terça-feira, fevereiro 26, 2013

Estudos feéricos

1. Haveria um grande avanço no pensamento filosófico se fosse possível observar a reação nasal de Pinóquio ao Paradoxo do Mentiroso.

2. A danação nasal de Pinóquio é uma alegoria da impossibilidade de mentira que condiciona a genitália masculina. Em nenhum armário se pode o boneco ocultar.



domingo, fevereiro 24, 2013

Cinema manual

1. Na imagem que postei na parte superior da mensagem anterior, a maneira como o espectro-recordação da mulher-da-cidade coloca as mãos sobre o homem-da-aldeia é evocativa do jogo de mãos do vampiro de "Nosferatu" do mesmo cineasta.

2. Curiosamente, parece que a história do cinema insiste em relacionar o tema da proscrição com uma certa estética defetiva de encenação das mãos: "Nosferatu" de Murnau, "Pickpocket" de Bresson, "Edward Scissorhands" de Tim Burton.


sábado, fevereiro 23, 2013

"Sunrise" - imagens





O INATUAL 77

"Sunrise" - Friedrich Murnau (1927)


O conto deste filme lúcido inicia-se muitos anos após a feérica sentença "e viveram felizes para sempre". Acontece que tanto a nossa irradiação interior (algo que, desajeitadamente, podemos traduzir por vontade) como a vida exterior funcionam por ciclos de luz e trevas que, como o dia e a noite, têm uma duração muito mais breve do que o projeto de uma vida-a-dois. A vontade tem a espessura volátil de um acontecimento luzente e a realidade nunca descansa no pólo positivo ou no pólo negativo: dois balançares que nem sequer são solidários nem correspondentes.

Um casamento destinado a soçobrar pode assim acordar para uma segunda lua-de-mel (nada é definitivo, nem o não-definitivo). Mas o casal do filme de Murnau, que descobriu no seu seio que o pior de si era o pior do humano, poderá confiar que a aurora, ainda que violentamente regeneradora, seja perene? Quem descobre o horror naquele que ama, dificilmente pode acalentar, para a vida, o entendimento de que esta é uma brincadeira (como o episódio na cidade parece sugerir). Ainda para mais, no momento em que essa aurora já estava presente nos corações do homem e da mulher, a cíclica realidade respondera com uma negra borrasca que poderia ter desfeito o par em tragédia... A realidade não se acomoda às nossas almas.

O casal terá então de aprender a confiar o seu futuro enquanto casal, a sua solidez, ao ciclo ora libertador ora opressivo das luzes e das trevas. Nem happy end, nem o seu contrário. Tal sabedoria contrasta de tal modo com a diversão em que o mundo se perde que o amor transforma os seus sinistrados em rudes campónios existenciais. "Sunrise", como todo o cinema, é um filme destinado a um público urbano, e a oposição que nele se estabelece entre campo e cidade não é ideológica mas sim alegórica -  é o amor que faz o humano regredir até ao essencial, até ao imemorial, até mesmo à inadaptação às regras com que a civilização se sofistica em trivialidade.

A aurora tem boa fama, mesmo entre os mais infelizes de nós. Talvez porque nenhuma aurora é a primeira e nenhuma aurora é a última.

Fim, contudo, de...

... a rubrica "O ATUAL" pois, na medida em que realizei eu próprio um filme, não quero que se possa pensar que utilizo a arma da crítica como estratégia de demarcação de posição perante outros fazedores de filmes. O poder só interessa aos profundamente inseguros.

E ao terceiro dia...

... o blogue ressuscita, com grande vergonha minha: pelos vistos, não consigo matar nenhuma coisa em definitivo (é já a segunda vez que me desdigo em termos de boa tormenta). Simplesmente, havia porções de discurso que não queriam caber em mais nenhum lugar. Queiram os potenciais leitores perdoar-me e regressar a este cabo de trabalhos.

quarta-feira, novembro 14, 2012

Ninguém falou em laboratório

Num episódio recente do programa "Câmara clara", abordava-se o tema da Utopia sob a égide do experimental, estando a entrevistadora incomodada com a engenharia desse tipo de risco e a entrevistada inconscientemente perdida na suposta doçura das palavras caras à sua área de estudo.

Ao longo da vida deste meu blogue, foram por vezes tomadas posições de cidadania com cariz para-utópico. No entanto, e lamentando desagradar a gregos e a troianos, nunca me passou pela cabeça submeter os meus congéneres a qualquer tipo de deriva laboratorial. Preocupou-me sempre, isso sim, perceber exatamente aquilo que fomos perdendo ao longo da nossa história (todas as espécies animais e vegetais, quando o homem as não ameaça com as suas loucuras ora violentas ora caridosas, vivem em deslumbrantes equilíbrios instáveis) e a forma como podemos negociar, a partir da constatação dos vários níveis de superfluidade da Cultura, o (re)encontro com as questões efetivamente relevantes.

"Píramo e Tisbe"

"Píramo e Tisbe eram vizinhos em tudo menos na permissão de o serem em figurado. Para contornarem, fraco consolo!, a sensação de apartamento, falavam por um glory hole que havia numa parede comum às suas casas (naquele tempo, ainda não se tinha descoberto a função do buraco, sabia-se apenas que tinha as dimensões do prazer - como o prazer de falar em namorado).
Desejosos de fugirem juntos para longe dali poderem estar perto um do outro, combinaram uma amoreira como ponto de encontro e de partida: naquele tempo, essas árvores davam frutos brancos e a candura, quando silvestre, é sempre adequada a fugas de frugal motivação.
Como não havia montras em seu caminho exigente, Tisbe conseguiu chegar em primeiro lugar ao lugar de reunião. Uma leoa de telenovela que por ali andava, focinho manchado de sangue comme il faut, assustou a jovem que de imediato se afastou dali, não sem antes ter deixado o seu xalinho a jeito do bicho o manchar de comme il faut.
O resto é previsível: Píramo viu a prova irrefutável do que nunca aconteceu e suicidou-se com um canivete suiço (que, ao contrário do punhal, também dá para matar quando não há razão para tal); chegou Tisbe e, perante o cadáver irrefutável do amante, inferiu que a única maneira de tornar os frutos pretos seria matar-se a si mesma também. Desde então, o fruto da amoreira chama-se amora. Quanto aos autores do luto, foram enterrados no mesmo apartado."



Notas:

1. Com este buraquinho não se brinca em serviço. Num mito que descreve, mais do que uma paixão contrariada, a essência incomunicável de cada humano, o orifício vale pela brecha que a paixão parece abrir nessa condição, mas também pelo facto de que, mesmo na penetração sexual (o buraco é uma cona), o que passa de amante para amante são as palavras e não os corpos.

2. De resto, a estabilidade do conteúdo que une Píramo a Tisbe (a sua inequívoca paixão), ao não poder ser acompanhada por uma forma que a revele e a faça existir em exatidão (o matrimónio), só pode degenerar numa metamorfose monstruosa. Que cada um de nós imagine, para cada injustiça que o destino lhe amplificou, um morango azul, uma lua quadrada, um mar de fogo.

sábado, novembro 03, 2012

Partilha 144

(folha de oliveira)


Acabou, enfim, o mundo, na data prevista pelos novembras: foi quando fechámos a porta do quarto e ficámos só nós e o que de nós queríamos. Tu, um rapaz recomendado por sessenta marcas de arcas de não-é; eu, primeira pedra atirada por Pirra a quem nunca morreu (a terra).
Dissenso!, estou é sozinho no quarto, estou com o poema. Quem é a mãe do texto, o poeta ou o leitor? - pergunta Salomão. Os dois, responde o autor. Em todo o caso, o poema não é uma venda de Abraão nem um relâmpago com prefácio de Eduardo Lourenço.

"Eco e Narciso"

Primeiro, foi a solidariedade feminina que tramou Eco. Quando Juno, mulher que ainda nada tinha lido sobre o poliamor, descobriu que ela a entretinha com conversas de gaja enquanto Júpiter, seu marido, dava largas à mania das ninfas, Eco foi condenada a só saber repetir o fim das frases dos outros.
Depois veio o amor por Narciso ("siso, siso, siso - toda a palavra muitas vezes repetida perde o seu sentido!"). Rapaz na flor da idade, tinha o mau hábito de dar tampa a fosse quem fosse que o quisesse polinizar. Despeitada até ao desespero, Eco recolheu-se a uma gruta acusticamente bem construída (o que é raro) e ficou reduzida à sua voz.
Mas para Narciso, a vida não seria muito melhor. Amaldiçoado por alguém que também tinha ficado a chuchar no dedo (diria a Agatha Christie, num livro sobre o oriente, que foi toda a gente), foi ao ver-se refletido pela primeira vez numa poça de água cristalina que Narciso finalmente desencalhou. Convenhamos que é complicado fazer amor com a imagem de si mesmo: o espelho é um preservativo que só sabe preservar a distância. E foi assim que Narciso se transformou na flor que hoje se compra e vende em dias de finados ou de outra coisa qualquer.


Notas:

1. Eis o que os antigos pensavam sobre a mulher: ela era apenas o final do homem. Entre costela e eco, venham as Pussy Riot e escolham...

2. Talvez o Sócrates, esse que estudou filosofia, não ficasse contente com a ideia de que um efetivo conhecimento de si próprio (e da merda que cada um é capaz de fazer) só poderia levar à loucura e a um definhamento fatal.

3. Em todo o caso, o feminismo está aqui previsto: o reflexo é uma espécie de vingança do eco, uma sua variação degenerada, mais próxima do onanismo que do desejo de durar. Narciso, exportador de solidões, aprende que ninguém se basta a si mesmo: ensinamento que as mulheres costumam trazer no cabelo e os homens na lapela.

quinta-feira, novembro 01, 2012

A montagem de "Checkpoint Sunset"

















O meu filme "Checkpoint Sunset" iniciou agora o seu processo de montagem. Com o objetivo de evitar que o seu possível espetador se possa sentir desconfortável com o facto de essa montagem não se submeter ao modelo-padrão dos filmes que normalmente são consumidos, alerto para duas das características essenciais que esse trabalho está a tomar:

1. Na medida em que se trata de uma universo infestado por laivos de messianismo (em sentido doméstico, claro; diria a Elis Regina: "porque foste na vida / a última esperança"), muitas imagens surgem como elementos de revelação, de prolepse, mas sem que esse efeito de profecia apareça excessivamente sublinhado. Por exemplo, uma das primeiras imagens da obra é nada mais que o ecrã invadido pela cor azul que funciona como um mar avant la lettre (um mar irá sendo pintado ao longo da narrativa que o filme apresentará). Não é o efeito de flash forward que é estranho (muitos filmes o utilizam), mas sim o facto de ele não aparecer sinalizado de modo evidente e de a sua colocação no alinhamento de montagem surgir como uma irrupção não preparada.

2. Toda a ação do filme decorre contra um telão impositivo onde está pintada a imagem de um muro tosco. A junção que se estabelece entre os planos (que aqui funcionam essencialmente como blocos) pretende imitar a imperfeição do cimento que liga as pedras impedindo que o muro adquira uma suavidade polida. Se a honra de todo o montador é fazer com que o seu trabalho passe despercebido (ao contrário da exuberância vaidosa de todos os outros labores cinematográficos), no meu filme pressuponho que haja algum desconforto na ação de "corta-e-cola" e que o salto de transcendência que cada plano impõe ao seu antecessor seja minimamente experimentado pelo espetador.

(Fotografia de um momento da rodagem, da autoria de JAS)

O elemento de "peso"

Tenho vindo a defender uma diferença de estatuto entre a linguagem literária e a linguagem cinematográfica baseando-me no facto de que, enquanto a primeira decalca a sua estrutura (gramatical, sintática, etc.) da linguagem verbal usada no quotidiano por todos os falantes, as regras que compõem a segunda não fazem parte da atividade comunicacional regular dos espetadores interessados na sétima arte. Ao mesmo tempo, no trabalho do escritor não existe um elemento de realismo tão profundo como aquele que resulta da perfeição mimética das potencialidades fotográficas (perfeição essa que o movimento do cinema tende ainda por cima a intensificar): a palavra pareceria assim condenada a uma espécie de leveza que a tornaria mais próxima da produção delirante.

Ora, não conheço nenhum estudo estatístico sobre o assunto, mas não me parece que a história da literatura seja quantitativamente menos realista do que a história do cinema (pelo menos durante o período em que puderam conviver como coetâneas). Ao mesmo tempo, fico sempre desconfiado quando o pressuposto da universalidade é questionado pelo percurso do meu pensamento (defendo que o desejo de universalidade é uma das irrecusabilidades éticas de quem se sistematiza numa atividade de reflexão).

Tem, por isso, vindo a crescer em mim a hipótese de que todas as formas de expressão artística contêm, no seu âmbito de funcionamento, um elemento de "peso" que as amarra aos movimentos e aos tempos da vida. E assim, ao realismo mimético do cinema (à sua capacidade de copiar imagens exatas da realidade sem precisar de recorrer a um artifício plástico) corresponderia a pertença da linguagem verbal ao quotidiano existencial dos leitores (seria este o grande elemento importado da realidade diretamente para a literatura). Não quer isto dizer que as  duas coisas se equivalham com rigor, mas que ambas constituem uma espécie de controlo das ambições conceptuais das artes, sujando-as e aproximando-as do insustentável peso de se experimentar a vida enquanto humano.

Um sonho recorrente

Não gosto de sonhar (é tudo demasiado real, nos sonhos). Não gosto de relatos de sonhos. Detestaria ser psicanalista.

No entanto, de há uns tempos para cá tenho vindo a ser perseguido por um sonho (muito simples e sem grandes notas de sofrimento) que gostaria de partilhar. Sonho apenas com a proximidade (do Porto, portanto) de um lugar de beleza excessiva, e que só se atinge atravessando uma pequena franja de mar (não é líquido, contudo, que se trate de uma ilha). E é basicamente isso. Acho que nunca fui a tal sítio (nos tais sonhos), mas a felicidade quase adolescente que resulta da expectativa de o visitar é suficiente para tornar o sonho feliz.

O mais curioso é que acordo sempre com a sensação de que o lugar existe deveras, e que só não tenho ido lá ultimamente por falta de tempo...

sábado, outubro 27, 2012

fragmentos de auto-retracto (outubro)

... a circunstância de eu ter modos de gajo certinho não significa que o meu pensamento não seja livre, incerto.

... toda a gente sabe que o músculo é feminino e a graciosidade masculina.

... desde sempre, aquilo que sempre me interessou foi o trabalho da imaginação; tal não foi entendido por ninguém (pais, professores, amigos), o que levou a equívocos tremendos na minha orientação vocacional; os destinos de jurista, político ou virtuoso do piano, que sempre alguém desejou em meu nome, são destinos sem destinatário.

... sou um gajo algo tristonho; o mundo disse-me que, fosse qual fosse o meu argumento, o mundo não se (de)moveria; depois dessa tragédia filosófica, será difícil alguma vez deixar de ser tal gajo.

... tenho recentemente notado uma característica sinistra no meu caráter: quando uma pessoa comete uma injustiça brutal contra mim, o fascínio que ela continua a me provocar (ou porque gostaria de dormir com ela, ou de a filmar, ou de passar horas a ouvi-la, ou porque o seu espírito me deixa romanescamente deliciado), esse fascínio impede que eu mantenha uma distância orgulhosa e inflexível; posso por isso vir a tornar-me um verdadeiro bombo da festa, ser um velho e apalhaçado professor perante anjos azuis...

... dizem-me que se pode sofrer imenso quando ninguém se interessa pelo nosso filme pouco-comerciável; mas nem consigo conceber o sofrimento que resultaria de ter todo o mundo interessado por um filme em que nós não nos pudéssemos reconhecer.

... gostar, gostar, era de ir ao Salar de Uyuni.

...

quarta-feira, outubro 17, 2012

"Ma's sin" - imagem


O INATUAL 76

"Ma's sin" - Saguenail (1996)


Entre os corpos dos atores a partir dos quais uma câmara faz personagens e as mentes daqueles espetadores que no corpo recebem um filme acabado há um diferimento fatal que de certo modo distingue a sétima arte das suas congéneres performativas. Se, no teatro, o problema da sucessão se encontra assim mitigado, o cinema pressupõe sempre que a identificação entre a sua matéria humana e o recetor dos seus produtos seja um fenómeno de diacronia.

Ora, como Hitchcock tão bem percebeu no seu “Rebecca”, nada é menos pacífico do que ocupar o espaço mental que uma determinada encenação tornou mítico. Se até as mais conceituadas publicações de imprensa avaliam o efeito de um filme sobre os seus destinatários segundo o indicador higiénico do box office, “Ma’s sin” tenta chegar muito mais perto na sua análise, ao figurar essa relação sucessória em torno da inquietação semântica do crime passional. O espelho que o seu ecrã metaforiza fica por isso mais próximo daquele que Branca de Neve consultava, ou das deformações que as feiras populares oferecem ao riso dos seus visitantes, do que daquelas superfícies especulares que nos mentem quando debitam a verdade de que já estávamos à espera.

Saguenail opera uma cisão nas duas dimensões do cinema, dando ao som o que é de Cesar e à imagem o que é de Deus, ou seja, tornando-nos cegos para a convenção e visionários do como-ver. Porque o som é, historicamente, um sucessor perante a imagem? A hipótese inversa seria, em todo o caso, algo inverosímil no que toca à experiência do espetador numa sala de projeção.

A espetadora (a verdadeira star de “Ma’s sin”) vive o filme que só a ela se apresenta. E viver é toda esta paixão que aqui se projeta: desejo, frustração, medo, memória, cansaço, rebaixamento, revolta, culpabilidade, mortes efémeras. Mais do que fazer sonhar, o cinema é uma ameaça à estabilidade psicológica do espetador. Quando as luzes se acendem, este parece, contudo, ter ganho mais mundo e estar mais apetrechado para uma experiência de sociabilidade: o que interessa não é a sentença sempre errada dos tribunais do poder, mas a relação sempre experimental que se pode estabelecer entre o gato e rato.

domingo, outubro 14, 2012

"Atalanta e Hipómenes"

Atalanta tinha duas qualidades notórias: uma beleza estonteante e uma velocidade jamaicana na prática da corrida. Não pretendia casar, mas não lhe faltavam moços com a pretensão contrária a si dirigida. Tinha por isso instituído um exercício muito típico das raparigas dos mitos: quem a vencesse numa corrida teria direito à sua mão, quem fosse por ela vencido estava condenado à pena capital. Ninguém, claro está, lhe levava a melhor. Hipómenes, bisneto do mar, apesar de consciente dos perigos em que se estava a meter (falamos da corrida, claro), pediu ajuda a Vénus para vencer, por doping feérico, a resistência olímpica de Atalanta. Os deuses ajudam a quem se ajuda, e a verdade é que a moça já estava algo hesitante quando deu de caras com o diferente pretendente. Mas Vénus lá deu três maçãs de ouro a Hipómenes que, durante a célebre corrida nupcial, as foi atirando, uma de cada vez, para o chão, o que forçou Atalanta a uma curiosidade que a fez atrasar-se, perder a corrida e ganhar uma aliança comprada na Tiffany's.


Notas:
1. A beleza é uma forma de velocidade que, se não for limitada/atrasada, pode ser letal (Marlene). O letal é figurado, claro, mas entende-se.

2. Só se consegue mergulhar a fundo na herança matrimonial, se a questão se colocar sem papas na lei: o casamento ou a vida?

3. Uma mulher pouco disponível para o sentimental pode acabar por ser vencida pela perspetiva dos frutos, ou seja, dos filhos. Aliás, o atraso nos ciclos femininos é geralmente sinónimo de gravidez.


Notinha:
a. É possível que esta décalage de velocidades seja um espelho invertido das dificuldades de timing do coito heterossexual.