domingo, maio 09, 2010

Confissão política

"Imagine, tenho lido coisas duma aridez simpática sobre economia. Visto que o homem económico tem de substituir o homem bélico eu quero estar ao corrente dessa nova bélica dos povos. E tenho pensado que a economia é a intriga estruturada no infanticídio das grandes ideias. O homem económico não tem ideias, tem só actividades operantes no campo do medo, do descrédito, da vertigem."

Carta de Agustina Bessa-Luís a Eduardo Lourenço.



Não queria que, a propósito deste post, ficasse o meu esporádico leitor com a ideia de que acalento uma espécie de menosprezo por aquilo que se convencionou chamar progresso. O que radicalmente me desagrada em José Sócrates é a segurança falsa que ele próprio encena em torno do suposto sucesso da sua governação. Algo que, de resto, já vi e revi em inúmeros portugueses em lugares de patronato: um desinteresse intenso pela eficácia real de uma medida de administração inversamente proporcional à celebração hipersensível desse mesmo gesto.

As escolas não ficaram mais modernas por terem sido invadidas por computadores Magalhães. A economia não ficou mais ágil com o ruidoso Simplex (e quão amadores e pouco modernos são os empreendedores lusos!). A cultura não ganhou dinamismo com a passagem (de TGV, presumo) do Hermitage pela museologia nacional. Não duvido que pelo menos algumas decisões governativas tenham sido tomadas de boa fé, mas nada disso releva perante os resultados concretos a que elas (não) tenham levado. E se eu, francamente, não espero que os meus governantes sejam visionários de génio, exijo que tenham, pelo menos, inteligência emocional suficiente para irem ajustando o seu percurso de acordo com a verdade com que, a passo e passo, o real os vai contrariando.

Talvez o leitor não acredite, mas desconheço o que é a motivação do poder. Penso, aliás, que isso será uma espécie de patologia pessoal. No entanto, sei o que é sonhar com ser lido fora do âmbito do espaço-tempo que a minha vida me concederá (a despeito de todas as monstruosidades panteónicas), e por isso consigo perceber a vontade de deixar um rasto. Já percebo menos que isso tenha de ser feito através da construção civil que vai do Centro Cultural de Belém até ao Aeroporto de Alcochete. Pois se um político conseguir, de facto, beneficiar a realidade em um grama que seja, ele será tratado pela História com panos bem aquecidos, não haja disso dúvida. Caso contrário, não haverá Pirâmide que o salve de uma chacota que passará de geração em geração.

Ou seja, neste momento já não acredito que o desígnio de obras públicas pelo qual batalha o nosso Primeiro Ministro contenha em si um grau mínimo de visão que seja capaz de frutificar em eficácia e verdade a longo prazo. Por favor, dedique-se ao inglês técnico.

Infelizmente, também não conheço alternativas (o que é todo um retrato do meu estado psicológico). Os partidos de (extremada) esquerda constituem uma muito concreta traição ao marxismo: não fornecem um repensar radical, completo e contemporâneo de toda a situação do homem, que foi precisamente o que Marx fez. Esperneiam mais do que pensam. Por outro lado, a direita é geneticamente marialva. Basta ver o seu desprezo pela exploração de algo tão evidente como as energias renováveis (exploração essa que terá de ser devidamente calculada e faseada, claro, mas cujas promessas de benefício são colossais): homem que é homem defende o petróleo, pois não tem ilusões quanto à natureza humana. Não falo do partido de Paulo Portas, pois não tenho jeito para contar anedotas.

Por vezes, penso que, se temos de sobreviver num contexto de capitalismo, então seria melhor que ele fosse dirigido por quem o sabe fazer funcionar de facto (e não por frágeis e indecisos donzéis socialistas). Acontece que, mesmo sem perceber nada de economia, eu não acredito na bondade de um tal sistema económico. E presumo que assim continuarei até que a morte de mim faça uma Zita Seabra.

O capitalismo tem duas vantagens, tem, sim senhor. Por um lado, a liberdade de expressão e de movimento. É uma conquista notável, e de que eu não estou disposto a abdicar. Mas há algo mais importante. Uma vez ouvi, numa muito antiga reportagem televisiva, alguém dizer que a Europa estava podre (de crise, já na altura...), mas cheirava bem. Ora, o capitalismo é isso mesmo: uma podridão que cheira bem. As gentes estão mergulhadas em dificuldades, mas usam roupas sexy, guiam carros sexy, fazem viagens sexy, vêem filmes sexy. Nada do cinzentismo que existia para lá do muro de Berlim.

A liberdade profunda do indivíduo é, porém, praticamente nula. O que significa eu aceitar um crédito bancário durante quarenta anos para poder ser proprietário de uma habitação? Significa apenas que aceito abdicar da liberdade durante toda a minha vida saudável. É claro que, para muita gente, o bom cheiro dos acabamentos de luxo e dos chãozinhos em parquet compensarão essa transacção da alma, mas, como se dizia noutras alturas, não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo.

Ainda por cima, o mercado é uma forma de perversão do sentido daquilo que sempre julguei ser a economia. Os recurso são explorados até à exaustão, os produtos têm menor valor intrínseco do que valor comercial, o crescimento é tão fatal que se torna descontrolado. Não podemos voltar às origens (como fazem as monjas que, nas suas clausuras, depuram a economia), mas não devemos perder de vista o seu sentido. Quantas pessoas poderão hoje afirmar que sabem, no mais fundo de si mesmas e sem qualquer sombra de dúvida, a razão pela qual trabalham? A gestão da escassez dos recursos e a superação das contingências da sobrevivência: não era isso a economia? Mas quem tem noção disso quando esbanja os últimos trocos que tem no milésimo pastel que contribuirá para o absurdo da sua obesidade, ou quando vê aqueles personagens de filme italiano em rituais de histeria nos mercados bolsistas?

Podem sempre dizer-me: se estás a mandar esses bitaites, por que não metes as mãos à obra e fazes alguma coisa por Ti mesmo? Ao contrário da paciente e lúcida Agustina, eu seria aniquilado se me predispusesse a levar estas coisas a sério. Não sou esse tipo de homem. Definitivamente. Talvez quando a tusa me abandonar, eu me dedique à aridez simpática da economia.

domingo, maio 02, 2010

Tenho um novo site...

... intitulado:

Orfeu de corpo inteiro

É uma plataforma de publicação prévia e experimental da minha produção ao nível do ensaio. Já estão alguns textos online, em breve surgirão mais. Ao longo do tempo, surgirão novos ensaios, e serão rescritos e acrescentados os que já se encontram esboçados.

Obrigado pela atenção.

sábado, maio 01, 2010

Partilha 82

ich bin eine frau...


... em forma de bola de berlim
sou o meu pigmalião
meu próprio cirurgião por tentativa e tradução
objectivo:
ser uma nuvem emigrante
que se vem
em furacão

eu podia dançar toda a noite
eu podia dançar toda a noite
e ainda pedir mais ao meu leitor
afinal sou o creme do creme
un petit d'un petit de gema à mostra
caído
ao pé do muro do teu estômago

para a audrey e a katharine



Nota 1: "un petit d'un petit" é uma famosa tradução do inglês para o francês feita por homofonia; o original é "humpty dumpty".

Nota 2: A canção "I could have danced all night" é a que mais frequentemente canto no duche.

Alívio egoísta

Um dia destes, alguém me disse que o Homem tinha ficado tão inteligente que estava a destruir o Universo.

Uma formulação leviana. Não só o uso da palavra "inteligente" foi nela indevido, como não é o Universo que está em causa no último capítulo da grandeza humana, mas pura e simplesmente um pequeno planeta (seja qual for o rigor deste medo presente, ele ficará como uma das marcas mais tragicamente cómicas da nossa época).

A verdade é que fiquei aliviado. Foder a Terra, tudo bem, mas para o Universo ainda não temos tesão. Experimentem lá alterar o clima do Sol...

É claro que, há alguns séculos atrás, a perspectiva de uma perversão fatal do equilíbrio ecológico de um planeta inteiro por acção humana seria completamente inverosímil. E, por isso, não sei mais alguns séculos não nos darão os Magalhães suficientes para darmos cabo de toda a obra pública do Big Demiurgo. MAS EU JÁ NÃO ESTAREI POR CÁ!!!!!

Por uma vez...

...concordo:


"O que move Sócrates não é mais do que a imagem, de "modernizador" e "duro", que, no fundo de si próprio, ele julga ser. Gostava de nos legar um Portugal irreconhecível e maravilhoso: com computadores na escola, com o MIT, com o Simplex triunfante, com o novo aeroporto, com o TGV. Um Portugal como essa América que ele viu na Beira em séries de televisão para provincianos."

Vasco Pulido Valente (no PÚBLICO de hoje)

quarta-feira, abril 28, 2010

Capítulo 91

No capítulo "O Pequod encontra o Botão de Rosa" do romance "Moby Dick", Melville descreve, com regalada ironia, a inexperiência do capitão do navio com nome florido para os assuntos da captura da baleia. O Botão de Rosa, barco francês, leva dois troféus de pesca atracados ao seu casco em tão mau estado fisiológico que já não são capazes de fornecer uma quantidade de óleo minimamente lucrativa. Ainda por cima, uma das baleias mortas guarda no seu corpo a marca de um prévio ataque (feito pelos marinheiros do Pequod), e por isso o navio de inexperientes deveria ter-se abstido de usurpar um cadáver que, pelas leis não escritas da vida no mar, não lhe pertencia.

Stubb, figura de destaque da embarcação onde navega o protagonista, sobe a bordo do Botão de Rosa, e encontra um marinheiro que sabe falar inglês. Como Stubb pretende vingar-se da usurpação gaulesa (roubando o âmbar negro que, esse sim, existe em abundância num dos cadáveres), e o seu interlocutor se quer livrar das baleias fétidas e inúteis que o seu navio arrasta, resolvem pregar uma partida ao capitão ignorante. Vão falar com ele, e enquanto Stubb disparata na língua de Shakespeare, o tradutor transmite uma mensagem que não tem nada a ver com o original. Pretendem assim levar a água ao moinho de ambos.

Transcrevo em seguida todo o passo, na versão de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves, na medida em que ele me parece uma espécie de alegoria engenhosa do conceito de subtexto. Tudo o que Stubb diz em inglês funciona como subtexto daquilo que, posteriormente (e é nesta inversão que a alegoria se forma), o seu tradutor comunica:

"- Que lhe vamos dizer para principiar? - perguntou ele.
- Bem - respondeu Stubb, olhando a jaqueta de veludo, o relógio e os berloques que representavam um selo e um sinete - podes começar por lhe dizer que é demasiado infantil para mim, se bem que não esteja a fazer de juiz.
- Diz ele,
monsieur - traduziu o homem de Guernsey, em francês, virando-se para o seu capitão -, que ainda ontem o seu navio cruzou com um barco, cujos capitão e imediato, bem como seis marinheiros, tinham morrido com uma febre causada por uma baleia apodrecida que arrastavam ao lado.
Ouvindo isto o capitão estremeceu, e exprimiu ansiosamente o desejo de saber mais sobre o caso.

- E agora? - continuou o homem de Guernsey dirigindo-se a Stubb.
- Pois bem, já que ele acredita tão facilmente, diz-lhe agora que depois de ter olhado cuidadosamente para ele, estou absolutamente certo de que está tão qualificado para comandar o baleeiro como um macaco de Santiago. Diz-lhe que de facto não passa de um bugio.

- Ele jura e declara,
monsieur, que a outra baleia, a seca, é ainda mais perigosa do que a apodrecida; em resumo, monsieur, ele conjura-nos, se damos valor à vida, a desembaraçarmo-nos destes peixes.
Instantaneamente o capitão correu para a proa, e com voz estrepitosa ordenou à tripulação que não içasse as talhas de corte e que largasse os cabos e as correntes que prendiam as baleias ao navio.

- E agora mais? - perguntou o homem de Guernsey quando o capitão voltou para junto deles.
- Ora, deixa-me pensar; sim, vais-lhe dizer agora... agora... que foi enganado e (aparte para ele próprio) talvez mais alguém com ele.

- Ele diz, monsieur, que está muito contente por nos ter podido prestar este serviço."

Festa na cidade

Este ano decidi visitar, pela primeira vez, os Dias da Música. Claro que apreciei imenso o essencial do evento, o seu carácter festivo, a qualidade dos concertos (cinco récitas a que assisti, cinco contentamentos plenos), a enchente de público, até a organização me pareceu boa.

Fiquei, contudo, a pensar que quase nunca saí de um concerto de música dita erudita com a sensação de murro no estômago com que abandonei salas de cinema, palcos, exposições ou páginas de livros. É claro que a música, por ser não figurativa, não terá a mesma vocação directamente interventiva de outras manifestações de criatividade, mas não deixa de ser estranho que os recitais se façam sempre para dar o prazer de um bom serão ao público. Eu também gosto de filmes que nos reconciliam com a vida, mas se os filmes fossem todos assim, eu começava a desconfiar do cinema. E, de qualquer modo, as obras de Beethoven, Alban Berg ou Luigi Nono serão tão irreverentes quanto os melhores passos de Lautréamont ou Samuel Beckett.

Embora eu já esteja cheio de ouvir falar em conceitos, a verdade é que os músicos ganhariam em elaborar os seus recitais com base em conceitos mais complexos, mais desafiadores, menos carentes de aplauso oco, com menos vestido de diva e mais angústia partilhada sem paliativos, com mais desejo do que satisfação. Quem se importa com o lugar certo para bater as palmas? Queremos é ser toldados pelo groove da fúria.

quarta-feira, abril 21, 2010

"Ruínas" - imagem

O ACTUAL 26

"Ruínas" - Manuel Mozos

"Ruínas" começa com a imagem da implosão de um edifício. De facto, o discurso do progresso (representado pelos moinhos de energia eólica no fim do filme) gostaria de ter o poder de apagar por completo o rasto desse empecilho chamado passado. No entanto, assim como continuam a aparecer velas e flores na estátua de um santo de jazigo, muito depois da pessoa que a encomendou ter morrido sem deixar descendentes, as ruínas estão aí para contar a sua história. Não sei se isso acontece noutros países, mas Portugal é um país de ruínas.

E como filmar ruínas? Através de um processo de adequação quase magnética entre corpos, cenário e ficção, a vida tende para a singularidade. Cada narrativa é de tal modo pesada para aqueles que a vivem, que tende a ser sentida como única. A relevância adquire toda a desproporção que o afecto lhe permite. Ora, Manuel Mozos decidiu prescindir da encenação de corpos, desvalorizar a correcta e individual adequação das ficções que evoca aos cenários que lhes atribui (não sabemos se os textos declamados têm relações de facto com aqueles lugares), e filmou os cenários como manifestações imediatas da passagem de um tempo apodrecido.

Pela ordenação que a montagem traz a esse encadeado documental, surgem três consequências:

1. As ficções sofrem um processo de homogeneização. Como os seus protagonistas estão, em princípio, mortos, ou pelo menos afastados dos cenários filmados, as ficções (que desvendam anedotas individuais, ideologias de moralidade, política e economia, situações de ócio e entretenimento, etc.) ficam todas reduzidas a um mesmo valor. O valor da ruína.

2. O filme deixa então de versar sobre este caso ou aquele (não é referido o nome próprio de ninguém), e adquire um carácter discursivo abstracto.

3. Em consequência, a obra constrói a imagem colectiva e fóssil de um Portugal antigo (aquele que sobreviveu até ao fim do Estado Novo), um Portugal de sanatórios, padres poderosos, teatros de variedades, missivas educadas e contos e ditos.

Sobreviverá a identidade do país à implosão da aldeia global? E poderemos estar orgulhos dessa identidade que se assemelhava, em todo o seu pó e bolor, a uma ruína avant la lettre?


P.S. - Gostaria de sublinhar o gosto que me deu ouvir toda uma estilística da nossa língua que está completamente perdida. Curiosamente, não tenho a certeza de que a memória desse português seja pessoal ou uma reconstrução fornecida pelo audiovisual.

Confissão 28

Se alguma coisa aprendi com as ousadias e os erros do surrealismo, foi a ter respeito pelo inconsciente, seja lá o que isso for. Não quer dizer que pratique a escrita automática, da qual desconfio. Mas acredito realmente que a coerência mais férrea e a originalidade mais insuspeita de um texto literário são fornecidas por aquilo que nele não conseguimos controlar.

Daí que não estabeleça pontes entre a minha actividade de escrita poética e o meu esforço de reflexão sobre a poesia e a criação em geral (que é um esforço de índole assumidamente lógica). Há muitas dimensões da minha poesia sobre as quais nem discorro. E raramente tento aplicar um conceito teórico num poema.

Ponho-me, portanto, nas mãos da minha saúde mental. Espero não sofrer de múltiplas personalidades, e que as diferentes facetas da minha vida intelectual se relacionem umas com as outras com um mínimo de coerência aceitável.

domingo, abril 18, 2010

Partilha 81

as sete ex-maravilhas

o farol de alexandria
(o sol)
e o olhar que o quer olhar sem escolhos infinitivos
e quatro botões
que aos quatro ventos abrem casas
ex-sedentárias:
norte sul sim não

talvez não valha a pena dizer o mundo
em poema
se p'ra quase ninguém
o mundo soa enxuto
(Façamos
uma eternidade de silêncio
pelas vítimas deste minuto?)

Gostaria de ter escrito 7

"For unless you own the whale, you are but a provincial and sentimentalist in Truth."

"Champollion deciphered the wrinkled granite hieroglyphics. But there is no Champollion to decipher the Egypt of every man's and every being's face."

Herman Melville

Nota "Les herbes folles"

Não faço parte do grupo de cinéfilos que lamentam o facto de Alain Resnais ter decidido, a partir de um certo momento na sua obra, construir filmes a partir de textos assumidamente menores. É claro que é estranho ver o autor de "Hiroshima mon amour" ir perdendo, ano após ano, a ágil gravidade que o animou na juventude. Mas cada um envelhece como pode (e não como os outros querem) e, de qualquer modo, o Resnais superficial já nos deu obras belíssimas como "Smoking / No smoking" ou a mais recente "Coeurs".

O visionamento de "Les herbes folles", no entanto, deixou-me insatisfeito. É claro que o filme é rigorosíssimo na transposição do texto para o cinema: Resnais é um leitor privilegiado. Ora, a folie que ele pretendia partilhar pareceu-me precisamente congelada na inteligência formal, como se o realizador estivesse tão consciente do que estava a fazer que tenha condenado o seu ambicionado vulcão de ouropel a uma extinção a priori. Eu, que adoro o trabalho sumptuoso da forma, cheguei a desejar que aqueles actores, de talento inesgotável, andassem por ali sem outra mise en scène a não ser a sua própria desorientação. No rescaldo, pareceu-me ter visto um pseudo-Lynch erudito. Mais do que nunca Resnais me pareceu distinto de Godard, que é incapaz de ousar uma forma sem com ela ousar o conteúdo e a emoção do seu espectador.

Todavia, os melhores filmes da história do cinema são aqueles que temos de aprender a apreciá-los. Espero, por isso, estar enganado, e que alguém me ensine a ver "Les herbes folles".

segunda-feira, abril 12, 2010

Momento conservador

No sábado passado, num dos mil suplementos que o jornal Expresso retira às pobres arvorezinhas, foi publicada uma not(íci)a referindo alguns exemplos de previsões famosas que saíram furadas. Furadas porquê? Sou suficientemente teimoso para fazer tudo depender do ponto de vista.


Margaret Thatcher: "Demorarão anos - não será no meu tempo - até que uma mulher seja primeiro-ministro" (1974) - Certo: não foi no seu tempo específico enquanto líder política que uma mulher cumpriu os requisitos de um exercício de poder verdadeiramente democrático.

Rutherford Hayes: "O telefone é uma boa invenção, mas quem o quererá utilizar?" (1876) - Certo: o uso do telefone corresponde menos a um acto de vontade verdadeiramente livre do que a uma compulsão doentia a que ninguém, no seu perfeito juízo ideal, sucumbiria.

H. M. Warner: "Quem é que raio quer ouvir os actores a falar?" (1927) - Certo: as pessoas vão ao cinema para verem os actores despirem-se, fazerem gracinhas ou rebolarem no chão após explosões.

Funcionário do Michigan Savings Bank: "O cavalo está cá para ficar, mas o automóvel é apenas uma novidade, uma moda" (1903) - Certo: em breve, haverá teletransporte e facilidades quejandas; o cavalo permanecerá insubstituível; é até possível que passemos a mencionar a potência dos motores dos teletransportadores em termos dos cavalos que eles possuem.

Ken Olson: "Não há razão para alguém querer ter um computador em casa" (1981) - Certo: um, não; vários, sim!

Cruzes canhoto

Há uma relação (não pretendida) entre a letra convencionada para representar a incógnita, a letra X, e a cruz que, a partir da Paixão de Cristo, se tornou um dos símbolos mais omnipresentes (e mais omnideprimentes) da cultura ocidental.

O X é a cruz transportada ao longo da Paixão, a cruz de um sofrimento terreno tal que só pode descambar em dúvida. A mudança de posição do X equivale à concretização da morte-ressurreição, de peso oblíquo torna-se símbolo recto e erecto, a incógnita cedendo perante a imposição espectacular da fé.

Se ainda não há um quadro represento o Cristo já morto numa cruz caída em X, então a história da pintura não pode estar terminada.

sábado, abril 10, 2010

Partilha 80

verde pino (a lo profano e a lo divino)


sou um tipo tão insignificante
que ainda acabo a fundar uma religião
espero (pelo menos)
que os meus sacerdotes
digam missas ao som dos vampire weekend
fodam gente que seja do seu tamanho
e estejam livres do sotaque lá de chima

hei-de arrancá-lo de dentro de mim
nem que para tal
recorra ao exorcismo
já que tenho a cabeça a andar à roda
ao menos que o escarre
em efeito
ESPECIAL

Partilha 79

auto-sombra


sorri sempre
que
te puxarem pelas extremidades dos teus lábios
até sangrares na horizontal
é assim que muita gente
sobe
na vida

por vezes
fico desesperado
por o mundo não ser como eu queria
mas se o mundo fosse como eu queria
como os outros queriam ele não seria
enfim
o mundo vai acabar mais dia menos dia :)

segunda-feira, abril 05, 2010

Galeria 49



Herman Melville

Usarei como epígrafe...

dos meus personetos:


"He would say the most terrific things to his crew, in a tone so strangely compounded of fun and fury, and the fury seemed so calculated merely as a spice to the fun, that no oarsman could hear such queer invocations without pulling for dear life, and yet pulling for the mere joke of the thing."

Herman Melville

domingo, abril 04, 2010

Os contemporâneos

Em épocas de ocultação, tem de haver quem faça o trabalho de denúncia, de rasgar os véus. No entanto, quando a exposição se tornou uma banalidade, quando tudo é mostrado até à náusea e a mediação intelectual tende para a pornografia (mesmo se não pretendida), então é preciso que haja gente que nos lembre que a arte não se confunde com a vida.

Dito de outro modo, o artista tem de ser uma arma de precisão na escolha daquilo que vai revelar. Tanto Bertolt Brecht quanto Josef von Sternberg detinham a virtude desta ética.

sábado, abril 03, 2010

Partilha 78

catálogo dos pássaros - voos
"como posso saber viver
se não sei voar?"

pedro ludgero


oriolus oriolus
voamos em bandos de trinta dinheiros: chamamos um figo ao tema do Céu

charadrius alexandrinus
não fosse o pássaro a pôr as coisas nos seus lugares, e tomaríamos o Céu por um close up

carduelis carduelis
já não há Céu, apenas imensos blues onde tentamos cair nos buracos de deus

monticola solitarius

quero ir para a cama com uma paisagem para fazer do Céu um bom lençol

delichon urbicum
deixo nuvens a marcarem o regresso, mas joão e maria fazem danças da chuva

estrilda astrild (aka banksy)
apenas isto o dia do juízo final: todas as linhas que os pássaros voaram ficarão visíveis

acrocephalus scirpaceus
voarei, revoarei, devoarei até que os homens inventem o nó cabeça-de-rouxinol


(Imagem retirada deste blogue)

Tradução 22

Poema "Os cisnes selvagens de Coole" de William Butler Yeats, traduzido por mim:


"As árvores estão em beleza de outono,
No bosque os trilhos estão secos,
Sob o crepúsculo de Outubro as águas
Reflectem céus quietos;
No lago que por pouco suas margens transcorre
Estão cisnes, cinquenta e nove.

Já o décimo nono outono sobre mim caiu
Desde essa primeira contagem;
Vi-os, antes de ter chegado ao fim,
De súbito elevarem-se
'spalhando rotação em argolas quebradas
Nas suas clamorosas asas.

Tais brilhantes criaturas contemplei,
E agora o coração tem mágoa.
Tudo mudou desde que, após eu ter ouvido,
No ocaso antigo desta margem,
Sobre a cabeça o toque-de-sino do voar,
Optei por um mais leve caminhar.

Não cansados ainda, amante junto a amante,
Eles remam nas frias
E gregárias correntes ou escalam o ar;
São corações sem velharia;
Paixão, conquista, errância a bel-prazer,
Ao seu serviço ainda hão-de ter.

Mas agora el's flutuam nas águas paradas,
Tão belos e enigmáticos;
Entre que juncos construirão,
Junto a que orla de lago ou charco
Mostrarão seu encanto, quando eu despertar um dia
E perceber que eles partiram?"


(O texto original pode ser lido aqui)

sexta-feira, abril 02, 2010

"Perceval le Gallois" - imagem

O INACTUAL 45

"Perceval le Gallois" - Eric Rohmer (1978)


Numa das cenas mais inesperadas deste filme não consensual de Rohmer, o jovem Perceval afasta agressivamente dois cavaleiros que o tentam demover do estado de concentração obsessiva nos seus próprios pensamentos. A sequência faz a luz necessária sobre a relação do cineasta da nouvelle vague francesa com o texto medieval.

Pois é lógico que o assunto imediato do romance de Chrétien de Troyes é a demanda da espiritualidade cristã sob a égide da mitologia arturiana. Mas é preciso notar que a encenação da Paixão de Cristo que a obra nos fornece perto do seu término se faz com recurso a uma narração na qual as personagens bíblicas não participam verbalmente (ou seja, vemos os seus corpos em acção, mas as palavras, mesmo as que pertencem aos diálogos, estão todas a cargo do grupo de narradores-cantores). Ao contrário, durante a história principal de "Perceval le Gallois", as personagens verbalizam simultaneamente os seus diálogos (o que é a norma em todos os filmes) e a parte textual referente à narração (por exemplo, referem-se a si mesmas com expressões do género: "e ele disse o seguinte").

A moral cristã é um modelo de comportamento a que Rohmer não será nada alheio ("Die Marquise von O" ainda vai mais longe na exploração dessa inquietação). Todavia, a sua distância enquanto encenador fá-lo ser mais favorável à observação da dificuldade que as personagens têm na gestão dessa moral do que a uma possível crítica (mesmo que positiva) da substância desta. Assim sendo, o facto das personagens se narrarem a si mesmas (e de não haver diferença no tratamento emocional dos dois níveis heterogéneos de texto que elas assumem) é o aspecto mais revelador da obra, e a chave que a liga aos filmes "sobre o presente" de Rohmer. As personagens raciocinam e verbalizam uma tensão moral, como se todas fossem filósofas do seu próprio devir.

Perceval é jovem, mas as suas asneiras constantes decorrem precisamente de ele tentar aplicar a ética que os adultos lhe ensinaram... A mãe diz-lhe para beijar donzelas e não exigir mais nada além disso. E o rapaz beija de facto uma rapariga: só que esta já tinha companheiro e para além disso não lhe deu o consentimento necessário ao seu gesto. Mais tarde, tenta cumprir o preceito de uma figura paterna que encontra durante o seu percurso (mantém o controlo da curiosidade no castelo do Rei Pescador), e cria a sua própria travessia no deserto (se tivesse feito as perguntas certas, teria ido longe na conquista da espiritualidade). Pois mais importante do que seguir um catecismo, é avaliar a sua substância de acordo com cada proposta de acção que a vida traz.

Esta obliquidade da personagem (a personagem é acima de tudo o diálogo consigo mesma) não diminui o impacto dos filmes rohmerianos (até porque a sensualidade é neles a principal matéria). Aliás, nos filmes "sobre o presente", Rohmer consegue fazer com que os dilemas na aparência apenas sentimentais das personagens obriguem a própria época a narrar-se a si mesma, com esse mesmo grau de obliquidade (o realizador não precisa de ser sempre explícito como em "Ma nuit chez Maud"). Se os castelos de "Perceval le Gallois" são de papelão, essa atitude perante o contexto prolonga-se por toda a filmografia do francês. Como se as cidades, as casas, as ruas, falassem (ou até cantassem) aquilo que, culturalmente, está nelas em jogo.

O filme termina abruptamente porque, se não se pode saber tudo sobre um tempo, um assunto, ou uma narrativa, então mais vale não fingir essa omnisciência (de qualquer modo, o cinema de respeito pelo texto que à época se praticava levava os cineastas a gestos de profunda ousadia na relação com a literatura - a obra de Troyes foi deixada inacabada). E se há um estranho personagem secundário, um cavaleiro adulto, que a uma dada altura colhe protagonismo, é para demonstrar como a sua suposta maturidade não o livra de ser menos casmurro. A sua fidelidade aos pensamentos põe-no mesmo em risco de vida (e maior violência que esse risco não existe no cinema de Rohmer).

A verdade é que a Béatrice Romand de "Conte d'automne" prolonga o Melvil Poupad de "Conte d'été". Ao contrário do que todos nós apressadamente supomos, o autor de "Le genou de Claire" vem-nos dizer que a moral é o principal indício de permanência da juventude.

quinta-feira, abril 01, 2010

Estourar a caixa antiga



27 de Março, às 19h00, em Espinho
(imagens de Pedro Jordão)

Partilha 77

floema


eu
que podia escrever um mensageiro das estrelas
por cada ser que desejei sem atingir
hei-de um dia
mudar-me para sempre em membracídeo
(e para sempre ser então
the next big thing)

todo aquele que tenta agarrar a existência
com pauzinhos
sabe quão difícil é
manter
a fleuma da peónia
sou um poeta japonês
na selva amazónia

segunda-feira, março 29, 2010

A partir de hoje, tenho um directório no site TriploV. O link está na barra lateral do blogue.

sábado, março 27, 2010

The boring parts

Imagino que o capítulo 32 do romance "Moby Dick" (intitulado "Cetology") seja desvalorizado tanto pelos leitores ávidos de acção como por aqueles que, com conhecimento de causa, o relegam para o campo das curiosidades desactualizadas. Trata-se de um esboço de cetografia (o estudo dos grandes mamíferos marinhos com forma de peixe), curto demais para ter validade científica, longo demais para não interromper o fôlego narrativo, mas com pretensões de ser a versão mais avançada desse ramo do saber.

Melville comete vários erros, a começar pela defesa de que a baleia é um peixe, quando toda a ciência actual (e presumo que mesmo a ciência do seu tempo) a classifica como um mamífero. Todavia, o capítulo parece-me francamente revelador das intenções mais ou menos conscientes do seu autor. E para além disso, devo dizer que adoro "ciências de brincar", e portanto tive um enorme prazer em ler este trecho borgesiano mais malgré lui que avant la lettre.

O romancista diz que a baleia é um peixe porque, ao contrário do homem de ciência (que, para fundamentar a sua classificação, se socorre de critérios biológicos, como o sangue quente), se baseia na relação do animal com o seu meio. A baleia é um peixe porque vive onde todos os peixes vivem. Já a lontra é um anfíbio porque tanto habita o mar como a terra. Esta diferença de critério será ingénua de um ponto de vista epistemológico, mas é francamente eloquente quanto à deformação intelectual que acompanha o romancista de recorte realista. Apesar da dimensão alegórica da sua escrita, Melville entende a baleia como sendo uma personagem que tem de ser descrita e narrada na interacção verosímil com o meio onde está inserida.

No entanto, esta não é a consequência mais interessante da deriva pseudo-científica do autor. Melville classifica os diversos tipos de baleias que conhece com os seguintes nomes: a baleia in-fólio, a baleia in-octavo, a baleia in-doze. Uma das dimensões mais fascinantes deste épico célebre resulta, precisamente, do facto do escritor desenvolver uma poética que faz equivaler oceano e biblioteca. Não é só a Bíblia que é aplicada ao mar (como diz, e muito bem, o cantautor Vinicio Capossela). É todo um universo de aventura dura e viril que muscula a dinâmica da palavra escrita, e uma vocação metafísica que se torna inseparável da experiência vital do mar. Muitos comentadores terão notado esta ousadia. Eu só pretendo insinuar que a nomenclatura pseudo-científica que Melville propõe no capítulo em questão já fornece, em si mesma, esta chave de leitura.

Por fim, nada será mais revelador que o facto de essa classificação dos cetáceos em três grupos usar como critério principal a dimensão que eles possuem. As baleias in-fólio são as maiores, as baleias in-doze possuem o tamanho mais modesto. O cachalote será, aliás, a maior das baleias maiores. Ou antes, será o maior animal conhecido no planeta. Este gosto pela desmesura ao nível da dimensão, associado à intencionalidade metafísica do romance, parece-me ser uma aplicação prática (e francamente notável) da teoria kantiana do sublime (teoria que, de resto, não subscrevo pessoalmente). Seja do ponto de vista matemático (da extensão que ultrapassa a medida humana de compreensão), seja do ponto de vista dinâmico (da força que excede a medida humana de sobrevivência), é evidente que a experiência sem paralelo (inclassificável) da baleia só poderá colocar o marinheiro perante aquelas Ideias que a Razão reclama sem conseguir esclarecer.

quarta-feira, março 17, 2010

História de um prurido

Nunca me pareceu que a comédia romântica fosse um género tão relevante e frutuoso quanto o western (com o seu impulso de inventar uma mitologia americana, apesar da encenação estereotipada do índio só poder merecer a nossa maior condenação), o filme de guerra (que se dedica a um tema tão pungente que acaba por ter de desaguar em ambição), o filme negro (influenciado por uma literatura musculada e trabalhado por realizadores de muito talento), o filme de suspense (que Alfred Hitchcock assumiu, revolucionou e aperfeiçoou ao ponto de ainda hoje ser uma sombra que ridiculariza os seus muitos imitadores), a ficção científica (cuja ambição é metafísica, para o melhor e para o pior), a comédia burlesca (o mais belo dos géneros, e que, por isso mesmo, acabou), ou até a comédia musical (que precipitou a maturidade do uso da cor).

Basicamente, a comédia romântica faz a apologia do casamento, e a sua desenvoltura no passado será certamente explicada pelo facto desse contrato ter funcionado como missão, carreira e destino da mulher (seu público-alvo) até aos anos sessenta. A partir do momento em que os dados da vida sentimental adquiriram outra inteligência, a comédia romântica tornou-se um mero exercício de indigência delicodoce. Poucos exemplos o cinema moderno conseguiu oferecer que se comparem com "His girl friday" de Howard Hawks, "Heaven can wait" de Ernst Lubitsch ou "It should happen to you" de George Cukor.

"Up in the air" ("Nas nuvens") faz o check-in de todas as regras, antiquíssimas, do género. Até o facto do protagonista ser George Clooney, de quem a imprensa cor-de-rosa vende a imagem de solteirão inveterado, é um jogo que os realizadores mais sagazes sempre souberam jogar (Cukor brincou com a arrogância de Katharine Hepburn em "The Philadelphia Story", parte da filmografia de Marylin adquire sentido a partir dessa estratégia, etc.). O que dizer? Tudo bem feitinho, argumento composto com todas as regras da escrita criativa, realização sem grande força nem imaginação, mas também sem erros. Como é que Jason Reitman não tentou sequer encontrar uma maneira de filmar que fosse "up in the air"?

O prurido que intitula este post deve-se ao facto de esta comédia romântica, que, mais do que fazer a apologia do casamento, é uma celebração dos valores familiares, usar como pano de fundo para o seu argumento a vaga imparável de despedimentos que a recente crise económica desencadeou. O sofrimento social é só mesmo isso: um pano de fundo para um devaneio de sentimentalismo. Nada é dito de substancial sobre o drama do desemprego, sobre as suas consequências sociais e psicológicas ou sobre a maneira específica como ele se está a revelar neste momento da História. Enquanto via o filme, eu perguntava-me se, de um ponto de vista ético, ou mesmo político, isto é aceitável...

Mas depois lembrei-me de Hitchcock, e das suas histórias de amor (pois era isso essencialmente que ele filmava) desenvolvidas no contexto da Segunda Guerra Mundial. É claro que aí há alguma diferença: o realizador britânico nunca escondeu a vontade de participar no esforço de propaganda bélica através do cinema (e, por uma vez, até estamos todos de acordo com esse esforço, da direita à esquerda...). Ou seja, ele estava afinal a pronunciar-se sobre o seu pano de fundo. De qualquer modo, a guerra dos seus filmes é um papelão superficial que não sei se será ainda hoje aceitável perante tudo o que sabemos sobre o conflito, desde Auschwitz até Hiroxima.

Não sei se devo tolerar a irresponsabilidade de "Up in the air" e esquecê-lo com a bonomia que se empresta às coisas irrelevantes, ou se preciso de moderar a minha admiração por Hitchcock. Ou então, se a diferença entre os dois casos é, de facto, significativa. Gostava de saber a opinião de outros cinéfilos.

Gostaria de ter escrito 6

"Glimpses do ye seem to see of that mortally intolerable truth; that all deep, earnest thinking is but the intrepid effort of the soul to keep the open independence of her sea; while the wildest winds of heaven and earth conspire to cast her on the treacherous, slavish shore?"


Herman Melville

domingo, março 14, 2010

Anabaptismo

O inominável é o nome dado àquilo que ainda está inominado.

Nota "Mulheres traídas"

O amor será talvez o tema dos piores filmes. E dos melhores, também.

O documentário "Mulheres traídas [making of]" de Miguel Marques coloca a sua pedra-de-toque no lugar deste paradoxo. Ele é o registo da rodagem de um filme de ficção realizado por Maria José Silva, magnífica personagem da cidade do Porto, comerciante amadoramente dedicada ao cinema, à escrita e à música.

Por um lado, o documentário é um retrato indirecto do sofrimento sentimental da Mulher no passado recente (aquilo que Maria José Silva tenta exprimir através do melodrama). Nesse sentido, Marques não se limita a fazer o making of de um filme, mas consegue capturar o making up que esse filme constitui sobre uma verdade vital.

Mas é por causa disso mesmo que esta obra é também o registo de uma evidência que os críticos fingem desconhecer e que os públicos na verdade desconhecem: muitas vezes, o amor que temos pelo cinema é mais eloquente do que os filmes que efectivamente fazemos. Tim Burton também andou por aí quando fez "Ed Wood". Para que serve a cultura se não passar de apanágio da inteligência estéril de uma elite?

Apenas criticaria Marques por não ter conseguido dominar todos os aspectos técnicos do seu filme, de modo a criar uma distanciação mais significativa perante a "naïveté" do objecto documentado. Contudo, presumo que a obra foi feita com meios demasiado frágeis para conseguir atingir esse nível de acabamento.

quinta-feira, março 11, 2010

Gostaria de ter escrito 5

"Um vício da sociedade faz da minha rectidão um vício."

Jean Cocteau (trad. Aníbal Fernandes)

Por intuição

Após trinta e sete anos de experiências, leituras e conversas, tenho a convicção de que a valorização da castidade feminina e o preconceito contra a homossexualidade não têm nenhum fundamento ético, muito menos transcendente, mas poderão ser facilmente explicados com recurso à antropologia (que é uma área do saber sobre a qual muito pouco sei).

Se os conservadores gostam de humilhar os homossexuais com o argumento de que, na natureza, não há maricas (o que já está provado ser uma mentira), nunca os ouço falar do famigerado recato erótico das cadelas e das gatas (pois são famosas as Lassies de convento, os Clubes das Virgens Labradoras, ou as Kitties que durante o dia brincam com novelos e à noite cuidadosamente os refazem com o intuito de atrasar o cio dos pretendentes sobre os telhados).

Eu diria que a cultura de castidade feminina (que persiste no cristianismo, no islamismo, na mundividência cigana, etc.) serviu simplesmente para contornar o problema da probabilidade de gravidez que resulta do acto sexual. Alguns povos índios da Amazónia tinham acesso a plantas capazes de funcionarem como contraceptivos durante vários anos, plantas essas que eram fornecidas às raparigas adolescentes para elas poderem gozar de grande liberdade sexual até ao momento de assumirem uma certa conjugalidade (digo "uma certa" porque muitas tribos não tinham expectativas em relação a enlaces para a vida inteira). Estes povos capazes de uma efectiva alternativa de sociedade foram considerados bárbaros demoníacos pelos colonizadores europeus.

Se a evolução da ciência e do pensamento nos fizeram perceber que não há éticas absolutas (e acima de tudo que ninguém, mas mesmo ninguém, está na posse de um razão moral indiscutível), a generalização da contracepção deu a machadada final na utilidade de tal cultura. Curiosamente, a cultura mantém-se, muito mitigada, é certo, mas mantém-se, como um laivo de fanatismo.

De igual modo, o preconceito contra a homossexualidade dever-se-á à esterilidade reprodutiva dos actos sexuais que lhe estão associados, o que constituiria uma ameaça à preservação da espécie. Nem sequer vou falar da possibilidade contemporânea de reprodução artificial, mas apenas lembrar que somos um planeta humanamente sobrepovoado, que as reais ameaças que se colocam à espécie não resultam da baixa demografia (mas sim do pânico nuclear ou da irresponsabilidade ecológica), e que a crise de natalidade nos países desenvolvidos do Ocidente é o resultado de uma nova cultura, a cultura do conforto, que dita altas expectativas de padrão de vida a todos aqueles que tentam constituir família.

Não há nenhuma razão verdadeiramente válida que sustente a permanência da homofobia no mundo dito civilizado. Homofobia muita mitigada, claro, mas que se mantém, como outra forma de fanatismo.

Somos uma espécie moderna, mas cheia de tiques antigos.

segunda-feira, março 08, 2010

Casting 13

Gosto de amadores, de naturais, daqueles que se expõem, daqueles que partilham uma verdade em carne viva, dos que vivem do seu carisma, de cabotinos, de mestres da dicção, de actores do Método, de actores de composição. Gosto de alguns indivíduos a despeito das (des)técnicas em que se protegeram. Mesmo assim, se é lamentável ter estima por Emma Thompson, muito pior é torcer por Meryl Streep.

Streep tem o génio do drama. Se alguma inteligência revelou ao nível da gestão da carreira, ela revela-se na aproximação ao registo de comédia a partir de uma certa idade: as suas performances não serão aí tão consensuais, mas o seu rosto-de-tearjerker conseguiu assim conquistar uma fotogenia agri-doce que impediu uma excessiva cristalização da imagem da vedeta.

De qualquer modo, Meryl Streep está demasiado conotada com a corte de Hollywood (as constantes nomeações para os Óscares são muito mais uma sinalização dessa fidelidade do que um registo rigoroso do mérito). Praticamente não correu riscos ao longo de uma carreira assumida enquanto tal. Nem é preciso pensar em Isabelle Hupert como contraponto. Basta lembrar Ingrid Bergman, e a sua facada nas expectativas do entertainment às mãos do improvável Roberto Rossellini. A verdade é que me é difícil recordar grandes obras-primas beneficiadas com a sua presença: "Manhattan", certamente, definitivamente "The deer hunter" (na minha opinião, o melhor filme sobre o Vietname). Nunca vi o filme de Karel Reisz. Mas, por favor, não me chateiem com "Out of Africa".

Então, porquê a minha devoção à actriz?

Quase todos os grandes intérpretes atingem um ponto de esgotamento. Basta seguir as filmografias de Anthony Hopkins, Jeremy Irons ou Montgomery Clift, para nelas encontrar constantes manifestações de tédio, de frete, de compostura meramente profissional. Certos actores, como Sean Penn ou Elizabeth Taylor, estão tão possuídos por uma ambição sisuda que ela lhes tolhe a verdade dos gestos. E outros, como Jack Nicholson ou Bette Davis, resvalam muitas vezes para esse insuportável número de circo chamado preguiça.

Ora, nada disto vejo em Meryl Streep. O que eu sempre reencontro no ecrã que a recebe é uma espécie de prazer desmesurado no virtuosismo da composição, um prazer que me parece absolutamente intocado e que constituirá a principal razão da anormal longevidade do seu sucesso. Streep continua a adorar representar, e fá-lo com a mesma disponibilidade (e inteligência lúdica) da sua juventude. Em todos os filmes, em todas as cenas, em todas as personagens. Sem excepção. Nisso, não tem rival no contexto anglo-saxónico. E para nós, espectadores, é um prazer seguir o seu prazer.

domingo, março 07, 2010

Partilha 76

dignitas


sempre quis ter uma casa
na aldeia
p'ra poder comer castanhas a olhar a cor das árvores
a minha prof de ciências
tinha uma
mas queria ter casa em istambul
p'ra poder tomar chá a olhar o bósforo

diz-se
(zzzzzzz)
que daqui a cem anos ninguém morre
lamentável:
porque é que eu não nasci ontem?
(houston, houston
we have a problem)

quarta-feira, março 03, 2010

Galeria Murnau 2

Tradução 21

Versão pessoal de um soneto de Shakespeare:


Se nada há de novo, mas aquilo que é
Já foi, quão iludidas estão nossas almas
Que, julgando inventar, sofrem em ritornelo
O parto vão de criança previamente nada?
Ah, pudesse um registo, um olhar de regresso
Ao longo de quinhentas viagens solares
Mostrar-me a tua imagem num livro senecto,
Pois primeiro foi feito o espírito em carácter,
P'ra que eu visse o que o mundo antigo conseguiu
Dizer deste composto assombro do teu estado;
Se eles tinham razão, se o tempo os corrigiu,
Ou se a revolução é um dado inalterado.
.....Ah, estou certo, o talento que houve previamente
.....A temas piores prestou o seu louvor ardente.


O original (junto com um comentário meu) pode ser lido aqui.

Dedico esta tradução à poeta Luiza Neto Jorge.

segunda-feira, março 01, 2010

Partilha 75

ensaio limícola


quando eu era viciado
em anti-heroína
manuscrevia poemas de muitíssimo mau gosto
um deles começava assim:
"itálicos meus (....:..)
má fortuna (....:..)
amor ardente (....:..)"

bi(bli)ografia:
luís
um rapaz intocado,
uma cereja que não comi em noventa e sete,
e um Banquete
de onde me escaparei
sem pagar o borrelho (che-ke che-ke che-ke)

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Partilha 74

pangeia (movie mistakes)


para bebermos como se não houvesse amanhã
é preciso que primeiro
qual sinfonia dourada
o continente crepuscule o seu conteúdo
(dlam dlam)
é preciso termos o fogo
debaixo da língua

às vezes
a gente junta-se
em torno de um bom macarrão
e navegamos no que em nossas almas vai
"vizinhorum
num sabebo porquorum viva sunt"
"id est milionem dollorem questiona, questionae"

domingo, fevereiro 21, 2010

No cinema

Tom Ford diz que se pode começar a vida como eau de toilette e acabá-la como perfume. Esta vontade de ascensão-espiritual-via-sétima-arte só pode irritar quem vê o cinema como prolongamento natural da sua raiva, do seu erotismo, do seu pensamento. Ou seja, o senhor continua com mais vontade de desfilar na passarela que de levar a bom termo cinematográfico o simpático gesto com que posou para a foto ao lado.

Dito isto, o seu filme ("A single man") é bastante interessante. Mas é o filme de um novato, no mau sentido do termo. O recurso constante à ampliação do ponto de vista subjectivo do personagem principal para lhe revelar o pensamento, manifesta uma certa falta de imaginação especificamente cinematográfica (o mesmo vale para os flash-backs, as sequências oníricas, os rallentis, a voz-off). A fragilidade é ainda mais gritante na incapacidade de atingir um tom verdadeiramente libertador nas sequências finais (mas isto talvez seja subjectivo). Terá ele visto "Bleu" de Kieslowski?

Fico mais motivado pelo descaramento de dar um papel ao modelo Jon Kortajarena só para lhe dizer que ele tem um rosto notável (aqui Tom Ford está despido). De qualquer modo, ele é ambicioso, tem um bom gosto razoável, uma apetência pelo rigor, e um talento nato para dirigir actores (Colin Firth muito bem, mas também Juliane Moore, toda entregue ao prazer de representar). Welcome.

No teatro

Recentemente fui três vezes ao teatro, o que corresponde a uma espécie de fartura anómala no seio da minha relação difícil com essa arte. Assisti a:

1. "A letra M" - recriação, pelo Teatro da Rainha, do texto alemão medieval "O lavrador da Boémia" de Johannes von Saaz, em simbiose com o universo plástico do recentemente falecido João Vieira. Apreciei sobretudo a interpretação de António Durães (a personificação da Morte), muito decalcada de clichés do cinema mainstream, em contraste quase-ontológico com a rudeza e a ausência de sofisticação do impotente Paulo Calatré (um lavrador metafórico). Muito interessante também a coreografia do movimento do mesmo Durães, aproveitando o dramatismo latente do espaço cénico do Convento de São Bento da Vitória. Talvez tivesse preferido uma tradução mais arcaizante do texto, na medida em que não me parece que ele seja "actualizável" (ou seja, há objectos cujo anacronismo formal não impede a sua pertinência material). Continuo sem perceber os méritos do uso do audiovisual no teatro (isso sou eu que não gosto de obras de arte totais...). Mas agradeço a Fernando Mora Ramos o ter-nos levado, personagens, actores, público, à presença de Deus himself. Quando, no fim, um dos intérpretes revelou a circunstância biográfica que está na base do texto (a morte da mulher do seu autor), a verdade instalou-se em cena.


2. "A cidade" - Ao contrário do caso de von Saaz, o teatro de Aristófanes ganha imenso em ser "modernizado" (é menos nobre, está mais vocacionado para o presente específico no qual vai ser encenado). Aliás, percebe-se a intenção do Teatro da Cornucópia de querer recrutar, para efeitos de intervenção cívica semelhantes aos pretendidos pelo comediógrafo grego, os actores cómicos do momento. Poderiam ter sido os Gato Fedorento, mas, à excepção de Ricardo Araújo Pereira, eles não são propriamente "intérpretes". A escolha recaiu, e muito bem, nos Contemporâneos. Bruno Nogueira tem piada, de facto. Maria Rueff também. Mas eu destacaria o trabalho de Nuno Lopes, que se está a tornar um mega-actor, convincente em todos os registos, e de Luísa Cruz, que eu nunca tinha visto nestes preparos. Francamente, este humor não me convence muito (isso sou eu, que só gosto de cómicos que gozam sobretudo consigo mesmos...). A parte mais brilhante do espectáculo foi o fim, com o encenador a conseguir dominar na perfeição o dificílimo tom do texto (a evocação de uma utopia ornitológica), que noutras mãos teria certamente descambado em pleno desastre. Luís Miguel Cintra conhece a intuição, a irrisão, o humor e o prazer do poeta.

3. "Facas nas galinhas" (na foto) - Este texto de David Harrower é muito belo. A meu ver, aborda a questão do "génio" abafado pela falta de horizontes do mundo rural (tema que Agustina também tratou, e magistralmente, num dos seus "Contos impopulares"). Pareceu-me tudo muito bem feito pelo Teatro dos Aloés, e Carla Galvão é esplendorosa na sua rudeza. Senti falta do cinema, contudo.

Galeria 49




Guillaume Apollinaire
(por Maurice de Vlaminck)

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Tradução 20

Poema "Annie" de Guillaume Apollinaire, traduzido por mim:


No litoral do Texas
Entre Mobile e Galveston fica
Um grande jardim bem cheio de rosas
Contém ainda uma moradia
Que é uma grande rosa

No jardim costuma dar passeios
Uma mulher completamente sozinha
E quando eu passo na estrada bordada de tílias
Nós olhamos um para o outro

Como a mulher é menonita
Suas roseiras e roupas não usam botão
Faltam dois no meu jaquetão
Eu e a dama seguimos quase igual doutrina


(O original pode ser lido aqui)

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Partilha 73

ghost righter


no outro dia
cometi um pecado
meti água:
não fodi um rapaz de dezoito anos
mais estilo terei p'ra escrever do que p'ra viver?
as coisas não se põem
assim

antes
queria reencarnar em mariposa
mas agora acho melhor
pôr-me a jeito do besouro
(sem problema
o processo será narrado
por sir david attenborough)

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Alguns mitos

1. Sobre pintura - Há pessoas que, perante um quadro isento de virtuosismo mimético, exclamam: "eu também fazia aquilo". Ainda que não se tome em conta o facto de a sensibilidade plástica ser necessária em todo o tipo de gestos (mesmo que esse seja o gesto de Jackson Pollock), e que, por isso mesmo, não vale tudo (no limite, o problema não é haver quadros pintados por macacos, mas é haver críticos sem sensibilidade para a plasticidade dos macacos...) a verdade é que, quando uma pessoa diz "eu também fazia aquilo", está a colocar-se a si mesma na posição do imitador. Dito de outro modo, não há nenhuma relação entre o menor espalhafato tecnicista de uma sensibilidade plástica e a originalidade e individualidade que ela pode oferecer.



2. Sobre poesia - Entre os muitos lugares-comuns que infestam a vivência da escrita poética, há dois mitos tão simétricos entre si que se auto-anulam. No passado, havia quem achasse que a poesia era uma arte muito difícil, a que só os eleitos teriam acesso activo. Presumo ser esse o tipo de cultura que servia de motivação a um autor como Eugénio de Andrade. Quem, como eu, já tentou escrever um romance e falhou redondamente, sabe como é francamente difícil engendrar uma boa prosa de ficção... No presente, auras passadas à história (mas quem perante a evidência ousa falar de aura?), dizem-me que a poesia é coisa demasiado fácil de fazer, não escancara trabalho, virtuosismo, investigação. Espero que, no futuro, se perceba que um homem se encontra perante a poesia como perante qualquer outro fazer, que a sua compreensão profunda exige o mesmo nível de acasos, inclinações e aprendizagens, e que é francamente provável, e até desejável, que a existência de um bom poeta seja um fenómeno mais raro que a existência de um bom amante ou de um bom amigo.



3. Sobre a metáfora - As pessoas que condenam o uso da metáfora com o argumento da obliquidade (como a metáfora não chama as coisas pelos seus nomes, o seu efeito seria mais ornamental do que interventivo) são as mesmas que desconfiam da relação entre as palavras e as coisas que as palavras denotam. Ora, se a palavra corpo não é capaz de referir o objecto corpo com toda a propriedade, por que razão não posso eu aludir ao objecto corpo através de uma outra palavra qualquer?

domingo, fevereiro 07, 2010

Não, a pintura não está morta



(Fotografia de Virgílio Ferreira)

Contra Platão

Ao terem intuído as possibilidades da lógica, os sábios da Grécia Antiga encontraram o conceito de unidade. Ou seja, perceberam que o devir presente em todos os fenómenos ocultava uma dimensão imutável, uma essência, que podia ser explorada pelo pensamento.

A ciência veio dar-lhes razão: os homens descobriram que era possível explicar o mundo de acordo com leis universais (por exemplo, a Teoria da Evolução foi construída com base nos indícios cada vez menos refutáveis de um princípio comum a toda a vida terrena).

No entanto, a beleza da lógica talvez tenha tolhido a liberdade do pensamento grego na sua aplicação à especificidade do comportamento humano. Pois, se podemos falar de uma unidade-absoluta a propósito das disciplinas que orbitam em torno da matemática (os físicos continuam a tentar arranjar uma teoria única, universal, simples, que explique a totalidade do universo), não podemos aplicar o mesmo discurso às humanidades (política, economia, sociologia, psicologia, cultura, religião, etc.) sem provocarmos sofrimento aos próprios seres humanos.

É claro que a nossa espécie só se consegue organizar em torno de analogias do conceito de unidade (Deus, o amor, a família, a nação, a etnologia, etc.), mas a unidade, enquanto invenção do humano, só é respirável numa prática de relatividade.

Relatividade, mas não relativismo. A ambição da unidade é essencial à sobrevivência (desde logo, não conseguiríamos ter uma auto-consciência de espécie sem esse apriorismo). Mas essa unidade já não pode ser governada pela matemática, mas sim pela linguagem, que não é um fenómeno de pura arbitrariedade como por vezes se pretende, mas a medida mais justa que o homem arranjou de a si mesmo se entender e em si mesmo intervir.

É difícil não esboçar um sorriso perante as gravíssimas preocupações metafísicas de São Tomás de Aquino (se bem que tudo isso me apaixone, como me apaixona a literatura de Lewis Carroll ou Benjamin Péret). Mas ainda mais difícil é não sentir um amargor profundo perante os cínicos que desconfiam a palavra.

É o nosso instrumento. Aquele que nos permitiu inventar o amor sem o sabermos definir de forma fatal. Aquele que nos permite inventar o neologismo que abraça cada nova impertinência na generosidade sempre crescente da unidade-relativa. Aquele que nos permite construir um plano de transparência sobre o mundo, esse papel-vegetal onde o imitador se confunde com o opressor sem imaginação nem liberdade. Aquele onde podemos distinguir o invisível literal do invisível metafórico.

Excerto de uma carta de amor 4

.......olhe, escrevo-lhe para lhe apresentar, de antemão e por mão própria, o príncipe que em mim mesmo sou. Nem imagina: vivo num mónaco interior de tal modo luxuoso que não me faltam pajens para apajearem as virtudes, aias para suspirarem pelas derrotas ou bobos para ocultarem a sordidez sob um manto de refinada ironia. Sapatos de cristal, vistas sobre a rivièra, boatos de paparazzo: tenho tudo isso sob a forma de desregulamentos de insulina, ousadias de colesterol, ou penosas dores musculares. Chego a pensar que sou mesmo o príncipe dos pedroludgeros, pois de outra coisa talvez não pudesse ser. Espero assim conseguir cegá-lo o suficiente para que, no nosso primeiro encontro, não precise de me engolir como quem engole um beijo........

Confissão do adulto

Não endeuso a minha infância particular (apesar de ter sido uma época suficientemente serena para não me deixar demasiadas recordações), nem me considero propriamente um nostálgico (preferia, aliás, que a vida me corresse bem agora, ou daqui para a frente).

Se dou tanta relevância à infância na minha reflexão, é porque esse é o único momento da vida em que os humanos acreditam mesmo, e com pujança física, na possibilidade de serem felizes sem mácula. Ora, essa evidência (essa convicção) parece-me ser o ponto de partida a partir do qual podemos elaborar uma ética, um empenhamento político e/ou uma aventura criativa, sem precisarmos de recorrer a uma fundamentação transcendente.

A suivre.

Publicidade

Pergunto-me quais as consequências de um tipo de organização económica que baseasse a sua dinâmica no valor intrínseco dos produtos (e dos recursos), e não na possibilidade de lucro obtida a despeito desse valor?

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

O INACTUAL 44

"Adieu, plancher des vaches!" - Otar Iosseliani (1999)


O cariz onírico dos filmes de Otar Iosseliani não obedece meramente a um princípio de evasão, mas constitui-se como o ponto de partida de um discurso radicalmente comprometido.

"Adieu, plancher des vaches!" retoma a encenação de um microcosmo social relativamente estável (apesar dos elementos que surgem e desaparecem), onde todos os seres se afectam de forma mais ou menos consciente. Se a circunstância deste grupo humano ser descaradamente sui generis afasta a ficção de pretensões de exactidão realista, também não a aproxima da articulação de uma utopia. De facto, parece ser possível (comédia) iludir a condição social verdadeira (o pobre que se faz passar por rico e vice-versa), mas já não é provável que se possa escapar às consequências dessa ilusão (a rapariga casa com o primeiro). Se os personagens não estão conscientes desse drama, são pelo menos suficientemente sinceros consigo mesmos para saberem que nenhum estatuto oferece uma compensação satisfatória.

Para além de cada um ser louco à sua maneira (a escolha de um meio de transporte obedece menos a imperativos utilitários do que à necessidade de tornar visível o nível de refinamento do estilo pessoal...), o seu quotidiano (mais ocupacional do que propriamente laboral) parece não passar de um método de regresso obsessivo ao sexo, ao vinho e à música. No seio desta anarquia de cunho existencial, há tempo para celebrar os mitos da amizade (o encontro de almas gémeas fora do espectro das complementaridades sociais e sexuais) e da liberdade (o personagem interpretado pelo próprio Iosseliani abandona o seu pequeno mundo de comboios eléctricos, evidentes metáforas do gozo da criação fílmica, para se lançar numa viagem sem destino que seria quase demagógica se não representasse, precisamente, uma alternativa simbólica à prisão que até o cinema, plancher des vaches, impõe).

A solidariedade poética que o autor devota às personagens não o impede de representar a crueldade que elas possuem, sem precisar de recorrer a quaisquer moralismos: a mulher excêntrica que não aceita as excentricidades do marido, o rapaz de boas famílias que abandona o amigo depois de ambos saírem da prisão, o marido que mata a mulher após uma discussão, a criança inteligente que participa na vida criminal, o trabalhador incompetente que se vinga no despedimento de outro trabalhador, etc.

Parece que a Humanidade, apesar de ser muito humana, não é flor que se cheire. Iosseliani conclui: com a passagem do tempo, as coisas mudam, mas não necessariamente para melhor.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Domingo, em Serralves...



"El angel exterminador", de Luis Buñuel

Partilha 72

datação por carbono 14


se eu deixar por limpar
esta mancha no tacho mal lavado
estarei
por ventura
num salão árabe
sob a luz admirável de mil e uma pedrarias
de hesitação

ah ah ah ah ah
sobreviver
é sempre politicamente in-cor-recto
pois quem ri por último
ri com mais cagança
- samira, vai-me comprar cueiros
que eu quero pensar a criança


Nota: "pensar uma criança" é uma expressão antiga que significa "mudar ou limpar os cueiros".

O Emerson String Quartet interpreta um contraponto da "Arte da Fuga" de J. S. Bach.

domingo, janeiro 31, 2010

Partilha 71

modus vivendi ?


espero
que a ternura dos quarenta
não seja uma massagem administrada num spa
(dizem que custa os olhos da cara
e só eles
ai de mim
não botaram gordura)

o melhor é escorregar numa casca de banana
e fingir que sou um poeta do passado
tísico
claro
em direcção a um país sem norte
onde já ninguém grita
e onde o sol é sempre um coque

É sem pompa nem circunstância...

... que anuncio o personeto, uma forma poética que inadvertidamente encontrei, e que servirá de molde de construção textual numa das secções do livro "quarenta graus à sombra" (cuja redacção foi iniciada com o poema que partilhei aqui). Estive para baptizar a dita forma com o nome soneto ludgeriano, mas não o conseguia pronunciar sem me desatar a rir.


As características do personeto são as seguintes:

1. O destaque compositivo será dado aos números 2 e 7, o que implica que o soneto será sempre composto por duas estâncias de sete versos, ou por sete estâncias de dois versos (esta última situação será mais rara).

2. As estâncias serão caracterizadas por uma heterometria muito contrastada (podendo as medidas dos versos variar entre uma e catorze sílabas métricas).

3. O tom do poema permanecerá doméstico e gracejador, a despeito da violência do fundo metafórico.

4. Serão bem vindos os diálogos, os parêntesis, as onomatopeias.

5. As duas dimensões sensitivas que um texto pode trazer (imagem, som) serão invariavelmente aludidas em cada poema (ainda que de forma muito oblíqua).

6. Cada soneto terminará com uma chave de ouropel, que terá um sabor infantil (uma emoção fácil de rebuçado), e onde se manifestará a única rima forte do poema.

7. Estas regras não constituirão um dogma, e desejam ser, a qualquer momento, transgredidas.



No post acima, está outro exemplo de personeto.

Galeria Murnau 1



Murnau am Staffelsee
(a vila de cujo nome o realizador tirou o seu pseudónimo - supostamente)

Morreria se tivesse escrito 1

"Em todas as épocas houve pessoas diferentes, mas se a diferença se espalhar a sociedade fica em perigo."

António José Saraiva

sábado, janeiro 30, 2010

Gostaria de ter escrito 4

"La rationalité (...) consiste précisément dans l'adaptation continue de notre langage à un monde en continuelle expansion (...)."

Mary Hesse (citada, e presumo que traduzida, por Paul Ricoeur em "La métaphore vive")

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Partilha 70

arte poética n


não é que catar os piolhos da cabeça de um filho
corresponda
a fazer um serviço da vista alegre
mas era exactamente essa correspondência
que eu queria
hoje
escrever

juro
que tentei fazer poemas
sobre esse único assunto da poesia que é a morte
mas sobrevivi
(dlam dlam dlam
os sinos que já não se ouvem na cidade
ouvir-se-ão aqui)

terça-feira, janeiro 26, 2010

A zero dimensões

O filme "Avatar", de James Cameron, é de tal modo inócuo que não me aquece nem me arrefece. Mas hoje, no jornal PÚBLICO, um crítico de má fé dizia que o posicionamento de um espectador perante a obra seria revelador da sua fibra política. Ora, essa insinuação merece-me alguns comentários.

Não tenho razões nenhumas para duvidar das convicções ideológicas do realizador da obra em questão. Aliás, Hollywood gosta de manifestar a sua tendência esquerda suave, desde Sean Penn de mangas arregaçadas em New Orleans até à obsessão adoptante de Angelina Jolie. Mas também não tenho razões para duvidar da profunda incultura dos fazedores de cinema industrial, não querendo com isto dizer que por lá não se lêem muitos livros, mas que são raros os cineastas que trabalham nesse contexto e que pensam a fundo o seu métier. Nem sequer é suposto que o façam...

Cameron parece querer estabelecer um discurso sobre o Outro (imediatamente, o modelo é o índio da Amazónia, mas o árabe também está na mira, o que é desde logo estranho, pois qualquer semelhança entre as duas situações é pura coincidência). Se o objectivo era esse, pergunto-me qual terá sido o motivo que o levou a substituir a tentativa de construção de uma imagem desse Outro (veja-se o notável esforço de Audiard em "Un prophète") pela imagem de um efeito especial que se confunde com o bestiário disney e o imaginário alien de Steven Spielberg? Dir-me-ão que é uma parábola, e que eu até sou um nerd do simbolismo. No entanto, quer-me parecer que a referência cultural escolhida é tudo menos dignificadora desse Outro. É como se Cameron não soubesse nada do índio (como eu não sei), e também não quisesse, profundamente, saber (só que eu não quero fazer filmes sobre os índios). Aliás, não teria sido interessante recorrer a um modelo de narrativa mítica próximo da sensibilidade cultural desses povos da floresta, em substituição da forma gasta e gasta e gasta do screenplay hollywoodiano?

Ouvi opiniões de alguns espectadores dizendo que a história do filme era the same as usual, a sua mais-valia sendo apenas o panache tecnológico. Não sei como Jorge Mourinha ainda não percebeu que a forma de transmitir a mensagem é mais determinante, do ponto de vista político, do que a espuma superficial da própria "mensagem" (pois isto não é jornalismo, nem ensaísmo). O público já o percebeu. Aliás, uma das visões mais nobres do Outro que o cinema americano produziu recentemente é o filme "Letters from Iwo Jima" de Clint Eastwood, cineasta conservador.

Para além das suas piroseiras pseudo-poéticas dignas do quadro do menino com a lágrima ao canto do olho, o filme de Cameron está cheio de teias de aranha: o 3d é um efeito muito antigo, a forma narrativa é mais velha que o António Pedro Vasconcelos, não há nenhuma inovação ao nível da montagem (isso custa, o Eisenstein pensou-a sistematicamente, o Godard teorizou-a em boutades), do som, da representação dos actores (já agora, onde é que eles estavam?). Enquanto espectáculo, "Avatar" nem se consegue aproximar do "Titanic", que era um blockbuster tão histérico que acabava por nos afundar com ele. A relação do espectador com o próprio cinema também não é beliscada em nada: Cameron continua a querer produzir um espectáculo de feira, como quiseram os pioneiros da história dessa suposta arte (o espectador é o paraplégico circunstancial que se identifica com o seu avatar no ecrã). Durante o visionamento deste futuro do cinema, lembrei-me com saudade de um simulador com que me diverti na Eurodisney, mas logo a seguir tremi de horror: no próximo "maior-filme-de-sempre-o-mais-caro-e-o-que-vai-ganhar-mais-óscares" que o realizador fizer, vamos ter de usar coletes ortopédicos para protegermos a coluna dos solavancos que as cadeiras da sala de cinema nos vão proporcionar.

A oeste nada de novo: só o aprimoramento da tecnologia. Dir-me-ão que é o futuro do marketing do cinema. Eventualmente. Mas então eu digo ao senhor Cameron que a destruição da floresta tropical e das civilizações que nela floresciam se deveu, precisamente, a um primeiro momento de glória de um funcionamento da economia, o capitalismo (que não se chamaria ainda assim, claro), em que o valor intrínseco de qualquer produto é secundarizado perante a possibilidade de geração de lucro. Ora, "Avatar" é um objecto capitalista declarado (com tudo o que, de positivo, isso traz: postos de trabalho, liberdade de consumo, etc.). Os críticos da sua suposta mensagem de esquerda não têm motivos para estar alarmados: o espectador, ao sair da sala de cinema, não se vai tornar um guerrilheiro da "Greenpeace" (sobre a possibilidade da arte mudar o mundo, já me pronunciei aqui).

E quanto à ecologia do cinema? Quantas espécies de cinema estão neste momento em vias de extinção, porque este tipo de estética definitivamente triunfou e está a secar todas as outras possibilidades à sua volta? Presumo que algum leitor me vá insultar com a palavra "intelectual" (mais je ne m'accuse pas). Quem tem tido a bondade de me ler, saberá que tenho tentado, ao longo da feitura deste blogue, falar das mais diversas possibilidades de cinema, e que me mantenho aberto a todos os debates que envolvam cinéfilos militantemente apaixonados. Estou, isso sim, empenhado no salvamento da floresta selvagem, perigosa, abundante e inesgotável, do cinema.

Alguma vantagem em "Avatar"? Claro: a intuição de que, quando encontrarmos os marcianos, são eles que têm de ter medo de nós.