sábado, julho 30, 2011

Em breve...


.... haverá, neste blogue, uma overdose de posts da rubrica "O INACTUAL". Tenho textos previstos sobre os seguintes filmes: "Los olvidados" de Luis Buñuel, "Pastorali" de Otar Iosseliani, "Opening night" e "Minnie and Moskowitz" de John Cassavetes, "L'arbre, le maire et la médiathèque" de Eric Rohmer e "RR" de James Benning.

Esboço de uma teoria da linguagem

Bertrand Russell conseguiu provar que a função de uma palavra não se resume à sua capacidade de referir um ente que existe no mundo. A filosofia da linguagem foi assim cindida em duas vias que parecem mais conflituosas do que conciliáveis: a palavra entendida como instrumento de referência, a palavra entendida como instrumento de significação.

Basta observar uma criança quando esta começa a apropriar-se dum aparelho linguístico para se notar que a questão da referencialidade não pode ser elidida. A criança aprende a falar atribuindo, precisamente, um conjunto rígido de sons a um objecto concreto que lhe despertou curiosidade ou afecto ("papá", "mamã", "ão ão", "papa", etc.). No entanto, essa curiosidade e esse afecto são desde logo modificadores de qualquer pretensão de neutralidade associável à linguagem: no seu intelecto aparentemente rudimentar, a criança já está a estabelecer sentidos ao conjunto de objectos que consegue nomear. Em breve, começará a fazer pedidos ("abre!", "anda!", "pão!", etc.) e a construir o seu discurso sobre os seres todos que está a descobrir.

Penso que seríamos mais rigorosos se formulássemos o problema do seguinte modo: uma palavra refere sempre um discurso sobre um ente que existe no mundo (sendo importante sublinhar que a própria linguagem faz parte do mundo, o que torna possível a nomeação de seres que só nela podem existir). No dicionário, esse discurso torna-se definição, porque o dicionário é um instrumento ético que tem de conter os limites da discursividade num denominador comum que permita que uma língua/linguagem seja factor de comunicação. Mas o fenómeno é o mesmo: uma palavra, por si só, não tem valor nenhum, até o dicionário precisa de construir um mini-discurso para ensinar a alguém aquilo a que uma palavra se refere (e sabemos como esses discursos são incompletos e polémicos).

O que caracteriza a linguagem não é, portanto, a faculdade de aludir a x ou y ser da realidade, mas a possibilidade de pensar (e repensar) esse ser x ou y. A incoincidência discurso-objecto é por isso um dado essencial, o que quer dizer que o Crátilo mencionado no diálogo homónimo de Platão estava completamente errado quando pensava que cada ser tinha (ou deveria ter) o nome correcto que lhe pertencia por natureza. Essa assumpção (que terá forçado os filósofos a subjugarem o pensamento sobre a linguagem aos ditames da lógica) pressuporia um mundo estável, indiscutível, no limite, fascista.

Não, o desajuste, a atribuição convencional, o acaso histórico, o facto dos nomes serem não-correctos, tudo isso é que permite a emancipação do homem nas questões que estão ligadas à sua especificidade antropológica (obviamente que o homem não pode impedir que H2O seja "água", mas pode escrever um conjunto de Direitos Fundamentais para a sua espécie que nenhuma lógica estrita poderia conceber). Talvez o domínio para-matemático a aplicar à linguística seja a probabilidade, e não a lógica. No mesmo texto platónico, Sócrates acaba por se aperceber de que a linguagem é sobretudo um fenómeno de devir (se isso não lhe agradava muito, agrada-me a mim).

Os nomes não foram dados por Deus. No seu magnífico soneto "Voyelles", Rimbaud parodia a figura do "legislador dos nomes" ao propor um génesis linguístico tendencialmente gratuito. A razão pela qual certos sons (ou certas marcas visuais) adquiriram um sentido mais ou menos concreto é tão antiga, tão aleatória, tão não-legislável, que o cratilismo só pode ser aceite como fantasia literária. É lógico que uma língua traz, em si, as marcas do mundo antiquíssimo onde ela começou a ser gerada (por exemplo, a superioridade social do homem sobre a mulher). Mas a solução não passa pela superficialidade do neologismo (reactivando a rigidez referencial), como fez Lula da Silva ao cunhar o termo "Presidenta". O que é vivo na linguagem, o que é político na linguagem, é todo o jogo de incoincidências que ela consegue gerar através do discurso (formal, conceptual). Foi isso que não perceberam os intérpretes de "Voyelles", quando tentaram atribuir um sentido rígido a um texto que é, sobretudo, um parto (como o início de "Après le déluge").

Mesmo que estejamos apenas reunidos em torno de umas imperiais a dizer meia dúzia de disparates, estamos a tentar construir a possibilidade de relações afectivas (o silêncio que se estabelece entre velhos amantes não deixa de ser uma gestão discursiva do verbo: escolher o que se diz, o que se não diz, o que se diz literalmente, o que se diz com o olhar, etc.). Defendem alguns teóricos que a condição de verdade de uma frase é o conjunto de mundos possíveis nos quais a frase é verdadeira. A possibilidade é, isso sim, a marca d'água da linguagem. Permite tanto formular hipóteses científicas como juras de amor eterno, permite encontrar o conceito de Democracia ou sonhar o Paraíso. Naturalmente, é pela linguagem que nos enganamos, a mentira (consciente ou não) existe em abundância. Mas é só porque nos podemos enganar que podemos também acertar.

O que nos diz a lenda linguística da Torre de Babel? O homem pode construir, não pode é chegar aos céus. Possibilidade e impotência. Discurso e défice de omnisciência. Força ilocucionária e erro. A linguagem é o nosso maior escudo contra o totalitarismo.

Criticando o Pedro Ludgero

No post em que eu exprimi uma certa desconfiança perante o cinema a três dimensões, quis sobretudo desmistificar a ideia de que essa tecnologia da moda (mas nada recente, de resto...) poderia trazer algo de revolucionário à essência da sétima arte.

Nada impede, contudo, que o 3D não possa ser usado com motivações expressivas (por exemplo, acentuando o efeito de alucinação que o cinema tem em si latente). Continua, porém, a não me interessar.

quarta-feira, julho 27, 2011

Partilha 124

voz de maria casarès



(e=67)


 ninguém me demove da suposição
de que
para um novo dia amanhecer
é quase sempre preciso pôr ao sol
um processo de extradição

e é melhor ter tais pruridos
é melhor ter esses sentimentos
em tudo aquilo que possa envolver
os movimentos que nunca dão a cara

todos os dias me treino p'ra copérnico
não me serve a tradição que diz
que uma rede
(de gangster
ou de pescador).....................
tem sua estância no centro do universo

[é bem mais fácil escrever no outono
do que na primavera
porque na primavera os ser's nos chegam
em pdf
e no outono tudo está
em ficheiro
word]

sábado, julho 23, 2011

Partilha 123

voz de antónio zambujo



(e=48)


hoje
o fisális e o louva-a-deus
tiveram de vir trinta vezes
ao palco.................................................
(como se diz que à fonteyn e ao nureyev
uma vez
também aconteceu)

não sei como há quem possa pensar
que o mundo é apenas matéria

não ter mais do que dez a celacanto
reprovar a marés vivas
e usar cábula só p'ra responder
ao perfume de alguém que nos chama

[entre o nariz de cyrano
e o do boneco de collodi
venha a esfinge
e escolha]

sexta-feira, julho 22, 2011

Compreender e ser compreendido

Quando li a obra poética de Rimbaud pela primeira vez, fiquei completamente fascinado, rendido, sem ter percebido nada do que tinha acabado de ler. No entanto, e ao contrário do que sempre se diz sobre o facilitismo do presente, a liberdade faz de todos nós os eleitores do relevo das nossas próprias dificuldades: há quem queira conquistar um salto olímpico, há quem queira seduzir um homem ou uma mulher demasiado belos, há quem tenhas aulas de voz para chegar a primeiro ministro, há quem queira enriquecer... Eu decidi que havia de compreender tudo aquilo que na escrita e no cinema se fazia difícil de apanhar.

Dizem-me que, nas coisas que precisamente vou escrevendo sobre literatura e sobre a sétima arte, eu sou fácil de entender. O elogio é arremessado a título de uma putativa preocupação pedagógica da minha parte, o que, francamente, me custa a aceitar sem algum grau de legítima defesa.

É verdade que, graças não sei bem a quê, nunca fui dado a hermenêuticas simplistas (o mundo está cheio de maus leitores), e nunca restringi a minha relação com uma obra de arte a uma espécie de sherlockiana decifração. Ao discurso de uma obra, eu preciso simplesmente de contrapor o meu discurso, preciso de integrar os seus estímulos no meu próprio sistema (de pensamento, de experiência, de memória, de sensualidade). É, por isso, de forma bastante genuína que eu proponho compreensões transparentes: estou, eu-mesmo, a tentar compreender. E como não sou muito dado à abstracção ou à digressão (estou a ser absolutamente franco), concentro todo o meu labor de leitura em miniaturas de clareza e palpabilidade.

Ao mesmo tempo que quero compreender, eu quero ser compreendido. No fundo, escrevo "O INACTUAL", "O ACTUAL" ou "NO ESCRÍNIO" para que a minha sobrinha (em sentido lato) não me julgue lunático ou pretensioso quando assumo a minha admiração por Chantal Ackerman, Albert Serra ou Wallace Stevens. E quando rejeito "Gone with the wind", "Slumdog millionaire" ou a "Trova do vento que passa". Não tenho grandes ilusões de proselitismo, mas acredito na racionalidade tendencial da argumentação sincera. Se até a Brigitte Bardot tinha dúvidas sobre a beleza do seu corpo ("Le mépris"), e sendo a evidência tão rara quanto a paixão, como não havemos de explicar o pai-nosso ao vigário com a esperança de que este entenda, um dia, o vigarista?

Confissão 31 + Cadernos Rimbaldianos 7

Exactamente como Arthur Rimbaud, eu posso dizer que tive uma infância naturalmente feliz e uma juventude miticamente penosa. Todavia, o poeta francês construiu o seu sofrimento em excesso de vida (quando deixou de escrever, aos vinte anos, parecia ter experimentado uma biografia de muitas décadas), enquanto eu passei a pouca seriedade dos anos em que não se é sério na clausura da minha casa, como Emily Dickinson. Penso que, fascínio crítico à parte, esta será uma das razões subterrâneas pelas quais elegi o autor de "Une saison en enfer" como interlocutor privilegiado (e em torno da sua obra gravitarei certamente durante alguns anos). À aporia faulkneriana que hesita entre a dor e o nada, eu acrescentaria aquela outra que não sabe o que pedir ao génio que sai da lâmpada-do-desejo-único: a felicidade ou a juventude?

terça-feira, julho 19, 2011

Uma reserva à CGI

Uma das novidades da estética que Roberto Rossellini perseguiu na sua trilogia neo-realista foi a libertação da necessidade que os realizadores de ficção sempre sentiram de ocultar, na imagem, os obstáculos criados pela realidade ao processo de rodagem. Isto não só estava de acordo com a ética política subjacente ao projecto (que queria revelar, precisamente, a dureza disso a que chamamos real), como lhe permitia captar, sem contradição, o pulsar do vivo no seio da ficção (Rossellini gostava, por exemplo, de registar os diferentes sotaques com que os seus actores não profissionais falavam espontaneamente). Talvez hoje já não sejamos capazes de avaliar o efeito de choque e fascínio que os seus filmes exerceram na época em que foram estreados, de tal modo o documental se integrou em quase toda a estratégia ficcional minimamente séria e sofisticada que a sétima arte ainda tenha para oferecer. Neste aspecto em particular, o autor italiano triunfou.

De qualquer maneira, a história das rodagens cinematográficas (já alguém a escreveu? e por que não?) é uma espécie de longo poema de aventuras que distingue esta criatividade de quase todas as outras. Sim, o escritor debate-se com as palavras, o pintor com as tintas, o teatro é feito de corpos em acção (ainda que geralmente esteja protegido pela exemplaridade institucional do palco). Mas no cinema é preciso fechar ruas para filmar cenas de exteriores, é preciso esperar que as nuvens revelem o sol previsto no argumento, é preciso por vezes pintar as folhas das árvores, é preciso ir habitar com uma comunidade de pescadores muito tempo antes de começar a registar o seu quotidiano. Seja na ficção, seja no documentário, o realizador tem de saber lidar não só com a realidade em diferido que o motivou a filmar, mas também com a realidade em directo que lhe fornece um atrito sensual no próprio momento do fazer artístico.

Há algum risco de que a computer-generated-imagery coloque em causa esta característica que definiu parte da essência do cinema até ao momento presente. No limite, o cinema pode acabar por confundir-se com os desenhos animados e, na verdade, alguns dos ficcionistas mais relevantes da actualidade já são sobretudo animadores (falo de Tim Burton ou Wes Anderson).

Não queria que o meu leitor me supusesse uma espécie de velho do Restelo tecnológico. Ao contrário de Vasco Graça Moura, estou mais preocupado com o aumento do desemprego do que com esse terrível crime do acordo ortográfico. Acontece que faço amanhã trinta e nove anos, e, pelos vistos, já não me apetece comer tudo o que me põem no prato.

Adenda a "O INACTUAL 62"

Uma das manifestações do conceito de burlesco da infidelidade que propus para "Jules et Jim" é o tipo de expressão facial que nesse filme é trabalhado pela actriz Jeanne Moreau. Não é que ela realize as suas patifarias (sexuais e não só) com uma expressão deadpan, como se dizia a propósito de Buster Keaton... No entanto, a partir da legibilidade do seu rosto não é minimamente possível prever o absurdo dos vários passos da sua acção. Catherine recebe um convidado, põe os cornos e comete suicídio com a cara invariável de quem está sempre a resistir à assumpção do sentimental.


(Nota: Em contraponto, quando, numa das cenas mais líricas da fita, Catherine exibe expressões do rosto vívidas e felizes, de imediato essas expressões são congeladas)

domingo, julho 10, 2011

Uma reserva ao 3D

Mesmo sem a muleta de um acompanhamento musical, o visionamento de um filme mudo pode facilmente proporcionar, ao espectador sugestionado, o pressentimento de uma banda sonora latejando no seio do seu silêncio. No entanto, quando o paradigma da sétima arte mudou, o registo auditivo não foi apenas utilizado para confirmar as sugestões sonoras implícitas numa imagem, mas serviu como uma fonte de informação totalmente nova e diferente. Com a modernidade progressiva do cinema, a dimensão visual e a dimensão sonora tornaram-se cada vez mais independentes uma da outra: no limite, Marguerite Duras pôde fazer dois filmes diferentes sobrepondo imagens distintas à mesma banda sonora ("India Song" e "Som nom de Venise dans Calcutta désert"). A tensão entre o audio e o visual é mesmo uma das características centrais da imagem-tempo, tal como Gilles Deleuze a teorizou. De qualquer modo, mesmo no cinema standard a divergência tendencial entre som e imagem parece ser um dado adquirido.

De igual modo, a chegada da cor aos filmes veio trazer um acréscimo de informação que não poderia ser deduzido da gama de cinzentos da estética anterior. É claro que a paleta colorida trabalhada no cinema é geralmente realista (cada objecto está pintado com a cor expectável), mas os grandes formalistas da sua história (Godard, Antonioni ou Paradjanov) não hesitaram em experimentar ao nível cromático.

O 3D não traz informação absolutamente nenhuma àquela que o ecrã pode fornecer, pela simples razão de que o olho humano já converte toda a informação visual que recebe num mapeamento tridimensional. Há, por isso, o efeito de alguma redundância no seu uso. Talvez uma inovadora teoria (e prática experimental) da perspectiva possa desbloquear este sentimento de inutilidade, mas, até agora, o 3D tem estado restringido ao cinema de entretenimento (em que não se pensa nem se experimenta nada), e ainda não conseguiu ultrapassar a fasquia do divertimento de feira popular (está na continuidade das pipocas). Wim Wenders (hoje um cineasta francamente desinteressante) filmou o seu documentário sobre Pina Bausch com esta nova tecnologia, e com isso parece ter dado caução autoral ao cinema a três dimensões (são os meandros da respeitabilidade...). Seja como for, a história faz-se com a força e não com a moral, e por isso aguardo, sem expectativa, os próximos (e imprevisíveis) capítulos desta novela tecnológica.

quarta-feira, julho 06, 2011

"Jules et Jim" - imagem

O INACTUAL 62

"Jules et Jim" - François Truffaut (1962)



Todos precisamos de parar. A grande questão é: como?

As mães burguesas julgam ter a solução: arrumar os seus filhos num casamento para a vida e num emprego para a vida. Mas Truffaut começa a filmar em plena efervescência das mentalidades, numa época em que, mais uma vez na História, se tentou pensar a sério qual o alcance possível da emancipação humana.

As nossas experiências sentimentais são em grande parte determinadas pelas expectativas que previamente construímos a seu respeito. Não é preciso ler Shakespeare e Goethe, como fazem os personagens deste filme. A alta cultura e a baixa cultura partilham entre si todo o corpo de possibilidades que se oferecem às ambições afectivas. Jules, por exemplo, está desde novo talhado para um casamento estável. Tivesse ele dado o nó com uma rapariguinha de igual vocação, e talvez não houvesse mais história para contar. Jim (como Catherine) é atraído pelo risco e pela aventura.

A resposta, contudo, não estará numa moral a priori, mas na força que o amor consiga eventualmente retirar de um ser concreto. O filme chama-se "Jules et Jim", mas, na verdade, poderia ter o título de "Jules et Jim et Albert et tous les autres...". Porque o problema é que Catherine se consegue impor como uma evidência aos dois amigos, mas nenhum homem consegue preencher por completo a imaginação de Catherine. Para Jules, o "sentado" (como diria Rimbaud) e para Jim, o inquieto, aquela mulher tem o poder de tornar todas as outras mulheres irrelevantes, e isso é a solução absoluta. Claro, este feminismo delirante de Truffaut (l'homme qui aimait les femmes), esta resposta à misoginia do seu personagem Jules, implicam que não haja um fascínio simétrico que mude a (a)moral de Catherine em afeição.

O destino de Jules não é surpreendente. Mas a relação dos dois irrequietos é marcada por todo o tipo de desencontros. Desde o desencontro no café parisiense até ao aborto acidental, parece que o mundo (metafísico, psicológico, social) é muito, muito mais severo para aqueles que acreditam na liberdade. Quando Jules menciona a maior importância da fidelidade feminina face à masculina, Catherine lança-se ao Sena. E, no fim, ela decide causar a morte de si mesma e de Jim: eis a única maneira de parar que conheceu.

Não quer isto dizer que Truffaut seja um conservador (pelo menos nesta fase da sua vida) ou um puritano. Note-se como, mesmo numa época aparentemente emancipada como o presente, a inconstância sexual da maravilhosa criação de Jeanne Moreau continua a ser incómoda, ainda que não chocante (o filme, de resto, sempre teve o apreço de todo o tipo de cinéfilos). O realizador cria uma espécie de inovador burlesco da infidelidade que parece destinado a permanecer polemicamente vigoroso em todos os cenários culturais. Truffaut não critica, mostra (como mostra os ossos que restaram dos cadáveres cremados perto do fim). A incrível euforia da obra (contagiada por elementos formais de teor godardiano), a vida de férias permanentes a jogar dominó, tudo isso vai lentamente revelando as suas entranhas cancerígenas e expondo a tragédia imanente à ousadia de todos aqueles que querem ser vivos em vida, de todos os que não querem ter rosto de estátua.

sábado, julho 02, 2011

Partilha 122

voz de tom waits




(a=50)


poetas há que vivem mais a evocar a vida
do que a viver uma vida
evocável.................................................

- conduzir uma ambulância em cenário de guerra
quem isto escreve é um cobarde
que ainda por cima abomina a condução

e no entanto
nada é mais belo do que conduzir uma ambulância
(num cenário de guerra)

e ele há também a guerra das palavras
os ilógicos mimos retorquidos
entre símios sem idade p'ra condizer

[o poeta não sabe se é o condutor
se porventura o conduzido
quando escreve ti-no-nis]

quinta-feira, junho 30, 2011

Agnosticismo estendido

Li, certo dia, uma breve e bem-humorada autobiografia do fotógrafo Gérard Castello-Lopes, na qual ele assumia que tivera alguns problemas na sua vida por causa de ser heterossexual...

Ora, o agnóstico não está menos sujeito à incompreensão preconceituosa. Sempre que eu confesso ser essa a minha atitude perante a fé, os ateus acusam-me de "não tomar posição" (isto, quando não me vêm com argumentos delirantes tentando provar a inexistência de Deus), os religiosos sugerem que a minha hesitação é sinal de que esse mesmo Deus me está a conduzir, paulatinamente, até ele.

Na verdade, não aceito que me chamem ateu nem que me chamem quase-religioso. Eu, de facto, tomei uma posição, uma posição mais funda e filosófica do que a destes doentes de clubismo: eu não acredito que o Homem tenha meios para conhecer a verdade acerca deste assunto (já se inventou o microscópio metafísico?). É de tal modo uma posição assumida, que a epígrafe dos textos teórico-críticos sobre literatura que estou a publicar no site "Orfeu de corpo inteiro" é: "Ensaios de um autor rigorosamente agnóstico". Rigorosamente: todo o meu sistema de pensamento está a ser construído a partir dessa premissa.

Aliás, eu não só reconheço a impotência intelectual humana neste domínio, como o acho um domínio algo irrelevante. Se por acaso existiu um Demiurgo gerador do Universo, é muito claro que ele apenas criou (e que bem criou!) as regras pelas quais a vida poderia medrar nesse Universo, e fez essa biologia ser atravessada pelas possibilidades da linguagem (da construção da cultura) que ao mesmo tempo permite e dificulta a emancipação do Homem dos rigores naturais. Ao contrário do que diz Agustina Bessa-Luís, a revolução (que aqui tomo em sentido lato) não se opõe à obra divina, porque a revolução é um produto natural da linguagem (que permite reequacionar alguns aspectos da realidade) e a linguagem é uma consequência, sofisticadíssima é certo, da evolução biológica cujas possibilidades podem ter sido geradas por Deus.

Agora, que esse Senhor nos ande a pregar partidas, ora agora manda um incêndio com dez mandamentos, ora faz um show de sol perto de Leiria, ora pune os invertidos com doenças macacas, ora providencia a cobrição das místicas, e ainda escreve Livros e faz milagres hollywoodianos avant la lettre... Não, para isso não contem com a minha credulidade. Se Deus existe, ele pretende ser incognoscível e pairar apenas nos corações humanos como uma desconfiança inquietante.

De resto, sou fascinado pelas grandes figuras da religiosidade, desde que sejam heterodoxas (condição sem a qual não sou capaz de respeitar a inteligência de ninguém). Acho mesmo que Deus é uma guloseima na minha boca de vate (gosto imenso de falar sobre essa maravilha conceptual), e um dos projectos pessoais futuros que mais acarinho é a escrita de um livro de orações ao estilo de Lewis Carroll.

Mas o agnosticismo impõe-se sempre. Aliás, quero-o mesmo estendido. Desde logo, milito pela separação completa entre a filosofia e a teologia (opinião que não poderá ser partilhada por um homem de fé, claro). E gostaria que a filosofia pudesse ser limpa das questões que de algum modo se prendem ou com a transcendência (por exemplo, conhecer o verdadeiro sentido da palavra "eternidade") ou com a tentação do absoluto (por exemplo, questionar a veracidade da "existência"). A filosofia é uma arma que o homem pode manejar para continuamente discutir as suas possibilidades como espécie, como civilização, como habitante da imanência.

Deus criou o Homem para que ele fosse político.

quarta-feira, junho 29, 2011

O irritante volta a atacar

Na contracapa da edição em DVD do clássico japonês "Os amantes crucificados", afirma-se que a acção do filme decorre no século XVIII. Logo a seguir, na transcrição duma crítica do "Le monde" (os produtos culturais vêm agora infestados com putativos selos de qualidade), diz-se que a protagonista está muito expressiva no seu quimono do século XVII. A não ser que se queira fazer um comentário ao anacronismo do estilo da sra. Osan, convém não fazer revisionismo histórico em tão curto espaço gráfico.

Ainda por cima, na ficha técnica, aparecem os nomes de Yoshikata Yoda e Matsutaro Kawaguchi como autores do cenário do filme ("cenário" é, de resto, um termo com conotação demasiado teatral para definir o exercício de "direcção artística" ou "desenho de produção"). Ora, como estes senhores são os autores da adaptação do texto dramático de Chikamatsu no qual o filme se baseia, torna-se óbvio que alguém traduziu a palavra francesa "scénario" pela palavra lusa que se lhe assemelhava mais. Acontece que, neste caso, estamos em presença de um falso amigo linguístico. Quem faz este erro, não gosta de cinema, não gosta de correcção verbal, não gosta de comércio.

domingo, junho 26, 2011

renatosseabrices

Nada é mais irritante do que, quando se fala de "casamento homossexual", alguém se dar ao trabalho de corrigir a expressão para "casamento entre pessoas do mesmo sexo".

É claro que esta última formulação é mais interessante do ponto de vista da língua ("casamento homossexual" é um truque de retórica algo forçado). Mas, sendo eu pessoa de curtas vistas, só consigo conceber três situações minimamente saudáveis: um homossexual que se casa com alguém do mesmo sexo, um heterossexual que se casa com alguém do sexo oposto, ou um bissexual que se casa com alguém do sexo que lhe apetecer (isto, independentemente de tirar ou não uns troços por fora...).

O homossexual que se casa com alguém do sexo oposto ou o heterossexual que se casa com alguém do mesmo sexo são de tal modo asnos que não merecem o civil sacramento do matrimónio.

sexta-feira, junho 24, 2011



(Imagem retirada daqui)

Tradução 25

Tradução pessoal do poema "Na Taberna-Verde, cinco horas da tarde", de A. Rimbaud:



Vinha há já oito dias a romper as botas
Nas pedras do caminho. Charleroi, por fim.
- Na Taberna-Verde: eu mandei vir umas tostas
Com manteiga e também fiambre um pouco aquecido.

Rei-criança, estiquei as pernas sob a mesa
Verde: então pus-me a olhar os motivos naïfs
De uma tapeçaria. - E foi uma beleza,
Quando a moça mamuda e de olhos atrevidos,

- Não há-de esta ter medo de dar um linguado! -
Risonha, trouxe as tostas que eu tinha pensado
E fiambre morno em prato como el' colorido,

Róseo fiambre de aroma dado por um dente
De alho - e me enche a caneca enorme, com cerveja
Dourada por um raio de sol já antigo.



Para construir esta minha tradução, consultei três propostas prévias: a do brasileiro Ivo Barroso (que começa logo por pecar ao situar a acção do poema às cinco horas da manhã, aurora que torna inexplicável o "raio de sol em atraso" do último verso), a passagem para o inglês por Martin Sorrell (que deu origem a um excelente texto, mas tão livre, que é difícil encontrar nele a escrita de Rimbaud: tratar-se-á mais exactamente de uma variação) e a versão de Maria Gabriela Llansol, indubitavelmente a melhor das três.

Sobretudo, Llansol abriu uma clarividente brecha de leitura ao ousar traduzir "Bienheureux" por "Sentido-me rei". A escritora percebeu a importância do ponto de chegada do sujeito lírico ser uma cidade chamada "Charleroi". A minha proposta, ao procurar uma tradução dos valores métricos e rimáticos que não interessou à autora de "Lisboaleipzig", tenta levar essa sugestão um pouco mais além.

Rimbaud fugiu de Charleville (cidade francesa baptizada segundo o nome de um príncipe) para Charleroi (cidade belga baptizada segundo o nome de um rei, por acaso, um rei-criança). Esta promoção, inversamente proporcional às situações políticas de então nos dois países, provoca uma estranha rima com o texto "Royauté", das "Illuminations". Numa continuidade entre o lírico e o político, Rimbaud (guerreiro em momento de repouso, Ulisses que já só tem casa num local de passagem, como ele assume em "Ma Bohème"), reclama a sua própria realeza, que aqui se resume ao facto de a comida sonhada ser a comida de facto servida. E assim, a régia forma do soneto serve para falar de mamas grandes, fiambre morno, motivos naïfs, prerrogativas da coroa que todo o homem comum pode exigir independentemente (ou por causa) do seu nascimento. Note-se como a cesura mais estranha do texto é aquela que, no terceiro verso, corresponde à palavra "eu"...

(O poema original pode ser lido aqui)

quarta-feira, junho 22, 2011

A teoria das duas culturas

Já por mais do que uma vez, nas suas colaborações para o jornal "PÚBLICO", o académico Gustavo Rubim fez referência à tese filosófica relativamente recente que defende que, no âmbito da ciência, nunca nada se pode considerar provado de uma vez por todas. Ainda não conheço, de facto, o pensamento de Thomas S. Kuhn (e a sua recusa de uma objectividade absoluta na actividade científica), e por isso não me posso pronunciar sobre a sua validade. Reconheço, isso sim, que esta ideia me parece belíssima do ponto vista filosófico, e que, se Espinoza construiu toda uma ética através de um processo de dedução puramente lógico, talvez seja possível pensar simetricamente a ciência através da mesma modéstia com que pensamos a linguagem verbal.

Há, no entanto, um problema que me deixa algo inquieto. Pode nunca nada estar provado, de facto, mas, ao nível da aplicação prática da ciência, a verdade é que podemos estar seguros de uma total previsibilidade. Se não houver anomalias perfeitamente explicáveis (Dr. House chamado à recepção), sempre que eu ligo o aquecedor à corrente, sempre que eu activo a ignição do meu automóvel, sempre que eu tomo um anti-histamínico para controlar uma alergia, sempre que eu envio um e-mail, os efeitos procedem das suas causas sem qualquer surpresa (esta linguagem não é rigorosa, mas o que eu pretendo dizer, é). É de facto uma maçada que uma teoria científica para sempre não provada tenha sempre a mesma exemplaridade na sua aplicação prática...

Ora, ao nível das humanidades, o mesmo não se passa. Não é só o Lacan que não conseguiu impedir o suicídio de alguém próximo (pelos vistos, havia quem lhe chamasse Charlacan...). É toda a história sinistra da aplicação das ideias de Marx à realidade sócio-política. O problema não estará propriamente no pensamento marxista, como hoje se pretende defender. É uma filosofia bastante válida, e terá tantas forças e fraquezas como bastantes outras filosofias. O problema está em ter-se suposto que a sua aplicação prática poderia trazer resultados previsíveis (até o crime acabaria no mundo comunista...). Ora, não há nada menos previsível do que a psicologia humana, e o esplendor dos gulags é a prova provada de que as ciências humanas só podem ser fundadas sobre a modéstia. Igual comentário se aplica ao capitalismo, à religião, à teoria da arte...

É claro que preciso de me informar com muito mais profundidade sobre este problema (que vivamente me apaixona). No entanto, até prova em contrário (e ciente de que toda a perspectiva dual é algo defectiva), continuo a defender a teoria das duas culturas.