terça-feira, janeiro 26, 2010

A zero dimensões

O filme "Avatar", de James Cameron, é de tal modo inócuo que não me aquece nem me arrefece. Mas hoje, no jornal PÚBLICO, um crítico de má fé dizia que o posicionamento de um espectador perante a obra seria revelador da sua fibra política. Ora, essa insinuação merece-me alguns comentários.

Não tenho razões nenhumas para duvidar das convicções ideológicas do realizador da obra em questão. Aliás, Hollywood gosta de manifestar a sua tendência esquerda suave, desde Sean Penn de mangas arregaçadas em New Orleans até à obsessão adoptante de Angelina Jolie. Mas também não tenho razões para duvidar da profunda incultura dos fazedores de cinema industrial, não querendo com isto dizer que por lá não se lêem muitos livros, mas que são raros os cineastas que trabalham nesse contexto e que pensam a fundo o seu métier. Nem sequer é suposto que o façam...

Cameron parece querer estabelecer um discurso sobre o Outro (imediatamente, o modelo é o índio da Amazónia, mas o árabe também está na mira, o que é desde logo estranho, pois qualquer semelhança entre as duas situações é pura coincidência). Se o objectivo era esse, pergunto-me qual terá sido o motivo que o levou a substituir a tentativa de construção de uma imagem desse Outro (veja-se o notável esforço de Audiard em "Un prophète") pela imagem de um efeito especial que se confunde com o bestiário disney e o imaginário alien de Steven Spielberg? Dir-me-ão que é uma parábola, e que eu até sou um nerd do simbolismo. No entanto, quer-me parecer que a referência cultural escolhida é tudo menos dignificadora desse Outro. É como se Cameron não soubesse nada do índio (como eu não sei), e também não quisesse, profundamente, saber (só que eu não quero fazer filmes sobre os índios). Aliás, não teria sido interessante recorrer a um modelo de narrativa mítica próximo da sensibilidade cultural desses povos da floresta, em substituição da forma gasta e gasta e gasta do screenplay hollywoodiano?

Ouvi opiniões de alguns espectadores dizendo que a história do filme era the same as usual, a sua mais-valia sendo apenas o panache tecnológico. Não sei como Jorge Mourinha ainda não percebeu que a forma de transmitir a mensagem é mais determinante, do ponto de vista político, do que a espuma superficial da própria "mensagem" (pois isto não é jornalismo, nem ensaísmo). O público já o percebeu. Aliás, uma das visões mais nobres do Outro que o cinema americano produziu recentemente é o filme "Letters from Iwo Jima" de Clint Eastwood, cineasta conservador.

Para além das suas piroseiras pseudo-poéticas dignas do quadro do menino com a lágrima ao canto do olho, o filme de Cameron está cheio de teias de aranha: o 3d é um efeito muito antigo, a forma narrativa é mais velha que o António Pedro Vasconcelos, não há nenhuma inovação ao nível da montagem (isso custa, o Eisenstein pensou-a sistematicamente, o Godard teorizou-a em boutades), do som, da representação dos actores (já agora, onde é que eles estavam?). Enquanto espectáculo, "Avatar" nem se consegue aproximar do "Titanic", que era um blockbuster tão histérico que acabava por nos afundar com ele. A relação do espectador com o próprio cinema também não é beliscada em nada: Cameron continua a querer produzir um espectáculo de feira, como quiseram os pioneiros da história dessa suposta arte (o espectador é o paraplégico circunstancial que se identifica com o seu avatar no ecrã). Durante o visionamento deste futuro do cinema, lembrei-me com saudade de um simulador com que me diverti na Eurodisney, mas logo a seguir tremi de horror: no próximo "maior-filme-de-sempre-o-mais-caro-e-o-que-vai-ganhar-mais-óscares" que o realizador fizer, vamos ter de usar coletes ortopédicos para protegermos a coluna dos solavancos que as cadeiras da sala de cinema nos vão proporcionar.

A oeste nada de novo: só o aprimoramento da tecnologia. Dir-me-ão que é o futuro do marketing do cinema. Eventualmente. Mas então eu digo ao senhor Cameron que a destruição da floresta tropical e das civilizações que nela floresciam se deveu, precisamente, a um primeiro momento de glória de um funcionamento da economia, o capitalismo (que não se chamaria ainda assim, claro), em que o valor intrínseco de qualquer produto é secundarizado perante a possibilidade de geração de lucro. Ora, "Avatar" é um objecto capitalista declarado (com tudo o que, de positivo, isso traz: postos de trabalho, liberdade de consumo, etc.). Os críticos da sua suposta mensagem de esquerda não têm motivos para estar alarmados: o espectador, ao sair da sala de cinema, não se vai tornar um guerrilheiro da "Greenpeace" (sobre a possibilidade da arte mudar o mundo, já me pronunciei aqui).

E quanto à ecologia do cinema? Quantas espécies de cinema estão neste momento em vias de extinção, porque este tipo de estética definitivamente triunfou e está a secar todas as outras possibilidades à sua volta? Presumo que algum leitor me vá insultar com a palavra "intelectual" (mais je ne m'accuse pas). Quem tem tido a bondade de me ler, saberá que tenho tentado, ao longo da feitura deste blogue, falar das mais diversas possibilidades de cinema, e que me mantenho aberto a todos os debates que envolvam cinéfilos militantemente apaixonados. Estou, isso sim, empenhado no salvamento da floresta selvagem, perigosa, abundante e inesgotável, do cinema.

Alguma vantagem em "Avatar"? Claro: a intuição de que, quando encontrarmos os marcianos, são eles que têm de ter medo de nós.

domingo, janeiro 24, 2010

Barbershop style...

... ou como o meu ouvido é muito mais indulgente do que eu.

O espaço que se segue é da minha exclusiva responsabilidade

Este blogue não transmite discursos de Hugo Chávez.

Tempo de antena

"Quand, par exemple, Shakespeare assimile le temps à un mendiant, il est fidèle à la réalité profondément humaine du temps; il faut donc réserver la possibilité que la métaphore ne se borne pas à suspendre la réalité naturelle, mas qu'en ouvrant le sens du côté de l'imaginaire, elle l'ouvre aussi du côté d'une dimension de réalité que ne coïncide pas avec ce que le langage ordinaire vise sous le nom de réalité naturelle."


Paul Ricoeur (negrito meu)

Excerto de uma carta de amor 3

.......olhe, a verdade é que obtive esta vida nos ciganos. Faz o mesmo efeito das outras, disseram-me. E disseram-me ainda que, sendo as lágrimas fatais a prazo incerto, mais vale o crocodilo ser apócrifo. Não obstante, sabemos todos que o barato sai caro. Por isso eu quero que você suceda com o grau de exigência que se espera do astronauta, que seja a talha de uma via de acasos em contra-bando. E celebraremos por uma eternidade, devorando vates, sinaleiros e anjos indefesos.......

quinta-feira, janeiro 21, 2010

À pergunta "Pode a poesia mudar o mundo?"...

... eu respondo:


que essa é uma pergunta de mau repórter. Aliás, as possibilidades remotas de um filme ou uma canção impedirem uma guerra (ou de um poema do Manuel Alegre influenciar o próximo Orçamento de Estado) pertencem certamente ao domínio do jornalismo (da intervenção cívica em tempo útil), e não à dinâmica profunda da criação. Mesmo a ideia da mudança interior provocada por um objecto do espírito me parece mais próxima de uma banalidade conceptual que de um processo psicológico facilmente isolável (é preciso regressar a "The Dubliners" de James Joyce, para se entender toda a complexidade romanesca da epifania).

Tenho vindo a namorar a ideia (que, como sempre acontece no meu pensamento, tem vocação universal mas não necessária) de que a poesia se define, ao fim e ao cabo, por um determinado tipo de afectividade intelectual. Na verdade, só o sentido amplo dessa palavra pode abarcar toda a mitologia que em seu torno se espalhou na cultura dos homens.

Poética será toda a emoção que nos permite desvalorizar a transcendência. Independentemente do que pensarmos sobre as efectivas possibilidades de comunicação (falar do amor pode equivaler a falar do sem-remédio do isolamento), a crença afectiva na tangibilidade de tudo aquilo que nos transcende constituirá porventura a essência de um impulso poético transversal a todos os seres da nossa espécie. Falo de crença afectiva, não de convicção de raciocínio.

O autismo é universalmente considerado uma patologia: mesmo o misantropo mais rigoroso terá iniciado a sua biografia como uma criança curiosa. É preciso tocar na mãe, na comida, no brinquedo, na melodia de uma canção, no sexo de outrem, na linha do horizonte. Se tocamos deveras, isso é outra história (é a narratividade do romance). Mas a verdade é que passamos a vida com vontade de falar, de foder, de viajar, de conhecer, porque o mundo assume sempre o papel de um grande sedutor.

O poético estará assim na base de toda a produção humana. Será mais provável que o cientista descubra a sua vocação no consumo de filmes de ficção científica do que no putativo altruísmo da sua consciência. Aliás, a própria ânsia ética da descoberta de uma cura contra o cancro ou contra a sida só é possível na medida em que o Outro humano se apresente tangível, ainda que em alto grau de abstracção. O poético estará na base do pensamento, da vontade generalizada de conhecer, do ímpeto da viagem, do empenhamento humanitário, da própria religião (se Deus não parecesse igualmente tangível, ainda que a um mero nível intelectual, nenhum proselitismo teológico teria tido sucesso).

Uma das frases mais famosas da escrita poética é, precisamente: "Je est un autre" (formulação de sentido inesgotável, mas cuja contradição essencial está intrinsecamente ligada ao que aqui se expõe). A força da obra de Paul Celan, poeta difícil entre os difíceis, deriva em grande parte da ferida de incomunicabilidade que a sua escrita expõe, perante a qual o leitor honesto se sente incapaz de propor uma cicatrização. Não há, aliás, poetastro que resista a fazer uns versinhos de amor: a mediocridade produz sintomas tão válidos quanto a genialidade.

Assim sendo, defendo que o poético está invariavelmente associado ao sublime. Não ao sublime kantiano, e toda a sua erótica quase fascizante, mas àquele sublime (se assim lhe podemos chamar) que sempre acompanha a evidência afectiva, seja ela qual for (corpo humano, bola de futebol, planeta distante...). Estranhamente, a poesia acabou por se confundir com a sensibilidade romântica (aliás, eu reconheço que sou um herdeiro parcial dessa mundividência). Nada poderia ser mais castrador: a poesia consegue mudar o mundo precisamente porque permite que todas as transcendências sejam desvalorizadas (ainda que não supridas). A vanguarda poética depende, pois, da expansão do fascínio e da repulsa (palavras imprecisas, estas últimas). E não há poesia sem ilusão e desilusão.

É a esse nível que a criação se funde com a desobediência, e se torna aliada da filosofia e da política (sem com elas se confundir). Pois o quotidiano é sempre burguês. E o burguês é um empresário de transcendências: classes sociais, impedimentos morais e legais, mentalidade baseada no preconceito, etc. Aliás, a manutenção de todos os gestos da vida na dependência do dinheiro (que, em si mesmo, não vale nada) é o sintoma da incapacidade adulta de praticar o afecto de per si (noutras sociedades e noutras eras, haverá outras formas de institucionalização da cobardia). Caso fosse possível habitarmos um mundo não burguês, a poesia continuaria a acompanhar-nos, num esplendor inofensivo.


P.S. - o facto de ter sido a escrita a quem coube o privilégio do sentido estrito de "poesia" é um assunto distinto, e que carece de distinta reflexão.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

domingo, janeiro 17, 2010

O registo da vertigem

Algumas palavras sobre o mais recente livro que editei, e que foi ontem apresentado num filo-café em Vila Nova de Gaia:


Independentemente da opinião dos seus prováveis leitores (que é a opinião que verdadeiramente releva), os meus "sonetos para-infantis", escritos entre 2002 e 2003, (há uma eternidade, portanto) constituem a primeira colectânea de poemas que eu assumo como estando plenamente dominada. Nenhuma vaidade aqui: quero apenas dizer que este é um livro que, se tivesse de o rescrever, não lhe alteraria nada (o mesmo não posso dizer das duas recolhas previamente publicadas). Não o rescreveria, portanto.

A intenção que animou a elaboração destes poemas (muitos dos textos não são na verdade sonetos, o título resultando parcialmente do nonsense que eu aprendi com John Donne e os seus "Songs and sonnets") foi a tentativa de construir uma espécie de poesia rupestre. Sem nostalgia. Rupestre enquanto exploração do lugar pré-histórico de cada vivente (a infância). Rupestre também enquanto recuperação quase paródica das cosmogonias que estiveram na origem do fenómeno poético. Rupestre enquanto escrita sobre a pedra (sobre o Pedro...).

Tenho a ligeira sensação de que, se pudesse fazer cinema, acabaria por realizar um filme mudo. E se usufruísse do menor talento pictórico, vejo-me a grafitar os muros de pedra da cidade com os seres que sobre mim exercem magia (os que quero caçar, os que domestiquei, os que me atemorizam). Como disse atrás, não me considero um nostálgico. Simplesmente, assim como a infância é um cimento fresco que para sempre guarda todas as marcas que nele foram feitas, acredito que todas as actividades criativas se exercem numa relação de amor-ódio com os seus momentos fundadores. Em ambos os casos (pequena história biográfica, grande história da criação), aquele que se empenha amorosamente na vida é obrigado a registar a vertigem que acompanha essa queda desde o início (repare-se que a queda não precisa de ser uma figura com conotação negativa).


"na idade adulta
o único trabalho
infantil
lícito ou talvez implícito
quem sabe
é o registo da vertigem"


O livro está dividido em duas partes. A primeira chama-se "Descoberta" e regista a recepção do mundo por uma criança-poeta. Da parte do mundo que não teve autoria humana (o céu, as estrelas, o sol, o cometa, a lua, a nuvem, a chuva, a neve, o fogo, o vento, a montanha, o vulcão, o lago, o rio, o mar, a ilha, a árvore, a flor, os frutos, o pássaro). São poemas intuitivos, de leitura muito simples, de intencionalidade mágica. A secção termina com o primeiro soneto propriamente dito, intitulado "o Homem".

O Homem é, pois, aquele ser que, recebendo de bandeja o mundo que a sua infância descobre, tem posteriormente de o reinventar, de sobre ele edificar um edifício de mundividência onde a tristeza entra pela primeira vez (a queda, sentenciada por Deus no Génesis, adquire uma pertinência pejorativa). O soneto é talvez a forma poética que mais celebridade adquiriu no ocidente (o seu equilíbrio é notável), e por isso surge aqui como metonímia das glórias e das monstruosidades da cultura. Nada se opõe tanto ao rupestre como o soneto. No entanto, a minha paixão quase irracional pelos números 2 e 7 foi determinante para esta escolha mais-do-que-técnica.

A segunda parte chama-se "Invenção". Nela, a criança, fantasma de um génio (como na pintura de Paul Klee que ilustra a capa do livro), torna-se um demiurgo a partir do seu próprio corpo. São textos onde a sintaxe foi deturpada para simular uma escrita primitiva (mas que assim adquirem uma musicalidade estranha). Têm ideias ocultas (por exemplo, quase todos os poemas se referem a invenções humanas concretas, como a roda, o avião, a fotografia, etc.), precisam de ser esgaravatados para produzirem algum sentido, e mesmo quando uma clareira neles se abre, ela não possui o carácter de evidência dos textos da primeira parte. Toda a secção está organizada em torno de uma contagem decrescente desde um número limite, o cem (também número mágico), mas que não termina no fim da obra, ficando o leitor livre para continuar a sua própria invenção (até ao zero, que mais do que uma vez é citado). Não termina porque são apenas catorze poemas (é um macro-soneto). Com catorze anos, tive o primeiro grande sofrimento da minha biografia (o que não é relevante para a leitura do livro).


"mas uma invenção

vem sentido o dar
a vOz que a tudo isto cede eros e canta (e não cessa)

o do fim do fim"



Agradeço a generosidade de todos os leitores que me queiram acompanhar nesta aventura.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Nota "Un prophète"

"Un prophète", de Jacques Audiard, é um filme muito bom, brutalmente bem representado. Está a milhas de "Agora" de Alejandro Amenábar (achincalhamento académico de uma intenção polémica algo semelhante), mas não se compara a "La graine et le mulet" de Abdel Kechiche (que é solidário com o desespero até ele se tornar profundamente incómodo para o espectador - o oposto da estética telejornal).

O realismo, especialmente quando rigoroso como este (o realizador não sabe o que fazer das sequências com o fantasma), corre sempre o risco de se reduzir ao osso da narrativa, ou seja, de empobrecer quaisquer possibilidades semânticas. Devo aliás dizer que, perante "Un prophète" (como perante "The Hurt Locker" de Kathryn Bigelow), fiquei com a sensação de estar a ver um filme excelente, mas um filme que já vira muitas vezes (se bem que nem sempre tão bem feito)...

Mesmo assim, há indícios de discursividade suficientemente interessantes para que a obra tenha grande relevância para a contemporaneidade. Sugere-se que a coesão agressiva do mundo árabe pode resultar de um passado de marginalização (o protagonista é sempre tratado como criado pelo grupo de corsos, mas, se assim não fosse, talvez nunca tivesse traído aquele que constituía a figura de um pai espiritual), e denuncia-se que a quebra da inocência foi provocada precisamente por aqueles que no presente estão à mercê dessa agressividade (o facto do árabe ter sido obrigado a cometer um homicídio é que lhe abriu o caminho traumático para a sua posterior perversão moral). O próprio título do filme não se restringe a uma ironia narrativa: ele pretende ser a ferida exposta de toda uma "civilização" cuja guerrilha suja se confunde com o discurso religioso. E Audiard trabalha tudo isto com um tão grande sentido de urgência, que nem José Manuel Fernandes o conseguiria acusar de "correcção política".

A surpresa que "Un prophète" me trouxe, porém, é a ideia de que uma profecia é a forma que temos de organizar calculadamente, e dentro dos limites do cárcere, a nossa liberdade futura. E não, isto não é metafísica, mas pura política.

Raison en chantée

Recentemente, uma jornalista comentava que o quadro de Nikias Skapinakis dedicado ao quarto (imaginário) de Paul Klee estava investido de uma geometria algo sufocante. Não me lembro desta obra específica de Skapinakis (que penso ter visto na Fundação Árpád Szenes - Vieira da Silva), por isso não posso confirmar ou desmentir a afirmação. Mas a regularidade com que realmente a geometria visita a obra de Klee, juntamente com o facto de ele ter sido professor numa instituição tão associada à racionalidade como a Bauhaus, levaram-me a especular por que razão eu, que me aborreço de morte com Malevitch ou Mondrian, sinto tanta empatia pela pintura do grande autor suiço (é, de longe, o meu artista plástico de eleição).

Há motivações evidentes: a puerilidade latente em todo o seu trabalho (os ingleses têm uma expressão bem bonita para isso: childlike), a valorização da ironia, o flirt (sempre infiel) com diversos pensamentos estéticos (por vezes contraditórios entre si), a relação com a música, o gosto pela escala reduzida.

Mas no que se refere à obsessão pela geometria (e pelos números, letras, setas, etc.), eu diria que ela progride na obra de Klee lado a lado com uma pulsão onírica que é tudo menos sufocante. É como se uma não pudesse passar sem a outra (o pensamento e a poesia não se confundem, mas continuam-se). E nessa perplexidade tomo consciência de uma das linhas orientadoras do meu próprio trabalho criativo (é de nós que falamos quando falamos dos outros, e vice-versa), a que eu daria o nome de : lirismo vertebrado.

Bem-aventurados os humildes

Se a compreensão que o Homem tem de Deus não evolui historicamente (porque ele é bafejado por evidências reveladas), então os crentes têm mesmo de aceitar os fundamentalismos mais saramaguianos que os textos religiosos comportam. Mas se essa compreensão evolui, como pode ter a Igreja a certeza de não estar a viver uma época pré-coperniciana (ou pré-eisensteiniana)?

À parte

A humildade só pode surgir quando a vaidade está saciada.

domingo, janeiro 10, 2010

Publicidade insuspeita

Em breve, dois membros da minha família entram em acção:

Ricardo Vasconcelos publica "Campo de Relâmpagos", na Assírio e Alvim, livro de ensaios sobre a obra do poeta Luís Miguel Nava.

A pianista Elsa Marques Silva, em duo com o clarinetista Nuno Pinto, apresenta um programa de música de câmara no Teatro Helena Sá e Costa, no dia 5 de Fevereiro (às 21h30).


Excerto de uma carta de amor 2

......olhe, escrevo-lhe esta missiva para o fixar por uns instantes, para reter o remoinho da sua indiferença, como faziam certos povos antigos da floresta quando paravam os peixes do rio com tintas de plantas escolhidas a dedo. De igual forma, este meu veneno verbal não é fatal: se não quiser ser caçado, não será. E então, velha história, eu terei de evoluir de novo: tornar-me-ei amigo da recolecção. Apanharei o menor fruto da sua deferência, a mais secreta raiz de um olhar dirigido a outrem, a noz que precede um sorriso. E a missiva ficará como vestígio da música insistente de um homo ignorans ignorans......

Fala da esposa estéril (para o marido)

"Traslada os teus restos vitais para o meu cemitério dos prazeres."

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Tentando ter paciência

Na sua coluna de opinião no jornal PÚBLICO, Helena Matos afirmou que, a partir do momento em que se legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo, estamos a um passo de um dia legalizarmos a poligamia. Não acredito que preciso de escrever um post para refutar uma afirmação de tão baixo nível, mas há alturas em que é preciso sujar as mãos.

Sim, de facto, sempre que usamos a inteligência para colocar a cultura em causa, abre-se um infinito de possibilidades. Não é só o casamento poligâmico. É também o enlace entre humanos e animais, entre humanos e cadáveres, entre humanos e exemplares do "Guerra e Paz", entre humanos e o papier mâché.

No entanto, aposto que, no fundo, Helena Matos sabe que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não equivale à poligamia. Em primeiro lugar, nunca ouço falar de uma situação poligâmica na qual uma mulher seja bafejada pela sorte de um harém masculino. Acontece invariavelmente o contrário (e ainda menos ouço falar na necessidade profunda que têm os cultores da orgia de se unirem em matrimónio...) . O problema central da poligamia é que ela resulta sempre de um aviltamento da mulher, que deixa de ser considerada na sua inteireza e individualidade para fazer parte de um número, e para perder a dimensão absoluta dos seus "direitos" matrimoniais. De qualquer modo, a poligamia praticamente não existe em Portugal, enquanto a homossexualidade sempre houve, e com uma expressão profundamente significativa.

A questão da relação entre culturas parece-me de resolução tão simples, que me espanta a quantidade de genocídios culturais que infestaram, infestam e infestarão a nossa História: temos de respeitar todas as dimensões de uma outra civilização, à excepção daquelas que claramente prejudicam a dignidade e liberdade de cada ser humano. Assim sendo, não havia razão nenhuma para que os missionários dos Descobrimentos tivessem contrariado a nudez imemorial com que os índios sul-americanos se expunham ao mundo, na medida em que isso não causava dano a ninguém (e se os europeus se sentiam lesados, que voltassem para para casa, pois esse outro continente estava previamente povoado por outras civilizações). Pelo contrário, a situação da mulher na cultura árabe (a despeito dos aspectos fascinantes que essa cultura possui) tem de ser firmemente condenada por quem tiver o mínimo de espinha dorsal.

Toda esta algaraviada para dizer que, por razões éticas, não tenho de aceitar a poligamia de certos países, e que esta não se coloca no mesmo plano de legitimidade de um contrato livremente celebrado por duas pessoas que se predispõem a um cuidado mútuo e exclusivo. Passando por cima do verdadeiro problema a partir do qual se ergue a deformação poligâmica (que é o facto de continuarmos a confundir a fidelidade do amor, que é espiritual, com o empobrecimento da vida erótica), eu informo Helena Matos que a diferença das duas situações tem ainda uma nuance mais grave. É que não me parece que haja, no nosso contexto, um historial de sofrimento por causa da poligamia. Haverá infidelidades, divórcios, crimes passionais, ménages à trois, sim, mas na civilização ocidental contemporânea devem ser raros aqueles que foram fisicamente perseguidos, socialmente marginalizados ou juridicamente menorizados por causa das suas convicções poligâmicas. O mesmo não se pode dizer dos homossexuais. É precisamente porque o casamento é mais do que um mero contrato, é porque tem um peso simbólico sem paralelo, que ele pode funcionar como um passo fundamental na desmontagem da homofobia.

O casamento (e, em sentido mais amplo, a família) foi questionado pela cultura moderna mais revolucionária. E teve de ser assim. As monstruosidades a que a célula familiar pode conduzir (por exemplo, podemos ser sexualmente monogâmicos toda uma vida, sem sentirmos o menor afecto ou mesmo respeito pelo cônjuge que usufrui dessa exclusividade...) exigiram esse momento de crítica. Mas o casamento só ganhou com isso: deixou de ser uma imposição independente da consciência do indivíduo para se configurar como uma possibilidade livre de felicidade. Aliás, não deixa de ser curioso que Jerónimo de Sousa seja um homem de família, e Paulo Portas, não. A manutenção da exclusividade do casamento nas mãos dos heterossexuais é uma forma de adiar a libertação dos homossexuais da cultura que, por razões de marginalização, acabaram por assumir, e que se traduzia na dificuldade sobejamente conhecida de constituir relações estáveis.

Quanto à questão da adopção, devo dizer que concordo com a ideia de que esta deve ser mantida no âmbito dos direitos da criança. Por isso, e para que não haja casamentos de primeira e casamentos de segunda, eu sugiro que se retire o direito de adoptar do instituto do casamento entre pessoas de sexo diferente. Exactamente porque falamos de direitos da criança, e não dos adultos. A partir deste pressuposto, cada caso de adopção seria avaliado exclusivamente em função da rigorosa idoneidade do ou dos adoptantes, e não da sua situação conjugal (e de qualquer modo, a legitimidade científica da adopção por casais do mesmo sexo, problema distinto do casamento, deverá ser avaliada por sérios profissionais de saúde mental, e não por padres, políticos, ou senhoras que usam laca no cabelo).

Compreendo que esta é uma mudança imensa. É verdade. Mas o mundo também um dia se tornou cristão em detrimento de toda a cultura anterior, eu sou agnóstico e considero-me violentado porque em criança tive uma educação católica. E o mundo também se tornou capitalista em detrimento de uma cultura económica mais humilde na sua relação com os recursos, e eu tenho de sobreviver numa sociedade onde me sinto diariamente agredido pelas estratégias da ganância. O que estou a tenta dizer é que aquilo que me querem impingir como autoridade imemorial, como um "sempre foi assim", só foi assim a partir de uma determinada altura.

E porque não sou suficientementemente político para dizer apenas aquilo que é conveniente, afirmo que, por razões morais, mais depressa deixava entrar em minha casa um polígamo do que uma pessoa com uma cruzada moralista.

domingo, janeiro 03, 2010

Nota "Jaime"

Ao rever o primeiro filme de António Reis (Margarida Cordeiro ainda não co-assinava a realização), fiquei surpreendido pela sua força silente. Toda a primeira parte, constituída por imagens de doentes psiquiátricos num pátio, é oferecida ao espectador sem o benefício (da certeza) de uma banda sonora. Curiosamente, a câmara espreita esse mundo calado através de uma espécie de janela, ou escotilha, que evoca o efeito de íris que era tão caro aos realizadores do cinema mudo. Opção inconsciente? Infelizmente (?), não o sei.

Quanto mais tempo passar sobre "Jaime", mais a ruralidade que ele documenta será invadida pela energia da loucura. Estamos a ficar tão ignorantes quanto à civilização aldeã, que o seu excesso (de beleza, de dureza) adquire pergaminhos de irracionalidade. Quando vi, na imagem que ilustra este post, aquelas três maçãs penduradas por fios, perguntei a mim mesmo: seria um hábito camponês, ou é uma opção de encenação poética (como noutro passo acontece claramente com um guarda-chuva aberto)? Infelizmente (!), não o sei. Mas compreendo melhor a loucura de Jaime, as suas fontes, os seus nutrientes, o seu espaço duplo de liberdade e prisão.

Este filme tem o mais belo plano fixo de flores que já vi em cinema. De lobo e de louco todos temos um pouco?

Argumento privado

Penso que já aqui disse que não tenho propriamente uma opinião sobre a querela levantada pela iminente entrada em vigor do novo acordo ortográfico para a língua portuguesa. Não se pode ter opinião sobre tudo...

A dimensão etimológica da ortografia não é uma manifestação de verdades arquetípicas, mas o resultado de uma opção histórica concreta, contingente e questionável (os Renascentistas curtiam o latim). Não me custa, por isso, abandonar esse rigor. A questão dos possíveis erros de pronúncia que a nova ortografia pode causar é, claro, uma falsa questão: basta que aprendamos um novo conjunto de relações normativas entre essas duas dimensões da língua; afinal, quase tudo o que se refere à linguagem é convencional. Para além disso, estou isento de ilusões de colonialismo: a continuidade das civilizações indígenas da América do Sul poderia ter engendrado um Brasil bem mais glorioso do que este que, por gentileza, dá futuro ao português.

Por outro lado, não me parece que um conjunto de leis sobre ortografia constituam um passe de mágica capaz de dar força internacional à língua de Camões. Sem modéstia nem vaidade, acho que se eu produzir um excelente texto literário, tenho mais chances de gerar curiosidade pelo meu idioma do que qualquer acordo palopiano (não disse pavloviano, atenção). Quem diz literatura, diz ciência, pensamento, política. E quanto ao mito contemporâneo (tão capitalista quão socialista) da facilitação, respondo que só é fácil a dificuldade que cada um por si mesmo conquista. Ou seja, em vez de servir de bandeja, prefiro ensinar a cozinhar.

Espero que Vasco Graça Moura (que será o mais eminente dos intelectuais, não é isso que está em causa) nunca venha dizer publicamente que a legalização do casamento entre as pessoas do mesmo sexo não é um assunto prioritário... Pois eu gostava de saber qual a prioridade de todo este chinfrim em torno de mais letra, menos letra. E eu até sou daqueles que podem afirmar que o seu exílio é a língua portuguesa.

Tenho, contudo, um argumento muito meu contra este acordo superstar. Parece-me que se vai limpar, da ortografia da minha língua, o pouco que ainda lhe restava de uma certa beleza selvagem. É um luxo meter uma uma letra numa palavra para ninguém a pronunciar! Um luxo luxuriante. A escrita vai ficar mais parecida com um alicate do que com um sexo. Mas quem se interessa por isto? Só sei que, no meu próximo projecto de poesia (apropriadamente intitulado "uma selva"), tentarei inventar uma ortografia que o leitor possa namorar.

Arte poética: the f world.

Não sacralizo nem dessacralizo palavras: sexualizo-as.

sábado, janeiro 02, 2010

Uma intuição

Dizem os especialistas que a floresta Amazónia cresce sobre o seu solo, e não do seu solo (que é paupérrimo, infértil), utilizando-o essencialmente para proceder à fixação dos nutrientes que resultam da reciclagem dos seres vivos (o que de certa maneira explica a desmesura das árvores tropicais: elas precisam de desenvolver raízes que cubram a maior superfície possível, de modo a apanharem qualquer elemento químico disponível), e não como fonte de nutrientes.

Também a escrita cresce sobre o papel e não do papel, na medida em que os seus nutrientes provêm todos da reciclagem da experiência da vida (o papel é o suporte de fixação dessa experiência). Ora, parte da novidade (e da estranheza) da obra de Stéphane Mallarmé resulta precisamente do facto de ele ter pretendido extrair a sua poesia do papel em branco (ou de uma certa ideia de papel em branco). É claro que isto não passa de sugestão (e de ilusão), mas pode configurar uma linha de abordagem fértil quando aplicada ao autor de "L'après-midi d'un faune".

Silogismo

O Deus retratado pela Bíblia não teria sofisticação intelectual suficiente para ser o autor, quanto mais não seja moral, de um livro assim tão belo; logo, a Bíblia não é um livro de inspiração divina.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Partilha 69

listen very carefully
i shall say this only once




follow that car
e não sei dizer mais nada
na vossa língua

....................................

presumo que me vão falar da vida
como se ela fosse
uma anedota sobre bêbados
mas eu já soube tantas tantas coisas

até já soube o que era a matéria clara
e fui eu que lancei a teoria
de que nenhum clima aguentaria
uma subida de mais de dois graus

descobri que, para a lua, as marés
são algo menos que escalas tonais
e aprendi a distinguir os homens
entre venenosos
comestíveis
ou medicinais

chamava à andorinha jocasta
não fosse o frio tornar-se enigmático
era doutor na arte de escandir
hoje sirvo pinga amoris causa

e é quando a matrícula da pedra
se torna finalmente discernível
(porque a morte se aliou ao inimigo)
que eu percebo que só eu remo
na direcção que está correcta

Cadernos Péretianos 1

"Souvent, mes amis s'amusaient à lui citer un passage ou deux tirés de ses recueils et qu'il n'identifiait jamais, appréciant vaguement d'un sourire perplexe, cherchant à deviner l'auteur, comme si le courant le mettait en présence d'un bois flotté venu des antipodes."

Robert Benayoun

Cadernos Llansolianos 1

"- É triste [luminoso] precisar de dinheiro para vibrar. Mas tu vibras com o menor impulso de dinheiro possível. O que é ainda mais luminoso."

("Femme en robe bleu" de Balthus para) Maria Gabriela Llansol

Fala do suicida

Quero ser encontrado, morto ou vivo.

domingo, dezembro 27, 2009

Saltando por cima

O que se opõe ao individualismo não é o colectivismo, mas sim o indivíduo.

sábado, dezembro 26, 2009

Cravos-ferraduras (mais alguns)

1. Nas últimas páginas de "O homem livre" (ver este post), Filipe Verde fornece ao seu leitor a seguinte citação: "Devemos portanto estudar a excelência do carácter, tentar descobrir o que o constitui e como é que ele se forma e evitar enredar-nos em discussões sobre epistemologia moral ou de fundamentação da ética" - Gisela Striker.

Para todo o moralista céptico da moral, estas palavras são preciosas. Aliás, estou cada vez mais convicto de que os grandes pensadores éticos são os romancistas, e não os filósofos. Precisamente porque não escondem o relativismo do seu ponto de vista, porque analisam a irredutibilidade de cada carácter e a tirania das circunstâncias em que ele tem de evoluir (Herberto Helder afirma não se interessar pela prosa de ficção por causa da pretensão moral que os seus cultores ostentam; contudo, dada a irrisória quantidade de romancistas que o grande poeta madeirense tolera, eu acho que será mais justo dizer que, sendo a ética um assunto privilegiado do romance, a maior parte dos exemplares relevantes dessa arte não são propriamente moralistas).

Não me incluo no grupo acima mencionado: para além de ter mais curiosidade pelos dilemas éticos do que expectativas punitivas sobre as actuações concretas, eu sou tão céptico da moral como céptico do cepticismo. Considero, claro, que a dúvida é um dos fundamentos nobres daquilo a que chamamos humanidade. Já Descartes demonstrou que nada consegue ser mais ético do que o questionamento da autoridade do edifício cultural que cada indivíduo herda. Em qualquer altura da história da civilização, podemos assumir o exaltante direito-dever de tudo pôr em causa. É a pergunta eleita da criança: porquê?

Ora, essa prerrogativa traz consigo uma fatalidade: para não cedermos por completo à pulsão de morte, é preciso que o momento da dúvida seja sempre seguido de um passo de construção. É preciso fundamentarmos, para nós mesmos, a possibilidade de um caminho. E essa fundamentação acaba por ser, em grande parte, racional.

Eu também desconfio profundamente da atitude de Platão. Os disparates de Descartes são assinaláveis. Kant foi tão brilhante que acabou por ocupar demasiado espaço na cultura ocidental. No entanto, continuo a achar que a formulação do conceito de imperatico categórico é colossal. Se podemos defender que uma cultura da vergonha, como a dos índios Bororo, é uma cultura ética (na medida em que, nas próprias palavras de Filipe Verde, o outro que impede o acto pernicioso para a comunidade é um outro imaginário, interno portanto, e imaginado enquanto entidade especificamente moral), não sei se podemos defender que os indíviduos que a assumiam eram homens completamente livres. Eram livres na medida em que viviam de acordo com os "direitos da natureza" (aí estou completamente de acordo), mas já não o eram se tivermos em conta que a sua cultura, para ser eficaz, nunca era propriamente questionada.

Basicamente, o que estou a tentar dizer é que a razão pode ser (ou deve ser) um dos instrumentos privilegiados da construção da liberdade, e não há liberdade enquanto não questionarmos mesmo aquilo que é, supostamente, bom. Não é por acaso que Espinosa construiu a sua "Ética" segundo o modelo da geometria, que Freud construiu as suas teorias a partir de uma (hoje questionável) pretensão científica, e que o próprio Filipe Verde se pode assumir herdeiro desses moralistas cépticos da moral na sua especulação de base antropológica. Se nem todos os meios justificam os fins, é porque o meio de chegar ao fim não pode ter menos valor do que este tem. Se é pela razão que conseguimos admirar a ética do mundo Bororo, é porque a razão terá os seus méritos.



2. A razão é um instrumento. Mas não é o único, e não é necessariamente o principal.

Conforme vou lendo o que Paul Ricoeur escreveu sobre a metáfora, vou-me apercebendo do seu desprezo pela capacidade que essa figura de estilo tem de fascinar o receptor de uma mensagem verbal. Critica-se a metaforização quando ela é um mero ornamento. Claro que tudo aquilo que for gratuito na construção de um texto, tudo aquilo que nele não tiver uma pertinência, acaba sempre por enfraquecer a sua possibilidade de comunicação. Ovídio, por exemplo, foi useiro e vezeiro na criação de metáforas para romano ver (aliás, Ricoeur reconhece que a teorização retórica dos latinos foi medíocre, e que constituiu logo um passo atrás em relação aos escritos de Aristóteles).

No entanto, é bem curioso este ódio contemporâneo ao ornamento. Voltando aos índios Bororo, saúdo o seu respeito religioso pela ornamentação (a começar pela ornamentação do próprio corpo humano). Mas não é preciso ir para tão longe, basta reconhecer a sua importância na configuração de uma liberdade improvisadora (de composição em tempo real, portanto) ao intérprete de música barroca (algo que em grande parte se perdeu a partir do classicismo com resultados empobrecedores para a cultura musical).

Mas estou a incorrer no preconceito de Ricoeur, estou a tentar dar uma legitimidade racional àquilo que não tem, nem precisa de ter, uma pertinência racional. Pois há outros tipos de pertinência. A começar pela pertinência sexual.

Se hoje vivemos num mundo onde a sexualidade strictu sensu veio cobrar os seus merecidíssimos direitos, a criação artística perdeu alguma da sumptuosidade que a esse nível sempre a marcara. O triunfo do conceptualismo é um sinal (note-se que não estou a defender o conceito de beleza de uma época em particular, estou a lamentar a relativa indiferença de algum pensamento estético em relação à comunicabilidade das formas). Sinal também é a cisão que alimenta a história do cinema: assistimos ao triunfo do chamado cinema de entretenimento (que tem uma clara dimensão sexual, disso sou solidário, mas que depende por completo de um sistema de calculismo financeiro, e por isso configura um caso evidente de prática de prostituição) perante aquilo que seria um cinema de conteúdo (cuja dimensão sexual ou é minimizada pelos autores com vontade de respeitabilidade, ou é trabalhada com tanto amor que não pode por definição convencer a totalidade de uma audiência, o que é mal visto pela racionalização económica).

Já alguém fez o estudo sociológico do público que se arrasta com apatia ou ironia pelo sucesso de Serralves?

Podemos deixar de lado palavras como ornamento, beleza ou até mesmo fascínio (cuja ligação a determinadas ideologias estéticas é susceptível de provocar equívocos). Mas se, no âmbito da criação artística, acolhêssemos sem complexos os "direitos da natureza", talvez nenhuma das "perversões" acima descritas pudessem vingar.

Há monstros do sono da razão, mas igualmente há monstros da razão. Talvez o poeta deva ser também pensador, e o pensador deva ser também poeta.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Nota de leitura

No fundo de toda a investigação que o anima, o excelente ensaio "O homem livre" de Filipe Verde (Angelus Novus, 2008) interroga a possibilidade da mera consciência intuitiva da morte poder servir como fundamento de uma inteligência moral.

A cosmologia dos índios Bororo (do Mato Grosso, Brasil) previa a existência de dois mundos transcendentes a este em que nos encontramos: o mundo dos aroe (livre da metamorfose libidinosa da vida) e o mundo dos bope (todo ele anarquia vital, mas livre do corolário da vitalidade, que é a morte). A especificidade do homem vivente não seria, portanto, a anarquia da sua dimensão natural (como acontece na mundividência cristã), mas o facto desse seu eros estar fatalmente associado ao desgaste, à extinção. E bastaria isso para que o índio adulto aceitasse refrear voluntariamente o seu desejo, sem necessidade de conhecer o conceito de culpa (que é tão opressivo que nem requer a concretização de um ilícito para se fazer sentir) e sem necessidade de qualquer punição socialmente organizada. Por exemplo, bastavam as evidências patológicas resultantes da reprodução consanguínea, para que o incesto fosse raro na sociedade Bororo.

Filipe Verde diz-nos que todos os observadores desse mundo supostamente primitivo foram unânimes em reconhecer a sua imensa paz social e a grande liberdade de cada indivíduo no seio dessa harmonia. Era quase um manifestação da Utopia. Mas diz-nos também que o drama da antropologia é que as sociedades que definiram o seu objecto estavam a desaparecer precisamente no momento da sua constituição enquanto ciência. Ou seja, apesar do rigor de todos os relatos (dos salesianos a Lévy-Strauss) a partir dos quais o autor especula, a verdade é que a sua hipótese não pode ser verificada vivencialmente. E nenhuma ética pode ser sentida como ética sem ser vivenciada (aliás, o ensaista é o primeiro a reconhecer a preponderância humanista do seu assunto, sobre qualquer veleidade de positivismo).

A este livro podemos então atribuir o encanto de serem mais os horizontes que abre do que aqueles que fecha. É como quando conhecemos uma pessoa de meia idade que nos dizem ter sido muito bela numa juventude que não pudemos presenciar: que valor atribuir às fotografias que registaram esse passado?

sábado, dezembro 19, 2009

Convite

Filo-Café : Descoberta/Invenção
16 Janeiro 2010, 21h30m
Taberninha do Manel
Av. Diogo Leite, 308
(Ribeira de Gaia)
Vila Nova de Gaia

Apresentação do livro Sonetos Para-Infantis de Pedro Ludgero

Estão abertas as inscrições para este filo-café. As inscrições, gratuitas, devem ser formalizadas enviando um email para arditura@gmail.com indicando nome, proveniência e área de intervenção.

Nota "Les parapluies de Cherbourg"

Revi "Les parapluies de Cherbourg", que terá sempre um lugar na história do cinema na medida em que é o seu primeiro filme integralmente cantado. Curiosa- mente, a música parece-me um pouco enjoativa. Mas a verdade é que a abstracção causada pelo cantar constante (e pelo cromatismo irrealista) cria as condições ideais para que o sentimentalismo da narrativa resista incólume à passagem do tempo.

Não me parece que a obra só possa ser lida enquanto elegia do principal mito da "Odisseia": Catherine Deneuve seria uma espécie de Penélope incapaz de esperar pelo seu guerreiro. Pois se há filme com grandes esperas é este: o pretendente da jovem grávida de outrem espera meses pela sua decisão (como se fosse ele que estivesse numa situação socialmente periclitante), a discreta Madeleine mantém-se celibatária até que regresse o homem que nunca a amou, a tia deste espera que ele chegue para poder morrer.

É como se Demy nos quisesse dizer que é preciso ser um secundário para aguentar uma ausência afectiva. Se a personagem de Deneuve não tivesse na cabeça a ideia tonta de que se pode morrer de amor, talvez tivesse aguentado a solidão com muito mais músculo. Shakespeare reinventou o mito. Mas foi Camilo quem teve a intuição da personagem Mariana.

Give away the ending

Comecei, há já alguns anos, a escrever pequenos ensaios avulsos sobre poesia. Com o passar do tempo, os ensaios começaram a pedir uma articulação recíproca (a armarem-se em livro, portanto). Penso que precisarei de bastante tempo ainda para concluir a obra que configurará uma espécie de teoria poética pessoal. O imenso tempo decorrido não terá correspondência no número de páginas: como sempre acontece comigo, o livro (intitulado "Orfeu de corpo inteiro") ostentará uma dimensão modesta.

Os ensaios já escritos são: uma leitura improvável do "Dom Quixote", uma teoria da enumeração a partir de poemas de Yeats e Christina Rossetti, uma leitura de "L'invitation au voyage" de Baudelaire, uma teorização do sublime em oposição à sua formulação romântica, uma análise de um poema de Alberto Caeiro, uma análise de um poema de João Cabral de Melo Neto.

Recentemente apercebi-me de que a teorização está a caminhar a passos largos para uma ideia aglutinadora, que eu resumiria na fórmula: o princípio de desvalorização da transcendência. Basicamente é isto: se nada podemos conhecer da única e verdadeira Transcendência que é o (não)mundo após a morte, é preciso que todas as manifestações de transcendência que perturbam este mundo sejam reconduzidas até à evidência POÉTICA da sua cognoscibilidade. Dito de outro modo, se aquilo a que se chama realidade é transcendente ao domínio da linguagem, a poesia é o domínio dessa mesma linguagem que oferece a certeza intuitiva de que ela pode tocar a realidade. O poeta olha para trás, para o real, e este não desaparece.

Os três ensaios que precisam de ser escritos (sobre a metáfora, a musicalidade da poesia, e a poética de Rimbaud) serão agora conscientemente organizados de modo a caminharem nesta direcção.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Confissão 27




Recentemente, tenho tido alguns escrúpulos em considerar-me pura e simplesmente ateu. Prefiro a palavra agnóstico, pela sua maior humildade, pelo seu menor grau de risco. Continuo (e espero continuar até ao Fim) a não acreditar em nenhuma possibilidade de comunicação efectiva com a transcendência (tenho fé na ciência). Muito menos aceito a possibilidade de livros divinos, homens iluminados, dogmas institucionais ou moralismos sem fundamento racional. Baseio o meu agnosticismo, então, nos seguintes três critérios:

1. Acho estranho que o conceito de sentido tenha um alcance tão modesto. Se, por exemplo, eu inquirir qual o sentido da existência do meu pâncreas, eu consigo facilmente encontrar uma resposta satisfatória, talvez mesmo uma resposta cabal. O mesmo vale para a seiva da árvore, para a bolsa do canguru, para a régua e o esquadro, para a porta e a janela, para a legislação do trabalho, para o avião. No entanto, quanto mais me distancio do âmbito restrito de uma funcionalidade clara, menos consigo definir o sentido dos seres inquiridos. Posso saber qual o sentido do pâncreas, mas dificilmente atingirei igual sapiência em relação à necessidade de comer (pois posso sempre perguntar por que razão é que a vida tem de ser assegurada através da ingestão de alimentos). Daí até perguntar qual o sentido da vida, é um saltinho. Ora, ninguém, ninguém mesmo, sabe responder a isto.

Podemos dizer que a vida tem um sentido hedonista (dançar, foder), e/ou ético (política, generosidade). Mas isso são apenas métodos de vida, possibilidades de viver o melhor possível, não respondem realmente à inquietação profunda a que a palavra sentido convoca. Também podemos desistir, e dizer que o sentido da vida é viver. Mas isso é recusar a dimensão de espanto que está na base de toda a cultura humana (e muito especificamente da metafísica). Daí até ao cinismo, é um saltinho.

Resposta, não há. Mas há pelo menos a palavra sentido, a que os homens antigos deram uso ingénuo e que nós agora recebemos como um apêndice aparentemente inútil mas que, mesmo em caso de dor aguda, não podemos de nós mesmos extrair. É tão estranho saber qual o sentido do intestino, mas não saber o sentido de algo ligeiramente menos merdoso... Qual o sentido da palavra sentido? Se as palavras são erros, imprecisões, por que têm algumas uma inteligência tão exuberante? Mais vale reduzir-me à minha ignorância.


2. Também me parece estranho que toda a minha riqueza psicológica esteja destinada a uma aniquilação prosaica (eu gosto muito do corpo, claro, mas isso deve-se essencialmente à minha mente; a comida e o sexo são bons; mas se é o corpo que os sente, a verdadeira satisfação é sempre psicológica).

Este argumento não tem a menor chance perante o rigor técnico do mestre em filosofia. Mesmo assim, eu acho muito, muito estranho que a pungência, a profundidade, a verdade dos meus sentimentos de amor, esperança, desejo, medo, dos meus sonhos, da minha imaginação, da minha sede de conhecimento, que toda essa riqueza a que nenhum capitalismo tem acesso, seja uma manifestação fisiológica equivalente à produção de glóbulos brancos ou à fotossíntese. Eu diria mesmo que este é um argumento lírico. Dizem-me que a alma é apenas uma variação sofisticada da materialidade do mundo... Está bem, está: digam isso à minha psicologia quando eu me apaixonei pela primeira vez, quando eu contemplo o fracasso da minha vida, quando um dia eu estiver perante o corpo morto da minha mãe.

Resposta, não há. Mas há pelo menos esta desconfiança de que algo na minha humanidade parece ter ultrapassado a mera competência neuronal. Mais vale reduzir-me à minha ignorância.


3. E, na continuidade deste argumento, o que fazer da alegria? Se não formos abusados e violentados na mais tenra infância, a verdade é que os primeiros anos da nossa vida são tutelados pela evidência da alegria. Aliás, a comida e o sexo (que há-de chegar mais tarde) são meros avatares dessa evidência. Ao contrário, toda a nossa vida adulta é construída como uma reacção ao facto da busca da plenitude ser sempre traída pela realidade. O mais amargo, pessimista e cínico dos homens talvez seja aquele que viveu mais intensamente (e menos pragmaticamente) essa promessa da alegria. Espinosa, príncipe dos filósofos, construiu a sua ética a partir de uma ideia semelhante. Freud terá andado pelas mesmas bandas (e os surrealistas, claro).

A vida é, de facto, decepção. Mas por que continuamos a viver em função da alegria? Pois é em função de uma alegria em sentido lato que vivem o cliente da prostituição, o consumista, o depressivo, o viajante, o ambicioso, o filantropo, o grevista de fome. Mera evolução do impulso de conservação vital? Talvez, mas era preciso o mundo exagerar?: a música de Bach, o dente-de-leão, o chocolate, Alice in Wonderland, as cidades de Calvino, a Utopia, o corpo de Jesus Luz... Uma tão profunda consciência da alegria parece excessiva para caber na modéstia de todas as leis (físicas, sociais) que nos limitam.

Resposta, não há. E se o suposto Deus (personagem de mau romancista, de resto) quisesse que eu soubesse alguma coisa, teria sido claro nessa didáctica. Assim não sendo, nada quero saber sobre um eventual universo que transcenda este em que agora me encontro. Não o confirmo, mas também não o desminto. Mais vale reduzir-me à minha ignorância.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

O jardim de Pã



Imagem de Edward Burne-Jones

Tradução 19

Poema "O palácio de Pã"
de Algernon Charles Swinburne,
traduzido por mim:





Setembro, glorioso com ouro, qual rei
.....No brilho do triunfo ataviado,
Mais claro que o estio, mais doce que Abril,
Os bosques incuba com asa infinita,
.....Presença querida do humano.

As terras pintadas p'lo sol posto e nado
.....Sob quente sorriso sorriem;
Mais nobre que um templo por mão levantado,
Coluna a coluna, o santuário se apruma
.....Das naves sem fim dos pinhais.

Um culto eloquente, sem prece ou louvor,
.....O espírito ocupa com paz,
Preenchida co'o sopro do fúlgido ar,
O odor, os silêncios, as sombras tão claras
.....Quais raios crescendo e cedendo.

Pilar's angulosos que coram longe e alto,
.....Com ramo nenhum para um ninho,
Sustêm o tecto sublime e cabal,
À prova do sol, do tufão, colossal,
.....Como águas paradas terrível.

Mão de homem jamais a sua altura mediu;
.....Razão também não, nem temor;
A trama do bosque em tal sombra é tecida;
O sol como um pássaro cai na armadilha,
.....E espalha, nevando, os seus flocos.

Plumagem só de ouro, tais flocos de sol
.....Repousam na terra aos montões,
Quais pétalas soltas de rosas sem c'roa
No chão da floresta sombrosa e dourada,
.....Corada tão perto e tão longe.

As mãos insondáveis de turvas idades
.....Ergueram o templo em retiro
P'ra deuses ignotos, e na ara queimaram
Os anos em pó, e as areias que o frasco
.....Do tempo esqueceu como indício.

Um templo que em milhas calcula os transeptos,
.....Que tem como padre a manhã,
Que livra o seu chão do pisar dos ineptos,
Sua música é a música só dos silêncios,
.....Bem mais que espectác'lo é a festança.

Sucedem-se as horas litúrgicas, nunca
.....O ofício nos vela ou revela,
Nas rampas das terras sem flor's nem verdura,
O encalço de um fauno, uma pista de ninfa
.....Até ao deus Pã em dormência.

O espírito, ateado p'lo pasmo e p'lo culto
.....Num êxtase sacro em braveza
Perante os tais rastos que fendem o rumo,
Só ele discerne se em torno dos quais
.....Existe uma prova do deus.

Com rubro temor mais profundo que o pânico
.....A mente rendida e inconcussa
Escuta a terrena e titã divindade
Nos passos sentidos em brechas vulcânicas
.....De abismos já sem o seu lume.

Por artes mais calmas que as negras magias
.....Da morte, da noite e de antanho,
Que o vil frenesi que assombrava o mei'-dia
Onde o Etna se forma dos membros gigantes
.....De deuses sem trono e sem vida,

Nossa alma fundida co' aquel' cujo sopro
.....Sublima o mei-dia do bosque
Suporta o fulgor da presença que fala
De coisas além, mais serenas que a morte,
.....De um Tempo que vence e que cala.



(o original pode ser lido aqui)

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Uma leitura de "Metamorfoses" de Ovídio

Não se conhece a razão pela qual Octávio Augusto enviou Ovídio para o seu famoso exílio. A cena parece ainda mais bizarra quando, no fim de "Metamorfoses", lemos a bajulação descarada que o poeta faz ao seu imperador. No entanto, a verdade é que esse livro tem a ambição de narrar simbolicamente a intuição do devir (a impermanência de todas as formas), e o seu autor vê-se obrigado a sugerir um desajeitadíssimo "fim da História" (com os deuses a perderem o poder de provocar novas metamorfoses), para caucionar a ideia de uma Roma eterna. Já vimos semelhante argumentação a propósito de um império mais próximo no tempo... Ora, se Augusto destruiu Ovídio por se aperceber da incongruência perigosa, mas eloquente, que coroa o fim de "Metamorfoses", então tenho de reconhecer que era, de facto, um soberano esclarecido.

Mas o capítulo final dessa obra célebre contempla também a metamorfose do narrador na figura do sábio Pitágoras. Talvez aqui Ovídio seja mais sincero, ao defender a teoria da imutabilidade da alma em contraste com a evolução constante que todos os corpos sofrem (nada se perde, tudo se transforma). Haverá um fundo metafísico a animar a colectânea de mitos. Nada disso, contudo, é propriamente novo...

Do ponto de vista da justificação do clássico, é que claro que "Metamorfoses" contém em si preocupações transversais a toda a História humana: o medo do aniquilamento da espécie, a submissão da mulher, o racismo (explica-se o surgimento dos negros com base num erro do percurso do sol...), o adultério, o parricídio, o incesto, a homossexualidade, a condenação social baseada no preconceito e não na culpa, a prostituição, a fome, a incapacidade de concepção por parte do homem, etc. Aliás, o livro sugere conteúdos que só hoje fazem parte de um quotidiano verosímil: defendo que estes mitos inconscientemente prevêem a noção científica de que a sexualidade é acima de tudo psíquica, o vegetarismo, a possibilidade cirúrgica da mudança de sexo, a inevitabilidade de uma globalização.

Mais interessante ainda é o profundo conhecimento do humano que a narração das histórias encantadas dá a ver. Para quem esteja à espera de falta de sofisticação, "Metamorfoses" responde com a consciência de que a morte é o único produtor de igualdade que existe, com a constatação de que essa mesma morte pode não conseguir acabar com a ameaça que um indivíduo constitui, com a fatalidade do fascínio humano pelo céu, com o desejo latente que os amantes têm de uma morte simultânea, com a imperfeição da prece (os homens não sabem o que é o melhor para eles), com a autoridade da sedução física. A cultura mítica permitia que os homens soubessem sem saberem que sabiam.

O próprio conceito de metamorfose revela em si todo um conjunto de inquietações caras à nossa espécie (e é a este propósito que o autor me parece mais moderno e notável). Pois se é certo que a operação de mudança formal equivale sempre a um exílio de si mesmo, ela é também uma espécie de prova da ressurreição (os seres nunca morrem propriamente, mas transformam-se noutros seres). Ao mesmo tempo, Ovídio parece querer protestar, através da sua cultura simbólica, contra a fatalidade das leis físicas que nos foram dadas: por exemplo, por que não podemos nós voar? Por que não podemos ser, nós mesmos, divinos? Aqui começamos a entrar no lirismo singular deste livro: todos os seres que a epopeia celebra são o resultado da metamorfose de um profundo sofrimento. É como se a dor fosse o constante subtexto da beleza, e a mera cor de uma amora vermelha não pudesse ser por nós intelectualmente fruída sem a latência de um sentido trágico. O sofrimento, isso sim, é divino. E transforma. E todos seres são uma metáfora da nossa humanidade.

Sim, "Metamorfoses", ao funcionar como um projecto de falsa literalidade (as pedras de Deucalião e Pirra transformam-se mesmo em seres humanos), acaba por ser um livro essencial para entendermos o fenómeno semântico da metáfora. O livro ensina-nos que a metáfora é a encenação do número dois (a primeira metamorfose é a criação de elementos distintos a partir de uma massa informe original), ensina-nos que o que justifica esse tropo não é propriamente a noção de semelhança entre dois conceitos mas a continuidade de conteúdo entre eles (a raça humana é dura na continuidade da dureza das pedras), revela-nos a dimensão intuitiva desse procedimento criativo (o julgamento metafórico nunca se engana), e coloca-o no centro desse império último que nos resta, o único que é válido aliás, o império do verbo Ser.

sábado, novembro 28, 2009

Partilha 68

jaculatória



o fim de um poema é precioso
e eu espero que o último verso deste
qual música de elevador
suba até ao seu princípio
e o torne mais valioso

deixe-me agradecer-lhe
.........................................em poema
o ter dormido comigo
não se preocupe
não irei carpir em vanglória
nem ejacular ao corrente do seu tema

estou aqui apenas
para o baptizar prolegómeno a um
............................................................altar
para me oferecer todo eu em raspadinha
membrana de pedra antiquando
uma mole de cabernet sauvignon

estou aqui para lhe cantar um coral
(os corais
como toda a gente
................................sabe
são os óscares do sexo)
é assim profunda e em extinção a minha gratidão

a alma escreve-se
a carne mata-se
mas consigo eu fiz as duas por três:
vim
.........por fim
......................a mim mesmo
ao pôr toda a escrita em espuma

sexta-feira, novembro 27, 2009

Distopia sensual



Será que, um dia, Brando e Marylin também vão ser considerados meramente pitorescos?

Gostaria de ter escrito 3

"Again, I always go to sea as a sailor, because they make a point of paying me for my trouble, whereas they never pay passengers a single penny that I ever heard of. On the contrary, passengers themselves must pay. And there is all the difference in the world between paying and being paid."


Herman Melville

quinta-feira, novembro 26, 2009

quarta-feira, novembro 25, 2009

Manifesto de um contemporâneo

"É melhor manterem-me acorrentado, porque quando eu tiver liberdade, pretendo usá-la."

terça-feira, novembro 24, 2009

"Det sjunde inseglet" - imagem

O INACTUAL 43

"Det sjunde inseglet" - Ingmar Bergman (1957)


Em "O sétimo selo", Bergman dá-nos a ver diversos tipos de espectáculo: o entretenimento inocente do trio de saltimbancos, a convencionada cena de género (uma discussão matrimonial entre o ferreiro e a esposa), o esplendor horrível da procissão religiosa, etc. O filme, contudo, é bastante claro: só este último espectáculo (o da tragédia) é capaz de convencer os espectadores medievais.

Bergman é, definitivamente, o cavaleiro sisudo e angustiado: nunca se cansou de filmar o triunfo da pulsão de morte sobre a pulsão de vida (desse ponto de vista, "O sétimo selo" é o reverso do maravilhoso "O sabor da cereja" de Kiarostami, no qual a realidade só parece fornecer argumentos convincentes para a sobrevivência).

No entanto, deriva daqui uma questão que me parece mais eloquente. O pai de Bergman era um pastor protestante, ríspido e seco como só algumas personagens do cinema do filho iriam ser. A relação do cineasta com a religião terá sido tão complexa quanto os seus conflitos edipianos. Foi ele próprio que confessou só ter perdido definitivamente a fé durante a produção do muito austero e muito belo "Luz de inverno" (1962). O que quer dizer que, quando fez "O sétimo selo", a sua cultura seria ainda a da angústia do crente.

Bergman contou também que, durante a rodagem deste filme, toda a gente tinha medo de que o público se desatasse a rir das figurações que estavam a propor (por exemplo, um actor com a cara besuntada de branco e um xailinho preto que chega e diz: "Eu sou a Morte"). Ou seja, Bergman estava ciente do risco do espectáculo que estava a construir. Se o filme resulta (e se tornou mesmo um dos clássicos mais famosos da sétima arte), é precisamente porque Bergman assumiu o lado esplendorosamente circense da representação alegórica.

Ora, quer-me parecer que todo esse circo (mistura de desejo e paródia) sinaliza, conscientemente ou não, a própria fragilidade da crença bergmaniana, e a sua futura dissolução. Se compararmos "O sétimo selo" com um filme muito mais simples e ao mesmo tempo muito mais sofisticado como "A palavra" de Dreyer, perceberemos o quão postiça, ou pelo menos frágil, era a religiosidade do realizador sueco.

Há muitos aspectos notáveis neste filme célebre: a construção de um poderosíssimo imaginário medieval, o aparente erro de casting de Gunnar Björnstrand (que traz ao seu bobo um cinismo frio completamente deceptivo), a sugestão de que a única vantagem de prolongar a vida é adquirir memórias felizes (e não atingir o Conhecimento místico), etc. Mas o que mais me toca é toda esta genialidade de encenação estar ao serviço de mais indefesa e humilde das dúvidas.

Crónica de Ingmar Bergman

No fim da adolescência, a minha cinefilia era ainda extremamente infantil. Com isto quero simplesmente dizer que me faltava aprender a destrinçar a paixão da reverência. Nomes colossais como TARKOVSKI, GODARD ou BERGMAN quase poderiam ser pedra erguida sobre as colinas de uma pessoal Medina do cinema. Acima de tudo, adorava enfrentar obras conotadas com o hermetismo, com a dificuldade, condições sem as quais não parecia haver suficiente aventura no processo de descoberta.

Quando passou o extenso ciclo Bergman na RTP2 (não me perguntem datas), eu gravei todos os filmes exibidos em cassetes VHS, e assisti com fervor religioso a dois terços da obra do sueco. Ou talvez devesse dizer fervor erótico. De qualquer modo, em terras bergmanianas, as duas coisas andam sempre muito próximas...

Sabia tudo sobre os actores: sabia que Gunnel Lindblom fazia sempre de rapariga alucinada, estremecia ao pensar até onde Ingrid Thulin conseguiria ir na representação do nojo moral, acompanhava as sucessivas mortes de Harriet Andersson (morte social em "Mónica e o desejo", morte mental em "Em busca da verdade", física por fim em "Lágrimas e suspiros"). Na altura, escrevi um ensaio (que ainda conservo, e até me parece válido) em que equiparava as estratégias narrativas-formais do autor a diversos processos de terapia psíquica.

Passados tantos anos, a quão descoberto está o meu saldo Bergman? Continuo um pouco distante de alguns dos seus filmes: "O sétimo selo" (sim, esse mesmo), "Sorrisos de uma noite de verão" (um nadinha reaccionário, não?), "O silêncio". Mantenho a admiração imaculada por algumas obras-primas: "Persona", "Lágrimas e suspiros", "Fanny e Alexandre". Defendo com convicção filmes menores: "No limiar da vida" (que o próprio Bergman detestava...), "O rosto" (de que Hitchcock não desdenharia), "O olho do diabo" (talvez a mais engenhosa comédia de um cineasta que não tem piada nenhuma), "Em busca da verdade" (filme de uma terrível beleza). Aceito os falhanços ("A sede", "A força do sexo fraco"), e continuo sem opinião sobre o incompreendido "O ovo da serpente".

O fascínio tornou-se mais saudável ao ser polemizado em termos de prós e contras. Acabei por me aperceber que Bergman era um magistral escritor de diálogos, e que o seu ascendente sobre outros autores se devia em parte à preguiça daqueles espectadores que vão ao cinema para verem actores a falarem uns com os outros (e quão mais lato é o cinema...). A sua fama como campeão na direcção naturalista de actores (que o torna tão admirado na cultura anglo-saxónica) não resistiu ao meu encontro com um jovem cineasta seu conterrâneo, admirador confesso do mestre, que me disse que, para um conhecedor do sueco falado, os intérpretes bergmanianos eram demasiado... teatrais (o que diriam disto os detractores do cinema português?). O excessivo acabamento técnico dos filmes deixa-me um pouco inquieto: para mim, ou a técnica é esplendorosa e está ao serviço de um formalismo total (Angelopoulos, Tarkovski, o Fassbinder de "Querelle"), ou então é melhor aceitar uma certa rugosidade desafiadora (Rossellini, Pasolini, António Reis/Margarida Cordeiro, Straub/Huillet). Ou seja, Bergman é, por vezes, um nadinha académico. E é preciso não sermos inocentes literários para conseguirmos avaliar a verdadeira originalidade da sua escrita (quantas coisas ele roubou ao Dostoiévski...).

Pelo contrário, não aceito que me digam que ele nada trouxe de novo, em termos visuais, ao cinema. Isso é não levar em conta o contornar do problema do campo-contracampo em "Um verão de amor" (falarei disso um dia aqui no blogue), o olhar de Mónica a enfrentar o espectador numa espécie de estreia brechtiana para a sétima arte, a fusão dos rostos de "Persona" (ideia surripiada para a publicidade da TMN?), a fotografia de "Lágrimas e suspiros". E se Bergman foi um fabuloso perscrutador do rosto humano (Deleuze escreveu várias páginas sobre isso), penso que será mais correcto dizer que ele trabalhou, formalmente, a questão da distância do actor perante a câmara (por exemplo, em "Sonata de Outono", os flash-backs são todos filmados em planos distanciados). Curiosamente, nunca achei os seus filmes difíceis: pelo contrário, são prodígios de comunicabilidade.

Os meus Bergmans são "Um verão de amor" (que Godard disse ser o mais belo dos filmes...), "Mónica e o desejo" (Harriet Andersson continua a ser uma das minhas actrizes favoritas) e "Morangos silvestres". Nestes filmes, a vibração lírica dos momentos de harmonia faz-nos compreender o que de facto está em causa na tragédia. Bergman percebeu aí bem a lição de Tchékhov. Depois, enveredou por um crescendo (cada vez mais exibicionista) de lágrimas e suspiros que, no filme que destes sintomas retira o título, atinge uma violência quase insuportável. Dá quase vontade de lhe perguntar: mas afinal por que estamos chorar?

Tudo contabilizado, a verdade é que eu acredito que um filme como "Morangos silvestres" é mesmo capaz de mudar a vida de um espectador. Que mais pode fazer um realizador de cinema?

sexta-feira, novembro 20, 2009

O sétimo harmónico

Uma das propriedades físicas dos sons produzidos por um instrumento musical é o facto de cada uma das suas vibrações se multiplicar por um conjunto de frequências secundárias, fenómeno a que se dá o nome de "série de harmónicos". Quando alguém produz o som DÓ, ele vem acompanhado de ondas que o projectam num sem-fim de sons que são seus múltiplos quase inaudíveis, mas que na verdade têm um papel decisivo na definição acústica de todo o processo musical.

De certa maneira, a série de harmónicos explica a teoria e a prática da Harmonia desenvolvida no ocidente. Veja-se: o harmónico que se segue ao som fundamental DÓ é outro DÓ (reforçando assim o poder de uma nota protagonista na definição de uma tonalidade), seguido por um SOL (ocupando a posição da dominante que, como o nome indica, é a segunda nota mais importante a seguir à tónica), ao que se segue novo DÓ, depois um MI (a chamada mediante, essencial para a definição do modo), novo SOL, etc. Saindo do excesso de tecnicidade, pode dizer-se que a série de harmónicos revela uma rigorosa hierarquia sonora (quanto mais distante está o harmónico, menos relevante ele é) que o sistema harmónico tonal do ocidente de forma semi-consciente tomou como modelo da sua organização (sistema esse que ainda hoje é usado na música popular).

A harmonia tonal parece estar assim caucionada por uma evidência da Natureza. No entanto, há um pequeno detalhe: o sétimo harmónico (se atribuirmos o número um ao som fundamental da série) não equivale a nenhuma das doze notas que conhecemos no sistema temperado (que Bach tanto ajudou a definir). É uma sonoridade estranha à matemática da música que, na nossa cultura, ocupou uma posição hegemónica. Num piano, por exemplo, é impossível reproduzir essa nota através do mero uso das teclas.

Ora, esse harmónico não é menos natural que os restantes. Ele deriva exactamente do mesmo fenómeno acústico. O que a história da música fez foi ocultar a sua verdade, de modo a atingir um sistema matematicamente inconsútil, um sistema conveniente à racionalidade. Só as vanguardas a partir do fim do século XIX começaram a explorar outros mundos que o mundo da música havia deixado abandonados.

Eu diria, então, que um pensamento de direita (aceito uma designação mais elegante) é aquele que oculta e marginaliza a naturalidade inquestionável de tudo o que constitua um elemento minoritário. Por exemplo: a heterossexualidade apresenta-se como uma evidência maioritária (dada a sua faculdade de reprodução de vida), mas a homossexualidade, que também existe na natureza, é subtilmente considerada contra-natura (mesmo que isso não seja vociferado frontalmente por receio do politicamente correcto). Um bissexual com comportamento de direita é aquele que assume socialmente um casamento heterossexual e vive a sua outra orientação como um hobby secreto.

Continuando na senda dos exemplos, o pensamento de direita é aquele que produz leis que impedem as migrações no Mediterrâneo em direcção à Europa (gabando-se de assim salvar vidas), mas que assume total indiferença perante o desespero absoluto que provoca a pulsão migratória: o problema não é realmente equacionado, é jogado para debaixo do tapete. O pensamento de direita é aquele que celebra o triunfo do homem de mérito, mas nunca assume que os indivíduos estão condenados a pontos de partida completamente desiguais e que a corrupção é talvez o elemento essencial na ascensão social. É aquele que, por razões de segurança, encerra homens em prisões, mas que nada quer saber sobre a verdade trágica que leva um indivíduo até ao crime. E etc.

Em compensação, o pensamento de esquerda apressa-se geralmente a entrar em conceptualizações que pouco ou nenhum eco encontram na natureza (quanto mais não seja, na natureza humana). O problema da modernidade filosófica foi ter suposto que era possível elaborar sistemas revolucionários a despeito das características do Homem para o qual teriam sido construídos (note-se como o marxismo muitas vezes andou de mãos dadas com o puritanismo sexual). O erro de Schonberg não foi, portanto, a invenção de um sistema de composição em que as doze notas musicais não têm uma hierarquia a priori que as constranja (o dodecafonismo), mas o ter suposto que um sistema tão marginal poderia servir de base universal à música do futuro. Toda esta ciência das utopias levou a uma reacção histérica: o relativismo vazio (e levou também aos miseráveis socratismos políticos).

A vocação da modernidade deveria ter sido aquela que deriva do sétimo harmónico. O que Schonberg inventou foi, na verdade, um sétimo harmónico, inventou a sua própria natureza, pessoal e minoritária, uma natureza imanente à sua imaginação. E que bela música compôs. O pensamento de direita exalta o individualismo, o pensamento de esquerda propõe o colectivismo (usando uma racionalidade mais castradora que as próprias leis da natureza...). O sétimo harmónico assinala o papel irredutível do Indivíduo.

O sétimo harmónico é a poesia, é a física sexy de Einstein, é a generosidade, é a vastidão ainda inexplicada do Universo. É a anarquia que não precisa de violência, o triunfo das humanidades sobre a arrogância da lógica, o mundo proposto pelos loucos (clinicamente falando). Mundos iniludivelmente naturais (harmónicos-de-nós-mesmos) que questionam aqueles que têm o poder de definir as ortodoxias grosseiras.

O sétimo harmónico é a pergunta, a respiração, a dúvida. A elegância. O manguito.

terça-feira, novembro 17, 2009

Prós e contras

A maneira mais eficaz de atingirmos um argumento lógico é acreditarmos naquilo que dizemos e dizermos aquilo em que acreditamos.

domingo, novembro 15, 2009

Massagem

É preciso sermos muito supersticiosos para supormos que temos alguém nas palmas das nossas mãos.

Sovereigns' gallery

Say CHEESE, and maybe the photo will give you the milk of human kindness.

sábado, novembro 14, 2009

Tradução 18

Poema "Um par", de Algernon Charles Swinburne, traduzido por mim:



Se o amor fosse o que é a rosa,
.....E eu tal como a folha fosse,
Medraríamos a par
Com pesar no clima ou júbilo,
Vento ou flor abrindo o solo,
.....Prazer verde ou parda dor;
Se o amor fosse o que é a rosa,
.....E eu tal como a folha fosse.

Fosse eu tal como as palavras,
.....E o amor como a cantiga,
Com som dual e um só deleite
Ligar-se-iam nossos lábios
Em felizes beijos de ave
.....Fresca à chuva do mei'-dia;
Fosse eu tal como as palavras,
.....E o amor como a cantiga.

Se, meu bem, fosses a vida,
.....E eu teu caro a morte fosse,
Brilho e neve os dois seríamos
Até Março trazer graça
Com narcisos e estorninhos
.....E um sem-fim de fértil sopro;
Se, meu bem, fosses a vida,
.....E eu teu caro a morte fosse.

Se da mágoa fosses serva,
.....E eu um pajem para o gozo,
Toda a vida folgaríamos
Com olhinhos e traições,
Choros da alva e da noitinha,
.....Irrisões de moça e moço;
Se da mágoa fosses serva,
.....E eu um pajem para o gozo.

Se de Abril tu fosses lady,
.....E fosse eu um lorde em Maio,
Jogaríamos com folhas
E com flor's empataríamos
Até ser sombrio o dia
.....E ao contrário a noite clara;
Se de Abril tu fosses lady,
.....E fosse eu um lorde em Maio.

Se reinasses no prazer,
.....E eu da dor fosse o monarca,
O amor ambos caçaríamos,
Seu voar depenaríamos
P'ra aos seus pés darmos um metro
.....E à sua boca rédea curta;
Se reinasses no prazer,
.....E eu da dor fosse o monarca.


(O texto original pode ser lido aqui)

sexta-feira, novembro 13, 2009

terça-feira, novembro 10, 2009

Quanto mais me bates

Algernon Charles Swinburne parece-me ser, de longe, o mais relevante dos poetas pré-rafaelitas (sem desprimor para o excelente "Goblin market" de Christina Rossetti e para a bizarra alegoria "Uma visão do amor revelada no sono" de Simeon Salomon).

A sua obra configura um desafio declarado à ideologia cristã (e não tanto à sua fé). Em termos muito simples, Swinburne afirma que, tendo Deus criado um mundo sumamente imperfeito (com a morte armada em cereja no topo do bolo), mais vale viver em imperfeição irreverente (como a religiosidade grega, com todo o seu séquito de deuses menores, parecia sugerir) do que em busca de uma pureza beata que não consegue tapar as trevas com a peneira. Por isso ele celebra o pecado, a luxúria rebelde, a dor. Por isso o seu paraíso é um lugar de pleno sono.

Independentemente das suas manias sexuais (ao que parece, era mesmo um encartado masoquista), a glamourização da dor por Swinburne resulta acima de tudo de uma revolta filosófica e de uma ética tão vital quanto desesperada. Isto é ligeiramente estranho para mim: trata-se de um homem que deu um colossal passo para trás, mas não conseguiu ensaiar um novo e frágil passo para a frente. No entanto, sou profundamente tocado pelo seu orgulho desmedido (notável retrato de uma Safo super-lírica em "Anactoria").

Poeta (demiurgo de uma selva pujante de musicalidade e metaforização) e não pensador (como Sade, que ele muito admirava), são seus os seguintes versos, referentes a Deus:



"Him would I reach, him smite, him desecrate,
Pierce the cold lips of God with human breath,
And mix his immortality with death."