segunda-feira, dezembro 20, 2010

Partilha 109

ecolocação


vi ontem um rapaz
que muito quis foder na adolescência
(mas não fodi)
Ele 'stá mais feio: eu também.
divino dilema proustiano -
quando eu o debicar
debicarei presente ou já passado?

ele amava demasiado a maria madalena
p'ra fazer dela sua primeira dama
imagine-se:
ter de rezar terços na rádio como a eanes
ou de ser um exemplo moral como a barroso
- ficámos cegos, depois disso
.....................................................(cegos)



Nota: afinal, ainda houve esta visita não convidada de um personeto. Penso, aliás, que outro vem a caminho. Mas logo, logo, acabarão.

Adenda a "O INACTUAL 28"

Já falei aqui sobre o "Aniki-Bobó". Mas ao revê-lo ontem, na reposição que um cinema do Porto lhe dedicou, surgiu-me uma pista de leitura oblíqua face à anteriormente proposta.

Que o filme tem uma superfície de discurso moral, isso é evidente. Mas o conteúdo desse discurso é bem ambíguo. O roubar da boneca é o indício figurado da vontade que Carlitos tem de roubar a namorada ao amigo. É uma paixão pura e dura, alheia a frios cavalheirismos. No entanto, a culpa imaginária que, a propósito disso, sobre ele se instala (na magnífica cena do jogo de polícias e ladrões) é completamente curada pela injusta acusação real que posteriormente o atinge. Oliveira terá os seus negócios com a Transcendência, mas parece convicto de que nem todos os Mandamentos terão o mesmo peso: cobiçar a mulher do próximo não equivale, de modo algum, a matar. E no fim, Carlitos fica com Teresinha...

Em concordância estética, os miúdos representam o que acham que é representar (nesse sentido, o filme não tem nada a ver com a naturalidade procurada pelo posterior neo-realismo). Estes sorrisos de cromos japoneses ou os beiços amuados de forma hiperbólica (imitação bacoca dos adultos) são o tipo de subtileza que Oliveira tem na abordagem aos actores que, ainda hoje, lhe vale desaforos e incompreensões. O esplendor dessa maneira será atingido no "Acto da Primavera", na medida em que o artifício é radical e plenamente assumido em todos os aspectos da realização. Pena que, nos últimos anos, Oliveira tenha perdido a firmeza do seu sistema.

Cadernos oliveirianos 1

1. Quando rodou "Douro, faina fluvial", o realizador Manoel de Oliveira tinha cerca de vinte e um anos, e o cinema não era muito mais velho. O seu documento sobre o trabalho popular na zona ribeirinha do Douro foi assim construído sob o signo da energia eufórica e juvenil. Energia-futurismo, energia-mar, energia-povo. A única adversidade capaz de suspender anormalmente a faina era a (ameaça de) morte.

A mensagem do irreformável Oliveira, com cento e dois anos de idade, mantém-se, muito ironicamente, igual.


2. O último disco do cantor B Fachada (que gostaria imenso de ouvir) é jornalisticamente apresentado como uma diatribe contra a educação moral que é vulgarmente imposta às crianças. E, de facto, a ética parece ser o tema obsessivo da produção artística infantil (basta pensar em "Germania, anno zero"). Moral, imoral, amoral... Não haverá forma de falarmos às crianças saltando gentilmente sobre esse assunto?

Cadernos tchekhovianos 1

Nas grandes peças de Anton P. Tchékhov (mas também na sua contística), as personagens mais comoventes são aquelas cujas expectativas sobre a vida foram irremediavelmente empoladas por uma educação tão requintada que a vida provinciana não lhes consegue dar plena satisfação. A educação frustra, dá ao real a fealdade que ele talvez até nem tenha.

Ora, Tchékhov foi, à semelhança do seu ídolo Tolstoi, um construtor de escolas para camponeses. Esta aparente contradição pode ser lida de duas maneiras razoavelmente antagónicas. Ou o autor de "As três irmãs" era de facto um pessimista profundo, mas incapaz de deixar de lutar (um Prometeu sem fé). Ou, pelo contrário, achava que a mediocridade da vida russa era uma questão conjuntural, e que era preciso trabalhar concretamente para que, no futuro, todos os seres pudessem conviver em igual estádio de exigência espiritual.

Seja como for, o escritor morreu antes do falhanço do comunismo.

Marginália

1. Não há qualquer razão inevitável para que um verso seja graficamente alinhado pela direita de uma página, e não pela sua esquerda (ou pelo centro). Mesmo no sistema de escrita-leitura ocidental. É uma convenção, como outra qualquer.

Ora, se nascer num berço de ouro faz toda a diferença, ser enterrado num caixão de ouro já não faz. Nos meus "poemas para serem ditos no cinema", os versos serão alinhados pelo seu fim, e não pelo seu início.


2. Todo o poema é uma construção. Os "poemas para serem ditos no cinema", construídos como para-confissões de um sujeito lírico cansado (mas que não deixa de se auto-mitificar), deverão funcionar como estudos para uma dicção menos armada. Serão quase poemas não-construídos (o que é ilusório), cuja espessura fica irremediavelmente dependente da voz lendária que os deveria dizer/ter dito (e que vem especificada em cada título). É o fantasma dessa voz que lhes serve de alicerce, parede e acabamento.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Mínima

Escolhe a forma como escolhes um companheiro de cama, e o conteúdo como escolhes um companheiro de vida.

Temps oblige

Todos os passos são para a frente, mesmo os que se dão para trás.

domingo, dezembro 05, 2010

O critério

Se me perguntarem por que profundíssima razão eu escrevo poesia, sou capaz de urdir um ou dois ensaios de alguma extensão argumentando meia dúzia de bitaites conceptuais (e até políticos) sobre o assunto. Mas, para ser muito sincero, e por mais voltas e reviravoltas que eu dê à minha intelectualidade, a principal e mais profunda razão pela qual escrevo poesia é porque adoro poesia. Só isso.

Compreendo que, para algumas pessoas (especialmente se forem tão sérias como o Rimbaud pós-dezassete-anos...), um certo nojo existencial se possa sobrepor a um tal amor simples (falei disso a propósito de David Perlov e o cinema - aqui). Mas já me custa mais a aceitar que, no seguimento da presente desvalorização filosófica da pintura (e é preciso dizer que, mais tarde ou mais cedo, as razões passam de moda), quase todo o artista plástico (de renome?) tenha perdido o gosto pela pintura. Eu sei que já disse isto milhares de vezes, e que esta até nem é a minha guerra, mas é um assunto que não cessa de me espantar.


Imagem retirada daqui

Continuum

Exactamente como aqui defendi que não há figuração nem abstracção puras, também me parece lógico que não possamos fazer, da poesia e da prosa, duas margens separadas por um rio de artifício.

Em qualquer palavra, há sempre duas dimensões conflituais: uma sonoridade (a dimensão musical-abstracta) e uma imagem do mundo (a dimensão pictórica-figurativa). De forma simplista, diríamos que, se tomou vulgarmente por poesia, aquele tipo de escrita na qual os valores musicais (prosódia, ritmo) se revelam independentes dos valores sintácticos que organizam o sentido mimético. Mesmo na poesia contemporânea, há autores exemplares a esse respeito (veja-se, por exemplo, o labor rigoroso de Gastão Cruz). Já a prosa seria o domínio da exultação sintáctica e da negligência musical.

Ora, mesmo na música e na pintura, as coisas não se passam assim. A maior parte da pintura produzida nos últimos cem anos é abstracta, ou seja, relaciona-se mais imediatamente com dados musicais (ritmo, tonalidade) do que com referências inequívocas ao chamado mundo real. Por outro lado, a música não está isenta de ambições miméticas: Olivier Messiaen, um dos compositores de vanguarda do século XX, dedicou grande parte da sua criatividade à imitação do canto dos pássaros.

A própria mancha gráfica que estamos habituados a associar a um poema relaciona-se sobretudo com a musicalidade da pintura... E se é impossível escrever um poema sem qualquer referência ao real (a não ser que se escreva com palavras totalmente inventadas e irreconhecíveis, pois, caso contrário, mesmo um poema absurdo continua a guardar o sentido de cada palavra individualmente considerada), também não há qualquer hipótese de se escrever um trecho de prosa sem este ter, por exemplo, ritmo. Mesmo que seja um contrato-promessa de compra e venda. Pode-se é escrever sem pensar no ritmo, ou com um mau ritmo, mas ele nunca abandona a construção textual.

Os grandes modernistas franceses (Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé) todos contribuíram para o sucesso do chamado poema em prosa. Mais do que uma inovação, o gesto parece-me ser antes um acto de lucidez e de reposição de rigor conceptual. Ou melhor, de libertação conceptual. Não será um poema em verso livre mais pictórico do que propriamente musical? Se eu escrever pensando na sensualidade de determinada mancha gráfica, não estarei sobretudo a querer ser pintor? E por que razão não há-de haver rima na prosa? E etc., e etc.

Por acaso, eu até defendo que há utilidade na distinção conceptual entre as atitudes que levam à poesia ou à ficção (ou ao ensaio, já agora). Simplesmente, parece-me que essa diferença se estabelece com mais rigor ao nível do conteúdo de cada género, do que em termos das suas contingentes articulações formais. O que quer dizer que a poesia se pode praticar no cinema, a ficção na pintura, o ensaio no verso rimado...

(To be continued)

Nota "En la ciudad de Sylvia"

Não fiquei especialmente cliente deste filme (do ano de 2007) do espanhol José Luis Guerín, se bem que lhe reconheça admiráveis qualidades.

Como não partilho da teoria de que uma forma exuberante possa revolucionar um conteúdo medíocre (já aqui expliquei como, em "Touch of evil" de Orson Welles, entendo forma e conteúdo como sendo plenamente solidários), fico bastante inquieto com o lirismo adolescente (se é que, de facto, isto é lirismo) proposto pelo realizador. Compreendo que o seu filme seja uma parábola, e por isso não tenha de ser verosímil. Mas as parábolas não estão isentas de, em si mesmas, terem de apresentar um entusiasmo narrativo (falo de entusiasmo, não de estrutura), e, a esse respeito, "En la ciudad de Sylvia" é um filme delico-doce, previsível e pueril. Apesar de ser usual aproximar-se criticamente este autor da criatividade de Victor Erice, é precisamente ao nível do rigor do conteúdo que os dois se afastam irremediavelmente.

No entanto, há que reconhecer que Guerín é um pintor notável (ou talvez deva dizer "desenhador", para estar de acordo com o cliché proposto). "En la ciudad de Sylvia" vale pela extrema atenção assumida pela câmara perante as inúmeras possibilidades de enquadrar o feminino numa paisagem urbana. Toda a sequência do café, em que o autor nos obriga a olhar para esta ou aquela mulher através dos interstícios deixados pelo movimento de outros corpos, e que culmina com a visão da protagonista (é o café do Conservatoire d'art dramatique...) através de um vidro onde se acumulam os reflexos (fantasmas) de outras candidatas-a-protagonista, é simplesmente maravilhosa. E há momentos de verdadeiro êxtase, neste filme: seja a cena em que o travelling da câmara parece estar apoiado sobre os carris do eléctrico (como se a capacidade de criar imagens estivesse plenamente sintonizada com os movimentos urbanos), seja o breve instante em que a rapariga caminha sob a intensa sonoridade dos sinos da cidade, seja toda a sequência do vento no final...

Dentro do género, já se fez francamente melhor (o Hitchcock de "Vertigo", o Godard de Anna Karina, o Antonioni eternamente tentando identificar uma mulher). Mas este é o género de filme falhado que eu aconselharia a um amigo.

Fala de Casanova...

... ou do Noivo algum tempo antes de dar o nó:

"Gosto de ménages à trois, porque isso me permite despachar mais depressa as pessoas que quero foder."

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Dou por encerrada...

... a minha série de personetos.

Partilha 108

gam


o meu irmão tem um bebé com vários choros
o meu irmão tornou-se
...........................................her-me-neu-ta
um n no céu da boca?
um ó com boca oval?
acabou-se a doçura da vida do meu irmão
agora tem sal

há vários tipos de destino:
pirata
negreiro
de guerra
mercante
diz-se que o amor de pai
tem uma inquietação de moby dick

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Partilha 107

wikileaks


quando eu estiver mais para lá do que para cá
portar-me-ei como um cobarde de primeira
direi que me converti
que me arrependi dos meus gostos na cama
que a partir de então voto cavaco
e deixo o suficiente para todas as dívidas
mas até lá...

certas coisas boas nunca me aconteceram
como nevar
mas nevar tanto que há-de
ser preciso fechar as escolas
e declarar gazeta obrigatória
ou isso
ou um mês inteiro de felicidade

Partilha 106

paz


já passou, vês, já passou...
(a borboleta)
agora
a maturidade é um cancro
que cresceu no teu isolamento
e fez de ti um fruto
.....................................da queda

escrever numa folha de papel
é boda muito breve
quero escrever em algodão
sobre uma crise de lã
sobre uma idade turquesa
em alabastro
ou sobre o meu caixão de jequitibá

Galeria Murnau 9

Mais um texto...

... no meu livro-blogue "três escrínios": aqui.