domingo, novembro 08, 2009

O INACTUAL 42




"F for fake" - Orson Welles (1974)

Tal como o pintor húngaro Elmyr de Hory foi marginalizado pelo mundo das artes plásticas, também Orson Welles se foi tornando persona cada vez menos grata em Hollywood, suspostamente a Meca do cinema. Mas não fez disso o seu muro de lamentações.

Aliás, quer-me parecer que a adaptação à realidade (nomeadamente à escassez dos meios de produção) que as suas incursões cinematográficas foram progressivamente exigindo (o famoso exemplo de "Othello" em que o plano em que alguém dá um murro e o plano em que outrem o recebe foram filmados a kilómetros de distância...), foi o elemento decisivo que lhe permitiu transitar de uma estética da profundidade de campo (que, na super-protecção do estúdio, lhe dava os meios para ser um moralista exemplar) para uma dinâmica de pura montagem.

Assim como de Hory displicentemente queima obras-primas de outros autores que forjou em meia dúzia de minutos, também Welles queima cada um dos seus magníficos planos na velocidade esfuziante da montagem. Ele sabe que, se há verdades que resistem à ficção (o corpo, o sexo, a comida, talvez mesmo a festa), outras são quase imperceptíveis e só podem ser brevemente alcançadas um momento antes das labaredas reduzirem tudo a cinza.

Howard Hughes é invisível. Por seu lado, Orson Welles sempre jogou com o seu próprio excesso de visibilidade. Mas a tese de Clifford Irving (ele próprio um falsário) sobre Elmyr de Hory equivale à tese do realizador sobre Charles Foster Kane. Ou seja, se dúvidas restassem, "F for Fake" obriga-nos a reler toda a obra anterior de Welles sob o signo da polémica: mais do que um moralista (brutal em "The magnificent Ambersons" ou "The lady from Shanghai"), o cineasta terá sido um encenador da multiplicidade das ficções, e da dinâmica de embate, diálogo e mútua aniquilação que elas engendram entre si (e que a montagem deste filme leva a uma espécie de máxima perfeição imperfeita).

Welles não é, portanto, Elmyr de Hory nem Howard Hughes. Um indivíduo que vive de ilusões não consegue construir uma individualidade consistente. Torna-se um imitador dos outros, como o artista húngaro, ou um monstro, como o cidadão Kane. Mas o que leva a sociedade a endeusar, directa ou indirectamente, os seus supostos indivíduos de excepção? Welles ensaia uma resposta no truque de magia que realiza logo no início de "F for Fake": a chave é o dinheiro. Ou seja, é a existência de um mercado (essa enorme ficção que nos é imposta como verdade única) que produz os efeitos perversos da valorização financeira das assinaturas dos Pintores, o que só pode levar ao surgimento de um mercado paralelo da falsificação de arte.

A especulação sobrepõe-se à invenção: eis Hollywood. Assim sendo, Welles compreendeu que a verdadeira liberdade consiste na entrega à ficção com a consciência de que esta é uma ficção. Isso permitiu ao charlatão-mor do cinema registar a sua velhice amoral sob a forma de um ensaio, que é um documentário, que é um conjunto de narrativas, que é um poema.

Os marcianos continuam o seu ataque.

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1. O CD "L'Ecrit du Cri", do Ensemble Clément Janequin, está construído em torno do conceito de "grito", especialmente enquanto "pregão de vendedor urbano" (mas não só). Desde peças renascentistas a obras encomendadas a compositores vivos com cerca de quarenta anos, a gravação contempla todo o género de filosofias em torno do motivo (os resultados são desiguais, claro). O que eu não percebo é como o "grito" tem um lugar tão marginal dentro da História da Música...


2. Está a ser fundada, na cidade de Espinho, a Associação Cultural Extrapolar. Será boa ideia acompanhar o que por lá acontece (a minha participação passará por ir organizando mostras públicas de alguns filmes, segundo o critério amadoríssimo eu-gosto-quero-partilhar-isto-não-é-de-modo-algum-trabalho-de-programador).

quinta-feira, novembro 05, 2009

Profils paysans

Será que o documentário é o filão mais nobre do cinema? Ou terá sido o seu género que melhor sobreviveu à passagem do tempo, e que hoje manifesta uma desenvoltura, uma ambição e um rigor que a maior parte do restante cinema parece incapaz de reencontrar? Estou à vontade para pôr as coisas nestes termos, na medida em que eu só sonho com a ficção...

O terceiro filme da trilogia que Raymond Depardon dedicou à resistência contemporânea da actividade agrícola, "La vie moderne", releva a vários títulos: pela atenção dada a um conjunto de personagens que não pertencem à urbanidade nem ao exotismo, pelo registo de toda uma cultura e uma afectividade humanas condenadas a desaparecerem, pela anotação oblíqua mas meticulosa de um generation gap que acabou por se revelar um quase civilization gap, pela nobreza dos procedimentos documentais, etc.

No entanto, aquilo que mais me seduziu na pesquisa de Depardon foi a sua capacidade para evidenciar toda a dureza da vida rural sem mostrar directamente a acção real que leva a essa dureza. O realizador não dá, portanto, imagens do trabalho agrícola, porque a sua ambição é mais ampla: é toda uma cultura e uma vivência que aqui se pretende partilhar com a distância devida. A dureza (laboral, doméstica, económica) é revelada pelos rostos isentos de sofisticação, pela deriva não calculada dos discursos, pelos silêncios, pelas interacções dos indivíduos em campo, pelo que não se diz. São verdadeiros retratos. Perfis.

Ajuste

Como parece que corro o risco de ser um dia saudado como uma espécie de nerd do simbolismo, esclareço que o meu diferendo com a literalidade não se confunde com a apologia de uma hermenêutica grosseira. A leitura de Paul Ricoeur está a fornecer-me instrumentos para eu poder explicar com mais precisão a minha prática de leitura.

Como diz o autor de "La métaphore vive", se todas as palavras de um texto forem metafóricas, esse texto tem de ser classificado como uma alegoria (repare-se: no enunciado especificamente metafórico, há apenas uma palavra cujo sentido sofre um desvio). Quando eu questiono a probabilidade teórica do conceito de literalidade, não estou, pois, a defender que um texto tem de ser sempre interpretado à luz de uma cosmética de substituição (esta palavra quer dizer aquela, x frase significa y, etc.), ou seja, não estou a defender que todos os textos sejam alegóricos.

É porque concordo com a ideia de Ricoeur de que o sentido depende sempre da totalidade de um discurso (do con-texto criado pelo texto), que me parece que nenhum livro pode ser interpretado a partir da literalidade. Ou seja, o discurso de um autor não altera necessariamente o sentido que o dicionário fornece às palavras com que ele se exprimiu (como acontece no enunciado metafórico), mas submete esse sentido imediato à dinâmica da sua impertinência global. Um discurso de escrita pede, portanto, um discurso de leitura. Uma obra é mais do que a mera soma das suas partes.

Durante o recente episódio da polémica entre José Saramago e a Igreja Católica, houve quem dissesse que os consumidores do texto bíblico não têm conhecimentos teológicos e históricos suficientes para fazerem uma sua leitura que não seja literal. Isto não só me parece falso como, acima de tudo, se revela paternalista. É claro que, abaixo de um certo nível de literacia, não se pode ler nada... No entanto, eu não preciso de ser um perito na História francesa do século XIX, nem de ter lido o Walter Benjamin, para conseguir construir o meu discurso de leitura a partir da poesia de Baudelaire. Claro que uma maior informação pode trazer resultados mais satisfatórios, mas a informação não equivale a criatividade (ler é criar) nem a rigor.

Compreenderia as declarações do Nobel se, precisamente, ele tivesse querido alertar para os perigos de uma leitura literal, da devoção a um livro único, ou da fé ingénua na possibilidade de uma obra ser de facto sagrada, se tivesse questionado os valores que o texto bíblico no seu todo defende (por exemplo, a noção de pecado), se até tivesse pretendido recriminar as monstruosidades históricas que a cegueira intelectual dos cristãos provocou. Da forma como o fez, foi no mínimo desajeitado.

Mas não foi Saramago quem ficou mal na fotografia. O seu romance pode ser, aliás, muito bom. Talvez até nem tenham sido os inefáveis representantes da Igreja quem mais se pôs a jeito do ridículo: mesmo que os cristãos sejam uns vidrinhos de cheiro que ninguém pode ofender, a verdade é que têm o direito à sua defesa. O nojo foi todo direitinho para certas fileiras do Partido Social Democrata. Então essas liberdades individuais, por onde andam?

quarta-feira, novembro 04, 2009

Partilha 67

vladi private islands



eis o que eu vou levar
na minha mochila
................................para westerbork:

uma garrafa de altas quintas Obsessão
(colheita de 2004)
para um momento especial

um vibrador
e o meu brevíssimo programa de governo
constituído por três pontos, a saber:

prometo limpar o rio de ouro
prometo incitar à desobediência militar
e prometo fazer

de cada poema
uma montanha-russa
num parque de sofrimentos

domingo, novembro 01, 2009

sábado, outubro 31, 2009

Partilha 66

paisagem islandesa


convidaram-me
para ser a próxima alma armani
mas o que eu gostava
era de ser uma coisa que só acontece aos outros

o alegado eu
tem uma chocante vida dupla
de dia é um fabro
que labuta para a sociedade
de noite
um antiquíssimo poeta

com isso
aprendi que a musa é um gps de vias de facto

aliás
mais de direito serão os projectos
de erguer uma biblioteca no meu bairro
e de fundar um imenso harém
todo p'ra mim

à minha volta
como paparazzis
andam os anjos brandindo provas
em como afinal até existi
ao que eu respondo passando de ultraleve
por baixo de todo o desvario

e apesar da lei não escrita
que prevê que toda a alma
se cosa um dia com o topo do mundo
nesse dia de altíssima costura
'starei pronto a voltar ao desfile da rua

quinta-feira, outubro 29, 2009

Galeria 48



Algernon Charles Swinburne

Benjamin Péret

A Associação dos amigos de Benjamin Péret acaba de realizar a exposição "Benjamin Péret e as Américas" na Maison de l'Amérique Latine em Paris (18 de Setembro - 9 de Novembro), para comemorar o cinquentésimo aniversário do desaparecimento do poeta. Um catálogo dessa exposição, recolhendo um conjunto de comunicações feitas a 29 de Setembro, está à venda pelo preço de 12 euros (portes de envio incluídos). Pode ser encomendado no site da Associação.


A reedição de "Je ne mange pas de ce pain-là", com um prefácio de Gérard Roche e uma investigação de Heribert Becker (na editora Syllepse), está prevista para Janeiro de 2010.



(Na imagem, Péret e André Breton caçando borboletas)

O critério do silêncio

Alguns teóricos concebem a figura da metáfora como um desvio perante um putativo grau zero de retórica. A linguagem científica, por exemplo, poderia ser tomada como uma versão relativa desse grau zero, na medida em que os enunciados que a partir de si são produzidos se caracterizam pela redução da expressividade a favor da integridade e inteligibilidade do conteúdo que se pretende transmitir.

Esta teoria não é defensável. Toda a opção de linguagem é uma opção expressiva: o estilo dos enunciados científicos conota desde logo a presunção de verdade (e de seriedade) de que essa actividade se arroga. Variando agora de campo cultural: se, em vez de eu fazer um sinal de aviso com a frase "Pede-se ao excelentíssimo condutor o favor de não interromper a sua marcha neste local", escrever "É proibido parar aqui", eu estou a tomar uma opção de expressividade. O despojamento exige tanto cuidado retórico quanto o estilo mais barroco.

Parece-me que o único grau zero de retórica admissível é o silêncio humano (que não é vazio, mas sim composto de pensamentos-não-expressos). A tentativa de concretização desses pensamentos pela linguagem redunda sempre num desvio retórico (já sabemos que as coisas, os pensamentos e as palavras não se relacionam entre si de forma linear). As conquistas ao silêncio fazem-se para possibilitar a comunicação, e nesse gesto primordial de superação do zero linguístico está latente o nascimento sempre renovado de toda a retórica.

Ora, a partir deste pressuposto, o recurso à metáfora (pelos falantes comuns, pelos escritores, até pelos cientistas) encontraria um critério de legitimação, a saber: a metáfora torna-se necessária ao discurso quando, sem a sua presença, esse discurso ainda mantém um coeficiente de silêncio que impede a comunicação de ser plena e eficaz. É claro que este critério não define ainda a diferença entre metaforização e uma suposta literalidade (este, sim, um conceito questionável). Mas tem, precisamente, o mérito de quebrar a ilusão de transcendência que atravessa os diferentes níveis de linguagem.

A grosseria de grande parte do uso desta figura ao longo da história da literatura (que ataca os mais brilhantes autores, de Ovídio a Italo Calvino) não justifica a posição infantil (é mesmo isto que eu acho) daqueles que denigrem o seu papel criador.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Não tenho filhos, mas adoptei o Espinosa

Aquilo que é preciso super-proteger nas crianças é a sua propensão espontânea para a alegria.

domingo, outubro 25, 2009

sábado, outubro 24, 2009

O Jornal do Cabo 4

Não há razão nenhuma, com maior ou menor rapto de Europa, para que a arte de Roman Polanski o ilibe de responsabilidades criminais (de ética pública, portanto). Deus e Saramago nos livrem dos fetichistas da estética. Não me pronuncio sequer sobre a minha relação cinéfila com a obra do expatriado polaco, de tal modo isso me parece irrelevante para o caso.

Coisa diversa é o artista que vive e cria segundo um código de valores provocatório (Sade, Genet, etc.). Aí sim, poderemos ser cúmplices em maior ou menor grau dessa aventura política, e nesse reflexo pronunciarmos a nossa própria rebeldia. A obra é nesse caso indissociável da provocação existencial, e é em nome da ética que a inclui que podemos exigir uma liberdade "à grand cris", como dizia Camille Claudel.

O problema de Polanski não pode ser, portanto, analisado com base nos quilos de génio com que uma parte da sociedade o pesa. A questão é, mais uma vez, a nossa relação civilizacional com a sexualidade, neste caso, a sexualidade juvenil.

Uma no cravo: a despeito da leviandade da mãe da adolescente abusada por Polanski (não levanto a menor suspeita de dolo, mas alerto para o contexto em que a cena decorreu: uma década de discurso libertário em termos eróticos, o mundo do cinema em que tantas carreiras se fazem na horizontal, um realizador com fama de playboy sem constrangimentos, uma casa onde presa e predador são colocados em rigorosa privacidade, ou seja, em ocasião), há que ter um cuidado infinito para entender o quão genuíno foi (ou poderá, em qualquer situação, ser) o parcial consentimento (já que não houve violência) de uma rapariga de apenas treze anos, ainda por cima numa situação em que o poder de controlar os seus próprios movimentos se encontrava manifestamente tolhido. É aqui que a atitude de Polanski (que diz ter usado álcool e droga para obter os seus intentos) se me afigura criminosa, e é a partir desta perplexidade que o problema jurídico se deveria desenvolver.

Outra na ferradura: não, não vou falar de um eventual gosto pessoal por corpos de dezassete e dezoito anos, até porque não me apetece ir parar à Suiça. Digo ao contrário: quando eu tinha treze anos de idade, eu teria vendido as almas das minhas duas avozinhas ao diabo, se pudesse ter ido para a cama com meia dúzia de adultos da minha predilecção. E a minha vida teria sido mais prazerosa. O que eu estou a dizer é que, enquanto comunidade cultural, vivemos numa espécie de terror em torno do sexo adolescente, terror esse que não corresponde em nada às evidências da sexualidade (mas sim às opressões religiosas). Dito de outro modo: eu, Pedro Ludgero, assumo sem medo que preferia que os humanos fodessem mais, melhor, durante mais tempo de vida, com menos complexos e em exuberante liberdade.

A verdade é que não andei com o Polanski na escola de costura, este não é o caso Dreyfus, e eu não vou fazer um grupo de lobby no Facebook para salvar o senhor. Deixo apenas duas notas de estranheza. Por um lado, será que o instituto da prescrição não seria aplicável ao caso de um homem que fez um bocado de merda mas viveu o resto da sua vida sem outros episódios de violência (ou seja, será que o Direito americano não acredita na regeneração, palavra nojenta de tão religiosa que é, mas que está na base da nosso conceito colectivo de Justiça?)?

E por outro lado, que mundo estranho este em que se consegue apanhar o culpado de um delito sexual, mas em que há tanta dificuldade em extraditar os mais sanguinários ditadores?

Excerto de uma carta de amor 1

...... olhe, gostaria de fazer lar consigo para poder ter um quarto com vista. Seja qual for a película que decorra na nossa gelosia, eu desejo poder acordar, dia após dia, com a visão da mais cara das paisagens. Seja essa Ponte Vecchio que só na madrugada torna nítido, sobre as águas ainda calmas do fim do sono, o seu lábio inferior. Sejam esses dois Baikais para onde todo o fausto da minha pena foi deportado. Ou o seu tosco Monte Fuji, cuja nojenta erupção eu hei-de aprender a parar com um lenço de longevo devotamento......

quinta-feira, outubro 22, 2009

domingo, outubro 18, 2009

Partilha 65

exílio em astros de ouropel



aqui estou eu
lesado na pátria e na majestade
mas também in the sky with diamonds

o céu está magnífico
talvez seja mesmo o melhor amigo
de um rapaz materialista

fosse eu dado por exemplo aos prazeres dos trópicos
e subiria até ao excêntrico e febril
mercúrio

mas eu prefiro vénus claro
o único ponto do universo
onde a noite ainda não é americana
porque as suas nuvens só publicam
vogais

mais longe
há mundos com dezenas de luas
haréns de aerossóis que tornam o amor
mais simples
e não deixam que nenhum nobre fique só

há blues previstos pela matemática
mares cianos que não existem
mas são verdes
há anéis de turquesa que ficam
enquanto vão as feridas do lesim

e também o tédio extremo sentido por mim
(que ainda sou do tempo
em que plutão era um narcótico)
quando percebo que há nos meus olhos
mais caleidoscópio
do que no suposto poema das estrelas

Tetris

As alegrias que caem não se anulam umas às outras.

Evident Cut

Montar um filme é como jogar à cama do gato.