quarta-feira, março 17, 2010

História de um prurido

Nunca me pareceu que a comédia romântica fosse um género tão relevante e frutuoso quanto o western (com o seu impulso de inventar uma mitologia americana, apesar da encenação estereotipada do índio só poder merecer a nossa maior condenação), o filme de guerra (que se dedica a um tema tão pungente que acaba por ter de desaguar em ambição), o filme negro (influenciado por uma literatura musculada e trabalhado por realizadores de muito talento), o filme de suspense (que Alfred Hitchcock assumiu, revolucionou e aperfeiçoou ao ponto de ainda hoje ser uma sombra que ridiculariza os seus muitos imitadores), a ficção científica (cuja ambição é metafísica, para o melhor e para o pior), a comédia burlesca (o mais belo dos géneros, e que, por isso mesmo, acabou), ou até a comédia musical (que precipitou a maturidade do uso da cor).

Basicamente, a comédia romântica faz a apologia do casamento, e a sua desenvoltura no passado será certamente explicada pelo facto desse contrato ter funcionado como missão, carreira e destino da mulher (seu público-alvo) até aos anos sessenta. A partir do momento em que os dados da vida sentimental adquiriram outra inteligência, a comédia romântica tornou-se um mero exercício de indigência delicodoce. Poucos exemplos o cinema moderno conseguiu oferecer que se comparem com "His girl friday" de Howard Hawks, "Heaven can wait" de Ernst Lubitsch ou "It should happen to you" de George Cukor.

"Up in the air" ("Nas nuvens") faz o check-in de todas as regras, antiquíssimas, do género. Até o facto do protagonista ser George Clooney, de quem a imprensa cor-de-rosa vende a imagem de solteirão inveterado, é um jogo que os realizadores mais sagazes sempre souberam jogar (Cukor brincou com a arrogância de Katharine Hepburn em "The Philadelphia Story", parte da filmografia de Marylin adquire sentido a partir dessa estratégia, etc.). O que dizer? Tudo bem feitinho, argumento composto com todas as regras da escrita criativa, realização sem grande força nem imaginação, mas também sem erros. Como é que Jason Reitman não tentou sequer encontrar uma maneira de filmar que fosse "up in the air"?

O prurido que intitula este post deve-se ao facto de esta comédia romântica, que, mais do que fazer a apologia do casamento, é uma celebração dos valores familiares, usar como pano de fundo para o seu argumento a vaga imparável de despedimentos que a recente crise económica desencadeou. O sofrimento social é só mesmo isso: um pano de fundo para um devaneio de sentimentalismo. Nada é dito de substancial sobre o drama do desemprego, sobre as suas consequências sociais e psicológicas ou sobre a maneira específica como ele se está a revelar neste momento da História. Enquanto via o filme, eu perguntava-me se, de um ponto de vista ético, ou mesmo político, isto é aceitável...

Mas depois lembrei-me de Hitchcock, e das suas histórias de amor (pois era isso essencialmente que ele filmava) desenvolvidas no contexto da Segunda Guerra Mundial. É claro que aí há alguma diferença: o realizador britânico nunca escondeu a vontade de participar no esforço de propaganda bélica através do cinema (e, por uma vez, até estamos todos de acordo com esse esforço, da direita à esquerda...). Ou seja, ele estava afinal a pronunciar-se sobre o seu pano de fundo. De qualquer modo, a guerra dos seus filmes é um papelão superficial que não sei se será ainda hoje aceitável perante tudo o que sabemos sobre o conflito, desde Auschwitz até Hiroxima.

Não sei se devo tolerar a irresponsabilidade de "Up in the air" e esquecê-lo com a bonomia que se empresta às coisas irrelevantes, ou se preciso de moderar a minha admiração por Hitchcock. Ou então, se a diferença entre os dois casos é, de facto, significativa. Gostava de saber a opinião de outros cinéfilos.

Gostaria de ter escrito 6

"Glimpses do ye seem to see of that mortally intolerable truth; that all deep, earnest thinking is but the intrepid effort of the soul to keep the open independence of her sea; while the wildest winds of heaven and earth conspire to cast her on the treacherous, slavish shore?"


Herman Melville

domingo, março 14, 2010

Anabaptismo

O inominável é o nome dado àquilo que ainda está inominado.

Nota "Mulheres traídas"

O amor será talvez o tema dos piores filmes. E dos melhores, também.

O documentário "Mulheres traídas [making of]" de Miguel Marques coloca a sua pedra-de-toque no lugar deste paradoxo. Ele é o registo da rodagem de um filme de ficção realizado por Maria José Silva, magnífica personagem da cidade do Porto, comerciante amadoramente dedicada ao cinema, à escrita e à música.

Por um lado, o documentário é um retrato indirecto do sofrimento sentimental da Mulher no passado recente (aquilo que Maria José Silva tenta exprimir através do melodrama). Nesse sentido, Marques não se limita a fazer o making of de um filme, mas consegue capturar o making up que esse filme constitui sobre uma verdade vital.

Mas é por causa disso mesmo que esta obra é também o registo de uma evidência que os críticos fingem desconhecer e que os públicos na verdade desconhecem: muitas vezes, o amor que temos pelo cinema é mais eloquente do que os filmes que efectivamente fazemos. Tim Burton também andou por aí quando fez "Ed Wood". Para que serve a cultura se não passar de apanágio da inteligência estéril de uma elite?

Apenas criticaria Marques por não ter conseguido dominar todos os aspectos técnicos do seu filme, de modo a criar uma distanciação mais significativa perante a "naïveté" do objecto documentado. Contudo, presumo que a obra foi feita com meios demasiado frágeis para conseguir atingir esse nível de acabamento.

quinta-feira, março 11, 2010

Gostaria de ter escrito 5

"Um vício da sociedade faz da minha rectidão um vício."

Jean Cocteau (trad. Aníbal Fernandes)

Por intuição

Após trinta e sete anos de experiências, leituras e conversas, tenho a convicção de que a valorização da castidade feminina e o preconceito contra a homossexualidade não têm nenhum fundamento ético, muito menos transcendente, mas poderão ser facilmente explicados com recurso à antropologia (que é uma área do saber sobre a qual muito pouco sei).

Se os conservadores gostam de humilhar os homossexuais com o argumento de que, na natureza, não há maricas (o que já está provado ser uma mentira), nunca os ouço falar do famigerado recato erótico das cadelas e das gatas (pois são famosas as Lassies de convento, os Clubes das Virgens Labradoras, ou as Kitties que durante o dia brincam com novelos e à noite cuidadosamente os refazem com o intuito de atrasar o cio dos pretendentes sobre os telhados).

Eu diria que a cultura de castidade feminina (que persiste no cristianismo, no islamismo, na mundividência cigana, etc.) serviu simplesmente para contornar o problema da probabilidade de gravidez que resulta do acto sexual. Alguns povos índios da Amazónia tinham acesso a plantas capazes de funcionarem como contraceptivos durante vários anos, plantas essas que eram fornecidas às raparigas adolescentes para elas poderem gozar de grande liberdade sexual até ao momento de assumirem uma certa conjugalidade (digo "uma certa" porque muitas tribos não tinham expectativas em relação a enlaces para a vida inteira). Estes povos capazes de uma efectiva alternativa de sociedade foram considerados bárbaros demoníacos pelos colonizadores europeus.

Se a evolução da ciência e do pensamento nos fizeram perceber que não há éticas absolutas (e acima de tudo que ninguém, mas mesmo ninguém, está na posse de um razão moral indiscutível), a generalização da contracepção deu a machadada final na utilidade de tal cultura. Curiosamente, a cultura mantém-se, muito mitigada, é certo, mas mantém-se, como um laivo de fanatismo.

De igual modo, o preconceito contra a homossexualidade dever-se-á à esterilidade reprodutiva dos actos sexuais que lhe estão associados, o que constituiria uma ameaça à preservação da espécie. Nem sequer vou falar da possibilidade contemporânea de reprodução artificial, mas apenas lembrar que somos um planeta humanamente sobrepovoado, que as reais ameaças que se colocam à espécie não resultam da baixa demografia (mas sim do pânico nuclear ou da irresponsabilidade ecológica), e que a crise de natalidade nos países desenvolvidos do Ocidente é o resultado de uma nova cultura, a cultura do conforto, que dita altas expectativas de padrão de vida a todos aqueles que tentam constituir família.

Não há nenhuma razão verdadeiramente válida que sustente a permanência da homofobia no mundo dito civilizado. Homofobia muita mitigada, claro, mas que se mantém, como outra forma de fanatismo.

Somos uma espécie moderna, mas cheia de tiques antigos.

segunda-feira, março 08, 2010

Casting 13

Gosto de amadores, de naturais, daqueles que se expõem, daqueles que partilham uma verdade em carne viva, dos que vivem do seu carisma, de cabotinos, de mestres da dicção, de actores do Método, de actores de composição. Gosto de alguns indivíduos a despeito das (des)técnicas em que se protegeram. Mesmo assim, se é lamentável ter estima por Emma Thompson, muito pior é torcer por Meryl Streep.

Streep tem o génio do drama. Se alguma inteligência revelou ao nível da gestão da carreira, ela revela-se na aproximação ao registo de comédia a partir de uma certa idade: as suas performances não serão aí tão consensuais, mas o seu rosto-de-tearjerker conseguiu assim conquistar uma fotogenia agri-doce que impediu uma excessiva cristalização da imagem da vedeta.

De qualquer modo, Meryl Streep está demasiado conotada com a corte de Hollywood (as constantes nomeações para os Óscares são muito mais uma sinalização dessa fidelidade do que um registo rigoroso do mérito). Praticamente não correu riscos ao longo de uma carreira assumida enquanto tal. Nem é preciso pensar em Isabelle Hupert como contraponto. Basta lembrar Ingrid Bergman, e a sua facada nas expectativas do entertainment às mãos do improvável Roberto Rossellini. A verdade é que me é difícil recordar grandes obras-primas beneficiadas com a sua presença: "Manhattan", certamente, definitivamente "The deer hunter" (na minha opinião, o melhor filme sobre o Vietname). Nunca vi o filme de Karel Reisz. Mas, por favor, não me chateiem com "Out of Africa".

Então, porquê a minha devoção à actriz?

Quase todos os grandes intérpretes atingem um ponto de esgotamento. Basta seguir as filmografias de Anthony Hopkins, Jeremy Irons ou Montgomery Clift, para nelas encontrar constantes manifestações de tédio, de frete, de compostura meramente profissional. Certos actores, como Sean Penn ou Elizabeth Taylor, estão tão possuídos por uma ambição sisuda que ela lhes tolhe a verdade dos gestos. E outros, como Jack Nicholson ou Bette Davis, resvalam muitas vezes para esse insuportável número de circo chamado preguiça.

Ora, nada disto vejo em Meryl Streep. O que eu sempre reencontro no ecrã que a recebe é uma espécie de prazer desmesurado no virtuosismo da composição, um prazer que me parece absolutamente intocado e que constituirá a principal razão da anormal longevidade do seu sucesso. Streep continua a adorar representar, e fá-lo com a mesma disponibilidade (e inteligência lúdica) da sua juventude. Em todos os filmes, em todas as cenas, em todas as personagens. Sem excepção. Nisso, não tem rival no contexto anglo-saxónico. E para nós, espectadores, é um prazer seguir o seu prazer.

domingo, março 07, 2010

Partilha 76

dignitas


sempre quis ter uma casa
na aldeia
p'ra poder comer castanhas a olhar a cor das árvores
a minha prof de ciências
tinha uma
mas queria ter casa em istambul
p'ra poder tomar chá a olhar o bósforo

diz-se
(zzzzzzz)
que daqui a cem anos ninguém morre
lamentável:
porque é que eu não nasci ontem?
(houston, houston
we have a problem)

quarta-feira, março 03, 2010

Galeria Murnau 2

Tradução 21

Versão pessoal de um soneto de Shakespeare:


Se nada há de novo, mas aquilo que é
Já foi, quão iludidas estão nossas almas
Que, julgando inventar, sofrem em ritornelo
O parto vão de criança previamente nada?
Ah, pudesse um registo, um olhar de regresso
Ao longo de quinhentas viagens solares
Mostrar-me a tua imagem num livro senecto,
Pois primeiro foi feito o espírito em carácter,
P'ra que eu visse o que o mundo antigo conseguiu
Dizer deste composto assombro do teu estado;
Se eles tinham razão, se o tempo os corrigiu,
Ou se a revolução é um dado inalterado.
.....Ah, estou certo, o talento que houve previamente
.....A temas piores prestou o seu louvor ardente.


O original (junto com um comentário meu) pode ser lido aqui.

Dedico esta tradução à poeta Luiza Neto Jorge.

segunda-feira, março 01, 2010

Partilha 75

ensaio limícola


quando eu era viciado
em anti-heroína
manuscrevia poemas de muitíssimo mau gosto
um deles começava assim:
"itálicos meus (....:..)
má fortuna (....:..)
amor ardente (....:..)"

bi(bli)ografia:
luís
um rapaz intocado,
uma cereja que não comi em noventa e sete,
e um Banquete
de onde me escaparei
sem pagar o borrelho (che-ke che-ke che-ke)

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Partilha 74

pangeia (movie mistakes)


para bebermos como se não houvesse amanhã
é preciso que primeiro
qual sinfonia dourada
o continente crepuscule o seu conteúdo
(dlam dlam)
é preciso termos o fogo
debaixo da língua

às vezes
a gente junta-se
em torno de um bom macarrão
e navegamos no que em nossas almas vai
"vizinhorum
num sabebo porquorum viva sunt"
"id est milionem dollorem questiona, questionae"

domingo, fevereiro 21, 2010

No cinema

Tom Ford diz que se pode começar a vida como eau de toilette e acabá-la como perfume. Esta vontade de ascensão-espiritual-via-sétima-arte só pode irritar quem vê o cinema como prolongamento natural da sua raiva, do seu erotismo, do seu pensamento. Ou seja, o senhor continua com mais vontade de desfilar na passarela que de levar a bom termo cinematográfico o simpático gesto com que posou para a foto ao lado.

Dito isto, o seu filme ("A single man") é bastante interessante. Mas é o filme de um novato, no mau sentido do termo. O recurso constante à ampliação do ponto de vista subjectivo do personagem principal para lhe revelar o pensamento, manifesta uma certa falta de imaginação especificamente cinematográfica (o mesmo vale para os flash-backs, as sequências oníricas, os rallentis, a voz-off). A fragilidade é ainda mais gritante na incapacidade de atingir um tom verdadeiramente libertador nas sequências finais (mas isto talvez seja subjectivo). Terá ele visto "Bleu" de Kieslowski?

Fico mais motivado pelo descaramento de dar um papel ao modelo Jon Kortajarena só para lhe dizer que ele tem um rosto notável (aqui Tom Ford está despido). De qualquer modo, ele é ambicioso, tem um bom gosto razoável, uma apetência pelo rigor, e um talento nato para dirigir actores (Colin Firth muito bem, mas também Juliane Moore, toda entregue ao prazer de representar). Welcome.

No teatro

Recentemente fui três vezes ao teatro, o que corresponde a uma espécie de fartura anómala no seio da minha relação difícil com essa arte. Assisti a:

1. "A letra M" - recriação, pelo Teatro da Rainha, do texto alemão medieval "O lavrador da Boémia" de Johannes von Saaz, em simbiose com o universo plástico do recentemente falecido João Vieira. Apreciei sobretudo a interpretação de António Durães (a personificação da Morte), muito decalcada de clichés do cinema mainstream, em contraste quase-ontológico com a rudeza e a ausência de sofisticação do impotente Paulo Calatré (um lavrador metafórico). Muito interessante também a coreografia do movimento do mesmo Durães, aproveitando o dramatismo latente do espaço cénico do Convento de São Bento da Vitória. Talvez tivesse preferido uma tradução mais arcaizante do texto, na medida em que não me parece que ele seja "actualizável" (ou seja, há objectos cujo anacronismo formal não impede a sua pertinência material). Continuo sem perceber os méritos do uso do audiovisual no teatro (isso sou eu que não gosto de obras de arte totais...). Mas agradeço a Fernando Mora Ramos o ter-nos levado, personagens, actores, público, à presença de Deus himself. Quando, no fim, um dos intérpretes revelou a circunstância biográfica que está na base do texto (a morte da mulher do seu autor), a verdade instalou-se em cena.


2. "A cidade" - Ao contrário do caso de von Saaz, o teatro de Aristófanes ganha imenso em ser "modernizado" (é menos nobre, está mais vocacionado para o presente específico no qual vai ser encenado). Aliás, percebe-se a intenção do Teatro da Cornucópia de querer recrutar, para efeitos de intervenção cívica semelhantes aos pretendidos pelo comediógrafo grego, os actores cómicos do momento. Poderiam ter sido os Gato Fedorento, mas, à excepção de Ricardo Araújo Pereira, eles não são propriamente "intérpretes". A escolha recaiu, e muito bem, nos Contemporâneos. Bruno Nogueira tem piada, de facto. Maria Rueff também. Mas eu destacaria o trabalho de Nuno Lopes, que se está a tornar um mega-actor, convincente em todos os registos, e de Luísa Cruz, que eu nunca tinha visto nestes preparos. Francamente, este humor não me convence muito (isso sou eu, que só gosto de cómicos que gozam sobretudo consigo mesmos...). A parte mais brilhante do espectáculo foi o fim, com o encenador a conseguir dominar na perfeição o dificílimo tom do texto (a evocação de uma utopia ornitológica), que noutras mãos teria certamente descambado em pleno desastre. Luís Miguel Cintra conhece a intuição, a irrisão, o humor e o prazer do poeta.

3. "Facas nas galinhas" (na foto) - Este texto de David Harrower é muito belo. A meu ver, aborda a questão do "génio" abafado pela falta de horizontes do mundo rural (tema que Agustina também tratou, e magistralmente, num dos seus "Contos impopulares"). Pareceu-me tudo muito bem feito pelo Teatro dos Aloés, e Carla Galvão é esplendorosa na sua rudeza. Senti falta do cinema, contudo.

Galeria 49




Guillaume Apollinaire
(por Maurice de Vlaminck)

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Tradução 20

Poema "Annie" de Guillaume Apollinaire, traduzido por mim:


No litoral do Texas
Entre Mobile e Galveston fica
Um grande jardim bem cheio de rosas
Contém ainda uma moradia
Que é uma grande rosa

No jardim costuma dar passeios
Uma mulher completamente sozinha
E quando eu passo na estrada bordada de tílias
Nós olhamos um para o outro

Como a mulher é menonita
Suas roseiras e roupas não usam botão
Faltam dois no meu jaquetão
Eu e a dama seguimos quase igual doutrina


(O original pode ser lido aqui)

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Partilha 73

ghost righter


no outro dia
cometi um pecado
meti água:
não fodi um rapaz de dezoito anos
mais estilo terei p'ra escrever do que p'ra viver?
as coisas não se põem
assim

antes
queria reencarnar em mariposa
mas agora acho melhor
pôr-me a jeito do besouro
(sem problema
o processo será narrado
por sir david attenborough)

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Alguns mitos

1. Sobre pintura - Há pessoas que, perante um quadro isento de virtuosismo mimético, exclamam: "eu também fazia aquilo". Ainda que não se tome em conta o facto de a sensibilidade plástica ser necessária em todo o tipo de gestos (mesmo que esse seja o gesto de Jackson Pollock), e que, por isso mesmo, não vale tudo (no limite, o problema não é haver quadros pintados por macacos, mas é haver críticos sem sensibilidade para a plasticidade dos macacos...) a verdade é que, quando uma pessoa diz "eu também fazia aquilo", está a colocar-se a si mesma na posição do imitador. Dito de outro modo, não há nenhuma relação entre o menor espalhafato tecnicista de uma sensibilidade plástica e a originalidade e individualidade que ela pode oferecer.



2. Sobre poesia - Entre os muitos lugares-comuns que infestam a vivência da escrita poética, há dois mitos tão simétricos entre si que se auto-anulam. No passado, havia quem achasse que a poesia era uma arte muito difícil, a que só os eleitos teriam acesso activo. Presumo ser esse o tipo de cultura que servia de motivação a um autor como Eugénio de Andrade. Quem, como eu, já tentou escrever um romance e falhou redondamente, sabe como é francamente difícil engendrar uma boa prosa de ficção... No presente, auras passadas à história (mas quem perante a evidência ousa falar de aura?), dizem-me que a poesia é coisa demasiado fácil de fazer, não escancara trabalho, virtuosismo, investigação. Espero que, no futuro, se perceba que um homem se encontra perante a poesia como perante qualquer outro fazer, que a sua compreensão profunda exige o mesmo nível de acasos, inclinações e aprendizagens, e que é francamente provável, e até desejável, que a existência de um bom poeta seja um fenómeno mais raro que a existência de um bom amante ou de um bom amigo.



3. Sobre a metáfora - As pessoas que condenam o uso da metáfora com o argumento da obliquidade (como a metáfora não chama as coisas pelos seus nomes, o seu efeito seria mais ornamental do que interventivo) são as mesmas que desconfiam da relação entre as palavras e as coisas que as palavras denotam. Ora, se a palavra corpo não é capaz de referir o objecto corpo com toda a propriedade, por que razão não posso eu aludir ao objecto corpo através de uma outra palavra qualquer?

domingo, fevereiro 07, 2010

Não, a pintura não está morta



(Fotografia de Virgílio Ferreira)

Contra Platão

Ao terem intuído as possibilidades da lógica, os sábios da Grécia Antiga encontraram o conceito de unidade. Ou seja, perceberam que o devir presente em todos os fenómenos ocultava uma dimensão imutável, uma essência, que podia ser explorada pelo pensamento.

A ciência veio dar-lhes razão: os homens descobriram que era possível explicar o mundo de acordo com leis universais (por exemplo, a Teoria da Evolução foi construída com base nos indícios cada vez menos refutáveis de um princípio comum a toda a vida terrena).

No entanto, a beleza da lógica talvez tenha tolhido a liberdade do pensamento grego na sua aplicação à especificidade do comportamento humano. Pois, se podemos falar de uma unidade-absoluta a propósito das disciplinas que orbitam em torno da matemática (os físicos continuam a tentar arranjar uma teoria única, universal, simples, que explique a totalidade do universo), não podemos aplicar o mesmo discurso às humanidades (política, economia, sociologia, psicologia, cultura, religião, etc.) sem provocarmos sofrimento aos próprios seres humanos.

É claro que a nossa espécie só se consegue organizar em torno de analogias do conceito de unidade (Deus, o amor, a família, a nação, a etnologia, etc.), mas a unidade, enquanto invenção do humano, só é respirável numa prática de relatividade.

Relatividade, mas não relativismo. A ambição da unidade é essencial à sobrevivência (desde logo, não conseguiríamos ter uma auto-consciência de espécie sem esse apriorismo). Mas essa unidade já não pode ser governada pela matemática, mas sim pela linguagem, que não é um fenómeno de pura arbitrariedade como por vezes se pretende, mas a medida mais justa que o homem arranjou de a si mesmo se entender e em si mesmo intervir.

É difícil não esboçar um sorriso perante as gravíssimas preocupações metafísicas de São Tomás de Aquino (se bem que tudo isso me apaixone, como me apaixona a literatura de Lewis Carroll ou Benjamin Péret). Mas ainda mais difícil é não sentir um amargor profundo perante os cínicos que desconfiam a palavra.

É o nosso instrumento. Aquele que nos permitiu inventar o amor sem o sabermos definir de forma fatal. Aquele que nos permite inventar o neologismo que abraça cada nova impertinência na generosidade sempre crescente da unidade-relativa. Aquele que nos permite construir um plano de transparência sobre o mundo, esse papel-vegetal onde o imitador se confunde com o opressor sem imaginação nem liberdade. Aquele onde podemos distinguir o invisível literal do invisível metafórico.

Excerto de uma carta de amor 4

.......olhe, escrevo-lhe para lhe apresentar, de antemão e por mão própria, o príncipe que em mim mesmo sou. Nem imagina: vivo num mónaco interior de tal modo luxuoso que não me faltam pajens para apajearem as virtudes, aias para suspirarem pelas derrotas ou bobos para ocultarem a sordidez sob um manto de refinada ironia. Sapatos de cristal, vistas sobre a rivièra, boatos de paparazzo: tenho tudo isso sob a forma de desregulamentos de insulina, ousadias de colesterol, ou penosas dores musculares. Chego a pensar que sou mesmo o príncipe dos pedroludgeros, pois de outra coisa talvez não pudesse ser. Espero assim conseguir cegá-lo o suficiente para que, no nosso primeiro encontro, não precise de me engolir como quem engole um beijo........

Confissão do adulto

Não endeuso a minha infância particular (apesar de ter sido uma época suficientemente serena para não me deixar demasiadas recordações), nem me considero propriamente um nostálgico (preferia, aliás, que a vida me corresse bem agora, ou daqui para a frente).

Se dou tanta relevância à infância na minha reflexão, é porque esse é o único momento da vida em que os humanos acreditam mesmo, e com pujança física, na possibilidade de serem felizes sem mácula. Ora, essa evidência (essa convicção) parece-me ser o ponto de partida a partir do qual podemos elaborar uma ética, um empenhamento político e/ou uma aventura criativa, sem precisarmos de recorrer a uma fundamentação transcendente.

A suivre.

Publicidade

Pergunto-me quais as consequências de um tipo de organização económica que baseasse a sua dinâmica no valor intrínseco dos produtos (e dos recursos), e não na possibilidade de lucro obtida a despeito desse valor?

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

O INACTUAL 44

"Adieu, plancher des vaches!" - Otar Iosseliani (1999)


O cariz onírico dos filmes de Otar Iosseliani não obedece meramente a um princípio de evasão, mas constitui-se como o ponto de partida de um discurso radicalmente comprometido.

"Adieu, plancher des vaches!" retoma a encenação de um microcosmo social relativamente estável (apesar dos elementos que surgem e desaparecem), onde todos os seres se afectam de forma mais ou menos consciente. Se a circunstância deste grupo humano ser descaradamente sui generis afasta a ficção de pretensões de exactidão realista, também não a aproxima da articulação de uma utopia. De facto, parece ser possível (comédia) iludir a condição social verdadeira (o pobre que se faz passar por rico e vice-versa), mas já não é provável que se possa escapar às consequências dessa ilusão (a rapariga casa com o primeiro). Se os personagens não estão conscientes desse drama, são pelo menos suficientemente sinceros consigo mesmos para saberem que nenhum estatuto oferece uma compensação satisfatória.

Para além de cada um ser louco à sua maneira (a escolha de um meio de transporte obedece menos a imperativos utilitários do que à necessidade de tornar visível o nível de refinamento do estilo pessoal...), o seu quotidiano (mais ocupacional do que propriamente laboral) parece não passar de um método de regresso obsessivo ao sexo, ao vinho e à música. No seio desta anarquia de cunho existencial, há tempo para celebrar os mitos da amizade (o encontro de almas gémeas fora do espectro das complementaridades sociais e sexuais) e da liberdade (o personagem interpretado pelo próprio Iosseliani abandona o seu pequeno mundo de comboios eléctricos, evidentes metáforas do gozo da criação fílmica, para se lançar numa viagem sem destino que seria quase demagógica se não representasse, precisamente, uma alternativa simbólica à prisão que até o cinema, plancher des vaches, impõe).

A solidariedade poética que o autor devota às personagens não o impede de representar a crueldade que elas possuem, sem precisar de recorrer a quaisquer moralismos: a mulher excêntrica que não aceita as excentricidades do marido, o rapaz de boas famílias que abandona o amigo depois de ambos saírem da prisão, o marido que mata a mulher após uma discussão, a criança inteligente que participa na vida criminal, o trabalhador incompetente que se vinga no despedimento de outro trabalhador, etc.

Parece que a Humanidade, apesar de ser muito humana, não é flor que se cheire. Iosseliani conclui: com a passagem do tempo, as coisas mudam, mas não necessariamente para melhor.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Domingo, em Serralves...



"El angel exterminador", de Luis Buñuel

Partilha 72

datação por carbono 14


se eu deixar por limpar
esta mancha no tacho mal lavado
estarei
por ventura
num salão árabe
sob a luz admirável de mil e uma pedrarias
de hesitação

ah ah ah ah ah
sobreviver
é sempre politicamente in-cor-recto
pois quem ri por último
ri com mais cagança
- samira, vai-me comprar cueiros
que eu quero pensar a criança


Nota: "pensar uma criança" é uma expressão antiga que significa "mudar ou limpar os cueiros".

O Emerson String Quartet interpreta um contraponto da "Arte da Fuga" de J. S. Bach.

domingo, janeiro 31, 2010

Partilha 71

modus vivendi ?


espero
que a ternura dos quarenta
não seja uma massagem administrada num spa
(dizem que custa os olhos da cara
e só eles
ai de mim
não botaram gordura)

o melhor é escorregar numa casca de banana
e fingir que sou um poeta do passado
tísico
claro
em direcção a um país sem norte
onde já ninguém grita
e onde o sol é sempre um coque

É sem pompa nem circunstância...

... que anuncio o personeto, uma forma poética que inadvertidamente encontrei, e que servirá de molde de construção textual numa das secções do livro "quarenta graus à sombra" (cuja redacção foi iniciada com o poema que partilhei aqui). Estive para baptizar a dita forma com o nome soneto ludgeriano, mas não o conseguia pronunciar sem me desatar a rir.


As características do personeto são as seguintes:

1. O destaque compositivo será dado aos números 2 e 7, o que implica que o soneto será sempre composto por duas estâncias de sete versos, ou por sete estâncias de dois versos (esta última situação será mais rara).

2. As estâncias serão caracterizadas por uma heterometria muito contrastada (podendo as medidas dos versos variar entre uma e catorze sílabas métricas).

3. O tom do poema permanecerá doméstico e gracejador, a despeito da violência do fundo metafórico.

4. Serão bem vindos os diálogos, os parêntesis, as onomatopeias.

5. As duas dimensões sensitivas que um texto pode trazer (imagem, som) serão invariavelmente aludidas em cada poema (ainda que de forma muito oblíqua).

6. Cada soneto terminará com uma chave de ouropel, que terá um sabor infantil (uma emoção fácil de rebuçado), e onde se manifestará a única rima forte do poema.

7. Estas regras não constituirão um dogma, e desejam ser, a qualquer momento, transgredidas.



No post acima, está outro exemplo de personeto.

Galeria Murnau 1



Murnau am Staffelsee
(a vila de cujo nome o realizador tirou o seu pseudónimo - supostamente)

Morreria se tivesse escrito 1

"Em todas as épocas houve pessoas diferentes, mas se a diferença se espalhar a sociedade fica em perigo."

António José Saraiva

sábado, janeiro 30, 2010

Gostaria de ter escrito 4

"La rationalité (...) consiste précisément dans l'adaptation continue de notre langage à un monde en continuelle expansion (...)."

Mary Hesse (citada, e presumo que traduzida, por Paul Ricoeur em "La métaphore vive")

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Partilha 70

arte poética n


não é que catar os piolhos da cabeça de um filho
corresponda
a fazer um serviço da vista alegre
mas era exactamente essa correspondência
que eu queria
hoje
escrever

juro
que tentei fazer poemas
sobre esse único assunto da poesia que é a morte
mas sobrevivi
(dlam dlam dlam
os sinos que já não se ouvem na cidade
ouvir-se-ão aqui)

terça-feira, janeiro 26, 2010

A zero dimensões

O filme "Avatar", de James Cameron, é de tal modo inócuo que não me aquece nem me arrefece. Mas hoje, no jornal PÚBLICO, um crítico de má fé dizia que o posicionamento de um espectador perante a obra seria revelador da sua fibra política. Ora, essa insinuação merece-me alguns comentários.

Não tenho razões nenhumas para duvidar das convicções ideológicas do realizador da obra em questão. Aliás, Hollywood gosta de manifestar a sua tendência esquerda suave, desde Sean Penn de mangas arregaçadas em New Orleans até à obsessão adoptante de Angelina Jolie. Mas também não tenho razões para duvidar da profunda incultura dos fazedores de cinema industrial, não querendo com isto dizer que por lá não se lêem muitos livros, mas que são raros os cineastas que trabalham nesse contexto e que pensam a fundo o seu métier. Nem sequer é suposto que o façam...

Cameron parece querer estabelecer um discurso sobre o Outro (imediatamente, o modelo é o índio da Amazónia, mas o árabe também está na mira, o que é desde logo estranho, pois qualquer semelhança entre as duas situações é pura coincidência). Se o objectivo era esse, pergunto-me qual terá sido o motivo que o levou a substituir a tentativa de construção de uma imagem desse Outro (veja-se o notável esforço de Audiard em "Un prophète") pela imagem de um efeito especial que se confunde com o bestiário disney e o imaginário alien de Steven Spielberg? Dir-me-ão que é uma parábola, e que eu até sou um nerd do simbolismo. No entanto, quer-me parecer que a referência cultural escolhida é tudo menos dignificadora desse Outro. É como se Cameron não soubesse nada do índio (como eu não sei), e também não quisesse, profundamente, saber (só que eu não quero fazer filmes sobre os índios). Aliás, não teria sido interessante recorrer a um modelo de narrativa mítica próximo da sensibilidade cultural desses povos da floresta, em substituição da forma gasta e gasta e gasta do screenplay hollywoodiano?

Ouvi opiniões de alguns espectadores dizendo que a história do filme era the same as usual, a sua mais-valia sendo apenas o panache tecnológico. Não sei como Jorge Mourinha ainda não percebeu que a forma de transmitir a mensagem é mais determinante, do ponto de vista político, do que a espuma superficial da própria "mensagem" (pois isto não é jornalismo, nem ensaísmo). O público já o percebeu. Aliás, uma das visões mais nobres do Outro que o cinema americano produziu recentemente é o filme "Letters from Iwo Jima" de Clint Eastwood, cineasta conservador.

Para além das suas piroseiras pseudo-poéticas dignas do quadro do menino com a lágrima ao canto do olho, o filme de Cameron está cheio de teias de aranha: o 3d é um efeito muito antigo, a forma narrativa é mais velha que o António Pedro Vasconcelos, não há nenhuma inovação ao nível da montagem (isso custa, o Eisenstein pensou-a sistematicamente, o Godard teorizou-a em boutades), do som, da representação dos actores (já agora, onde é que eles estavam?). Enquanto espectáculo, "Avatar" nem se consegue aproximar do "Titanic", que era um blockbuster tão histérico que acabava por nos afundar com ele. A relação do espectador com o próprio cinema também não é beliscada em nada: Cameron continua a querer produzir um espectáculo de feira, como quiseram os pioneiros da história dessa suposta arte (o espectador é o paraplégico circunstancial que se identifica com o seu avatar no ecrã). Durante o visionamento deste futuro do cinema, lembrei-me com saudade de um simulador com que me diverti na Eurodisney, mas logo a seguir tremi de horror: no próximo "maior-filme-de-sempre-o-mais-caro-e-o-que-vai-ganhar-mais-óscares" que o realizador fizer, vamos ter de usar coletes ortopédicos para protegermos a coluna dos solavancos que as cadeiras da sala de cinema nos vão proporcionar.

A oeste nada de novo: só o aprimoramento da tecnologia. Dir-me-ão que é o futuro do marketing do cinema. Eventualmente. Mas então eu digo ao senhor Cameron que a destruição da floresta tropical e das civilizações que nela floresciam se deveu, precisamente, a um primeiro momento de glória de um funcionamento da economia, o capitalismo (que não se chamaria ainda assim, claro), em que o valor intrínseco de qualquer produto é secundarizado perante a possibilidade de geração de lucro. Ora, "Avatar" é um objecto capitalista declarado (com tudo o que, de positivo, isso traz: postos de trabalho, liberdade de consumo, etc.). Os críticos da sua suposta mensagem de esquerda não têm motivos para estar alarmados: o espectador, ao sair da sala de cinema, não se vai tornar um guerrilheiro da "Greenpeace" (sobre a possibilidade da arte mudar o mundo, já me pronunciei aqui).

E quanto à ecologia do cinema? Quantas espécies de cinema estão neste momento em vias de extinção, porque este tipo de estética definitivamente triunfou e está a secar todas as outras possibilidades à sua volta? Presumo que algum leitor me vá insultar com a palavra "intelectual" (mais je ne m'accuse pas). Quem tem tido a bondade de me ler, saberá que tenho tentado, ao longo da feitura deste blogue, falar das mais diversas possibilidades de cinema, e que me mantenho aberto a todos os debates que envolvam cinéfilos militantemente apaixonados. Estou, isso sim, empenhado no salvamento da floresta selvagem, perigosa, abundante e inesgotável, do cinema.

Alguma vantagem em "Avatar"? Claro: a intuição de que, quando encontrarmos os marcianos, são eles que têm de ter medo de nós.

domingo, janeiro 24, 2010

Barbershop style...

... ou como o meu ouvido é muito mais indulgente do que eu.

O espaço que se segue é da minha exclusiva responsabilidade

Este blogue não transmite discursos de Hugo Chávez.

Tempo de antena

"Quand, par exemple, Shakespeare assimile le temps à un mendiant, il est fidèle à la réalité profondément humaine du temps; il faut donc réserver la possibilité que la métaphore ne se borne pas à suspendre la réalité naturelle, mas qu'en ouvrant le sens du côté de l'imaginaire, elle l'ouvre aussi du côté d'une dimension de réalité que ne coïncide pas avec ce que le langage ordinaire vise sous le nom de réalité naturelle."


Paul Ricoeur (negrito meu)

Excerto de uma carta de amor 3

.......olhe, a verdade é que obtive esta vida nos ciganos. Faz o mesmo efeito das outras, disseram-me. E disseram-me ainda que, sendo as lágrimas fatais a prazo incerto, mais vale o crocodilo ser apócrifo. Não obstante, sabemos todos que o barato sai caro. Por isso eu quero que você suceda com o grau de exigência que se espera do astronauta, que seja a talha de uma via de acasos em contra-bando. E celebraremos por uma eternidade, devorando vates, sinaleiros e anjos indefesos.......

quinta-feira, janeiro 21, 2010

À pergunta "Pode a poesia mudar o mundo?"...

... eu respondo:


que essa é uma pergunta de mau repórter. Aliás, as possibilidades remotas de um filme ou uma canção impedirem uma guerra (ou de um poema do Manuel Alegre influenciar o próximo Orçamento de Estado) pertencem certamente ao domínio do jornalismo (da intervenção cívica em tempo útil), e não à dinâmica profunda da criação. Mesmo a ideia da mudança interior provocada por um objecto do espírito me parece mais próxima de uma banalidade conceptual que de um processo psicológico facilmente isolável (é preciso regressar a "The Dubliners" de James Joyce, para se entender toda a complexidade romanesca da epifania).

Tenho vindo a namorar a ideia (que, como sempre acontece no meu pensamento, tem vocação universal mas não necessária) de que a poesia se define, ao fim e ao cabo, por um determinado tipo de afectividade intelectual. Na verdade, só o sentido amplo dessa palavra pode abarcar toda a mitologia que em seu torno se espalhou na cultura dos homens.

Poética será toda a emoção que nos permite desvalorizar a transcendência. Independentemente do que pensarmos sobre as efectivas possibilidades de comunicação (falar do amor pode equivaler a falar do sem-remédio do isolamento), a crença afectiva na tangibilidade de tudo aquilo que nos transcende constituirá porventura a essência de um impulso poético transversal a todos os seres da nossa espécie. Falo de crença afectiva, não de convicção de raciocínio.

O autismo é universalmente considerado uma patologia: mesmo o misantropo mais rigoroso terá iniciado a sua biografia como uma criança curiosa. É preciso tocar na mãe, na comida, no brinquedo, na melodia de uma canção, no sexo de outrem, na linha do horizonte. Se tocamos deveras, isso é outra história (é a narratividade do romance). Mas a verdade é que passamos a vida com vontade de falar, de foder, de viajar, de conhecer, porque o mundo assume sempre o papel de um grande sedutor.

O poético estará assim na base de toda a produção humana. Será mais provável que o cientista descubra a sua vocação no consumo de filmes de ficção científica do que no putativo altruísmo da sua consciência. Aliás, a própria ânsia ética da descoberta de uma cura contra o cancro ou contra a sida só é possível na medida em que o Outro humano se apresente tangível, ainda que em alto grau de abstracção. O poético estará na base do pensamento, da vontade generalizada de conhecer, do ímpeto da viagem, do empenhamento humanitário, da própria religião (se Deus não parecesse igualmente tangível, ainda que a um mero nível intelectual, nenhum proselitismo teológico teria tido sucesso).

Uma das frases mais famosas da escrita poética é, precisamente: "Je est un autre" (formulação de sentido inesgotável, mas cuja contradição essencial está intrinsecamente ligada ao que aqui se expõe). A força da obra de Paul Celan, poeta difícil entre os difíceis, deriva em grande parte da ferida de incomunicabilidade que a sua escrita expõe, perante a qual o leitor honesto se sente incapaz de propor uma cicatrização. Não há, aliás, poetastro que resista a fazer uns versinhos de amor: a mediocridade produz sintomas tão válidos quanto a genialidade.

Assim sendo, defendo que o poético está invariavelmente associado ao sublime. Não ao sublime kantiano, e toda a sua erótica quase fascizante, mas àquele sublime (se assim lhe podemos chamar) que sempre acompanha a evidência afectiva, seja ela qual for (corpo humano, bola de futebol, planeta distante...). Estranhamente, a poesia acabou por se confundir com a sensibilidade romântica (aliás, eu reconheço que sou um herdeiro parcial dessa mundividência). Nada poderia ser mais castrador: a poesia consegue mudar o mundo precisamente porque permite que todas as transcendências sejam desvalorizadas (ainda que não supridas). A vanguarda poética depende, pois, da expansão do fascínio e da repulsa (palavras imprecisas, estas últimas). E não há poesia sem ilusão e desilusão.

É a esse nível que a criação se funde com a desobediência, e se torna aliada da filosofia e da política (sem com elas se confundir). Pois o quotidiano é sempre burguês. E o burguês é um empresário de transcendências: classes sociais, impedimentos morais e legais, mentalidade baseada no preconceito, etc. Aliás, a manutenção de todos os gestos da vida na dependência do dinheiro (que, em si mesmo, não vale nada) é o sintoma da incapacidade adulta de praticar o afecto de per si (noutras sociedades e noutras eras, haverá outras formas de institucionalização da cobardia). Caso fosse possível habitarmos um mundo não burguês, a poesia continuaria a acompanhar-nos, num esplendor inofensivo.


P.S. - o facto de ter sido a escrita a quem coube o privilégio do sentido estrito de "poesia" é um assunto distinto, e que carece de distinta reflexão.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

domingo, janeiro 17, 2010

O registo da vertigem

Algumas palavras sobre o mais recente livro que editei, e que foi ontem apresentado num filo-café em Vila Nova de Gaia:


Independentemente da opinião dos seus prováveis leitores (que é a opinião que verdadeiramente releva), os meus "sonetos para-infantis", escritos entre 2002 e 2003, (há uma eternidade, portanto) constituem a primeira colectânea de poemas que eu assumo como estando plenamente dominada. Nenhuma vaidade aqui: quero apenas dizer que este é um livro que, se tivesse de o rescrever, não lhe alteraria nada (o mesmo não posso dizer das duas recolhas previamente publicadas). Não o rescreveria, portanto.

A intenção que animou a elaboração destes poemas (muitos dos textos não são na verdade sonetos, o título resultando parcialmente do nonsense que eu aprendi com John Donne e os seus "Songs and sonnets") foi a tentativa de construir uma espécie de poesia rupestre. Sem nostalgia. Rupestre enquanto exploração do lugar pré-histórico de cada vivente (a infância). Rupestre também enquanto recuperação quase paródica das cosmogonias que estiveram na origem do fenómeno poético. Rupestre enquanto escrita sobre a pedra (sobre o Pedro...).

Tenho a ligeira sensação de que, se pudesse fazer cinema, acabaria por realizar um filme mudo. E se usufruísse do menor talento pictórico, vejo-me a grafitar os muros de pedra da cidade com os seres que sobre mim exercem magia (os que quero caçar, os que domestiquei, os que me atemorizam). Como disse atrás, não me considero um nostálgico. Simplesmente, assim como a infância é um cimento fresco que para sempre guarda todas as marcas que nele foram feitas, acredito que todas as actividades criativas se exercem numa relação de amor-ódio com os seus momentos fundadores. Em ambos os casos (pequena história biográfica, grande história da criação), aquele que se empenha amorosamente na vida é obrigado a registar a vertigem que acompanha essa queda desde o início (repare-se que a queda não precisa de ser uma figura com conotação negativa).


"na idade adulta
o único trabalho
infantil
lícito ou talvez implícito
quem sabe
é o registo da vertigem"


O livro está dividido em duas partes. A primeira chama-se "Descoberta" e regista a recepção do mundo por uma criança-poeta. Da parte do mundo que não teve autoria humana (o céu, as estrelas, o sol, o cometa, a lua, a nuvem, a chuva, a neve, o fogo, o vento, a montanha, o vulcão, o lago, o rio, o mar, a ilha, a árvore, a flor, os frutos, o pássaro). São poemas intuitivos, de leitura muito simples, de intencionalidade mágica. A secção termina com o primeiro soneto propriamente dito, intitulado "o Homem".

O Homem é, pois, aquele ser que, recebendo de bandeja o mundo que a sua infância descobre, tem posteriormente de o reinventar, de sobre ele edificar um edifício de mundividência onde a tristeza entra pela primeira vez (a queda, sentenciada por Deus no Génesis, adquire uma pertinência pejorativa). O soneto é talvez a forma poética que mais celebridade adquiriu no ocidente (o seu equilíbrio é notável), e por isso surge aqui como metonímia das glórias e das monstruosidades da cultura. Nada se opõe tanto ao rupestre como o soneto. No entanto, a minha paixão quase irracional pelos números 2 e 7 foi determinante para esta escolha mais-do-que-técnica.

A segunda parte chama-se "Invenção". Nela, a criança, fantasma de um génio (como na pintura de Paul Klee que ilustra a capa do livro), torna-se um demiurgo a partir do seu próprio corpo. São textos onde a sintaxe foi deturpada para simular uma escrita primitiva (mas que assim adquirem uma musicalidade estranha). Têm ideias ocultas (por exemplo, quase todos os poemas se referem a invenções humanas concretas, como a roda, o avião, a fotografia, etc.), precisam de ser esgaravatados para produzirem algum sentido, e mesmo quando uma clareira neles se abre, ela não possui o carácter de evidência dos textos da primeira parte. Toda a secção está organizada em torno de uma contagem decrescente desde um número limite, o cem (também número mágico), mas que não termina no fim da obra, ficando o leitor livre para continuar a sua própria invenção (até ao zero, que mais do que uma vez é citado). Não termina porque são apenas catorze poemas (é um macro-soneto). Com catorze anos, tive o primeiro grande sofrimento da minha biografia (o que não é relevante para a leitura do livro).


"mas uma invenção

vem sentido o dar
a vOz que a tudo isto cede eros e canta (e não cessa)

o do fim do fim"



Agradeço a generosidade de todos os leitores que me queiram acompanhar nesta aventura.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Nota "Un prophète"

"Un prophète", de Jacques Audiard, é um filme muito bom, brutalmente bem representado. Está a milhas de "Agora" de Alejandro Amenábar (achincalhamento académico de uma intenção polémica algo semelhante), mas não se compara a "La graine et le mulet" de Abdel Kechiche (que é solidário com o desespero até ele se tornar profundamente incómodo para o espectador - o oposto da estética telejornal).

O realismo, especialmente quando rigoroso como este (o realizador não sabe o que fazer das sequências com o fantasma), corre sempre o risco de se reduzir ao osso da narrativa, ou seja, de empobrecer quaisquer possibilidades semânticas. Devo aliás dizer que, perante "Un prophète" (como perante "The Hurt Locker" de Kathryn Bigelow), fiquei com a sensação de estar a ver um filme excelente, mas um filme que já vira muitas vezes (se bem que nem sempre tão bem feito)...

Mesmo assim, há indícios de discursividade suficientemente interessantes para que a obra tenha grande relevância para a contemporaneidade. Sugere-se que a coesão agressiva do mundo árabe pode resultar de um passado de marginalização (o protagonista é sempre tratado como criado pelo grupo de corsos, mas, se assim não fosse, talvez nunca tivesse traído aquele que constituía a figura de um pai espiritual), e denuncia-se que a quebra da inocência foi provocada precisamente por aqueles que no presente estão à mercê dessa agressividade (o facto do árabe ter sido obrigado a cometer um homicídio é que lhe abriu o caminho traumático para a sua posterior perversão moral). O próprio título do filme não se restringe a uma ironia narrativa: ele pretende ser a ferida exposta de toda uma "civilização" cuja guerrilha suja se confunde com o discurso religioso. E Audiard trabalha tudo isto com um tão grande sentido de urgência, que nem José Manuel Fernandes o conseguiria acusar de "correcção política".

A surpresa que "Un prophète" me trouxe, porém, é a ideia de que uma profecia é a forma que temos de organizar calculadamente, e dentro dos limites do cárcere, a nossa liberdade futura. E não, isto não é metafísica, mas pura política.

Raison en chantée

Recentemente, uma jornalista comentava que o quadro de Nikias Skapinakis dedicado ao quarto (imaginário) de Paul Klee estava investido de uma geometria algo sufocante. Não me lembro desta obra específica de Skapinakis (que penso ter visto na Fundação Árpád Szenes - Vieira da Silva), por isso não posso confirmar ou desmentir a afirmação. Mas a regularidade com que realmente a geometria visita a obra de Klee, juntamente com o facto de ele ter sido professor numa instituição tão associada à racionalidade como a Bauhaus, levaram-me a especular por que razão eu, que me aborreço de morte com Malevitch ou Mondrian, sinto tanta empatia pela pintura do grande autor suiço (é, de longe, o meu artista plástico de eleição).

Há motivações evidentes: a puerilidade latente em todo o seu trabalho (os ingleses têm uma expressão bem bonita para isso: childlike), a valorização da ironia, o flirt (sempre infiel) com diversos pensamentos estéticos (por vezes contraditórios entre si), a relação com a música, o gosto pela escala reduzida.

Mas no que se refere à obsessão pela geometria (e pelos números, letras, setas, etc.), eu diria que ela progride na obra de Klee lado a lado com uma pulsão onírica que é tudo menos sufocante. É como se uma não pudesse passar sem a outra (o pensamento e a poesia não se confundem, mas continuam-se). E nessa perplexidade tomo consciência de uma das linhas orientadoras do meu próprio trabalho criativo (é de nós que falamos quando falamos dos outros, e vice-versa), a que eu daria o nome de : lirismo vertebrado.

Bem-aventurados os humildes

Se a compreensão que o Homem tem de Deus não evolui historicamente (porque ele é bafejado por evidências reveladas), então os crentes têm mesmo de aceitar os fundamentalismos mais saramaguianos que os textos religiosos comportam. Mas se essa compreensão evolui, como pode ter a Igreja a certeza de não estar a viver uma época pré-coperniciana (ou pré-eisensteiniana)?

À parte

A humildade só pode surgir quando a vaidade está saciada.

domingo, janeiro 10, 2010

Publicidade insuspeita

Em breve, dois membros da minha família entram em acção:

Ricardo Vasconcelos publica "Campo de Relâmpagos", na Assírio e Alvim, livro de ensaios sobre a obra do poeta Luís Miguel Nava.

A pianista Elsa Marques Silva, em duo com o clarinetista Nuno Pinto, apresenta um programa de música de câmara no Teatro Helena Sá e Costa, no dia 5 de Fevereiro (às 21h30).


Excerto de uma carta de amor 2

......olhe, escrevo-lhe esta missiva para o fixar por uns instantes, para reter o remoinho da sua indiferença, como faziam certos povos antigos da floresta quando paravam os peixes do rio com tintas de plantas escolhidas a dedo. De igual forma, este meu veneno verbal não é fatal: se não quiser ser caçado, não será. E então, velha história, eu terei de evoluir de novo: tornar-me-ei amigo da recolecção. Apanharei o menor fruto da sua deferência, a mais secreta raiz de um olhar dirigido a outrem, a noz que precede um sorriso. E a missiva ficará como vestígio da música insistente de um homo ignorans ignorans......

Fala da esposa estéril (para o marido)

"Traslada os teus restos vitais para o meu cemitério dos prazeres."

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Tentando ter paciência

Na sua coluna de opinião no jornal PÚBLICO, Helena Matos afirmou que, a partir do momento em que se legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo, estamos a um passo de um dia legalizarmos a poligamia. Não acredito que preciso de escrever um post para refutar uma afirmação de tão baixo nível, mas há alturas em que é preciso sujar as mãos.

Sim, de facto, sempre que usamos a inteligência para colocar a cultura em causa, abre-se um infinito de possibilidades. Não é só o casamento poligâmico. É também o enlace entre humanos e animais, entre humanos e cadáveres, entre humanos e exemplares do "Guerra e Paz", entre humanos e o papier mâché.

No entanto, aposto que, no fundo, Helena Matos sabe que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não equivale à poligamia. Em primeiro lugar, nunca ouço falar de uma situação poligâmica na qual uma mulher seja bafejada pela sorte de um harém masculino. Acontece invariavelmente o contrário (e ainda menos ouço falar na necessidade profunda que têm os cultores da orgia de se unirem em matrimónio...) . O problema central da poligamia é que ela resulta sempre de um aviltamento da mulher, que deixa de ser considerada na sua inteireza e individualidade para fazer parte de um número, e para perder a dimensão absoluta dos seus "direitos" matrimoniais. De qualquer modo, a poligamia praticamente não existe em Portugal, enquanto a homossexualidade sempre houve, e com uma expressão profundamente significativa.

A questão da relação entre culturas parece-me de resolução tão simples, que me espanta a quantidade de genocídios culturais que infestaram, infestam e infestarão a nossa História: temos de respeitar todas as dimensões de uma outra civilização, à excepção daquelas que claramente prejudicam a dignidade e liberdade de cada ser humano. Assim sendo, não havia razão nenhuma para que os missionários dos Descobrimentos tivessem contrariado a nudez imemorial com que os índios sul-americanos se expunham ao mundo, na medida em que isso não causava dano a ninguém (e se os europeus se sentiam lesados, que voltassem para para casa, pois esse outro continente estava previamente povoado por outras civilizações). Pelo contrário, a situação da mulher na cultura árabe (a despeito dos aspectos fascinantes que essa cultura possui) tem de ser firmemente condenada por quem tiver o mínimo de espinha dorsal.

Toda esta algaraviada para dizer que, por razões éticas, não tenho de aceitar a poligamia de certos países, e que esta não se coloca no mesmo plano de legitimidade de um contrato livremente celebrado por duas pessoas que se predispõem a um cuidado mútuo e exclusivo. Passando por cima do verdadeiro problema a partir do qual se ergue a deformação poligâmica (que é o facto de continuarmos a confundir a fidelidade do amor, que é espiritual, com o empobrecimento da vida erótica), eu informo Helena Matos que a diferença das duas situações tem ainda uma nuance mais grave. É que não me parece que haja, no nosso contexto, um historial de sofrimento por causa da poligamia. Haverá infidelidades, divórcios, crimes passionais, ménages à trois, sim, mas na civilização ocidental contemporânea devem ser raros aqueles que foram fisicamente perseguidos, socialmente marginalizados ou juridicamente menorizados por causa das suas convicções poligâmicas. O mesmo não se pode dizer dos homossexuais. É precisamente porque o casamento é mais do que um mero contrato, é porque tem um peso simbólico sem paralelo, que ele pode funcionar como um passo fundamental na desmontagem da homofobia.

O casamento (e, em sentido mais amplo, a família) foi questionado pela cultura moderna mais revolucionária. E teve de ser assim. As monstruosidades a que a célula familiar pode conduzir (por exemplo, podemos ser sexualmente monogâmicos toda uma vida, sem sentirmos o menor afecto ou mesmo respeito pelo cônjuge que usufrui dessa exclusividade...) exigiram esse momento de crítica. Mas o casamento só ganhou com isso: deixou de ser uma imposição independente da consciência do indivíduo para se configurar como uma possibilidade livre de felicidade. Aliás, não deixa de ser curioso que Jerónimo de Sousa seja um homem de família, e Paulo Portas, não. A manutenção da exclusividade do casamento nas mãos dos heterossexuais é uma forma de adiar a libertação dos homossexuais da cultura que, por razões de marginalização, acabaram por assumir, e que se traduzia na dificuldade sobejamente conhecida de constituir relações estáveis.

Quanto à questão da adopção, devo dizer que concordo com a ideia de que esta deve ser mantida no âmbito dos direitos da criança. Por isso, e para que não haja casamentos de primeira e casamentos de segunda, eu sugiro que se retire o direito de adoptar do instituto do casamento entre pessoas de sexo diferente. Exactamente porque falamos de direitos da criança, e não dos adultos. A partir deste pressuposto, cada caso de adopção seria avaliado exclusivamente em função da rigorosa idoneidade do ou dos adoptantes, e não da sua situação conjugal (e de qualquer modo, a legitimidade científica da adopção por casais do mesmo sexo, problema distinto do casamento, deverá ser avaliada por sérios profissionais de saúde mental, e não por padres, políticos, ou senhoras que usam laca no cabelo).

Compreendo que esta é uma mudança imensa. É verdade. Mas o mundo também um dia se tornou cristão em detrimento de toda a cultura anterior, eu sou agnóstico e considero-me violentado porque em criança tive uma educação católica. E o mundo também se tornou capitalista em detrimento de uma cultura económica mais humilde na sua relação com os recursos, e eu tenho de sobreviver numa sociedade onde me sinto diariamente agredido pelas estratégias da ganância. O que estou a tenta dizer é que aquilo que me querem impingir como autoridade imemorial, como um "sempre foi assim", só foi assim a partir de uma determinada altura.

E porque não sou suficientementemente político para dizer apenas aquilo que é conveniente, afirmo que, por razões morais, mais depressa deixava entrar em minha casa um polígamo do que uma pessoa com uma cruzada moralista.

domingo, janeiro 03, 2010

Nota "Jaime"

Ao rever o primeiro filme de António Reis (Margarida Cordeiro ainda não co-assinava a realização), fiquei surpreendido pela sua força silente. Toda a primeira parte, constituída por imagens de doentes psiquiátricos num pátio, é oferecida ao espectador sem o benefício (da certeza) de uma banda sonora. Curiosamente, a câmara espreita esse mundo calado através de uma espécie de janela, ou escotilha, que evoca o efeito de íris que era tão caro aos realizadores do cinema mudo. Opção inconsciente? Infelizmente (?), não o sei.

Quanto mais tempo passar sobre "Jaime", mais a ruralidade que ele documenta será invadida pela energia da loucura. Estamos a ficar tão ignorantes quanto à civilização aldeã, que o seu excesso (de beleza, de dureza) adquire pergaminhos de irracionalidade. Quando vi, na imagem que ilustra este post, aquelas três maçãs penduradas por fios, perguntei a mim mesmo: seria um hábito camponês, ou é uma opção de encenação poética (como noutro passo acontece claramente com um guarda-chuva aberto)? Infelizmente (!), não o sei. Mas compreendo melhor a loucura de Jaime, as suas fontes, os seus nutrientes, o seu espaço duplo de liberdade e prisão.

Este filme tem o mais belo plano fixo de flores que já vi em cinema. De lobo e de louco todos temos um pouco?

Argumento privado

Penso que já aqui disse que não tenho propriamente uma opinião sobre a querela levantada pela iminente entrada em vigor do novo acordo ortográfico para a língua portuguesa. Não se pode ter opinião sobre tudo...

A dimensão etimológica da ortografia não é uma manifestação de verdades arquetípicas, mas o resultado de uma opção histórica concreta, contingente e questionável (os Renascentistas curtiam o latim). Não me custa, por isso, abandonar esse rigor. A questão dos possíveis erros de pronúncia que a nova ortografia pode causar é, claro, uma falsa questão: basta que aprendamos um novo conjunto de relações normativas entre essas duas dimensões da língua; afinal, quase tudo o que se refere à linguagem é convencional. Para além disso, estou isento de ilusões de colonialismo: a continuidade das civilizações indígenas da América do Sul poderia ter engendrado um Brasil bem mais glorioso do que este que, por gentileza, dá futuro ao português.

Por outro lado, não me parece que um conjunto de leis sobre ortografia constituam um passe de mágica capaz de dar força internacional à língua de Camões. Sem modéstia nem vaidade, acho que se eu produzir um excelente texto literário, tenho mais chances de gerar curiosidade pelo meu idioma do que qualquer acordo palopiano (não disse pavloviano, atenção). Quem diz literatura, diz ciência, pensamento, política. E quanto ao mito contemporâneo (tão capitalista quão socialista) da facilitação, respondo que só é fácil a dificuldade que cada um por si mesmo conquista. Ou seja, em vez de servir de bandeja, prefiro ensinar a cozinhar.

Espero que Vasco Graça Moura (que será o mais eminente dos intelectuais, não é isso que está em causa) nunca venha dizer publicamente que a legalização do casamento entre as pessoas do mesmo sexo não é um assunto prioritário... Pois eu gostava de saber qual a prioridade de todo este chinfrim em torno de mais letra, menos letra. E eu até sou daqueles que podem afirmar que o seu exílio é a língua portuguesa.

Tenho, contudo, um argumento muito meu contra este acordo superstar. Parece-me que se vai limpar, da ortografia da minha língua, o pouco que ainda lhe restava de uma certa beleza selvagem. É um luxo meter uma uma letra numa palavra para ninguém a pronunciar! Um luxo luxuriante. A escrita vai ficar mais parecida com um alicate do que com um sexo. Mas quem se interessa por isto? Só sei que, no meu próximo projecto de poesia (apropriadamente intitulado "uma selva"), tentarei inventar uma ortografia que o leitor possa namorar.

Arte poética: the f world.

Não sacralizo nem dessacralizo palavras: sexualizo-as.

sábado, janeiro 02, 2010

Uma intuição

Dizem os especialistas que a floresta Amazónia cresce sobre o seu solo, e não do seu solo (que é paupérrimo, infértil), utilizando-o essencialmente para proceder à fixação dos nutrientes que resultam da reciclagem dos seres vivos (o que de certa maneira explica a desmesura das árvores tropicais: elas precisam de desenvolver raízes que cubram a maior superfície possível, de modo a apanharem qualquer elemento químico disponível), e não como fonte de nutrientes.

Também a escrita cresce sobre o papel e não do papel, na medida em que os seus nutrientes provêm todos da reciclagem da experiência da vida (o papel é o suporte de fixação dessa experiência). Ora, parte da novidade (e da estranheza) da obra de Stéphane Mallarmé resulta precisamente do facto de ele ter pretendido extrair a sua poesia do papel em branco (ou de uma certa ideia de papel em branco). É claro que isto não passa de sugestão (e de ilusão), mas pode configurar uma linha de abordagem fértil quando aplicada ao autor de "L'après-midi d'un faune".

Silogismo

O Deus retratado pela Bíblia não teria sofisticação intelectual suficiente para ser o autor, quanto mais não seja moral, de um livro assim tão belo; logo, a Bíblia não é um livro de inspiração divina.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Partilha 69

listen very carefully
i shall say this only once




follow that car
e não sei dizer mais nada
na vossa língua

....................................

presumo que me vão falar da vida
como se ela fosse
uma anedota sobre bêbados
mas eu já soube tantas tantas coisas

até já soube o que era a matéria clara
e fui eu que lancei a teoria
de que nenhum clima aguentaria
uma subida de mais de dois graus

descobri que, para a lua, as marés
são algo menos que escalas tonais
e aprendi a distinguir os homens
entre venenosos
comestíveis
ou medicinais

chamava à andorinha jocasta
não fosse o frio tornar-se enigmático
era doutor na arte de escandir
hoje sirvo pinga amoris causa

e é quando a matrícula da pedra
se torna finalmente discernível
(porque a morte se aliou ao inimigo)
que eu percebo que só eu remo
na direcção que está correcta

Cadernos Péretianos 1

"Souvent, mes amis s'amusaient à lui citer un passage ou deux tirés de ses recueils et qu'il n'identifiait jamais, appréciant vaguement d'un sourire perplexe, cherchant à deviner l'auteur, comme si le courant le mettait en présence d'un bois flotté venu des antipodes."

Robert Benayoun

Cadernos Llansolianos 1

"- É triste [luminoso] precisar de dinheiro para vibrar. Mas tu vibras com o menor impulso de dinheiro possível. O que é ainda mais luminoso."

("Femme en robe bleu" de Balthus para) Maria Gabriela Llansol

Fala do suicida

Quero ser encontrado, morto ou vivo.

domingo, dezembro 27, 2009

Saltando por cima

O que se opõe ao individualismo não é o colectivismo, mas sim o indivíduo.

sábado, dezembro 26, 2009

Cravos-ferraduras (mais alguns)

1. Nas últimas páginas de "O homem livre" (ver este post), Filipe Verde fornece ao seu leitor a seguinte citação: "Devemos portanto estudar a excelência do carácter, tentar descobrir o que o constitui e como é que ele se forma e evitar enredar-nos em discussões sobre epistemologia moral ou de fundamentação da ética" - Gisela Striker.

Para todo o moralista céptico da moral, estas palavras são preciosas. Aliás, estou cada vez mais convicto de que os grandes pensadores éticos são os romancistas, e não os filósofos. Precisamente porque não escondem o relativismo do seu ponto de vista, porque analisam a irredutibilidade de cada carácter e a tirania das circunstâncias em que ele tem de evoluir (Herberto Helder afirma não se interessar pela prosa de ficção por causa da pretensão moral que os seus cultores ostentam; contudo, dada a irrisória quantidade de romancistas que o grande poeta madeirense tolera, eu acho que será mais justo dizer que, sendo a ética um assunto privilegiado do romance, a maior parte dos exemplares relevantes dessa arte não são propriamente moralistas).

Não me incluo no grupo acima mencionado: para além de ter mais curiosidade pelos dilemas éticos do que expectativas punitivas sobre as actuações concretas, eu sou tão céptico da moral como céptico do cepticismo. Considero, claro, que a dúvida é um dos fundamentos nobres daquilo a que chamamos humanidade. Já Descartes demonstrou que nada consegue ser mais ético do que o questionamento da autoridade do edifício cultural que cada indivíduo herda. Em qualquer altura da história da civilização, podemos assumir o exaltante direito-dever de tudo pôr em causa. É a pergunta eleita da criança: porquê?

Ora, essa prerrogativa traz consigo uma fatalidade: para não cedermos por completo à pulsão de morte, é preciso que o momento da dúvida seja sempre seguido de um passo de construção. É preciso fundamentarmos, para nós mesmos, a possibilidade de um caminho. E essa fundamentação acaba por ser, em grande parte, racional.

Eu também desconfio profundamente da atitude de Platão. Os disparates de Descartes são assinaláveis. Kant foi tão brilhante que acabou por ocupar demasiado espaço na cultura ocidental. No entanto, continuo a achar que a formulação do conceito de imperatico categórico é colossal. Se podemos defender que uma cultura da vergonha, como a dos índios Bororo, é uma cultura ética (na medida em que, nas próprias palavras de Filipe Verde, o outro que impede o acto pernicioso para a comunidade é um outro imaginário, interno portanto, e imaginado enquanto entidade especificamente moral), não sei se podemos defender que os indíviduos que a assumiam eram homens completamente livres. Eram livres na medida em que viviam de acordo com os "direitos da natureza" (aí estou completamente de acordo), mas já não o eram se tivermos em conta que a sua cultura, para ser eficaz, nunca era propriamente questionada.

Basicamente, o que estou a tentar dizer é que a razão pode ser (ou deve ser) um dos instrumentos privilegiados da construção da liberdade, e não há liberdade enquanto não questionarmos mesmo aquilo que é, supostamente, bom. Não é por acaso que Espinosa construiu a sua "Ética" segundo o modelo da geometria, que Freud construiu as suas teorias a partir de uma (hoje questionável) pretensão científica, e que o próprio Filipe Verde se pode assumir herdeiro desses moralistas cépticos da moral na sua especulação de base antropológica. Se nem todos os meios justificam os fins, é porque o meio de chegar ao fim não pode ter menos valor do que este tem. Se é pela razão que conseguimos admirar a ética do mundo Bororo, é porque a razão terá os seus méritos.



2. A razão é um instrumento. Mas não é o único, e não é necessariamente o principal.

Conforme vou lendo o que Paul Ricoeur escreveu sobre a metáfora, vou-me apercebendo do seu desprezo pela capacidade que essa figura de estilo tem de fascinar o receptor de uma mensagem verbal. Critica-se a metaforização quando ela é um mero ornamento. Claro que tudo aquilo que for gratuito na construção de um texto, tudo aquilo que nele não tiver uma pertinência, acaba sempre por enfraquecer a sua possibilidade de comunicação. Ovídio, por exemplo, foi useiro e vezeiro na criação de metáforas para romano ver (aliás, Ricoeur reconhece que a teorização retórica dos latinos foi medíocre, e que constituiu logo um passo atrás em relação aos escritos de Aristóteles).

No entanto, é bem curioso este ódio contemporâneo ao ornamento. Voltando aos índios Bororo, saúdo o seu respeito religioso pela ornamentação (a começar pela ornamentação do próprio corpo humano). Mas não é preciso ir para tão longe, basta reconhecer a sua importância na configuração de uma liberdade improvisadora (de composição em tempo real, portanto) ao intérprete de música barroca (algo que em grande parte se perdeu a partir do classicismo com resultados empobrecedores para a cultura musical).

Mas estou a incorrer no preconceito de Ricoeur, estou a tentar dar uma legitimidade racional àquilo que não tem, nem precisa de ter, uma pertinência racional. Pois há outros tipos de pertinência. A começar pela pertinência sexual.

Se hoje vivemos num mundo onde a sexualidade strictu sensu veio cobrar os seus merecidíssimos direitos, a criação artística perdeu alguma da sumptuosidade que a esse nível sempre a marcara. O triunfo do conceptualismo é um sinal (note-se que não estou a defender o conceito de beleza de uma época em particular, estou a lamentar a relativa indiferença de algum pensamento estético em relação à comunicabilidade das formas). Sinal também é a cisão que alimenta a história do cinema: assistimos ao triunfo do chamado cinema de entretenimento (que tem uma clara dimensão sexual, disso sou solidário, mas que depende por completo de um sistema de calculismo financeiro, e por isso configura um caso evidente de prática de prostituição) perante aquilo que seria um cinema de conteúdo (cuja dimensão sexual ou é minimizada pelos autores com vontade de respeitabilidade, ou é trabalhada com tanto amor que não pode por definição convencer a totalidade de uma audiência, o que é mal visto pela racionalização económica).

Já alguém fez o estudo sociológico do público que se arrasta com apatia ou ironia pelo sucesso de Serralves?

Podemos deixar de lado palavras como ornamento, beleza ou até mesmo fascínio (cuja ligação a determinadas ideologias estéticas é susceptível de provocar equívocos). Mas se, no âmbito da criação artística, acolhêssemos sem complexos os "direitos da natureza", talvez nenhuma das "perversões" acima descritas pudessem vingar.

Há monstros do sono da razão, mas igualmente há monstros da razão. Talvez o poeta deva ser também pensador, e o pensador deva ser também poeta.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Nota de leitura

No fundo de toda a investigação que o anima, o excelente ensaio "O homem livre" de Filipe Verde (Angelus Novus, 2008) interroga a possibilidade da mera consciência intuitiva da morte poder servir como fundamento de uma inteligência moral.

A cosmologia dos índios Bororo (do Mato Grosso, Brasil) previa a existência de dois mundos transcendentes a este em que nos encontramos: o mundo dos aroe (livre da metamorfose libidinosa da vida) e o mundo dos bope (todo ele anarquia vital, mas livre do corolário da vitalidade, que é a morte). A especificidade do homem vivente não seria, portanto, a anarquia da sua dimensão natural (como acontece na mundividência cristã), mas o facto desse seu eros estar fatalmente associado ao desgaste, à extinção. E bastaria isso para que o índio adulto aceitasse refrear voluntariamente o seu desejo, sem necessidade de conhecer o conceito de culpa (que é tão opressivo que nem requer a concretização de um ilícito para se fazer sentir) e sem necessidade de qualquer punição socialmente organizada. Por exemplo, bastavam as evidências patológicas resultantes da reprodução consanguínea, para que o incesto fosse raro na sociedade Bororo.

Filipe Verde diz-nos que todos os observadores desse mundo supostamente primitivo foram unânimes em reconhecer a sua imensa paz social e a grande liberdade de cada indivíduo no seio dessa harmonia. Era quase um manifestação da Utopia. Mas diz-nos também que o drama da antropologia é que as sociedades que definiram o seu objecto estavam a desaparecer precisamente no momento da sua constituição enquanto ciência. Ou seja, apesar do rigor de todos os relatos (dos salesianos a Lévy-Strauss) a partir dos quais o autor especula, a verdade é que a sua hipótese não pode ser verificada vivencialmente. E nenhuma ética pode ser sentida como ética sem ser vivenciada (aliás, o ensaista é o primeiro a reconhecer a preponderância humanista do seu assunto, sobre qualquer veleidade de positivismo).

A este livro podemos então atribuir o encanto de serem mais os horizontes que abre do que aqueles que fecha. É como quando conhecemos uma pessoa de meia idade que nos dizem ter sido muito bela numa juventude que não pudemos presenciar: que valor atribuir às fotografias que registaram esse passado?