quarta-feira, novembro 24, 2010

O INACTUAL 55

"Hamsarayan" - Abbas Kiarostami (1982)



A. Recentemente, tive a oportunidade de ver quatro curtas-metragens que Kiarostami realizou no âmbito da sua colaboração com o Instituto (iraniano) para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens Adultos (forneço as traduções dos títulos para a língua inglesa, porque não conheço as soluções correspondentes em português): "Noon va Koucheh" ("Bread and alley", 1970), "Zang-e Tafrih" ("Breaktime", 1972), "Do Rahehal Baraye yek Masaleh" ("Two solutions for one problem", 1975) e "Hamsarayan" ("The chorus"). Pude re-observar algumas características temáticas e formais que compõem uma espécie de espinha dorsal da sua obra:

1. A maior parte dos filmes decalca a sua ficção-documento a partir de um lugar comum alegórico: o caminho com obstáculos. É um lugar comum completamente despido, frontal, directo (não está disfarçado por uma pseudo-sofisticação), e com consequências ao nível da organização visual das obras. Talvez esta obsessão tenha sido em parte sugerida pelo urbanismo enviesado das urbes iranianas. De qualquer modo, o cineasta tem uma manifesta predilecção pela passagem estreita, como se estivesse sempre a glosar o tema do labirinto do conto infantil.

2. A despeito de ser um autor que se mantém próximo do quotidiano, este aparece intensificado até atingir uma dimensão para-épica: na mais bela daquelas curtas-metragens, "Hamsarayan", há um cavalo puxando uma carroça que corre como um louco pelo labirinto citadino. Todos os filmes de Kiarostami registam a dificuldade extrema de realizar uma acção muito simples: por exemplo, entregar um caderno a um colega em "Onde é a casa do meu amigo?".

3. Perante cada obstáculo pequeno-grande que se apresenta no caminho, há sempre dois pontos de vista igualmente válidos e que não se excluem mutuamente. A didáctica de "Noon va Koucheh" não é nada simplista: com a simples arma de um pão, uma criança faz com que um animal passe de ameaça de agressão a vítima emocional. Em "Hamsarayan", o gesto de tirar o aparelho que mitiga a surdez tanto pode constituir uma defesa (contra os ruídos desagradáveis) como pode tornar o seu portador indefeso (não ouve o cavalo que se aproxima, não ouve as netas que o chamam). Nessa grande síntese que é "O sabor da cereja", o espectador assiste à reticência com que os homens auxiliam uma pulsão mortal e à naturalidade com que é acolhida a tendência oposta.


B. Esta parte do post foi substituída por um novo texto, que pode ser lido aqui.

domingo, novembro 21, 2010

Excerto de uma carta de amor 5

.......olhe, devem ter sido os suiços que inventaram o amor (só pode), esse amor-de-cuco em que aparece pontualmente um pássaro a dizer "terra de ninguém" "terra de ninguém". Os amantes chocam nele um mostrador que não é seu, e onde se lêem disparates como "joão menos paula", "carla e um aurélio", "luís em ponto". Um bebé codorniz dentro de um ovo avestruz? Certamente, mas só os ponteiros deste canivete nos valem para cortar o silêncio ........

quarta-feira, novembro 17, 2010

"Lola" - imagem

O ACTUAL 29

"Lola" - Brillante Mendoza



A Justiça é uma avó imemorial, uma preocupação quase tão antiga como a consciência do humano. No entanto, a expectativa da sua eficaz organização social, que coroa a última parte da "Oresteia" de Ésquilo, já se encontra ironizada no "Don Quijote de la Mancha". Em continuidade com a lucidez cervantina, o belo filme "Lola" alicia o seu espectador para a ideia de que a verdadeira justiça talvez seja independente das formas instituídas (polícia, tribunal) de a praticar.

Mas fá-lo sem incorrer numa tónica maldita. Veja-se o tratamento afectivo dado à figura do dinheiro, bem mais próximo da magia redentora de "La leggenda del santo bevitore" de Ermanno Olmi do que do (provavelmente) diabólico "L'argent" de Bresson. Ele é o modo real como se dão as trocas entre as pessoas: se neste filme houvesse uma acção de suborno, ela confundir-se-ia provavelmente com um acto de amor.

A antiguidade da justiça ganha corpo na velhice corpórea das duas avós que protagonizam a obra. E a forma que Mendoza decidiu trabalhar cola-se a esse impositivo peso físico, a esse exemplar escrúpulo de locomoção. Seja a nível da narrativa (que se reduz ao conjunto de procedimentos necessários para resolver os problemas levantados por uma morte por homicídio), seja ao nível da coreografia da câmara, ou da lentidão rítmica. Só que essa lentidão é o oposto exacto dos nossos problemas actuais com a Justiça: nós é que já não sabemos que actos devem ser praticados em allegro, e que actos em adagio.

Vento, chuva, água omnipresente, detritos, alimentos... "Lola" parece desenvolver uma poética do húmus, num sentido muito semelhante ao que Raul Brandão trabalhou. É claro que as imagens documentam a miséria da sociedade filipina (e com certeza muitas das nuances do contexto nos passarão despercebidas), mas, mais do que isso, elas configuram um estádio existencial de mistura entre morte e vida cuja fermentação (lenta, secreta) só pode descambar numa esperança de fertilidade. Em pleno funeral, as crianças apanham peixes que servirão de futuro almoço. Lá para o oriente, parece que eles continuam a saber caminhar em frente...

terça-feira, novembro 16, 2010

Cena falhada

Quando estava a esboçar o post anterior, enganei-me e escrevi:

"Não há provas irrefutáveis a favor de nenhuma solidão"

Cadernos Rimbaldianos 1

1. Não partilho da inquietação dos estudiosos da poesia de Rimbaud quanto à verdadeira ordenação cronológica das suas duas últimas obras. Não há provas irrefutáveis a favor de nenhuma solução, pelo que o exercício especulativo costuma ser utilizado para fabricar uma determinada imagem do poeta adolescente (mais rebelde ou mais genial, conforme os gostos). Aliás, nem sequer me parece que a oposição "Une saison en enfer" - "Illuminations" seja particularmente relevante. Podemos conceber os dois textos como duas estações do percurso do autor, uma qualquer a seguir à outra qualquer - e depois muitas outras terá havido (mas sem escrita). Parece-me que é bem mais produtivo contrapor os delírios do período da vidência (com seu soneto "Voyelles") às "Illuminations" (e sua bem muda prosa intitulada "H"), ou seja, contrapor a defesa lapidar do "Je est un autre" à sua mutação, após o falhanço da ambiciosa experiência sentimental com Paul Verlaine, para algo que se poderia formular por "Je est je et un autre".

2. Nas "Illuminations", é sintomático que o poema "Ville", com título no singular, evoque uma metrópole idealizada mas entediante, enquanto que os outros dois textos que descrevem urbanismos mas partem de uma intitulação plural estejam impregnados de possibilidades e esperanças. Rimbaud poderia não saber muito bem o que queria, mas sabia que não queria estar parado. Toda a cidade deve ser cidade(s). O saisons!

3. Ainda na mesma recolha, o famoso poema "Départ" parece aderir claramente à forma do telegrama. É o telegrama de alguém que, eventualmente, já partiu (como "H" é a fala de quem talvez já se tenha calado).

4. O "Génie" que conclui as "Illuminations" não é, obviamente, o Zuckerberg do facebook. Não é a inteligência que apaixona Rimbaud. Ele defende, romanticamente, a genialidade, sim, mas esta implica a plena expressão do ser, a sua máxima e completa potência: amor, ética, devir, harmonia, inquietação...

Fala do homem de meia idade

"Quando eu era bom como o milho, toda a gente queria fazer de mim pipocas."

domingo, novembro 14, 2010

Partilha 104

cronocromia


ler poesia é fácil (ler-me)
é como em tempo de caderneta de cromos:
as palavras que posso dar sem as perder
troco-as
pelas que o leitor quer sofrer sem lhes ganhar
golo após golo
vou marcando goles

também eu me dedico à oração
rezo à diabetes ao coração ao colesterol
que me dêem baba e ranho muito longos
- assim o quer meu andamento caracol
(não anotei a data em que surgiu
o meu primeiro
............................verso branco)

quarta-feira, novembro 10, 2010

"The night of the hunter" - imagem

O INACTUAL 54

"The night of the hunter" - Charles Laughton (1955)



O filme único de Charles Laughton oferece-nos uma das visões mais duras sobre a infância que a história do cinema é capaz de aguentar (outros exemplos serão "Germania anno zero" de Roberto Rossellini e "El espíritu de la colmena" de Victor Erice). Basicamente, a alegoria encena o peso excessivo daquilo que impomos a cada criança durante a sua jornada de preparação para o mundo. Os dez mil dólares metidos numa boneca são o indício dessa responsabilidade adulta (ser fiel ao pai até às últimas consequências, guardar um segredo como só um túmulo o faria, cuidar da irmã mais nova) cuja violência só por via de um esquecimento medíocre nos parece suportável quando nos tornamos, de facto, adultos.

Nenhuma criança consegue, portanto, ver os seus pais tal como eles são. Volto a sublinhar aqui o carácter fortemente alegórico de "The night of the hunter": os dois miúdos encontram a mãe adoptiva depois de partirem à deriva no rio onde a mãe real se encontra sepultada, e o rapaz chega a confundir a prisão do padrasto com a prisão do seu próprio pai. É preciso inventar os progenitores, mitificá-los. Se o pai verdadeiro legou aos seus filhos a imagem de um amor imenso mas desequilibrado, as crianças têm de o reconstruir como um desequilíbrio de sinal inverso. Só assim conseguem sobreviver. E em contraste, a fragilidade da mãe verídica, visivelmente mais interessada em namorar do que em cuidar dos filhos, tem de ser redimida na fantasia de uma super-mãe, que defende a sua prole com armas de fogo e cujo amor tem a força rude de tudo o que não vacila.

O que está aqui em causa é o problema da educação, certamente um dos assuntos mais relevantes com o qual nos temos de confrontar na nossa passagem por este mundo, mas cujo aparato de soluções instituídas costumamos aceitar como consensual. Não é, é uma polémica interminável. Note-se como, neste filme, tanto o Pai-vilão como a Mãe-heroína têm exactamente o mesmo discurso, o discurso cristão. E, no entanto, as repercussões da sua aplicação são diametralmente opostas. Como na vida, de resto: a maior parte das pessoas partilham uma mundividência burguesa-cristã, mas os resultados das educações que fornecem aos filhos são brutalmente diversos.

Portanto, o essencial da formação de um ser passará não tanto pelo catecismo de valores que ele é obrigado a decorar, mas pelo exemplo da sua execução levado a cabo pelas figuras adultas míticas que orientam esse ser. Ao mesmo tempo, Laughton põe o dedo na ferida da América do seu tempo, perdida numa histeria ideológica que a levou à vergonha da caça às bruxas. Com a clarividência do meu amigo John Ford, estou cada vez mais convicto de que a execução ética de um pensamento é mais importante do que a eventual perfeição desse pensamento. Veja-se: o puritanismo sexual da personagem de Robert Mitchum tem um carácter evidentemente patológico, mas quando a mãe galinha diz que as mulheres são tontas sentimentais, ela está a dizer uma verdade. E, no entanto, partem os dois da mesma moral, o cristianismo, que foi fundada sobre o sentimento do amor, mas que se tornou bem mais ambiciosa, bem mais pesada, do que esse sentimento.

"The night of the hunter" não é um filme sobre a fragilidade das crianças na era da Depressão dos anos 30. A fragilidade aqui debatida é a que resulta da própria condição infantil. Na inesquecível sequência de viagem pelo rio, os animais (aranhas, sapos, coelhos) velam pela segurança dos meninos, como num conto de fadas. No fim, tenho a certeza de que todos queremos ser filhos de Lillian Gish. E como ela é a grande mãe do cinema (embalando o berço da humanidade em "Intolerance" de David W. Griffith), ela faz de nós todos ciné-fils. E quem será capaz de garantir que não foi (também) educado pelo cinema?

Creep

Se bem percebo esta narrativa de gestação do facebook defendida (com pouco talento) no filme "The social network" de David Fincher, ela ecoa aquilo que argumentei no meu ensaio sobre a presença do filósofo Sócrates no livro "O banquete" de Platão: muito do que hoje constitui a nossa cultura social deriva da influência decisiva que sobre ela tiveram um conjunto de homens sem grandes talentos sociais. O mais curioso, e assumo isto confessando que a minha personalidade se aproxima daquilo a que vulgarmente se chama um nerd, é que as pessoas com uma capacidade de sociabilização equilibrada talvez não precisassem propriamente do legado desses visionários...

O facebook (do qual participo) parece-me, contudo, bastante inócuo (ao contrário da blogosfera, por exemplo). A verdade é que continuo a ver a geração da internet (os adolescentes contemporâneos) a constituir relações sociais de facto e em presença. No máximo, a rede social pode servir para enganar um pouco alguma solidão real, mas não está a transformar a humanidade numa distopia geek. E tem vantagens: já encontrei amigos do passado por essa via... Aliás, pelas suas próprias características, o facebook acabará por passar rapidamente de moda, pois é disso que se trata, e não nos nos assombrará durante milénios como o platonismo. Até porque, seja qual for a nossa adesão a este filão filosófico (eu não adiro), ele foi fundado a partir de uma preocupação ética profunda, e o achado de Zuckerberg não passou de uma ambição de um jovem emocionalmente imaturo (quero lá saber do seu Q.I.).

Continuemos a brincar um pouco no facebook, nada mais.



Imagem retirada daqui

domingo, novembro 07, 2010

Telegrama

O professor Diogo Freitas do Amaral, uma espécie de Zita Seabra mas em bumerangue, disse que não apoiava a candidatura de Manuel Alegre à presidência da república porque, apesar deste ser um excelente poeta, os poetas costumam andar na lua.

Discordo.

Por várias razões.

Manuel Alegre, com todas as qualidade que possa ter, não me interessa nada como escritor.

Quem foi à lua, foram os americanos, não foram os poetas.

A poesia ou tem relevância política, ou não tem relevância nenhuma.

Ser presidente da república deve ser um dos postos menos políticos de uma nação.

Perante esta expulsão da república, poupem então os poetas às homenagens, comendas, grãs-cruzes e demais alfinetes de trazer na lapela.


P.S. - Manuel Alegre também não me interessa nada como político.

Confissão 29

Sou tão absolutamente ambicioso que não me comove nenhum dos modelos de reconhecimento que o mundo tem para me oferecer.

Leveza sustentável

Tudo o que compõe o poema (imagens, figuras, sonoridades...) deve ter a consistência de uma cintilação breve.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Gostaria de ter escrito 9

Parágrafo


Sou dado às coisas assim prontas, como quando uma coisa alude a outra e tudo flui em harmonia; um futuro rodeado na ciranda que deita rodas gigantes em carrosséis, assegurando-me giros sem alturas. As coisas assim prontas surgem do meu anexionismo: o que me é compreensível é porque também me compreende, o resto ignoro; os que insistem, construo divisas e isolo.

Rafael Costa

segunda-feira, novembro 01, 2010

Casting 14

O realizador chileno Raúl Ruiz parece ter mais talento para imaginar personagens do que para escolher os actores que lhes hão-de dar corpo.

Em "Os mistérios de Lisboa", filme ao qual não consegui aderir, há vários erros de casting. É o caso de Joana de Verona, actriz que desconhecia, e que na saga camiliana representa o papel de uma criada que rouba o marido à patroa, para, mais tarde, já respeitavelmente casada com outro homem, se ver obrigada a enfrentar a amante do seu marido.

O primeiro aspecto do erro resulta de, perante aquela pessoa, ser difícil acreditar que a sua personagem é originária de um meio social desfavorecido (o mesmo acontece com Ricardo Pereira, que não é por ter uma cicatriz de caracterização que consegue expor uma cicatriz social). Mas a maior dificuldade deve-se ao facto de Verona ser claramente muito mais oliveiriana do que ruiziana, como provam a sua tendência para uma declamação demasiado pura e a fragilidade do seu corpo-pronto-a-ser-habitado-por-um texto.

Ao meu lado, dizia-se que ela era uma má actriz. Não me parece, parece-me deslocada do projecto, o que é uma coisa diferente. Aliás, Joana protagoniza mesmo um dos melhores momentos dos "Mistérios de Lisboa". Quando, no frente a frente com a magistral Clotilde Hesme, Ruiz a enquadra em grande plano, a sua insegurança física perante a adversária é exponenciada pela agitação descontrolada dos brincos que está a usar. Eis um pormenor que tenho a certeza de que ninguém previu, e que contribui de forma radical para a expressividade e o sentido do filme.

sábado, outubro 30, 2010

Partilha 103

féerie terciária


quero ser uma bola
entre verdasco e nadal
a ser mártir que seja por razão sexual
uma antígona esmagada
escrevendo uma valsa pornográfica
que principia assim:
as linhas paralelas só se encontram no infinito

a verdade é que me quero casar
com toda a gente que quero foder
a política
é dizer o mesmo a todos:
como não consigo ganhar
tudo aquilo que servi
entra em mim e na minha vida como um f.m.i.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Soigne ta gauche

Quando, durante o debate nacional em torno da questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, Agustina Bessa-Luís defendeu uma previsível posição conservadora, houve quem lhe tivesse respondido com insultos ao seu trabalho literário. Do estilo: essa senhora, que nem sequer é boa escritora, não tem autoridade para dizer tal enormidade.

Não incorrerei em igual baixeza neste post. Por isso, começo por confessar que nunca li a obra do poeta Ferreira Gullar, e que a minha vontade de objectar a uma ideia pela qual ele pugnou numa entrevista conduzida pela jornalista Alexandra Lucas Coelho, resulta de um exercício de cidadania e não se confunde com qualquer crítica literária. A sua eventual excelência como escritor não está aqui em causa.

O que me incomodou, na já mencionada entrevista, foi o facto de o autor brasileiro ter defendido que, após o falhanço das ditaduras comunistas, ninguém se podia considerar "de esquerda". Não me deterei nas suas ideias sobre Lula da Silva, pois ele terá muito mais autoridade do que eu para as defender, já que vive numa proximidade com a política do seu país com a qual eu não posso competir. Por outro lado, o tema "esquerda" é suficientemente lato para exigir a generosidade de um denso livro que o tente abarcar. Pretendo apenas formular uma razão pela qual vale a pena, hoje, manter aquela filiação ideológica, uma razão que tem tudo a ver com o Brasil.

Quando eu continuo a dizer que sou "de esquerda", pretendo, entre muitas outras coisas, fazer finca-pé na ideia de que as sociedades africanas e americanas que foram colonizadas pelos europeus após a brecha aberta pela expansão ultramarina portuguesa não só não eram sociedades inferiores aos seus visitantes opressores, como foram irremediavelmente prejudicadas pela colonização.

Parece-me evidente que o mundo europeu tinha algumas superioridades: a nível bélico (o apogeu disso foi atingido em Hiroxima, um grande orgulho, sim senhor), a nível científico (e contudo, é constrangedor que a sofisticação da ciência não tenha conseguido anular o fundamentalismo religioso no mundo ocidental, tendo nós hoje de assistir à miséria intelectual do criacionismo), a nível do pensamento abstracto. No entanto, a antropologia, a sociologia e a história já provaram que muitas dessas sociedades de "primitivos" viviam uma espécie de equilíbrio cívico notável que os europeus não foram capazes de compreender.

As vidas dos índios da Amazónia seriam vidas duras, já que a natureza com a qual tinham de se confrontar não era passível de uma dominação fácil, mas decorriam em ambientes de ética sofisticadíssima. Na tribo dos Bororo, por exemplo, a ausência de sistemas institucionalizados de punição criminal era paralela a uma quase ausência de crime na comunidade. No ocidente, após páginas e páginas e milénios e milénios de religião, moral e direito, o que podemos constatar é uma espécie de imparável esplendor da corrupção, aberta a todas as mutações e a todos os requintes. Basta dizer que, nos Estados Unidos da América, ainda existe a pena de morte...

Não quer dizer que essas sociedades fossem perfeitas (os aztecas, por exemplo, faziam sacrifícios humanos), nem que tivéssemos de nos rever nas suas culturas. Agora, o facto de nelas existir um equilíbrio comunitário notável é um facto insofismável. Não eram mundos que precisassem de ser corrigidos.

A minha sobrinha de catorze anos disse-me que, se o Brasil era uma potência em ascensão, isso se devia aos portugueses, que o descobriram e o livraram do seu primitivismo. É claro que ela terá tempo para adquirir uma outra consciência cívica, mas, para as Helenas Matos deste mundo, que se preocupam com a terrível lavagem ao cérebro ideológica que a escola pública faz às criancinhas, este falhanço na doutrinação deve ser um alívio. E de facto, os negros africanos, depois de séculos de sujeição à escravatura, até nem se estão a dar mal. As merdas de nações nas quais o colonialismo os fez desembocar poderiam cheirar muito pior. Teriam direito a isso. De resto, os milagres económicos que aí se anunciam (Brasil, Índia, China, Angola) são o passo decisivo e último da colonização. Temo o pior: para os paralíticos que começam a andar (basta ver a total falta de inteligência económica da exploração da Amazónia; mas o capitalismo, que baseia o seu dinamismo nas estratégias do lucro, não contempla, por definição, a preocupação com o longo prazo), e para os caminhantes a quem vão partir as pernas (parece que é preciso que os europeus voltem a ser pobres para se tornarem competitivos).

Acima de tudo, ser de esquerda é ter a certeza, ao contrário do que dizem os militantes de direita, de que outras sociedades são possíveis. Dizem-nos que não, que só há o capitalismo, e que só o capitalismo funciona, mas essas outras sociedades existiram, e funcionaram, e bem. Geralmente, a devoção assanhada ao capitalismo deve-se ao medo do comunismo. Meus caros, eu não enfio tal carapuça: os comunistas são copinhos de leite perante a intuição de liberdade que eu trago no meu pensamento.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Partilha 102

não se deite logo após a ceia


diz-se
que por causa da grécia
(é sempre a mesma desculpa)
nos vão tirar o décimo terceiro mês
e o subsídio de férias
mas eu preferia perder o natal
(ou as agências de viagem)

não sei
se a associação americana de psiquiatria
já considera uma doença mental
o desejo de beber água
quando há quarenta graus à sombra
mas é mais dia
.............................menos âncora



Nota: como é óbvio, este texto foi esboçado há vários meses atrás.

segunda-feira, outubro 18, 2010

A partir de agora...

... vou animar um terceiro site pessoal: três escrínios.

Será o espaço de pré-publicação de um livro de poesia composto por uma série de cem variações a partir de um poema em prosa de Jean-Arthur Rimbaud.

Embora pressinta que esteja a abusar da disponibilidade dos meus eventuais leitores, agradeço desde já as visitas que possam fazer ao texto.

sábado, outubro 16, 2010

My Darling Clementine (Barber & Church Dance Scenes)

"My darling Clementine" - imagem

O INACTUAL 53

"My darling Clementine" - John Ford (1946)



Fala-se mais do 25 de Abril que do 26 de Abril, mais do 27 que deste último, e assim sucessivamente, até chegarmos aqui sem sabermos por que aqui estamos. John Ford, fazedor de westerns, optou por contrariar a podridão que sempre se apodera de um estado de coisas burguês precisamente através do recuo até aos momentos fundadores da sua nação.

Shakespeare in Tombstone significa uma cirurgia médica realizada nos aposentos de um saloon, ou os esqueletos de uma igreja e de um baile montados sobre a aridez de um descampado. Estou certo de que qualquer anarquista compreenderá, mesmo que com isso não concorde, este poder de evidência que os primeiros esforços de uma ordem trazem consigo. O desejo rimbaldiano de dilúvio só difere no timing da esperança de civilização.

"My darling Clementine" é um filme em que os personagens têm de aprender a distinguir os duelos aparentes (entre Wyatt e Doc, entre Clementine e Chihuahua) daqueles que, de facto, implicam uma oposição (a família Earp contra a família Clanton). Os primeiros resolvem-se à conversa, os outros, não. De qualquer modo, a crueldade épica de Ford é tanta que todo o negativo que existe na pequena cidade desejosa de urbanismo tem de ser erradicado, mesmo que esse negativo esteja destituído de um dolo: Doc Holliday, o fascinado pela morte, tem de falhar e tem de morrer. A construção, a caminhada não pode parar.

A mais bela cena do filme é a caminhada do ainda-não-par Wyatt e Clementine em direcção ao baile no adro da ainda-não-igreja. Só isso: caminhada que tanto revela uma convicção firme como a inaptidão para a solenidade. Aliás, o humor fordiano não funciona como mero comic relief, antes sinaliza a resistência do humano a toda a institucionalização. São pessoas que ali estão, pessoas de verdade, tão imperfeitas quanto disponíveis.

O filme apoia-se na magistral composição de Henry Fonda, muito mais expressivo do que todos os John Waynes: rudeza sem maldade, timidez, sageza não literata, ética sem vacilação. O outro trunfo de "My darling Clementine" é o virtuosismo do cineasta na construção de cenas de género. Mesmo que este seja um dos seus filmes de argumento mais clássico (como "Stagecoach" ou "The man who shot Liberty Valance"), a sua poesia deve muito mais à indulgência que Ford mostrou naquelas obras em que quase só acumula, de forma semi-invertebrada, as acções antropológicas que o apaixonam (desde a cena de pancadaria até ao cortejo fúnebre). Tudo se resolve na força da encenação.

Não conheço ninguém, não conheço mesmo ninguém, para quem uma ideologia seja menos relevante do que a generosidade ética na execução de um pensamento. Estamos todos presos aos clubismos das nossas convicções apriorísticas. John Ford obriga-me a ser melhor: ele é um conservador, pela sua cabeça andarão Deus-pátria-família e outras fórmulas que não estimo, e, no entanto, eu preferiria que as rédeas do meu país lhe fossem entregues a ele, e não a Pier Paolo Pasolini.

Ford sabia que não há início que não seja fundado sobre uma perda, sobre uma tristeza. O amor de Wyatt e Clementine começa por uma separação.



Obs.: Sem querer branquear excessivamente a sua obra, parece-me que o racismo perante o povo índio latente em alguns dos filmes de Ford se deve essencialmente à normatividade do western e ao desejo de caracterizar com fidelidade os personagens da época desse género. De qualquer modo, o autor realizou algumas obras dedicadas à dignidade dos nativos norte-americanos.

domingo, outubro 10, 2010

Irritações

1. Um dos argumentos evocados por aqueles que pretendiam evitar a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo era o facto de a maioria dos portugueses não estar de acordo com esse passo jurídico. Curiosamente, embora esta mudança tenha, de facto, repercussões culturais de alguma dimensão (por minha parte, considero-as benéficas), a verdade é que ninguém fica obrigado a um casamento homossexual, nem a ser homossexual, nem sequer a simpatizar com homossexuais: basta uma atitude de respeito dentro dos limites da legalidade. Ora, no caso das recentes medidas de austeridade económica anunciadas pelo Primeiro Ministro, os conservadores dizem agora que elas têm de ser impostas a despeito de todas as greves gerais, por mais expressivas que elas sejam. Para além da incoerência ética desta maneira de relativizar o respeito pela suposta vontade dessa entidade de costas largas que é o povo, parece que é quando uma disposição governativa tem de facto, e de modo inequívoco, repercussões na vida das pessoas, que a vontade destas deixa de ser relevante.


2. Temos ainda hoje a impressão de que haveria alguma forma de harmonia política na Atenas mítica do passado. Nunca saberemos se tal harmonia não terá sido bem mais mítica do que real, mas temos textos (verbais e não só) suficientes para podermos reconhecer nessa civilização uma inteligência de vida em comum assaz surpreendente. Há, contudo, um dado que nunca costuma ser salientado quando se fala da Grécia antiga: é que a unidade colectiva era a cidade, e não o país. A dimensão é um problema ao qual os pensamentos não têm concedido grande relevo e, no entanto, ele parece ser mais decisivo na vida efectiva do que muitos outros factores. Numa cidade (de dimensão moderada, claro, Atenas não era as actuais São Paulo ou cidade do México), o homem é capaz de cobrir fisicamente todo o espaço público e de contactar, pelo menos a um nível visual, com todos os indivíduos que compõem a comunidade. O número reduzido de pessoas tentando viver juntas, a especificidade dos problemas que lhes são colocados, a flexibilidade ágil com que as soluções podem ser experimentadas, são factores nada despiciendos do sucesso potencial de qualquer projecto. Tente-se resolver os problemas de dez pessoas e tente-se resolver os problemas de mil... Na época da Aldeia Global, eu vou fundar um partido bizarro: o Partido das Cidades-Estado. Se ele há maluquinhos a pugnar pela monarquia, por que não hei-de eu defender um colectivo ao alcance do indivíduo?


3. As tecnologias exercem um poder de sedução rápido, brutal, tirânico mesmo. A sua utilidade é inquestionável: como pudemos alguma vez viver sem electricidade? Eu, que adoro cinema e escrevo num blogue, sou o último a poder denegrir a importância da tecnologia. Mas, francamente, parece-me hoje que o futurismo foi um movimento intelectual bem mais ingénuo do que o surrealismo. Precisamente por que a máquina é viciante, sufocante no seu apelo, como as drogas duras ou o tabaco, aderimos a cada novo passo em frente na tecnologia sem pensarmos duas vezes. Ou seja, como tudo na vida, a tecnologia só é verdadeiramente benéfica se utilizada com a devida moderação. Que o automóvel tenha feito as distâncias mais pequenas, isso é belo como a Vitória de Samotrácia! Mas que nos tenha facilitado a propensão para uma preguiça totalmente desadequada à nossa verdade biológica, que tenha poluído o mundo em níveis absolutamente escandalosos, que tenha destruído toda a noção de comunidade física (podemos hoje trabalhar, dormir e descontrair em locais que distam quilómetros uns dos outros), que nos obrigue a uma infinidade de (mais) créditos bancários, nada disso será defensável para a maioria das pessoas, se por acaso tomarem algum tempo para reflectir. Só que as distopias de ficção científica não falam do futuro: as máquinas já mandam, agora, em todos nós. Gostaria de ouvir o que o Marinetti teria hoje para dizer...

quarta-feira, outubro 06, 2010

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"L'avventura" - imagem

O INACTUAL 52

"L'avventura" - Michelangelo Antonioni (1960)



Uma das motivações que estão por trás da originalidade visual do trabalho de Antonioni é a necessidade que ele sentiu de problematizar a relação do humano com o seu cenário de digressão, qual figure in a landscape. Ao contrário da sensibilidade clássica de John Ford ou da mise en scène alegórica de Theo Angelopoulos, o cineasta italiano não pretende atingir imagens de harmonia. Muito pelo contrário, o que se pretende destacar é a especificidade frágil do homem em contraste com as maciças evidências das construções que o circundam. Daí a célebre inventividade dos enquadramentos (comparável à de um Godard), constantemente obrigando o espectador a tomar consciência da dissonância antropológica.

Em "L'avventura", os personagens deambulam por entre as construções de e para Deus. Na localidade de Noto, Sandro menciona que os edifícios religiosos do passado eram levantados com o propósito de durarem séculos. Mas a magnífica ilha selvagem onde aporta o grupo de ociosos em cruzeiro é uma construção divina destinada a durar ainda mais tempo do que a própria arquitectura devocional (noutros filmes, Antonioni falará da paisagem contemporânea). Ora, a modernidade que o realizador pretende registar caracteriza-se pela extrema efemeridade de todas as ambições e concretizações humanas. A pintura antonioniana retira assim a sua razão generativa desta décalage temporal.

Mas por que motivo já não conseguem os homens erigir catedrais? A ficção que o filme desenvolve revela a impossibilidade do presente dar resposta à questão do desaparecimento. É claro que, meio século passado sobre esta obra-prima, o cinema continua a anacronicamente resolver todos os mistérios policiais para os quais o empurram os seus ditames mercantis. Mas Antonioni não explica o que aconteceu a Anna. O seu desaparecimento, apesar de se confundir metaforicamente com a magnificência da já mencionada ilha, não tem qualquer solução à vista.

Ora, a partir do momento em que os homens deixam de considerar metafisicamente o conceito de ausência, a presença adquire um poder de persuasão tirânico. A quase felliniana cena em que dezenas de homens tresloucados perseguem uma prostituta de luxo demonstra de forma exemplar esta forma de ignorância profundamente nova. Perdida a ciência da ausência, o amor torna-se impossível: o filme atinge uma espécie de surrealismo discreto ao mostrar, de forma absurda, como bastam uns instantes sem o corpo supostamente amado, para que o corpo supostamente amante encontre novo interesse relacional.

Não quer isto dizer que Antonioni advogue um regresso à fé religiosa. A sua ideologia impediria esse saudosismo. A sua vaga proposta de solução surgirá no filme "Blow up", na deslumbrante cena da partida de ténis sem bola, em que o autor defende que o sentido deve ser, acima de tudo, vontade de sentido. A ausência pode ser, portanto, um instrumento de trabalho. Como Rimbaud, talvez Antonioni tenha pressintido que o amor precisa de ser reinventado. No fim de "Identificazione di una donna", uma nave espacial parte em aventura: poderemos descobrir-inventar um artigo que não seja definido nem indefinido?

sábado, outubro 02, 2010

Partilha 101

teia de aranha



gostava
que a minha poesia suasse
como melodia de nino rota
tocada numa tiorba
durante o lento banho
da imperatriz
yang kwei-fei

eu e a adília lopes
escrevemos poesia
de grande teor sexual
mas desconfio
(embora não tenha a certeza)
de que em ambos os casos será mais a viuvez branca
do que a pândega real

Partilha 100

em obras (setembro)



com essa caixa de ressonância
pareces uma puta sem patrão
da rua de betelgeuse

(tr)
ah, não fosse eu estar num desconserto
e preparava-te essa cona

como manda a lei de titius-bode

p'ra a manuela araújo
(professora do conservatório)
tocar cravo
era o mesmo que bater punhetas a grilos
ora, segundo a minha poética
estes chistes são menos cómicos
do que líricos


(tr - abreviatura de "assobio segundo a estilística do trolha")

Partilha 99

menu de degustação



certos rapazes são relíquias
aqui deixadas por heróis, por santos ou por deuses
(dada a solar proximidade
uma madeixa site specific,
rebentação do céu no olhar,
um sexo ao alto que convida
a uma promessa em genuflexão)

como é difícil
a arte de fazer lacinhos
sempre admirei aquelas mulheres
que com recurso a uma simples tesoura
fazem, das fitas, ornamentos
das fugalaças
paramentos

quarta-feira, setembro 29, 2010

Galeria 51



Emily Dickinson

Fragmentário de Miss Dickinson

"I dwell in Possibility -
A fairer House than Prose -

More numerous of Windows -

Superior - for Doors -"


"I lost a World - the other day!

Has Anybody found?

You'll know it by the Row of Stars

Around its forehead bound."


"It was given to me by the Gods -

When I was a little Girl -
They give us Presents most - you know -

When you are new - and small."



"Parting is all we know of heaven,
And all we need of hell."


"Success is counted sweetest
By those who ne'er succeeded.

To comprehend a nectar

Requires sorest need."


"That Love is all there is,

Is all we know of Love;"


"The Grass so little has to do -

A Sphere of simple Green -
With only Butterflies to brood

And Bees to entertain -"



"The Soul selects her own Society -

Then - shuts the Door -

To her divine Majority -

Present no more -"



"Why - do they shut Me out of Heaven?

Did I sing - too loud?"

segunda-feira, setembro 27, 2010

Dickinson, um pouco mais complexa

Emily Dickinson não encontrou, neste mundo, uma satisfação capaz de se comparar à intuição que a Natureza dá de um Paraíso. No entanto, não era uma mulher de fé. Não posso jurar pelo seu ateísmo ou por um eventual agnosticismo, mas tenho pelo menos a certeza de que uma firme crença religiosa não era compatível com o seu tipo de orgulho intelectual. O que fazer, então, com a convicção do absoluto, com esse presságio sensório de uma Inteireza que talvez não passe de mitologia colossal? Compreendo-a como ninguém.

A sua resposta biográfica a este problema (decidiu, a partir de certa idade, não mais abandonar a sua casa - literalmente!) não me parece isenta de alguma patologia psíquica. A sua poesia, contudo, quase não pactua com essas zonas de sombra. Ao contrário do que acontece com Rimbaud, para quem o inferno quase constante foi também uma estação por comparação com, não há imundície nem vagabundagem no lirismo da celibatária de Amherst. Apenas uma rebeldia de criança lúcida, uma imaginação espontânea e inesgotável, e um conhecimento ignorante da vida que nos abala até à mais desarmada sinceridade.



"This is my Letter to the World,
That never wrote to Me -
The simple News that Nature told -
With tender Majesty"

sábado, setembro 25, 2010

domingo, setembro 19, 2010

"Design for living" - imagem

O INACTUAL 51

"Design for living" - Ernst Lubitsch (1933)


Exactamente ao contrário de "Angel", este filme do expatriado alemão em Hollywood propõe um retrato de mulher a partir dos retratos que ela pretende traçar. A obra começa, aliás, com a tentativa de Gilda esboçar desenhos dos dois desconhecidos cuja vida ela em breve revolucionará. Ora, quem é na verdade retratado é a própria Gilda (uma divertidíssima Miriam Hopkins), já que os dois homens não passam de clichés. E é o retrato de uma mulher que pretende viver a sexualidade contra os pressupostos da moral convencional. Com uma leveza de puro júbilo.

Também como no anterior Lubitsch programado pelo Teatro do Campo Alegre, o que aqui se encena é a fantasia do ménage à trois. No entanto, o que releva em "Design for living" é a constatação de que não se pode mudar de contexto social mantendo o mesmo esquema de moralidade. Note-se que não digo "classe social", porque esta é apenas parte do contexto a que me refiro. A verdade é que também há uma alta sociedade debochada e uma miséria puritana. Mas o que Lubitsch sinaliza é que cada conjunto de valores está directamente dependente do ecossistema que o produziu, e por isso não pode ser levianamente transportado sem se diluir: logo que um dos homens tem sucesso, o trio deixa de ser possível.

O grande interdito do filme é, claro, o casamento. Naquela que será uma das mais brilhantes cenas da fita (que não deve pertencer ao texto dramático de Noel Coward que está na base do argumento, de tal modo ela é típica do realizador), vemos Gilda e o seu futuro marido entrarem numa montra e decidirem da compra de uma cama após terem medido a largura de cada um dos seus corpos. Haverá maior ausência de erotismo do que esta pantomima, e no entanto, não é ela que cria no espectador a convicção de que um matrimónio está na calha?

Lubitsch é um propagandista. Um propagandista da amoralidade no prazer ("Ninotchka" ridiculariza a União Soviética precisamente por causa do seu cinzentismo sensual). Recentemente vi o muito interessante filme "Go get some rosemary" dos irmãos Safdie, e nele, a ausência de comportamento burguês por parte do protagonista masculino era vista como um interdito à possibilidade de levar uma vida satisfatória. Tratava-se de um personagem encantador, é certo, mas com o qual era praticamente impossível conviver. O que teremos perdido desde o cinema anterior aos anos quarenta? O que terá mudado? Ter-nos-emos tornado todos conservadores, ou este mundo de democracia liberal nos mantém encerrados numa armadilha invisível? Enfim, no presente estamos condenados a ver "Design for living" como uma brincadeira leve, quando, na verdade, o filme contém uma proposta experimental, de verdadeiro design da vida.

Partilha 98

voz de bruno ganz



(e=76)

e então, deus teve de cobrir o mundo



mas como deus é um senhor
quis cobri-lo com método e elegância
e perguntou deus:
o mar, como hei-de cobri-lo................................
com hijab ou com niqab?................................
(e viu deus que a pergunta era boa
e que era bom dizer aquelas palavras)
é o mar só cabelo e pescoço................................
ou rosto inteiro à excepção do olhar?................................

e como há-de deus cobrir a imagem
de mademoiselle caroline rivière
a olhar para nós há mais de dois séculos
desde as galerias do musée du louvre?
(assunto bem sério, este)
talvez um chador de ar puro e fresco
para adiar a burqa durante um ano mais...

[e hei-de eu deixar que me cubram a alma
como se ela fosse carne para canção?
ou tenho o rasgo de um anti-christo
e dou à luz a revelação?]


quarta-feira, setembro 15, 2010

I had not thought song had undone so many

Espero conseguir escrever este post sem cair na misantropia do Vasco Pulido Valente ou no puritanismo do Diácono Remédios. Não o garanto.

Quando a cabeça me pede um descanso radical numas termas de vazio, vejo televisão. E como nada do que é televisivo é estranho ao humano, também já passei os olhos pelo fenómeno "Ídolos".

A primeira impressão que me sobressalta é a de haver tanta, mas tanta gente, cujo sonho é o estrelato pop. Se eu já acho que há demasiadas baratas a andarem de volta da tontice da poesia, actividade com tão fraco prestígio, estas inesgotáveis multidões de arrivistas da voz criam em mim a convicção de que o tão celebrado acto de sonhar está sujeito às mesmas enfermidades que as suas muito menos consensuais realizações.

Depois há toda aquela aura de autoridade que nimba as mediáticas cabeças dos quatro cavaleiros da selecção. Não faço a menor ideia se eles têm autoridade ou não (até porque nada sei sobre música pop, e por isso não me posso arrogar o papel de crítico da crítica). Dizem-me que Laurent Philippe é um excelente músico, e eu acredito. Agora o que eu sei é que, mais do que representarem uma autoridade à qual as pessoas parecem sentir prazer em se submeter, o que eles representam é o mito da autoridade, em versão televisiva (e como eu gostava de ter o talento de Roland Barthes para dizer isto de maneira mais sisuda).

Não me incomoda em demasia que a maioria das pessoas não conviva com poesia-de-tesão, já passei a fase do proselitismo. Mas tenho algumas inquietações a morderem-me a cabeça. Será que aquelas hordas de adolescentes cheios de vida e encanto pactuam conscientemente com o engano instituído? Ou é mesmo gente enganada? Não saberão eles que, independentemente da voz, do palmo de rosto, dos ensinamentos de qualidade que lhes sejam doados, que independentemente até da inteligência e cultura que julguem possuir, se a vida não fizer deles cantores (e é meter bastante corno, cotovelo e demais severidades na palavra vida), eles não o serão?

quinta-feira, setembro 09, 2010

Alguém traduziu um texto meu

montaña


cohete desactivado
por ser demasiado antiguo
pero se mantiene apuntando
al cielo
como un castigo

***

la montaña
es de tal modo celeste
avant la lettre
que antes mismo de perder
la gravedad de la nieve
ya de sus hangares
se desprenden imágenes:
paisages
lunares


***


si la montaña
no va al sol
se desliza el sol en la montaña
con una auténtica profecia:
Es finita la fuga
de luz


(Tradução de Joan Navarro de um poema do livro sonetos para-infantis)


O original e uma tradução para catalão podem ser lidos aqui.

"Angel" - imagem

O INACTUAL 50

"Angel" - Ernst Lubitsch (1937)



Nada será tão prejudicial a um realizador de cinema como a sua capacidade para filmar tudo, ou seja, para funcionar como um excelente profissional. O que normalmente faz a diferença numa obra é precisamente aquela sua porção que o autor, por não a conseguir dominar, contorna através de uma afirmação excessiva das suas verdadeiras competências. Claro que essa incompetência parcial é sempre fruto de uma opção, ainda que se trate de uma opção apenas semi-consciente e usualmente descoberta de forma bastante gradual. É uma vaidade que, de resto, o falsário desconhece.

Ao longo da evolução da sua carreira, Ernst Lubitsch foi-se tornando mestre da incapacidade para mostrar. Tudo o que em "Angel" é putativa exibição de sinceridade redunda em diálogos de um sentimentalismo assaz medíocre. Em compensação, quando o realizador mostra os bastidores, os reflexos, os ecos ou os contracampos da acção principal, o seu cinema atinge um grande nível de intocada originalidade.

Quero crer que o "Lubitsch's touch" não se refere tanto à sofisticação geralmente atribuída ao cineasta (equívoco que se deve ao seu virtuosismo na encenação das classes sociais mais altas), mas a este sistema plenamente dominado de apenas filmar a tangente de um filme, mais do que o filme em si. De qualquer modo, a referência à alta sociedade é essencial para entender estes personagens que só se conseguem exprimir realmente através de um sistema de códigos tão ritualizados quanto resistentes ao confronto efectivo.

Em "Angel", a estratégia está ao serviço de uma leitura de Marlene Dietrich. A obra prolonga a imagem que Josef von Sternberg havia criado no seu ciclo com esta vedeta, que é a imagem da mulher dupla, ou mesmo dúplice, a mulher que destrói a rigidez das evidências morais entre as quais balança. Faz parte da cultura do homem religioso e/ou burguês a profunda falta de imaginação e de liberdade para lidar com uma tensão eterna: a necessidade de construir uma relação sentimental estável e a violência da fidelidade sexual. O binómio puta/virgem terá sido a resposta mais imbecil que foi encontrada. No seu glorioso último filme, "Cet obscur objet du désir", Luis Buñuel ironiza este preconceito ao ponto de fazer a sua personagem feminina ser representada por duas actrizes diferentes. Ora, "Cet obscur objet du désir" é uma releitura do mesmo romance que inspirou "The devil is a woman", de von Sternberg, com a Dietrich.

Muito antes da ousadia do surrealista espanhol, Lubitsch assume não filmar a mulher (Marlene é apenas um ícone de cinema) e cinde a projecção da sua moralidade nos dois personagens masculinos que a olham. Um dos homens entende a mulher em questão como sendo uma esposa sem contencioso, o outro vê-a como um anjo de perfeição. Na verdade, trata-se de uma mulher negligenciada pelo marido que recorre a bordéis chiques para tentar compensar a frustração. Estão ambos errados, e o erro em que ela tem de viver tem a autoria plena dos homens que a inventam contra a sua própria vontade.

Há um momento no filme em que a personagem de Marlene pede ao seu marido para ele não querer saber a verdade toda sobre o enredo em que ambos se ensarilharam, de modo a poderem continuar a viver a mentira do casamento. Mas não é bem isso que Lubitsch pretende. Ele quer fazer-nos aceitar uma saudável amoralidade, para que o casamento não seja uma mentira mas sim uma tolerância sem ilusão. No último plano do filme, Marlene avança para junto do marido, sem ouvirmos o som da a porta que ela teve de abrir e fechar, e sem ouvirmos os seus passos. Ela tornou-se, de facto, um anjo, porque os anjos têm sexo para o amor.

domingo, setembro 05, 2010

Galeria Murnau 7

E agora, um pouco de vida real

Nos últimos anos, o Ministério da Educação pautou a sua gestão do ensino artístico, no ramo da música, por uma filosofia de democratização progressiva. O que, teoricamente, tem toda a lógica. Neste sentido, o ensino dos alunos que frequentam o chamado regime articulado, ou seja, que substituem algumas disciplinas do currículo regular (como Educação Visual e Tecnológica) por disciplinas técnicas de música ministradas em escolas especializadas, tem vindo a ser financiado quase na íntegra pelo Estado.

Esse financiamento (e a expectativa da sua continuidade) foi fundamental para que as escolas de ensino particular e cooperativo do ramo musical pudessem crescer enquanto instituições. Ainda nos últimos meses do ano lectivo que findou em Julho, o Ministério estava a fornecer instruções sobre a admissão de novos alunos em regime articulado nessas escolas. Centenas de alunos foram admitidos, dezenas de professores contratados, tudo para preparar atempadamente o ano escolar 2010/2011.

No entanto, a 3 de Agosto, quando os estabelecimentos de ensino estavam encerrados e os docentes se encontravam de férias, o Ministério voltou atrás na sua palavra, e decidiu deixar de apoiar o crescimento das escolas de ensino especializado de música. Provavelmente porque, dada a enorme incompetência de quem tem responsabilidades governativas, não foi feita uma estimativa realista dos custos que esse crescimento, num contexto nacional, teria para os cofres de Estado. O que, numa situação de crise económica em que esse Estado se vê obrigado a controlar o seu défice, é, de facto, problemático.

Ainda não falei com nenhum colega que não concordasse com a necessidade de abrandar o financiamento deste tipo de escolas. Ninguém é mercenário. No entanto, nada disto justifica que esta legislação recente tenha saído depois das escolas terem organizado o seu ano lectivo seguinte.

Neste momento, a maior parte dos estabelecimentos de ensino estão na iminência de ter de rejeitar os alunos novos que aceitaram no fim do mês de Julho! O que criará um problema de credibilidade a essas escolas. Ao mesmo tempo, muitos professores que tinham deixado os seus postos de trabalho (alguns no sector público) para virem dar aulas no ensino particular e cooperativo, foram abruptamente forçados ao desemprego. Por sorte, a situação não me afectou.

O momento é dramático. Mas volto a dizer: ninguém queria receber um financiamento para o qual o Estado não tivesse capacidade. Queríamos apenas uma gestão que tivesse competência, capacidade de antevisão, boa-fé (sobretudo isto), e uma linha de rumo compreensível e estável. Assim não é porreiro, pá.

Dois projectos para outrem, em torno da voz

1. Recentemente, ao falar com uma colega de trabalho que é cantora e está grávida de cerca de sete meses, perguntava-lhe se não havia nenhuma ópera escrita para a sua condição. Não há. Segundo ela confessou, ainda consegue cantar lied, mas o género operático já está para além das suas forças físicas. Sugiro que, a partir de uma rigorosa investigação médica e acústica, um compositor se lance na tarefa de compor um papel de ópera para uma solista grávida em fim de tempo. É um pouco como escrever para piano preparado. As transformações de um instrumento (e neste caso, a metamorfose está prenhe de sentido e emoção) só podem contribuir para o encontro inesperado de novas sonoridades.


2. Projecto de um filme: uma cantora profissional tenta desesperadamente salvar o seu casamento. Ao longo da obra, as manobras de controlo dos estragos relacionais dependerão do uso virtuoso da voz: numa cena, terá de falar num agudo pianíssimo (talvez para proteger um segredo), numa outra terá de dizer um imenso discurso sem respirar, ainda noutra será preciso fazer um grande crescendo dentro da mesma sílaba, etc. Falhadas todas as tentativas, o filme terminaria com a apresentação da mulher em concerto, cantando a ária "Sposa son disprezzata" de Giacomelli (depois aproveitada por A. Vivaldi). Não em estilo equilibrado, mas à maneira exibicionista de Cecilia Bartoli:


Caderno de encargos

1. Em breve, começarão a ser publicados neste blogue os poemas da segunda parte do meu work in progress "quarenta graus à sombra"; essa segunda parte chamar-se-á "poemas para serem ditos no cinema (estudos para uma dicção menos armada)". Nenhum dos textos terá título, mas será encabeçado pela indicação da voz específica concebida para a sua declamação. As vozes seleccionadas pertencem a actores e cantores míticos. Mas a selecção prende-se unicamente com o timbre da voz (e as características de cada intérprete enquanto falante), e não com o sentido, o passado ou a mitologia (a armadura) desses intérpretes. Por exemplo, o primeiro texto será dedicado à voz de Bruno Ganz. Independentemente dos filmes ou peças de teatro que Ganz tenha feito, mas só por causa da sua idiossincrasia vocal. Claro que essas vozes são ideais, na medida em que a maioria dos intérpretes já estão mortos ou não falam português.



2. Depois de vários anos de silêncio nessa área, recomecei ontem a escrever ficção. Título: "o conto bem temperado". Ao contrário do que fiz anteriormente, a superfície dos textos será bastante clássica, sem o ser profundamente. A verdade é que desconfio um pouco do tipo de vanguarda mais à flor da escrita (cortes, saltos, incongruências, neologismos), e prefiro escarafunchar na essência da narratividade para a tentar desafiar num plano mais estrutural. Por exemplo, no conto em que estou a trabalhar, "A morte é uma flor que só abre uma vez" (o título é um verso de Paul Celan), estou a tentar parodiar a ideia de omnisciência.

quinta-feira, setembro 02, 2010

segunda-feira, agosto 30, 2010

Are you talking to me?

Tendo em conta que ninguém procura o Serviço Nacional de Saúde se tiver os meios financeiros para ser tratado com mais salamaleques, pergunto-me o que pretendem Pedro Passos Coelho e José Sócrates nas suas demagogias que se entre-espelham? Não deveriam antes estar a discutir se é suportável que a Constituição de um Estado seja, afinal, um reduto de hipocrisia?

E se o problema é a exequibilidade económica do Sistema Nacional de Saúde (preocupação pragmática da mais altíssima importância e em relação à qual nenhuma discussão será em demasia), deverá a dificuldade do como-fazer comprometer a exemplaridade do dever-ser de uma Lei Fundamental?

domingo, agosto 29, 2010

Partilha 97

ética do writer



a folha de papel em branco? não existe
nem há disposição de uma autarquia
que limpe com razão
é o cavalheiro que tem de saber escolher
o muro corrompido pelo autismo
que em simultâneo vai cagar
e sublimar

a água e o gel
em infracção
descem pela pele diariamente
é bom cheirar bem
começar de novo
devir
uma folha de papel em mundo

Partilha 96

balconing



em mim as vertigens exprimem-se
por um sensacionismo nos testículos
se eu escalasse o empire state buiding
tornar-me-ia um super farinelli
valeria a pena?
tudo vale a pena
para bater um papo com o king kong

este poema auto-destruir-se-á
dentro de sete versos
primeiro, salvem-se as crianças
as mulheres e os velhos
os doentes, os médicos
e os homens essenciais à nação
depois... bom...

Partilha 95

entre pedreira e pedraria


também eu tenho um conjuntinho
de heterónimos-com-dois-olhos:
o mexia compra, o lamy revende
o burmester faz
desfaz o abrunhosa
e o de portugal (ai de mim!) ai de nós!
chora por si mesmo

não sei se isto é assunto de poema
mas acho que se deveria nacionalizar
o angélico
não tem o tipo de matéria espiritual
adequada ao indivíduo
deveria partir, ir pelo mundo
e fazer do mundo um paraíso

Ouvi, uma vez, o Rivette dizer que...

... se deve construir uma obra como quem desenterra um objecto antigo há muito aprisionado no solo. Deve dar-se tempo ao tempo, puxar com cuidado e paciência, sem forçar, para que o objecto não se danifique.

Esqueceu-se de dizer que há casos de extrema facilidade, objectos que saem da terra como se esta fosse uma areia superficial, e há, sim, outros casos, de objectos que demoram uma eternidade para conquistar a luz do mundo. E há ainda objectos que estão a sair a grande velocidade e depois a terra prende-os no último momento, e outros que pareciam inamovíveis e de repente se soltam como se a magia deveras existisse.

sexta-feira, agosto 27, 2010

No dia do aniversário do blogue...

... algumas considerações a partir do "Diário" de David Perlov.



A minha sobrinha tem, neste momento, seis meses e meio de idade. É infinitamente tocante vê-la a tentar fazer as primeiras conquistas de locomoção, a vida sendo no seu corpo como um imperador cuja degenerescência do poder não fosse sequer concebível. Ao mesmo tempo, o mundo exterior chama-a, sob a forma de cores berrantes, de brilhos insofismáveis, de sons de evidência pimba. A minha sobrinha está a ser exposta à radiação da poesia.

É comum mencionar-se que a etimologia da palavra poesia aponta para a ideia de fazer. Mas o fazer associado à prática da poesia em sentido estrito não produz, claro está, um tipo de utilidade imediata que possa ser semanticamente alargada a todo o tipo de técnica. Talvez o que os homens do passado quiseram dizer com o seu golpe linguístico é que a poesia, enquanto chamada insinuante do mundo, é condição sine qua non para todo o fazer. Desde o fazer conversa até ao fazer arranha-céus. Desde o fazer filhos até ao fazer leis.

De qualquer modo, a poesia está sujeita a todo o tipo de corrupções. A primeira corrupção é o academismo, pouco intrusivo no momento presente, mas que sempre foi uma tentação daqueles que exerceram o poético. O academismo implica, por um lado, um respeito totalitário pelas normas estéticas dos antigos: a corrupção resulta de um erro de paralaxe, pois o que devemos ir buscar aos antigos é a trans-historicidade das suas preocupações mais profundas, e não a contigência epocal das soluções que a estas deram. Na idade adulta, a minha sobrinha continuará a tentar conquistar o mundo que a transcende, mas não da forma como agora o faz.

O outro problema do academismo é a idealização do objecto da produção poética. Esta idealização implica um entendimento infantil da poesia (as cores continuam a ter de berrar mais do que na verdade berram para um adulto) e um outro tipo de corrupção, que resulta da fatalidade deceptiva com que o mundo sempre nos acolhe. A partir do momento em que os brilhos do mundo se vão transformando em realidades mate, surge a necessidade intuitiva do dever-ser. Ora, o academismo impõe o dever-ser ao próprio conteúdo do poema em vez de o direccionar para a transformação da vida que existe para lá do poema. Há, de novo, um erro de paralaxe: o objecto não deve ser poetizado como um substituto pseudo-utópico do presente, mas como uma inquietação para futuro (para o futuro que existe logo a seguir à fruição do poema). Sob pena de não conseguir ser ético, o poeta adulto não pode representar o brilho, mas o desejo de brilho. Porque, para a criança, o brilho é (ainda) o futuro.

Não estaremos longe de confrontar uma outra corrupção: o entretenimento. Se a poesia torna o mundo conversável, é provável que ela degenere em simulacro de conversa. No limite, o entretenimento confunde-se com a publicidade: já não se trata de, como no academismo, dar uma imagem da vida como ela deveria ser, mas de fingir que a vida é melhor do que na verdade é. No entretenimento, a vida é-nos vendida como um jingle pimba, como se cada rosa, cada corpo, cada taberna, tivessem de ser sempre recomendadas pelas principais marcas de máquinas de lavagem ao cérebro. Ora, o mundo que chama a criança é profundamente honesto: ela é que o aborda com uma disponibilidade que não mais se repetirá. A honestidade terá de fornecer o equilíbrio necessário para o adulto ir perdendo o império da vida com a máxima resistência que lhe for possível.

Todos estes funcionamentos defeituosos da poesia podem criar, nos seus mais honestos produtores sistemáticos, um sentimento de asco que acaba por engendrar a última das corrupções: o jornalismo. Só que, à semelhança do que acontece com o tratamento de algumas uvas, esta é uma corrupção nobre. Por jornalismo, entendemos a vontade de colocar o homem face a face com a sua realidade, presente, sem embelezamentos, sem artifícios. É o sinal distintivo daqueles que viveram a esperança com demasiada paixão, e que por causa disso não são capazes de pactuar com o encobrimento do desespero.

É claro que, no limite, o jornalismo é a anulação da poesia. Só que esse limite é mais teórico do que verídico. Não é possível querer mostrar o mundo, e nesse querer já não haver um pingo de vontade de existir-no-mundo. Essa potencial anulação deriva do facto de que a responsabilidade que o jornalismo (em sentido lato) pretende incutir nos seus destinatários tem uma índole mais racional do que poética. A poesia é entendida como uma imoralidade face ao estado do mundo. Mas é talvez esse desprezo pelo poético que explica a calma com que ouvimos notícias de guerra, fraude, tragédia ou crime sem nos demovermos do prazer requentado que nos está a causar o prato de sushi ou a sopa de gaspacho.

Se todas as artes estão grávidas destas confusões (os surrealistas são acusados de irrealismo, os neo-realistas são acusados mediocridade poética), o cinema consegue levá-las ao máximo caos possível. Na verdade, ainda hoje continuamos a dizer que existem dois cinemas, o industrial e o artístico, a debater a criação fílmica ao mesmo nível rasteiro que fez Preston Sturges no seu "Sullivan's travels". Claro que, de tanto nos convencermos que esses dois cinemas existem, eles acabam mesmo por existir. Esquecemo-nos que as obras de Dreyer, Tarkovsky, Fellini ou de algum Godard, situam a sua zona de brutalidade poética precisamente na confluência entre potência de vida e traição do mundo. Se "Vivre sa vie" é um filme moral sobre a prostituição, essa moralidade é inseparável do apelo do rosto de Anna Karina.

Compreendo que, em alguns realizadores, a podridão do cinema se insinue como uma dor tão aguda, que a sua prática se torne insuportável. Parece ser o caso de David Perlov, cineasta israelita, que a dada altura abandonou a experiência convencional da produção de filmes para se dedicar à elaboração de um "Diário" audiovisual. Como quem começa do início, querendo reencontrar a razão profunda pela qual se quis fazer cinema, razão essa que ainda não podia ser formulada conscientemente quando estava no máximo do seu esplendor contagiante.

Perlov começa por dizer que não quer filmar ideias, mas sim factos. Ora, isto é uma ideia, uma poderosa ideia. Aliás, o único aspecto eventualmente negativo do seu filme é a sobreposição da sua narração em off aos factos registados (a voz impõe um sentido razoavelmente inequívoco a todas as imagens). Diz a dada altura que pretende deixar de ser realizador para agir como um repórter. Ora, o diário está cheio de poesia: a música de Bach, o tagarelar das suas filhas, o movimento dos eléctricos em Lisboa, alguns crepúsculos, o mar...

É precisamente a sua profunda honestidade que lhe permite construir um filme onde o mundo nos aparece na plena continuidade entre amor, política, ética, sonho e sofrimento.

quinta-feira, agosto 26, 2010

Concluí, por estes dias,...

... um livro de poesia intitulado "p.s. - o trabalho do milionário". Alguns dos seus textos foram publicados neste blogue.

terça-feira, agosto 24, 2010

Charmes dicretos

1. Toda a religião é uma extrema-unção de Dâmocles.


2. Com o casamento, a piça muda de estatuto: anteriormente okupa, começa o seu longo processo de usucapião.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Conclusão

No fundo, o que eu tentei dizer nos últimos dois posts é que devemos accionar o critério da transcendência para construirmos as nossas classificações. Na pintura, a passagem da figuração à abstracção parece-me ser uma evolução dentro da imanência do próprio objecto-quadro. Já o poema que vale por si (que é ele próprio uma forma de palavra-em-música) e aqueloutro que só se torna poema por intervenção de algo que lhe é estranho, a composição musical (se bem que essa avaliação está sujeita a alguma subjectividade crítica), esses estão separados por um salto de transcendência.

As duas pinturas

Hoje será difícil encontrar um apreciador de pintura que defenda que a figuração não existe em continuidade com a abstracção. Mesmo em estéticas como as de Rafael ou de Ingres, ou nas estratégias do híper-realismo, basta considerar os factores enquadramento e composição para ficarmos cientes do quão artificial é a técnica que cria a ilusão figurativa na superfície de uma tela. Ou seja, ninguém consegue apreciar devidamente um quadro que represente uma paisagem abstraindo-se por completo dos elementos formais que possibilitaram a visualização.

De certo modo, talvez não seja demasiado radical considerar que uma figuração pura é aquela que pretende ocultar a sua dimensão abstracta (não é honesta, portanto), e vice-versa. Sim, e vice-versa. Pois não é possível fazer um quadro completamente não-figurativo, um quadro que, por processos especificamente pictóricos, consiga não aludir a nenhum objecto concreto da convenção-realidade. O que acontece é que o objecto figurado deixa de ser um elemento pertencente ao conteúdo do quadro para se confundir com a totalidade deste. À metáfora da janela aberta sobre o mundo ao gosto dos renascentistas, sucederam-se outras funções para a tela: ela passou a ser um muro onde se garatuja, um cartaz, uma folha de caderno, uma fotografia de Marte, uma janela fechada. No limite (e porque seria pouco rigoroso reduzir tudo a metáforas), o objecto figurado pelo quadro abstracto é o próprio quadro (como acontece em algumas peças de Fontana).

Certas artes (a música) têm uma relação difícil com a figuração. Já a fotografia e o cinema não saberiam converter a sua história numa hegemonia de abstracção. Mas a pintura tem, precisamente, a faculdade de se poder manter agnóstica a este respeito, evadindo-se de um afã classificativo que pretende instaurar saltos qualitativos onde talvez só haja revoluções quantitativas.

As duas poesias

Num programa recente da Antena 2, a cantora/compositora Amélia Muge dizia não confiar na distinção conceptual entre "poema" e "letra".

De facto, enquanto estratégia de diferenciação que faça do poeta um profissional contra a menoridade diletante do letrista (ou, pior ainda, que promova este a profissional para conferir ao outro o estatuto de artista), nenhum critério é aceitável.

No entanto, creio poder estabelecer-se um critério de diferenciação, pouco útil ou ágil na sua utilização prática, mas ainda assim razoavelmente rigoroso: um texto será uma (mera) letra quando, sem a sua conjugação com o elemento musical, perde eficácia enquanto texto.

É o que, de certo modo, separa a actividade de Vinicius de Moraes enquanto autor de letras de canções (não conheço, infelizmente, a sua restante escrita) e a produção de Chico Buarque. Presumo que irritarei alguns admiradores de bossa nova, mas quer-me parecer que a letra de "Chega de saudade", se a lermos sem qualquer referência à conhecida música que a encena, é um texto bastante fraco. Pelo contrário, as letras de Buarque são tão brilhantes que parecem por vezes superar a sua cobertura musical, o que o torna uma espécie de declamador-a-cantar, um trovador (como Leonard Cohen). Buarque escreve poemas de pleno direito, que seriam igualmente eficazes num suporte mais árido como o livro. A música está neles implícita, como pretendia Mallarmé. No entanto, seria impensável dar a "Chega de saudade" um poema melhor do que a letra de Vinicius de Moraes. A poeticidade da canção resulta precisamente da aliança entre esse texto específico e a justeza da composição (se é que não temos de incluir na equação a voz de João Gilberto). Poeticidade que será porventura mais difícil de atingir, pois envolve uma maior número de estados de graça.

Franz Schubert foi um dos maiores escritores de canções de sempre. Hoje é mais ou menos consensual a ideia de que a poesia de Wilhelm Müller, para a qual ele compôs os seus dois ciclos de lieder ("A bela moleira" e "Viagem de inverno"), é bastante desinteressante e datada. No entanto, o compositor austríaco construiu uma poética magnífica a partir desses textos, o que faz com que, a despeito de Müller ter tentado escrever poesia, os seus textos acabaram por ser salvos do esquecimento por se terem tornado óptimas letras de canções.

Imperativo

Enche-me as medidas por uma ordem terna: primeiro, a energia; depois, a ária; por fim, o tempo.