domingo, janeiro 10, 2010

Publicidade insuspeita

Em breve, dois membros da minha família entram em acção:

Ricardo Vasconcelos publica "Campo de Relâmpagos", na Assírio e Alvim, livro de ensaios sobre a obra do poeta Luís Miguel Nava.

A pianista Elsa Marques Silva, em duo com o clarinetista Nuno Pinto, apresenta um programa de música de câmara no Teatro Helena Sá e Costa, no dia 5 de Fevereiro (às 21h30).


Excerto de uma carta de amor 2

......olhe, escrevo-lhe esta missiva para o fixar por uns instantes, para reter o remoinho da sua indiferença, como faziam certos povos antigos da floresta quando paravam os peixes do rio com tintas de plantas escolhidas a dedo. De igual forma, este meu veneno verbal não é fatal: se não quiser ser caçado, não será. E então, velha história, eu terei de evoluir de novo: tornar-me-ei amigo da recolecção. Apanharei o menor fruto da sua deferência, a mais secreta raiz de um olhar dirigido a outrem, a noz que precede um sorriso. E a missiva ficará como vestígio da música insistente de um homo ignorans ignorans......

Fala da esposa estéril (para o marido)

"Traslada os teus restos vitais para o meu cemitério dos prazeres."

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Tentando ter paciência

Na sua coluna de opinião no jornal PÚBLICO, Helena Matos afirmou que, a partir do momento em que se legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo, estamos a um passo de um dia legalizarmos a poligamia. Não acredito que preciso de escrever um post para refutar uma afirmação de tão baixo nível, mas há alturas em que é preciso sujar as mãos.

Sim, de facto, sempre que usamos a inteligência para colocar a cultura em causa, abre-se um infinito de possibilidades. Não é só o casamento poligâmico. É também o enlace entre humanos e animais, entre humanos e cadáveres, entre humanos e exemplares do "Guerra e Paz", entre humanos e o papier mâché.

No entanto, aposto que, no fundo, Helena Matos sabe que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não equivale à poligamia. Em primeiro lugar, nunca ouço falar de uma situação poligâmica na qual uma mulher seja bafejada pela sorte de um harém masculino. Acontece invariavelmente o contrário (e ainda menos ouço falar na necessidade profunda que têm os cultores da orgia de se unirem em matrimónio...) . O problema central da poligamia é que ela resulta sempre de um aviltamento da mulher, que deixa de ser considerada na sua inteireza e individualidade para fazer parte de um número, e para perder a dimensão absoluta dos seus "direitos" matrimoniais. De qualquer modo, a poligamia praticamente não existe em Portugal, enquanto a homossexualidade sempre houve, e com uma expressão profundamente significativa.

A questão da relação entre culturas parece-me de resolução tão simples, que me espanta a quantidade de genocídios culturais que infestaram, infestam e infestarão a nossa História: temos de respeitar todas as dimensões de uma outra civilização, à excepção daquelas que claramente prejudicam a dignidade e liberdade de cada ser humano. Assim sendo, não havia razão nenhuma para que os missionários dos Descobrimentos tivessem contrariado a nudez imemorial com que os índios sul-americanos se expunham ao mundo, na medida em que isso não causava dano a ninguém (e se os europeus se sentiam lesados, que voltassem para para casa, pois esse outro continente estava previamente povoado por outras civilizações). Pelo contrário, a situação da mulher na cultura árabe (a despeito dos aspectos fascinantes que essa cultura possui) tem de ser firmemente condenada por quem tiver o mínimo de espinha dorsal.

Toda esta algaraviada para dizer que, por razões éticas, não tenho de aceitar a poligamia de certos países, e que esta não se coloca no mesmo plano de legitimidade de um contrato livremente celebrado por duas pessoas que se predispõem a um cuidado mútuo e exclusivo. Passando por cima do verdadeiro problema a partir do qual se ergue a deformação poligâmica (que é o facto de continuarmos a confundir a fidelidade do amor, que é espiritual, com o empobrecimento da vida erótica), eu informo Helena Matos que a diferença das duas situações tem ainda uma nuance mais grave. É que não me parece que haja, no nosso contexto, um historial de sofrimento por causa da poligamia. Haverá infidelidades, divórcios, crimes passionais, ménages à trois, sim, mas na civilização ocidental contemporânea devem ser raros aqueles que foram fisicamente perseguidos, socialmente marginalizados ou juridicamente menorizados por causa das suas convicções poligâmicas. O mesmo não se pode dizer dos homossexuais. É precisamente porque o casamento é mais do que um mero contrato, é porque tem um peso simbólico sem paralelo, que ele pode funcionar como um passo fundamental na desmontagem da homofobia.

O casamento (e, em sentido mais amplo, a família) foi questionado pela cultura moderna mais revolucionária. E teve de ser assim. As monstruosidades a que a célula familiar pode conduzir (por exemplo, podemos ser sexualmente monogâmicos toda uma vida, sem sentirmos o menor afecto ou mesmo respeito pelo cônjuge que usufrui dessa exclusividade...) exigiram esse momento de crítica. Mas o casamento só ganhou com isso: deixou de ser uma imposição independente da consciência do indivíduo para se configurar como uma possibilidade livre de felicidade. Aliás, não deixa de ser curioso que Jerónimo de Sousa seja um homem de família, e Paulo Portas, não. A manutenção da exclusividade do casamento nas mãos dos heterossexuais é uma forma de adiar a libertação dos homossexuais da cultura que, por razões de marginalização, acabaram por assumir, e que se traduzia na dificuldade sobejamente conhecida de constituir relações estáveis.

Quanto à questão da adopção, devo dizer que concordo com a ideia de que esta deve ser mantida no âmbito dos direitos da criança. Por isso, e para que não haja casamentos de primeira e casamentos de segunda, eu sugiro que se retire o direito de adoptar do instituto do casamento entre pessoas de sexo diferente. Exactamente porque falamos de direitos da criança, e não dos adultos. A partir deste pressuposto, cada caso de adopção seria avaliado exclusivamente em função da rigorosa idoneidade do ou dos adoptantes, e não da sua situação conjugal (e de qualquer modo, a legitimidade científica da adopção por casais do mesmo sexo, problema distinto do casamento, deverá ser avaliada por sérios profissionais de saúde mental, e não por padres, políticos, ou senhoras que usam laca no cabelo).

Compreendo que esta é uma mudança imensa. É verdade. Mas o mundo também um dia se tornou cristão em detrimento de toda a cultura anterior, eu sou agnóstico e considero-me violentado porque em criança tive uma educação católica. E o mundo também se tornou capitalista em detrimento de uma cultura económica mais humilde na sua relação com os recursos, e eu tenho de sobreviver numa sociedade onde me sinto diariamente agredido pelas estratégias da ganância. O que estou a tenta dizer é que aquilo que me querem impingir como autoridade imemorial, como um "sempre foi assim", só foi assim a partir de uma determinada altura.

E porque não sou suficientementemente político para dizer apenas aquilo que é conveniente, afirmo que, por razões morais, mais depressa deixava entrar em minha casa um polígamo do que uma pessoa com uma cruzada moralista.

domingo, janeiro 03, 2010

Nota "Jaime"

Ao rever o primeiro filme de António Reis (Margarida Cordeiro ainda não co-assinava a realização), fiquei surpreendido pela sua força silente. Toda a primeira parte, constituída por imagens de doentes psiquiátricos num pátio, é oferecida ao espectador sem o benefício (da certeza) de uma banda sonora. Curiosamente, a câmara espreita esse mundo calado através de uma espécie de janela, ou escotilha, que evoca o efeito de íris que era tão caro aos realizadores do cinema mudo. Opção inconsciente? Infelizmente (?), não o sei.

Quanto mais tempo passar sobre "Jaime", mais a ruralidade que ele documenta será invadida pela energia da loucura. Estamos a ficar tão ignorantes quanto à civilização aldeã, que o seu excesso (de beleza, de dureza) adquire pergaminhos de irracionalidade. Quando vi, na imagem que ilustra este post, aquelas três maçãs penduradas por fios, perguntei a mim mesmo: seria um hábito camponês, ou é uma opção de encenação poética (como noutro passo acontece claramente com um guarda-chuva aberto)? Infelizmente (!), não o sei. Mas compreendo melhor a loucura de Jaime, as suas fontes, os seus nutrientes, o seu espaço duplo de liberdade e prisão.

Este filme tem o mais belo plano fixo de flores que já vi em cinema. De lobo e de louco todos temos um pouco?

Argumento privado

Penso que já aqui disse que não tenho propriamente uma opinião sobre a querela levantada pela iminente entrada em vigor do novo acordo ortográfico para a língua portuguesa. Não se pode ter opinião sobre tudo...

A dimensão etimológica da ortografia não é uma manifestação de verdades arquetípicas, mas o resultado de uma opção histórica concreta, contingente e questionável (os Renascentistas curtiam o latim). Não me custa, por isso, abandonar esse rigor. A questão dos possíveis erros de pronúncia que a nova ortografia pode causar é, claro, uma falsa questão: basta que aprendamos um novo conjunto de relações normativas entre essas duas dimensões da língua; afinal, quase tudo o que se refere à linguagem é convencional. Para além disso, estou isento de ilusões de colonialismo: a continuidade das civilizações indígenas da América do Sul poderia ter engendrado um Brasil bem mais glorioso do que este que, por gentileza, dá futuro ao português.

Por outro lado, não me parece que um conjunto de leis sobre ortografia constituam um passe de mágica capaz de dar força internacional à língua de Camões. Sem modéstia nem vaidade, acho que se eu produzir um excelente texto literário, tenho mais chances de gerar curiosidade pelo meu idioma do que qualquer acordo palopiano (não disse pavloviano, atenção). Quem diz literatura, diz ciência, pensamento, política. E quanto ao mito contemporâneo (tão capitalista quão socialista) da facilitação, respondo que só é fácil a dificuldade que cada um por si mesmo conquista. Ou seja, em vez de servir de bandeja, prefiro ensinar a cozinhar.

Espero que Vasco Graça Moura (que será o mais eminente dos intelectuais, não é isso que está em causa) nunca venha dizer publicamente que a legalização do casamento entre as pessoas do mesmo sexo não é um assunto prioritário... Pois eu gostava de saber qual a prioridade de todo este chinfrim em torno de mais letra, menos letra. E eu até sou daqueles que podem afirmar que o seu exílio é a língua portuguesa.

Tenho, contudo, um argumento muito meu contra este acordo superstar. Parece-me que se vai limpar, da ortografia da minha língua, o pouco que ainda lhe restava de uma certa beleza selvagem. É um luxo meter uma uma letra numa palavra para ninguém a pronunciar! Um luxo luxuriante. A escrita vai ficar mais parecida com um alicate do que com um sexo. Mas quem se interessa por isto? Só sei que, no meu próximo projecto de poesia (apropriadamente intitulado "uma selva"), tentarei inventar uma ortografia que o leitor possa namorar.

Arte poética: the f world.

Não sacralizo nem dessacralizo palavras: sexualizo-as.

sábado, janeiro 02, 2010

Uma intuição

Dizem os especialistas que a floresta Amazónia cresce sobre o seu solo, e não do seu solo (que é paupérrimo, infértil), utilizando-o essencialmente para proceder à fixação dos nutrientes que resultam da reciclagem dos seres vivos (o que de certa maneira explica a desmesura das árvores tropicais: elas precisam de desenvolver raízes que cubram a maior superfície possível, de modo a apanharem qualquer elemento químico disponível), e não como fonte de nutrientes.

Também a escrita cresce sobre o papel e não do papel, na medida em que os seus nutrientes provêm todos da reciclagem da experiência da vida (o papel é o suporte de fixação dessa experiência). Ora, parte da novidade (e da estranheza) da obra de Stéphane Mallarmé resulta precisamente do facto de ele ter pretendido extrair a sua poesia do papel em branco (ou de uma certa ideia de papel em branco). É claro que isto não passa de sugestão (e de ilusão), mas pode configurar uma linha de abordagem fértil quando aplicada ao autor de "L'après-midi d'un faune".

Silogismo

O Deus retratado pela Bíblia não teria sofisticação intelectual suficiente para ser o autor, quanto mais não seja moral, de um livro assim tão belo; logo, a Bíblia não é um livro de inspiração divina.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Partilha 69

listen very carefully
i shall say this only once




follow that car
e não sei dizer mais nada
na vossa língua

....................................

presumo que me vão falar da vida
como se ela fosse
uma anedota sobre bêbados
mas eu já soube tantas tantas coisas

até já soube o que era a matéria clara
e fui eu que lancei a teoria
de que nenhum clima aguentaria
uma subida de mais de dois graus

descobri que, para a lua, as marés
são algo menos que escalas tonais
e aprendi a distinguir os homens
entre venenosos
comestíveis
ou medicinais

chamava à andorinha jocasta
não fosse o frio tornar-se enigmático
era doutor na arte de escandir
hoje sirvo pinga amoris causa

e é quando a matrícula da pedra
se torna finalmente discernível
(porque a morte se aliou ao inimigo)
que eu percebo que só eu remo
na direcção que está correcta

Cadernos Péretianos 1

"Souvent, mes amis s'amusaient à lui citer un passage ou deux tirés de ses recueils et qu'il n'identifiait jamais, appréciant vaguement d'un sourire perplexe, cherchant à deviner l'auteur, comme si le courant le mettait en présence d'un bois flotté venu des antipodes."

Robert Benayoun

Cadernos Llansolianos 1

"- É triste [luminoso] precisar de dinheiro para vibrar. Mas tu vibras com o menor impulso de dinheiro possível. O que é ainda mais luminoso."

("Femme en robe bleu" de Balthus para) Maria Gabriela Llansol

Fala do suicida

Quero ser encontrado, morto ou vivo.

domingo, dezembro 27, 2009

Saltando por cima

O que se opõe ao individualismo não é o colectivismo, mas sim o indivíduo.

sábado, dezembro 26, 2009

Cravos-ferraduras (mais alguns)

1. Nas últimas páginas de "O homem livre" (ver este post), Filipe Verde fornece ao seu leitor a seguinte citação: "Devemos portanto estudar a excelência do carácter, tentar descobrir o que o constitui e como é que ele se forma e evitar enredar-nos em discussões sobre epistemologia moral ou de fundamentação da ética" - Gisela Striker.

Para todo o moralista céptico da moral, estas palavras são preciosas. Aliás, estou cada vez mais convicto de que os grandes pensadores éticos são os romancistas, e não os filósofos. Precisamente porque não escondem o relativismo do seu ponto de vista, porque analisam a irredutibilidade de cada carácter e a tirania das circunstâncias em que ele tem de evoluir (Herberto Helder afirma não se interessar pela prosa de ficção por causa da pretensão moral que os seus cultores ostentam; contudo, dada a irrisória quantidade de romancistas que o grande poeta madeirense tolera, eu acho que será mais justo dizer que, sendo a ética um assunto privilegiado do romance, a maior parte dos exemplares relevantes dessa arte não são propriamente moralistas).

Não me incluo no grupo acima mencionado: para além de ter mais curiosidade pelos dilemas éticos do que expectativas punitivas sobre as actuações concretas, eu sou tão céptico da moral como céptico do cepticismo. Considero, claro, que a dúvida é um dos fundamentos nobres daquilo a que chamamos humanidade. Já Descartes demonstrou que nada consegue ser mais ético do que o questionamento da autoridade do edifício cultural que cada indivíduo herda. Em qualquer altura da história da civilização, podemos assumir o exaltante direito-dever de tudo pôr em causa. É a pergunta eleita da criança: porquê?

Ora, essa prerrogativa traz consigo uma fatalidade: para não cedermos por completo à pulsão de morte, é preciso que o momento da dúvida seja sempre seguido de um passo de construção. É preciso fundamentarmos, para nós mesmos, a possibilidade de um caminho. E essa fundamentação acaba por ser, em grande parte, racional.

Eu também desconfio profundamente da atitude de Platão. Os disparates de Descartes são assinaláveis. Kant foi tão brilhante que acabou por ocupar demasiado espaço na cultura ocidental. No entanto, continuo a achar que a formulação do conceito de imperatico categórico é colossal. Se podemos defender que uma cultura da vergonha, como a dos índios Bororo, é uma cultura ética (na medida em que, nas próprias palavras de Filipe Verde, o outro que impede o acto pernicioso para a comunidade é um outro imaginário, interno portanto, e imaginado enquanto entidade especificamente moral), não sei se podemos defender que os indíviduos que a assumiam eram homens completamente livres. Eram livres na medida em que viviam de acordo com os "direitos da natureza" (aí estou completamente de acordo), mas já não o eram se tivermos em conta que a sua cultura, para ser eficaz, nunca era propriamente questionada.

Basicamente, o que estou a tentar dizer é que a razão pode ser (ou deve ser) um dos instrumentos privilegiados da construção da liberdade, e não há liberdade enquanto não questionarmos mesmo aquilo que é, supostamente, bom. Não é por acaso que Espinosa construiu a sua "Ética" segundo o modelo da geometria, que Freud construiu as suas teorias a partir de uma (hoje questionável) pretensão científica, e que o próprio Filipe Verde se pode assumir herdeiro desses moralistas cépticos da moral na sua especulação de base antropológica. Se nem todos os meios justificam os fins, é porque o meio de chegar ao fim não pode ter menos valor do que este tem. Se é pela razão que conseguimos admirar a ética do mundo Bororo, é porque a razão terá os seus méritos.



2. A razão é um instrumento. Mas não é o único, e não é necessariamente o principal.

Conforme vou lendo o que Paul Ricoeur escreveu sobre a metáfora, vou-me apercebendo do seu desprezo pela capacidade que essa figura de estilo tem de fascinar o receptor de uma mensagem verbal. Critica-se a metaforização quando ela é um mero ornamento. Claro que tudo aquilo que for gratuito na construção de um texto, tudo aquilo que nele não tiver uma pertinência, acaba sempre por enfraquecer a sua possibilidade de comunicação. Ovídio, por exemplo, foi useiro e vezeiro na criação de metáforas para romano ver (aliás, Ricoeur reconhece que a teorização retórica dos latinos foi medíocre, e que constituiu logo um passo atrás em relação aos escritos de Aristóteles).

No entanto, é bem curioso este ódio contemporâneo ao ornamento. Voltando aos índios Bororo, saúdo o seu respeito religioso pela ornamentação (a começar pela ornamentação do próprio corpo humano). Mas não é preciso ir para tão longe, basta reconhecer a sua importância na configuração de uma liberdade improvisadora (de composição em tempo real, portanto) ao intérprete de música barroca (algo que em grande parte se perdeu a partir do classicismo com resultados empobrecedores para a cultura musical).

Mas estou a incorrer no preconceito de Ricoeur, estou a tentar dar uma legitimidade racional àquilo que não tem, nem precisa de ter, uma pertinência racional. Pois há outros tipos de pertinência. A começar pela pertinência sexual.

Se hoje vivemos num mundo onde a sexualidade strictu sensu veio cobrar os seus merecidíssimos direitos, a criação artística perdeu alguma da sumptuosidade que a esse nível sempre a marcara. O triunfo do conceptualismo é um sinal (note-se que não estou a defender o conceito de beleza de uma época em particular, estou a lamentar a relativa indiferença de algum pensamento estético em relação à comunicabilidade das formas). Sinal também é a cisão que alimenta a história do cinema: assistimos ao triunfo do chamado cinema de entretenimento (que tem uma clara dimensão sexual, disso sou solidário, mas que depende por completo de um sistema de calculismo financeiro, e por isso configura um caso evidente de prática de prostituição) perante aquilo que seria um cinema de conteúdo (cuja dimensão sexual ou é minimizada pelos autores com vontade de respeitabilidade, ou é trabalhada com tanto amor que não pode por definição convencer a totalidade de uma audiência, o que é mal visto pela racionalização económica).

Já alguém fez o estudo sociológico do público que se arrasta com apatia ou ironia pelo sucesso de Serralves?

Podemos deixar de lado palavras como ornamento, beleza ou até mesmo fascínio (cuja ligação a determinadas ideologias estéticas é susceptível de provocar equívocos). Mas se, no âmbito da criação artística, acolhêssemos sem complexos os "direitos da natureza", talvez nenhuma das "perversões" acima descritas pudessem vingar.

Há monstros do sono da razão, mas igualmente há monstros da razão. Talvez o poeta deva ser também pensador, e o pensador deva ser também poeta.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Nota de leitura

No fundo de toda a investigação que o anima, o excelente ensaio "O homem livre" de Filipe Verde (Angelus Novus, 2008) interroga a possibilidade da mera consciência intuitiva da morte poder servir como fundamento de uma inteligência moral.

A cosmologia dos índios Bororo (do Mato Grosso, Brasil) previa a existência de dois mundos transcendentes a este em que nos encontramos: o mundo dos aroe (livre da metamorfose libidinosa da vida) e o mundo dos bope (todo ele anarquia vital, mas livre do corolário da vitalidade, que é a morte). A especificidade do homem vivente não seria, portanto, a anarquia da sua dimensão natural (como acontece na mundividência cristã), mas o facto desse seu eros estar fatalmente associado ao desgaste, à extinção. E bastaria isso para que o índio adulto aceitasse refrear voluntariamente o seu desejo, sem necessidade de conhecer o conceito de culpa (que é tão opressivo que nem requer a concretização de um ilícito para se fazer sentir) e sem necessidade de qualquer punição socialmente organizada. Por exemplo, bastavam as evidências patológicas resultantes da reprodução consanguínea, para que o incesto fosse raro na sociedade Bororo.

Filipe Verde diz-nos que todos os observadores desse mundo supostamente primitivo foram unânimes em reconhecer a sua imensa paz social e a grande liberdade de cada indivíduo no seio dessa harmonia. Era quase um manifestação da Utopia. Mas diz-nos também que o drama da antropologia é que as sociedades que definiram o seu objecto estavam a desaparecer precisamente no momento da sua constituição enquanto ciência. Ou seja, apesar do rigor de todos os relatos (dos salesianos a Lévy-Strauss) a partir dos quais o autor especula, a verdade é que a sua hipótese não pode ser verificada vivencialmente. E nenhuma ética pode ser sentida como ética sem ser vivenciada (aliás, o ensaista é o primeiro a reconhecer a preponderância humanista do seu assunto, sobre qualquer veleidade de positivismo).

A este livro podemos então atribuir o encanto de serem mais os horizontes que abre do que aqueles que fecha. É como quando conhecemos uma pessoa de meia idade que nos dizem ter sido muito bela numa juventude que não pudemos presenciar: que valor atribuir às fotografias que registaram esse passado?