segunda-feira, maio 24, 2010

Intervista 2

P. - É ambicioso?

R. - Sou. Ambiciosíssimo.

P. - Mas não era capaz de dormir com alguém para subir na vida?

R. - Não, só era capaz de dormir com alguém para descer na vida, para ficar rente ao sexo: como disse, sou ambiciosíssimo.

Intervista 1

P. - O que me diz do seu sucesso?

R. - Digo o que diria a Lili Caneças: ser lido é melhor do que não ser lido.

terça-feira, maio 18, 2010

sexta-feira, maio 14, 2010

segunda-feira, maio 10, 2010

Partilha 83

desejo de ocidente


vimos hoje
um belo ocaso
na fronteira sem velhice do céu
'stava o sol tal qual veio ao mundo
não fosse o seu manto
de couro
e as botas de cowboy

com vento de ocasião
trabalhamos no pomar no fabrico da compota
no restauro na pintura
do ícone da iluminura
no estertor
(às vezes até mandamos vir os rapazes
e fazemos bailes como nos filmes de john ford)

domingo, maio 09, 2010

Galeria Murnau 3

Confissão política

"Imagine, tenho lido coisas duma aridez simpática sobre economia. Visto que o homem económico tem de substituir o homem bélico eu quero estar ao corrente dessa nova bélica dos povos. E tenho pensado que a economia é a intriga estruturada no infanticídio das grandes ideias. O homem económico não tem ideias, tem só actividades operantes no campo do medo, do descrédito, da vertigem."

Carta de Agustina Bessa-Luís a Eduardo Lourenço.



Não queria que, a propósito deste post, ficasse o meu esporádico leitor com a ideia de que acalento uma espécie de menosprezo por aquilo que se convencionou chamar progresso. O que radicalmente me desagrada em José Sócrates é a segurança falsa que ele próprio encena em torno do suposto sucesso da sua governação. Algo que, de resto, já vi e revi em inúmeros portugueses em lugares de patronato: um desinteresse intenso pela eficácia real de uma medida de administração inversamente proporcional à celebração hipersensível desse mesmo gesto.

As escolas não ficaram mais modernas por terem sido invadidas por computadores Magalhães. A economia não ficou mais ágil com o ruidoso Simplex (e quão amadores e pouco modernos são os empreendedores lusos!). A cultura não ganhou dinamismo com a passagem (de TGV, presumo) do Hermitage pela museologia nacional. Não duvido que pelo menos algumas decisões governativas tenham sido tomadas de boa fé, mas nada disso releva perante os resultados concretos a que elas (não) tenham levado. E se eu, francamente, não espero que os meus governantes sejam visionários de génio, exijo que tenham, pelo menos, inteligência emocional suficiente para irem ajustando o seu percurso de acordo com a verdade com que, a passo e passo, o real os vai contrariando.

Talvez o leitor não acredite, mas desconheço o que é a motivação do poder. Penso, aliás, que isso será uma espécie de patologia pessoal. No entanto, sei o que é sonhar com ser lido fora do âmbito do espaço-tempo que a minha vida me concederá (a despeito de todas as monstruosidades panteónicas), e por isso consigo perceber a vontade de deixar um rasto. Já percebo menos que isso tenha de ser feito através da construção civil que vai do Centro Cultural de Belém até ao Aeroporto de Alcochete. Pois se um político conseguir, de facto, beneficiar a realidade em um grama que seja, ele será tratado pela História com panos bem aquecidos, não haja disso dúvida. Caso contrário, não haverá Pirâmide que o salve de uma chacota que passará de geração em geração.

Ou seja, neste momento já não acredito que o desígnio de obras públicas pelo qual batalha o nosso Primeiro Ministro contenha em si um grau mínimo de visão que seja capaz de frutificar em eficácia e verdade a longo prazo. Por favor, dedique-se ao inglês técnico.

Infelizmente, também não conheço alternativas (o que é todo um retrato do meu estado psicológico). Os partidos de (extremada) esquerda constituem uma muito concreta traição ao marxismo: não fornecem um repensar radical, completo e contemporâneo de toda a situação do homem, que foi precisamente o que Marx fez. Esperneiam mais do que pensam. Por outro lado, a direita é geneticamente marialva. Basta ver o seu desprezo pela exploração de algo tão evidente como as energias renováveis (exploração essa que terá de ser devidamente calculada e faseada, claro, mas cujas promessas de benefício são colossais): homem que é homem defende o petróleo, pois não tem ilusões quanto à natureza humana. Não falo do partido de Paulo Portas, pois não tenho jeito para contar anedotas.

Por vezes, penso que, se temos de sobreviver num contexto de capitalismo, então seria melhor que ele fosse dirigido por quem o sabe fazer funcionar de facto (e não por frágeis e indecisos donzéis socialistas). Acontece que, mesmo sem perceber nada de economia, eu não acredito na bondade de um tal sistema económico. E presumo que assim continuarei até que a morte de mim faça uma Zita Seabra.

O capitalismo tem duas vantagens, tem, sim senhor. Por um lado, a liberdade de expressão e de movimento. É uma conquista notável, e de que eu não estou disposto a abdicar. Mas há algo mais importante. Uma vez ouvi, numa muito antiga reportagem televisiva, alguém dizer que a Europa estava podre (de crise, já na altura...), mas cheirava bem. Ora, o capitalismo é isso mesmo: uma podridão que cheira bem. As gentes estão mergulhadas em dificuldades, mas usam roupas sexy, guiam carros sexy, fazem viagens sexy, vêem filmes sexy. Nada do cinzentismo que existia para lá do muro de Berlim.

A liberdade profunda do indivíduo é, porém, praticamente nula. O que significa eu aceitar um crédito bancário durante quarenta anos para poder ser proprietário de uma habitação? Significa apenas que aceito abdicar da liberdade durante toda a minha vida saudável. É claro que, para muita gente, o bom cheiro dos acabamentos de luxo e dos chãozinhos em parquet compensarão essa transacção da alma, mas, como se dizia noutras alturas, não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo.

Ainda por cima, o mercado é uma forma de perversão do sentido daquilo que sempre julguei ser a economia. Os recurso são explorados até à exaustão, os produtos têm menor valor intrínseco do que valor comercial, o crescimento é tão fatal que se torna descontrolado. Não podemos voltar às origens (como fazem as monjas que, nas suas clausuras, depuram a economia), mas não devemos perder de vista o seu sentido. Quantas pessoas poderão hoje afirmar que sabem, no mais fundo de si mesmas e sem qualquer sombra de dúvida, a razão pela qual trabalham? A gestão da escassez dos recursos e a superação das contingências da sobrevivência: não era isso a economia? Mas quem tem noção disso quando esbanja os últimos trocos que tem no milésimo pastel que contribuirá para o absurdo da sua obesidade, ou quando vê aqueles personagens de filme italiano em rituais de histeria nos mercados bolsistas?

Podem sempre dizer-me: se estás a mandar esses bitaites, por que não metes as mãos à obra e fazes alguma coisa por Ti mesmo? Ao contrário da paciente e lúcida Agustina, eu seria aniquilado se me predispusesse a levar estas coisas a sério. Não sou esse tipo de homem. Definitivamente. Talvez quando a tusa me abandonar, eu me dedique à aridez simpática da economia.

domingo, maio 02, 2010

Tenho um novo site...

... intitulado:

Orfeu de corpo inteiro

É uma plataforma de publicação prévia e experimental da minha produção ao nível do ensaio. Já estão alguns textos online, em breve surgirão mais. Ao longo do tempo, surgirão novos ensaios, e serão rescritos e acrescentados os que já se encontram esboçados.

Obrigado pela atenção.

sábado, maio 01, 2010

Partilha 82

ich bin eine frau...


... em forma de bola de berlim
sou o meu pigmalião
meu próprio cirurgião por tentativa e tradução
objectivo:
ser uma nuvem emigrante
que se vem
em furacão

eu podia dançar toda a noite
eu podia dançar toda a noite
e ainda pedir mais ao meu leitor
afinal sou o creme do creme
un petit d'un petit de gema à mostra
caído
ao pé do muro do teu estômago

para a audrey e a katharine



Nota 1: "un petit d'un petit" é uma famosa tradução do inglês para o francês feita por homofonia; o original é "humpty dumpty".

Nota 2: A canção "I could have danced all night" é a que mais frequentemente canto no duche.

Alívio egoísta

Um dia destes, alguém me disse que o Homem tinha ficado tão inteligente que estava a destruir o Universo.

Uma formulação leviana. Não só o uso da palavra "inteligente" foi nela indevido, como não é o Universo que está em causa no último capítulo da grandeza humana, mas pura e simplesmente um pequeno planeta (seja qual for o rigor deste medo presente, ele ficará como uma das marcas mais tragicamente cómicas da nossa época).

A verdade é que fiquei aliviado. Foder a Terra, tudo bem, mas para o Universo ainda não temos tesão. Experimentem lá alterar o clima do Sol...

É claro que, há alguns séculos atrás, a perspectiva de uma perversão fatal do equilíbrio ecológico de um planeta inteiro por acção humana seria completamente inverosímil. E, por isso, não sei mais alguns séculos não nos darão os Magalhães suficientes para darmos cabo de toda a obra pública do Big Demiurgo. MAS EU JÁ NÃO ESTAREI POR CÁ!!!!!

Por uma vez...

...concordo:


"O que move Sócrates não é mais do que a imagem, de "modernizador" e "duro", que, no fundo de si próprio, ele julga ser. Gostava de nos legar um Portugal irreconhecível e maravilhoso: com computadores na escola, com o MIT, com o Simplex triunfante, com o novo aeroporto, com o TGV. Um Portugal como essa América que ele viu na Beira em séries de televisão para provincianos."

Vasco Pulido Valente (no PÚBLICO de hoje)

quarta-feira, abril 28, 2010

Capítulo 91

No capítulo "O Pequod encontra o Botão de Rosa" do romance "Moby Dick", Melville descreve, com regalada ironia, a inexperiência do capitão do navio com nome florido para os assuntos da captura da baleia. O Botão de Rosa, barco francês, leva dois troféus de pesca atracados ao seu casco em tão mau estado fisiológico que já não são capazes de fornecer uma quantidade de óleo minimamente lucrativa. Ainda por cima, uma das baleias mortas guarda no seu corpo a marca de um prévio ataque (feito pelos marinheiros do Pequod), e por isso o navio de inexperientes deveria ter-se abstido de usurpar um cadáver que, pelas leis não escritas da vida no mar, não lhe pertencia.

Stubb, figura de destaque da embarcação onde navega o protagonista, sobe a bordo do Botão de Rosa, e encontra um marinheiro que sabe falar inglês. Como Stubb pretende vingar-se da usurpação gaulesa (roubando o âmbar negro que, esse sim, existe em abundância num dos cadáveres), e o seu interlocutor se quer livrar das baleias fétidas e inúteis que o seu navio arrasta, resolvem pregar uma partida ao capitão ignorante. Vão falar com ele, e enquanto Stubb disparata na língua de Shakespeare, o tradutor transmite uma mensagem que não tem nada a ver com o original. Pretendem assim levar a água ao moinho de ambos.

Transcrevo em seguida todo o passo, na versão de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves, na medida em que ele me parece uma espécie de alegoria engenhosa do conceito de subtexto. Tudo o que Stubb diz em inglês funciona como subtexto daquilo que, posteriormente (e é nesta inversão que a alegoria se forma), o seu tradutor comunica:

"- Que lhe vamos dizer para principiar? - perguntou ele.
- Bem - respondeu Stubb, olhando a jaqueta de veludo, o relógio e os berloques que representavam um selo e um sinete - podes começar por lhe dizer que é demasiado infantil para mim, se bem que não esteja a fazer de juiz.
- Diz ele,
monsieur - traduziu o homem de Guernsey, em francês, virando-se para o seu capitão -, que ainda ontem o seu navio cruzou com um barco, cujos capitão e imediato, bem como seis marinheiros, tinham morrido com uma febre causada por uma baleia apodrecida que arrastavam ao lado.
Ouvindo isto o capitão estremeceu, e exprimiu ansiosamente o desejo de saber mais sobre o caso.

- E agora? - continuou o homem de Guernsey dirigindo-se a Stubb.
- Pois bem, já que ele acredita tão facilmente, diz-lhe agora que depois de ter olhado cuidadosamente para ele, estou absolutamente certo de que está tão qualificado para comandar o baleeiro como um macaco de Santiago. Diz-lhe que de facto não passa de um bugio.

- Ele jura e declara,
monsieur, que a outra baleia, a seca, é ainda mais perigosa do que a apodrecida; em resumo, monsieur, ele conjura-nos, se damos valor à vida, a desembaraçarmo-nos destes peixes.
Instantaneamente o capitão correu para a proa, e com voz estrepitosa ordenou à tripulação que não içasse as talhas de corte e que largasse os cabos e as correntes que prendiam as baleias ao navio.

- E agora mais? - perguntou o homem de Guernsey quando o capitão voltou para junto deles.
- Ora, deixa-me pensar; sim, vais-lhe dizer agora... agora... que foi enganado e (aparte para ele próprio) talvez mais alguém com ele.

- Ele diz, monsieur, que está muito contente por nos ter podido prestar este serviço."

Festa na cidade

Este ano decidi visitar, pela primeira vez, os Dias da Música. Claro que apreciei imenso o essencial do evento, o seu carácter festivo, a qualidade dos concertos (cinco récitas a que assisti, cinco contentamentos plenos), a enchente de público, até a organização me pareceu boa.

Fiquei, contudo, a pensar que quase nunca saí de um concerto de música dita erudita com a sensação de murro no estômago com que abandonei salas de cinema, palcos, exposições ou páginas de livros. É claro que a música, por ser não figurativa, não terá a mesma vocação directamente interventiva de outras manifestações de criatividade, mas não deixa de ser estranho que os recitais se façam sempre para dar o prazer de um bom serão ao público. Eu também gosto de filmes que nos reconciliam com a vida, mas se os filmes fossem todos assim, eu começava a desconfiar do cinema. E, de qualquer modo, as obras de Beethoven, Alban Berg ou Luigi Nono serão tão irreverentes quanto os melhores passos de Lautréamont ou Samuel Beckett.

Embora eu já esteja cheio de ouvir falar em conceitos, a verdade é que os músicos ganhariam em elaborar os seus recitais com base em conceitos mais complexos, mais desafiadores, menos carentes de aplauso oco, com menos vestido de diva e mais angústia partilhada sem paliativos, com mais desejo do que satisfação. Quem se importa com o lugar certo para bater as palmas? Queremos é ser toldados pelo groove da fúria.

quarta-feira, abril 21, 2010

"Ruínas" - imagem

O ACTUAL 26

"Ruínas" - Manuel Mozos

"Ruínas" começa com a imagem da implosão de um edifício. De facto, o discurso do progresso (representado pelos moinhos de energia eólica no fim do filme) gostaria de ter o poder de apagar por completo o rasto desse empecilho chamado passado. No entanto, assim como continuam a aparecer velas e flores na estátua de um santo de jazigo, muito depois da pessoa que a encomendou ter morrido sem deixar descendentes, as ruínas estão aí para contar a sua história. Não sei se isso acontece noutros países, mas Portugal é um país de ruínas.

E como filmar ruínas? Através de um processo de adequação quase magnética entre corpos, cenário e ficção, a vida tende para a singularidade. Cada narrativa é de tal modo pesada para aqueles que a vivem, que tende a ser sentida como única. A relevância adquire toda a desproporção que o afecto lhe permite. Ora, Manuel Mozos decidiu prescindir da encenação de corpos, desvalorizar a correcta e individual adequação das ficções que evoca aos cenários que lhes atribui (não sabemos se os textos declamados têm relações de facto com aqueles lugares), e filmou os cenários como manifestações imediatas da passagem de um tempo apodrecido.

Pela ordenação que a montagem traz a esse encadeado documental, surgem três consequências:

1. As ficções sofrem um processo de homogeneização. Como os seus protagonistas estão, em princípio, mortos, ou pelo menos afastados dos cenários filmados, as ficções (que desvendam anedotas individuais, ideologias de moralidade, política e economia, situações de ócio e entretenimento, etc.) ficam todas reduzidas a um mesmo valor. O valor da ruína.

2. O filme deixa então de versar sobre este caso ou aquele (não é referido o nome próprio de ninguém), e adquire um carácter discursivo abstracto.

3. Em consequência, a obra constrói a imagem colectiva e fóssil de um Portugal antigo (aquele que sobreviveu até ao fim do Estado Novo), um Portugal de sanatórios, padres poderosos, teatros de variedades, missivas educadas e contos e ditos.

Sobreviverá a identidade do país à implosão da aldeia global? E poderemos estar orgulhos dessa identidade que se assemelhava, em todo o seu pó e bolor, a uma ruína avant la lettre?


P.S. - Gostaria de sublinhar o gosto que me deu ouvir toda uma estilística da nossa língua que está completamente perdida. Curiosamente, não tenho a certeza de que a memória desse português seja pessoal ou uma reconstrução fornecida pelo audiovisual.

Confissão 28

Se alguma coisa aprendi com as ousadias e os erros do surrealismo, foi a ter respeito pelo inconsciente, seja lá o que isso for. Não quer dizer que pratique a escrita automática, da qual desconfio. Mas acredito realmente que a coerência mais férrea e a originalidade mais insuspeita de um texto literário são fornecidas por aquilo que nele não conseguimos controlar.

Daí que não estabeleça pontes entre a minha actividade de escrita poética e o meu esforço de reflexão sobre a poesia e a criação em geral (que é um esforço de índole assumidamente lógica). Há muitas dimensões da minha poesia sobre as quais nem discorro. E raramente tento aplicar um conceito teórico num poema.

Ponho-me, portanto, nas mãos da minha saúde mental. Espero não sofrer de múltiplas personalidades, e que as diferentes facetas da minha vida intelectual se relacionem umas com as outras com um mínimo de coerência aceitável.

domingo, abril 18, 2010

Partilha 81

as sete ex-maravilhas

o farol de alexandria
(o sol)
e o olhar que o quer olhar sem escolhos infinitivos
e quatro botões
que aos quatro ventos abrem casas
ex-sedentárias:
norte sul sim não

talvez não valha a pena dizer o mundo
em poema
se p'ra quase ninguém
o mundo soa enxuto
(Façamos
uma eternidade de silêncio
pelas vítimas deste minuto?)

Gostaria de ter escrito 7

"For unless you own the whale, you are but a provincial and sentimentalist in Truth."

"Champollion deciphered the wrinkled granite hieroglyphics. But there is no Champollion to decipher the Egypt of every man's and every being's face."

Herman Melville