sábado, abril 02, 2011

Partilha 114

voz de mercedes mccambridge



(a=50 )


a primeira coisa a fazer é
amar alguém.............................................................
como quem malha com o martelo:
fim de leilão
sentença transitada em julgado
prego pregado
(violência)

depois
é continuar por correspondência

decidir todos os dias entre porra! e alheta
(hasta la vista)
descontar

ser fino que nem bugalho
ou passar por meio aluado
(sobreviver)

recorrer a um plectro de poeta
e fazer a mise en clou da alma
[ou então como quem não quer a coisa
desviar o tema da conversa]




domingo, março 27, 2011

RTPs

Em breve, ser-nos-á vendida a ideologia da privatização como panaceia para os males todos do país. Mas a desconfiança de uma ideologia não implica a cegueira diante da sua suposta alternativa. Ainda recentemente, uma deputada do Partido Socialista representava, na televisão, uma cena de baixa tragédia com a fábula da ameaça da privatização da RTP que será supostamente levada a cabo pelo Partido Social Democrata quando este deitar as suas esfomeadas mãos na grelha do poder.

De facto, em teoria, sou contra a privatização de um serviço público de televisão. No entanto, não sei é se esta RTP, movida pela cenoura dos shares, tentando vencer as suas congéneres privadas no jogo sujo da competição, mais Malato menos Herman-Envelheceste-José, menos golo mais celebridade, merece ser financiada pelo Estado. Começo a formar a opinião de que um serviço público é aquele que garante os direitos e a dignidade daqueles que se encontram numa posição de fragilidade no tecido social. Crianças (educação universal), doentes (saúde universal), idosos impossibilitados de trabalhar, desempregados, miseráveis, injustiçados, minorias da mais variada ordem. Parece um paradoxo, mas o serviço público deveria ser uma estratégia de protecção dos indivíduos que o individualismo fatalmente ostraciza (isto para além da organização burocrática da nação, o que aflige muito menos a minha costela anarca).

Que as estações privadas de tv queiram inventar uma ilusão de maioria com a sua genérica cultura da publicidade (tudo é publicidade ali, desde a voz da Júlia Pinheiro ao homem do povo de Pedro Lima), isso é problema deles e de quem quiser ser enganado. O serviço televisivo público deveria, pois, visar todas as actividades legítimas que a sociedade fornece que não se consigam impor através de estratégias mercantis. Teatro experimental, agricultura, artes marciais, cinema de autor, banda desenhada, pesca, artesanato, documentário, história, física, ecologia, jornalismo de investigação, esgrima, literatura, pedagogia infantil, filosofia, tradução, desporto juvenil, etc., etc. Tudo trabalhado com qualidade máxima, com ética, e com dinheiro suficiente mas gerido com contenção e eficácia.

Dir-me-ão que os ordenados das celebridades mediáticas deixariam de ser tão chorudos. Ao que eu respondo que trabalhariam na televisão pública pessoas interessadas na qualidade intrínseca do seu trabalho e na possibilidade de arriscar sem chantagens mercantis (ao que se teria de juntar uma inevitável liberdade de acção). Ainda haverá tal géneros de homúnculos.

Dir-me-ão que seria uma tv menos glamourosa, uma seca. Ao que eu respondo que seria uma televisão sem ambições de share universal, comprometida com interesses específicos e minoritários, e que nada impediria um esforço de criação de públicos novos (se não houver o que oferecer, é que não se podem criar esses públicos...).

Na sua presente situação, a RTP é uma empresa financiada pelo Estado, o que constitui, ao mesmo tempo, um atentado ao capitalismo e ao socialismo.

quarta-feira, março 23, 2011

Munditações

(Em breve será publicado o livro "Munditações", com belas fotografias de Carlos Silva acompanhadas por textos de vários escritores. Esta é a minha contribuição:)


Não há homem vivido que não saiba que o obturador é um glory hole. Assim o prova a orgia masculina desta imagem fotográfica. Colecção de revólveres, claro. Mas também selva da qual só vemos a parte de cima do dossel. Ou cidade moderna, onde um qualquer Eduardo Mãos de Tesoura pode, enfim, destoar.

1/30: o tempo tem duas funções. Por um lado, ele é o clique(-claque) do devir que inventa todo o universo. Mas é também a grande ilusão da memória que garante, ao humano, uma relativa inteireza da consciência de ser sujeito. Nenhum outro ente está preso a essa mediocridade, a essa gloríola: o EU é uma revelação exclusivamente antropológica.

Por isso é suportável que se fotografe multidões de tudo, menos de humanos. A estes se deve aplicar sempre o famoso dito: "Dois são companhia, três são multidão". A partir do toque da trindade, não há EU que resista à matematização. Os fascistas sabiam-no. E, de resto, quem se interessa por orgias? No estetismo que elas propõem, perde-se a intensidade erótica.

Quanto a tudo o resto, venha Busby Berkeley e congele as suas danças. Aí está, a geometria dos lápis, prometendo uma infinidade de textos, de velocidades, de buracos-soturnos. O tempo prestes a descolar.

Favos para uma nova série de Tàpies, NASA dos Pequenitos...



(clique na imagem para aumentar)

domingo, março 20, 2011

O Jornal do Cabo 5

Li uma vez numa crónica que, na altura em que caiu o Muro de Berlim, havia um conjunto de intelectuais alemães a defenderem que chegara o momento de construir o verdadeiro socialismo, mas que os destinatários de tão delirante empreitada nem sequer conseguiam ouvir falar de tais esquerdismos após décadas de subjugação à tirania vermelha. Não deixa de ser curioso que, tendo sido a presente crise económica internacional causada pelo funcionamento do capitalismo, quase ninguém esteja disposto sequer a fazer algumas perguntas à economia de mercado.

Perguntar, por exemplo, se dado o desmesurado crescimento demográfico mundial acompanhado pela transformação quase universal dos hábitos de consumo, a libertinagem económica ainda conseguirá ser a resposta correcta à incapacidade que os recursos do planeta mostram em se regenerarem. Ou perguntar se é possível uma globalização económica independente de uma verdadeira globalização política sem que isso leve a sucessivas falências de estados (o que está a acontecer à má empresa Portugal senão isso)?

Os ideólogos de direita dizem sempre que a democracia não é possível a não ser em regime de liberalismo económico. Mas a China responde-lhes com o seu próprio paradoxo: eis uma nação com uma das economias mais competitivas da Terra sem que isso implique as liberdades normais de um Estado de direito. Não será possível tratar a economia com muito mais calculismo de cidadania, sem que isso tenha qualquer interefência nas várias emancipações (a todos os níveis) que a história do Ocidente nos trouxe? Se é verdade que não podemos fugir às leis divinas (da física, da química, da biologia, etc.), a realidade económica é apenas aquela que os humanos querem construir. Pode ser muito difícil de construir, claro, mas, como diria um bom empreendedor, o que é preciso é pensar outside the box. Até para salvaguardar a sobrevivência ética da iniciativa e da criatividade económicas, talvez seja necessário calcular com mais rigor quais são as verdadeiras necessidades dos habitantes do planeta (como diz Godard em "Prénom Carmen", quem é que precisa de copos de plástico ou de bombas atómicas?).

É preciso ouvir toda a gente, claro. Têm razão aqueles que dizem que o Estado precisa de emagrecer (e um dos motivos por que o Partido Socialista deve ser imediatamente afastado do poder em Portugal até reencontrar alguma dignidade é a sua total irresponsabilidade na gestão do Estado, tornando-o tão kafkiano quanto financeiramente monstruoso), mas já não a terão quando o concebem como um biggest loser. O Estado deve emagrecer precisamente para que sectores de indiscutível interesse público como a educação, a saúde ou os transportes não precisem de ser privatizados nem tratados como empresas.

Mas acima de tudo é preciso tomar em consideração uma certeza contemporânea (que no passado apenas poderá ter sido timidamente intuída): a noção de que todo o progresso traz tantos benefícios quanto prejuízos imprevisíveis. Por exemplo, quem poderá negar a vantagem do aumento da esperança de vida no mundo ocidental? Mas quem anteviu que isso iria colidir com a maneira como a sociedade gere o funcionamento dos direitos sociais? Ora, se a esquerda exige e exige direitos como que se já cá estivessem os amanhãs que cantam (lamento não me solidarizar com manifestações enrascadas, mas não me parece que as pessoas pretendam pensar a fundo a civilização a que pertencem, apenas estrebucham por terem sido saneadas de uma determinada genealogia de privilégios), a direita quer deitar fora a água do banho, a criança e os seus progenitores (o ataque aos direitos sociais é uma das maiores cobardias do nosso tempo). Os think tanks deveriam estar a pensar como podemos manter os benefícios do progresso contornando os prejuízos que lhes são paralelos.

Sou um pessimista convicto (acho mesmo que as grandes épocas revolucionárias são fenómenos de moda como muitos outros). Sei que a vida arranja sempre maneira de nos surpreender (veja-se o que aconteceu no Egipto) e que sempre haverá homens de grande pragmatismo que ajudarão a humanidade a dar mais este ou aquele passo para se safar. Não contem comigo: não sirvo para tapar buracos.


(Imagem retirada daqui)

sábado, março 12, 2011

Nota sobre "cinema literário"

Num recente programa televisivo, o cantautor Sérgio Godinho, por quem tenho a mais imaculada estima, defendia que o filme "Jules et Jim" de François Truffaut, apesar de baseado em material eminentemente literário, estava invadido por uma grande vitalidade. Sei que Godinho é cinéfilo mas não estou a par das suas preferências concretas nesse campo, por isso o que vou discutir é esta ideia em si, retirada do contexto da cultura do seu formulador, uma vez que ela me parece exemplar daquilo que normalmente os apreciadores de cinema pensam.

O cinema é uma arte composta (prefiro esta expressão à sua variante vazia "arte total"). Praticamente não tem nenhuma dimensão formal a que possa chamar essencialmente sua. Mesmo o movimento das imagens é, como Deleuze argumentou, acima de tudo um fenómeno de temporalidade (e há outras artes que também trabalham o tempo), e a montagem está implícita em todas as actividades criativas. Desde o seu início que ele tem uma inevitável relação de dependência com a literatura (mais a ficção e o texto teatral do que a poesia e o ensaio, o que é, desde já, criticável), mas também com a pintura, a fotografia, a música e até a dança.

Más relações, em todo o caso. Ainda hoje a maioria dos filmes dão preferência a bandas sonoras que não passam de requentadas sopas pseudo-sinfónicas, a pintura é quase sempre usada como caução cultural, etc. Com a literatura, a relação não é menos fértil em equívocos. Ao ponto de a crítica ter acabado por acolher a ideia de que raramente um grande texto dá origem a um grande filme, e de haver cineastas muito lúcidos que trabalham geralmente a partir de material literário considerado menor. Ideia que se tornou algo dogmática, mas que não surgiu sem fundamento.

Por exemplo, nunca li o romance "To have and have not", de Hemingway, mas diz quem o conhece que a sua adaptação para cinema dirigida por Howard Hawks (um filme curioso, de resto) é, enquanto adaptação strictu sensu, um desastre. Aliás, é de tal modo leviana a relação dos cineastas com a literatura que o mesmo realizador pode ser responsável por uma das piores ("Under the volcano") e uma das melhores ("The dead") adaptações da história da sétima arte: falo de John Huston. O inacreditável rol de disparates que têm sido as adaptações de Saramago só nos pode obrigar a pensar e a agir com cautela neste campo.

Normalmente, o conceito de adaptação de um livro costuma ser entendido como sinónimo de uso da sua narrativa para construção de um argumento (com eventual cuidado colocado na definição psicológica dos personagens de acordo com o espírito do escritor). O estilo literário é raramente tomado em consideração, e mesmo quando é (como em "Les herbes folles" de Alain Resnais), o resultado fílmico pode ser um pouco desarmante.

Ora, é só a partir do momento em que se começa a tratar literatura e cinema de igual para igual (o que implica uma total seriedade no tratamento de todas as dimensões do texto, mas também a consciência de que o objecto visual tem uma profunda independência da sua fonte) que os resultados começam, obviamente, a ser justos para ambas as artes. Isso já está presente no Shakespeare de Orson Welles, mas acaba por se aperfeiçoar no Resnais de "L'année dernière à Marienbad", no Rohmer de "Die Marquise von O", no Oliveira de "Amor de perdição", no "Othon" de Straub/Huillet ou no "Querelle" de Fassbinder (em todos estes casos é notória a diferença de visão, de fundo e de forma, entre o autor do texto original e o autor do filme). Claro que há todo um conjunto de evoluções formais (o artificialismo da encenação, o estilo declamatório, a tentativa de materialização visual da palavra, etc.) que foram essenciais nessa gesta de emancipação tanto do cinema como da literatura. No entanto, é lógico que não existe uma essência do cinema literário, e que a continuidade da relação entre as duas artes só pode ter um fundo experimental, de descoberta contínua. O cinema literário não é uma caricatura de cinema português ou francês.

Acima de tudo, na expressão de Godinho está implícita a ideia de que, no cinema não nos podemos aborrecer, enquanto que a literatura pressupõe um certo tédio (não estou a afirmar que ele pense de facto isto, apenas que foi isso que deixou transparecer). Isto afigura-se-me absolutamente inaceitável. Não vou ao cinema para andar na montanha russa (para isso, vou à montanha russa), mas também não abordo um livro com o espírito do produtor Paulo Branco, que diz que, para que um filme seja bom, temos de dormitar uns minutos na cadeira da sala de projecção... O que me move, tanto numa criatividade como noutra, é um misto de paixão e reflexão sobre a vida que é tudo menos compatível com histerias de feira ou snobismos de intelectual.

O trabalho de relação com a literatura é tão delicado e difícil como todos os outros trabalhos que o cinema implica (e por vezes, quão magistrais são os resultados: "Sayat Nova" de Paradjanov!). Fico sempre espantado quando alguém sem grande relação com a literatura anda à procura de um contozinho para fazer uma curta-metragem: mais vale filmar os gestos do seu bebé, um jogo de futebol, uma conversa entre amigos. Tenho, na minha arca de projectos delirantes, a noção exacta de como gostaria de filmar, caso pudesse, "As cidades invisíveis" de Italo Calvino. Mas já não faço a menor ideia (pelo menos por enquanto) de como poderia encenar outras obras que muito estimo, e que até gostaria de ver num ecrã: "Finisterra" de Carlos de Oliveira, os diários de Llansol, "A gaivota" e o "O cerejal" de Tchékhov, "O artista da fome" de Kafka ou "O nadador" de John Cheever... Nesse caso, mais me vale estar quieto. O amor sem vacilação pelas duas artes a tal me obriga.

terça-feira, março 08, 2011

No site "Orfeu de corpo inteiro"...

... postei a minha tradução do longo poema "Goblin market" da escritora pré-rafaelita Christina Rossetti.

Trata-se de um texto que me parece adequado essencialmente ao público infantil (é um excelente conto de fadas).

Sublinho apenas que, dada a ausência de uma regra formal, no texto de origem, no que se refere à rima e à métrica, tentei construir a minha versão de acordo com o ritmo enumerativo que estrutura a escrita de Rossetti. De resto, espero ter obtido algum sucesso ao nível da produção de um prazer de leitura, que me parece um valor essencial nesta história de frutos proibidos e sensualidades oblíquas.


(O original pode ser lido aqui)

En abyme

O aforismo tem a beleza física da lei científica e a beleza moral da anarquia humanista.

sábado, março 05, 2011

O coleccionador 15

No filme "Prénom Carmen", quando Joseph, transtornado de ciúmes e ao som da canção "Ruby's arms" de Tom Waits, se agarra a um televisor invadido apenas por grainha azul, é evidente que Godard pretende insinuar que o personagem está a sofrer de blues sentimentais.

No entanto, o gesto formal é um pouco mais complexo do que isso. O facto de a canção falar de uma rapariga chamada Ruby, e de essa evocação verbal-sonora da cor vermelha ser aposta a um ecrã invadido pela cor azul, faz lembrar o combate entre feminino e masculino que o filme, na sua globalidade, propõe. Godard sempre teve uma preferência plástica pelas cores primárias, mas o que nesta cena releva é o facto de o vermelho estar apenas presente enquanto palavra, ou seja enquanto fantasma de uma ausência. É um momento de pintura conceptual que só o meio audiovisual permite (e que, obviamente, os artistas plásticos já exploraram).

Para além disso, não consigo deixar de ver, neste azul que preenche todo um enquadramento, a imagem do oceano, que fora o elemento rítmico central das estratégias de montagem na parte do filme que abordara a aprendizagem sentimental de Carmen e Joseph (a grainha azul sugere o movimento das ondas). De novo, é o audiovisual que permite esta espécie de pintura metafórica (que pode constituir uma das brechas a explorar pelo jovem cinema), conjugando o figurativo (a mão) e o abstracto (o azul-mar) numa emotividade semântica singular.

Adenda a "O INACTUAL 58"

Um dos indícios de que a releitura que Godard faz do mito de Carmen pretende ser uma reflexão sobre a heterossexualidade é o facto de que o relacionamento entre o personagem de Maruschka Detmers e o seu tio cineasta, interpretado pelo próprio realizador, é evocativo do freudiano Complexo de ... Electra (se bem que aqui também se pretenda sugerir a complexidade da relação que se estabelece entre um personagem e o seu criador).

quinta-feira, março 03, 2011

"Prénom Carmen" - imagem

O INACTUAL 58

"Prénom Carmen" - Jean-Luc Godard (1983)


O mais provável é que a pulsão heterossexual, inevitavelmente transformada em cultura, tenha obrigado o homem a diferenciar a mulher de si mesmo mais do que aquilo que seria antropologicamente justo. A petite différence ter-se-á tornado uma trop grande différence. No seu retorno ao cinema, Godard parece ter-se apercebido de que ele próprio não era imune a essa prisão fantasmática (ele está xexé, ao fim e ao cabo), e decidiu reencenar a relação heterossexual esticando a mitologia até aos seus extremos: ou a mulher é a Virgem Maria ("Je vous salue Marie") ou é esta Carmen, o protótipo da femme fatale (que é uma maneira francesa de se dizer puta). Em ambos os casos, o que está em causa é o que uma mulher consegue fazer a um homem, a sua capacidade para o desviar da modorra de uma vida cobarde.

Ora, a aposição de um nome a uma mulher, neste caso o lendário nome da cigana de Mérimée-Bizet, cria-lhe um destino cultural que de modo algum ela merece. Carmen não se deveria chamar Carmen, até porque o que existe antes da escravatura de preconceito que todos herdamos com o baptismo é nada menos que o nome de Deus... Na Terra só há paraísos fiscais, e por isso não é possível saber com certeza quem são os inocentes e quem são os culpados. Se Carmen é maldita, se Godard é maldito, é porque eles vêm trazer ao mundo uma luz de verdade terrorista que destrói toda a paz podre da société générale (basta pensar na rapariga armadilhada com livros no muito recente "Notre musique").

Carmen não é Carmen, mas sim Elektra, a luminosa (nomeadamente a Elektra do dramaturgo Jean Giraudoux). E por isso a música da banda sonora não é a insuportável carnavalada de Bizet, mas os quartetos para cordas de Ludwig van Beethoven. Como em "Passion", Godard fragmenta a referência canónica de modo a que esta possa voltar ao vigor do ensaio, ou do improviso. Improviso de cinema (small movie feito por amantes do amadorismo), ensaio do casal (que na casa vazia do tio cineasta aprende a descobrir-se, em todos os sentidos que esta palavra comporta). Claro que o amor é uma questão de fluxo e refluxo (o mar é aqui objecto de uma metáfora muito simples), e não se consegue fundir com a eternidade para que parece apelar (outras metáforas singelas: as duas carruagens que se cruzam na noite, os dois barcos que se cruzam ao crepúsculo: quem disse que Godard é complicado?). Mais do que propriamente acabar, o amor muda.

O cineasta lembra que Van Gogh, quando o sol se punha, continuava a procurar no mundo um pouco de amarelo. É preciso procurar, procurar no meio das trevas que nos cercam (esta é que é a verdadeira ética). E é o que faz este pintor munido de uma câmara-musical com a solidariedade do seu director de fotografia (Raoul Coutard): vejam-se as magníficas imagens dos faróis dos automóveis a dourarem, por instantes, a estrada azul-nocturna, a luz natural sobre os corpos despidos dos amantes (vinda da janela como na arte de Vermeer), ou as cintilações dos candelabros na cena do golpe final. É aliás nessa cena de pura revolta contra as perversões do mundo que Carmen encontra, na morte, o esplendor dourado que se chama "a aurora". Haverá outro Universo no qual a luz seja a regra e não a excepção?

Auto-retrato como Sherlock Holmes

pedro, pedra menos de roseta que de rosácea

sábado, fevereiro 26, 2011

Partilha 113

pobre a vaidade
dos que mandam no maná
no céu todas as estrelas
são michelin

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

No escrínio 52

Poema: "Do desperdício", de Armando Silva Carvalho:


limosa a boca verte
a frase verde e boa

do rasgo no vestido
o som pula do sangue

de um panfleto caído
a conversão suspensa

no caixote indefeso
as pobres mãos minando

mãos vivas como um giz
marcando a dor no seio

da luva podre sai
a perfeição de um dedo

o ranho do silêncio
molha a flor do nariz

o estrume deste porco
perfuma o lavrador

o fato sujo de óleo
condiz com a cantiga

aproveitei a folha
contente vou-me embora



Há uma piada que defende que um poema é um objecto tão inviável do ponto de vista económico que a sua disposição gráfica nem consegue aproveitar a integralidade de uma folha de papel. Armando Silva Carvalho, escritor de humor oblíquo, vem propor uma função económica para a poesia. Desde logo ao nível da gestão extremamente poupada da forma do seu texto, todo ele organizado em dísticos de modéstia, onde tudo condiz com tudo: veja-se como o segundo dístico é simétrico do penúltimo (ambos encenam roupa estragada, primeiro de mulher, depois de homem) ou como as quatro estâncias centrais se podem associar numa espécie de esquisso narrativo. De facto, o texto poético pode ser exemplar na racionalização do seu mercado de associações livres, o que só pode provocar inveja ao arrogante capitalismo.

"As pobres mãos" escavando no caixote do lixo, mais do que uma imagem panfletária, compõem a metáfora das mãos do próprio poeta, que busca na vida aquilo que os triunfadores desta (aqueles que não são mendigos, lavradores ou operários) deitam fora, busca aquilo que eles consideram desperdício. Mesmo o desperdício da história do lirismo. Carvalho não se impressiona com topoi recorrentes do discurso poético como a "flor" ou o "silêncio" (aqui dessacralizados pela sua associação ao ranho no nariz), e o "panfleto caído" pode ser entendido como uma paródia, eventualmente involuntária, ao livro "Folhas caídas" de Almeida Garrett. O poeta é "este porco" que propõe uma forma de estrume essencial à germinação, à conversão.

Os dois dísticos mais misteriosos do poema serão porventura os mais reveladores. "A conversão suspensa" é sinalizada pela ausência de uma acção verbal (é a única estância em que isso acontece, já que o particípio "caído" tem o valor próximo de um adjectivo). Ao mesmo tempo, "o ranho de silêncio" que "molha a flor do nariz" provoca uma suspensão (um silêncio) no olfacto. Ora, na medida em que o poema é um estrume destinado a perfumar o lavrador (o leitor), é preciso que este se assoe para captar a sua mensagem. Se o terceiro dístico pode indiciar uma certa desilusão com os proselitismos de ordem religiosa ou política, a verdade é que o texto faz uma verdadeira propaganda à acção de sair de si mesmo (ao devir do sujeito, portanto).

É o som "do rasgo no vestido" que "pula do sangue", é a fálica "perfeição de um dedo" saindo "da luva podre", é a boca limosa que "verte a frase verde e boa". A própria flor do nariz, chovida por dentro, está condenada a esta poética da ejaculação. Carvalho parece algo avesso à bidimensionalidade. O sair de si tem uma relação de simetria com o penetrar o outro, o conhecer o seu sangue, o seu ranho, a sua profundidade manchada (marcar a dor no seu seio). Ao contrário de Alexandre O'Neill, de quem é por vezes aproximado, este poeta não investe a superfície dos seus textos com calor humano. Os textos têm de ser minados, por vezes com paciência, para que possamos conhecer todo o erotismo do seu sentido. A poesia regula a produção, distribuição e consumo dos bens e serviços morais que permitem o viver em sociedade. Dito de outro modo, o Outro nunca pode ser tratado como um desperdício.

domingo, fevereiro 20, 2011



(Imagem de Gérard Castello-Lopes)

Qualidades-&-defeitos

Não sei se as predisposições de personalidade nos aproximam de uma certa postura política, ou se é esta que acaba por influenciar a maneira de ser, ou até se nada disto é relevante. O que eu sei é que, por ser um produto do Ocidente hegemónico, eu seria incapaz de o vender como o único modelo defensável de Civilização.

Tirando o caso de um crédito bancário,...

... a única maneira de me prenderem é com a liberdade.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Questiúncula

Numa das últimas edições da revista "PÚBLICA", um delicado sacerdote indispunha-se contra a Igreja Católica pelo facto de esta sempre ter demonizado o sexo na sua doutrina. Fico contente por os cristãos, ao fim de não sei quantos séculos de sotaina, estarem finalmente a perceber que o sexo, como o gelado de straciatella e os banhos no Oceano Índico, sabe bem. No entanto, Monsenhor Cujo Nome Se Me Escapa achava ainda que a Igreja devia assumir a posição moral de que "no sexo não vale tudo".

Alguém disse (e eu gostaria muito de saber quem foi, para lhe enviar um cartão de agradecimento) que a única regra ética a aplicar à vida sexual das pessoas é aquela que exige o verdadeiro e livre consentimento de toda a gente que nela se envolva. Não me consigo lembrar de mais nada para dizer sobre o assunto.

Ou melhor, consigo. Consigo dizer que, se é verdade que a solidão sexual é uma das tristezas mais agudas que se pode experimentar neste e noutros mundos, a solidão afectiva talvez consiga provocar um verdadeiro Inferno sobre a Terra. E que aqueles que não conseguem passar do sexo para o amor correm sempre o risco de embrutecer tanto a sua vida erótica (que se pode tornar mecânica) como a dimensão mais íntima e profunda da sua personalidade. Mas isto é um assunto para a psicologia, a psiquiatria, a psicanálise e outras ciências do bem-estar interior. A conversa não chega à retrete da religião: Cristo disse coisas tão bonitas, têm tanto que trabalhar...

Estupidez em série

Gasto algum do meu precioso tempo a ouvir música foleira, no meu caso duplamente foleira porque se trata de mero combustível para a minha predisposição delico-melanco-doce (se bem que este neologismo desfoleiriza um bocado a coisa). Ora, pelo menos ao nível dos prazeres fúteis e pouco nobres, gosto que os agentes desses prazeres sejam inequívocos na sua acção. Imagine-se que, de dentro de uma lâmpada mágica, apareciam às pessoas o Angélico ou a Pamela Anderson, e que afinal eles eram impotente e frígida (respectivamente?)... What's the point?

Já não me divirto no cinema desde o "Ocean's Eleven", que era puro champanhe e mais nada (eu gosto de champanhe, e o James Bond, mais bonito que está, é certo, já só tem explosões). Mas isto de séries televisivas, na sua idade de ouro ainda por cima, consegue ser bastante mais aborrecido. Em "Lie to me", onde espero que o Tim Roth esteja a ganhar balúrdios porque não está a fazer mais nada, decide-se da verdade dos discursos dos personagens a partir dos comprometedoríssimos esgares que estas libertam como quem não quer a coisa, uma verdadeira astro-psico-logia de grande requinte que deve ter sido inspirada nos comentários populares à culpa dos pais da pequena Maddie.

Um dia destes, vi um episódio do badalado "House" (eu gosto do Sherlock Holmes) e decidi que devo voltar às músicas foleiras. Uma criança, portadora do detalhe genético de ter células masculinas e femininas, sentia-se confusa ao nível do género porque tanto gostava de basquetebol como de dança. A ideia subjacente era que o gosto do básquete vinha directamente das células com piça e a dançofilia resultava das células com clitóris. Aparentemente, não há raparigas que preferem basquetebol a dança, nem rapazes na situação inversa. Aliás, se as raparigas preferirem o desporto de Magic Johnson, o mais provável é que estejam a revelar o rapaz que existe dentro delas, enquanto os viris amantes de pas de chat estarão provavelmente a um metro sexual de serem homossexuais. Mais, talvez até seja pouco provável que uma menina bailarina seja fufa, e toda a gente sabe que na NBA não há gays. Ou seja, a uma série do século XXI que reencena a figura do detective enquanto campeão da verdade (e desde Tales de Mileto que a verdade é o triunfo sobre as aparências e os clichés), não chegou ainda a ideia de que o sexo é um conceito biológico e o género uma construção cultural. Brilhante!

quarta-feira, fevereiro 09, 2011



El Greco - "Virgem da Imaculada Conceição"

Cadernos Rimbaldianos 4

Rimbaud terá sido um dos primeiros poetas a perceber o justo alcance funcional da polissemia (com ilustres percursores como William Blake). Os seus textos não são ilegíveis, não podem ser interpretados de qualquer maneira (o que aliás equivaleria a sentenciá-los à ilegibilidade...), não são literais, nem podem ser dissecados com a ambição de uma interpretação definitiva.

As "Illuminations" são um catálogo de procedimentos conceptuais de enorme repercussão semântica, textos onde o poeta apresenta de forma rigorosíssima as coordenadas do problema que quer debater, sem contudo apresentar de forma directa um ponto de vista limitado que nunca poderia abranger a complexidade de cada um desses problemas. Não se trata de uma estratégia de não-compromisso, mas a intuição de que é preciso exigir tudo à linguagem para que ela possa produzir um mínimo de honestidade discursiva.

Por exemplo, em "Démocratie", Rimbaud mostra como o sistema político que intitula o poema em prosa se define pela possibilidade (essencial e trágica ao mesmo tempo) de aqueles que usufruem da sua liberdade debitarem discursos profundamente anti-democráticos. Claro que o escritor não era um João Pereira Coutinho do século XIX, sinistramente defendendo a liberdade de se odiar homossexuais, negros ou estrangeiros (liberdade essa que não pode estar em causa, note-se), porque o conjunto de textos que compõem a sua obra são suficientemente explícitos quanto ao elevado grau de exigência utópica que o levava às mais desesperadas estratégias discursivas de irrisão.

Adendas a O INACTUAL 57

1. Que "Passion" tem pontos de contacto com "Le mépris", realizado pelo mesmo Jean-Luc Godard no início da sua carreira, isso é evidente. No entanto, talvez não seja menos produtivo aproximar o Fellini pós-"Oito e meio" da fita godardiana.

"Oito e meio" terminava com a exibição de um imenso cenário-esqueleto onde os actores se passeavam num número de circo, e essa será uma das chaves mais fecundas de entendimento da filmografia de Fellini (nomeadamente no que toca às suas irreverentes reconstituições históricas). Para além das semelhanças ao nível de argumento (um cineasta que não consegue filmar, a hesitação entre várias mulheres), "Passion" cita a obra-prima do italiano ao propor a encenação de uma deriva sem norte aparente dentro de um sumptuoso estúdio de cinema-pintura.



2. Dadas as diferenças entre cinema e pintura no que toca ao funcionamento da temporalidade, é interessante analisar os diversos modos como Godard combate a cristalização pictórica através dos meios da arte que pratica, e as consequências que daí advêm (espero que um crítico de artes plásticas já se tenha dedicado ao exercício).

Ora o realizador acentua as tensões de ordem formal entre as duas criatividades: a famosa iluminação da menina d'"A ronda da noite" de Rembrandt, que no filme se pode acender e apagar; o súbito (e exaltante) aparecimento em campo da extremidade inferior direita da "Entrada dos cruzados em Constantinopla" de Delacroix (imagem deste post), como se os fragmentos do quadro pudessem ser analiticamente apresentados numa perspectiva diacrónica, etc.

Ora o realizador inquere as possibilidades de desvio semântico: em "Os fuzilamentos de 3 de Maio", a câmara passa pela frente do pelotão de execução, colocando o espectador na posição de vítima; toda a sequência de Goya, de resto, apresenta os diversos quadros do pintor em simultâneo, explorando os seus ecos intertextuais na profundidade de campo cinematográfica (a noção de história de uma Obra individual não é estranha a Godard; em "Passion" evoca-se a evolução de Delacroix, que começou por pintar guerreiros e acabou a representar flores), etc.

domingo, fevereiro 06, 2011

"Passion" - imagem

O INACTUAL 57

"Passion" - Jean-Luc Godard (1982)




"Passion" é uma paródia à concepção de cinema enquanto arte total. A grande Pintura que o filme re-encena (a sétima arte, de resto, sempre se sentiu tentada pela possibilidade de dar vida a quadros célebres) perde as suas coordenadas canónicas para regressar à condição de esboço. O objectivo de Godard é despintar as obras de arte e, no seguimento desse gesto radical, descinematizar o cinema e desmundar o mundo. Não porque o realizador não ame os quadros que antologia (muito pelo contrário), mas para os reactivar, para os livrar da estagnação do museu, para lhes dar a chance de intervirem na vida.

O próprio filme, uma super-produção à escala godardiana, parece inacabado (o que é, obviamente, provocatório). Os efeitos de des-sincronização, mais do que simbolizarem as dificuldades da comunicação humana, obrigam os espectadores a seguirem uma ética pictórica: não devemos procurar uma narrativa congregante do sentido antropológico, devemos simplesmente olhar as pessoas, os seus olhos, os seus lábios. É o (eterno) primeiro passo. Godard, o extremo oposto de Fukuyama, defende que a humanidade ainda não viveu o suficiente ou suficientemente bem para poder contar uma História. É esse, de resto, o sentido de "Je vous salue Marie": o casal terá de regressar, por intromissão do sagrado mítico, à condição de esquisso de casal.

Por aqui já se vê que há, em "Passion", uma sobreposição de discursos de esperança. Há o discurso sentimental, claro (as personagens gostariam de amar apaixonadamente), mas também o discurso político (o respeito pela condição operária, o interesse pelos acontecimentos que, à época, estavam a revolucionar a Polónia), e até o discurso teológico. Essas são, de resto, as temáticas dos quadros filmados, e a sinceridade godardiana (ou de Goya, por exemplo) passa por essa ausência de especialização utópica. Não é por ingenuidade que Jerzy, o realizador-personagem, fala de "trabalhar a amar" e "amar a trabalhar". O presente é precisamente esse lugar da gaguez em que as várias dimensões do Homem estão artificialmente dissociadas, e por isso nem o filme dentro do filme se pode fazer (não é uma maquinaria paga a peso de ouro que consegue criar a luz sonhada) nem os amantes se podem encontrar de forma exemplar. Há toda uma deriva da luxúria que não se distingue do burlesco das lutas laborais.

É preciso decidir para onde se quer ir, onde é a nossa casa. Se, na citação da pintura de Watteau, o barco do embarque para Cítera (ilha onde haveria um templo dedicado a Afrodite, deusa do amor) está encalhado em terra, não é tomando o avião para Hollywood que se resolvem os problemas da Paixão (em sentido crístico também). Jerzy e as mulheres entre quem ele balança (a noite e o dia) partem para a Polónia a bordo de um carro poeticamente transformado pela metáfora do tapete voador. Será talvez este o veículo (o real transformado pelo pensamento, o investimento militante) que permitirá encontrar o mágico traço de luz que, no início do filme, cruza o céu com borrões de nuvens como se fosse uma pincelada em acção.

Se "Passion" é uma das obras mais originais da história do cinema (desde logo porque a esta se opõe), ela brinca com as nossas expectativas de prazer como um gato desfaz um novelo. Godard não atende a súplicas (vindas dos habitantes da Constantinopla de Delacroix), antes entra em combate com os seus destinatários (como Jacob e o anjo, citando o mesmo pintor). Se não se consegue encontrar uma frase definitiva, também não há crescendo musical que garanta um clímax, nem evocação plástica que nos conforte (e que infinitamente belas são as imagens-pinturas encontradas pelo cineasta). Mesmo a reconstituição da "Virgem da Imaculada Conceição" de El Greco, provavelmente um dos quadros mais belos de sempre, tem de ser violentamente interrompida, para nos deixar sem soberania entre os ruídos, para sempre nostálgicos e combatentes pela paixão.

A minha solidariedade para com...

... Otar Iosseliani, e para com este seu lindíssimo último filme, "Chantrapas", onde o realizador vem sugerir que, para aqueles que não distinguem maturidade de intensidade infantil, o cinema só pode ser uma fonte de profundo desespero.

O georgiano toma o prazer como matriz do seu cinema. O prazer adulto, claro (como Renoir), mas essencialmente aquele prazer cujas portas infinitas a infância uma vez abriu (Fellini, mas também Tarkovsky) e que só fechamos por mediocridade burguesa. Mas não há ingenuidade em Iosseliani: tanto na União Soviética como no mundo capitalista, os homens de negócios são ricos mas infelizes. Mesmo o seu aparente reaccionarismo se deverá não tanto a uma idealização da vida aristocrática, mas a uma reivindicação de aristocracia de espírito.

Mas que homem de negócios, que homem de política, que espectador burguês terá generosidade, imaginação e sentido de risco para se perder em imagens de puro deleite como a formidável cena pejada de cães do filme dentro do filme em "Chantrapas"? Iosseliani faz o meu tipo de cinema.

Uma inquietação (ovo e galinha)

Talvez o maior erro de Marx tenha sido a maneira desajeitada como previu a dimensão pragmática da filosofia. Os assombrosos erros provocados pelo marxismo, mas também pelo cristianismo, vieram trazer-nos uma evidência que, essa sim, deveria ter sido o cerne da pós-modernidade: a de que a realização vital do pensamento deve ser um diálogo com a contemporaneidade filosófica dessa realização, um vaivém de mútuo ajuste, e não uma imitação de (grandes) visões passadas e individuais. Longe de mim querer desconsiderar o pensamento antigo. Simplesmente, esse pensamento só poderá gerar pensamento (e aí a sua fertilidade é inesgotável), porque a filosofia com impacto político tem de pertencer à mesma época desse impacto, não lhe pode ser anterior nem posterior, nem causa nem efeito, mas par.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Partilha 112

voz de vanessa redgrave



o=57


hoje caminhei sobre as águas



desafio quem não acreditar
a travar comigo um duelo
sobre o mar vermelho do seu sangue
ou sobre o oceano morto do futuro

entretanto
tenho vindo a caminhar sobre o pacífico
e tenho-o até tomado por imagem da generosidade

a gente passa e diz lá vai o frei aster
lá desce a maradona, como flecha

porém eu sinto é falta dos meus meros
dos meus ecos
(cavalos marinhos)............................
das ostras livres de pérola

[no fundo
de mim mesmo
eu vejo apenas as solas dos pés
eu sou um macaquinho no meu sótão]

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Resumo do post anterior

O tradutor deve restituir, no texto traduzido, a integridade e a integralidade da potência semântica de um texto escrito numa outra língua. Mas, por definição, não o pode é fazer da mesma maneira (não é só o idioma que é distinto, mas também a cultura dos destinatários do novo texto, a época em que este é escrito, etc.). Em consequência, se, num acto de tradução, o sentido deve ser transposto em toda a sua amplitude (pelo menos numa perspectiva ideal), a forma tem de ser sempre filtrada. O tradutor é um escritor que não diz nada de novo, mas que tem de reorganizar (tudo) aquilo que outro disse.

Sublinhando a importância da palavra "quase", eu não defenderia que traduzir é "dizer quase a mesma coisa" (o que pode fazer todo o sentido no seio da teorização de Umberto Eco, que, como já mencionei, ainda não li), mas dizer a mesma coisa quase da mesma maneira.

Claro que a minha formulação contém dentro de si um logro lógico: a ideia de que forma e conteúdo podem não se equivaler. Mas é esta menoridade do tradutor perante o conteúdo do texto que sentencia toda a tradução ao falhanço.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Notas (preliminares) sobre tradução

Embora ainda não tenha lido as grandes obras de referência que reflectem sobre o trabalho do tradutor (Steiner, Eco, Ricoeur, etc.), a minha (ainda pequena) experiência nesse campo já me deixa entrever algumas tomadas de posição teórica que de forma mais ou menos consciente vão norteando o meu fazer. Não sou, de resto, favorável à ideia de que só se deve fazer depois de pensar, antes defendo que fazer e pensar devem ser contemporâneos na sua mútua iluminação.

A primeira evidência que se me impõe é a imperfeição insanável de todo o esforço de tradução. Alguns autores confessam que, se muito dificilmente aceitariam rescrever a sua própria obra, estão sempre dispostos a tentar uma nova versão de um texto que traduziram. De facto, ainda que seja por vezes possível fazer um texto com o valor da jóia (dureza, valor, coerência interna), o mesmo estado de graça nunca recai sobre uma tradução, não porque esta funcione como uma inevitável degenerescência do texto original, mas porque implica um conjunto de opções demasiado arriscadas e polémicas que lhe impedem a possibilidade de uma sedução universal. É preciso que o tradutor esteja preparado para falhar, e para falhar rotundamente. A humildade é a palavra de ordem em tal labor.

Dito isto, postulo que todo o texto é traduzível (isto é uma loucura, claro, mas a esperança racional é sempre uma loucura). O que não quer dizer que haja interesse em traduzir todos os textos. Pedro Tamen já defendeu que, por exemplo, uma tradução do "Finnegans Wake" de James Joyce é francamente desaconselhável. Aliás, neste caso, seria lícito perguntar qual é exactamente a língua do texto de origem... O livro do autor irlandês talvez seja uma babel que superou o próprio conceito de babel.

Penso, no entanto, que, pelo menos de um ponto de vista teórico, a riqueza semântica integral de um texto pode ser invariavelmente transposta para um outro texto numa língua diferente. Não pode é ser reproduzida da mesma maneira. Um exemplo: na minha versão do poema "Ode to concrete" de Joseph Brodsky, optei por dar ao texto português o título "Ode ao concreto" (ao conceito abstracto de concreto, passe o paradoxo), e mantive no corpo do poema a referência imediata do discurso do autor que é, claro, o cimento. Embora no português de Portugal não haja uma palavra que reúna, ambiguamente, esses dois significados no mesmo significante, a riqueza semântica do enunciado de Brodsky pôde, julgo eu, ser mantida.

Se me parece claro que o tradutor deve esgotar todos os seus esforços para transpor a plenitude semântica do texto no qual trabalha (para isso é necessário estar atento à investigação académica), as questões formais merecem talvez outro tipo de distância. O poema "Mémoire", de Rimbaud, foi muito relevante para a sua época enquanto estratégia de demolição do verso alexandrino a partir do seu interior, mas fará algum sentido "reencenar" esse golpe de rins para o leitor do século XXI, habituado que este está a uma total arbitrariedade métrica? Será legítimo fazer corresponder, à modalidade dialectal em que está escrito um texto, um dialecto da cultura que o vai receber, quando não há qualquer equiparação possível entre as duas culturas?

Não quero com isto dizer que privilegio traduções meramente semânticas. Muito pelo contrário. Penso é que o tradutor deve escolher com cautela quais são as dimensões formais que podem e devem ser disponibilizadas para o leitor a quem se dirige. Se a tradução de um soneto de Mallarmé deverá certamente pautar-se por uma atenção parnasiana à perfeição formal (a reflexão sobre a Forma, de resto, é um dos Conteúdos principais desse autor francês), não me parece tão necessário construir sonetos ortodoxos a partir dos textos que, em torno dessa forma, Shakespeare escreveu (até porque a métrica do inglês e a do português são algo incompatíveis). Shakespeare escreveu a partir de um molde cuja autoridade estética é francamente questionável para o leitor contemporâneo. Se um certo trabalho de regularidade rítmica e rimática poderá fazer parte do prazer investido no soneto traduzido, isso não deve levar a soluções artificiais.

De resto, o tradutor deve escolher se pretende traduzir o soneto shakespeariano de acordo com o português da época em que este foi escrito, ou se prefere tomar o leitor da sua própria época como destinatário. Sou completamente favorável a esta segunda opção (até porque a primeira não me parece estar ao alcance honesto de ninguém). Não se trata de pôr personagens elisabetanos a exprimirem-se com linguagem de rappers, claro, mas de procurar um texto que seja válido dentro da expressividade potencial do português a que o tradutor, na gestão do seu quotidiano linguístico, tem acesso.

Por fim, postulo que o texto traduzido deve ser um excelente texto na língua portuguesa. O tradutor é também um escritor. Apesar de isto parecer uma evidência, este é talvez o maior defeito com que por vezes o leitor se depara em alguns trabalhos: a mediocridade especificamente literária da tradução. Nunca averiguei qual o grau de rigor da versão que Álvaro Cunhal fez de "O Rei Lear" (se bem que me parece um pouco constrangida pelo pudor), mas a absoluta delícia oral do seu português dão ao texto a carta de alforria necessária para uma provável montagem em cena.

Acima de tudo, o tradutor é um ensaísta oblíquo. Humildade não significa ausência de ideologia. Não tenhamos ilusões sobre a invisibilidade do trabalho do tradutor (aliás, neste país onde ninguém quer aparecer, não há falta de convidados para programas televisivos de culinária). Se a grandeza criadora pertence obviamente ao autor original, o tradutor tem que investir o seu texto da sua concepção de literatura, da sua concepção de escrita, da sua concepção de língua portuguesa, da sua concepção de tradução e do seu entendimento do autor que está disponibilizar. Brancos são os votos para a Presidência da República.

domingo, janeiro 23, 2011

Partilha 111

voz de cesária évora

"De que árvore em flor
não sei
- mas que perfume!"
Matsuo Bashô




e= 51


espero muito, mesmo muito, estar enganado
e quero muito, mesmo muito, que deus exista
e me receba num país colossal

entretanto
neste mundo.....................
aprimoro esta minha conduta:
escolho a paisagem da viagem
do meu comboio desde a morte até ao fim:

alperceiros de néon em plena noite que
se acende num maço de rosas que
marca o modo como vemos a mudança da amen-
doeira em meio-dia

[e espero que a jornada
seja infinda]

Segunda instância

É preciso ser-se muito estável para se conseguir terminar, no orgasmo, a relação com quem se deseja.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Do blogger como besta sentimental



(É favor descontar-se a publicidade ao Montepio...)

Ética do comentador

Já mencionei, há uns posts atrás, que estava a ler o livro "Stratégies de Rimbaud", um conjunto de ensaios (de assunto evidente) da autoria de Steve Murphy, professor universitário francófono. Devo dizer que é uma leitura que me está a dar um gozo infinito (confesso que preferiria passar o resto da vida a ler ensaios sobre poesia do que a ler romances). Para além disso, a competência do autor é absolutamente notável. Trata-se, provavelmente, da mais intensa estratégia de close reading a que já tive acesso (o que só clarificará a triste pobreza das minhas leituras, claro).

No entanto, nenhuma erudição me assusta o suficiente para me abafar o sentido crítico. Passo a explicar. O artigo central do livro é uma análise do (excelente) poema "Mémoire", mais de cem páginas de investigação obsessiva sobre uns míseros quarenta versos. Algumas das intuições propostas têm, francamente, uma utilidade inesgotável. Por exemplo, na sua leitura dos versos "Elle / sombre, ayant le Ciel bleu pour ciel-de-lit, appelle / pour rideaux l'ombre de la colline et de l'arche" (tradução em baixo), Murphy defende que Rimbaud recorre ao discurso indirecto livre (ou seja, a voz de uma personagem imiscui-se, sem que isso seja directamente assumido, na voz do narrador) para mostrar a psicologia feminina do rio (que sonha uma felicidade doméstica). Não só essa tese adquire de imediato o peso de uma evidência interpretativa (legitimando o tipo de imagens atípicas e algo estereotipadas usadas por Rimbaud neste passo), como vai com certeza ao encontro das intenções perfeitamente conscientes e calculadas do poeta. O comentador fez, aqui, serviço público.

Noutro momento do seu ensaio, Murphy propõe que, depois do escritor comparar os vestidos verdes de umas meninas espectrais a um conjunto de salgueiros, os pássaros que se desprendem dessa ilusão figurada voam com o mesmo tipo de frustração que terá dispersado os pássaros que tomaram o trompe-l'oeil das uvas do pintor Zeuxis por uvas verdadeiras. Eis um momento em que o ensaio se torna um poema. Se a imagem de Rimbaud é potente, o seu prolongamento na imaginação do ensaísta adquire uma espécie de paroxismo expressivo. Mas a verdade é que, se a intuição não é, em si mesma, um erro de coerência na leitura de "Mémoire", nada no texto a parece legitimar. Se, em vez de salgueiros, os vestidos fossem comparados a videiras, ou se a palavra "trompés" estivesse associada a estas aves polémicas, a opinião de Murphy seria um achado científico. Assim sendo, é uma liberdade que aproveita mais à vaidade do comentador do que à justiça do comentado.

Li, uma vez, que o mundo estava tão velho que já não se escreviam comentários sobre os textos, mas comentários aos comentários sobre os textos... Mas o facto de o mundo ser um caos, isso não impede que não continuemos a pugnar por nele engendrarmos a nossa quota-parte de diamantes (falo de dureza, valor, coerência interna). Quero com isto dizer que não estou a comentar o comentário, mas a defender uma ética do comentário: pois postulo que só devemos ler num texto aquilo que ele nos oferece a ler (o que inclui as eventuais remissões intertextuais que ele prodigalize ou a cultura de lugares comuns da época em que ele foi escrito). De facto, Rimbaud podia muito bem ter pensado nos pássaros da lenda de Zeuxis. Mas se o pensou, não o escreveu, nem da maneira mais oblíqua possível. Assim sendo, nenhum leitor será auxiliado pelo ensaísta quando ele toma a sua liberdade (note-se que o objectivo não é pensar a partir do texto, mas simplesmente lê-lo, adivinhar as intenções do autor). Pelo contrário, o leitor pode até ser confundido, e induzido a entrar em delírios hermenêuticos noutras aventuras literárias por que decida passar. Como me parece que a utilidade do pensamento é incitar o seu receptor a continuar a pensar, talvez a função do leitor avalizado seja também a de incitar o seu leitor a ser melhor leitor. Nada mais.


(Tradução de Maria Gabriela Llansol: "Ela / tomba, tendo por dossel o Céu azul, chama, / para cortinas, a sombra da arca e da colina." - Outras das utilidades imensas do ensaio académico é o manancial de informação que ele fornece à actividade do tradutor. Tivesse Llansol, minha escritora tão cara, lido o texto de Murphy, e teria percebido que a palavra "arche", neste caso, se refere a um arco de ponte ou aqueduto por baixo do qual o rio passa, e não a uma putativa arca que só vem trazer confusão semântica à leitura de um poema que não prima, como é normal em Rimbaud, pela transparência imediata.)


Imagem retirada daqui

sexta-feira, janeiro 14, 2011

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Retórica de trazer por casa

Certa vez, fui acusado de ser misantropo (ou autista, ou lá o que era) por ter começado uma enumeração pela palavra "coisas", e só depois ter escrito a palavra "pessoas". Desde aí, sempre que faço uma enumeração, tenho o cuidado de ordenar os itens de modo a criar a perfeita ilusão da minha sanidade mental.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

"Copie conforme" - imagem

O ACTUAL 30

"Copie conforme" - Abbas Kiarostami



O mais recente filme do mestre iraniano retoma o mesmo discurso de "Shirin": o homem é o forjador da Cultura que só a mulher tenta verdadeiramente pôr em prática. Aqui está o intelectual-aparentemente-renitente que, perante a materialização à sua frente da cópia certificada que teorizou (Juliette Binoche, por quem milito), tem de estar na estação às nove horas... Perspectiva que algum feminismo considerará ofensiva, certamente, mas que revela um verdadeiro espírito de crítica da (suposta) mediocridade emocional masculina. Ao contrário do que defenderam alguns comentadores, esta viagem por Itália não está pasmada com as glórias da civilização, mas traz implícita uma real desconfiança da cultura: se o que diz uma criança disser o intelectual, o disparate adquire prestígio. O amor, de resto, é o disparate mais antigo da história.

O sucesso da obra reside na surpresa de se filmar o possível início de uma relação sentimental como se ela fosse um absurdo pleno de repercussões semânticas: eles representam, desde logo, o futuro distante do seu afecto ("O primeiro desejo dos amantes / É serem velhos amantes" - Regina Guimarães). O profundo incómodo assim criado (quase surrealista, bem mais próximo, de resto, de Antonioni que de Rossellini) nunca é corrigido pela verdade que os actores vão descobrindo-inventando. Os espectadores riem-se: esta é a renovação da comédia romântica que Hollywood não está a conseguir fazer. Repare-se como os dois protagonistas acertam na perfeição no filme um do outro, na medida em que os argumentos da chamada vida real são sempre clichés (há sempre um adormecer no dia do aniversário, e etc.). A distância do realizador tanto deve à paródia como à sabedoria.

Não será o mais perfeito Kiarostami (é talvez um filme demasiado falado), mas é o menos confortável, o menos consensual. "Copie conforme" termina numa vista, de quarto, sobre a cidade, na qual um par gémeo de sinos toca a intuição exaltada de que a provável reconciliação de um par equivale sempre a um milagre. Exactamente como no fim de "Viaggio in Italia", de que este filme nem sequer é uma cópia. Não há nada mais estranho do que retomar, uma vez mais, os caminhos do coração.

Cinefilia

Sempre me intrigou o mistério de alguns espectadores de cinema disponibilizarem preferencialmente a sua afeição por aqueles filmes que confirmam o seu sistema de crenças. O comunista tende a apreciar fitas de discurso militante, o católico elege obras de inquietação em torno do sagrado, o homossexual vibra com a estética queer, o médico quer ver a sua missão recriada no ecrã, e etc., e etc.

Quero crer que o espectador cinéfilo é aquele que, quando vai ver um filme, vai ver, em primeiro lugar, o cinema: a sua história, as suas possibilidades, o seu idiossincrático poder de sedução. Não quero com isto dizer que um cinéfilo se demite da sua relação com a vida quando está dentro da sala de projecção. Muito pelo contrário: o cinéfilo não é um freak que colecciona DVDs ou posters de vedetas, mas alguém que sinceramente aceita que o cinema lhe abra perspectivas sobre a vida.

Parte do meu fascínio pela teologia (eu, que sou agnóstico convicto) deve-se à casualidade de a história do cinema ser fértil em obras-primas de discurso religioso. Pelo contrário, a despeito de eu me dedicar à escrita poética, o cinema de Jane Campion diz-me muito pouco. Uma das poucas gloríolas que eu reclamo para a minha insignificante existência é, precisamente, este gosto do cinema.

sábado, janeiro 08, 2011

Crónica da Universidade

A minha experiência universitária resume-se a uma licenciatura no falhanço. Excelente aluno na área das Humanidades, fui-me encaminhado para o Curso de Direito na Universidade Católica do Porto, onde confirmei o meu total desinteresse pelas profissões sisudas, o meu agnosticismo de estimação, e uma saudável alergia aos ácaros da alta roda conservadora. Alcancei uma única nota memorável, um dezoito, na disciplina de Economia, porventura o ramo de todo o saber que menos me interessa. De resto, saí da aventura académica com depressão, menos inteligência e já outra profissão.

Talvez por causa disso, ou talvez não, a verdade é que acabei por formar uma imagem fantasiosa do que seria uma verdadeira vida académica. Assim como gostaria de ter escrito um livro intitulado "InterRail e outras coisas que não fiz" (especialmente dada a frustração heróica do decassílabo que o estrutura), poderia com toda a facilidade dedicar-me a um projecto "Entre Hogwarts e Salamanca". A universidade, como o Brasil ou a parentalidade, é uma daquelas existências que sempre idolatrei porque só delas participei enquanto turista acidental. Oxford, Cornell, Sorbonne, seduzem-me de maneira pueril como só as constelações de estrelas o conseguem, e nelas vejo-me rodeado de livros-que-eu-quero-de-facto-ler e de outonos-de-brochura, para sempre dedicado ao estudo e ao sexo com todas as protecções insulares que a gratuitidade, a civilidade e a inesgotável profusão nos podem oferecer.

Mas não é preciso ir para a universidade para poder, enfim, desconfiar da universidade. Estou neste momento a meio da leitura do excelente livro "Stratégies de Rimbaud", um conjunto de micro-leituras do autor do "Bateau ivre" pelo académico inglês de expressão francesa Steve Murphy. A erudição do estudo é exuberante, talvez sem mácula, a sua aplicação é invariavelmente eficaz, a clareza do discurso é total. No entanto, vive em mim a impressão de que essa erudição talvez esteja sempre a ser utilizada pelo ensaísta para defender a sua imagem (apriorista?) de um Rimbaud militante de esquerda. De qualquer modo, isso talvez seja o que todos fazemos. O que verdadeiramente me inquieta é a dúvida sobre qual a real utilidade literária de todo este esforço para um leitor que não seja um hamster de universidade.

Se não há sombra de dúvida sobre a utilidade das pesquisas altamente especializadas no âmbito das ciências (mais tarde ou mais cedo têm uma aplicação pragmática), eu já não estou tão certo de que um texto literário tenha uma maior repercussão sobre o seu potencial leitor se for observado com o auxílio de um microscópio ou de um telescópio. Quem escreve, fá-lo para encontrar uma brecha de troca directa com um receptor que não pode alcançar no espaço e/ou no tempo. Mas a distância a que o texto tem de estar do seu leitor é a distância do olho nu. Claro que a investigação académica pode contribuir, por exemplo, para uma anotação esclarecedora das obras, ou para um apoio pedagógico à sua circulação (nomeadamente quando se trate de obras de leitura pouco evidente). Tenho, contudo, a certeza absoluta de que Rimbaud não escreveu para ser estudado, mas para intervir no espírito generoso de quem com ele queira entabular uma conversa de café (no sentido nobre, tertuliano, da expressão). A utilidade das artes e das humanidades exerce-se num regime quase oposto (porque mais íntimo, essencial, e menos urgente) ao da utilidade das ciências de índole matemática.

Estamos numa época da história humana em que temos de (podemos?) assumir que o paradigma que nos rege é o da ignorância selectiva. Isto seria impensável noutros tempos, mas a verdade é que, dada a quantidade de conhecimento que foi produzido pelo homem, mais do que escolhermos o que queremos saber, temos hoje de escolher o que não poderemos nunca saber. Só o computador terá ainda hipótese de ser um sábio renascentista... E que difícil é equilibrar a curiosidade intelectual para não se descambar nem no diletantismo-trivial-pursuit nem na especialização deformadora. De qualquer modo, postulo que, ou os livros são abre-te-sésamos para todo e qualquer intelecto, ou então não vale a pena continuar a fazê-los.

Nos textos sobre cinema que tenho vindo a escrever no Cabo da Boa Tormenta, estou a tentar justificar o meu gosto cinéfilo ligeiramente impopular (ao que parece). É a Universidade Pedro Ludgero: se me dizem que não percebem o porquê da minha adesão a (ou o próprio conteúdo de) um filme, eu tento, em textos de clareza e dimensão legíveis, esgrimir as minhas razões objectivas e desvelar alguns aspectos da obra que podem parecer obscuros mas que, afinal, até nem o são. Não pretendo uma graduação académica, mas seguir um pouco o espírito de Agostinho da Silva, que dizia que uma Universidade deveria ser apenas um sítio onde íamos perguntar aquilo que não sabíamos. Tento ser tão útil quanto o médico, o bombeiro ou o agricultor.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

"Je vous salue, Marie" - imagem

O INACTUAL 56

"Je vous salue, Marie" - Jean-Luc Godard (1985)


Em "Ave Maria" (nome que o filme deveria ter em português, na medida em que o seu título original equivale ao primeiro verso dessa popular oração), Godard estabelece uma ligação entre a crença de que a vida terrena foi Criada por uma vontade transcendente e o mito da imaculada concepção. Na verdade, este deriva, acima de tudo, de uma firme continuidade lógica (Deus não poderia gerar o seu filho segundo as regras de geração deste mundo, mas sim reactivando o ex nihilo dos seus poderes demiúrgicos), e não propriamente de uma condenação cifrada da sexualidade.

A montagem da obra, organizada em torno de imagens de esferas (o sol, a lua, etc.), mais do que limitar-se a engendrar metáforas visuais do ventre prenhe, encena o progressivo abaixamento de toda essa Luz desde o Céu até à Terra, culminando no plano, de uma beleza de cortar a respiração, em que Maria e José se colocam ao lado de um candeeiro esférico em incandescência. A loucura de Maria (a loucura do cristão, melhor dizendo) é acreditar que não é o corpo que tem uma alma, mas a alma que tem um corpo.

De algum modo, essa parece ser também a loucura de Godard (seja qual for o seu teor religioso): os seres dos seus filmes, mais do que personagens numa narrativa realista (que é sempre reduzida a uma espécie de burlesco nonsense), são intermitentemente narrados pela pintura (é inesgotável o talento do realizador para o enquadramento e para a iluminação), pela música (uma colagem erudita de história da música com silêncio) e pela poesia (uma poesia sempre próxima do disparate, da caralhada lírica ou metafísica). Talvez seja isso que o tenha feito cair na tentação de celebrar uma Maria que, após o parto de Jesus, decide mesmo manter-se casta para conter o seu corpo dentro da plenitude do Espírito. É claro que Godard parece sempre algo assexuado, de tal modo é profunda e sincera a sua militância pelo amor (vi recentemente uma entrevista em que ele se gabava de só ter dormido com uma rapariga após os vinte anos...), mas esta ortodoxia causa-me uma certa repugnância ideológica. Se "Je vous salue, Marie" foi um escândalo, tal deveu-se ao facto de ele ser um filme de vanguarda em que, por exemplo, se usa a palavra "cu", ou a mãe de Cristo é uma basquetebolista, filme que os espectadores não foram capazes de compreender. Porque, por mim, o escândalo disto é isto não ser suficientemente escandaloso. Se Godard fala de Pascal, eu prefiro falar de Espinoza.

Infinitamente mais interessante é a alegoria do cubo de Rubik (espero que já haja um estudo sobre a inventividade alegórica deste autor), em que se revela que o par amoroso, por ser par amoroso, pode desvendar os mistérios teológicos a uma velocidade desmesurada. A aceitação da gravidez de Maria por José, o corno mais cósmico de todos os tempos, e a sua ainda mais inesperada aceitação de uma conjugalidade casta, são uma espécie de ponto alto (histérico) do "éloge du couple" por Godard. Histérica também a sua devoção à figura feminina: Godard tanto parece misógino em "A bout de souffle" (a mulher é a grande traidora) como aqui se dedica a um feminismo hiperbólico que chega a ser difícil de aceitar (também já o ouvi gabar-se de só ter um amigo do sexo masculino). Os diversos temas dos filmes (a actualidade política, o cinema, o sagrado neste caso, etc.), mais do que objectos de verdadeiras e definitivas análises, parecem ser pontos de vista diversos (desculpas) sobre a eterna imagem de Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg descendo, lado a lado, os Campos Elísios.

Obras de Santa Engrácia

Há um novo ensaio no meu site "Orfeu de corpo inteiro", e um novo texto no meu blogue/livro "três escrínios".

Contra o glamour do realisminho

É costume ouvir-se dizer que, se o homicídio existe de facto dentro da vontade de alguns homens, o mais provável é que ele exista, em potência, dentro de cada um de nós, por muito que isso nos cause um espanto e uma repulsa quase insustentáveis.

Ora o pensamento permite que passemos deste realisminho para um verdadeiro realismo: pois se é verdade que uma grande generosidade existe dentro de alguns homens, o mais provável é que uma grande generosidade exista, em potência, dentro de cada um de nós, por muito que isso choque a nossa velhice e a nossa sofisticação ocidental.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Partilha 110

chegar o poema à cozinha


gosto daquelas pessoas
que acreditam em deus de maneira difícil
um deus duro de roer
mais duraz que duradouro
que nos deu os ingredientes mas não
a prescrição
do seu teor incisivo

vi noutro dia
duas fantasias minhas a falarem entre si
imagine-se:
o leather à conversa com o ménage à trois
a cavaqueira entre a alva e o paraíso
ou até mesmo um pomar namoriscando
as estações ao deus-dará

domingo, dezembro 26, 2010

Este teve sucesso no facebook

Antigamente, as pessoas iam para o céu ou para o inferno. Agora, são bipolares, disléxicas ou anorécticas.

Ainda dentro do espírito natalício...

... um post de grande singeleza:

Há uns tempos atrás, uma pessoa disse-me que conhecia um casal em que um dos cônjuges se tinha filiado no PS e o outro no PSD para terem sempre garantida a aprovação de todos os seus projectos. Dizia-o com admiração babada. Ao mesmo tempo, essa médica criticava, com indignação, o Estado português, por aqueles gastos irreflectidos e inúteis no Sistema Nacional de Saúde que comprometiam a essência benéfica desse serviço público cuja bondade se lhe afigurava inquestionável. Ora, eu não sei se esta pessoa não merece o Estado que tem, e vice-versa. Apesar de me encontrar próximo das ideologias de esquerda, nunca me senti vocacionado para uma consciência de classe, porque não tenho bem a certeza da validade daquilo que pretendem os indivíduos que compõem as classes (todas as classes, sem excepção).

Disse-o o intelectual que conhecemos como Cristo (eu avisei que isto era singelo), mas disseram-no muitos outros homens e mulheres. Algo muito simples, que toda a gente proclama (políticos, pais natais, a Cristina Caras Lindas) mas ninguém, mesmo ninguém, pensa levar a sério: não haverá ultrapassagem da crise-em-sentido-amplo (esse estádio perene do capitalismo, como disse recentemente António Guerreiro no EXPRESSO), se a honestidade, em todas as suas manifestações e consequências, não for um valor pragmático universal. Isto parece discurso de púlpito, ingenuidade de criança, inanidade de Praça da Alegria, mas a porra toda é que é mesmo verdade.

Claro que nunca ninguém aderirá a esta mínima. Até porque é tão simples que não tem glamour (os cristãos, aliás, preferiram ocupar os últimos dois mil anos com o puritanismo sexual). De resto, a maior parte dos homens nem sequer tem a percepção da sua própria desonestidade entranhada. Mas também garanto que não haverá Prémio Nobel de Tudo e Mais Alguma Coisa (de esquerda ou de direita) que consiga um dia resolver a sempiterna crise, porque a solução teria de começar no intelecto moral de cada um de nós, ou não seria uma solução.

Claro que há políticos de grande talento, sobretudo prático, e que sabem agir com alguma eficácia em momentos difíceis (falam-me de Sá Carneiro e Mário Soares, mas o Cavaco já não me conseguem impingir). Claro que de vez em quando chovem pennies from heaven (ouro do Brasil, petróleo, a CEE). Mas, da próxima vez que lhe vier a tentação de desejar um homem providencial ou um maná ex machina, olhe para dentro da sua própria responsabilidade.

Voltarei, em breve, aos posts de bom gosto.

Cadernos Rimbaldianos 3 & Pessoanos 1

À primeira impressão, Rimbaud parece ser um poeta de irracionalidades evidentes e histéricas, paralelas à dispersão mal-comportada da sua biografia, enquanto Fernando Pessoa se nos apresenta como um mestre do auto-controlo reflexivo.

A maior parte dos comentadores da obra do francês apressam-se, contudo, a sublinhar a importância da palavra "raisonné" na sua famosa expressão programática "raisonné dérèglement de tous les sens". Na verdade, Rimbaud sempre procurou trabalhar com método, mesmo que esse método lhe servisse precisamente para tornar consciente aquilo que (ainda) era inconsciente. A sua leitura atenta mostra um artesão com perfeito domínio das várias ferramentas da sua arte, pesando e sopesando todos os níveis da inesgotável polissemia dos textos que estava a produzir.

Pelo contrário, Pessoa é um pensador superficial e incoerente quando comparado com Rimbaud (este fez uma das mais subtis críticas de sempre ao capitalismo). "O livro do desassossego" é uma obra-prima do politicamente incorrecto (no sentido pejorativo da expressão), e vale sobretudo como esplendor de disparates geniais (é a minha opinião). Ao mesmo tempo, a despeito do tom filosofante dos seus poemas e do fingimento assumido da emoção, Pessoa está constantemente a revelar as suas exemplares fragilidades. Mesmo quando assume as máscaras heteronímicas (ou sobretudo quando as assume...). A obra pessoana é um drama psíquico vibrando, sem qualquer sentimentalismo, nas entrelinhas de uma pseudo-filosofia.

Rimbaud sabia como escrever bem. Foi um poeta e um pensador. Pessoa escrevia bem sem o querer. Foi um poeta, maravilhoso, mas apenas poeta.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Partilha 109

ecolocação


vi ontem um rapaz
que muito quis foder na adolescência
(mas não fodi)
Ele 'stá mais feio: eu também.
divino dilema proustiano -
quando eu o debicar
debicarei presente ou já passado?

ele amava demasiado a maria madalena
p'ra fazer dela sua primeira dama
imagine-se:
ter de rezar terços na rádio como a eanes
ou de ser um exemplo moral como a barroso
- ficámos cegos, depois disso
.....................................................(cegos)



Nota: afinal, ainda houve esta visita não convidada de um personeto. Penso, aliás, que outro vem a caminho. Mas logo, logo, acabarão.