quinta-feira, junho 10, 2010
domingo, junho 06, 2010
Uma leitura de "Moby Dick" de H. Melville
Ahab, a célebre personagem criada pelo escritor norte-americano Herman Melville, tem uma prótese de marfim no lugar da perna que a baleia Moby Dick lhe arrancou. É uma espécie de personagem-cachalote (o que talvez justifique o interesse de Orson Welles por este romance), alguém que está ciente da experiência ancestral de desmembramento de um Todo (a perna arrancada) que parece subsistir no inconsciente humano, e que por isso tenta assumir em si mesmo o Sofrimento do mundo inteiro."Moby Dick" não é o relato de uma vingança monomaníaca, mas um épico metafísico no qual o herói (Ahab) pretende matar nada menos do que a própria Morte. Melville nem sequer é subtil: desde o nome do proprietário (Peter Coffin) da estalagem onde o narrador se aloja no princípio da história, até às omnipresentes considerações deste sobre o sentido místico da dimensão, da brancura, dos hieróglifos ou dos fedores escatológicos do corpo da baleia, passando por episódios narrativos semanticamente prenhes como o enlouquecimento do cobarde Pip quando enfrenta a possibilidade de afogamento, tudo no livro se organiza para fazer da baleia um repositório de transcendência enigmática que é preciso submeter custe o que custar. Moby Dick é a latitude e a longitude da origem de toda a Dor.
O romance começa com uma frase famosa: "Call me Ishmael". Este tu-cá-tu-lá com que o narrador humildemente se apresenta é prolongado no tique de, a despeito da erudição apresentada no campo dos estudos da baleia, ele se assumir constantemente como um iletrado. Não sei até que ponto Melville estaria consciente daquilo que estava na verdade a escrever, mas é este des-conhecimento parcial que torna Ismael um narrador tão eloquente. A beleza do livro reside no facto de ele ter sido escrito numa época de transição, em que a ciência ainda não estava plenamente emancipada mas o mundo já se encontrava suficientemente civilizado pela tecnologia.
A cetografia descrita pelo narrador não passa de um campo de conhecimento caótico, onde ainda subsistem largas zonas de mistério. O código jurídico que rege a actividade dos baleeiros está por escrever. Ahab despreza o seu sextante porque, apesar de ele apontar para o céu, não o consegue desvendar. O próprio romance, a despeito de estar inserido na estética realista do século XIX, adquire a sua principal força na técnica mais arcaica da alegorização. O mundo descrito por este livro-oceano (a baleia não pode ser sintetizada) nem é suficientemente antigo nem suficientemente moderno.
É nesse contexto que Melville dá uma machadada decisiva na estética do sublime, tal como foi teorizada por Kant. A baleia terá uma beleza idiossincrática, o seu tamanho e a sua ameaça são incomensuráveis, estão assinados por Deus, mas só conseguem produzir tragédias naqueles que os tentam perscrutar. O sublime, afinal, não é sublime. Se Ahab se comporta como o magnetismo hiperbólico que conduz o navio Pequod a despeito do falhanço da bússola, a verdade é que ele é um xamã medíocre, pois não consegue decifrar os constantes presságios que anunciam a morte colectiva da tripulação. Nenhum feiticeiro do passado teria cometido um erro tão grosseiro.
Mundo nem suficientemente antigo nem suficientemente moderno: a caça à baleia tem por fundamento o mito, no qual os marinheiros talvez ainda acreditassem, de Perseu (que matou o primeiro leviatão para salvar Andrómeda) mas agora faz-se por razões comerciais. A sociedade começa a emburguesar-se, e Ahab é uma espécie de reacção histérica a esse estado das coisas. Se Melville celebra algo, é a necessidade de uma existência sem excessivo conforto (na altura, a marinha ainda fornecia um estilo de vida viril). Ao fim e ao cabo, há duas maneiras de viver: arriscando apenas a morte, ou arriscando também a vida... Mas o homem é um peixe simultaneamente amarrado e perdido: não é possível trabalhar o material sem trabalhar o imaterial. Apesar da ética de moderação da angústia defendida pelo narrador (o que importa é esposa, coração, cama, mesa, lareira...), é mais forte (porque menos consciente) a tensão que do romance emana em torno do fazer (veja-se a importância de personagens quase shakespearianas como o ferreiro e o carpinteiro). O fazer épico de Ahab equivale ao fazer nulo de Bartleby: como podemos viver sem inquietação metafísica?
Ora, a personagem mais sábia da história é o selvagem Queequeg que, perante a proximidade da morte, reage com uma serenidade digna de um filósofo ateniense. O narrador é o único tripulante do Pequod que se salva do confronto com Moby Dick porque encontra o esquife que fora construído para Queequeg e que entretanto tinha sido transformado numa bóia de salvação: é como se o romance, carregado de morte desde a primeira à última página, viesse dizer ao seu leitor que o que é preciso é estar sempre a escapar para contar.
A religião não é, pois, bem vista por Melville. É o cozinheiro que faz um sermão aos tubarões porque a religião desencrua os homens sem os libertar do canibalismo moral. Os maus profetas estão por todo o lado, em "Moby Dick". Re-ligare, sim, mas no sentido etimológico. Quando Ahab se aproxima fraternalmente de Pip, ele reconhece que é possível criar um laço afectivo com um indivíduo do sexo masculino (o homoerotismo latente no livro tem o mesmo teor generoso que podemos encontrar no Novo Testamento), de outra raça, e ainda por cima louco. Tudo é melhor do que ter uma perna de marfim por companheira de cama. Para não darmos em Ahabs, temos de nos unir uns aos outros contra a Morte, e não em sua perseguição. Porque olhar para um humano é melhor do que contemplar Deus. Tratem-me por Ismael, e o desmembramento será mais suportável.
Tivemos, no século XX, algumas baleias brancas: Hitler, os campos de extermínio, as bombas de Hiroxima e Nagasaki. Hoje, somos um mundo definitivamente moderno: mas não será a Aldeia Global a definitiva Moby Dick que nunca conseguiremos sequer entender em toda a sua extensão?
quarta-feira, junho 02, 2010
"Madeo" - imagem
O ACTUAL 27
"Madeo" - Joon-ho BongCarl Dreyer criticou, uma vez, o cineasta Clarence Brown, por este ter incluído um plano esforçadamente original num dos seus filmes. Tive a mesma sensação de desconfiança perante um enquadramento de Joon-ho Bong: a mãe que protagoniza "Madeo" dá de beber ao seu filho atrasado mental ao mesmo tempo que ele urina na rua, e o realizador faz um picado propositadamente composto para o espectador ter a sensação de que o líquido que entra por cima está a sair por baixo. Julguei ser a opção de um engraçadinho, desejoso de nos fazer focinhar nas suas berrantes manipulações de sentido. Estava enganado.
Até agora, vi apenas três filmes da cinematografia sul-coreana, e em dois deles ("Madeo" e "Oldboy" de Park Chan-wook) fui assaltado pela mesma convicção: a de que esta gente (ainda?) tem, de facto, coisas a dizer, e de que as quer dizer com uma intensidade sem papas na língua. "Oldboy" é mais barroco, e o seu tema menos consensual (basicamente questiona o tabu do incesto), mas oferece a mesma delicadeza ao espectador: a incapacidade de este abandonar a sala de cinema sem uma sensação de profundo incómodo. Para quem ainda pense que os orientais se definem pelo número de horas que demoram a fazer um chá, estes filmes encarregam-se de desfazer ilusões.
"Madeo" é um filme de género(s). Mas o cineasta, profundo conhecedor dos clichés que conformam essas estratégias, está constantemente a defraudar as expectativas do espectador. Do melodrama sobre a bondade infinita do amor materno (género que fez o pleno gorduroso entre Japão e México) passamos ao gore da mulher tornada assassina, a poética bucólica (Joon-ho Bong é um paisagista talentoso) aparece sempre contaminada por um grotesco pouco hilariante, mas, acima de tudo, o lúdico policial é reconduzido à sua única e provável virtude: a verdade que a mãe-tornada-detective-em-defesa-do-filho descobre é a verdade sobre si mesma. Bong recorre mesmo a um truque caro a Ingmar Bergman: o espectador vê o jovem atrasado a abandonar o local do crime antes de este ser cometido, mas essa imagem era falsa, e por isso, quando a mãe descobre que o seu filho foi afinal o autor do homicídio (e temos então acesso às imagens verdadeiras), a revelação tem exactamente o mesmo peso, entre a surpresa e o horror, para quem está a ver o filme.
Todo este sarcasmo legitima as bizarrias (de enquadramento e de tonalidade) que o filme vai desenvolvendo de um modo quase experimental. Devo, no entanto, dizer que a sua força deriva sobretudo do rigor do conteúdo. Quando, numa viagem de recreio para progenitores, a mãe resolve usar os seus conhecimentos de acupunctura para gerar o esquecimento (para esquecer que o seu filho cometeu um crime, para esquecer que ela gastou toda a sua energia e tempo para tentar defender uma inocência que afinal não o era, e que ela própria se tornou assassina para proteger a prole), ela compreende a essência do Humano. Somos uma espécie com todas as faculdades de espírito para não promovermos a agressão, mas facilmente atingimos o homicídio (o problema não é o filho ter matado uma rapariga, pois ele era inimputável; o problema é a mãe, pessoa sã e de bons princípios, ter chegado ao crime); no entanto, o amor pelos filhos é de tal modo intenso que promove um esquecimento radical de toda essa lucidez. E é assim que, de crime em crime, de bebé em bebé, nos temos vindo a arrastar sem excessiva neurose ao longo de vários milénios.
Ao contrário de mim, Bong parece não ter ilusões sobre o humano. O próprio cansaço com a pulsão sexual que percorre a obra como um tema subsidiário a tal parece aludir. No entanto, a sua fé nos laços que entre os homens se formam é furiosa: note-se como a amizade de Jin Tae é inequívoca, apesar deste ser um bruto oportunista. Para Joon-ho Bong não há esperança, apenas amor.
Recentemente, a confluência do convívio com a minha sobrinha de três meses com a relativa desilusão causada pelo filme "Líbano" fez-me pensar que há sentimentos que o cinema talvez não consiga transmitir. Não me parece que o meu gosto pela sétima arte seja menos puro e intenso se eu lhe reconhecer os limites e as especificidades. Ora, "Madeo" veio-me convencer de que o cinema pode, inquestionavelmente, transmitir o sentimento do amor parental. É o que acontece com todos os filmes geniais.
Até agora, vi apenas três filmes da cinematografia sul-coreana, e em dois deles ("Madeo" e "Oldboy" de Park Chan-wook) fui assaltado pela mesma convicção: a de que esta gente (ainda?) tem, de facto, coisas a dizer, e de que as quer dizer com uma intensidade sem papas na língua. "Oldboy" é mais barroco, e o seu tema menos consensual (basicamente questiona o tabu do incesto), mas oferece a mesma delicadeza ao espectador: a incapacidade de este abandonar a sala de cinema sem uma sensação de profundo incómodo. Para quem ainda pense que os orientais se definem pelo número de horas que demoram a fazer um chá, estes filmes encarregam-se de desfazer ilusões.
"Madeo" é um filme de género(s). Mas o cineasta, profundo conhecedor dos clichés que conformam essas estratégias, está constantemente a defraudar as expectativas do espectador. Do melodrama sobre a bondade infinita do amor materno (género que fez o pleno gorduroso entre Japão e México) passamos ao gore da mulher tornada assassina, a poética bucólica (Joon-ho Bong é um paisagista talentoso) aparece sempre contaminada por um grotesco pouco hilariante, mas, acima de tudo, o lúdico policial é reconduzido à sua única e provável virtude: a verdade que a mãe-tornada-detective-em-defesa-do-filho descobre é a verdade sobre si mesma. Bong recorre mesmo a um truque caro a Ingmar Bergman: o espectador vê o jovem atrasado a abandonar o local do crime antes de este ser cometido, mas essa imagem era falsa, e por isso, quando a mãe descobre que o seu filho foi afinal o autor do homicídio (e temos então acesso às imagens verdadeiras), a revelação tem exactamente o mesmo peso, entre a surpresa e o horror, para quem está a ver o filme.
Todo este sarcasmo legitima as bizarrias (de enquadramento e de tonalidade) que o filme vai desenvolvendo de um modo quase experimental. Devo, no entanto, dizer que a sua força deriva sobretudo do rigor do conteúdo. Quando, numa viagem de recreio para progenitores, a mãe resolve usar os seus conhecimentos de acupunctura para gerar o esquecimento (para esquecer que o seu filho cometeu um crime, para esquecer que ela gastou toda a sua energia e tempo para tentar defender uma inocência que afinal não o era, e que ela própria se tornou assassina para proteger a prole), ela compreende a essência do Humano. Somos uma espécie com todas as faculdades de espírito para não promovermos a agressão, mas facilmente atingimos o homicídio (o problema não é o filho ter matado uma rapariga, pois ele era inimputável; o problema é a mãe, pessoa sã e de bons princípios, ter chegado ao crime); no entanto, o amor pelos filhos é de tal modo intenso que promove um esquecimento radical de toda essa lucidez. E é assim que, de crime em crime, de bebé em bebé, nos temos vindo a arrastar sem excessiva neurose ao longo de vários milénios.
Ao contrário de mim, Bong parece não ter ilusões sobre o humano. O próprio cansaço com a pulsão sexual que percorre a obra como um tema subsidiário a tal parece aludir. No entanto, a sua fé nos laços que entre os homens se formam é furiosa: note-se como a amizade de Jin Tae é inequívoca, apesar deste ser um bruto oportunista. Para Joon-ho Bong não há esperança, apenas amor.
Recentemente, a confluência do convívio com a minha sobrinha de três meses com a relativa desilusão causada pelo filme "Líbano" fez-me pensar que há sentimentos que o cinema talvez não consiga transmitir. Não me parece que o meu gosto pela sétima arte seja menos puro e intenso se eu lhe reconhecer os limites e as especificidades. Ora, "Madeo" veio-me convencer de que o cinema pode, inquestionavelmente, transmitir o sentimento do amor parental. É o que acontece com todos os filmes geniais.
Nota "Líbano"
"Líbano" é um filme muito relevante para o seu autor, Samuel Maoz, que através dele faz uma catarse rigorosa e honesta, e tem a actualidade e a pertinência necessárias para me fazer prescindir de veleidades críticas. Ainda por cima, a obra exibe uma franca inteligência: o seu dispositivo, semelhante ao de "Rear window" de Hitchcock, faz equivaler o interior de um tanque de guerra ao interior de uma sala de projecção, e ao fundir a mira da arma desse tanque com o lugar (e o papel) de um ecrã, dá ao cinema a virtualidade da agressão determinante. Apenas diria que o brilhantismo deste dispositivo rigoroso, perfeitamente dominado, e até capaz de alguma comoção, provoca algum prazer (não pretendido, note-se) no espectador. Talvez eu seja um insuportável puritano, mas gostaria que todos os filmes de guerra abolissem por completo o prazer das suas estratégias.sábado, maio 29, 2010
Partilha 84
(três poemas infanto-juvenis)
poema para rapazes
nunca viste
pela manhã
breves ferraris sobre as orquídeas dos pobres?
não sabes
que é pequena a diferença
entre o guarda-chuva e o rolls royce?
adivinharás
quão difícil é para um velho
a ignição do seu suor?
da tua distância electrónica
usa uma chave que te abra o Poema
e te faça nele viajar com estilo
_________________________
partida
deve ser tão difícil
meter as palavras num poema
como engarrafar um peidinho
se deitares
.................(pela calada)
um poema numa sala
verás as pessoas não aceitarem mais nada
senão ar puro
alegria e distância
____________________________
baptismo por metáfora
sabes
que podes
a partir de agora
chamar à corola da impaciente
chamamento do muezim?
ouvirás o jardim gritar:
encarnaaaado
amareeelo
bom cheiriiiinho
e verás abelhas
borboletas
colibris
todo o voo de uma civilização
em direcção à tua liberdade
poema para rapazes
nunca viste
pela manhã
breves ferraris sobre as orquídeas dos pobres?
não sabes
que é pequena a diferença
entre o guarda-chuva e o rolls royce?
adivinharás
quão difícil é para um velho
a ignição do seu suor?
da tua distância electrónica
usa uma chave que te abra o Poema
e te faça nele viajar com estilo
_________________________
partida
deve ser tão difícil
meter as palavras num poema
como engarrafar um peidinho
se deitares
.................(pela calada)
um poema numa sala
verás as pessoas não aceitarem mais nada
senão ar puro
alegria e distância
____________________________
baptismo por metáfora
sabes
que podes
a partir de agora
chamar à corola da impaciente
chamamento do muezim?
ouvirás o jardim gritar:
encarnaaaado
amareeelo
bom cheiriiiinho
e verás abelhas
borboletas
colibris
todo o voo de uma civilização
em direcção à tua liberdade
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Obra pessoal,
Poemas para a Joaninha
quarta-feira, maio 26, 2010
No escrínio 51
Poema "Um afago, disse ela", de Fernando Martinho Guimarães:
Um afago, disse ela
e encolhi-me à sombra
de um insecto zumbidor
Uma oferta, disse ela
e o vento passou pela folhagem
sem defesas nem retaguardas
Uma dádiva, disse ela
e um sorriso dadivoso
raiou - e era inverno
Um afago, disse ela
e encolhi-me à sombra
de um insecto zumbidor
Uma oferta, disse ela
e o vento passou pela folhagem
sem defesas nem retaguardas
Uma dádiva, disse ela
e um sorriso dadivoso
raiou - e era inverno
Numa das suas recolhas de versos, o escritor francês Jacques Roubaud inventou um tipo de poema chamado "le sonnet de sonnets", que seria sempre composto por catorze sonetos estruturalmente organizados de modo a imitarem a lendária forma trabalhada por Petrarca. Fernando Martinho Guimarães parece ter aqui inconscientemente criado um "haiku de haikus": o terceto do modelo japonês foi ampliado, à maneira de um fractal, num triplo de si mesmo.
Mas não é só ao nível da forma que a referência nipónica se insinua. O texto propõe um minimalismo paisagístico a que não é alheio o fenómeno das estações do ano. Quase poderíamos defender que o primeiro haiku se refere a uma situação estival (o verão é o momento de glória dos insectos), o segundo comenta a fragilidade das árvores numa situação de outono, e o último faz desaguar toda a tensão criada na estação do frio. Não quero com isto dizer que o poeta esteja a narrar nove meses de uma relação amorosa no espaço de nove versos. Sugiro apenas que os mínimos detalhes de uma cena podem ser con-figurados em termos de uma mitologia temporal que ao mesmo tempo os transcende e ilumina. Todos sabemos que um segundo pode ser eterno (e vice-versa).
O exercício de síntese, aliado ao rigor formal, provocam uma multiplicidade de contágios. Se o vocábulo "oferta" é sinónimo do vocábulo "dádiva", parece que a estrutura repetitiva do primeiro verso de cada haiku obriga a que "afago" se torne também um sinónimo daqueles termos. Ou seja, o que, no fundo, a mulher do poema diz sempre é: "um afago". Simplesmente, só na segunda vez que o verbaliza é que o sujeito lírico toma consciência da dimensão de generosidade que pertence a esse gesto de afecto. Ao mesmo tempo, a simetria obriga a que "oferta" e "dádiva" não tenham, afinal, o mesmo sentido. O facto desta última palavra ser repetida (em quase-paronímia) no haiku que ela própria introduz, confirma esta hipótese. É que a "oferta" está demasiado associada ao falar económico, pressupõe uma procura, enquanto a "dádiva" se dá a si mesma em plena nudez e disponibilidade.
Na primeira vez que a mulher diz "um afago" (investindo num acto de linguagem que lhe permite afagar por performance verbal), o sujeito encolhe-se à sombra / de um insecto zumbidor. A beleza intensa da formulação só encontra paralelo no seu hermetismo (trata-se de um passo indecifrável, pertencente à história secreta destes amantes). Todavia, é possível discernir aqui um erotismo de cariz baudelairiano: basta tomarmos o "insecto" como uma metáfora da mulher que diz coisas (que zumbe), e logo pressentimos, na pequenez que o poeta assume para caber na sombra de um minúsculo bicho, uma certa vontade de ser menor do que o feminino.
Haverá um passo em frente na ausência de defesas e de retaguardas do vento falante da segunda parte do poema: o erotismo tornou-se altruísmo. Mas é só no terceiro momento que um sorriso de pura dádiva desata a refulgir. Primeiro falou-se de sombra, agora evoca-se um sol de inverno. Talvez não haja aqui um pessimismo subtil, mas o seu oposto: é precisamente a velhice de uma relação (tenha ela o tempo que tiver) que permite que aqueles que nela se empenham entendam os seus afagos como manifestações do mais despojado amor.
Se calhar, em nove versos pode contar-se a vida inteira.
Mas não é só ao nível da forma que a referência nipónica se insinua. O texto propõe um minimalismo paisagístico a que não é alheio o fenómeno das estações do ano. Quase poderíamos defender que o primeiro haiku se refere a uma situação estival (o verão é o momento de glória dos insectos), o segundo comenta a fragilidade das árvores numa situação de outono, e o último faz desaguar toda a tensão criada na estação do frio. Não quero com isto dizer que o poeta esteja a narrar nove meses de uma relação amorosa no espaço de nove versos. Sugiro apenas que os mínimos detalhes de uma cena podem ser con-figurados em termos de uma mitologia temporal que ao mesmo tempo os transcende e ilumina. Todos sabemos que um segundo pode ser eterno (e vice-versa).
O exercício de síntese, aliado ao rigor formal, provocam uma multiplicidade de contágios. Se o vocábulo "oferta" é sinónimo do vocábulo "dádiva", parece que a estrutura repetitiva do primeiro verso de cada haiku obriga a que "afago" se torne também um sinónimo daqueles termos. Ou seja, o que, no fundo, a mulher do poema diz sempre é: "um afago". Simplesmente, só na segunda vez que o verbaliza é que o sujeito lírico toma consciência da dimensão de generosidade que pertence a esse gesto de afecto. Ao mesmo tempo, a simetria obriga a que "oferta" e "dádiva" não tenham, afinal, o mesmo sentido. O facto desta última palavra ser repetida (em quase-paronímia) no haiku que ela própria introduz, confirma esta hipótese. É que a "oferta" está demasiado associada ao falar económico, pressupõe uma procura, enquanto a "dádiva" se dá a si mesma em plena nudez e disponibilidade.
Na primeira vez que a mulher diz "um afago" (investindo num acto de linguagem que lhe permite afagar por performance verbal), o sujeito encolhe-se à sombra / de um insecto zumbidor. A beleza intensa da formulação só encontra paralelo no seu hermetismo (trata-se de um passo indecifrável, pertencente à história secreta destes amantes). Todavia, é possível discernir aqui um erotismo de cariz baudelairiano: basta tomarmos o "insecto" como uma metáfora da mulher que diz coisas (que zumbe), e logo pressentimos, na pequenez que o poeta assume para caber na sombra de um minúsculo bicho, uma certa vontade de ser menor do que o feminino.
Haverá um passo em frente na ausência de defesas e de retaguardas do vento falante da segunda parte do poema: o erotismo tornou-se altruísmo. Mas é só no terceiro momento que um sorriso de pura dádiva desata a refulgir. Primeiro falou-se de sombra, agora evoca-se um sol de inverno. Talvez não haja aqui um pessimismo subtil, mas o seu oposto: é precisamente a velhice de uma relação (tenha ela o tempo que tiver) que permite que aqueles que nela se empenham entendam os seus afagos como manifestações do mais despojado amor.
Se calhar, em nove versos pode contar-se a vida inteira.
terça-feira, maio 25, 2010
Conversa de gajas 1
G1 - Parece que ele é impotente.
G2 - E isso é apenas a ponta do icebergue...
G2 - E isso é apenas a ponta do icebergue...
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segunda-feira, maio 24, 2010
Intervista 2
P. - É ambicioso?
R. - Sou. Ambiciosíssimo.
P. - Mas não era capaz de dormir com alguém para subir na vida?
R. - Não, só era capaz de dormir com alguém para descer na vida, para ficar rente ao sexo: como disse, sou ambiciosíssimo.
R. - Sou. Ambiciosíssimo.
P. - Mas não era capaz de dormir com alguém para subir na vida?
R. - Não, só era capaz de dormir com alguém para descer na vida, para ficar rente ao sexo: como disse, sou ambiciosíssimo.
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Intervista 1
P. - O que me diz do seu sucesso?
R. - Digo o que diria a Lili Caneças: ser lido é melhor do que não ser lido.
R. - Digo o que diria a Lili Caneças: ser lido é melhor do que não ser lido.
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terça-feira, maio 18, 2010
Durante algum tempo, este blogue permanecerá suspenso.
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Jornal "O PRIVADO"
sexta-feira, maio 14, 2010
Declaração de interesse
Prefiro ser um poeta lírico a ser um poeta com sucesso crítico.
segunda-feira, maio 10, 2010
Partilha 83
desejo de ocidente
vimos hoje
um belo ocaso
na fronteira sem velhice do céu
'stava o sol tal qual veio ao mundo
não fosse o seu manto
de couro
e as botas de cowboy
com vento de ocasião
trabalhamos no pomar no fabrico da compota
no restauro na pintura
do ícone da iluminura
no estertor
(às vezes até mandamos vir os rapazes
e fazemos bailes como nos filmes de john ford)
vimos hoje
um belo ocaso
na fronteira sem velhice do céu
'stava o sol tal qual veio ao mundo
não fosse o seu manto
de couro
e as botas de cowboy
com vento de ocasião
trabalhamos no pomar no fabrico da compota
no restauro na pintura
do ícone da iluminura
no estertor
(às vezes até mandamos vir os rapazes
e fazemos bailes como nos filmes de john ford)
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quarenta graus à sombra
domingo, maio 09, 2010
Confissão política
"Imagine, tenho lido coisas duma aridez simpática sobre economia. Visto que o homem económico tem de substituir o homem bélico eu quero estar ao corrente dessa nova bélica dos povos. E tenho pensado que a economia é a intriga estruturada no infanticídio das grandes ideias. O homem económico não tem ideias, tem só actividades operantes no campo do medo, do descrédito, da vertigem."
Carta de Agustina Bessa-Luís a Eduardo Lourenço.
Não queria que, a propósito deste post, ficasse o meu esporádico leitor com a ideia de que acalento uma espécie de menosprezo por aquilo que se convencionou chamar progresso. O que radicalmente me desagrada em José Sócrates é a segurança falsa que ele próprio encena em torno do suposto sucesso da sua governação. Algo que, de resto, já vi e revi em inúmeros portugueses em lugares de patronato: um desinteresse intenso pela eficácia real de uma medida de administração inversamente proporcional à celebração hipersensível desse mesmo gesto.
As escolas não ficaram mais modernas por terem sido invadidas por computadores Magalhães. A economia não ficou mais ágil com o ruidoso Simplex (e quão amadores e pouco modernos são os empreendedores lusos!). A cultura não ganhou dinamismo com a passagem (de TGV, presumo) do Hermitage pela museologia nacional. Não duvido que pelo menos algumas decisões governativas tenham sido tomadas de boa fé, mas nada disso releva perante os resultados concretos a que elas (não) tenham levado. E se eu, francamente, não espero que os meus governantes sejam visionários de génio, exijo que tenham, pelo menos, inteligência emocional suficiente para irem ajustando o seu percurso de acordo com a verdade com que, a passo e passo, o real os vai contrariando.
Talvez o leitor não acredite, mas desconheço o que é a motivação do poder. Penso, aliás, que isso será uma espécie de patologia pessoal. No entanto, sei o que é sonhar com ser lido fora do âmbito do espaço-tempo que a minha vida me concederá (a despeito de todas as monstruosidades panteónicas), e por isso consigo perceber a vontade de deixar um rasto. Já percebo menos que isso tenha de ser feito através da construção civil que vai do Centro Cultural de Belém até ao Aeroporto de Alcochete. Pois se um político conseguir, de facto, beneficiar a realidade em um grama que seja, ele será tratado pela História com panos bem aquecidos, não haja disso dúvida. Caso contrário, não haverá Pirâmide que o salve de uma chacota que passará de geração em geração.
Ou seja, neste momento já não acredito que o desígnio de obras públicas pelo qual batalha o nosso Primeiro Ministro contenha em si um grau mínimo de visão que seja capaz de frutificar em eficácia e verdade a longo prazo. Por favor, dedique-se ao inglês técnico.
Infelizmente, também não conheço alternativas (o que é todo um retrato do meu estado psicológico). Os partidos de (extremada) esquerda constituem uma muito concreta traição ao marxismo: não fornecem um repensar radical, completo e contemporâneo de toda a situação do homem, que foi precisamente o que Marx fez. Esperneiam mais do que pensam. Por outro lado, a direita é geneticamente marialva. Basta ver o seu desprezo pela exploração de algo tão evidente como as energias renováveis (exploração essa que terá de ser devidamente calculada e faseada, claro, mas cujas promessas de benefício são colossais): homem que é homem defende o petróleo, pois não tem ilusões quanto à natureza humana. Não falo do partido de Paulo Portas, pois não tenho jeito para contar anedotas.
Por vezes, penso que, se temos de sobreviver num contexto de capitalismo, então seria melhor que ele fosse dirigido por quem o sabe fazer funcionar de facto (e não por frágeis e indecisos donzéis socialistas). Acontece que, mesmo sem perceber nada de economia, eu não acredito na bondade de um tal sistema económico. E presumo que assim continuarei até que a morte de mim faça uma Zita Seabra.
O capitalismo tem duas vantagens, tem, sim senhor. Por um lado, a liberdade de expressão e de movimento. É uma conquista notável, e de que eu não estou disposto a abdicar. Mas há algo mais importante. Uma vez ouvi, numa muito antiga reportagem televisiva, alguém dizer que a Europa estava podre (de crise, já na altura...), mas cheirava bem. Ora, o capitalismo é isso mesmo: uma podridão que cheira bem. As gentes estão mergulhadas em dificuldades, mas usam roupas sexy, guiam carros sexy, fazem viagens sexy, vêem filmes sexy. Nada do cinzentismo que existia para lá do muro de Berlim.
A liberdade profunda do indivíduo é, porém, praticamente nula. O que significa eu aceitar um crédito bancário durante quarenta anos para poder ser proprietário de uma habitação? Significa apenas que aceito abdicar da liberdade durante toda a minha vida saudável. É claro que, para muita gente, o bom cheiro dos acabamentos de luxo e dos chãozinhos em parquet compensarão essa transacção da alma, mas, como se dizia noutras alturas, não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo.
Ainda por cima, o mercado é uma forma de perversão do sentido daquilo que sempre julguei ser a economia. Os recurso são explorados até à exaustão, os produtos têm menor valor intrínseco do que valor comercial, o crescimento é tão fatal que se torna descontrolado. Não podemos voltar às origens (como fazem as monjas que, nas suas clausuras, depuram a economia), mas não devemos perder de vista o seu sentido. Quantas pessoas poderão hoje afirmar que sabem, no mais fundo de si mesmas e sem qualquer sombra de dúvida, a razão pela qual trabalham? A gestão da escassez dos recursos e a superação das contingências da sobrevivência: não era isso a economia? Mas quem tem noção disso quando esbanja os últimos trocos que tem no milésimo pastel que contribuirá para o absurdo da sua obesidade, ou quando vê aqueles personagens de filme italiano em rituais de histeria nos mercados bolsistas?
Podem sempre dizer-me: se estás a mandar esses bitaites, por que não metes as mãos à obra e fazes alguma coisa por Ti mesmo? Ao contrário da paciente e lúcida Agustina, eu seria aniquilado se me predispusesse a levar estas coisas a sério. Não sou esse tipo de homem. Definitivamente. Talvez quando a tusa me abandonar, eu me dedique à aridez simpática da economia.
Carta de Agustina Bessa-Luís a Eduardo Lourenço.
Não queria que, a propósito deste post, ficasse o meu esporádico leitor com a ideia de que acalento uma espécie de menosprezo por aquilo que se convencionou chamar progresso. O que radicalmente me desagrada em José Sócrates é a segurança falsa que ele próprio encena em torno do suposto sucesso da sua governação. Algo que, de resto, já vi e revi em inúmeros portugueses em lugares de patronato: um desinteresse intenso pela eficácia real de uma medida de administração inversamente proporcional à celebração hipersensível desse mesmo gesto.
As escolas não ficaram mais modernas por terem sido invadidas por computadores Magalhães. A economia não ficou mais ágil com o ruidoso Simplex (e quão amadores e pouco modernos são os empreendedores lusos!). A cultura não ganhou dinamismo com a passagem (de TGV, presumo) do Hermitage pela museologia nacional. Não duvido que pelo menos algumas decisões governativas tenham sido tomadas de boa fé, mas nada disso releva perante os resultados concretos a que elas (não) tenham levado. E se eu, francamente, não espero que os meus governantes sejam visionários de génio, exijo que tenham, pelo menos, inteligência emocional suficiente para irem ajustando o seu percurso de acordo com a verdade com que, a passo e passo, o real os vai contrariando.
Talvez o leitor não acredite, mas desconheço o que é a motivação do poder. Penso, aliás, que isso será uma espécie de patologia pessoal. No entanto, sei o que é sonhar com ser lido fora do âmbito do espaço-tempo que a minha vida me concederá (a despeito de todas as monstruosidades panteónicas), e por isso consigo perceber a vontade de deixar um rasto. Já percebo menos que isso tenha de ser feito através da construção civil que vai do Centro Cultural de Belém até ao Aeroporto de Alcochete. Pois se um político conseguir, de facto, beneficiar a realidade em um grama que seja, ele será tratado pela História com panos bem aquecidos, não haja disso dúvida. Caso contrário, não haverá Pirâmide que o salve de uma chacota que passará de geração em geração.
Ou seja, neste momento já não acredito que o desígnio de obras públicas pelo qual batalha o nosso Primeiro Ministro contenha em si um grau mínimo de visão que seja capaz de frutificar em eficácia e verdade a longo prazo. Por favor, dedique-se ao inglês técnico.
Infelizmente, também não conheço alternativas (o que é todo um retrato do meu estado psicológico). Os partidos de (extremada) esquerda constituem uma muito concreta traição ao marxismo: não fornecem um repensar radical, completo e contemporâneo de toda a situação do homem, que foi precisamente o que Marx fez. Esperneiam mais do que pensam. Por outro lado, a direita é geneticamente marialva. Basta ver o seu desprezo pela exploração de algo tão evidente como as energias renováveis (exploração essa que terá de ser devidamente calculada e faseada, claro, mas cujas promessas de benefício são colossais): homem que é homem defende o petróleo, pois não tem ilusões quanto à natureza humana. Não falo do partido de Paulo Portas, pois não tenho jeito para contar anedotas.
Por vezes, penso que, se temos de sobreviver num contexto de capitalismo, então seria melhor que ele fosse dirigido por quem o sabe fazer funcionar de facto (e não por frágeis e indecisos donzéis socialistas). Acontece que, mesmo sem perceber nada de economia, eu não acredito na bondade de um tal sistema económico. E presumo que assim continuarei até que a morte de mim faça uma Zita Seabra.
O capitalismo tem duas vantagens, tem, sim senhor. Por um lado, a liberdade de expressão e de movimento. É uma conquista notável, e de que eu não estou disposto a abdicar. Mas há algo mais importante. Uma vez ouvi, numa muito antiga reportagem televisiva, alguém dizer que a Europa estava podre (de crise, já na altura...), mas cheirava bem. Ora, o capitalismo é isso mesmo: uma podridão que cheira bem. As gentes estão mergulhadas em dificuldades, mas usam roupas sexy, guiam carros sexy, fazem viagens sexy, vêem filmes sexy. Nada do cinzentismo que existia para lá do muro de Berlim.
A liberdade profunda do indivíduo é, porém, praticamente nula. O que significa eu aceitar um crédito bancário durante quarenta anos para poder ser proprietário de uma habitação? Significa apenas que aceito abdicar da liberdade durante toda a minha vida saudável. É claro que, para muita gente, o bom cheiro dos acabamentos de luxo e dos chãozinhos em parquet compensarão essa transacção da alma, mas, como se dizia noutras alturas, não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo.
Ainda por cima, o mercado é uma forma de perversão do sentido daquilo que sempre julguei ser a economia. Os recurso são explorados até à exaustão, os produtos têm menor valor intrínseco do que valor comercial, o crescimento é tão fatal que se torna descontrolado. Não podemos voltar às origens (como fazem as monjas que, nas suas clausuras, depuram a economia), mas não devemos perder de vista o seu sentido. Quantas pessoas poderão hoje afirmar que sabem, no mais fundo de si mesmas e sem qualquer sombra de dúvida, a razão pela qual trabalham? A gestão da escassez dos recursos e a superação das contingências da sobrevivência: não era isso a economia? Mas quem tem noção disso quando esbanja os últimos trocos que tem no milésimo pastel que contribuirá para o absurdo da sua obesidade, ou quando vê aqueles personagens de filme italiano em rituais de histeria nos mercados bolsistas?
Podem sempre dizer-me: se estás a mandar esses bitaites, por que não metes as mãos à obra e fazes alguma coisa por Ti mesmo? Ao contrário da paciente e lúcida Agustina, eu seria aniquilado se me predispusesse a levar estas coisas a sério. Não sou esse tipo de homem. Definitivamente. Talvez quando a tusa me abandonar, eu me dedique à aridez simpática da economia.
segunda-feira, maio 03, 2010
Cinema
Casting is just a form of forecasting.
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Aforismos intitulados
domingo, maio 02, 2010
Tenho um novo site...
... intitulado:
Orfeu de corpo inteiro
É uma plataforma de publicação prévia e experimental da minha produção ao nível do ensaio. Já estão alguns textos online, em breve surgirão mais. Ao longo do tempo, surgirão novos ensaios, e serão rescritos e acrescentados os que já se encontram esboçados.
Obrigado pela atenção.
Obrigado pela atenção.
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Obra pessoal
sábado, maio 01, 2010
Partilha 82
ich bin eine frau...
... em forma de bola de berlim
sou o meu pigmalião
meu próprio cirurgião por tentativa e tradução
objectivo:
ser uma nuvem emigrante
que se vem
em furacão
eu podia dançar toda a noite
eu podia dançar toda a noite
e ainda pedir mais ao meu leitor
afinal sou o creme do creme
un petit d'un petit de gema à mostra
caído
ao pé do muro do teu estômago
... em forma de bola de berlim
sou o meu pigmalião
meu próprio cirurgião por tentativa e tradução
objectivo:
ser uma nuvem emigrante
que se vem
em furacão
eu podia dançar toda a noite
eu podia dançar toda a noite
e ainda pedir mais ao meu leitor
afinal sou o creme do creme
un petit d'un petit de gema à mostra
caído
ao pé do muro do teu estômago
para a audrey e a katharine
Nota 1: "un petit d'un petit" é uma famosa tradução do inglês para o francês feita por homofonia; o original é "humpty dumpty".
Nota 2: A canção "I could have danced all night" é a que mais frequentemente canto no duche.
Nota 1: "un petit d'un petit" é uma famosa tradução do inglês para o francês feita por homofonia; o original é "humpty dumpty".
Nota 2: A canção "I could have danced all night" é a que mais frequentemente canto no duche.
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Alívio egoísta
Um dia destes, alguém me disse que o Homem tinha ficado tão inteligente que estava a destruir o Universo.
Uma formulação leviana. Não só o uso da palavra "inteligente" foi nela indevido, como não é o Universo que está em causa no último capítulo da grandeza humana, mas pura e simplesmente um pequeno planeta (seja qual for o rigor deste medo presente, ele ficará como uma das marcas mais tragicamente cómicas da nossa época).
A verdade é que fiquei aliviado. Foder a Terra, tudo bem, mas para o Universo ainda não temos tesão. Experimentem lá alterar o clima do Sol...
É claro que, há alguns séculos atrás, a perspectiva de uma perversão fatal do equilíbrio ecológico de um planeta inteiro por acção humana seria completamente inverosímil. E, por isso, não sei mais alguns séculos não nos darão os Magalhães suficientes para darmos cabo de toda a obra pública do Big Demiurgo. MAS EU JÁ NÃO ESTAREI POR CÁ!!!!!
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Por uma vez...
...concordo:
"O que move Sócrates não é mais do que a imagem, de "modernizador" e "duro", que, no fundo de si próprio, ele julga ser. Gostava de nos legar um Portugal irreconhecível e maravilhoso: com computadores na escola, com o MIT, com o Simplex triunfante, com o novo aeroporto, com o TGV. Um Portugal como essa América que ele viu na Beira em séries de televisão para provincianos."
Vasco Pulido Valente (no PÚBLICO de hoje)
"O que move Sócrates não é mais do que a imagem, de "modernizador" e "duro", que, no fundo de si próprio, ele julga ser. Gostava de nos legar um Portugal irreconhecível e maravilhoso: com computadores na escola, com o MIT, com o Simplex triunfante, com o novo aeroporto, com o TGV. Um Portugal como essa América que ele viu na Beira em séries de televisão para provincianos."
Vasco Pulido Valente (no PÚBLICO de hoje)
quarta-feira, abril 28, 2010
Capítulo 91
No capítulo "O Pequod encontra o Botão de Rosa" do romance "Moby Dick", Melville descreve, com regalada ironia, a inexperiência do capitão do navio com nome florido para os assuntos da captura da baleia. O Botão de Rosa, barco francês, leva dois troféus de pesca atracados ao seu casco em tão mau estado fisiológico que já não são capazes de fornecer uma quantidade de óleo minimamente lucrativa. Ainda por cima, uma das baleias mortas guarda no seu corpo a marca de um prévio ataque (feito pelos marinheiros do Pequod), e por isso o navio de inexperientes deveria ter-se abstido de usurpar um cadáver que, pelas leis não escritas da vida no mar, não lhe pertencia.
Stubb, figura de destaque da embarcação onde navega o protagonista, sobe a bordo do Botão de Rosa, e encontra um marinheiro que sabe falar inglês. Como Stubb pretende vingar-se da usurpação gaulesa (roubando o âmbar negro que, esse sim, existe em abundância num dos cadáveres), e o seu interlocutor se quer livrar das baleias fétidas e inúteis que o seu navio arrasta, resolvem pregar uma partida ao capitão ignorante. Vão falar com ele, e enquanto Stubb disparata na língua de Shakespeare, o tradutor transmite uma mensagem que não tem nada a ver com o original. Pretendem assim levar a água ao moinho de ambos.
Transcrevo em seguida todo o passo, na versão de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves, na medida em que ele me parece uma espécie de alegoria engenhosa do conceito de subtexto. Tudo o que Stubb diz em inglês funciona como subtexto daquilo que, posteriormente (e é nesta inversão que a alegoria se forma), o seu tradutor comunica:
"- Que lhe vamos dizer para principiar? - perguntou ele.
- Bem - respondeu Stubb, olhando a jaqueta de veludo, o relógio e os berloques que representavam um selo e um sinete - podes começar por lhe dizer que é demasiado infantil para mim, se bem que não esteja a fazer de juiz.
- Diz ele, monsieur - traduziu o homem de Guernsey, em francês, virando-se para o seu capitão -, que ainda ontem o seu navio cruzou com um barco, cujos capitão e imediato, bem como seis marinheiros, tinham morrido com uma febre causada por uma baleia apodrecida que arrastavam ao lado.
Ouvindo isto o capitão estremeceu, e exprimiu ansiosamente o desejo de saber mais sobre o caso.
- E agora? - continuou o homem de Guernsey dirigindo-se a Stubb.
- Pois bem, já que ele acredita tão facilmente, diz-lhe agora que depois de ter olhado cuidadosamente para ele, estou absolutamente certo de que está tão qualificado para comandar o baleeiro como um macaco de Santiago. Diz-lhe que de facto não passa de um bugio.
- Ele jura e declara, monsieur, que a outra baleia, a seca, é ainda mais perigosa do que a apodrecida; em resumo, monsieur, ele conjura-nos, se damos valor à vida, a desembaraçarmo-nos destes peixes.
Instantaneamente o capitão correu para a proa, e com voz estrepitosa ordenou à tripulação que não içasse as talhas de corte e que largasse os cabos e as correntes que prendiam as baleias ao navio.
- E agora mais? - perguntou o homem de Guernsey quando o capitão voltou para junto deles.
- Ora, deixa-me pensar; sim, vais-lhe dizer agora... agora... que foi enganado e (aparte para ele próprio) talvez mais alguém com ele.
- Ele diz, monsieur, que está muito contente por nos ter podido prestar este serviço."
Stubb, figura de destaque da embarcação onde navega o protagonista, sobe a bordo do Botão de Rosa, e encontra um marinheiro que sabe falar inglês. Como Stubb pretende vingar-se da usurpação gaulesa (roubando o âmbar negro que, esse sim, existe em abundância num dos cadáveres), e o seu interlocutor se quer livrar das baleias fétidas e inúteis que o seu navio arrasta, resolvem pregar uma partida ao capitão ignorante. Vão falar com ele, e enquanto Stubb disparata na língua de Shakespeare, o tradutor transmite uma mensagem que não tem nada a ver com o original. Pretendem assim levar a água ao moinho de ambos.
Transcrevo em seguida todo o passo, na versão de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves, na medida em que ele me parece uma espécie de alegoria engenhosa do conceito de subtexto. Tudo o que Stubb diz em inglês funciona como subtexto daquilo que, posteriormente (e é nesta inversão que a alegoria se forma), o seu tradutor comunica:
"- Que lhe vamos dizer para principiar? - perguntou ele.
- Bem - respondeu Stubb, olhando a jaqueta de veludo, o relógio e os berloques que representavam um selo e um sinete - podes começar por lhe dizer que é demasiado infantil para mim, se bem que não esteja a fazer de juiz.
- Diz ele, monsieur - traduziu o homem de Guernsey, em francês, virando-se para o seu capitão -, que ainda ontem o seu navio cruzou com um barco, cujos capitão e imediato, bem como seis marinheiros, tinham morrido com uma febre causada por uma baleia apodrecida que arrastavam ao lado.
Ouvindo isto o capitão estremeceu, e exprimiu ansiosamente o desejo de saber mais sobre o caso.
- E agora? - continuou o homem de Guernsey dirigindo-se a Stubb.
- Pois bem, já que ele acredita tão facilmente, diz-lhe agora que depois de ter olhado cuidadosamente para ele, estou absolutamente certo de que está tão qualificado para comandar o baleeiro como um macaco de Santiago. Diz-lhe que de facto não passa de um bugio.
- Ele jura e declara, monsieur, que a outra baleia, a seca, é ainda mais perigosa do que a apodrecida; em resumo, monsieur, ele conjura-nos, se damos valor à vida, a desembaraçarmo-nos destes peixes.
Instantaneamente o capitão correu para a proa, e com voz estrepitosa ordenou à tripulação que não içasse as talhas de corte e que largasse os cabos e as correntes que prendiam as baleias ao navio.
- E agora mais? - perguntou o homem de Guernsey quando o capitão voltou para junto deles.
- Ora, deixa-me pensar; sim, vais-lhe dizer agora... agora... que foi enganado e (aparte para ele próprio) talvez mais alguém com ele.
- Ele diz, monsieur, que está muito contente por nos ter podido prestar este serviço."
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Citações,
Herman Melville,
Romance
Festa na cidade
Este ano decidi visitar, pela primeira vez, os Dias da Música. Claro que apreciei imenso o essencial do evento, o seu carácter festivo, a qualidade dos concertos (cinco récitas a que assisti, cinco contentamentos plenos), a enchente de público, até a organização me pareceu boa.Fiquei, contudo, a pensar que quase nunca saí de um concerto de música dita erudita com a sensação de murro no estômago com que abandonei salas de cinema, palcos, exposições ou páginas de livros. É claro que a música, por ser não figurativa, não terá a mesma vocação directamente interventiva de outras manifestações de criatividade, mas não deixa de ser estranho que os recitais se façam sempre para dar o prazer de um bom serão ao público. Eu também gosto de filmes que nos reconciliam com a vida, mas se os filmes fossem todos assim, eu começava a desconfiar do cinema. E, de qualquer modo, as obras de Beethoven, Alban Berg ou Luigi Nono serão tão irreverentes quanto os melhores passos de Lautréamont ou Samuel Beckett.
Embora eu já esteja cheio de ouvir falar em conceitos, a verdade é que os músicos ganhariam em elaborar os seus recitais com base em conceitos mais complexos, mais desafiadores, menos carentes de aplauso oco, com menos vestido de diva e mais angústia partilhada sem paliativos, com mais desejo do que satisfação. Quem se importa com o lugar certo para bater as palmas? Queremos é ser toldados pelo groove da fúria.
quarta-feira, abril 21, 2010
"Ruínas" - imagem
O ACTUAL 26
"Ruínas" - Manuel Mozos"Ruínas" começa com a imagem da implosão de um edifício. De facto, o discurso do progresso (representado pelos moinhos de energia eólica no fim do filme) gostaria de ter o poder de apagar por completo o rasto desse empecilho chamado passado. No entanto, assim como continuam a aparecer velas e flores na estátua de um santo de jazigo, muito depois da pessoa que a encomendou ter morrido sem deixar descendentes, as ruínas estão aí para contar a sua história. Não sei se isso acontece noutros países, mas Portugal é um país de ruínas.
E como filmar ruínas? Através de um processo de adequação quase magnética entre corpos, cenário e ficção, a vida tende para a singularidade. Cada narrativa é de tal modo pesada para aqueles que a vivem, que tende a ser sentida como única. A relevância adquire toda a desproporção que o afecto lhe permite. Ora, Manuel Mozos decidiu prescindir da encenação de corpos, desvalorizar a correcta e individual adequação das ficções que evoca aos cenários que lhes atribui (não sabemos se os textos declamados têm relações de facto com aqueles lugares), e filmou os cenários como manifestações imediatas da passagem de um tempo apodrecido.
Pela ordenação que a montagem traz a esse encadeado documental, surgem três consequências:
1. As ficções sofrem um processo de homogeneização. Como os seus protagonistas estão, em princípio, mortos, ou pelo menos afastados dos cenários filmados, as ficções (que desvendam anedotas individuais, ideologias de moralidade, política e economia, situações de ócio e entretenimento, etc.) ficam todas reduzidas a um mesmo valor. O valor da ruína.
2. O filme deixa então de versar sobre este caso ou aquele (não é referido o nome próprio de ninguém), e adquire um carácter discursivo abstracto.
3. Em consequência, a obra constrói a imagem colectiva e fóssil de um Portugal antigo (aquele que sobreviveu até ao fim do Estado Novo), um Portugal de sanatórios, padres poderosos, teatros de variedades, missivas educadas e contos e ditos.
Sobreviverá a identidade do país à implosão da aldeia global? E poderemos estar orgulhos dessa identidade que se assemelhava, em todo o seu pó e bolor, a uma ruína avant la lettre?
P.S. - Gostaria de sublinhar o gosto que me deu ouvir toda uma estilística da nossa língua que está completamente perdida. Curiosamente, não tenho a certeza de que a memória desse português seja pessoal ou uma reconstrução fornecida pelo audiovisual.
Confissão 28
Se alguma coisa aprendi com as ousadias e os erros do surrealismo, foi a ter respeito pelo inconsciente, seja lá o que isso for. Não quer dizer que pratique a escrita automática, da qual desconfio. Mas acredito realmente que a coerência mais férrea e a originalidade mais insuspeita de um texto literário são fornecidas por aquilo que nele não conseguimos controlar.
Daí que não estabeleça pontes entre a minha actividade de escrita poética e o meu esforço de reflexão sobre a poesia e a criação em geral (que é um esforço de índole assumidamente lógica). Há muitas dimensões da minha poesia sobre as quais nem discorro. E raramente tento aplicar um conceito teórico num poema.
Ponho-me, portanto, nas mãos da minha saúde mental. Espero não sofrer de múltiplas personalidades, e que as diferentes facetas da minha vida intelectual se relacionem umas com as outras com um mínimo de coerência aceitável.
Daí que não estabeleça pontes entre a minha actividade de escrita poética e o meu esforço de reflexão sobre a poesia e a criação em geral (que é um esforço de índole assumidamente lógica). Há muitas dimensões da minha poesia sobre as quais nem discorro. E raramente tento aplicar um conceito teórico num poema.
Ponho-me, portanto, nas mãos da minha saúde mental. Espero não sofrer de múltiplas personalidades, e que as diferentes facetas da minha vida intelectual se relacionem umas com as outras com um mínimo de coerência aceitável.
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Poética
domingo, abril 18, 2010
Partilha 81
as sete ex-maravilhas
o farol de alexandria
(o sol)
e o olhar que o quer olhar sem escolhos infinitivos
e quatro botões
que aos quatro ventos abrem casas
ex-sedentárias:
norte sul sim não
talvez não valha a pena dizer o mundo
em poema
se p'ra quase ninguém
o mundo soa enxuto
(Façamos
uma eternidade de silêncio
pelas vítimas deste minuto?)
o farol de alexandria
(o sol)
e o olhar que o quer olhar sem escolhos infinitivos
e quatro botões
que aos quatro ventos abrem casas
ex-sedentárias:
norte sul sim não
talvez não valha a pena dizer o mundo
em poema
se p'ra quase ninguém
o mundo soa enxuto
(Façamos
uma eternidade de silêncio
pelas vítimas deste minuto?)
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quarenta graus à sombra
Gostaria de ter escrito 7
"For unless you own the whale, you are but a provincial and sentimentalist in Truth."
"Champollion deciphered the wrinkled granite hieroglyphics. But there is no Champollion to decipher the Egypt of every man's and every being's face."
Herman Melville
"Champollion deciphered the wrinkled granite hieroglyphics. But there is no Champollion to decipher the Egypt of every man's and every being's face."
Herman Melville
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Citações,
Herman Melville,
Obra virtual
Nota "Les herbes folles"
Não faço parte do grupo de cinéfilos que lamentam o facto de Alain Resnais ter decidido, a partir de um certo momento na sua obra, construir filmes a partir de textos assumidamente menores. É claro que é estranho ver o autor de "Hiroshima mon amour" ir perdendo, ano após ano, a ágil gravidade que o animou na juventude. Mas cada um envelhece como pode (e não como os outros querem) e, de qualquer modo, o Resnais superficial já nos deu obras belíssimas como "Smoking / No smoking" ou a mais recente "Coeurs".O visionamento de "Les herbes folles", no entanto, deixou-me insatisfeito. É claro que o filme é rigorosíssimo na transposição do texto para o cinema: Resnais é um leitor privilegiado. Ora, a folie que ele pretendia partilhar pareceu-me precisamente congelada na inteligência formal, como se o realizador estivesse tão consciente do que estava a fazer que tenha condenado o seu ambicionado vulcão de ouropel a uma extinção a priori. Eu, que adoro o trabalho sumptuoso da forma, cheguei a desejar que aqueles actores, de talento inesgotável, andassem por ali sem outra mise en scène a não ser a sua própria desorientação. No rescaldo, pareceu-me ter visto um pseudo-Lynch erudito. Mais do que nunca Resnais me pareceu distinto de Godard, que é incapaz de ousar uma forma sem com ela ousar o conteúdo e a emoção do seu espectador.
Todavia, os melhores filmes da história do cinema são aqueles que temos de aprender a apreciá-los. Espero, por isso, estar enganado, e que alguém me ensine a ver "Les herbes folles".
segunda-feira, abril 12, 2010
Momento conservador
No sábado passado, num dos mil suplementos que o jornal Expresso retira às pobres arvorezinhas, foi publicada uma not(íci)a referindo alguns exemplos de previsões famosas que saíram furadas. Furadas porquê? Sou suficientemente teimoso para fazer tudo depender do ponto de vista.
Margaret Thatcher: "Demorarão anos - não será no meu tempo - até que uma mulher seja primeiro-ministro" (1974) - Certo: não foi no seu tempo específico enquanto líder política que uma mulher cumpriu os requisitos de um exercício de poder verdadeiramente democrático.
Rutherford Hayes: "O telefone é uma boa invenção, mas quem o quererá utilizar?" (1876) - Certo: o uso do telefone corresponde menos a um acto de vontade verdadeiramente livre do que a uma compulsão doentia a que ninguém, no seu perfeito juízo ideal, sucumbiria.
H. M. Warner: "Quem é que raio quer ouvir os actores a falar?" (1927) - Certo: as pessoas vão ao cinema para verem os actores despirem-se, fazerem gracinhas ou rebolarem no chão após explosões.
Funcionário do Michigan Savings Bank: "O cavalo está cá para ficar, mas o automóvel é apenas uma novidade, uma moda" (1903) - Certo: em breve, haverá teletransporte e facilidades quejandas; o cavalo permanecerá insubstituível; é até possível que passemos a mencionar a potência dos motores dos teletransportadores em termos dos cavalos que eles possuem.
Ken Olson: "Não há razão para alguém querer ter um computador em casa" (1981) - Certo: um, não; vários, sim!
Margaret Thatcher: "Demorarão anos - não será no meu tempo - até que uma mulher seja primeiro-ministro" (1974) - Certo: não foi no seu tempo específico enquanto líder política que uma mulher cumpriu os requisitos de um exercício de poder verdadeiramente democrático.
Rutherford Hayes: "O telefone é uma boa invenção, mas quem o quererá utilizar?" (1876) - Certo: o uso do telefone corresponde menos a um acto de vontade verdadeiramente livre do que a uma compulsão doentia a que ninguém, no seu perfeito juízo ideal, sucumbiria.
H. M. Warner: "Quem é que raio quer ouvir os actores a falar?" (1927) - Certo: as pessoas vão ao cinema para verem os actores despirem-se, fazerem gracinhas ou rebolarem no chão após explosões.
Funcionário do Michigan Savings Bank: "O cavalo está cá para ficar, mas o automóvel é apenas uma novidade, uma moda" (1903) - Certo: em breve, haverá teletransporte e facilidades quejandas; o cavalo permanecerá insubstituível; é até possível que passemos a mencionar a potência dos motores dos teletransportadores em termos dos cavalos que eles possuem.
Ken Olson: "Não há razão para alguém querer ter um computador em casa" (1981) - Certo: um, não; vários, sim!
Cruzes canhoto
Há uma relação (não pretendida) entre a letra convencionada para representar a incógnita, a letra X, e a cruz que, a partir da Paixão de Cristo, se tornou um dos símbolos mais omnipresentes (e mais omnideprimentes) da cultura ocidental.
O X é a cruz transportada ao longo da Paixão, a cruz de um sofrimento terreno tal que só pode descambar em dúvida. A mudança de posição do X equivale à concretização da morte-ressurreição, de peso oblíquo torna-se símbolo recto e erecto, a incógnita cedendo perante a imposição espectacular da fé.
Se ainda não há um quadro represento o Cristo já morto numa cruz caída em X, então a história da pintura não pode estar terminada.
O X é a cruz transportada ao longo da Paixão, a cruz de um sofrimento terreno tal que só pode descambar em dúvida. A mudança de posição do X equivale à concretização da morte-ressurreição, de peso oblíquo torna-se símbolo recto e erecto, a incógnita cedendo perante a imposição espectacular da fé.
Se ainda não há um quadro represento o Cristo já morto numa cruz caída em X, então a história da pintura não pode estar terminada.
sábado, abril 10, 2010
Partilha 80
verde pino (a lo profano e a lo divino)
sou um tipo tão insignificante
que ainda acabo a fundar uma religião
espero (pelo menos)
que os meus sacerdotes
digam missas ao som dos vampire weekend
fodam gente que seja do seu tamanho
e estejam livres do sotaque lá de chima
hei-de arrancá-lo de dentro de mim
nem que para tal
recorra ao exorcismo
já que tenho a cabeça a andar à roda
ao menos que o escarre
em efeito
ESPECIAL
sou um tipo tão insignificante
que ainda acabo a fundar uma religião
espero (pelo menos)
que os meus sacerdotes
digam missas ao som dos vampire weekend
fodam gente que seja do seu tamanho
e estejam livres do sotaque lá de chima
hei-de arrancá-lo de dentro de mim
nem que para tal
recorra ao exorcismo
já que tenho a cabeça a andar à roda
ao menos que o escarre
em efeito
ESPECIAL
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Partilha 79
auto-sombra
sorri sempre
que
te puxarem pelas extremidades dos teus lábios
até sangrares na horizontal
é assim que muita gente
sobe
na vida
por vezes
fico desesperado
por o mundo não ser como eu queria
mas se o mundo fosse como eu queria
como os outros queriam ele não seria
enfim
o mundo vai acabar mais dia menos dia :)
sorri sempre
que
te puxarem pelas extremidades dos teus lábios
até sangrares na horizontal
é assim que muita gente
sobe
na vida
por vezes
fico desesperado
por o mundo não ser como eu queria
mas se o mundo fosse como eu queria
como os outros queriam ele não seria
enfim
o mundo vai acabar mais dia menos dia :)
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quinta-feira, abril 08, 2010
O INACTUAL 46
"Ma nuit chez Maud" - Eric Rohmer (1969)
segunda-feira, abril 05, 2010
Galeria 49
Usarei como epígrafe...
dos meus personetos:
"He would say the most terrific things to his crew, in a tone so strangely compounded of fun and fury, and the fury seemed so calculated merely as a spice to the fun, that no oarsman could hear such queer invocations without pulling for dear life, and yet pulling for the mere joke of the thing."
Herman Melville
"He would say the most terrific things to his crew, in a tone so strangely compounded of fun and fury, and the fury seemed so calculated merely as a spice to the fun, that no oarsman could hear such queer invocations without pulling for dear life, and yet pulling for the mere joke of the thing."
Herman Melville
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domingo, abril 04, 2010
Os contemporâneos
Em épocas de ocultação, tem de haver quem faça o trabalho de denúncia, de rasgar os véus. No entanto, quando a exposição se tornou uma banalidade, quando tudo é mostrado até à náusea e a mediação intelectual tende para a pornografia (mesmo se não pretendida), então é preciso que haja gente que nos lembre que a arte não se confunde com a vida.
Dito de outro modo, o artista tem de ser uma arma de precisão na escolha daquilo que vai revelar. Tanto Bertolt Brecht quanto Josef von Sternberg detinham a virtude desta ética.
Dito de outro modo, o artista tem de ser uma arma de precisão na escolha daquilo que vai revelar. Tanto Bertolt Brecht quanto Josef von Sternberg detinham a virtude desta ética.
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sábado, abril 03, 2010
Partilha 78
catálogo dos pássaros - voos
"como posso saber viver
se não sei voar?"
pedro ludgero
se não sei voar?"
pedro ludgero
oriolus oriolus
voamos em bandos de trinta dinheiros: chamamos um figo ao tema do Céu
charadrius alexandrinus
não fosse o pássaro a pôr as coisas nos seus lugares, e tomaríamos o Céu por um close up
carduelis carduelis
já não há Céu, apenas imensos blues onde tentamos cair nos buracos de deus
monticola solitarius
quero ir para a cama com uma paisagem para fazer do Céu um bom lençol
delichon urbicum
deixo nuvens a marcarem o regresso, mas joão e maria fazem danças da chuva
estrilda astrild (aka banksy)
apenas isto o dia do juízo final: todas as linhas que os pássaros voaram ficarão visíveis
acrocephalus scirpaceus
voarei, revoarei, devoarei até que os homens inventem o nó cabeça-de-rouxinol
voamos em bandos de trinta dinheiros: chamamos um figo ao tema do Céu
charadrius alexandrinus
não fosse o pássaro a pôr as coisas nos seus lugares, e tomaríamos o Céu por um close up
carduelis carduelis
já não há Céu, apenas imensos blues onde tentamos cair nos buracos de deus
monticola solitarius
quero ir para a cama com uma paisagem para fazer do Céu um bom lençol
delichon urbicum
deixo nuvens a marcarem o regresso, mas joão e maria fazem danças da chuva
estrilda astrild (aka banksy)
apenas isto o dia do juízo final: todas as linhas que os pássaros voaram ficarão visíveis
acrocephalus scirpaceus
voarei, revoarei, devoarei até que os homens inventem o nó cabeça-de-rouxinol
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o trabalho do milionário,
Obra pessoal
Tradução 22
Poema "Os cisnes selvagens de Coole" de William Butler Yeats, traduzido por mim:
"As árvores estão em beleza de outono,
No bosque os trilhos estão secos,
Sob o crepúsculo de Outubro as águas
Reflectem céus quietos;
No lago que por pouco suas margens transcorre
Estão cisnes, cinquenta e nove.
Já o décimo nono outono sobre mim caiu
Desde essa primeira contagem;
Vi-os, antes de ter chegado ao fim,
De súbito elevarem-se
'spalhando rotação em argolas quebradas
Nas suas clamorosas asas.
Tais brilhantes criaturas contemplei,
E agora o coração tem mágoa.
Tudo mudou desde que, após eu ter ouvido,
No ocaso antigo desta margem,
Sobre a cabeça o toque-de-sino do voar,
Optei por um mais leve caminhar.
Não cansados ainda, amante junto a amante,
Eles remam nas frias
E gregárias correntes ou escalam o ar;
São corações sem velharia;
Paixão, conquista, errância a bel-prazer,
Ao seu serviço ainda hão-de ter.
Mas agora el's flutuam nas águas paradas,
Tão belos e enigmáticos;
Entre que juncos construirão,
Junto a que orla de lago ou charco
Mostrarão seu encanto, quando eu despertar um dia
E perceber que eles partiram?"
(O texto original pode ser lido aqui)
sexta-feira, abril 02, 2010
O INACTUAL 45
Numa das cenas mais inesperadas deste filme não consensual de Rohmer, o jovem Perceval afasta agressivamente dois cavaleiros que o tentam demover do estado de concentração obsessiva nos seus próprios pensamentos. A sequência faz a luz necessária sobre a relação do cineasta da nouvelle vague francesa com o texto medieval.
Pois é lógico que o assunto imediato do romance de Chrétien de Troyes é a demanda da espiritualidade cristã sob a égide da mitologia arturiana. Mas é preciso notar que a encenação da Paixão de Cristo que a obra nos fornece perto do seu término se faz com recurso a uma narração na qual as personagens bíblicas não participam verbalmente (ou seja, vemos os seus corpos em acção, mas as palavras, mesmo as que pertencem aos diálogos, estão todas a cargo do grupo de narradores-cantores). Ao contrário, durante a história principal de "Perceval le Gallois", as personagens verbalizam simultaneamente os seus diálogos (o que é a norma em todos os filmes) e a parte textual referente à narração (por exemplo, referem-se a si mesmas com expressões do género: "e ele disse o seguinte").
A moral cristã é um modelo de comportamento a que Rohmer não será nada alheio ("Die Marquise von O" ainda vai mais longe na exploração dessa inquietação). Todavia, a sua distância enquanto encenador fá-lo ser mais favorável à observação da dificuldade que as personagens têm na gestão dessa moral do que a uma possível crítica (mesmo que positiva) da substância desta. Assim sendo, o facto das personagens se narrarem a si mesmas (e de não haver diferença no tratamento emocional dos dois níveis heterogéneos de texto que elas assumem) é o aspecto mais revelador da obra, e a chave que a liga aos filmes "sobre o presente" de Rohmer. As personagens raciocinam e verbalizam uma tensão moral, como se todas fossem filósofas do seu próprio devir.
Perceval é jovem, mas as suas asneiras constantes decorrem precisamente de ele tentar aplicar a ética que os adultos lhe ensinaram... A mãe diz-lhe para beijar donzelas e não exigir mais nada além disso. E o rapaz beija de facto uma rapariga: só que esta já tinha companheiro e para além disso não lhe deu o consentimento necessário ao seu gesto. Mais tarde, tenta cumprir o preceito de uma figura paterna que encontra durante o seu percurso (mantém o controlo da curiosidade no castelo do Rei Pescador), e cria a sua própria travessia no deserto (se tivesse feito as perguntas certas, teria ido longe na conquista da espiritualidade). Pois mais importante do que seguir um catecismo, é avaliar a sua substância de acordo com cada proposta de acção que a vida traz.
Esta obliquidade da personagem (a personagem é acima de tudo o diálogo consigo mesma) não diminui o impacto dos filmes rohmerianos (até porque a sensualidade é neles a principal matéria). Aliás, nos filmes "sobre o presente", Rohmer consegue fazer com que os dilemas na aparência apenas sentimentais das personagens obriguem a própria época a narrar-se a si mesma, com esse mesmo grau de obliquidade (o realizador não precisa de ser sempre explícito como em "Ma nuit chez Maud"). Se os castelos de "Perceval le Gallois" são de papelão, essa atitude perante o contexto prolonga-se por toda a filmografia do francês. Como se as cidades, as casas, as ruas, falassem (ou até cantassem) aquilo que, culturalmente, está nelas em jogo.
O filme termina abruptamente porque, se não se pode saber tudo sobre um tempo, um assunto, ou uma narrativa, então mais vale não fingir essa omnisciência (de qualquer modo, o cinema de respeito pelo texto que à época se praticava levava os cineastas a gestos de profunda ousadia na relação com a literatura - a obra de Troyes foi deixada inacabada). E se há um estranho personagem secundário, um cavaleiro adulto, que a uma dada altura colhe protagonismo, é para demonstrar como a sua suposta maturidade não o livra de ser menos casmurro. A sua fidelidade aos pensamentos põe-no mesmo em risco de vida (e maior violência que esse risco não existe no cinema de Rohmer).
A verdade é que a Béatrice Romand de "Conte d'automne" prolonga o Melvil Poupad de "Conte d'été". Ao contrário do que todos nós apressadamente supomos, o autor de "Le genou de Claire" vem-nos dizer que a moral é o principal indício de permanência da juventude.
quinta-feira, abril 01, 2010
Estourar a caixa antiga
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Obra pessoal
Partilha 77
floema
eu
que podia escrever um mensageiro das estrelas
por cada ser que desejei sem atingir
hei-de um dia
mudar-me para sempre em membracídeo
(e para sempre ser então
the next big thing)
todo aquele que tenta agarrar a existência
com pauzinhos
sabe quão difícil é
manter
a fleuma da peónia
sou um poeta japonês
na selva amazónia
eu
que podia escrever um mensageiro das estrelas
por cada ser que desejei sem atingir
hei-de um dia
mudar-me para sempre em membracídeo
(e para sempre ser então
the next big thing)
todo aquele que tenta agarrar a existência
com pauzinhos
sabe quão difícil é
manter
a fleuma da peónia
sou um poeta japonês
na selva amazónia
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quarenta graus à sombra
segunda-feira, março 29, 2010
A partir de hoje, tenho um directório no site TriploV. O link está na barra lateral do blogue.
sábado, março 27, 2010
The boring parts
Melville comete vários erros, a começar pela defesa de que a baleia é um peixe, quando toda a ciência actual (e presumo que mesmo a ciência do seu tempo) a classifica como um mamífero. Todavia, o capítulo parece-me francamente revelador das intenções mais ou menos conscientes do seu autor. E para além disso, devo dizer que adoro "ciências de brincar", e portanto tive um enorme prazer em ler este trecho borgesiano mais malgré lui que avant la lettre.
O romancista diz que a baleia é um peixe porque, ao contrário do homem de ciência (que, para fundamentar a sua classificação, se socorre de critérios biológicos, como o sangue quente), se baseia na relação do animal com o seu meio. A baleia é um peixe porque vive onde todos os peixes vivem. Já a lontra é um anfíbio porque tanto habita o mar como a terra. Esta diferença de critério será ingénua de um ponto de vista epistemológico, mas é francamente eloquente quanto à deformação intelectual que acompanha o romancista de recorte realista. Apesar da dimensão alegórica da sua escrita, Melville entende a baleia como sendo uma personagem que tem de ser descrita e narrada na interacção verosímil com o meio onde está inserida.
No entanto, esta não é a consequência mais interessante da deriva pseudo-científica do autor. Melville classifica os diversos tipos de baleias que conhece com os seguintes nomes: a baleia in-fólio, a baleia in-octavo, a baleia in-doze. Uma das dimensões mais fascinantes deste épico célebre resulta, precisamente, do facto do escritor desenvolver uma poética que faz equivaler oceano e biblioteca. Não é só a Bíblia que é aplicada ao mar (como diz, e muito bem, o cantautor Vinicio Capossela). É todo um universo de aventura dura e viril que muscula a dinâmica da palavra escrita, e uma vocação metafísica que se torna inseparável da experiência vital do mar. Muitos comentadores terão notado esta ousadia. Eu só pretendo insinuar que a nomenclatura pseudo-científica que Melville propõe no capítulo em questão já fornece, em si mesma, esta chave de leitura.
Por fim, nada será mais revelador que o facto de essa classificação dos cetáceos em três grupos usar como critério principal a dimensão que eles possuem. As baleias in-fólio são as maiores, as baleias in-doze possuem o tamanho mais modesto. O cachalote será, aliás, a maior das baleias maiores. Ou antes, será o maior animal conhecido no planeta. Este gosto pela desmesura ao nível da dimensão, associado à intencionalidade metafísica do romance, parece-me ser uma aplicação prática (e francamente notável) da teoria kantiana do sublime (teoria que, de resto, não subscrevo pessoalmente). Seja do ponto de vista matemático (da extensão que ultrapassa a medida humana de compreensão), seja do ponto de vista dinâmico (da força que excede a medida humana de sobrevivência), é evidente que a experiência sem paralelo (inclassificável) da baleia só poderá colocar o marinheiro perante aquelas Ideias que a Razão reclama sem conseguir esclarecer.
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domingo, março 21, 2010
Lendo "Moby Dick"
Há duas maneiras de viver: arriscando apenas a morte ou arriscando igualmente a própria vida.
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quarta-feira, março 17, 2010
História de um prurido
Nunca me pareceu que a comédia romântica fosse um género tão relevante e frutuoso quanto o western (com o seu impulso de inventar uma mitologia americana, apesar da encenação estereotipada do índio só poder merecer a nossa maior condenação), o filme de guerra (que se dedica a um tema tão pungente que acaba por ter de desaguar em ambição), o filme negro (influenciado por uma literatura musculada e trabalhado por realizadores de muito talento), o filme de suspense (que Alfred Hitchcock assumiu, revolucionou e aperfeiçoou ao ponto de ainda hoje ser uma sombra que ridiculariza os seus muitos imitadores), a ficção científica (cuja ambição é metafísica, para o melhor e para o pior), a comédia burlesca (o mais belo dos géneros, e que, por isso mesmo, acabou), ou até a comédia musical (que precipitou a maturidade do uso da cor).Basicamente, a comédia romântica faz a apologia do casamento, e a sua desenvoltura no passado será certamente explicada pelo facto desse contrato ter funcionado como missão, carreira e destino da mulher (seu público-alvo) até aos anos sessenta. A partir do momento em que os dados da vida sentimental adquiriram outra inteligência, a comédia romântica tornou-se um mero exercício de indigência delicodoce. Poucos exemplos o cinema moderno conseguiu oferecer que se comparem com "His girl friday" de Howard Hawks, "Heaven can wait" de Ernst Lubitsch ou "It should happen to you" de George Cukor.
"Up in the air" ("Nas nuvens") faz o check-in de todas as regras, antiquíssimas, do género. Até o facto do protagonista ser George Clooney, de quem a imprensa cor-de-rosa vende a imagem de solteirão inveterado, é um jogo que os realizadores mais sagazes sempre souberam jogar (Cukor brincou com a arrogância de Katharine Hepburn em "The Philadelphia Story", parte da filmografia de Marylin adquire sentido a partir dessa estratégia, etc.). O que dizer? Tudo bem feitinho, argumento composto com todas as regras da escrita criativa, realização sem grande força nem imaginação, mas também sem erros. Como é que Jason Reitman não tentou sequer encontrar uma maneira de filmar que fosse "up in the air"?
O prurido que intitula este post deve-se ao facto de esta comédia romântica, que, mais do que fazer a apologia do casamento, é uma celebração dos valores familiares, usar como pano de fundo para o seu argumento a vaga imparável de despedimentos que a recente crise económica desencadeou. O sofrimento social é só mesmo isso: um pano de fundo para um devaneio de sentimentalismo. Nada é dito de substancial sobre o drama do desemprego, sobre as suas consequências sociais e psicológicas ou sobre a maneira específica como ele se está a revelar neste momento da História. Enquanto via o filme, eu perguntava-me se, de um ponto de vista ético, ou mesmo político, isto é aceitável...
Mas depois lembrei-me de Hitchcock, e das suas histórias de amor (pois era isso essencialmente que ele filmava) desenvolvidas no contexto da Segunda Guerra Mundial. É claro que aí há alguma diferença: o realizador britânico nunca escondeu a vontade de participar no esforço de propaganda bélica através do cinema (e, por uma vez, até estamos todos de acordo com esse esforço, da direita à esquerda...). Ou seja, ele estava afinal a pronunciar-se sobre o seu pano de fundo. De qualquer modo, a guerra dos seus filmes é um papelão superficial que não sei se será ainda hoje aceitável perante tudo o que sabemos sobre o conflito, desde Auschwitz até Hiroxima.
Não sei se devo tolerar a irresponsabilidade de "Up in the air" e esquecê-lo com a bonomia que se empresta às coisas irrelevantes, ou se preciso de moderar a minha admiração por Hitchcock. Ou então, se a diferença entre os dois casos é, de facto, significativa. Gostava de saber a opinião de outros cinéfilos.
Gostaria de ter escrito 6
"Glimpses do ye seem to see of that mortally intolerable truth; that all deep, earnest thinking is but the intrepid effort of the soul to keep the open independence of her sea; while the wildest winds of heaven and earth conspire to cast her on the treacherous, slavish shore?"
Herman Melville
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domingo, março 14, 2010
Anabaptismo
O inominável é o nome dado àquilo que ainda está inominado.
Nota "Mulheres traídas"
O amor será talvez o tema dos piores filmes. E dos melhores, também.O documentário "Mulheres traídas [making of]" de Miguel Marques coloca a sua pedra-de-toque no lugar deste paradoxo. Ele é o registo da rodagem de um filme de ficção realizado por Maria José Silva, magnífica personagem da cidade do Porto, comerciante amadoramente dedicada ao cinema, à escrita e à música.
Por um lado, o documentário é um retrato indirecto do sofrimento sentimental da Mulher no passado recente (aquilo que Maria José Silva tenta exprimir através do melodrama). Nesse sentido, Marques não se limita a fazer o making of de um filme, mas consegue capturar o making up que esse filme constitui sobre uma verdade vital.
Mas é por causa disso mesmo que esta obra é também o registo de uma evidência que os críticos fingem desconhecer e que os públicos na verdade desconhecem: muitas vezes, o amor que temos pelo cinema é mais eloquente do que os filmes que efectivamente fazemos. Tim Burton também andou por aí quando fez "Ed Wood". Para que serve a cultura se não passar de apanágio da inteligência estéril de uma elite?
Apenas criticaria Marques por não ter conseguido dominar todos os aspectos técnicos do seu filme, de modo a criar uma distanciação mais significativa perante a "naïveté" do objecto documentado. Contudo, presumo que a obra foi feita com meios demasiado frágeis para conseguir atingir esse nível de acabamento.
Mas é por causa disso mesmo que esta obra é também o registo de uma evidência que os críticos fingem desconhecer e que os públicos na verdade desconhecem: muitas vezes, o amor que temos pelo cinema é mais eloquente do que os filmes que efectivamente fazemos. Tim Burton também andou por aí quando fez "Ed Wood". Para que serve a cultura se não passar de apanágio da inteligência estéril de uma elite?
Apenas criticaria Marques por não ter conseguido dominar todos os aspectos técnicos do seu filme, de modo a criar uma distanciação mais significativa perante a "naïveté" do objecto documentado. Contudo, presumo que a obra foi feita com meios demasiado frágeis para conseguir atingir esse nível de acabamento.
quinta-feira, março 11, 2010
Gostaria de ter escrito 5
"Um vício da sociedade faz da minha rectidão um vício."
Jean Cocteau (trad. Aníbal Fernandes)
Jean Cocteau (trad. Aníbal Fernandes)
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Por intuição
Após trinta e sete anos de experiências, leituras e conversas, tenho a convicção de que a valorização da castidade feminina e o preconceito contra a homossexualidade não têm nenhum fundamento ético, muito menos transcendente, mas poderão ser facilmente explicados com recurso à antropologia (que é uma área do saber sobre a qual muito pouco sei).
Se os conservadores gostam de humilhar os homossexuais com o argumento de que, na natureza, não há maricas (o que já está provado ser uma mentira), nunca os ouço falar do famigerado recato erótico das cadelas e das gatas (pois são famosas as Lassies de convento, os Clubes das Virgens Labradoras, ou as Kitties que durante o dia brincam com novelos e à noite cuidadosamente os refazem com o intuito de atrasar o cio dos pretendentes sobre os telhados).
Eu diria que a cultura de castidade feminina (que persiste no cristianismo, no islamismo, na mundividência cigana, etc.) serviu simplesmente para contornar o problema da probabilidade de gravidez que resulta do acto sexual. Alguns povos índios da Amazónia tinham acesso a plantas capazes de funcionarem como contraceptivos durante vários anos, plantas essas que eram fornecidas às raparigas adolescentes para elas poderem gozar de grande liberdade sexual até ao momento de assumirem uma certa conjugalidade (digo "uma certa" porque muitas tribos não tinham expectativas em relação a enlaces para a vida inteira). Estes povos capazes de uma efectiva alternativa de sociedade foram considerados bárbaros demoníacos pelos colonizadores europeus.
Se a evolução da ciência e do pensamento nos fizeram perceber que não há éticas absolutas (e acima de tudo que ninguém, mas mesmo ninguém, está na posse de um razão moral indiscutível), a generalização da contracepção deu a machadada final na utilidade de tal cultura. Curiosamente, a cultura mantém-se, muito mitigada, é certo, mas mantém-se, como um laivo de fanatismo.
De igual modo, o preconceito contra a homossexualidade dever-se-á à esterilidade reprodutiva dos actos sexuais que lhe estão associados, o que constituiria uma ameaça à preservação da espécie. Nem sequer vou falar da possibilidade contemporânea de reprodução artificial, mas apenas lembrar que somos um planeta humanamente sobrepovoado, que as reais ameaças que se colocam à espécie não resultam da baixa demografia (mas sim do pânico nuclear ou da irresponsabilidade ecológica), e que a crise de natalidade nos países desenvolvidos do Ocidente é o resultado de uma nova cultura, a cultura do conforto, que dita altas expectativas de padrão de vida a todos aqueles que tentam constituir família.
Não há nenhuma razão verdadeiramente válida que sustente a permanência da homofobia no mundo dito civilizado. Homofobia muita mitigada, claro, mas que se mantém, como outra forma de fanatismo.
Somos uma espécie moderna, mas cheia de tiques antigos.
Se os conservadores gostam de humilhar os homossexuais com o argumento de que, na natureza, não há maricas (o que já está provado ser uma mentira), nunca os ouço falar do famigerado recato erótico das cadelas e das gatas (pois são famosas as Lassies de convento, os Clubes das Virgens Labradoras, ou as Kitties que durante o dia brincam com novelos e à noite cuidadosamente os refazem com o intuito de atrasar o cio dos pretendentes sobre os telhados).
Eu diria que a cultura de castidade feminina (que persiste no cristianismo, no islamismo, na mundividência cigana, etc.) serviu simplesmente para contornar o problema da probabilidade de gravidez que resulta do acto sexual. Alguns povos índios da Amazónia tinham acesso a plantas capazes de funcionarem como contraceptivos durante vários anos, plantas essas que eram fornecidas às raparigas adolescentes para elas poderem gozar de grande liberdade sexual até ao momento de assumirem uma certa conjugalidade (digo "uma certa" porque muitas tribos não tinham expectativas em relação a enlaces para a vida inteira). Estes povos capazes de uma efectiva alternativa de sociedade foram considerados bárbaros demoníacos pelos colonizadores europeus.
Se a evolução da ciência e do pensamento nos fizeram perceber que não há éticas absolutas (e acima de tudo que ninguém, mas mesmo ninguém, está na posse de um razão moral indiscutível), a generalização da contracepção deu a machadada final na utilidade de tal cultura. Curiosamente, a cultura mantém-se, muito mitigada, é certo, mas mantém-se, como um laivo de fanatismo.
De igual modo, o preconceito contra a homossexualidade dever-se-á à esterilidade reprodutiva dos actos sexuais que lhe estão associados, o que constituiria uma ameaça à preservação da espécie. Nem sequer vou falar da possibilidade contemporânea de reprodução artificial, mas apenas lembrar que somos um planeta humanamente sobrepovoado, que as reais ameaças que se colocam à espécie não resultam da baixa demografia (mas sim do pânico nuclear ou da irresponsabilidade ecológica), e que a crise de natalidade nos países desenvolvidos do Ocidente é o resultado de uma nova cultura, a cultura do conforto, que dita altas expectativas de padrão de vida a todos aqueles que tentam constituir família.
Não há nenhuma razão verdadeiramente válida que sustente a permanência da homofobia no mundo dito civilizado. Homofobia muita mitigada, claro, mas que se mantém, como outra forma de fanatismo.
Somos uma espécie moderna, mas cheia de tiques antigos.
segunda-feira, março 08, 2010
Casting 13
Gosto de amadores, de naturais, daqueles que se expõem, daqueles que partilham uma verdade em carne viva, dos que vivem do seu carisma, de cabotinos, de mestres da dicção, de actores do Método, de actores de composição. Gosto de alguns indivíduos a despeito das (des)técnicas em que se protegeram. Mesmo assim, se é lamentável ter estima por Emma Thompson, muito pior é torcer por Meryl Streep.Streep tem o génio do drama. Se alguma inteligência revelou ao nível da gestão da carreira, ela revela-se na aproximação ao registo de comédia a partir de uma certa idade: as suas performances não serão aí tão consensuais, mas o seu rosto-de-tearjerker conseguiu assim conquistar uma fotogenia agri-doce que impediu uma excessiva cristalização da imagem da vedeta.
De qualquer modo, Meryl Streep está demasiado conotada com a corte de Hollywood (as constantes nomeações para os Óscares são muito mais uma sinalização dessa fidelidade do que um registo rigoroso do mérito). Praticamente não correu riscos ao longo de uma carreira assumida enquanto tal. Nem é preciso pensar em Isabelle Hupert como contraponto. Basta lembrar Ingrid Bergman, e a sua facada nas expectativas do entertainment às mãos do improvável Roberto Rossellini. A verdade é que me é difícil recordar grandes obras-primas beneficiadas com a sua presença: "Manhattan", certamente, definitivamente "The deer hunter" (na minha opinião, o melhor filme sobre o Vietname). Nunca vi o filme de Karel Reisz. Mas, por favor, não me chateiem com "Out of Africa".
Então, porquê a minha devoção à actriz?
Quase todos os grandes intérpretes atingem um ponto de esgotamento. Basta seguir as filmografias de Anthony Hopkins, Jeremy Irons ou Montgomery Clift, para nelas encontrar constantes manifestações de tédio, de frete, de compostura meramente profissional. Certos actores, como Sean Penn ou Elizabeth Taylor, estão tão possuídos por uma ambição sisuda que ela lhes tolhe a verdade dos gestos. E outros, como Jack Nicholson ou Bette Davis, resvalam muitas vezes para esse insuportável número de circo chamado preguiça.
Ora, nada disto vejo em Meryl Streep. O que eu sempre reencontro no ecrã que a recebe é uma espécie de prazer desmesurado no virtuosismo da composição, um prazer que me parece absolutamente intocado e que constituirá a principal razão da anormal longevidade do seu sucesso. Streep continua a adorar representar, e fá-lo com a mesma disponibilidade (e inteligência lúdica) da sua juventude. Em todos os filmes, em todas as cenas, em todas as personagens. Sem excepção. Nisso, não tem rival no contexto anglo-saxónico. E para nós, espectadores, é um prazer seguir o seu prazer.
domingo, março 07, 2010
Partilha 76
dignitas
sempre quis ter uma casa
na aldeia
p'ra poder comer castanhas a olhar a cor das árvores
a minha prof de ciências
tinha uma
mas queria ter casa em istambul
p'ra poder tomar chá a olhar o bósforo
diz-se
(zzzzzzz)
que daqui a cem anos ninguém morre
lamentável:
porque é que eu não nasci ontem?
(houston, houston
we have a problem)
sempre quis ter uma casa
na aldeia
p'ra poder comer castanhas a olhar a cor das árvores
a minha prof de ciências
tinha uma
mas queria ter casa em istambul
p'ra poder tomar chá a olhar o bósforo
diz-se
(zzzzzzz)
que daqui a cem anos ninguém morre
lamentável:
porque é que eu não nasci ontem?
(houston, houston
we have a problem)
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Obra pessoal,
personeto,
quarenta graus à sombra
quarta-feira, março 03, 2010
Tradução 21
Versão pessoal de um soneto de Shakespeare:
Se nada há de novo, mas aquilo que é
Já foi, quão iludidas estão nossas almas
Que, julgando inventar, sofrem em ritornelo
O parto vão de criança previamente nada?
Ah, pudesse um registo, um olhar de regresso
Ao longo de quinhentas viagens solares
Mostrar-me a tua imagem num livro senecto,
Pois primeiro foi feito o espírito em carácter,
P'ra que eu visse o que o mundo antigo conseguiu
Dizer deste composto assombro do teu estado;
Se eles tinham razão, se o tempo os corrigiu,
Ou se a revolução é um dado inalterado.
.....Ah, estou certo, o talento que houve previamente
.....A temas piores prestou o seu louvor ardente.
O original (junto com um comentário meu) pode ser lido aqui.
Dedico esta tradução à poeta Luiza Neto Jorge.
Se nada há de novo, mas aquilo que é
Já foi, quão iludidas estão nossas almas
Que, julgando inventar, sofrem em ritornelo
O parto vão de criança previamente nada?
Ah, pudesse um registo, um olhar de regresso
Ao longo de quinhentas viagens solares
Mostrar-me a tua imagem num livro senecto,
Pois primeiro foi feito o espírito em carácter,
P'ra que eu visse o que o mundo antigo conseguiu
Dizer deste composto assombro do teu estado;
Se eles tinham razão, se o tempo os corrigiu,
Ou se a revolução é um dado inalterado.
.....Ah, estou certo, o talento que houve previamente
.....A temas piores prestou o seu louvor ardente.
O original (junto com um comentário meu) pode ser lido aqui.
Dedico esta tradução à poeta Luiza Neto Jorge.
segunda-feira, março 01, 2010
Partilha 75
ensaio limícola
quando eu era viciado
em anti-heroína
manuscrevia poemas de muitíssimo mau gosto
um deles começava assim:
"itálicos meus (....:..)
má fortuna (....:..)
amor ardente (....:..)"
bi(bli)ografia:
luís
um rapaz intocado,
uma cereja que não comi em noventa e sete,
e um Banquete
de onde me escaparei
sem pagar o borrelho (che-ke che-ke che-ke)
quando eu era viciado
em anti-heroína
manuscrevia poemas de muitíssimo mau gosto
um deles começava assim:
"itálicos meus (....:..)
má fortuna (....:..)
amor ardente (....:..)"
bi(bli)ografia:
luís
um rapaz intocado,
uma cereja que não comi em noventa e sete,
e um Banquete
de onde me escaparei
sem pagar o borrelho (che-ke che-ke che-ke)
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quarenta graus à sombra
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
Partilha 74
pangeia (movie mistakes)
para bebermos como se não houvesse amanhã
é preciso que primeiro
qual sinfonia dourada
o continente crepuscule o seu conteúdo
(dlam dlam)
é preciso termos o fogo
debaixo da língua
às vezes
a gente junta-se
em torno de um bom macarrão
e navegamos no que em nossas almas vai
"vizinhorum
num sabebo porquorum viva sunt"
"id est milionem dollorem questiona, questionae"
para bebermos como se não houvesse amanhã
é preciso que primeiro
qual sinfonia dourada
o continente crepuscule o seu conteúdo
(dlam dlam)
é preciso termos o fogo
debaixo da língua
às vezes
a gente junta-se
em torno de um bom macarrão
e navegamos no que em nossas almas vai
"vizinhorum
num sabebo porquorum viva sunt"
"id est milionem dollorem questiona, questionae"
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quarenta graus à sombra
domingo, fevereiro 21, 2010
No cinema
Tom Ford diz que se pode começar a vida como eau de toilette e acabá-la como perfume. Esta vontade de ascensão-espiritual-via-sétima-arte só pode irritar quem vê o cinema como prolongamento natural da sua raiva, do seu erotismo, do seu pensamento. Ou seja, o senhor continua com mais vontade de desfilar na passarela que de levar a bom termo cinematográfico o simpático gesto com que posou para a foto ao lado.Dito isto, o seu filme ("A single man") é bastante interessante. Mas é o filme de um novato, no mau sentido do termo. O recurso constante à ampliação do ponto de vista subjectivo do personagem principal para lhe revelar o pensamento, manifesta uma certa falta de imaginação especificamente cinematográfica (o mesmo vale para os flash-backs, as sequências oníricas, os rallentis, a voz-off). A fragilidade é ainda mais gritante na incapacidade de atingir um tom verdadeiramente libertador nas sequências finais (mas isto talvez seja subjectivo). Terá ele visto "Bleu" de Kieslowski?
Fico mais motivado pelo descaramento de dar um papel ao modelo Jon Kortajarena só para lhe dizer que ele tem um rosto notável (aqui Tom Ford está despido). De qualquer modo, ele é ambicioso, tem um bom gosto razoável, uma apetência pelo rigor, e um talento nato para dirigir actores (Colin Firth muito bem, mas também Juliane Moore, toda entregue ao prazer de representar). Welcome.
No teatro
Recentemente fui três vezes ao teatro, o que corresponde a uma espécie de fartura anómala no seio da minha relação difícil com essa arte. Assisti a:1. "A letra M" - recriação, pelo Teatro da Rainha, do texto alemão medieval "O lavrador da Boémia" de Johannes von Saaz, em simbiose com o universo plástico do recentemente falecido João Vieira. Apreciei sobretudo a interpretação de António Durães (a personificação da Morte), muito decalcada de clichés do cinema mainstream, em contraste quase-ontológico com a rudeza e a ausência de sofisticação do impotente Paulo Calatré (um lavrador metafórico). Muito interessante também a coreografia do movimento do mesmo Durães, aproveitando o dramatismo latente do espaço cénico do Convento de São Bento da Vitória. Talvez tivesse preferido uma tradução mais arcaizante do texto, na medida em que não me parece que ele seja "actualizável" (ou seja, há objectos cujo anacronismo formal não impede a sua pertinência material). Continuo sem perceber os méritos do uso do audiovisual no teatro (isso sou eu que não gosto de obras de arte totais...). Mas agradeço a Fernando Mora Ramos o ter-nos levado, personagens, actores, público, à presença de Deus himself. Quando, no fim, um dos intérpretes revelou a circunstância biográfica que está na base do texto (a morte da mulher do seu autor), a verdade instalou-se em cena.
2. "A cidade" - Ao contrário do caso de von Saaz, o teatro de Aristófanes ganha imenso em ser "modernizado" (é menos nobre, está mais vocacionado para o presente específico no qual vai ser encenado). Aliás, percebe-se a intenção do Teatro da Cornucópia de querer recrutar, para efeitos de intervenção cívica semelhantes aos pretendidos pelo comediógrafo grego, os actores cómicos do momento. Poderiam ter sido os Gato Fedorento, mas, à excepção de Ricardo Araújo Pereira, eles não são propriamente "intérpretes". A escolha recaiu, e muito bem, nos Contemporâneos. Bruno Nogueira tem piada, de facto. Maria Rueff também. Mas eu destacaria o trabalho de Nuno Lopes, que se está a tornar um mega-actor, convincente em todos os registos, e de Luísa Cruz, que eu nunca tinha visto nestes preparos. Francamente, este humor não me convence muito (isso sou eu, que só gosto de cómicos que gozam sobretudo consigo mesmos...). A parte mais brilhante do espectáculo foi o fim, com o encenador a conseguir dominar na perfeição o dificílimo tom do texto (a evocação de uma utopia ornitológica), que noutras mãos teria certamente descambado em pleno desastre. Luís Miguel Cintra conhece a intuição, a irrisão, o humor e o prazer do poeta.
3. "Facas nas galinhas" (na foto) - Este texto de David Harrower é muito belo. A meu ver, aborda a questão do "génio" abafado pela falta de horizontes do mundo rural (tema que Agustina também tratou, e magistralmente, num dos seus "Contos impopulares"). Pareceu-me tudo muito bem feito pelo Teatro dos Aloés, e Carla Galvão é esplendorosa na sua rudeza. Senti falta do cinema, contudo.
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
Tradução 20
Poema "Annie" de Guillaume Apollinaire, traduzido por mim:
No litoral do Texas
Entre Mobile e Galveston fica
Um grande jardim bem cheio de rosas
Contém ainda uma moradia
Que é uma grande rosa
No jardim costuma dar passeios
Uma mulher completamente sozinha
E quando eu passo na estrada bordada de tílias
Nós olhamos um para o outro
Como a mulher é menonita
Suas roseiras e roupas não usam botão
Faltam dois no meu jaquetão
Eu e a dama seguimos quase igual doutrina
(O original pode ser lido aqui)
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