
As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.
Para sermos justos para com o poeta, deveríamos contemplar estas bolas de sabão como nada mais que elas mesmas. Afinal, se Caeiro não se cansa de assumir o rigoroso artificialismo da sua postura existencial, é também o primeiro a defender que esse artificialismo é um estado mais fácil de atingir do que parece (basta viver no presente sem densidade onde a criança, de algum modo, vive).
No entanto, na medida em que Alberto Caeiro é mera personagem, e que o único direito que a personagem tem é o de ser lida (em sentido amplo), não resistimos a identificar a fabricação das bolas de sabão à criação de poemas. Poemas que não tornam a vida mais obscura (como os textos transcendentes), que não estão para além da vida, antes a revelam através da sua translucidez. Assim, se a vida é sempre lúcida (sempre clara como o ar), o poema deve ser a mera travessia para a lucidez. E assim, a leitura que dele se faça resulta sempre no aligeiramento da percepção do leitor, propondo-lhe um encontro com a clareza.
De qualquer modo, a grande arte poética caeiriana não será tanto este texto, mas aquele que começa com o verso "Deste modo ou daquele modo,".
Neste poema assaz famoso, impressionam-nos dois versos magistrais. Um tem um efeito de comoção imediata ("com uma precisão redondinha e aérea") porque consegue criar uma inesperada harmonia entre a leveza do conteúdo, o tom infantil e um termo derivado do vocabulário técnico-científico (a precisão), revelando assim inesperadas equivalências lúdicas entre a inocência e o rigor.
No entanto, o outro verso é, por si só, uma obra-prima. Quando Caeiro diz que as bolas de sabão "são translucidamente uma filosofia toda", ele consegue formular toda a coerência do seu projecto. Repare-se que Caeiro não diz (é demasiadamente poeta simples) que as bolas são uma anti-filosofia, uma não-filosofia, uma filosofia mutante ou uma filosofia-sem-filosofia. Como o seu intuito é sempre o de receber o real sem o subverter, ele respeita a palavra (e a realidade) filosofia. O que Caeiro faz é introduzir um advérbio longo (e imprevisível) que atrasa o encontro do leitor com a palavra em questão e a faz surgir como uma surpresa desmistificada. Caeiro não altera as bolas de sabão nem altera a filosofia. Altera o modo como uma coisa é a outra, o modo como a equivalência se materializa (conseguindo assim uma metáfora verdadeiramente translúcida).
Caeiro é, portanto, um poeta adverbial (o que não quer dizer que recorra muito a advérbios). Pois como ele pretende simplificar o sujeito conhecedor (não se explora a si mesmo como sugeria Rimbaud) e impedir a complexificação do objecto conhecido (note-se que esta formulação foi escolhida a dedo), todo o seu discurso se afasta desses entes e se concentra em torno da afectação da acção. Ver. Mas ver como?, com que sentimento?, a que velocidade?, com que intensidade?, etc. Esta é, assim, uma poética acima de tudo ética, pois é no próprio processo da poiesis que tudo se joga, de um modo originalíssimo e profundamente inquietante.
E agora podemos redimir-nos da nossa ousadia dos primeiros parágrafos dizendo que "a criação destas bolas de sabão é translucidamente uma arte poética toda".



























