sexta-feira, setembro 04, 2009
Partilha 62
no princípio
era a indecisão entre a luz
e o seu reflexo na resina do dragoeiro
mas acabei por ser dado à locomoção
e o burro foi
não sabia se o burro era mordente
quando saímos do meu doce bairro na flandres
certo é que ao passarmos p'las paisagens pirenaicas
senti-me um ignorante face ao poltergeist
do mundo:
homens de piropo, mulheres de coral
ricos a vapor sobre pobres capilares
com a ajuda de um chicote queimado
encontrei-a por fim já com bambas cordas vocais
até agora obnubilada à andaluza
eis uma oferta que não podeis recusar:
.....
quarta-feira, setembro 02, 2009
lol
Miguel Esteves Cardoso, no PÚBLICO de hoje.
terça-feira, setembro 01, 2009
Tradução 16
O meu herói desnuda os nervos ao longo do punho
Que regula do punho até à espádua,
Desempacota a cabeça que, fantasma com sono,
Se inclina sobre a minha mortal régua,
A altiva espinha desdenhando o giro e o torço.
E estes coitados nervos ao crânio tão conectados
Padecem no mal-amado papel
Que eu abraço p'ra amar com rabiscos desregulados
Que do amor a fome toda proferem
Dizendo à página a vazia enfermidade.
Desnuda o herói o meu costado e vê seu coração
A caminhar, como uma nua Vénus,
Pela praia da carne, e a enrolar a trança cor de sangue;
Desvestindo o meu lombo de promessa,
Ele promete uma oculta acaloração.
Ele sustém o arame desde a sua caixa de nervos
Louvando o erro fatal
Da nascença e da morte, tristes gatunos traiçoeiros,
E o imperador da fome;
Ele puxa a corrente, a cisterna procede.
(Nota: o texto original pode ser lido aqui)
segunda-feira, agosto 31, 2009
Contra Quentin Tarantino
Alfred Hitchcock
(é favor traduzir o texto para questões de ética)
domingo, agosto 30, 2009
A encenação do número 2
Podemos entender um texto como sendo uma sucessão de operações matemáticas, e podemos especi- ficamente caracterizar a metáfora como uma muito peculiar forma de encenar o número 2.Através de processos artificiais (como as portmanteau words) ou mais arreigados na comunicação quotidiana (como a comparação), é possível encenar, no texto, uma relação de identificação entre duas palavras que de certa maneira se autonomiza do funcionamento da sintaxe (ou seja, do conjunto de operações matemáticas). Se eu disser "como o sol, a vela dá luz", eu crio uma relação entre "sol" e "vela" que pode ser expressa por "1+1" (note-se que a relação é criada pela partícula "como", e não propriamente pelo complexo sintáctico "a vela dá luz", que apenas fornece o contexto que legitima a comparação).
Deste ponto de vista, a comparação é uma figura mais próxima da metáfora in praesentia (aquela em que os seus dois termos estão presentes no texto), do que esta o é em relação à metáfora in absentia (onde o termo comparado não está materializado no texto). No fundo, a metáfora in praesentia é apenas um ajustamento da comparação. Ou seja, na medida em que eu concordo com Aristóteles na ideia de que a comparação deve ser subjugada à metáfora (e não o contrário), defendo que aquela figura (assim como a hipérbole ou a personificação) é uma espécie de deformação especializada desta. Assim sendo, se eu digo "a vela é um sol", eu estou essencialmente a tornar frontal aquilo que a comparação, mais tímida, ocultava: a noção de que, por causa do fogo que os dois seres partilham e da utilidade luminescente que lhes é comum, na nossa mente os dois objectos acabam por se equivaler (ou melhor, formam um relação onde o seu ser particular se confunde com um devir conceptual que os transforma um no outro).
Na metáfora in absentia ("trago um sol neste pavio"), o termo comparado existe numa presença meramente espectral, criada pelo contexto. Ora, o facto de uma palavra estar ausente do ponto de vista material, mas marcar a sua presença no espírito do leitor, é algo de muito específico da linguagem (e algo de muito rebelde). Na verdade, a matemática pode, em vez de "1+1", encenar esta questão pelo recurso directo ao algarismo "2". Mas aqui, os dois componentes do 2 ficam em pé de igualdade. Isso não acontece na metáfora in absentia: onde um dos conceitos está presente e o outro está latente. Se pensarmos nos poetas místicos, na lírica da solidão, etc., vemos como tudo isto tem pano para mangas.
Adenda a "O inactual 39"
1. Se o argumento de "Citizen Kane" opera a partir da hipótese de um momento-rosebud capaz de explicar o drama de uma determinada biografia, podemos pensar que a intervenção do estúdio na montagem do filme seguinte de Orson Welles, alterando o final, acaba por constituir o próprio momento-rosebud da sua criatividade posterior. Afinal, "The magnificente Ambersons" ficou inacabado. Aquilo que em "Citizen Kane" era mero tema, torna-se a estratégia semi-inconsciente do cinema que Welles desenvolveu em seguida. O constante inacabamento dos projectos em que trabalhou, e que lhe deram uma fama de maldito, acabou por aproximá-lo de alguns dos pressupostos mais míticos da modernidade (basta lembrar o famoso inacabamento do "Livro do Desassossego"). Mesmo em relação à moral, a atitude de Welles tornou-se mais lúdica, mais irónica. A ideia de que ele foi, portanto, o génio-de-um-filme-só apenas revela a falta de cultura e de sofisticação do meio cinematográfico.2. Em "Citizen Kane", o momento-rosebud é encenado num cenário invadido pela neve. Quando o personagem principal encontra a mulher que o fará regressar emocionalmente a esse cenário, o clima é de chuva abundante. A ligação parece-me absolutamente consciente.
3. A retórica violenta é aquela que persuade os seus destinatórios escondendo a sua falsidade. É a retórica que o mau jornalismo representa por metonímia, mas que no fundo é usada por todo o discurso de poder. Welles pratica uma retórica cinematográfica barroca, fortíssima, mas que funciona precisamente ao contrário: o seu objectivo é revelar toda a monstruosidade do seu conteúdo.
4. A dupla face do jornalista Kane criticando o capitalista Kane equivale à condição do realizador, que usava o dinheiro ganho nos seus trabalhos como actor (quase todos em projectos medíocres) para financiar os seus projectos como realizador. Claro que essas éticas contrastantes, quando se encontram nos filmes assinados pelo próprio Welles, criam uma tensão cujo sentido é inesgotável.
sábado, agosto 29, 2009
Partilha 61
de dez em dez anos
acontece-me uma guerra de tróia
sei que nela tenho
o papel de uma das fêmeas
mas qual em concreto isso já não sei
diz o povo que tudo o que não nos isola
nos torna mais fortes
sendo assim
quando monto o meu cavalo de batalha
armo-me com todas todas as armas
como helena faço das coisas graves agudas
e torno-me flâneur no meu transporte
como ifigénia decido restaurar
o lufar lufar incerto das mil rosas-
como cassandra declaro-me
que é o mesmo que fazer luas de morte
na colmeia de-oiro de clitemnestra
ameaço qual circe ser a viruta
da influência do mundo em pandemónio
lamento-me com música de purcell
mas como nada nada disto resulta
abro em mim doze vaginas de ternura
e volto a tudo pôr
nas mãos do Amor
sexta-feira, agosto 28, 2009
"Citizen Kane" - imagem
O INACTUAL 39
"Citizen Kane" - Orson Welles (1941)Esse é o momento em que o cidadão Kane foi desviado daquilo que poderia ter sido uma vida normal (nos termos muito específicos de pertença a uma classe social verosímil, e de uma continuidade afectiva saudável). A partir desse desvio, o indivíduo cresceu desmesuradamente, e o seu poder acabou por desumanizá-lo. Contudo, ninguém consegue vencer por completo a sua verdade. A estrutura de conto moral (ainda mais evidente em "The magnificent Ambersons") demonstra como as fragilidades de Kane acabam por vir à superfície e sabotam esse poder: Kane aproxima-se daquela que será a sua segunda mulher porque ela não conhece o indivíduo fictício em que ele se tornou (como se o tivesse conhecido antes do momento-rosebud), e essa relação custar-lhe-á a carreira política; ao mesmo tempo, quer obrigá-la a ser cantora porque este era o projecto que a mãe dela lhe quisera impor no passado (situação paralela à crueldade da sua própria mãe), o que acaba por levá-lo ao isolamento do mundo. A própria compra obsessiva de objectos de beleza erudita revela uma relação ambígua (ou seja, não isenta de alguma pureza) com o dinheiro: tanto indicia uma euforia patológica, como um vivo desprezo (não saber o que fazer com o dinheiro, não querer ter o dinheiro enquanto dinheiro).
Mais ainda do que uma narração exemplar, o filme de Welles é profundamente político. O que nele se põe em causa é a bondade do papel da ficção na sociedade contemporânea (a ficção do discurso político, seja ele capitalista ou comunista, e a ficção dos media). Quando o magnata tenta criar uma cantora lírica a partir de Susie, sua segunda (e pouco dotada) mulher, ele está a tentar dar corpo a uma ficção (o eco mais famoso desta atitude surgirá no cabelo louro de Rita Hayworth em "The lady from Shanghai"). Ora, se a ficção resulta no jornalismo (que, ironicamente, prescinde da realidade para ser eficaz), já não consegue funcionar ao nível de algo indesmentível como a voz humana (o corpo é sempre uma resistência à política). A ignorância relacional (a falta de respeito pelo outro) que isto revela é tal que não será ilícito pensar que o que Kane tenta realizar, no objecto do seu suposto amor, é uma perfeição pessoal (a voz de Welles era apaixonante).
Welles, claro, filma-se a si próprio. Mas a sua desmesura enquanto actor (o génio, a histrionia, o apetite que dele fará um obeso carismático) é corrompida pela dupla dimensão do trabalho de autor-realizador: por um lado, a dimensão lúdica da criatividade que fez a fortuna formal lendária de "Citizen Kane" (Welles entrou nos estúdios de Hollywood como quem encontra o mais maravilhoso dos comboios eléctricos, ou seja, com uma energia anterior ao momento-rosebud), e por outro, a ferocidade a que nenhuma criatividade se pode furtar (ou seja, a inquietação política em sentido lato). A partir da desconstrução de si mesmo enquanto voz-actante com propensão para o gigantismo, Welles constrói um personagem exemplar (distante de si mesmo, compreensível pelos espectadores). Toda a estética da profundidade de campo aliada à iluminação expressionista funciona como materialização desta vontade de dar a imagem mais ampla possível de uma monstruosidade individual (a foto do post acima parece-me paradigmática). O que faz com que a estética do plano-sequência tenha em Welles uma motivação oposta à de Jean Renoir (preocupado com o retrato de grupos).
As outras personagens não têm outro poder senão abandonar Kane. As mais relevantes são o amigo de sempre, Leland, e a segunda mulher, Susie. O flash-back narrado pelo amigo ficou famoso pelos contra-picados reveladores dos tectos esmagadores dos escritórios do jornal (na cena da simbólica crítica teatral), enquanto os dois momentos em que o jornalista visita Susie no presente são introduzidos por movimentos de câmara que entram pelo tecto do nightclub onde ela está (a estrutura binária é ecoada nos contrastantes pontos de vista de câmara nas duas vezes em que a estreia operática é mostrada). Os seus dois maiores afectos funcionam como as duas maiores resistências à sua ficção: Leland é quem vocifera a verdade esmagadora, Susie é quem é esmagada pela verdade.
Hollywood acabou por destruir Welles porque o seu individualismo era ao mesmo tempo uma crítica ao individualismo e uma celebração da anarquia (o que, numa indústria de entretenimento que inventou indivíduos supostamente fascinantes por processos semelhantes aos do titereiro, só podia ser terrivelmente perturbador).
A actualidade de tudo isto? Basta pensar na loucura de Michael Jackson ou na especulação financeira que precipitou a recente crise económica mundial...
... lendo sobre a metáfora
1º- É notável como todas as boas teorias sobre a metáfora recalcam o seu putativo carácter ornamental. É claro que o ornamento, na criação artística, é um vício (dada a sua função nula). No entanto, a questão está mal colocada. Pois, assim como foram, em parte, os movimentos de câmara de Samuel Fuller e de Max Ophüls que fizeram de mim um cinéfilo (pois, de cinema já eu gostava antes), também a beleza das metáforas foi um dos principais responsáveis por eu me ter tornado amante de poesia e por ter acabado por também escrevê-la. Não estou aqui a fazer uma apologia da beleza, nem de um determinado tipo de literatura. Estou a dizer que separar a questão do prazer do problema da metáfora me parece ser nostalgia anacrónica do absolutismo da razão (e eventualmente um certo recalcamento platónico-religioso). Um entendimento sincero da metáfora tem de passar forçosamente pela aceitação do factor "prazer do texto".
2º- Outra impressão que se impõe é a complexidade e a vastidão de um assunto que de tal modo nos acompanha desde o início da cultura que não pode ser varrido para debaixo do tapete por meia dúzia de artes poéticas arrivistas. A metáfora não pode ser vista de um só ponto de vista, pois as suas repercussões são imensas (do mero prazer à evidência filosófica).
3º- É também notória a vocação que a metáfora tem para provocar a polémica (que começa logo por não existir uma definição consensual da figura...). O que deriva um pouco de uma certa grosseria de Aristóteles (que a resumiu a uma espécie de regra de três simples, embora tenha sido o primeiro pensador a entendê-la como possibilidade de conhecimento, o que só voltaria a acontecer... no século XX), e desse pormenor terrível que é o critério da semelhança. De facto, parece um critério infantil, e hoje será mais correcto dizer que a metáfora expõe correlações entre algumas dimensões de dois signos, do que propriamente semelhanças. No entanto, quando Iosif Brodskii diz que as nuvens estão desarrumadas no céu como a roupa num quarto de solteiro (isto é uma comparação, mas as duas figuras têm uma relação muito íntima), a comoção expressiva resulta, precisamente, da revelação da semelhança. O que fazer com isto?
quinta-feira, agosto 27, 2009
op. 3
é o Cabo da Boa Tormenta que faz hoje três anos.
The comedy you can stand
Confesso que não aprecio nada a stand up comedy. Talvez porque 99% dos seus praticantes sejam nulidades, sempre em busca da piada fácil, sempre em torno dos três ppp da cidade de Braga, sem nada de substancial para partilharem connosco (os meus modelos são pensadores como Charles Chaplin ou Buster Keaton...). Ou então porque o género é, em si mesmo, pobre, simplista e repetitivo.
A única stand up que me faz vibrar é aquela que tem um cunho político (mais um p...) terrivelmente parcial e que nos pode oferecer uma espécie de catarse de raiva militante e partilhada. Estilo: o Bush é um imbecil perigoso, mas nós vamos rir a bandeiras despregadas dessa imbecilidade. Penso que é o mais perto que eu consigo ter de uma emoção "futebolística".
Neste delicioso sketch, o comediante (e documentarista com alergia à religião) Bill Maher ridiculariza os conservadores americanos até à náusea (infelizmente, o vídeo não tem legendas). O fim é colossal: um ginecologista republicano que não é capaz de distinguir, na própria mulher, onde é a vagina e onde é o ânus.
Enjoy.
segunda-feira, agosto 24, 2009
Episódios de má fé
Pelos vistos, a coisa não era bem assim. A proposta parlamentar de aumento de direitos consagrados ao instituto da união de facto sofreu um veto parlamentar, apoiado pelos conservadores da praxe. Independentemente da maior ou menor trapalhada da proposta, que deve ser grande (e eu discuto tudo isto saltando por cima da insignificância do primeiro ministro de Portugal), tenho a certeza que o que aqui está em causa continua a ser o pavor homofóbico. Afinal, o problema não era só o "nome" da instituição, nem o seu significado cultural. Há, de facto, uma tentativa de favorecer juridicamente o casamento tradicional, independentemente das mutações que a sociedade esteja a sofrer (incluindo a vontade dos heterossexuais retirarem os seus relacionamentos da continuidade cultural a que eles sempre estiveram submetidos).
Ora, já que, recorrendo à união de facto, nenhum par adquire a mesma dignidade jurídica que adquiriria no matrimónio, agora vai ser mesmo preciso aceitar o casamento de pessoas do mesmo sexo, se não houver qualquer tipo de preconceito e vontade de guetização contra essas pessoas, como nos querem fazer crer Alberto João Jardim e todos os insularizados deste país.
E quanto ao profundo debate social... mas alguém nos pediu a opinião sobre a forma como o país se endividou gravemente para "resolver" a crise financeira?
a paixão segundo p. l.
domingo, agosto 23, 2009
Guerrilha
This is it
Desde o exemplo mítico de Rimbaud, a maior parte dos escritores têm tido uma relação de insatisfação com os textos que produzem. Cada frase, cada página, cada poema acabam por ser os depositários do sonho de um texto mais justo do que aquele que foi efectivamente escrito (um texto mais aberto ao futuro, menos mentiroso, mais subtil na comunicação).Eu confesso que, quando tento fazer isso, saio-me mal (vou destruir um longo poema que estava a escrever nesse espírito, chamado "Badinerie"). Não direi que os meus textos sejam exactamente aquilo que sonhei (o que seria pretensioso), mas são a imagem estável (como no clique fotográfico) do conjunto de factores que levaram à produção desses textos: o que eu sonhei para eles, claro, mas também o acaso de sugestões que os rodeou, o meu mood, a minha biografia, as leituras do momento, talvez até mesmo uma dor de dentes...
Penso que isto se deve ao facto de eu acreditar numa palavra imperfeita. Não confundo o verbo com a verdade, mas também não desconfio dele. Os textos são a minha matéria. Mesmo o facto do seu sentido nunca ser literal resulta de uma prática da imanência que assumo quase ideologicamente. Isto (o texto) é o que eu posso dizer (o máximo e o mínimo ao mesmo tempo).
No escrínio 48
de resto
cai cedo a noite na
Rue de la Roquette
a um domingo
o leitor afastará o fumo
destes versos e atentará
apenas na morena
de gorro vermelho
junto à janela"
Miguel-Manso
Mas o facto de o sujeito lírico se ter dado ao trabalho de contar o número preciso de cigarros com que fumou o seu texto, indicia um certo tédio domingueiro. Há aqui um tempo psicológico deformado, caracterizado pela passividade: por ser domingo, a noite cai mais cedo. Mas isso tem um sentido ambíguo: cai mais cedo porque há pouco que fazer ("de resto" é aqui uma expressão essencial), ou cai mais cedo porque, havendo pouco que fazer, os assuntos da sensualidade impõem-se com mais urgência.
A fabulosa terceira estância propõe uma metáfora rara: ler é afastar o fumo do próprio texto. Isto permite que Miguel-Manso refresque, como quem não quer a coisa, os procedimentos da poesia lírica. Por um lado, dá uma imagem sublime da mulher (objecto do seu desejo): ela surge ao mesmo tempo enquanto tema único e mais importante do que o próprio poema, e como chave inequívoca da sua leitura-visão. É o poeta a dizer-nos que a leitura deste texto não nos vai fornecer um conjunto de ideias, mas "apenas" a imagem de uma mulher. Qual encenação cinematográfica da aparição de um anjo, o vermelho vital surge da dissipação de uma névoa conceptual. E surge à janela (na fronteira do ailleurs), que é o enquadramento neutro para o leitor colocar a sua própria evidência visual.
Por outro lado, Miguel-Manso apresenta-nos um texto que é o sonho de si mesmo: palavras de vício, leves, eventualmente cancerígenas, mas abertas ao prazer. Um texto cujo gesto do leitor (afastar as palavras) equivale de novo a uma temporalidade psicológica, mas agora activa.
sexta-feira, agosto 21, 2009
Partilha 60
talvez o homem que encontrou o melhor modo
de chorar o finamento dos corais
tenha sido usain bolt
a puta também não se sai mal
quando atinge por fim o orgasmo
da sua primeira ruga
sempre que florescem
as coraleiras ganham papel principal
em todas as cosmogonias
e já que falo de um foder escancarado
é como poeta sem vergonha na cara
(como al capone)
que ordeno a londres, a camberra e à rubra moscovo
que sejam o alvo da minha pena
.........................................................inaugural
domingo, agosto 16, 2009
Crónica do Compositor
Se eu fosse compositor, teria um programa bem concreto a cumprir. Registo aqui as alíneas que comporiam o corpo de um tal programa:1. Acabaria de vez com o mito do solista. Temos todos oportunidades suficientes para a solidão (ao músico, basta-lhe o tempo de prática). Eu só escreveria música de câmara, e sobretudo música que traduzisse a sociabilidade possível entre humanos produtores de som. Faria peças-conversas, peças-namoros, peças-danças, peças-círculos-de-anedotas. A Schubertíada finalmente liberta de todos os formalismos.
2. Só comporia para instrumentos de que gostasse. De entre os institucionalizados, escolheria o oboé, o violoncelo, e a inesgotável família da percussão. Mas a minha organologia estender-se-ia em todas as direcções: instrumentos antigos (o alaúde, o aulos), instrumentos esquecidos (lire organizatte, um violino baseado num quadro de Bartolomeo Bettera), instrumentos marados (o arpeggione, o violino de pregos), instrumentos feéricos (a harmónica de vidros, a kora), instrumentos eléctricos (ondas martenot, theremin), e sobretudo financiaria a criatividade visionária de luthiers loucos e acriançados. Escreveria para todos os tipos de vozes menos para os tenores (vão guinchar para a terra do silêncio). Eu sou como a Agnès Varda: rodeio-me apenas do que amo.
3. Traria o humor para a mais sisuda das artes. Tudo o que sabemos, de Aristófanes a Buster Keaton, seria aplicado à dinâmica do grupo de instrumentistas, para provocar a gargalhada, o sorriso, a ironia, a distância, até a lágrima (que é coisa bem cómica). Começaria pelas próprias concepções das obras (concepções comidas ao pequeno almoço, aliás): uma meia-peça sobre um meio-assunto, construída em torno do meio-tom, tocada num meio-instrumento por um visconde cortado ao meio... E etc.
4. Fundaria a música na palavra, pois a palavra é a entidade que me rege. Ora explorando o lied até à Adília e o Miguel-Manso (passando pelo Battaile e pela Constituição da República Portuguesa). Ora fazendo da música um esplendor onomatopaico (em sentido lato): peças recriando constelações, lagos parados, a internet, le genou de uma qualquer Claire...
5. Exploraria um virtuosismo oposto ao das mãos a mexerem muito depressa. O virtuosismo da escuta, do olhar, do suspense, da conversa, do riso, do assobio, da respiração, da compreensão, talvez até mesmo o da ética.
6. E mesmo que o Boulez ou o Lyotard não deixassem, eu restituiria a importância da melodia. Só porque é uma das coisas mais bonitas que a humanidade inventou.
Mas se eu digo isto tudo, é porque não quero ser compositor.
Partilha 59
perdeu o lugar"
desde que os dias me laurearam poeta
tenho um conselho para o estado de ânimo
que quer tomar decisões de tirano
como a cisão entre lirismo e epopeia
farto-me de lhes dizer
que eles não passam de um órgão consultivo
e que hei-de fazê-los apanhar
a gripe a
o tsé tsé da mosca
ou até mesmo uma praga de míldio
mas eles insistem em fazer reuniões
eis uma acta:
"aos dezasseis dias do mês de agosto de dois mil e nove
realizou-se nesta folha de papel uma reunião
do conselho de estado de ânimo do poeta
com a seguinte ordem de trabalhos
o poeta em desespero
uns clamam por mais estado
outros por menos
o ânimo é ideologia burocrática
o poeta apaixonado
é preciso fazer estudos prévios
e acima de tudo as reformas imprescindíveis
para que certa comunicação social
não lance mais cabalas cabalinas
o poeta com sono
antes de mais falta saber se o ânimo
é conjuntural
ou estrutural
nada mais havendo a lavrar
deixa-se o presente texto em pousio
até que alguém o venha desactar"
e o poeta vai-se tornando um cameo
dentro do tempo do seu próprio poema
que é um precioso sonómetro-de-batalha
saltando sobre a liquidez


