiva cereal (o que, em termos realistas, não acontecerá).

A poesia, ilusão de eternidade que perpassa pela nossa cultura, confunde-se com o emparedamento narrado em "A lenda da fortaleza de Suram" (filme do mesmo autor), sacrifício esse que liberta as forças políticas de uma determinada comunidade. A obra do poeta (flor e música) assume-se assim como um alimento espiritual infindável: na verdade, a liberdade de "A cor de romã" é de tal ordem (especialmente quando o filme é comparado com os dogmas que conformam a história do cinema), que, após o seu visionamento, ficamos convictos de que o mundo pode realmente ser outro.

sábado, março 02, 2013

Estudos feéricos 2

1. Uma das motivações inconscientes do filme "O exorcista" deverá ter sido aquele tipo de momentos em que uma criança, doce e que nos é próxima, parece de súbito possuída pelo diabo.

2. A principal diferença entre o "E. T." e o "Eduardo Mãos de Tesoura" é que a criatura spielberguiana é um sucedâneo do bicho de estimação (é um gato fofinho, um cãozinho tão sedutor quanto feioso) enquanto o boneco de Tim Burton é nada menos que um ser humano, inadaptado, sim, mas um humano.

terça-feira, fevereiro 26, 2013

Nostradamus de trazer de casa

É óbvio que a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo vai trazer consequências para a civilização. 

Acontece que tais consequências, mesmo (ou sobretudo) as nefastas, não são aquelas que os conservadores julgam poder prever (o fim da família, a cultura da morte, e outras bombas do género). Exatamente como ninguém previu que o aumento da esperança de vida (uma vantagem insofismável) iria pôr em causa o "estado social" ou que o inocente e regular desenvolvimento tecnológico desaguaria em Hiroxima e Nagasáqui, ninguém tem imaginação suficiente para conseguir deslindar o futuro, positivo e negativo, que este passo de progresso trará. O devir é indómito e a realidade supera sempre a ficção.

Em todo o caso, os imensos benefícios a curto ou longo prazo perfilam-se com clareza e a política não se faz com medos.

Estudos feéricos

1. Haveria um grande avanço no pensamento filosófico se fosse possível observar a reação nasal de Pinóquio ao Paradoxo do Mentiroso.

2. A danação nasal de Pinóquio é uma alegoria da impossibilidade de mentira que condiciona a genitália masculina. Em nenhum armário se pode o boneco ocultar.



domingo, fevereiro 24, 2013

Cinema manual

1. Na imagem que postei na parte superior da mensagem anterior, a maneira como o espectro-recordação da mulher-da-cidade coloca as mãos sobre o homem-da-aldeia é evocativa do jogo de mãos do vampiro de "Nosferatu" do mesmo cineasta.

2. Curiosamente, parece que a história do cinema insiste em relacionar o tema da proscrição com uma certa estética defetiva de encenação das mãos: "Nosferatu" de Murnau, "Pickpocket" de Bresson, "Edward Scissorhands" de Tim Burton.


sábado, fevereiro 23, 2013

"Sunrise" - imagens





O INATUAL 77

"Sunrise" - Friedrich Murnau (1927)


O conto deste filme lúcido inicia-se muitos anos após a feérica sentença "e viveram felizes para sempre". Acontece que tanto a nossa irradiação interior (algo que, desajeitadamente, podemos traduzir por vontade) como a vida exterior funcionam por ciclos de luz e trevas que, como o dia e a noite, têm uma duração muito mais breve do que o projeto de uma vida-a-dois. A vontade tem a espessura volátil de um acontecimento luzente e a realidade nunca descansa no pólo positivo ou no pólo negativo: dois balançares que nem sequer são solidários nem correspondentes.

Um casamento destinado a soçobrar pode assim acordar para uma segunda lua-de-mel (nada é definitivo, nem o não-definitivo). Mas o casal do filme de Murnau, que descobriu no seu seio que o pior de si era o pior do humano, poderá confiar que a aurora, ainda que violentamente regeneradora, seja perene? Quem descobre o horror naquele que ama, dificilmente pode acalentar, para a vida, o entendimento de que esta é uma brincadeira (como o episódio na cidade parece sugerir). Ainda para mais, no momento em que essa aurora já estava presente nos corações do homem e da mulher, a cíclica realidade respondera com uma negra borrasca que poderia ter desfeito o par em tragédia... A realidade não se acomoda às nossas almas.

O casal terá então de aprender a confiar o seu futuro enquanto casal, a sua solidez, ao ciclo ora libertador ora opressivo das luzes e das trevas. Nem happy end, nem o seu contrário. Tal sabedoria contrasta de tal modo com a diversão em que o mundo se perde que o amor transforma os seus sinistrados em rudes campónios existenciais. "Sunrise", como todo o cinema, é um filme destinado a um público urbano, e a oposição que nele se estabelece entre campo e cidade não é ideológica mas sim alegórica -  é o amor que faz o humano regredir até ao essencial, até ao imemorial, até mesmo à inadaptação às regras com que a civilização se sofistica em trivialidade.

A aurora tem boa fama, mesmo entre os mais infelizes de nós. Talvez porque nenhuma aurora é a primeira e nenhuma aurora é a última.

Fim, contudo, de...

... a rubrica "O ATUAL" pois, na medida em que realizei eu próprio um filme, não quero que se possa pensar que utilizo a arma da crítica como estratégia de demarcação de posição perante outros fazedores de filmes. O poder só interessa aos profundamente inseguros.

E ao terceiro dia...

... o blogue ressuscita, com grande vergonha minha: pelos vistos, não consigo matar nenhuma coisa em definitivo (é já a segunda vez que me desdigo em termos de boa tormenta). Simplesmente, havia porções de discurso que não queriam caber em mais nenhum lugar. Queiram os potenciais leitores perdoar-me e regressar a este cabo de trabalhos.

quarta-feira, novembro 14, 2012

Ninguém falou em laboratório

Num episódio recente do programa "Câmara clara", abordava-se o tema da Utopia sob a égide do experimental, estando a entrevistadora incomodada com a engenharia desse tipo de risco e a entrevistada inconscientemente perdida na suposta doçura das palavras caras à sua área de estudo.

Ao longo da vida deste meu blogue, foram por vezes tomadas posições de cidadania com cariz para-utópico. No entanto, e lamentando desagradar a gregos e a troianos, nunca me passou pela cabeça submeter os meus congéneres a qualquer tipo de deriva laboratorial. Preocupou-me sempre, isso sim, perceber exatamente aquilo que fomos perdendo ao longo da nossa história (todas as espécies animais e vegetais, quando o homem as não ameaça com as suas loucuras ora violentas ora caridosas, vivem em deslumbrantes equilíbrios instáveis) e a forma como podemos negociar, a partir da constatação dos vários níveis de superfluidade da Cultura, o (re)encontro com as questões efetivamente relevantes.

"Píramo e Tisbe"

"Píramo e Tisbe eram vizinhos em tudo menos na permissão de o serem em figurado. Para contornarem, fraco consolo!, a sensação de apartamento, falavam por um glory hole que havia numa parede comum às suas casas (naquele tempo, ainda não se tinha descoberto a função do buraco, sabia-se apenas que tinha as dimensões do prazer - como o prazer de falar em namorado).
Desejosos de fugirem juntos para longe dali poderem estar perto um do outro, combinaram uma amoreira como ponto de encontro e de partida: naquele tempo, essas árvores davam frutos brancos e a candura, quando silvestre, é sempre adequada a fugas de frugal motivação.
Como não havia montras em seu caminho exigente, Tisbe conseguiu chegar em primeiro lugar ao lugar de reunião. Uma leoa de telenovela que por ali andava, focinho manchado de sangue comme il faut, assustou a jovem que de imediato se afastou dali, não sem antes ter deixado o seu xalinho a jeito do bicho o manchar de comme il faut.
O resto é previsível: Píramo viu a prova irrefutável do que nunca aconteceu e suicidou-se com um canivete suiço (que, ao contrário do punhal, também dá para matar quando não há razão para tal); chegou Tisbe e, perante o cadáver irrefutável do amante, inferiu que a única maneira de tornar os frutos pretos seria matar-se a si mesma também. Desde então, o fruto da amoreira chama-se amora. Quanto aos autores do luto, foram enterrados no mesmo apartado."



Notas:

1. Com este buraquinho não se brinca em serviço. Num mito que descreve, mais do que uma paixão contrariada, a essência incomunicável de cada humano, o orifício vale pela brecha que a paixão parece abrir nessa condição, mas também pelo facto de que, mesmo na penetração sexual (o buraco é uma cona), o que passa de amante para amante são as palavras e não os corpos.

2. De resto, a estabilidade do conteúdo que une Píramo a Tisbe (a sua inequívoca paixão), ao não poder ser acompanhada por uma forma que a revele e a faça existir em exatidão (o matrimónio), só pode degenerar numa metamorfose monstruosa. Que cada um de nós imagine, para cada injustiça que o destino lhe amplificou, um morango azul, uma lua quadrada, um mar de fogo.

sábado, novembro 03, 2012

Partilha 144

(folha de oliveira)


Acabou, enfim, o mundo, na data prevista pelos novembras: foi quando fechámos a porta do quarto e ficámos só nós e o que de nós queríamos. Tu, um rapaz recomendado por sessenta marcas de arcas de não-é; eu, primeira pedra atirada por Pirra a quem nunca morreu (a terra).
Dissenso!, estou é sozinho no quarto, estou com o poema. Quem é a mãe do texto, o poeta ou o leitor? - pergunta Salomão. Os dois, responde o autor. Em todo o caso, o poema não é uma venda de Abraão nem um relâmpago com prefácio de Eduardo Lourenço.