domingo, fevereiro 21, 2010

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Tradução 20

Poema "Annie" de Guillaume Apollinaire, traduzido por mim:


No litoral do Texas
Entre Mobile e Galveston fica
Um grande jardim bem cheio de rosas
Contém ainda uma moradia
Que é uma grande rosa

No jardim costuma dar passeios
Uma mulher completamente sozinha
E quando eu passo na estrada bordada de tílias
Nós olhamos um para o outro

Como a mulher é menonita
Suas roseiras e roupas não usam botão
Faltam dois no meu jaquetão
Eu e a dama seguimos quase igual doutrina


(O original pode ser lido aqui)

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Partilha 73

ghost righter


no outro dia
cometi um pecado
meti água:
não fodi um rapaz de dezoito anos
mais estilo terei p'ra escrever do que p'ra viver?
as coisas não se põem
assim

antes
queria reencarnar em mariposa
mas agora acho melhor
pôr-me a jeito do besouro
(sem problema
o processo será narrado
por sir david attenborough)

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Alguns mitos

1. Sobre pintura - Há pessoas que, perante um quadro isento de virtuosismo mimético, exclamam: "eu também fazia aquilo". Ainda que não se tome em conta o facto de a sensibilidade plástica ser necessária em todo o tipo de gestos (mesmo que esse seja o gesto de Jackson Pollock), e que, por isso mesmo, não vale tudo (no limite, o problema não é haver quadros pintados por macacos, mas é haver críticos sem sensibilidade para a plasticidade dos macacos...) a verdade é que, quando uma pessoa diz "eu também fazia aquilo", está a colocar-se a si mesma na posição do imitador. Dito de outro modo, não há nenhuma relação entre o menor espalhafato tecnicista de uma sensibilidade plástica e a originalidade e individualidade que ela pode oferecer.



2. Sobre poesia - Entre os muitos lugares-comuns que infestam a vivência da escrita poética, há dois mitos tão simétricos entre si que se auto-anulam. No passado, havia quem achasse que a poesia era uma arte muito difícil, a que só os eleitos teriam acesso activo. Presumo ser esse o tipo de cultura que servia de motivação a um autor como Eugénio de Andrade. Quem, como eu, já tentou escrever um romance e falhou redondamente, sabe como é francamente difícil engendrar uma boa prosa de ficção... No presente, auras passadas à história (mas quem perante a evidência ousa falar de aura?), dizem-me que a poesia é coisa demasiado fácil de fazer, não escancara trabalho, virtuosismo, investigação. Espero que, no futuro, se perceba que um homem se encontra perante a poesia como perante qualquer outro fazer, que a sua compreensão profunda exige o mesmo nível de acasos, inclinações e aprendizagens, e que é francamente provável, e até desejável, que a existência de um bom poeta seja um fenómeno mais raro que a existência de um bom amante ou de um bom amigo.



3. Sobre a metáfora - As pessoas que condenam o uso da metáfora com o argumento da obliquidade (como a metáfora não chama as coisas pelos seus nomes, o seu efeito seria mais ornamental do que interventivo) são as mesmas que desconfiam da relação entre as palavras e as coisas que as palavras denotam. Ora, se a palavra corpo não é capaz de referir o objecto corpo com toda a propriedade, por que razão não posso eu aludir ao objecto corpo através de uma outra palavra qualquer?

domingo, fevereiro 07, 2010

Não, a pintura não está morta



(Fotografia de Virgílio Ferreira)

Contra Platão

Ao terem intuído as possibilidades da lógica, os sábios da Grécia Antiga encontraram o conceito de unidade. Ou seja, perceberam que o devir presente em todos os fenómenos ocultava uma dimensão imutável, uma essência, que podia ser explorada pelo pensamento.

A ciência veio dar-lhes razão: os homens descobriram que era possível explicar o mundo de acordo com leis universais (por exemplo, a Teoria da Evolução foi construída com base nos indícios cada vez menos refutáveis de um princípio comum a toda a vida terrena).

No entanto, a beleza da lógica talvez tenha tolhido a liberdade do pensamento grego na sua aplicação à especificidade do comportamento humano. Pois, se podemos falar de uma unidade-absoluta a propósito das disciplinas que orbitam em torno da matemática (os físicos continuam a tentar arranjar uma teoria única, universal, simples, que explique a totalidade do universo), não podemos aplicar o mesmo discurso às humanidades (política, economia, sociologia, psicologia, cultura, religião, etc.) sem provocarmos sofrimento aos próprios seres humanos.

É claro que a nossa espécie só se consegue organizar em torno de analogias do conceito de unidade (Deus, o amor, a família, a nação, a etnologia, etc.), mas a unidade, enquanto invenção do humano, só é respirável numa prática de relatividade.

Relatividade, mas não relativismo. A ambição da unidade é essencial à sobrevivência (desde logo, não conseguiríamos ter uma auto-consciência de espécie sem esse apriorismo). Mas essa unidade já não pode ser governada pela matemática, mas sim pela linguagem, que não é um fenómeno de pura arbitrariedade como por vezes se pretende, mas a medida mais justa que o homem arranjou de a si mesmo se entender e em si mesmo intervir.

É difícil não esboçar um sorriso perante as gravíssimas preocupações metafísicas de São Tomás de Aquino (se bem que tudo isso me apaixone, como me apaixona a literatura de Lewis Carroll ou Benjamin Péret). Mas ainda mais difícil é não sentir um amargor profundo perante os cínicos que desconfiam a palavra.

É o nosso instrumento. Aquele que nos permitiu inventar o amor sem o sabermos definir de forma fatal. Aquele que nos permite inventar o neologismo que abraça cada nova impertinência na generosidade sempre crescente da unidade-relativa. Aquele que nos permite construir um plano de transparência sobre o mundo, esse papel-vegetal onde o imitador se confunde com o opressor sem imaginação nem liberdade. Aquele onde podemos distinguir o invisível literal do invisível metafórico.

Excerto de uma carta de amor 4

.......olhe, escrevo-lhe para lhe apresentar, de antemão e por mão própria, o príncipe que em mim mesmo sou. Nem imagina: vivo num mónaco interior de tal modo luxuoso que não me faltam pajens para apajearem as virtudes, aias para suspirarem pelas derrotas ou bobos para ocultarem a sordidez sob um manto de refinada ironia. Sapatos de cristal, vistas sobre a rivièra, boatos de paparazzo: tenho tudo isso sob a forma de desregulamentos de insulina, ousadias de colesterol, ou penosas dores musculares. Chego a pensar que sou mesmo o príncipe dos pedroludgeros, pois de outra coisa talvez não pudesse ser. Espero assim conseguir cegá-lo o suficiente para que, no nosso primeiro encontro, não precise de me engolir como quem engole um beijo........

Confissão do adulto

Não endeuso a minha infância particular (apesar de ter sido uma época suficientemente serena para não me deixar demasiadas recordações), nem me considero propriamente um nostálgico (preferia, aliás, que a vida me corresse bem agora, ou daqui para a frente).

Se dou tanta relevância à infância na minha reflexão, é porque esse é o único momento da vida em que os humanos acreditam mesmo, e com pujança física, na possibilidade de serem felizes sem mácula. Ora, essa evidência (essa convicção) parece-me ser o ponto de partida a partir do qual podemos elaborar uma ética, um empenhamento político e/ou uma aventura criativa, sem precisarmos de recorrer a uma fundamentação transcendente.

A suivre.

Publicidade

Pergunto-me quais as consequências de um tipo de organização económica que baseasse a sua dinâmica no valor intrínseco dos produtos (e dos recursos), e não na possibilidade de lucro obtida a despeito desse valor?

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

O INACTUAL 44

"Adieu, plancher des vaches!" - Otar Iosseliani (1999)


O cariz onírico dos filmes de Otar Iosseliani não obedece meramente a um princípio de evasão, mas constitui-se como o ponto de partida de um discurso radicalmente comprometido.

"Adieu, plancher des vaches!" retoma a encenação de um microcosmo social relativamente estável (apesar dos elementos que surgem e desaparecem), onde todos os seres se afectam de forma mais ou menos consciente. Se a circunstância deste grupo humano ser descaradamente sui generis afasta a ficção de pretensões de exactidão realista, também não a aproxima da articulação de uma utopia. De facto, parece ser possível (comédia) iludir a condição social verdadeira (o pobre que se faz passar por rico e vice-versa), mas já não é provável que se possa escapar às consequências dessa ilusão (a rapariga casa com o primeiro). Se os personagens não estão conscientes desse drama, são pelo menos suficientemente sinceros consigo mesmos para saberem que nenhum estatuto oferece uma compensação satisfatória.

Para além de cada um ser louco à sua maneira (a escolha de um meio de transporte obedece menos a imperativos utilitários do que à necessidade de tornar visível o nível de refinamento do estilo pessoal...), o seu quotidiano (mais ocupacional do que propriamente laboral) parece não passar de um método de regresso obsessivo ao sexo, ao vinho e à música. No seio desta anarquia de cunho existencial, há tempo para celebrar os mitos da amizade (o encontro de almas gémeas fora do espectro das complementaridades sociais e sexuais) e da liberdade (o personagem interpretado pelo próprio Iosseliani abandona o seu pequeno mundo de comboios eléctricos, evidentes metáforas do gozo da criação fílmica, para se lançar numa viagem sem destino que seria quase demagógica se não representasse, precisamente, uma alternativa simbólica à prisão que até o cinema, plancher des vaches, impõe).

A solidariedade poética que o autor devota às personagens não o impede de representar a crueldade que elas possuem, sem precisar de recorrer a quaisquer moralismos: a mulher excêntrica que não aceita as excentricidades do marido, o rapaz de boas famílias que abandona o amigo depois de ambos saírem da prisão, o marido que mata a mulher após uma discussão, a criança inteligente que participa na vida criminal, o trabalhador incompetente que se vinga no despedimento de outro trabalhador, etc.

Parece que a Humanidade, apesar de ser muito humana, não é flor que se cheire. Iosseliani conclui: com a passagem do tempo, as coisas mudam, mas não necessariamente para melhor.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Domingo, em Serralves...



"El angel exterminador", de Luis Buñuel

Partilha 72

datação por carbono 14


se eu deixar por limpar
esta mancha no tacho mal lavado
estarei
por ventura
num salão árabe
sob a luz admirável de mil e uma pedrarias
de hesitação

ah ah ah ah ah
sobreviver
é sempre politicamente in-cor-recto
pois quem ri por último
ri com mais cagança
- samira, vai-me comprar cueiros
que eu quero pensar a criança


Nota: "pensar uma criança" é uma expressão antiga que significa "mudar ou limpar os cueiros".

O Emerson String Quartet interpreta um contraponto da "Arte da Fuga" de J. S. Bach.

domingo, janeiro 31, 2010

Partilha 71

modus vivendi ?


espero
que a ternura dos quarenta
não seja uma massagem administrada num spa
(dizem que custa os olhos da cara
e só eles
ai de mim
não botaram gordura)

o melhor é escorregar numa casca de banana
e fingir que sou um poeta do passado
tísico
claro
em direcção a um país sem norte
onde já ninguém grita
e onde o sol é sempre um coque

É sem pompa nem circunstância...

... que anuncio o personeto, uma forma poética que inadvertidamente encontrei, e que servirá de molde de construção textual numa das secções do livro "quarenta graus à sombra" (cuja redacção foi iniciada com o poema que partilhei aqui). Estive para baptizar a dita forma com o nome soneto ludgeriano, mas não o conseguia pronunciar sem me desatar a rir.


As características do personeto são as seguintes:

1. O destaque compositivo será dado aos números 2 e 7, o que implica que o soneto será sempre composto por duas estâncias de sete versos, ou por sete estâncias de dois versos (esta última situação será mais rara).

2. As estâncias serão caracterizadas por uma heterometria muito contrastada (podendo as medidas dos versos variar entre uma e catorze sílabas métricas).

3. O tom do poema permanecerá doméstico e gracejador, a despeito da violência do fundo metafórico.

4. Serão bem vindos os diálogos, os parêntesis, as onomatopeias.

5. As duas dimensões sensitivas que um texto pode trazer (imagem, som) serão invariavelmente aludidas em cada poema (ainda que de forma muito oblíqua).

6. Cada soneto terminará com uma chave de ouropel, que terá um sabor infantil (uma emoção fácil de rebuçado), e onde se manifestará a única rima forte do poema.

7. Estas regras não constituirão um dogma, e desejam ser, a qualquer momento, transgredidas.



No post acima, está outro exemplo de personeto.

Galeria Murnau 1



Murnau am Staffelsee
(a vila de cujo nome o realizador tirou o seu pseudónimo - supostamente)

Morreria se tivesse escrito 1

"Em todas as épocas houve pessoas diferentes, mas se a diferença se espalhar a sociedade fica em perigo."

António José Saraiva

sábado, janeiro 30, 2010

Gostaria de ter escrito 4

"La rationalité (...) consiste précisément dans l'adaptation continue de notre langage à un monde en continuelle expansion (...)."

Mary Hesse (citada, e presumo que traduzida, por Paul Ricoeur em "La métaphore vive")

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Partilha 70

arte poética n


não é que catar os piolhos da cabeça de um filho
corresponda
a fazer um serviço da vista alegre
mas era exactamente essa correspondência
que eu queria
hoje
escrever

juro
que tentei fazer poemas
sobre esse único assunto da poesia que é a morte
mas sobrevivi
(dlam dlam dlam
os sinos que já não se ouvem na cidade
ouvir-se-ão aqui)