segunda-feira, janeiro 23, 2012

"Adieu, plancher des vaches!" - imagem


O INATUAL 44 (bis)

"Adieu, plancher des vaches!" - Otar Iosseliani (1999)



(Já tinha falado deste filme aqui, mas uma revisão recente fez-me entendê-lo de uma outra forma, e por isso a ele regresso)

A um dado momento de "Adeus, terra firme", o seu jovem protagonista aponta para um helicóptero que o sobrevoa e diz: "É a minha mãe". A cena tanto pode ser freudiana (lembra o segmento de Woody Allen em "New York Stories") como fantasista. Na verdade, os seres que, no filme, coagem a liberdade dos outros não são menos excêntricos do que eles: o superego tem aqui direito a uma representação para-onírica.

Iosseliani é tão distanciado que parece quase promover uma equivalência amoral entre os vários pólos da sua ficção: desejo de fuga, desejo sexual, crime, preguiça, amizade... O georgiano exilado em Paris filma os seres humanos com aquele grau de obliquidade burlesca que faz com que, na aparência dos seus gestos reconhecíveis, se instaure uma camada de estranheza fascinante. A uma dada altura, todos os malucos do filme parecem ser tão aberrantemente coloridos quanto os dois negros que se passeiam pelo bairro.

É o mesmo gesto criativo de "Et la lumière fut", a invenção de uma cultura social ao mesmo tempo plausível e poeticamente jocosa. De facto, frequentemente as pessoas tentam iludir os outros quanto à sua classe social. Mas não o fazem como o operário deste filme, que vive num buraco onde pouco mais tem do que um fato chique, que tem um amigo que lhe empresta uma mota de alto gabarito, um outro que lhe empresta as chaves de um iate de luxo, e assim consegue levar a bom porto as suas investidas de sedução erótica.

Conhecedor do horror soviético, Iosseliani tem noção de que o capitalismo oferece alguns mecanismos de escape àqueles que vivem sob as suas regras. E filma esses mecanismos (o golpe permanente que é o trabalho de mendigo, por exemplo) com a inevitável dose de maravilhoso com que eles se evidenciam. No entanto, gulags à parte, a diferença entre o mundo liberal e a distopia comunista é que aqui, na democracia do ocidente, quem nos fode tem bom ar. A nossa mãe castradora tem cabelo vermelho, canta Schubert, convive com uma ave enorme, desloca-se de helicóptero e não é sexualmente inibida.

Estaremos verdadeiramente na posse da liberdade que nos garantem os arautos da sociedade contemporânea? Quando o protagonista é preso durante algum tempo, algo se altera profundamente nele que o faz abandonar a referência anárquica do pai (representado pelo próprio realizador) a favor da ética de hipocrisia da mãe. O seu mundo parece até ter acabado (as relações sociais descritas ao longo do filme foram em grande parte substituídas por outras). As derrotas são imensas e injustas: a rapariga amada casa com o rival cínico, o assassino fica judicialmente ileso, a criada é despedida... E o rapaz acaba por não aguentar o mundo absurdo dos negócios e das conveniências e torna-se tão alcoólico quanto o pai.

A liberdade talvez não passe de um estado interior (um olhar, aquele que demiurgicamente criara a etnografia da primeira parte do filme). A viagem do velho e do seu amigo vagabundo não tem nenhuma verosimilhança porque é, na verdade, uma metáfora. Mas não tomemos Iosseliani por um louco feliz: em "Chantrapas", a evasão aproxima-se perigosamente da figuração do suicídio.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

"Et la lumière fut" - imagem


O INATUAL 72

"Et la lumière fut" - Otar Iosseliani (1989)



Poderá o homem, no início de cada dia, ter a mesma liberdade de que Deus gozou no início do mundo? Iosseliani assume-se como um demiurgo e inventa a hipotética cultura de uma tribo africana que, dada a resistência da sua superfície aos critérios da modernidade ocidental, pode ser convenientemente assimilada a uma antiguidade originária. Apesar de não ser mais do que um exercício de antropologia inventada, esta liberdade de fantasiar todo um modelo de relações sociais está contudo em íntimo acordo com a antropologia verdadeira, essa ciência cujo trabalho de campo confirmou a eficácia real de outros sistemas de sociabilização do humano.

Ora, se os rituais encenados pelo metteur en scène podem passar por verdades documentais aos olhos do espetador distraído, como podemos acreditar piamente nas normas da religião ou da política a que o mundo civilizado presta culto? Nas mãos de Iosseliani, o "fazer luz" promove a convergência natural entre a pura criatividade e a distância crítica: uma espécie de iluminismo, portanto.

Como nenhum demiurgo pode deixar de criar segundo a verdade, o realizador revoluciona o que é revolucionável (inverte alguns dos papéis normalmente assumidos por homens e por mulheres, flexibiliza a moral sexual) e submete-se àquilo que é fatal: a discórdia. Aliás, Deus himself não conseguiu parir um universo sem mal. Em "Et la lumière fut", a condenação de uma anciã ao exílio (se é que apenas de exílio se trata...) pelo simples facto de que vai um nascer um bebé que terá o seu nome e só pode haver um exemplar de cada nome na aldeia, é um momento de profundíssima crueldade, mas uma crueldade tão natural que chega a parecer bela (só posso dizer isto a propósito de um outro filme, "Il bidone" de Fellini).

Quando, no fim da obra, um casal põe à venda as imagens dos deuses pelos quais a aldeia, finalmente destruída pela fome dos arroteadores de florestas, nutria uma verdadeira fé, o que eles estão a vender é a magia da sua cultura, ou seja, a sua idiossincrasia sociológica. É claro que é também um sinal de que os cineastas estão sempre em processo de prostituição, mas Iosseliani, desiludido com as férreas culturas dos dois lados da cortina ferro que tão bem conheceu, lá foi conseguindo filmar aquilo que sempre lhe interessou: o fim dos mundos. Não há luz que não dê em incêndio: poderia ser um provérbio destes indígenas do cinema que terminam cada um dos seus dias com a contemplação do pôr-do-sol.

Cadernos antropológicos 1

Não vale a pena ter uma conceção teleológica da história.

Basicamente, é assim. Na natureza tudo se passa sem tragédia: predadores, sobreviventes, amantes, viajantes, gregários, cadáveres. Quando o homem adquiriu sapiência, ou seja, quando aprendeu a distanciar-se dos objetos que o sugestionavam para lhes poder modificar o destino (milagre que deverá ter sido mais ou menos contemporâneo da descoberta da "palavra", que é a única tecnologia de ponta a que sempre pudemos recorrer), a partir de então o homem conseguiu domesticar a histeria da sobrevivência (por exemplo, através da agricultura e da pastorícia) ao mesmo tempo que forjou toda uma cultura capaz de criar, para a sua própria espécie, um inferno trágico que permanece desconhecido da natureza.

Talvez a civilização não seja mais do que a bola de neve dos primeiros erros intelectuais que se tornou uma avalancha de cegueira. Não sou, contudo, nada favorável à ideia de regresso à selvajaria. Até porque pressinto que um mundo melhor (não um Paraíso) permanece ao nosso alcance: basta conhecer a verdadeira natureza da linguagem, fazer da filosofia o centro da nossa atividade (ou seja, questionar tudo até ao tutano), apostar naquelas conquistas culturais que estão do lado inequívoco da felicidade, não ter medo de recomeçar (como o sol recomeça todos os dias), etc.

Mas não, o mundo é gerido pela troika.

sábado, janeiro 14, 2012

Partilha 134

voz de cecilia bartoli



(e= 82)


nem sabes o trabalho que te vou dar
se me quiseres pôr nos píncaros

vais ter de me levar ao colo
como se eu fosse uma noiva preguiçosa
(já peso mais de noventa quilos)
em zonas de oxigenação duvidosa
exigirei respiração boca a boca
(tudo o que seja preciso
para fazer espécie
e não fazer o género)
e quando me julgares na crista de um tsunami
verás como é efémero
o branco pré-reverso


 
detesto poetas mariquinhas
que só ficam felizes se lhes fizerem
festinhas
e lhes disserem
"muito bem!"...........................

se ninguém alguma vez ler este poema
espero ao menos que deus não exista
[o que eu quero é ir passar dois dias
com o marky mark
a bora bora:
deixo isso ao cuidado das academias]

domingo, janeiro 08, 2012

"Mon oncle" - imagem


O INATUAL 71

"Mon oncle" - Jacques Tati (1958)



A inadaptação do indivíduo à tecnologia foi um dos temas mais caros aos cineastas que se dedicaram à comédia burlesca. Mas o opinion maker contemporâneo será demasiado apressado se os acusar de reacionarismo. Na verdade, quem se presta ao cinema sabe que a sua matéria de trabalho é uma cereja no topo do bolo da história da técnica. Ainda por cima, esses realizadores sempre foram exímios no congeminar de verdadeiros cenários-máquinas para as suas produções (basta lembrar "The general", "Modern times" ou "Playtime").

O que parece inquietar Buster Keaton, Charles Chaplin ou o mais tardio Jacques Tati, é a tentativa de mutação antropológica que a hipertecnologia tem vontade de descontroladamente infligir à espécie que a engendrou (preocupação expressa de forma mais grosseira nas fantasias populares sobre motins de robôs). Qual a diferença entre o percurso semilabiríntico que o senhor Hulot tem de fazer na sua tosca casa e aquele a que a sua irmã e a vizinha desta são obrigadas na habitação da alta burguesia moderna? Aquele é solidário da poesia, este degenera em absoluto ridículo: algum equilíbrio foi quebrado na cadeia do fazer, da "poiesis". Hulot consegue, com a simples orientação do reflexo da luz solar num vidro da janela da sua casa, pôr um pássaro engaiolado a cantar. Para Tati (para mim também), isto é tecnologia de ponta.

O senhor Hulot é o cão vadio que ladra ao peixe morto no início do filme (peixe que ressurgirá como evidência de sucesso social na mansão da sua irmã). Hulot é uma criança. A encenação que engendrou "Mon oncle" é um prolongamento exato do conceito de patifaria. Note-se como, para responder à vaidade que a senhora burguesa tem no facto de que, na sua casa, tudo comunica, Tati faz o seu irritante repuxo esguichar em vários cantos do jardim durante a garden party: na verdade, tudo comunica! Isto é apenas o exemplo mais exuberante, já que o filme todo se organiza em torno desta atitude.

Se os putos disfarçam a sua traquinice, Hulot nunca é realmente culpado de nada. Ora, sendo o ator que o interpreta a mesma pessoa que realiza o filme, é forçoso notar-se a décalage entre a pureza do personagem e a matreirice do autor. É que se as crianças têm o talento natural para serem crianças, a infantilidade que persiste nos adultos tende a funcionar como uma patologia cujas repercussões não são brincadeira nenhuma. Para manter uma puerilidade saudável durante a vida madura, é preciso reaprender a infância, adaptá-la, selecionar o que faz a sua beleza e a sua verdade: é preciso encená-la. Todo o projeto cinematográfico de Tati, culminando na magistral cena do carrossel de trânsito de "Playtime", gira em torno desse separar das águas entre o bom sentido e o mau sentido dos dentes de leite (dentes que, como se sabe, são os únicos que não caem).

Tati vem trazer um pouco de luz a um mundo aprisionado (no fim do filme, o pai do miúdo aprende a maneira irreverente que lhe permite relacionar-se com ele). Mas não há nenhum paternalismo no seu gesto. Ele é apenas um tio que gostaria que a humanidade sua sobrinha fosse um pouco mais livre.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Coisas que só agora sei

Após o falecimento de alguém, há um conjunto de rituais que têm de ser cumpridos pelos seus próximos. Desde os mais imediatos (o velório, o funeral) aos mais insensíveis (a habilitação de herdeiros, a cessação de contas nos bancos), ninguém parece conseguir escusar-se ao seu cumprimento, independentemente de estado de dor, atitude religiosa ou inquietude anárquica.

Presumo que esses ritos sejam uma herança laica, higiénica e burocrática das reações dos homens primitivos perante o fenómeno da morte. Será fácil concluir que a sobrevivência religiosa se faz à custa de efetivo fervor e haverá mesmo quem esteja convencido da utilidade inequívoca dos procedimentos legais que o Estado moderno impõe aos enlutados relutantes.

No entanto, antes de concluirmos por uma tese de rutura, seria talvez melhor pensarmos que, desde que a nossa espécie tomou consciência da sua condição biológica, os rituais que todas as culturas fazem acontecer no rescaldo de uma morte são menos manifestações de uma metafísica espontânea do que uma forma muito eficaz (e desesperada) que o homem encontrou para não atingir a plena noção emocional da perda que acabou de sofrer. That's entertainment. Depois, o tempo faz o seu trabalho de pirâmide.


sexta-feira, dezembro 30, 2011

Checkpoint Sunset 2


No escrínio 56 + Tradução 28

Tradução pessoal do poema "Festas da fome", de A. Rimbaud:


"
........Ana, ó Ana, a minha fome
........Em cima da tua burra foge.

Já não tenho mais paladar
A não ser para terra e pedras.
Sempre que a barriga dá horas,
Comamos ferro, carvões, ar.

Minhas fomes, rodai, pastai
........No farelório das pradarias!
E o veneno alegre aliciai
........Dessas flores que são campainhas;

Comei
Calhaus por um um pobre rachados,
As antigas pedras de igrejas,
Os seixos, de dilúvios nados,
Pães em cínzeos vales deitados!

Minhas fomes, bocados de ar negro;
........É o firmamento sineiro;
- É o estômago que me demove.
........É a má sorte.

Surgiram folhas sobre a terra:
Dou-me ao desfrute de um pomar velho.
Colho no seio de uma fenda
Alfaces de lobo e de cordeiro.

........Ana, ó Ana! a minha fome
........Em cima da tua burra foge.
"


Numa versão aproximada, a expressão idiomática "Faire l'âne pour avoir du son" (literalmente: "fazer-se de burro para ter farelo") era cara a Rabelais, criador de um personagem, o gigante Pantagruel, cuja popularidade sempre se deveu sobretudo ao seu apetite mítico. Não conheço nenhum estudo literário que legitime o que vou defender, mas acho pouco provável que esta expressão satírica (o seu verdadeiro significado é: "fazer-se de tonto para, desse modo, obter vantagens") não tenha sido uma das influências decisivas do poema "Fêtes de la faim".

No meu ensaio "O princípio de desvalorização da transcendência" (publicado aqui), proponho algumas pistas de interpretação deste texto que conservam a ambiguidade generosa (e filosófica) a que ele tem pleno direito. No entanto, o presente post pretende sugerir uma leitura da obra enquanto manifestação velada da homossexualidade.

O sujeito lírico diz que a sua fome fugiu sobre a burra de Ana, uma mulher. Isto pode ser a confissão de um desgosto amoroso heterossexual, claro, mas pode revelar também o desvio da fome viril do poeta para o continente do desejo feminino. O burro é um animal híbrido (como, de uma outra forma, o gay o é) e estéril. Essa esterilidade aparece sinalizada em todo o imaginário do texto, e muito particularmente na evocação do mito grego do dilúvio, que narrava um modo de gestação da vida humana (Deucalião e Pirra atirando pedras para trás das costas) que nada tinha a ver com a cópula heterossexual. Encontram-se no poema todas estas linhas de sentido ancoradas na inacreditável simplicidade das suas formulações: o lento renascer do mundo após uma tristeza diluviana (note-se como a dieta do sujeito evolui das pedras para as frutas sorvadas e as alfaces), uma aprendizagem dos hábitos nutricionais (o poeta tornado burro acaba por entender qual a alimentação adequada ao seu novo estado, após ter errado por entre carvões e ferro) e uma arte poética que descreve as possibilidades de criação de vida que estão disponíveis para o macho (a criação lírica, entendida como arte que revela o desejo através dos sons verbais).

O fazer-se de tonto (que tentei, na minha tradução, evocar através da expressão portuguesa "dar-se ao desfrute") não quer dizer que Rimbaud fosse misógino (pelo contrário!), mas que ele teria consciência de que, para os trâmites culturais da sua época, a sua assunção do desejo por um homem equivaleria a uma exposição ao ridículo. Fá-lo, contudo, para levar a água ao seu moinho (o moinho do amor). A partir daqui, as carnes meias podres da fruta que o poema menciona (na minha tradução, o "pomar velho") não podem ser outras senão as de Verlaine, companheiro sentimental e criativo do autor na época em que "Fêtes de la faim" foi escrito.

Este apoucamento de si mesmo encontra equivalência nas mesquinhices sonoras (um falar por baixo da burra) que a escrita propõe: rimas demasiado fáceis ("Anne, âne"), rimas desafiadoras das regras clássicas da versificação em francês ("blettes", "violette"), a ausência inesperada de uma rima ("déluges"), ironias etimológicas ("liseron" é um diminutivo de "lis", flor-símbolo dos poetas parnasianos que tinham grande sucesso à época), trocadilhos de gosto duvidoso (como muitos comentadores já reconheceram, a onomatopeia sugestiva de sino ou campainha, "dinn", faz lembrar o imperativo do verbo "jantar": "dîne"), paronímias pouco assumidas (tenho a certeza de que as palavras "doucette" e "violette", nomes de plantas, foram escolhidas por se aproximaram dos conceitos de "douceur" e "violence", já que a doçura e a violência são os dois pólos entre os quais se organiza toda a relação sentimental, nomeadamente a dos próprios Rimbaud e Verlaine), etc.

Não encontrando, na língua portuguesa, uma onomatopeia de igual alcance à usada pelo escritor francês, optei por recorrer à expressão "Sempre que a barriga dá horas", capaz de cobrir todo o espaço semântico que a minha hermenêutica levanta. Por outro lado, permiti-me uma pequena liberdade, que passo a descrever. O termo "doucette" é um regionalismo que, em português, pode ser traduzido por "alface-de-cordeiro". A solução encontrada no antepenúltimo verso da tradução pretende sugerir o mesmo efeito bipolar do poema original. Na verdade, só me interessa traduzir se o texto que resulta dessa atividade tiver um poder de sugestão, na língua de chegada, que de algum modo possa competir com aquele que foi originariamente criado na língua de partida.


(O texto original pode ser lido aqui)

sábado, dezembro 24, 2011

Partilha 133

no dia a seguir ao nascimento
já se podia por certo dizer
que ele não tinha nascido ontem

naquele tempo como hoje
isso pode ser dito de alguns homens
mas
(tecnicamente falando)
de nenhum deus

domingo, dezembro 18, 2011

"Habemus papam" - imagem


O ATUAL 32

"Habemus papam" - Nanni Moretti 



(O segundo parágrafo do presente post tentará ser algo morettiano; mas como eu não sou o Moretti e ninguém pode ser quem não é, sair-me-á com toda a certeza um parágrafo simplista e até demagógico, pelo qual adianto desde já as minhas desculpas ao leitor)

A história que toda a arte sofre deve a sua configuração tanto ao progresso que experiência e pensamento conjugam numa impressão-de-dialética, como à casualidade com que os homens sempre remam a favor ou contra a corrente do tempo. Mas como ninguém empresta relevância a este último elemento da equação, e porque moda e modernidade se tendem a confundir nos corações frágeis, a vanguarda toma sempre um certo ar de censura para com tudo o que não se escreva com o lápis azul do momento. Por vezes com razão (o bolor está por todo o lado). Outras vezes não.

Aquele cinema contemporâneo que vai sendo objeto de consagração crítica (e de ameaça de institucionalização histórica) parece auferir o seu prestígio com base em três critérios: ascetismo (herdado de Dreyer e Bresson), violência gráfica (a tradição americana) e, acredite-se ou não, excentricidade (ou talvez deva dizer "esquisitice", para não ofender a brava ética daqueles que se mantêm fiéis a si mesmos). Claro que há excelentes exemplos de gente que trabalha bem esses pressupostos (Albert Serra, Park Chan-Wook ou David Cronenberg, respetivamente), mas a verdade é que, hoje em dia, é quase impossível ir ver um grande filme no qual se possa assistir a uma boa conversa, a um momento de prazer genuíno, a uma gargalhada, a um beijo terno, a um jogo de futebol, a uma dança despretensiosa, a qualquer coisa que nos faça lembrar a dimensão humana em toda a sua ausência de esplendor positivo ou negativo. A vida sem merdas, como se contemplava no cinema de Charles Chaplin, de Jean Renoir, de John Ford, ou (sim, sim!) na Nouvelle Vague francesa. Nunca me esquecerei da cena hilariante em que, num dos seus filmes, Nanni Moretti inferniza um crítico de cinema no seu leito de morte por este ter tecido elogios insensatos a "Henry: portrait of a serial killer".

Moretti não quer, portanto, ser o melhor cineasta (il più bravo), mas a sua menoridade indiscutível permite-lhe, em "Habemus papam", resolver o dilema metafísico que o escritor Herman Melville deixara em aberto (em ferida aberta) nas suas duas obras fundamentais: "Moby Dick" e "Bartleby, the scrivener". Apesar de, com toda a evidência, o realizador não ser um homem de fé, ele respeita o facto de que, para certos homens, Deus possa tomar a forma de uma intervenção transcendente neste nosso mundo Aquém. O presente à Igreja Católica que esta obra constitui (presente imerecido, como diz o autor, e eu concordo com ele) reside precisamente nisto: se um homem sente que foi na verdade escolhido por Deus, o seu primeiro passo de profunda fé é a imediata abdicação de todo o poder. A maior ambição confunde-se assim com a maior recusa de qualquer gesto de sobranceria épica. O cristão é aquele que simplesmente quer andar no meio dos outros homens.

O filme afigurou-se-me algo mágico, na medida em que o cineasta propõe uma hipótese histórica de uma grandeza burlesca (se bem que nunca faça o argumento entrar num absurdo buñueliano - como disse, Moretti é um autor menor) e, ao mesmo tempo, evita toda a atitude, que aqui seria espúria, de anti-clericalismo. É claro que ele sabe que os cardeais não têm a candura com que são representados em "Habemus papam" (uma coisa é Rossellini figurar a lenda franciscana com uma tonalidade infantil, outra será construir uma imagem edulcorada dos filhos da puta do Vaticano), mas a bonomia do tom do filme é essencial para que o ateu mostre que baixou as armas, pelo menos durante um momento, e está a revelar ao seu opositor qual é a verdadeira dimensão de uma ética política. Sem cinismo nem ironia de nenhuma espécie.

Claro que a obra não é tão pouco negra quanto parece. Note-se como a frustração parece ser a tónica da sociedade presente: não é só o papa eleito que gostaria de ter sido ator, também o psicanalista é um frustrado do voleibol. O próprio facto de o teatro se apresentar como a forma da verdadeira vida (o que é uma herança bergmaniana) tem o seu corolário sinistro na figura do ator enlouquecido, que pode valer quase como sinédoque do estado do mundo. De qualquer modo, "A gaivota" de Tchékhov (citada no filme) não dá uma imagem tranquila nem do teatro nem da vida.

A fita é ainda uma homenagem profunda a Michel Piccoli, que poderia ser quase um papa do cinema. Ao representar o papel de um homem que deixou de ser ator para se tornar padre, ele transmite aqui uma espécie de ética do intérprete, aquele que deve abandonar as características superficiais do seu métier (carreira, aprendizagem) para se fundir por completo no destino de um personagem. Ora, não está esta forma de abdicação em sintonia profunda com a espiritualidade de "Habemus papam"?

domingo, dezembro 11, 2011

Checkpoint Sunset


Estou a desenvolver um projeto cinematográfico cujo título (provisório) é "Checkpoint Sunset".

Dada a total insegurança que preside às circunstâncias (da vida em geral, do cinema em particular, de Portugal desde sempre e para todo o sempre, da minha modesta vidinha), não sei se a coisa passa de obra virtual a obra pessoal (e isto é bem mais do que um problema de tags). Mas não sou favorável ao segredo como estratégia de legítima defesa.

Por vezes, este blogue acolherá posts que, de forma muito oblíqua, se podem relacionar com o espírito de tal empresa.

Cadernos filosóficos 1

Tenho a infelicidade de me sentir atraído por esferas da atividade intelectual que são normalmente consideradas inúteis. Poesia, filosofia, cinema... Enfim, para que alguém perceba que, noutras civilizações, a filosofia até terá sido considerada uma área fundamental do saber e um instrumento irrecusável de orientação da vida prática, é preciso conhecer-se um pouco de história e é preciso ter-se cultura filosófica suficiente para se saber distinguir essência de contingência...

Mas, por favor, não me tentem tirar o rabo da boca da pescadinha com programas da Paula Moura Pinheiro. A filosofia serve, por exemplo, para nos questionarmos, inundados de dúvida e inquietude, se os fundamentos que conformam uma sociedade (ou uma civilização) se continuam a justificar, se merecem a sua imutabilidade, ou se estão a condenar a humanidade ao absurdo.

Ouço coisas interessantíssimas sobre se a dívida é para pagar ou para gerir (e até há o Freitas do Amaral que é ambidestro), mas ninguém parece querer ir ao fundo da questão, e perguntar se um mundo tão frágil como o nosso (no qual a sobrevivência nunca se encontra na verdade garantida) pode estar dependente de um esquema de gestão dos recursos e dos serviços que se ancora em perigosos números de circo como o crédito ou a especulação. Parece que há países que se portam mal (???), mas até que ponto é que podemos confiar na humanidade daqueles que se conseguem portar bem perante tais desvarios?

Um em cada esquina

A figura lendária de Cristo trouxe consigo (de onde, não me interessa) uma iluminação bastante incómoda: a ideia de que o amor seria um fator tão público quanto privado e poderia desse modo funcionar como o elemento constitutivo e agregador de toda a sociedade humana. A mensagem, claramente (e a despeito de habermus papam), não vingou.

Talvez Cristo não tivesse razão (aliás, eu sou daqueles que acham que o Espinosa, príncipe dos filósofos, é que talvez a tivesse um pouco). A maior prova da impraticabilidade da sua teoria é o facto de a maioria dos cristãos serem defensores empedernidos de um modelo económico no qual a palavra "amor" só entra enquanto material para anedotas de puro cinismo. Bem, se eu acreditasse que o filho de Deus himself tinha pronunciado tão inquietantes palavras, não descansaria enquanto não me tornasse santo. Mas, enfim, reconheço que eu talvez seja um bocado exagerado.

De qualquer modo, mesmo o maior disparate (ou talvez só o maior disparate?) costuma conter em si um indício revelador de qual é o verdadeiro problema a que ele não conseguiu dar solução. Cristo tocou, de facto, numa corda sensível: a da continuidade entre erotismo privado e erotismo público. Que ele tenha pressuposto que essa continuidade seria cristalina e inconsútil, só vem dar razão àqueles que defendem que a sua mãe não terá sido fodida por ninguém.

Mas as teorias civilizacionais de Freud voltam a pegar o touro pelos cornos (ainda que isto de touradas da mente não seja nada consensual). E embora o amor seja assunto que se queira sempre confinado (confinado à adolescência, ao adultério que permanece oculto, à pornografia em rede, à casa de putas, à instituição poesia, ao comércio cinema, à histeria pop, ao consultório do sexólogo), é preciso ser muito marxista para não reconhecer o papel do erotismo na dinâmica da vida política. Não é preciso chegar ao Hitler... Basta pensar na inflexibilidade ereta de José Sócrates, na voz maviosamente treinada de Pedro Passos Coelho, na genuinidade oral de Cavaco Silva comendo a sua monárquica e honesta castidade, no glamour misterioso de Álvaro Cunhal ou nas estrias que a boa vida deixou na popularidade de Mário Soares para percebermos que, se não podemos passar, por analogia simplista, de um erotismo a dois para um erotismo de multidão, também não nos é lícito supor que o desejo e suas múltiplas fantasias, taras, frustrações e segredos, não seja um motor da experiência da cidadania. Claro que nos virão dizer sempre que não, que há o Direito, a Grécia Antiga, a Maria Barroso...

Jean Genet, na sua obra dramática "A varanda" (que vi recentemente representada pelo Teatro da Cornucópia) vem pôr o dedo em toda esta ferida. Ao contrário de Cristo, como seria de esperar: ele não vem propor uma salvação mas exibir o mal em toda a sua glória. Os textos de apoio ao espetáculo que vinham registados no seu programa pareceram-me de uma candura inacreditável (mesmo o de Lacan). É como se ninguém quisesse realmente admitir o descaramento ao mesmo tempo despido e feroz do marginal escritor.

Desde logo discordo do pressuposto de que Genet não esteja a falar de si mesmo neste seu texto tardio. Pelo contrário, o autor vem reclamar que, sendo o bispo, o juiz e o general, figuras do imaginário erótico coletivo (enquanto detentores de um poder ativo na sociedade), a sua situação enquanto homossexual exige que uma nova fantasia de autoridade seja celebrada, a saber, a do polícia (que tanto o sugestiona enquanto macho inequívoco como enquanto contrapartida do prazer algo masoquista que encontrou na marginalidade). Lamento imenso desiludir todo o espectro político, da extrema esquerda à extrema direita, assim como os psicanalistas edificantes e o público do teatro, mas "A varanda" é, acima de tudo, uma peça sobre o prazer de se ser enrabado.

Não quero com isto dizer que a obra seja reacionária (Genet foi solidário com as causas dos negros ou dos palestinianos, e manteve uma postura de outsider até ao último momento da sua vida). Mas o autor disse, uma e outra vez, que não havia nenhuma intenção satírica em "A varanda" (nem nenhuma militância política em sentido estrito), sendo o texto sobretudo uma glorificação da imagem e do reflexo. Ou seja, um produto de puro erotismo. A auto-castração do revolucionário vencido que decorre perto do fim da peça é indiciadora do desejo de passividade de todo o homem perante o fascínio fálico de um detentor do poder.

Genet não se via como um modelo de virtudes (ao contrário de Cristo, ao contrário de Sartre). Ele oferece toda a sua maldição numa festa que ao mesmo tempo é capaz de nos pôr de pau feito e de nos alertar para os escombros mais profundos do pensamento. Não sinto grande concordância com o seu exemplo moral (aliás, no presente, a homossexualidade já nem é um problema que se possa colocar da mesma maneira), mas prefiro de longe toda esta arte feita de flores do mal do que as páginas dos autores nobelizados que mais se assemelham aos programas do Bloco de Esquerda do que a visões sinceras e inquiridoras do que significa ser humano. De qualquer modo, se, depois de "A varanda", ainda quiser continuar a acreditar bonacheironamente na farsa da política (tal como esta usualmente se apresenta), é porque, se calhar, o seu cu tem razões que a razão desconhece.

Entretanto, regresso ao Espinosa, que, parece-me a mim, passou pela vida como se esta fosse um labirinto incapaz de lhe impedir a saída para o rigor.

segunda-feira, novembro 28, 2011

Nota "Sur la plage de Belfast"

Há dois tipos de pessoas: pessoas do tempo de guerra e pessoas do tempo de paz.

As primeiras são muito mais numerosas, e nelas se incluem os resistentes, os revolucionários, os lutadores, os agitadores, os descarados, os disparatados. As outras, nas quais envergonhadamente me incluo, têm pouco sentido de urgência, acalentam uma infinita preguiça quando confrontadas com problemas facilmente evitáveis, e nunca se sentiriam aborrecidas se vivessem num efetivo Paraíso.

Um gajo deste último género é muito pouco útil neste momento em que se desenha, nas estrelas da bandeira europeia, uma tempestade perfeita. O Kiarostami é por vezes criticado porque, nos seus filmes, não aborda diretamente questões políticas relacionadas com o seu infeliz Irão. Mas algo de semelhante se pode dizer do Paradjanov ou do Erice de "El sol del membrillo" (ou seja, das minhas maiores referências). O homem do tempo de paz apenas consegue mostrar aos outros como viver num contexto precioso em que os assuntos de sobrevivência urgente foram superados. Não porque seja um moralista, ou um exemplo, mas precisamente porque gosta de viver assim e porque o faz com toda a naturalidade.

O pequeno filme "Sur la plage de Belfast", de Henri-François Imbert, conta uma espécie de história de ressurreição: o realizador pega nas imagens que encontrou por acaso numa câmara de um homem que morreu sem as mostrar àqueles que foram filmados (a sua família) e leva-as até a este grupo de pessoas, que habita na Irlanda do Norte. O visionamento desses rushes da vida quotidiana de algum modo devolve o morto à sua família (o que é ainda mais intensificado quando Imbert filma os protagonistas das imagens no mesmo décor em que haviam sido filmados há cerca de uma década).

O realizador menciona a estranheza que deriva do facto de alguém ir filmar a Irlanda do Norte sem ser para documentar a sua instabilidade bélico-política. Mas o seu gesto coincide com uma espécie de cessar de ofensas entre católicos e protestantes (presumo que temporário) e, no seu voluntarismo desinteressado (alguém que viaja até outro país apenas para devolver umas imagens aos seus destinatários), mostra aos neófitos da paz como se pode viver num clima social sem turbação. A ressurreição é também a da própria Irlanda do Norte: como o cinema é uma arma generosa, pode captar esse momento de plenitude desejada.

Pela minha parte, sei que me tornarei pouco relevante nos tempos que se adivinham.

domingo, novembro 27, 2011

Nota "Offside"

As razões pelas quais um cineasta como Sergei Paradjanov foi aprisionado várias vezes na União Soviética não terão sido políticas em sentido estrito. A sua imensa liberdade, como pessoa e como artista, é que terá incomodado o estado de necrose da ditadura supostamente revolucionária.

No caso de Jafar Panahi, perseguido pela atual teocracia iraniana, a questão coloca-se de modo diverso, na medida em que este realizador quer fazer cinema como quem põe dedos nas feridas. Ainda não pude ver "Isto não é um filme", infelizmente, mas uma obra como "Fora de jogo" reúne todos os condimentos para arreliar as bestas do regime. Parece um prolongamento natural da revolta verde dos jovens persas que, há algum tempo atrás, encheu os ecrãs televisivos de uma esperança para este país tão cheio de imprevisibilidades (como a de ser o contexto de uma das melhores cinematografias do presente...).

Panahi ataca em várias frentes: através de um questionamento filosófico que parece não querer distinguir-se da idade pueril dos porquês (não faz isto tão bem como Kiarostami, de quem foi assistente, de resto, mas a menor sofisticação torna-se secundária perante a relevância dos argumentos que reduzem uma cultura ao absurdo), oferecendo imagens de mulheres travestidas aos seus espetadores amordaçados por uma moral criminosa (e esta afronta de género será muito mais ameaçadora do que o problema de quem pode ou não assistir a jogos do desporto rei) e construindo o sonho de um país de plena celebração, um país de multidão convivendo nas ruas sem qualquer burca de triste sisudez.

Qual das três afrontas (pedra no sapato, punho fechado, cabeça na lua) é a decisiva, isso não posso saber. Mas para alguém que, como eu, detesta futebol, esta maneira de confundir revolução com festa da bola consegue de facto produzir todo o impacto político de uma evidência poética.