domingo, fevereiro 19, 2012

Fala do homem político

- Só se fores rico é que tens dinheiro que chegue para te consolares da tristeza de pertenceres a uma classe social.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Em desacordo com o desacordo

Depois de ver várias pessoas ensandecidas por causa do novo Acordo Ortográfico e de assistir à eleição do improvável Vasco Graça Moura a herói da Resistência Portuguesa, achei que devia partilhar meia-dúzia de larachas explicativas do meu agnosticismo perante o assunto.

A ideia de que uma legislação sobre a ortografia possa ser favorável à divulgação da língua portuguesa parece-me de um provincianismo inaceitável (pior, só o franchise dos pastéis de nata). Um escritor fascinante pode eventualmente promover uma língua na Torre de Babel, mas mesmo para isso é preciso que um Eduardo Prado Coelho o ande a difundir pelas capelinhas internacionais que relevam nestes negócios da cultura (tudo isto é triste, tudo isto é jogo de influências). Sobretudo, uma língua impõe-se na cena do mundo se um dos países que a acolhem tiver, nessa cena, impacto político, económico e/ou histórico. Portugal é, de facto, um dos países mais decisivos da história (os Descobrimentos mudaram realmente a vida no planeta, talvez não para melhor), mas isso foi há já demasiado tempo para a total irrelevância do país em termos de protagonismo planetário. Agora, um acordo ortográfico não é um instrumento de facilitação da circulação de uma língua (talvez os leitorados de português nas universidades estrangeiras o sejam, mas os governos insistem em aboli-los).

Não tenho conhecimentos suficientes para poder militar por uma ortografia baseada na etimologia ou por uma ortografia cujo modelo é a fonética. Não conheço as últimas teses sobre o assunto, e presumo que todos os assanhados da polémica também não as conheçam. Mas estou à espera de que algum desses comentadores que sabem de tudo e mais alguma coisa me dêem dois ou três argumentos arrebatadores a favor ou contra cada uma das posições (seria um contributo da ordem da cidadania). Algo tipo o "imperativo categórico". Esses argumentos existem?

Acho curioso que, se a base da ortografia passa a ser a fonética, ao retirar-se a consoante muda daquelas palavras em que essa consoante tinha a função de abrir a vogal que as precedia, o que se está a colocar em risco é... a própria fonética. Pois a pronúncia correta da palavra deixa de ser clara. Esta ambiguidade da escrita que só pode ser suprida pelos hábitos dos falantes é típica das ortografias... etimológicas (como é, em grande parte, a da língua inglesa). Talvez se devesse colocar um acento grave nessas sílabas delicadas (por ex.: "espètador"), ou outra coisa qualquer, mas a supressão da consoante muda é simplesmente um ataque à fonética, e não a sua consagração.

O acordo não simplifica nem unifica, como promete. Já nem falo de grafias diferentes para os vários países da CPLP. Em Portugal, há palavras que se podem escrever de maneira diferente consoante os hábitos da pessoa que a utiliza (ex. "acupunctura" ou "acupuntura")... Maior confusão não era possível.

No entanto, também não reconheço grande maturidade nas críticas ao acordo. Esta enorme paixão que agora toda a gente diz ter pelo latim enquanto principal base etimológica da língua não tem a menor expressão estatística entre os falantes de português. Ninguém sabe latim, ninguém quer saber latim e até talvez haja quem tenha raiva de quem o saiba. Nenhuma criança lusa precisa da muleta da língua morta para aprender ortografia. Sintomaticamente, ninguém se indispõe por já não escrevermos "pharmácia" de acordo com a sua inspiração etimológica.

"Egito" contra "egípcios" - já temos coisas parecidas: "doce" contra "dulcíssimo"

"Ação" em português dificulta a aprendizagem de outras línguas, mais fiéis à etimologia (línguas que, por exemplo, dizem "Action") - já temos coisas parecidas: como hão-de as criancinhas aprender a escrever "plage", se a palavra francesa se distanciou tanto das nossas ensolaradas "praias"?

Como saberemos, a partir de agora, pronunciar "espetador" de cinema? - Mas então eu quero que a palavra "muito" se passe a escrever "muinto" para que eu tenha consciência perfeita da sua fonética. Note-se que, na língua russa (e os russos não brincam em serviço, cultural ou político), não há acentos que ajudem os falantes a distinguir a sílaba tónica das palavras: tudo isso é conquistado pelo uso quotidiano do idioma.

Há também um certo elitismo em toda esta discussão. Cita-se a "dansa" da Sophia, mas não se pergunta a opinião daqueles falantes do português que pertencem a meios económica e culturalmente oprimidos e que, francamente, escreverão sempre mal seja qual for a norma ortográfica. Mas a língua também lhes pertence, e eu gostaria de saber o que eles pensam sobre a minissaia.

Não colo a recusa do acordo a um conservadorismo ideológico (muita gente de esquerda resolveu acolher esta causa). Mas estou certo de que, para um Vasco Graça Moura, o "voltar para trás" é suficientemente atrativo para pode ser estendido a várias outras áreas da vida coletiva (do estado social à interrupção voluntária da gravidez). Soigne ta droite! Escolhe bem os teus heróis! 

Estará o Vasco preocupado com o facto de as crianças portuguesas começarem agora a festejar o Halloween? Não me interpretem mal: eu acho que as crianças se devem divertir de todas as maneiras e feitios, mas não as vejo a adotarem costumes do Tibete ou do... Portugal antigo. Pior do que um ataque ortográfico da ex-colónia à ex-metrópole, é a lenta uniformização da cultura da Aldeia Global.

Acima de tudo, gostava que os detratores do acordo tomassem uma posição de fundo sobre toda a história da ortografia, pois, de outro modo, estão indiretamente a aceitar que o acordo ortográfico anterior a este é o mais perfeito. Alguém está a estudar o assunto a sério? Eu não sei se no tempo do Camões a ortografia não seria mais justa... Só com uma posição de fundo, bem argumentada, sobre a história e a ideologia desse domínio linguístico, e não com exemplos pseudo-absurdos que só revelam o seu apego afetivo àquilo que lhes foi ensinado na infância (e por que não nos rebelamos contra a maneira como nos ensinaram a escrever?), é que eu poderei respeitar estes irredutíveis lusos. É uma questão de justeza filosófica.

Quanto a mim, espero que me digam, de uma vez por todas, como hei-de ortografar. Se é mais assim, se mais assado. Eu depois continuarei a cuidar da arte de bem escrever em português.


(Imagem retirada daqui)

domingo, fevereiro 12, 2012

Partilha 135

voz de marlon brando


(x)

ok
sejamos um número de circo
mas de conteúdo difícil de definir
(como acontece ao sindicalista e ao patrão
com a adesão à greve)
sejamos propaganda da carochinha

era preciso que o mundo parasse
que no trapézio entre dois arranha-céus
dois pássaros, delicados e isósceles,
se cruzassem com o canto:
"eu sois um outro"..........................................

era preciso que
multiplicados por si mesmos
palhaço rico
palhaço pobre
gargalhada pública
fossem linhagem pitagórica

e que as bestas indómitas, perigosas
(o sancho e o quixote)
atacassem com provérbios tão em forma
que pudessem prescindir da terminação
- é assim que eu ladro

[quem quer casar com el gordo?]

Cadernos cinematográficos: montagem

Li, certa vez, uma entrevista de um escritor brasileiro na qual este assumia que, ao decidir dedicar-se à escrita de haikus, tinha investigado tudo o que podia ser investigado sobre o assunto de modo a conseguir aproximar-se aos poucos do virtuosismo especificamente nipónico na abordagem desta forma poética. Senti-me algo humilhado dada a relativa leviandade com que sempre assumo um "fazer" (subitamente, senti que os meus próprios haikus talvez não pudessem ser classificados enquanto tais), mas a verdade é que não consigo funcionar de uma outra maneira. Não por irresponsabilidade, mas porque me recuso, visceral e profundamente, a tornar-me um virtuoso ou um especialista seja do que for. A prática historicamente informada do haiku é apenas um exemplo. O piano de concerto, o ballet, a ginástica rítmica, a cerimónia do chá, a montagem cinematográfica: ainda que não seja punk ou dadá, a minha costela anárquica não quer que eu contorcione o meu espírito de modo a poder emular na perfeição um gesto de complexidade rigorosamente codificada e vigiada. Retirei do super ego a velhinha inglesa da Royal Academy of Dance que vem avaliar os meus ports de bras e os meus pas de chat. Mais depressa inventava uma ciência como Jarry do que ia estudar para Oxford ou para Harvard.

Uma das coisas que mais me repelem no cinema standard (o que significa sempre "cinema de influência hollywoodiana") é o tipo de montagem que este exige. Não me parece nada uma prática de fácil compreensão ou execução, muito pelo contrário. É preciso aprender com esforço a montar "em continuidade", como se aprende uma língua não natal ou o repertório de movimentos do teatro nô. A liberdade criativa reconhecível num trabalho como o de Thelma Schoonmaker / Martin Scorsese só surge após uma longa conjugalidade com um determinado sistema de regras e de hábitos. Muito francamente, nunca percebi essas regras e esses hábitos (como não percebo futebol ou as virtualidades dos jogos de espelhos). Para os dominar, parece-me que teria de violar parte da minha integridade intelectual (não estou a falar de ética, mas da inteireza dinâmica dos meus processos mentais). O que seria mais violento para mim: emigrar para um país nórdico, casar por dinheiro ou dominar os processos da découpage cinematográfica tradicional? Não sei, não sei mesmo.

Lembro-me de alguém me dizer que, em "Le voyage dans la lune" de Georges Méliès, não havia ainda as preocupações de raccord que viriam a dominar posteriormente, e de modo obsessivo, a gramática da montagem cinematográfica. A história do cinema poderia ter sido outra, portanto: se já se consegue hoje reconhecer um conjunto de padrões que se repetem em quase todas as línguas de todos os tempos e lugares (por exemplo, a diferença entre perfectivo e imperfectivo), não é o pouco mais de um século de cinema que consegue garantir a Verdade de todas as convenções até agora preguiçosa e comummente aceites. Acima de tudo, não precisamos de recorrer todos às mesmas soluções para os mesmos problemas, pois só os problemas são universais.

Apesar de eu ter a perfeita noção de que toda a obra tem de evidenciar elementos de continuidade que a tornem legível e coesa, estou muito mais interessado naquilo que se modifica com o corte de um plano num plano subsequente do que naquilo que se mantém. Talvez seja mais verdadeiro de um ponto de vista filosófico, mas será com toda a certeza muito mais divertido. Não sei onde esta curiosidade me vai levar (se é que me vai levar a sítio algum), mas sei que ela é o princípio fundador da minha relação com o cinema.

domingo, fevereiro 05, 2012

Concretizando

O orgasmo só é verdadeiramente bom se for uma pequena eutanásia.

Cadernos cinematográficos: movimento

Quando me comecei a interessar seriamente por cinema, fiquei particularmente fascinado com a sensualidade dos movimentos que uma câmara de filmar podia fazer. Com um agrado quase doloroso, lembro-me de algumas obras de Samuel Fuller capazes de, a esse específico nível formal, produzirem uma impressão de êxtase violento sobre o espetador.

Tudo isso parece ter passado. Revi recentemente o "Jules et Jim", e a volúpia da câmara que Truffaut coreografou para a sua obra-prima deixou-me praticamente indiferente. E em "Sombras dos antepassados esquecidos" já não estou à procura do virtuosismo desse tipo de movimento, mas de outros aspetos da sua poética singular.

Presumo que há um fator "idade" a sabotar esta relação sensual (sendo esta "idade" sobretudo definível como um estado de espírito decorrente do triunfo da mediocridade das condições que se oferecem à vida adulta sobre a disponibilidade emocional genuína que existe na adolescência). Mas também não ilibo a história do cinema de alguma responsabilidade neste caso de patologia anestésica: o movimento tornou-se uma espécie de galinha dos ovos de ouro formal em tudo aquilo que se quer chamar "filme", sendo o seu abuso quase sempre pautado pela gratuitidade e por um excesso que se aproxima mais do entretenimento invisível que do barroco espetacular.

Em breve, irei realizar uma curta-metragem, e espero que a essa experiência outras se possam seguir. Uma das ambições que a mim mesmo coloco numa virtual obra cinematográfica que possa erigir, é a tentativa de voltar a encontrar emoção no movimento de câmara. Não o mesmo tipo de emoção da juventude, claro, mas um erotismo mais experiente e, quem sabe, mais perverso.

Uma das intuições que a esse nível constantemente me visitam é a necessidade de criar dificuldades ao movimento do aparelho filmador, de lhe impor peso, para que ele se revele mais necessário e inesperado. Não me interessam nada os complicados movimentos de grua, a handheld camera, nem mesmo as panorâmicas (isto apesar de tudo o que de magnífico foi filmado desta maneira). Sinto-me sobretudo interpelado pela beleza do travelling (uma das grandes invenções do século XX) e pelas possibilidades da steadycam. Estas duas formas de agitar uma câmara parecem-me guardar nelas toda a evidência da maquinaria que as possibilita, parecem-me mais próximas do comboio que da corrida ou do voo, e eu sinto que preciso desse lastro de gravidade para me entusiasmar (as perversões são, como se sabe, inúmeras...).

Outra intuição é o desejo de fazer cada filme justificar plenamente todos os movimentos que acolhe. Não se trata aqui de uma justificação meramente semântica, e nem reclamo a possibilidade de a poder traduzir numa congruência verbal. Mas quer-me parecer, por exemplo, que a vontade de fazer travellings laterais em "Checkpoint Sunset" (o tal filme que tentarei rodar) deriva sobretudo da intenção de realizar um tipo de movimento algo "murado", preso à fixidez que a parede em torno do qual a obra se constrói impõe ao mesmo tempo como obstáculo e como superfície de projeção. Travellings que sejam muros andantes e transparentes. A própria montagem deverá forjar uma justificação para a repetição dos movimentos, criando a ilusão de que o filme não poderia viver sem eles, e que eles não poderiam surgir numa outra ordem.

A ver vamos.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

"Adieu, plancher des vaches!" - imagem


O INATUAL 44 (bis)

"Adieu, plancher des vaches!" - Otar Iosseliani (1999)



(Já tinha falado deste filme aqui, mas uma revisão recente fez-me entendê-lo de uma outra forma, e por isso a ele regresso)

A um dado momento de "Adeus, terra firme", o seu jovem protagonista aponta para um helicóptero que o sobrevoa e diz: "É a minha mãe". A cena tanto pode ser freudiana (lembra o segmento de Woody Allen em "New York Stories") como fantasista. Na verdade, os seres que, no filme, coagem a liberdade dos outros não são menos excêntricos do que eles: o superego tem aqui direito a uma representação para-onírica.

Iosseliani é tão distanciado que parece quase promover uma equivalência amoral entre os vários pólos da sua ficção: desejo de fuga, desejo sexual, crime, preguiça, amizade... O georgiano exilado em Paris filma os seres humanos com aquele grau de obliquidade burlesca que faz com que, na aparência dos seus gestos reconhecíveis, se instaure uma camada de estranheza fascinante. A uma dada altura, todos os malucos do filme parecem ser tão aberrantemente coloridos quanto os dois negros que se passeiam pelo bairro.

É o mesmo gesto criativo de "Et la lumière fut", a invenção de uma cultura social ao mesmo tempo plausível e poeticamente jocosa. De facto, frequentemente as pessoas tentam iludir os outros quanto à sua classe social. Mas não o fazem como o operário deste filme, que vive num buraco onde pouco mais tem do que um fato chique, que tem um amigo que lhe empresta uma mota de alto gabarito, um outro que lhe empresta as chaves de um iate de luxo, e assim consegue levar a bom porto as suas investidas de sedução erótica.

Conhecedor do horror soviético, Iosseliani tem noção de que o capitalismo oferece alguns mecanismos de escape àqueles que vivem sob as suas regras. E filma esses mecanismos (o golpe permanente que é o trabalho de mendigo, por exemplo) com a inevitável dose de maravilhoso com que eles se evidenciam. No entanto, gulags à parte, a diferença entre o mundo liberal e a distopia comunista é que aqui, na democracia do ocidente, quem nos fode tem bom ar. A nossa mãe castradora tem cabelo vermelho, canta Schubert, convive com uma ave enorme, desloca-se de helicóptero e não é sexualmente inibida.

Estaremos verdadeiramente na posse da liberdade que nos garantem os arautos da sociedade contemporânea? Quando o protagonista é preso durante algum tempo, algo se altera profundamente nele que o faz abandonar a referência anárquica do pai (representado pelo próprio realizador) a favor da ética de hipocrisia da mãe. O seu mundo parece até ter acabado (as relações sociais descritas ao longo do filme foram em grande parte substituídas por outras). As derrotas são imensas e injustas: a rapariga amada casa com o rival cínico, o assassino fica judicialmente ileso, a criada é despedida... E o rapaz acaba por não aguentar o mundo absurdo dos negócios e das conveniências e torna-se tão alcoólico quanto o pai.

A liberdade talvez não passe de um estado interior (um olhar, aquele que demiurgicamente criara a etnografia da primeira parte do filme). A viagem do velho e do seu amigo vagabundo não tem nenhuma verosimilhança porque é, na verdade, uma metáfora. Mas não tomemos Iosseliani por um louco feliz: em "Chantrapas", a evasão aproxima-se perigosamente da figuração do suicídio.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

"Et la lumière fut" - imagem


O INATUAL 72

"Et la lumière fut" - Otar Iosseliani (1989)



Poderá o homem, no início de cada dia, ter a mesma liberdade de que Deus gozou no início do mundo? Iosseliani assume-se como um demiurgo e inventa a hipotética cultura de uma tribo africana que, dada a resistência da sua superfície aos critérios da modernidade ocidental, pode ser convenientemente assimilada a uma antiguidade originária. Apesar de não ser mais do que um exercício de antropologia inventada, esta liberdade de fantasiar todo um modelo de relações sociais está contudo em íntimo acordo com a antropologia verdadeira, essa ciência cujo trabalho de campo confirmou a eficácia real de outros sistemas de sociabilização do humano.

Ora, se os rituais encenados pelo metteur en scène podem passar por verdades documentais aos olhos do espetador distraído, como podemos acreditar piamente nas normas da religião ou da política a que o mundo civilizado presta culto? Nas mãos de Iosseliani, o "fazer luz" promove a convergência natural entre a pura criatividade e a distância crítica: uma espécie de iluminismo, portanto.

Como nenhum demiurgo pode deixar de criar segundo a verdade, o realizador revoluciona o que é revolucionável (inverte alguns dos papéis normalmente assumidos por homens e por mulheres, flexibiliza a moral sexual) e submete-se àquilo que é fatal: a discórdia. Aliás, Deus himself não conseguiu parir um universo sem mal. Em "Et la lumière fut", a condenação de uma anciã ao exílio (se é que apenas de exílio se trata...) pelo simples facto de que vai um nascer um bebé que terá o seu nome e só pode haver um exemplar de cada nome na aldeia, é um momento de profundíssima crueldade, mas uma crueldade tão natural que chega a parecer bela (só posso dizer isto a propósito de um outro filme, "Il bidone" de Fellini).

Quando, no fim da obra, um casal põe à venda as imagens dos deuses pelos quais a aldeia, finalmente destruída pela fome dos arroteadores de florestas, nutria uma verdadeira fé, o que eles estão a vender é a magia da sua cultura, ou seja, a sua idiossincrasia sociológica. É claro que é também um sinal de que os cineastas estão sempre em processo de prostituição, mas Iosseliani, desiludido com as férreas culturas dos dois lados da cortina ferro que tão bem conheceu, lá foi conseguindo filmar aquilo que sempre lhe interessou: o fim dos mundos. Não há luz que não dê em incêndio: poderia ser um provérbio destes indígenas do cinema que terminam cada um dos seus dias com a contemplação do pôr-do-sol.

Cadernos antropológicos 1

Não vale a pena ter uma conceção teleológica da história.

Basicamente, é assim. Na natureza tudo se passa sem tragédia: predadores, sobreviventes, amantes, viajantes, gregários, cadáveres. Quando o homem adquiriu sapiência, ou seja, quando aprendeu a distanciar-se dos objetos que o sugestionavam para lhes poder modificar o destino (milagre que deverá ter sido mais ou menos contemporâneo da descoberta da "palavra", que é a única tecnologia de ponta a que sempre pudemos recorrer), a partir de então o homem conseguiu domesticar a histeria da sobrevivência (por exemplo, através da agricultura e da pastorícia) ao mesmo tempo que forjou toda uma cultura capaz de criar, para a sua própria espécie, um inferno trágico que permanece desconhecido da natureza.

Talvez a civilização não seja mais do que a bola de neve dos primeiros erros intelectuais que se tornou uma avalancha de cegueira. Não sou, contudo, nada favorável à ideia de regresso à selvajaria. Até porque pressinto que um mundo melhor (não um Paraíso) permanece ao nosso alcance: basta conhecer a verdadeira natureza da linguagem, fazer da filosofia o centro da nossa atividade (ou seja, questionar tudo até ao tutano), apostar naquelas conquistas culturais que estão do lado inequívoco da felicidade, não ter medo de recomeçar (como o sol recomeça todos os dias), etc.

Mas não, o mundo é gerido pela troika.

sábado, janeiro 14, 2012

Partilha 134

voz de cecilia bartoli



(e= 82)


nem sabes o trabalho que te vou dar
se me quiseres pôr nos píncaros

vais ter de me levar ao colo
como se eu fosse uma noiva preguiçosa
(já peso mais de noventa quilos)
em zonas de oxigenação duvidosa
exigirei respiração boca a boca
(tudo o que seja preciso
para fazer espécie
e não fazer o género)
e quando me julgares na crista de um tsunami
verás como é efémero
o branco pré-reverso


 
detesto poetas mariquinhas
que só ficam felizes se lhes fizerem
festinhas
e lhes disserem
"muito bem!"...........................

se ninguém alguma vez ler este poema
espero ao menos que deus não exista
[o que eu quero é ir passar dois dias
com o marky mark
a bora bora:
deixo isso ao cuidado das academias]

domingo, janeiro 08, 2012

"Mon oncle" - imagem


O INATUAL 71

"Mon oncle" - Jacques Tati (1958)



A inadaptação do indivíduo à tecnologia foi um dos temas mais caros aos cineastas que se dedicaram à comédia burlesca. Mas o opinion maker contemporâneo será demasiado apressado se os acusar de reacionarismo. Na verdade, quem se presta ao cinema sabe que a sua matéria de trabalho é uma cereja no topo do bolo da história da técnica. Ainda por cima, esses realizadores sempre foram exímios no congeminar de verdadeiros cenários-máquinas para as suas produções (basta lembrar "The general", "Modern times" ou "Playtime").

O que parece inquietar Buster Keaton, Charles Chaplin ou o mais tardio Jacques Tati, é a tentativa de mutação antropológica que a hipertecnologia tem vontade de descontroladamente infligir à espécie que a engendrou (preocupação expressa de forma mais grosseira nas fantasias populares sobre motins de robôs). Qual a diferença entre o percurso semilabiríntico que o senhor Hulot tem de fazer na sua tosca casa e aquele a que a sua irmã e a vizinha desta são obrigadas na habitação da alta burguesia moderna? Aquele é solidário da poesia, este degenera em absoluto ridículo: algum equilíbrio foi quebrado na cadeia do fazer, da "poiesis". Hulot consegue, com a simples orientação do reflexo da luz solar num vidro da janela da sua casa, pôr um pássaro engaiolado a cantar. Para Tati (para mim também), isto é tecnologia de ponta.

O senhor Hulot é o cão vadio que ladra ao peixe morto no início do filme (peixe que ressurgirá como evidência de sucesso social na mansão da sua irmã). Hulot é uma criança. A encenação que engendrou "Mon oncle" é um prolongamento exato do conceito de patifaria. Note-se como, para responder à vaidade que a senhora burguesa tem no facto de que, na sua casa, tudo comunica, Tati faz o seu irritante repuxo esguichar em vários cantos do jardim durante a garden party: na verdade, tudo comunica! Isto é apenas o exemplo mais exuberante, já que o filme todo se organiza em torno desta atitude.

Se os putos disfarçam a sua traquinice, Hulot nunca é realmente culpado de nada. Ora, sendo o ator que o interpreta a mesma pessoa que realiza o filme, é forçoso notar-se a décalage entre a pureza do personagem e a matreirice do autor. É que se as crianças têm o talento natural para serem crianças, a infantilidade que persiste nos adultos tende a funcionar como uma patologia cujas repercussões não são brincadeira nenhuma. Para manter uma puerilidade saudável durante a vida madura, é preciso reaprender a infância, adaptá-la, selecionar o que faz a sua beleza e a sua verdade: é preciso encená-la. Todo o projeto cinematográfico de Tati, culminando na magistral cena do carrossel de trânsito de "Playtime", gira em torno desse separar das águas entre o bom sentido e o mau sentido dos dentes de leite (dentes que, como se sabe, são os únicos que não caem).

Tati vem trazer um pouco de luz a um mundo aprisionado (no fim do filme, o pai do miúdo aprende a maneira irreverente que lhe permite relacionar-se com ele). Mas não há nenhum paternalismo no seu gesto. Ele é apenas um tio que gostaria que a humanidade sua sobrinha fosse um pouco mais livre.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Coisas que só agora sei

Após o falecimento de alguém, há um conjunto de rituais que têm de ser cumpridos pelos seus próximos. Desde os mais imediatos (o velório, o funeral) aos mais insensíveis (a habilitação de herdeiros, a cessação de contas nos bancos), ninguém parece conseguir escusar-se ao seu cumprimento, independentemente de estado de dor, atitude religiosa ou inquietude anárquica.

Presumo que esses ritos sejam uma herança laica, higiénica e burocrática das reações dos homens primitivos perante o fenómeno da morte. Será fácil concluir que a sobrevivência religiosa se faz à custa de efetivo fervor e haverá mesmo quem esteja convencido da utilidade inequívoca dos procedimentos legais que o Estado moderno impõe aos enlutados relutantes.

No entanto, antes de concluirmos por uma tese de rutura, seria talvez melhor pensarmos que, desde que a nossa espécie tomou consciência da sua condição biológica, os rituais que todas as culturas fazem acontecer no rescaldo de uma morte são menos manifestações de uma metafísica espontânea do que uma forma muito eficaz (e desesperada) que o homem encontrou para não atingir a plena noção emocional da perda que acabou de sofrer. That's entertainment. Depois, o tempo faz o seu trabalho de pirâmide.


sexta-feira, dezembro 30, 2011

Checkpoint Sunset 2


No escrínio 56 + Tradução 28

Tradução pessoal do poema "Festas da fome", de A. Rimbaud:


"
........Ana, ó Ana, a minha fome
........Em cima da tua burra foge.

Já não tenho mais paladar
A não ser para terra e pedras.
Sempre que a barriga dá horas,
Comamos ferro, carvões, ar.

Minhas fomes, rodai, pastai
........No farelório das pradarias!
E o veneno alegre aliciai
........Dessas flores que são campainhas;

Comei
Calhaus por um um pobre rachados,
As antigas pedras de igrejas,
Os seixos, de dilúvios nados,
Pães em cínzeos vales deitados!

Minhas fomes, bocados de ar negro;
........É o firmamento sineiro;
- É o estômago que me demove.
........É a má sorte.

Surgiram folhas sobre a terra:
Dou-me ao desfrute de um pomar velho.
Colho no seio de uma fenda
Alfaces de lobo e de cordeiro.

........Ana, ó Ana! a minha fome
........Em cima da tua burra foge.
"


Numa versão aproximada, a expressão idiomática "Faire l'âne pour avoir du son" (literalmente: "fazer-se de burro para ter farelo") era cara a Rabelais, criador de um personagem, o gigante Pantagruel, cuja popularidade sempre se deveu sobretudo ao seu apetite mítico. Não conheço nenhum estudo literário que legitime o que vou defender, mas acho pouco provável que esta expressão satírica (o seu verdadeiro significado é: "fazer-se de tonto para, desse modo, obter vantagens") não tenha sido uma das influências decisivas do poema "Fêtes de la faim".

No meu ensaio "O princípio de desvalorização da transcendência" (publicado aqui), proponho algumas pistas de interpretação deste texto que conservam a ambiguidade generosa (e filosófica) a que ele tem pleno direito. No entanto, o presente post pretende sugerir uma leitura da obra enquanto manifestação velada da homossexualidade.

O sujeito lírico diz que a sua fome fugiu sobre a burra de Ana, uma mulher. Isto pode ser a confissão de um desgosto amoroso heterossexual, claro, mas pode revelar também o desvio da fome viril do poeta para o continente do desejo feminino. O burro é um animal híbrido (como, de uma outra forma, o gay o é) e estéril. Essa esterilidade aparece sinalizada em todo o imaginário do texto, e muito particularmente na evocação do mito grego do dilúvio, que narrava um modo de gestação da vida humana (Deucalião e Pirra atirando pedras para trás das costas) que nada tinha a ver com a cópula heterossexual. Encontram-se no poema todas estas linhas de sentido ancoradas na inacreditável simplicidade das suas formulações: o lento renascer do mundo após uma tristeza diluviana (note-se como a dieta do sujeito evolui das pedras para as frutas sorvadas e as alfaces), uma aprendizagem dos hábitos nutricionais (o poeta tornado burro acaba por entender qual a alimentação adequada ao seu novo estado, após ter errado por entre carvões e ferro) e uma arte poética que descreve as possibilidades de criação de vida que estão disponíveis para o macho (a criação lírica, entendida como arte que revela o desejo através dos sons verbais).

O fazer-se de tonto (que tentei, na minha tradução, evocar através da expressão portuguesa "dar-se ao desfrute") não quer dizer que Rimbaud fosse misógino (pelo contrário!), mas que ele teria consciência de que, para os trâmites culturais da sua época, a sua assunção do desejo por um homem equivaleria a uma exposição ao ridículo. Fá-lo, contudo, para levar a água ao seu moinho (o moinho do amor). A partir daqui, as carnes meias podres da fruta que o poema menciona (na minha tradução, o "pomar velho") não podem ser outras senão as de Verlaine, companheiro sentimental e criativo do autor na época em que "Fêtes de la faim" foi escrito.

Este apoucamento de si mesmo encontra equivalência nas mesquinhices sonoras (um falar por baixo da burra) que a escrita propõe: rimas demasiado fáceis ("Anne, âne"), rimas desafiadoras das regras clássicas da versificação em francês ("blettes", "violette"), a ausência inesperada de uma rima ("déluges"), ironias etimológicas ("liseron" é um diminutivo de "lis", flor-símbolo dos poetas parnasianos que tinham grande sucesso à época), trocadilhos de gosto duvidoso (como muitos comentadores já reconheceram, a onomatopeia sugestiva de sino ou campainha, "dinn", faz lembrar o imperativo do verbo "jantar": "dîne"), paronímias pouco assumidas (tenho a certeza de que as palavras "doucette" e "violette", nomes de plantas, foram escolhidas por se aproximaram dos conceitos de "douceur" e "violence", já que a doçura e a violência são os dois pólos entre os quais se organiza toda a relação sentimental, nomeadamente a dos próprios Rimbaud e Verlaine), etc.

Não encontrando, na língua portuguesa, uma onomatopeia de igual alcance à usada pelo escritor francês, optei por recorrer à expressão "Sempre que a barriga dá horas", capaz de cobrir todo o espaço semântico que a minha hermenêutica levanta. Por outro lado, permiti-me uma pequena liberdade, que passo a descrever. O termo "doucette" é um regionalismo que, em português, pode ser traduzido por "alface-de-cordeiro". A solução encontrada no antepenúltimo verso da tradução pretende sugerir o mesmo efeito bipolar do poema original. Na verdade, só me interessa traduzir se o texto que resulta dessa atividade tiver um poder de sugestão, na língua de chegada, que de algum modo possa competir com aquele que foi originariamente criado na língua de partida.


(O texto original pode ser lido aqui)

sábado, dezembro 24, 2011

Partilha 133

no dia a seguir ao nascimento
já se podia por certo dizer
que ele não tinha nascido ontem

naquele tempo como hoje
isso pode ser dito de alguns homens
mas
(tecnicamente falando)
de nenhum deus