domingo, abril 18, 2010

Gostaria de ter escrito 7

"For unless you own the whale, you are but a provincial and sentimentalist in Truth."

"Champollion deciphered the wrinkled granite hieroglyphics. But there is no Champollion to decipher the Egypt of every man's and every being's face."

Herman Melville

Nota "Les herbes folles"

Não faço parte do grupo de cinéfilos que lamentam o facto de Alain Resnais ter decidido, a partir de um certo momento na sua obra, construir filmes a partir de textos assumidamente menores. É claro que é estranho ver o autor de "Hiroshima mon amour" ir perdendo, ano após ano, a ágil gravidade que o animou na juventude. Mas cada um envelhece como pode (e não como os outros querem) e, de qualquer modo, o Resnais superficial já nos deu obras belíssimas como "Smoking / No smoking" ou a mais recente "Coeurs".

O visionamento de "Les herbes folles", no entanto, deixou-me insatisfeito. É claro que o filme é rigorosíssimo na transposição do texto para o cinema: Resnais é um leitor privilegiado. Ora, a folie que ele pretendia partilhar pareceu-me precisamente congelada na inteligência formal, como se o realizador estivesse tão consciente do que estava a fazer que tenha condenado o seu ambicionado vulcão de ouropel a uma extinção a priori. Eu, que adoro o trabalho sumptuoso da forma, cheguei a desejar que aqueles actores, de talento inesgotável, andassem por ali sem outra mise en scène a não ser a sua própria desorientação. No rescaldo, pareceu-me ter visto um pseudo-Lynch erudito. Mais do que nunca Resnais me pareceu distinto de Godard, que é incapaz de ousar uma forma sem com ela ousar o conteúdo e a emoção do seu espectador.

Todavia, os melhores filmes da história do cinema são aqueles que temos de aprender a apreciá-los. Espero, por isso, estar enganado, e que alguém me ensine a ver "Les herbes folles".

segunda-feira, abril 12, 2010

Momento conservador

No sábado passado, num dos mil suplementos que o jornal Expresso retira às pobres arvorezinhas, foi publicada uma not(íci)a referindo alguns exemplos de previsões famosas que saíram furadas. Furadas porquê? Sou suficientemente teimoso para fazer tudo depender do ponto de vista.


Margaret Thatcher: "Demorarão anos - não será no meu tempo - até que uma mulher seja primeiro-ministro" (1974) - Certo: não foi no seu tempo específico enquanto líder política que uma mulher cumpriu os requisitos de um exercício de poder verdadeiramente democrático.

Rutherford Hayes: "O telefone é uma boa invenção, mas quem o quererá utilizar?" (1876) - Certo: o uso do telefone corresponde menos a um acto de vontade verdadeiramente livre do que a uma compulsão doentia a que ninguém, no seu perfeito juízo ideal, sucumbiria.

H. M. Warner: "Quem é que raio quer ouvir os actores a falar?" (1927) - Certo: as pessoas vão ao cinema para verem os actores despirem-se, fazerem gracinhas ou rebolarem no chão após explosões.

Funcionário do Michigan Savings Bank: "O cavalo está cá para ficar, mas o automóvel é apenas uma novidade, uma moda" (1903) - Certo: em breve, haverá teletransporte e facilidades quejandas; o cavalo permanecerá insubstituível; é até possível que passemos a mencionar a potência dos motores dos teletransportadores em termos dos cavalos que eles possuem.

Ken Olson: "Não há razão para alguém querer ter um computador em casa" (1981) - Certo: um, não; vários, sim!

Cruzes canhoto

Há uma relação (não pretendida) entre a letra convencionada para representar a incógnita, a letra X, e a cruz que, a partir da Paixão de Cristo, se tornou um dos símbolos mais omnipresentes (e mais omnideprimentes) da cultura ocidental.

O X é a cruz transportada ao longo da Paixão, a cruz de um sofrimento terreno tal que só pode descambar em dúvida. A mudança de posição do X equivale à concretização da morte-ressurreição, de peso oblíquo torna-se símbolo recto e erecto, a incógnita cedendo perante a imposição espectacular da fé.

Se ainda não há um quadro represento o Cristo já morto numa cruz caída em X, então a história da pintura não pode estar terminada.

sábado, abril 10, 2010

Partilha 80

verde pino (a lo profano e a lo divino)


sou um tipo tão insignificante
que ainda acabo a fundar uma religião
espero (pelo menos)
que os meus sacerdotes
digam missas ao som dos vampire weekend
fodam gente que seja do seu tamanho
e estejam livres do sotaque lá de chima

hei-de arrancá-lo de dentro de mim
nem que para tal
recorra ao exorcismo
já que tenho a cabeça a andar à roda
ao menos que o escarre
em efeito
ESPECIAL

Partilha 79

auto-sombra


sorri sempre
que
te puxarem pelas extremidades dos teus lábios
até sangrares na horizontal
é assim que muita gente
sobe
na vida

por vezes
fico desesperado
por o mundo não ser como eu queria
mas se o mundo fosse como eu queria
como os outros queriam ele não seria
enfim
o mundo vai acabar mais dia menos dia :)

segunda-feira, abril 05, 2010

Galeria 49



Herman Melville

Usarei como epígrafe...

dos meus personetos:


"He would say the most terrific things to his crew, in a tone so strangely compounded of fun and fury, and the fury seemed so calculated merely as a spice to the fun, that no oarsman could hear such queer invocations without pulling for dear life, and yet pulling for the mere joke of the thing."

Herman Melville

domingo, abril 04, 2010

Os contemporâneos

Em épocas de ocultação, tem de haver quem faça o trabalho de denúncia, de rasgar os véus. No entanto, quando a exposição se tornou uma banalidade, quando tudo é mostrado até à náusea e a mediação intelectual tende para a pornografia (mesmo se não pretendida), então é preciso que haja gente que nos lembre que a arte não se confunde com a vida.

Dito de outro modo, o artista tem de ser uma arma de precisão na escolha daquilo que vai revelar. Tanto Bertolt Brecht quanto Josef von Sternberg detinham a virtude desta ética.

sábado, abril 03, 2010

Partilha 78

catálogo dos pássaros - voos
"como posso saber viver
se não sei voar?"

pedro ludgero


oriolus oriolus
voamos em bandos de trinta dinheiros: chamamos um figo ao tema do Céu

charadrius alexandrinus
não fosse o pássaro a pôr as coisas nos seus lugares, e tomaríamos o Céu por um close up

carduelis carduelis
já não há Céu, apenas imensos blues onde tentamos cair nos buracos de deus

monticola solitarius

quero ir para a cama com uma paisagem para fazer do Céu um bom lençol

delichon urbicum
deixo nuvens a marcarem o regresso, mas joão e maria fazem danças da chuva

estrilda astrild (aka banksy)
apenas isto o dia do juízo final: todas as linhas que os pássaros voaram ficarão visíveis

acrocephalus scirpaceus
voarei, revoarei, devoarei até que os homens inventem o nó cabeça-de-rouxinol


(Imagem retirada deste blogue)

Tradução 22

Poema "Os cisnes selvagens de Coole" de William Butler Yeats, traduzido por mim:


"As árvores estão em beleza de outono,
No bosque os trilhos estão secos,
Sob o crepúsculo de Outubro as águas
Reflectem céus quietos;
No lago que por pouco suas margens transcorre
Estão cisnes, cinquenta e nove.

Já o décimo nono outono sobre mim caiu
Desde essa primeira contagem;
Vi-os, antes de ter chegado ao fim,
De súbito elevarem-se
'spalhando rotação em argolas quebradas
Nas suas clamorosas asas.

Tais brilhantes criaturas contemplei,
E agora o coração tem mágoa.
Tudo mudou desde que, após eu ter ouvido,
No ocaso antigo desta margem,
Sobre a cabeça o toque-de-sino do voar,
Optei por um mais leve caminhar.

Não cansados ainda, amante junto a amante,
Eles remam nas frias
E gregárias correntes ou escalam o ar;
São corações sem velharia;
Paixão, conquista, errância a bel-prazer,
Ao seu serviço ainda hão-de ter.

Mas agora el's flutuam nas águas paradas,
Tão belos e enigmáticos;
Entre que juncos construirão,
Junto a que orla de lago ou charco
Mostrarão seu encanto, quando eu despertar um dia
E perceber que eles partiram?"


(O texto original pode ser lido aqui)

sexta-feira, abril 02, 2010

"Perceval le Gallois" - imagem

O INACTUAL 45

"Perceval le Gallois" - Eric Rohmer (1978)


Numa das cenas mais inesperadas deste filme não consensual de Rohmer, o jovem Perceval afasta agressivamente dois cavaleiros que o tentam demover do estado de concentração obsessiva nos seus próprios pensamentos. A sequência faz a luz necessária sobre a relação do cineasta da nouvelle vague francesa com o texto medieval.

Pois é lógico que o assunto imediato do romance de Chrétien de Troyes é a demanda da espiritualidade cristã sob a égide da mitologia arturiana. Mas é preciso notar que a encenação da Paixão de Cristo que a obra nos fornece perto do seu término se faz com recurso a uma narração na qual as personagens bíblicas não participam verbalmente (ou seja, vemos os seus corpos em acção, mas as palavras, mesmo as que pertencem aos diálogos, estão todas a cargo do grupo de narradores-cantores). Ao contrário, durante a história principal de "Perceval le Gallois", as personagens verbalizam simultaneamente os seus diálogos (o que é a norma em todos os filmes) e a parte textual referente à narração (por exemplo, referem-se a si mesmas com expressões do género: "e ele disse o seguinte").

A moral cristã é um modelo de comportamento a que Rohmer não será nada alheio ("Die Marquise von O" ainda vai mais longe na exploração dessa inquietação). Todavia, a sua distância enquanto encenador fá-lo ser mais favorável à observação da dificuldade que as personagens têm na gestão dessa moral do que a uma possível crítica (mesmo que positiva) da substância desta. Assim sendo, o facto das personagens se narrarem a si mesmas (e de não haver diferença no tratamento emocional dos dois níveis heterogéneos de texto que elas assumem) é o aspecto mais revelador da obra, e a chave que a liga aos filmes "sobre o presente" de Rohmer. As personagens raciocinam e verbalizam uma tensão moral, como se todas fossem filósofas do seu próprio devir.

Perceval é jovem, mas as suas asneiras constantes decorrem precisamente de ele tentar aplicar a ética que os adultos lhe ensinaram... A mãe diz-lhe para beijar donzelas e não exigir mais nada além disso. E o rapaz beija de facto uma rapariga: só que esta já tinha companheiro e para além disso não lhe deu o consentimento necessário ao seu gesto. Mais tarde, tenta cumprir o preceito de uma figura paterna que encontra durante o seu percurso (mantém o controlo da curiosidade no castelo do Rei Pescador), e cria a sua própria travessia no deserto (se tivesse feito as perguntas certas, teria ido longe na conquista da espiritualidade). Pois mais importante do que seguir um catecismo, é avaliar a sua substância de acordo com cada proposta de acção que a vida traz.

Esta obliquidade da personagem (a personagem é acima de tudo o diálogo consigo mesma) não diminui o impacto dos filmes rohmerianos (até porque a sensualidade é neles a principal matéria). Aliás, nos filmes "sobre o presente", Rohmer consegue fazer com que os dilemas na aparência apenas sentimentais das personagens obriguem a própria época a narrar-se a si mesma, com esse mesmo grau de obliquidade (o realizador não precisa de ser sempre explícito como em "Ma nuit chez Maud"). Se os castelos de "Perceval le Gallois" são de papelão, essa atitude perante o contexto prolonga-se por toda a filmografia do francês. Como se as cidades, as casas, as ruas, falassem (ou até cantassem) aquilo que, culturalmente, está nelas em jogo.

O filme termina abruptamente porque, se não se pode saber tudo sobre um tempo, um assunto, ou uma narrativa, então mais vale não fingir essa omnisciência (de qualquer modo, o cinema de respeito pelo texto que à época se praticava levava os cineastas a gestos de profunda ousadia na relação com a literatura - a obra de Troyes foi deixada inacabada). E se há um estranho personagem secundário, um cavaleiro adulto, que a uma dada altura colhe protagonismo, é para demonstrar como a sua suposta maturidade não o livra de ser menos casmurro. A sua fidelidade aos pensamentos põe-no mesmo em risco de vida (e maior violência que esse risco não existe no cinema de Rohmer).

A verdade é que a Béatrice Romand de "Conte d'automne" prolonga o Melvil Poupad de "Conte d'été". Ao contrário do que todos nós apressadamente supomos, o autor de "Le genou de Claire" vem-nos dizer que a moral é o principal indício de permanência da juventude.

quinta-feira, abril 01, 2010

Estourar a caixa antiga



27 de Março, às 19h00, em Espinho
(imagens de Pedro Jordão)

Partilha 77

floema


eu
que podia escrever um mensageiro das estrelas
por cada ser que desejei sem atingir
hei-de um dia
mudar-me para sempre em membracídeo
(e para sempre ser então
the next big thing)

todo aquele que tenta agarrar a existência
com pauzinhos
sabe quão difícil é
manter
a fleuma da peónia
sou um poeta japonês
na selva amazónia