quarta-feira, agosto 11, 2010

Adenda

Em relação ao que escrevi no post "Il faut être moderne", espero que nenhum ideólogo de direita venha propor uma interpretação de acordo com o erotismo sado-masoquista. A analogia que normalmente se sugere entre a dimensão predadora que existe na natureza e um modelo de economia baseado na competição desregrada padece de diversas formas de ignorância. Na verdade, a natureza é um repositório de comportamentos e funcionamentos de uma variedade inesgotável, sendo o ímpeto predador apenas uma parte desse repositório.

A generosidade é, aliás, explicável em termos darwinianos. A organização de uma vida em comunidade adoptada por um grande número de espécies animais resulta do facto dessa força grupal se revelar determinante para a sobrevivência de cada um dos indivíduos de tais espécies. Ora, a partir do momento em que um quotidiano vital é partilhado, é preciso que certas prerrogativas individuais sejam convertidas em contribuições comunitárias. Em cada grupo de abelhas, há apenas um único ser com direito de se reproduzir. Todas as outras fêmeas abdicam da fertilidade e assumem diversos postos de trabalho na colmeia, desde a defesa militar até à alimentação dos recém-nascidos. A evolução encontrou, para esta espécie, uma solução através da qual a esterilidade da maior parte dos seus indivíduos é ultrapassada pelos benefícios individuais trazidos pela orgânica da sociedade.

Naquele post, eu quis acima de tudo tomar duas posições:

1. Negar qualquer crença pessoal no conceito de alma, enquanto espírito de origem e destino transcendente. Pelo contrário, acredito que o intelecto é uma manifestação do corpo, e que intelecto e corpo trabalham em conjunto, na mesma direcção, um em função do outro, nenhum ocupando um papel de soberania perante o outro.

2. Defender, na continuidade do anterior raciocínio, que a cultura existe como agente de potenciação contínua da vida (como defenderam, à sua maneira e com as trapalhadas usuais da contingência histórica de quem escreve, Espinoza, Nietzsche, Freud ou André Breton). Não é que eu negue a existência da pulsão da morte. Simplesmente penso que, se Freud tivesse ido o mais longe possível na sua viagem ao interior do inconsciente, teria provavelmente descoberto que a pulsão de vida é a mais funda e originária das duas, e que a outra pulsão só existe enquanto manifestação da inevitável degeneração da primeira.

Dir-me-ão que a maior parte das vezes a cultura parece não ter essa função. Ao que eu respondo que é por causa disso que os humanos têm de viver de acordo com pressupostos éticos. E que nenhuma ética será válida se a lógica mais interior que a justifica não for uma bio-lógica.

De resto, sou um apaixonado pelo espírito (e não tenho sonhos molhados com bactérias nem com células). Conhecendo-me como conheço, até confesso que facilmente trocaria a lucidez de toda uma vida por um capricho sentimental.

quarta-feira, agosto 04, 2010

"Pickpocket" - imagem

O INACTUAL 48

"Pickpocket" - Robert Bresson (1959)


No fim deste filme que pretende não ser um policial (na medida em que a metafísica de que se ocupa não está corrompida pela sua própria ocultação), o personagem principal, Michel, preso após uma carreira de razoável sucesso no mundo dos carteiristas, diz à mulher cujo amor finalmente aceitou que foi bastante sinuoso o caminho que os levou até àquela intimidade. Não sei qual era a intenção exacta de Robert Bresson, mas parece-me que o excessivo (e artificial) volume que os sons de passos adquirem nas bandas sonoras das suas obras será a manifestação expressiva mais directa dessa evidência do caminho (a que os homens de religião dão grande importância; afinal, parece que ainda hoje não nos cansámos de celebrar os passos da Paixão de Cristo).

O autor filma uma sociedade cujas trocas de intimidade entre humanos foram mediocrizadas pela cinismo da economia. Em "Pickpocket", essas trocas estão alegoricamente reduzidas à penetração no guarda-roupa de outrem para ter acesso ao seu dinheiro (falo muitas vezes em termos de alegoria, mas a verdade é que estou cada vez mais convencido de que todo o sentido tem um teor alegórico). Ora, a experiência do cárcere (que, para o cineasta, antigo prisioneiro de guerra - ver este post -, representa a estação no inferno por excelência), revela-se essencial para que o carteirista aprenda a construir um elo verdadeiramente humano. Não será por acaso que Jeanne lhe beija as mãos por entre as grades que ao mesmo tempo os separam e os unem.

A genialidade do filme reside, em grande parte, nas suas opções de montagem. Bresson consegue encenar de modo a que as mãos (e os braços) dos seus actores (não profissionais a quem ele chamava modelos) pareçam existir numa descontinuidade sensoriomotora em relação aos seus rostos. O que cria um magnífico efeito de estranheza, cujas repercussões são sobretudo semânticas. Pois sendo a mão, por si só, uma metonímia do fazer, o cineasta consegue construir a imagem complexa de uma sociedade na qual espírito e técnica estão completamente divorciados.

Não é preciso ser religioso para aderir à inquietação ética de Bresson. Não tanto pela sua afamada "brancura" (pois a mim parece-me que o cineasta assume alguns pontos de vista, a despeito da superfície de neutralidade com que sempre nos surpreende), mas pela vertigem analítica com que ele constrói todas as suas ficções, com que elabora todos os seus planos e todas as suas sequências de montagem. Ao fim de algum tempo de visionamento de "Pickpocket", parece-nos que até as conversas entre os personagens são golpes de carteiristas, como se eles já não soubessem entrar uns dentro dos outros a não ser de um modo furtivo.

E, no entanto, nada é mais sensual neste filme do que os golpes de roubo. Parecem momentos de uma dança de delicadeza infinita. Talvez o sorriso (que não existe nos filmes de Bresson) seja uma manifestação demasiado divina para um mundo onde não podemos acreditar em Deus durante mais de três minutos. O sorriso estará porventura onde menos se espera.

Il faut être moderne

Os primeiros homens tinham a noção exacta das suas necessidades, mas não estavam ainda cientes da dimensão relativa das respostas que iam encontrando para o provimento dessas necessidades. Sabiam que tinham de sobreviver, que tinham de se reproduzir, que tinham de confrontar, psíquica e intelectualmente, a inevitabilidade da morte. As respostas ensaiadas (agricultura, pastorícia, caça, pesca, construção, artesanato, medicina, família, comunidade, combate militar, religião, feitiçaria, narrativa oral, arte, etc.) tomavam a aparência de uma fatalidade de autoria divina.

Os homens contemporâneos têm um manancial de informação suficientemente extenso para se furtarem a dogmatismos (a História apresenta-lhes uma assinalável variedade de realizações, por vezes quase contraditórias entre si, ao nível da sociedade e da mentalidade, e, mesmo numa perspectiva sincrónica, a aldeia global ainda não conseguiu uniformizar todas as hipóteses de cultura e civilização). Infelizmente, essa humildade é rara.

Terá mais desculpa o facto de esse Homem se encontrar de certo modo alienado perante as suas necessidades. A sobrevivência parece-nos assegurada (ainda que esse capricho só contemple uma porção reduzida da espécie...), o impulso reprodutivo foi assimilado pela cultura familiar, a morte é um assunto tabu na sociedade do entretenimento. A verdade é que há pessoas que pensam mesmo que as necessidades profundas da sua vida são a publicação de uma fotografia sua num número da revista Caras, ou a participação no elenco de "Morangos com açúcar".

Tal acontece porque a História é uma sucessão de modernidades. Querendo com isto eu dizer que a actividade do Homem, ao nível científico, filosófico, político, técnico, artístico, etc., tem vindo a promover uma espectacular série de emancipações que, pelo menos a um nível superficial de leitura, parecem ir abrindo caminho a uma progressiva modificação da essência do humano.

A razão pela qual estou constantemente a voltar ao início de todas as coisas, da minha vida, da literatura, da História, é porque defendo que só uma visão em continuidade do humano nos poderá fornecer sabedoria suficiente para lidarmos com esse mesmo humano. Claro que há momentos de ruptura (os gregos antigos, Copérnico, os descobrimentos, Baudelaire, Freud, etc.), mas as alterações que eles comportam devem ser lidas enquanto modificações do ponto de vista sobre as necessidades estruturantes do homem, e não como superações dessas necessidades. O grande erro dos já citados gregos antigos foi a suposição de que o trabalho do cérebro (o delírio da filosofia) poderia ser separado do trabalho do corpo. Ora, claramente, o cérebro é o mais genial dos nossos órgãos. A sua escatologia (a cultura, que se estende desde o amor até à criação do robô) tem uma velocidade, intensidade, grandeza e grau de detalhe de que nenhum outro órgão é remotamente capaz. Mas isso não nos impede de entender a cultura de forma menos darwiniana. O espírito será uma mutação hiperbólica, talvez ele seja de facto a nossa maior fonte de riqueza (o que explica a embriaguez helénica, a paixão pela figura de Sócrates, ou pela figura de Cristo), mas ele é uma manifestação de imanência.

Para evitar ilusões (tanto para os conservadores como para os revolucionários), a modernidade tem ser invariavelmente motivada. Por isso deixei cair o advérbio de modo na formulação rimbaldiana que intitula este post. Não tenho uma afeição romântica pelo futuro (apesar de saber que a modernidade é, precisamente, a necessidade que congrega todas as outras necessidades), mas, ao contrário do que se possa pensar, não sou nada saudosista. Interessa-me essa linha estranha que nos dota a todos do DNA dos primeiros homens, linha incerta, quebrada, irónica, hesitante, que nos explica, nos constitui, nos dá lucidez e uma esperança razoável. Interessa-me saber se aquilo que faço ou sou obrigado a fazer, aquilo que desejo ou sou obrigado a desejar, aquilo que penso ou sou obrigado a pensar, se tudo isso está de acordo com a minha profunda coerência antropológica. É uma questão de política.

terça-feira, agosto 03, 2010

domingo, agosto 01, 2010

Partilha 94

we'll always have paris



desde o princípio do tempo
os homens põem no céu
as paisagens mais belas que conhecem
(é a mise en avion)
qual prometeu da repérage
eu ando em busca de um cenário p'ra te dar
vista de fogo

o pedro ludgero
o pedro guedes (do piano) e o pedro guedes (modelo)
entraram juntos num bar
chega um gajo e diz: eu pago rum com lima
a um dos três
a sorte a mim foi atirada
desde então dura dez anos cada minha gargalhada

Partilha 93

passagem



comprei um vinho que só deve ser bebido
daqui a muito tempo
para cumprir tal prazo
montei um Plano de Estratégia para a Contenção:
tenho de ser fodido diariamente
fazer altas viagens
ir escanhoando a venta e outras coisas mais

dizem os críticos
que usar nos filmes máquinas de vento
é prova de mau gosto
pois eu quero usar muito as máquinas de vento
tecidos e cabelos
rosas, pensamento
nada há-de ser açúcar no meu mosto


sexta-feira, julho 30, 2010

O que é isso de maturidade?

A única evolução que sinto na minha criatividade é que cada vez mais me consigo reconhecer nos textos que escrevo.

Dis-appointments

Uma das coisas que mais me irrita em algum cinema contemporâneo é a vontade que os filmes por vezes demonstram de esfregar o seu (suposto) brilhantismo na nossa cara. Aliás, pressinto que Christopher Nolan tem a certeza de que, com o seu último opus, realizou um filme magnífico, e que tal ideia nem lhe foi parar à cabeça por inception. Ora, quanto mais uma obra pretende ser minha predadora, mais eu armo as minhas defesas.

A verdade é que tinha gostado bastante de "Memento", e desde então fiquei com a ideia do cineasta como sendo sobretudo um renovador do thriller. Mesma a essa luz, "Inception" não me parece especialmente notável. Há uma curiosidade interessante em termos de entretenimento, que é o estratagema de dividir o suspense por quatro níveis temporais simultâneos: o espectador fica em pulgas não só com uma peripécia, mas com mais outras três que têm de ser coordenadas com aquela numa relação de interdependência. Mas a maior brecha que o filme poderia ter aberto, a de desbravar o terreno inédito de uma montagem paralela de acções com diferentes velocidades de passagem do tempo, isso Nolan não teve a intuição de trabalhar. É uma ideia para futuro (e já valeu o preço do bilhete).

De resto, o que em "Inception" se diz em torno da filosofia, da psicanálise ou da política é uma lengalenga de banalidades (o que, aliás, é normal no thriller, Hitchcock incluído). Mas o mais aborrecido é que a delirante complexidade do argumento (um pouco excessiva para a atenção média de um cinéfilo, por que raio ninguém diz isto?) não encontra eco nenhum na construção das imagens. A riqueza de uma imagem é sempre de ordem poética, ou seja, varia em função da sua novidade, da sua intensidade e da sua riqueza semântica. Em "Inception" não há nada a não ser a imagética repisada do filme de acção. Prefiro, de longe, o contrário: um argumento simples a partir do qual o potencial visual-sonoro do cinema seja levado até ao limite da imaginação do autor.

E depois, tanta bazófia, tanto conceito, e o filme nem sequer consegue dar-nos a impressão de que não sabemos como fomos dar a cada imagem? Não era essa a ambição onírica que o sustentava?

quarta-feira, julho 28, 2010

Alegorias numéricas para o público heterossexual

a) Na maior parte das cosmogonias, a passagem do um primordial (nunca é, na verdade, um zero puro) para os trabalhos da criação faz-se por um acto de reprodução não sexuada, semelhante à divisão celular. O passo seguinte já costuma ser propriamente sexual: a prole destinada a habitar o mundo resulta do coito entre o ser primeiro e a sua criatura, ou entre as duas criaturas que engendrou. Ora, a partir deste momento, tudo se passa sob a égide do incesto (entre pai e filha, ou entre irmão e irmã), o que talvez explique o enfraquecimento simbólico-genético dos números que se seguem ao número dois (que, em princípio, poderiam representar a dimensão do plural com igual eficácia). Na verdade, não encontramos exemplos de concepção natural que resultem da actividade erótica de outra quantidade de seres que não dois. E pelo menos na civilização do Ocidente, o par amoroso é uma instituição mítica sem qualquer rival à altura. Talvez no infinito, a maldição do incesto se tenha já perdido, e a reprodução adquira uma liberdade numérica radical. Mas nós não sabemos o que é o infinito...


b) Em "In vino veritas", um personagem imaginado por Soren Kierkegaard defende que a escolha de uma só pessoa de entre uma infinidade de possibilidades para ocupar o posto de par conjugal não tem nada a ver com a situação de Adão, na medida em que este não podia ter escolhido outra mulher a não ser Eva. Indirectamente, o pensador dinamarquês acaba por reconhecer que a evidência da escolha é, na verdade, a nossa única possibilidade de recuperação do Paraíso.


c) Estou a traduzir o poema-conto-de-fadas "The goblin market" de Christina Rossetti, sobre o qual já reflecti um pouco neste ensaio. Descubro agora que o texto talvez tenha uma forte dimensão feminista. Rossetti divide o sexo masculino em duas metades (e é aqui que reside a sua especificidade alegórica): os homens são fisicamente reduzidos à fealdade das figuras dos duendes (são homenzinhos repugnantes), e o prazer que eles podem fornecer é simbolizado nas delícias tentadoras da fruta que vendem. A autora esmera-se tanto a enumerar as suculências alimentares como na descrição dos defeitos físicos dos duendes. A característica feérica dessa mercadoria é que ela só pode ser provada uma única vez, peculiaridade que condenará a pessoa que não resista a tal tentação a definhar progressivamente até à morte. Quem salva a rapariga que prova os frutos é outra rapariga, sua irmã, que através de um estratagema inteligente consegue fazê-la voltar a ingerir os alimentos libidinosos. Quase se poderia dizer que os machos estão sempre moralmente desfigurados pela sua voracidade sexual, e que são as fêmeas que continuamente reinventam a fidelidade amorosa, a vontade de repetir o acto sexual inúmeras vezes com o mesmo parceiro. O que talvez não seja verdade, mas é pelo menos bastante feminista.

sábado, julho 24, 2010

Galeria Murnau 6

Partilha 92

facebook



pedro ludgero
acha que é o mero macguffin
da sua própria vida
(rebecca gosta disto
e um pássaro comentou:
mais vale
um público na mão
)

já tive um rosto de antígona
tive a tinta da china de uma terceira pessoa
cabeça de cotovia
e meia dúzia de outros nós
que antes da morte foram pondo
e etc
e etc

Partilha 91

humanidade



presumo
que observando o viajar
de cada libelinha
também haja uma velhinha examinadora inglesa
da royal
................academy
...................................of dance

na swinging london com certeza
muito seria o furor
(mas eu resisto a tal arte
a minha tara é o fetichismo
pois quem parte e reparte
e não fica com o todo
ou é tolo ou não conhece o amor)

Partilha 90

che-ke che-ke che-ke



exc'lentíssimo senhor presidente da república
exc'lentíssima senhora
.....................................ministra da cultura
seja quem for que atende o telefone
no continente
minhas senhoras
e meus senhores

gosto imenso de ir a concertos
dos amanhãs que cantam
já ouvi la venexiana
a lula pena
e os spike lee joints
(depois é tempo de sutura
portugal: twelve points)

sexta-feira, julho 23, 2010

Silly reason

O mito é o inconsciente colectivo em carne viva.

Notas "Le signe du lion"

A primeira longa-metragem de Eric Rohmer lida com alguns dos elementos associados ao eclodir da Nouvelle Vague francesa (o protagonismo dado aos jovens ou pelo menos àqueles que ainda se comportam como jovens, a sensualidade nervosa de Paris, o tom gracejador, a aparência de improviso constante, a montagem rugosa), mas afasta-se deles durante o longo segmento central do filme, quando o personagem principal deambula pela cidade em direcção à miséria. Humor, energia, juventude: desaparece tudo com a ameaça fatal que sobre a narrativa se suspende.

É também já notório o recurso ao suspense, aqui ainda não muito sofisticado (basta compará-lo com a noite passada em casa de Maud).

Todavia, o aspecto mais interessante a reter é a nudez com que se apresenta aquilo que eu chamaria de narrativa astrológica, ou seja, uma narrativa relativamente inverosímil, tocada por uma graça que gere coincidências, acasos e desenlaces como se estes quase fossem recompensas morais. Não será uma extravagância hermenêutica supor que Pierre Wersselin, um bom vivant que pensa ter recebido a herança de uma tia rica, é temporariamente punido pelo destino porque, em vez de direccionar uma arma-hybris contra as estrelas do céu, a dispara contra as luzes da cidade nocturna (contra os outros homens, portanto). Mas essa Paixão (a tia havia-o deserdado, e ele passa a vaguear por Paris sem dinheiro sequer para assegurar alimentação e alojamento) termina depois do personagem se ter mantido terrivelmente fiel a si mesmo durante toda o infortúnio, ou seja, depois de nunca ter decidido assumir um trabalho burguês (a mesma dimensão crística é visível na Marquesa de O, e essa auto-fidelidade simultaneamente autista e maldita parece ser uma obsessão de todos os cineastas que se reclamam de um discurso para-religioso, sejam eles Dreyer, Bresson, Oliveira, Olmi ou Tarkovsky). Note-se que a atitude do protagonista é todo um programa de desafio ao moralismo convencional.

A característica astrológica fica patente no pormenor absolutamente irrealista de, durante o período de sofrimento de Pierre, todos, mas mesmo todos os seus amigos se terem ausentado de Paris (que assim adquire a tonalidade de uma cidade vingadora, quando no início do filme se apresentava como um lugar acolhedor onde havia um conhecido em cada café). Uma igual pulsão permanece quando Rohmer adapta obras literárias escritas por outrem: Chrétien de Troyes, Heinrich von Kleist ou Honoré d'Urfé.