segunda-feira, novembro 28, 2011

Nota "Sur la plage de Belfast"

Há dois tipos de pessoas: pessoas do tempo de guerra e pessoas do tempo de paz.

As primeiras são muito mais numerosas, e nelas se incluem os resistentes, os revolucionários, os lutadores, os agitadores, os descarados, os disparatados. As outras, nas quais envergonhadamente me incluo, têm pouco sentido de urgência, acalentam uma infinita preguiça quando confrontadas com problemas facilmente evitáveis, e nunca se sentiriam aborrecidas se vivessem num efetivo Paraíso.

Um gajo deste último género é muito pouco útil neste momento em que se desenha, nas estrelas da bandeira europeia, uma tempestade perfeita. O Kiarostami é por vezes criticado porque, nos seus filmes, não aborda diretamente questões políticas relacionadas com o seu infeliz Irão. Mas algo de semelhante se pode dizer do Paradjanov ou do Erice de "El sol del membrillo" (ou seja, das minhas maiores referências). O homem do tempo de paz apenas consegue mostrar aos outros como viver num contexto precioso em que os assuntos de sobrevivência urgente foram superados. Não porque seja um moralista, ou um exemplo, mas precisamente porque gosta de viver assim e porque o faz com toda a naturalidade.

O pequeno filme "Sur la plage de Belfast", de Henri-François Imbert, conta uma espécie de história de ressurreição: o realizador pega nas imagens que encontrou por acaso numa câmara de um homem que morreu sem as mostrar àqueles que foram filmados (a sua família) e leva-as até a este grupo de pessoas, que habita na Irlanda do Norte. O visionamento desses rushes da vida quotidiana de algum modo devolve o morto à sua família (o que é ainda mais intensificado quando Imbert filma os protagonistas das imagens no mesmo décor em que haviam sido filmados há cerca de uma década).

O realizador menciona a estranheza que deriva do facto de alguém ir filmar a Irlanda do Norte sem ser para documentar a sua instabilidade bélico-política. Mas o seu gesto coincide com uma espécie de cessar de ofensas entre católicos e protestantes (presumo que temporário) e, no seu voluntarismo desinteressado (alguém que viaja até outro país apenas para devolver umas imagens aos seus destinatários), mostra aos neófitos da paz como se pode viver num clima social sem turbação. A ressurreição é também a da própria Irlanda do Norte: como o cinema é uma arma generosa, pode captar esse momento de plenitude desejada.

Pela minha parte, sei que me tornarei pouco relevante nos tempos que se adivinham.

domingo, novembro 27, 2011

Nota "Offside"

As razões pelas quais um cineasta como Sergei Paradjanov foi aprisionado várias vezes na União Soviética não terão sido políticas em sentido estrito. A sua imensa liberdade, como pessoa e como artista, é que terá incomodado o estado de necrose da ditadura supostamente revolucionária.

No caso de Jafar Panahi, perseguido pela atual teocracia iraniana, a questão coloca-se de modo diverso, na medida em que este realizador quer fazer cinema como quem põe dedos nas feridas. Ainda não pude ver "Isto não é um filme", infelizmente, mas uma obra como "Fora de jogo" reúne todos os condimentos para arreliar as bestas do regime. Parece um prolongamento natural da revolta verde dos jovens persas que, há algum tempo atrás, encheu os ecrãs televisivos de uma esperança para este país tão cheio de imprevisibilidades (como a de ser o contexto de uma das melhores cinematografias do presente...).

Panahi ataca em várias frentes: através de um questionamento filosófico que parece não querer distinguir-se da idade pueril dos porquês (não faz isto tão bem como Kiarostami, de quem foi assistente, de resto, mas a menor sofisticação torna-se secundária perante a relevância dos argumentos que reduzem uma cultura ao absurdo), oferecendo imagens de mulheres travestidas aos seus espetadores amordaçados por uma moral criminosa (e esta afronta de género será muito mais ameaçadora do que o problema de quem pode ou não assistir a jogos do desporto rei) e construindo o sonho de um país de plena celebração, um país de multidão convivendo nas ruas sem qualquer burca de triste sisudez.

Qual das três afrontas (pedra no sapato, punho fechado, cabeça na lua) é a decisiva, isso não posso saber. Mas para alguém que, como eu, detesta futebol, esta maneira de confundir revolução com festa da bola consegue de facto produzir todo o impacto político de uma evidência poética.

Dicionário 18

Segundo o "Dicionário de expressões idiomáticas" da responsabilidade de António Nogueira Santos, o dito familiar "a pão e água" tem, como equivalente linguístico, uma outra fórmula bem mais branda, a saber: "a pão e laranjas".

Claro que a validade emocional desta segunda expressão terá adquirido o seu fundamento num contexto em que o citrino em causa seria uma banalidade de nutrição popular. Mesmo assim, há uma doçura potencial, uma corzinha apetitosa, uma vitamina c de copiosidade, que contrariam um pouco o sabor que a água, ainda que bem essencial, não tem.

Muitos santos se terão restringido ao pão e à água (deve ser verdade porque - isso está hoje cientificamente provado - o vinho só alimenta anjos). Mas o que importa é que cada um seja cuidadoso a sonhar o menu que há-de levar para a ilha deserta da crise. Já sabemos que um romano faria do "pão e circo" uma dieta de cidadania. E Maria Antonieta, talvez com mais fama do que proveito, teria a delicadeza de condenar o seu povo a "brioches e champanhe". Recuso-me a perguntar a Ferran Adrià qual seria a sua ementa. As possibilidades são, contudo, infinitas, até porque a boca não come só matéria mas também se alimenta de palavras.

Ainda não escolhi a essência da minha penúria: pão de alho e sangria? scones e chá de canela-maçã? uvas moscatel e vichyssoise?

domingo, novembro 20, 2011

"L'éternel départ" - imagem


O INATUAL 70

"L'éternel départ" - Saguenail (2010)



Uma imagem funciona tanto enquanto projeção daquele que a provoca como enquanto estratégia de mumificação do presente. Apesar de quase todo o cinema tender a esconder esta sua propensão para a necrose, é natural que alguns realizadores a queiram assumir. Foi o que Saguenail fez, quando decidiu filmar o cemitério como imagem de si mesmo e o mundo como mera dilação do cemitério.

As metáforas devem a sua beleza não à analogia que as parece justificar mas à diferença que essa mesma analogia torna mais patente. Assim, ao contrário do que acontece com as árvores (submetidas ao ciclo das estações, a uma partida eterna), cada ser humano tem direito a apenas um inverno. Esta tensão entre a consciência pessoal e a indiferença do mundo às imagens provocadas por e nessa consciência pode levar a uma tentação algo espinosana. Ou seja, pode a alegria moral do indivíduo encontrar a sua força e o seu alimento na conjugação com a alteridade: na desvalorização da morte de si mesmo por solidariedade com a sobrevivência da espécie, nas temporalidades alternativas que o mundo consegue oferecer.

"L'éternel départ" pratica uma montagem de temporalidades, um pouco como Deleuze sugeriu, mas de forma bem carnal, ancorando as evidências da passagem dos dias em corpos de luz e de música. As imagens de flores nas gavetas tumulares, intercaladas com as citações de pintura, conseguem mesmo criar a impressão de que o cemitério está a ser transformado por uma primavera. Muito bela também a sequência do nascer do sol, que quase consegue inventar uma leveza para este filme.

Quase. Porque Saguenail parece preferir assumir uma moral de outra estirpe, mais negra, mais dura, um abraçar épico de toda a mortalidade (o outro é também um morto) para de algum modo assim defender a inexpugnável fragilidade do acidente-vida.

Partilha 132

voz de bette davis



(o=51)

boa noite
o meu nome é pedro ludgero
e sou um poeta

para atingir este nível de aceitação
foi preciso percorrer um longo caminho
muitos versos muitos vómitos dias em claro
(mais ou menos treze passos)

mas talvez não queira ainda o fim da poesia
e nem é pelo seu estatuto de tradição
nela não se espeta só o dorso do touro
espetam-se ovos, vinhos passados
estacas no coração.....................................................

[se o sol nasce para todos
todos têm de viver um dia de cada vez]

domingo, novembro 06, 2011

Danos colaterais

1. Não conheço o essencial da obra do documentarista norte-americano Frederick Wiseman, mas diria que, no seu excelente último filme "Crazy Horse", ele tenta mostrar como a encenação erótica que preside ao espetáculo de um cabaré de sucesso parisiense é uma forma de institucionalizar o corpo (note-se como os protagonistas da fita são, precisamente, o metteur en scène e o seu candidato a sucessor). Talvez o passo seguinte para Wiseman devesse ser o making of de um filme de ficção hollywoodiano - para acabar de vez com os making ofs que pretendem adulterar a imagem do que é, na verdade, a produção do cinema industrial.

De qualquer modo, este post pretende sobretudo chamar a atenção para uma parte do documentário na qual as bailarinas do "Crazy Horse" assistem a uma montagem hilariante de cenas onde se registam erros, quedas, passos em falso de profissionais do ballet supostamente sério. Por um lado, a sequência mostra a relativa frustração de quem sente que tem de cumprir um papel a meio caminho entre a artista e a puta. Mas, muito mais importante do que isso (e mais irreverente), é a sensação que fica de que o ballet clássico (outra maneira de institucionalizar o corpo) guarda em si mesmo uma falha, um erro colossal, que é a ocultação da nudez e do erotismo.



2. Perto do final do segundo livro de "Guerra e Paz", Lev Tolstói descreve uma cena na ópera moscovita vista através dos olhos da puríssima Natacha. Qualquer saga oitocentista tem de ter uma cena na ópera, claro, mas o romancista russo pica o ponto de maneira brilhante: ao mesmo tempo que regista os rituais codificados e cínicos da vida da alta sociedade (em tudo opostos ao caráter da personagem em foco), relata os acontecimentos no palco como se estes fossem um disparate mecânico, sem sentido (narrativo) nem grandeza. Se Natacha tivesse percebido a mensagem do espelho teatral, talvez tivesse ficado alerta para a cilada que lhe pretendem montar. Acontece que esse teatro descrito por Tolstói não corresponde à estética factual do que se passa sobre o palco, mas é apenas o resultado da desatenção eloquente de Natacha. E assim, de modo indireto e com toda a certeza sem o pretender, o escritor realista descreve uma possibilidade de vanguarda dramática, a meio caminho entre o dadaísmo e o absurdo.

terça-feira, novembro 01, 2011

Voltas que o tempo dá

O poema "Voz de Maria Casarès" foi rescrito. O post em que o tinha partilhado foi, portanto, devidamente atualizado: aqui.

domingo, outubro 30, 2011

Cadernos Rimbaldianos 9
















Neste último agosto de muito pouca felicidade privada, confesso que a overdose de leitura do (e sobre o) poeta de Charleville me despertou um estranho mas, em todo o caso, bem estival, interesse pela cerveja. Bebi bastantes minis, daquelas que estavam em promoção no Pingo Doce (isto anda tudo ligado: pingos, pingas, frescuras e azedumes). Nunca antes tinha apreciado esse licor de macho e penso que não terá passado de um subtil amor de verão.

Mário Cesariny traduziu (celebremente) o título de "Une saison en enfer" por "Uma cerveja no inferno" porque um tal de fulano ou sicrano tinha descoberto que "Saison" era uma marca de cerveja popular no contexto (epocal e regional) de Rimbaud. Discordo em grande parte da ousadia do tradutor, pois, mesmo que houvesse alguma traquinice lexical por parte do jovem poeta (e as traquinices são mato na sua escrita), o paradoxo de temporalidade que o título do seu livro pseudo-confessional exprime (uma mera estação na condição eterna de danado) é bastante mais relevante para o seu entendimento do que o indício de boémia que a levedura revela. No entanto, é impossível não se ficar alerta. E já faz todo o sentido que Cesariny traduza "O saisons, ô chateaux! / Quelle âme est sans défauts?" por "Esta cerveja! essa rua! / A miséria que isto sua!". Talvez o leitor possa até ser mais facilmente sugestionado por uma versão sem preocupações sonoras: "Ó cerveja, ó rua das putas! Que alma não tem defeitos?"...

Um pouco ébrio de tudo isto, fiz por vezes uma leitura alquímica da poesia de Rimbaud. O ponto alto desse delírio foi a interpretação, completamente abusiva, do poema "L'éternité" como sendo uma homenagem figurada aos efeitos sublimes da cerveja: o mar que parte com o sol fez-me lembrar (os viciados na intertextualidade podem chegar à alucinação) o raio de sol poente sobre a espuma de cerveja que conclui o soneto "Au Cabaret-Vert, cinq heures du soir", um momento antes de ela ser bebida. De qualquer modo, o autor de "Comédie de la soif" teria com toda a certeza preferido que o lessem como um borracho do que como um místico selvagem.

domingo, outubro 23, 2011

"Sangue do meu sangue" - imagem


O ATUAL 31

"Sangue do meu sangue" - João Canijo 



Não há um mas sim dois filmes na versão curta de "Sangue do meu sangue" (o motivo que leva João Canijo a estrear em simultâneo duas versões da mesma obra ultrapassa-me), porque dentro de cada família se formam pares de amantes aos quais o interdito sexual traz uma intensificação histérica do afeto.

Há o filme de Rita Blanco, da mãe levemente desinteressada do seu filho e obcecada pela filha. Como muitas vezes acontece quando se aborda o tema quente do incesto ("Oldboy", "Le souffle au coeur"), é possível fazer o discurso atingir um certo grau de malevolência. Por um lado, assinala-se a consanguinidade figurada que assombra toda a mobilidade social: o personagem de Marcello Urgeghe soa completamente a falso porque ele, no fundo, não sabe representar o papel que o livrou das origens humildes. Mais importante ainda, o que preocupa Márcia (a composição de Blanco) não é tanto a efetiva concretização de um incesto por parte da filha, mas apenas a consciência traumática que esta pudesse ter da sua afronta ao tabu. O pragmatismo anti-anagnórise da mãe galinha é perverso, como quase sempre acontece nos grandes amores de teor feminino.

Não conheço muito bem a obra de Canijo porque sempre ma apresentaram sob a égide do preconceito. Do pouco que pude acompanhar, noto, contudo, que houve uma evolução no saber-fazer que tornou o cineasta rigoroso no desenho da câmara, eloquente na construção da banda sonora e acima de tudo francamente responsável na direção de atores. Não me interesso muito por realismo, mas reconheço a absoluta mestria do trabalho de Rita Blanco, da sua mãe popular que não deve nada à Magnani de "Mamma Roma" mas que é diretamente colhida na evidência da cultura portuguesa.

O outro filme, o de Anabela Moreira (a tia que afina pelo diapasão do sobrinho), é muito menos agressivo do que aquilo que se apresenta na sua superfície. Não quero com isto dizer que a atriz seja menos virtuosa (consegue, na verdade, compor um magnífico retrato de sensualidade solitária). Parece-me é que tanto a intérprete como o realizador caíram na esparrela da exibição do martírio (Lars von Trier haveria de gostar...) e que foram sugados por essa pornografia melodramática. A cena da violação de Ivete, que já vimos um ror de vezes no cinema, só faria sentido se fosse mais aforística (como num filme de Bresson) ou se, pelo contrário, ultrapassasse os limites do suportável (como num filme oriental). Da forma como tudo se processa, a personagem não me parece suficientemente respeitada.

Na tragédia clássica, a ação trágica decorre toda fora do palco, e este serve sobretudo como lugar de palavra onde se partilha com os espetadores o comentário moral e emocional a essa ação. Num tempo em que se mostra tudo para que ninguém veja nada, esses textos arcaicos envergonham-nos pela sua sofisticação, integridade e modernidade. Não gosto tanto de "Sangue do meu sangue" como dos filmes de John Cassavetes, mas gosto mais dele do que dos filmes de Mike Leigh.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Monogamia seriada

1. A arregimentação de um conjunto de argumentos esclarecedores quanto à mediocridade das telenovelas não é tarefa que exija especial perícia. Lá porque os bárbaros há já muito tempo fazem parte da implosão e não da invasão, não quer isso dizer que baixemos os braços perante o insolúvel problema. Mas não é preciso recorrer a vasta bibliografia ou a farto dote de oratória para conseguir casar a evidência de merda com o discurso que a denuncia. Às vezes, basta atentar em pormenores aparente e secundariamente simples.

Por exemplo, não há novela que se preze que não ofereça a bela cena em que um cônjuge apanhado de surpresa recebe um envelope que compromete o outro cônjuge com a fotogenia da infidelidade. O que é notável é que nunca há ninguém que se lembre de que o casamento junta seres humanos e não heróicas máquinas de castidade e que, por isso, talvez seja preferível desvalorizar do que não-perdoar. Também nunca há pensadores livres que saibam que a fidelidade do matrimónio é histericamente espiritual e que o sexo talvez não tenha sido feito para a vida a apenas-dois. Acima de tudo, nunca há uma puta de uma personagem que veja telenovelas e que por isso já saiba que, quando chega um envelope com o photoshop da ameaça do amor, isso há-de ser um ardil de argumentista pago para mentir ao mundo.


2. Ao contrário do que aconteceu a Xerazade, uma série televisiva aguenta-se o tempo que o share achar que é preciso. Esta vida e morte de personagens (e dos salários dos atores que elas representam) está sempre por um fio de lucro, e talvez isso seja considerado justo pelos sultões do conservadorismo. Acontece que, quando a série se prolonga por várias temporadas, dado o sucesso que patenteia em impedir o sono-alvo do seu público, é praticamente impossível que um casal se mantenha casal durante todo o tempo da imaginação dos argumentistas (tédio makes the world go round). Logo, por um efeito perverso que põe em causa os silogismos de direita, uma produção de entretenimento regida pelos valores de mercado é uma provocação concretamente cultural ao entendimento da relação amorosa como património imorredoiro. Quod erat demonstrandum.

O amor aos livros (recordações)

1. Com onze anos de idade, parti um pé, o que me fez naufragar no calor das margens da piscina da Granja, enquanto toda a outra gente, absurdamente sem um gesso de castidade, se empanturrava com a água fresca e provavelmente mijada de que os verões da minha infância se alimentavam. Para me entreter, levava para o tédio humilhado uma edição de "Os Lusíadas" do tempo em que os meus pais, forçados pelo estudo, tinham fingido ler "Os Lusíadas".

A minha mãe dizia a toda a gente que eu estava a ler a epopeia da raça com umas magras onze primaveras (quanto mais primavera, mais se lhe rima - diz o povo). Eu não confirmava nem desmentia: lia era as notas do volume, que falavam de deuses, heróis, prodígios, fantasias, toda uma mitologia clássica que foi a minha bd de nerd e a minha decisiva literatura infantil. E era só isso que eu lia, e muito isso contribuiu para o meu amor pelos livros.

Claro que os meus companheiros de pré-parvoeira me achavam uma abécula social. Teriam a sua razão, mas hoje importa-me muito menos o anátema do que a inexatidão do seu teor.


2. Outra aventura foi um "Evangelho" (livro sagrado, diz-se) que havia lá por casa, verde por fora, maduro por dentro. Estava separado da árvore-bíblia. Risquei-o de uma ponta à outra, com palavreado infantil e completamente à margem do assunto em epígrafe civilizacional. Ainda hoje sinto a volúpia de ter escrito (n)um livro comme il faut, e chego a pensar que nesse ato de vandalismo terno (ninguém me chateou) está a primeira pedra das minhas futuras veleidades de auto-edição. Educadores de todo o mundo, desuni-vos.

sábado, outubro 15, 2011

Valsa do indignado

1. Uma história verídica:

Uma pessoa que muito estimo precisava de alguém que lhe trabalhasse o quintal. Outra pessoa que muito estimo foi contratada para tal tarefa. O jardineiro disse ao proprietário que, independentemente de todo o restante trabalho que era necessário, não era a altura do ano adequada para podar uma das árvores do quintal. O proprietário disse que, se não houvesse a dita poda, não haveria contrato para o resto do serviço. O jardineiro, que precisava do dinheiro, aceitou o trabalho e podou a árvore. Veio o verão-em-pleno-outono e a árvore ignorou, claro, a poda.

Isto é o capitalismo.


2. Não sei exatamente o que se vai passar no mundo, e dou de barato (mesmo com o IVA a 23%) que esta crise seja (mais) um momento passageiro que não vai obliterar o triunfo glorioso do capitalismo (ainda que as suas regras e centros de influência estejam sentenciados a uma fatal mutação). O que eu sei é que nunca se atingirá a dignidade plena da vida, enquanto a economia não for fundada na integridade dos produtos e serviços que os homens têm para oferecer a outros homens (integridade material, funcional e ética). O lucro, a publicidade, a especulação financeira, não fazem mais do que, como dizia Godard, oferecer copos de plásticos e bombas atómicas a pessoas que não precisam de copos de plástico nem de bombas atómicas.


3. Não fosse a liberdade que decorre da democracia (e não do capitalismo) e algumas compensações poéticas, e eu julgaria estar já a viver num cenário de distopia.

Partilha 131

voz de leonard cohen



(e=55)


queremos tudo de bom para o poeta

paisagens simples e eloquentes
rapazes que por lá passeiam como um feitiço involuntário
e o vento.......................................
que é uma teia de aranha
mas a contrario
insinuando em todas as coisas
(ao princípio de algum tempo)
o desejo de sair do sítio

também uma biblioteca de sóis
que a leitura torna noite ou ficção
as mais subtis lérias científicas
o décimo terceiro mês
e o subsídio de férias

[tudo
para que o poeta chegue à boca de cena
e
caso seja essa a sua verdade
diga que não é feliz]

Partilha 130

voz de judy garland



(e=47)


então penso
(dado o modo como o mundo se processa)
que um eventual triunfo pessoal
talvez não tenha tento

estatelam-se logo estes meus ossos
até que volto a ser um velho invertebrado
mas se toda a outra gente é padecente
por que não haveria eu de
padecer?.........................................

[não aguento
(a minha carne é alegre)
e quero logo
como o falador de laugharne
viver voltado para a tumidez dos rios]

quinta-feira, outubro 06, 2011

"La dolce vita" - imagem


O INATUAL 69

"La dolce vita" - Federico Fellini (1960)


"La dolce vita" é um número de corda bamba no qual se regista o progresso fatal de um ser semi-caído que ainda tinha a ousadia de olhar para cima. É, portanto, uma contra-ascensão que parte da imagem de Cristo percorrendo o céu de Roma a reboque de um helicóptero, até chegar ao imenso animal morto retirado das águas do mar, tendo, por estações intermédias, a sequência da atriz de Hollywood que um avião faz descer à terra italiana (a meu ver, continua a ser um dos momentos mais belos da história do cinema) e a cena da Virgem Maria invisível que umas crianças brincalhonas inventam para gáudio da comunicação social. De Deus ao Monstro, da Mulher tão superlativa que parece não existir à Mulher que nunca existiu enquanto realidade histórica.

Marcello ainda admira a putativa superioridade da fêmea, assim como ainda admira a vida intelectual e a estabilidade familiar do seu amigo Steiner (já que ele trocou a literatura pelo jornalismo cor-de-rosa). Mas o conjunto de experiências que a loucura romana lhe fornece (desde a velhice incapacitante do seu pai até à tragédia que o mencionado Steiner provoca) levam-no na direção da queda absoluta. Queda que se faz de festa em festa, cada novo momento de paroxismo convivial empurrando mais fundo a tonalidade do grotesco, até à transformação desesperada de uma party girl na imagem de uma galinha. Na sociedade moderna, a perda da referência religiosa não foi acompanhada de uma metamorfose de mentalidades que continuasse a fomentar a possibilidade de relações afetivas duradouras (é exatamente o mesmo problema de "L'avventura", filme do mesmíssimo ano).

No enorme circo de cornudos que é a Roma de meados do século passado, o capricho é que dita a evolução das narrativas (do filme e do mundo). Mas lembro-me perfeitamente de ler uma reivindicação do próprio realizador a respeito desta obra: a ideia de que o seu título não era uma ironia (algo que, em português, soaria como "A boa vida"), mas a constatação de que, apesar de tudo, a vida teria uma certa doçura. E, de facto, o prazer é omnipresente na estética felliniana. Veja-se quão sedutora é a cena da festa aristocrática... O circo, em Fellini, nunca perde a sua intensidade poética.

Mesmo morto por dentro (como morto está o monstro submarino), Marcello/Fellini continua a olhar. Mas para que o cinema do mundo caído não soe a falso, é preciso abandonar a ilusão de uma arte de harmonia e simplicidade clara (como a de Bach ou Giorgio Morandi) e encontrar uma estética também ela caída, ou, pelo menos, semi-caída. Se os paparazzis sinalizam a impossibilidade de alguém se conseguir esconder na amena selva romana como Marcello supunha ser possível, a verdade é que o cinema felliniano não finge distinguir-se da amoralidade do seu frenesi: enquadrar, iluminar, registar o que não é registável (o sofrimento infinito), confundir com uma atriz a mulher que ainda não se sabe viúva e órfã de filhos, iluminar as discussões dos amantes, dar um enquadramento para a morte.

Cineasta frequentemente vilipendiado pelos freaks do ascetismo, o criador de "La dolce vita" assumiu o seu barroco lírico-monstruoso como uma provocação ética a que ninguém consegue ser indiferente. Para a puta da vida, oito putas e meia de cinema.