quarta-feira, maio 16, 2007

No escrínio 23

Poema de Ibn al-A'lam ash-Shantamarî, traduzido por Adalberto Alves:


este é o rio e estes os seus bosques:
corpo,
cuja a alma é a brisa dos jardins.
rio,
se a brisa dorme à superfície.
cota de malha,
se os ventos sobre ele se perturbam.


No belo poema deste autor luso-árabe do século XII, nascido em Faro, por que razão a alma do corpo fluvial é a brisa dos jardins, e não a dos bosques? Afinal, foram estes os nomeados no primeiro verso (que apresenta os elementos sobre os quais o poema vai discorrer). E um bosque não é, de facto, um jardim. Poderá o escritor ser tão criterioso na sua celebração que, para fazer uma metáfora da alma, não recorre à brisa de um lugar presente (como qualquer outro o faria), mas àquela que (não) chega de um lugar apenas sonhado?

Na verdade, o poeta maneja a metáfora como se esta fosse um recurso deveras metafísico, despido de toda e qualquer intenção ornamental. Repara-se: o rio só conserva a sua verdade ontológica se a alma nele repousar em quietude. Mas quando a alma se acelera e turba, o devir transforma o corpo inicial e faz dele uma cota de malha. Será isso mais, ou menos?

O coleccionador 7

Fragmento de um poema de Abû-l-Walîd al-Bâjî, traduzido por Adalberto Alves:


Alá abençoe aquelas duas tumbas
íntima parte do meu triste coração.
quando longe de meus olhos elas estão
a ausência as junta em minha mente
na constância da dor sempre presente.


As tumbas que o texto refere, pertenciam aos filhos que perdeu este poeta do século XI, nascido em Beja. A formulação do excerto é de tal modo sofisticada, que qualquer autor contemporâneo a poderia ter escrito.

Mas se eu colecciono esta pequena peça, é tão-somente porque ela me lembrou um momento da minha infância no qual tive de me submeter a um tratamento de ortóptica, tratamento esse que se resumia à colocação dos meus olhos no duplo visor de uma máquina, e no posterior esforço de junção de duas imagens separadas (uma por cada vista) numa imagem única e comum. Por exemplo, se um olho via uma baliza, e o outro via uma bola, eu deveria conseguir meter um golo por uma técnica de visão que não andava longe do visionarismo surrealista. Presumo, contudo, que o tratamento apenas tenha servido para prevenir o estrabismo.

Também este poeta luso-árabe, na sua máquina de dor, consegue juntar dois grupos de imagens. Por um lado, junta os túmulos físicos (dos quais está longe) aos túmulos guardados na memória. Mas junta também os dois filhos num mesmo sofrimento comum.

A máquina de golear imagens do meu passado faz-me assim supor que a tecnologia pode ser nada mais do que a hermenêutica da poesia. Por isso a ficção científica nos comove.

Casting 10

Paula Guedes é uma actriz que pretende participar.

Participar no teatro, no cinema, na televisão, na vida de actriz, sobretudo na mitologia de actriz. Todo o seu jogo se pauta por essa disponibilidade que traduz bem mais entusiasmo do que ambição.

Nasceu para interpretar personagens enérgicas (ou a energia em si mesma). Quando representa, de tal forma está, que nem precisa de ser. Ou seja, representa de facto, mas representa algo que não precisa de definição.

Poderá ser irmã numa comédia (ou mãe numa tragédia).

terça-feira, maio 15, 2007

Partilha 13

epopeia


arte
o insecto
assunto adequado
a uma praga de haikus


navegação
a aranha soletra
todo o seu mundo na teia
www


teoria
o mel
talvez o quadrado
do voo da abelha


anúncio
pequena larva procura
tempo para metamor-
fose ou algo mais


política
a revolução
carpintaria do novo
bicho-do-veludo


(Este ciclo de cinco poemas não é enquadrável em nenhum livro que eu esteja a escrever. É aquilo a que pretensiosamente se chama um disperso. Deixo-o aqui virtualmente partilhado.)

Discussão

No último programa Câmara Clara (domingo, 13 de Maio), o arquitecto Nuno Portas assumiu, com a grandeza que sempre é necessária a este tipo de humildade, que no passado se tinha oposto à construção da Ponte 25 de Abril, porque esta lhe parecia uma obra megalómana, pouco estudada, etc. E enfim, Lisboa já nem sequer é hoje pensável sem a dita ponte.

O ponto de vista é interessante. Mas é preciso partilhar dois alertas. Por um lado, há que tomar em consideração o facto de que o momento presente acaba sempre por tomar o aspecto de uma evidência inquestionável. Afinal, vivemos milénios sem telemóvel, e quem é hoje capaz de sobreviver sem um desses irritantes bichos? O que eu quero dizer é que, eventualmente, poderia haver uma outra ponte, colocada num outro lugar (ou mais do que uma ponte, sei lá), que até servisse muito melhor a capital do que esta. É claro que a História não se faz de "ses", mas o Pensamento só sobrevive à custa de um constante espírito de crítica. Talvez nenhum arquitecto devesse aceitar a paisagem urbana sua contemporânea como uma inevitabilidade. E sei que Nuno Portas não o faz.

Por outro lado, há obras que hoje já sabemos terem sido fruto de uma megalomania improdutiva. O que fazer dos famosos dez estádios de futebol do Euro?

Afinação

Na sua crónica do PÚBLICO de hoje (15 de Maio), Eduardo Prado Coelho diz que, no pensamento pós-moderno sobre a criação artística, o conceito de energia se sobrepôs (sem o afectar propriamente) ao conceito de beleza.

A observação é pertinente. Mas eu talvez usasse outras palavras. Pois se há conceitos que tivemos de pôr radicalmente em causa (por exemplo, a legitimidade da escravatura), parece-me que há outros que não precisam de ser superados, mas apenas afinados. De certo modo, a História do Pensamento talvez revelasse mais grandeza se os filósofos não tentassem tanto competir entre si (embora haja momentos em que é preciso tomar posições claramente iconoclastas), mas actualizar aqueles conceitos que deram frutos positivos no Passado (para além de propor novos conceitos, é claro). Actualização essa que passa por uma nova gestão do conceito à luz do que a experiência presente nos ensina (e que nada tem a ver com protecção de património, mas com a defesa da identidade e legitimidade da nossa sobrevivência enquanto Humanidade).

Afinal, o Fellini (tão atacado pelos críticos da contemporaneidade...) dizia que belo era tudo aquilo que comovia (note-se o movimento que está inserido nesta palavra), e não o que obedecia a regras de harmonia, doçura, etc. E haverá alguma coisa mais transbordante de energia do que uma pintura de Dürer?

Talvez se pudesse então dizer que uma obra do passado que ainda continua a ser bela é aquela que nos acomete com a sua energia. E que uma obra do presente, quando válida, pode ser considerada (se assim o quisermos) bela de acordo com o progressivo e imparável alargamento das fronteiras desse conceito (o que é, afinal, a mais justa definição de vanguarda).

domingo, maio 13, 2007

No plateau 10

Na sua versão cinematográfica da peça "O ginjal", de A. Tchékhov, Jean-Look Spiell Bergman resolveu escolher os seus actores de uma maneira perigosa. Não baseou o casting na qualidade criativa dos intérpretes, nem na adequação dos actores às personagens, muito menos na sua anterior experiência na representação do dramaturgo russo. A escolha foi feita de acordo com os fantasmas afectivos que os actores provocavam no próprio Jean-Look. Ou seja, o casting resultou do conluio entre aquilo que o realizador sentia a propósito de cada personagem e os sentimentos concretos de Jean-Look a propósito de cada um dos seus intérpretes. Afinal, o filme era tão seu quanto de Tchékhov.

Assim, a distribuição do elenco foi a seguinte:


LIUBOV A. RANÉVSKAIA - a actriz-fétiche do realizador
ÁNIA - uma jovem actriz que o realizador detestava
VÁRIA - uma actriz da própria família do realizador
LEONID A. GÁEV - um actor esquecido e desempregado
ERMOLAI A. LOPÁKHIN - um actor que era o melhor amigo do realizador
PIOTR S. TROFÍMOV - um actor que provocava desejo erótico no realizador
BORIS B. SIMEÓNOV-PÍCHIK - um actor não-profissional
CHARLOTTA IVÁNOVNA - uma actriz que fazia chorar o realizador
SEMION P. EPIKHÓDOV - uma vedeta do momento
DUNIACHA - uma actriz na qual o realizador se pudesse rever socialmente
FIRSS - um actor famoso que constrangia o realizador
IACHA - um estreante promissor

O filme nunca se chegou a fazer.


(Fotografia de uma produção da Universidade do Colorado em Boulder)

Opus 1

1. A estética da harmonia tonal deveria ser uma pequeníssima ilha da História da Música. Um momento. Magnífico: mas um momento. Bach deveria ser ouvido por uma seita de freaks, Mozart deveria estar gravado em raridades de vinil, a funesta Callas precisaria de protecção policial, o Horowitz sairia dos concertos directamente para o hospício, o oboé estaria protegido como uma jóia ou relíquia, a leitura das partituras dependeria de inúmeras pedras de roseta, e os maestros provocariam tanta desconfiança quanto os médiuns e os endireitas.

A música dominante deveria ser toda concreta, deveria ser a variável comovente do ruído vital, baseada na imprecisão do ritmo do corpo, na ausência de beleza da voz comum, no desprezo pela motricidade fina, no improviso, no amadorismo infantil dos mais rudes instrumentos. Não um palácio para burro contemplar, mas a expressão urgente de cantar em conjunto a existência.


2. O meu cânone musical: "Frère Jaques, frère Jacques. Dormez vous? Dormez vous?"

O meu Titi

Nascido um ano e meio antes do 25 de Abril, tendo vivido toda a minha vida pensante em plena Democracia, e tendo sido sempre alérgico aos ácaros e à coisa política, a verdade é que nunca consegui adoptar grandes romantismos ideológicos. E como quase toda a gente da minha geração, é com um sorriso complacente que encaro a estética da revolução ou a retórica marxista.

No entanto, perante certos avatares da mesquinhez humana, sinto-me por vezes forçado a tornar-me uma espécie de Che Sarcasmo, ou seja, sinto um leve acesso de intervenção cívica à-minha-maneira.

Ontem (sábado, 12 de Maio), a TVI mostrou uma reportagem sobre cidadãos portugueses com empregos de sucesso em Angola. Não vale a pena estar com rodeios: era uma reportagem profundamente colonialista. Basicamente, mostrava-se a vida de alguns lusos que foram para África ganhar três, quatro, cinco vezes mais dinheiro do que no país natal, contratantes de mão-de-obra local a ganhar menos do que o salário mínimo português, e ainda por cima recebidos de braços abertos pelos angolanos por causa da sua superior experiência laboral.

É claro que isto é o nosso provincianismo a falar. Portugal tem tantos problemas dentro de si, que já só consegue ser imperialista em reportagens da TVI (a rima foi propositada).

Agora, não sei se o repórter era um falso neutral, ou se afinal tinha um sentido de humor refinado. Pois uma das portuguesas entrevistadas (literalmente uma cidadã de classe média em terra lusa, promovida a capitalista na sua coloniazinha) andou a mostrar para a câmara a sua criadagem como quem mostra vasos da dinastia Ming (não digo animais de estimação, para não evocar lastimosas sentenças de tribunal). Mostrou-nos, por exemplo, a sua Julinha (uma angolana de ar indecifrável, capaz de, entre outros requintes, cortar a fruta tropical de acordo com os caprichos de sobremesa da sua patroa). Mas quando chegou o momento de nos mostrar o seu Titi (o chauffer privativo), não aguentei mais e tive um monumental ataque de riso (foi a minha manifestação de cidadania).

Portugal será isto? Um desgraçado todo inchado que deseja ter o seu Titi?

Confissão 21



Ao ler um artigo de Luís Miguel Oliveira sobre Nanni Moretti, no Ípsilon do passado dia 11, descobri algo de desagradável sobre mim. Uma indesejada revelação (para isso servem os filmes). Pois, como as personagens das primeiras obras do realizador italiano, sou aquilo a que o crítico chamou de puritano sentimental. Ou seja, uma pessoa insuportável que não tolera nenhuma espécie de hipocrisia nas relações afectivas. (E critico, barafusto, enojo-me, distancio-me, isolo-me.) Até parece bonitinho no papel, mas francamente não me augura muito bom futuro.


(Fotografia retirada de www.nemmelheim.de/angus.htm)

Uma cambada de coveiros

O Pedro Mexia quer enterrar o ponto de exclamação, o Vasco Pulido Valente quer enterrar a França (até porque precisa do espaço para enterrar todo o resto), o Jorge Silva Melo quer enterrar (realisticamente) a Agustina, a Filomena Mónica aponta armas para o Boaventura Sousa Santos, o Miguel Sousa Tavares já comprou a campa do Alberto João Jardim, o Gastão Cruz comete Regiocídio quase todos os dias, o António-Pedro Vasconcelos quer enterrar o Manoel de Oliveira (coisa que, claro está, se afigura francamente difícil), o António Lobo Antunes vai fazer uma esperinha ao sr. Nobel, o Eduardo Pitta tem a mira apontada para os controleiros do inefável, o João César das Neves é mais simples: quer matar a vida toda, o Jorge Mourinha é pago para não ter paciência para o cinema de autor, o planeta inteiro quer tratar da saúde de George W. Bush, (já agora, eu também quero enterrar o cinema de Hollywood). E etc., e etc.

O conspirador de comentários 6



Quando a clareza começa a surgir, traz sempre um gume consigo.

(Fotografia de Susana Neves)

quinta-feira, maio 10, 2007

Livre por ter cão, livre por não ter

Tantas vantagens tem a clareza quanto a ambiguidade.

A primeira exige virtuosismo de decifração (um texto claro só se torna óbvio quando o seu leitor o consegue articular de forma rigorosa).

Quanto à ambiguidade, ela tem toda a fragilidade das coisas requintadas. O seu fulgor depende sempre de uma arte da leitura. O receptor do texto tem de o ler com a mesma generosidade de espírito com que ele foi inicialmente concebido.

De qualquer modo, nada é pior do que intuir grandes metáforas num texto claro, ou dar uma interpretação unívoca de um texto ambíguo.

terça-feira, maio 08, 2007

No estúdio

A prática da fotografia tem em si latente uma componente de caça a que nem o fotógrafo nem o fotografado conseguem escapar. Tudo aponta para isso: a necessidade de enquadrar o objecto com rigor, a precisão de timing que o disparo exige, a irreversibilidade dos seus efeitos, o congelamento do movimento, a perda da alma do indivíduo capturado (ainda que em registo de sobre-metáfora natural), a exposição do troféu, o uso da imagem para serviços fúnebres, álbuns de memórias ou serviços de evocação.

Ninguém consegue mudar a essência de nada. Por exemplo, quando um cineasta faz um filme de um plano só, ele não evita a montagem. Simplesmente logra reduzi-la até um valor zero (e será mesmo zero? ou antes um?).

Mas talvez haja algum fotógrafo que, desesperado por reduzir a maldição predadora da sua actividade criativa, tenha assumido o compromisso de só capturar imagens com uma velocidade de obturação tão lenta que a caça acabe quase por ser feita por um comum acordo formal e performativo com a presa (mais do que um mero acordo jurídico, portanto). Um fotógrafo obcecado por criar imagens sem dor. Nem mesmo dor simbólica.

Diz-nos a experiência e o pensamento que, em circunstâncias excepcionais, o tempo consegue dissolver a agressividade. E então podemos fotografar um rosto que nos comove, tentando não o destruir metafisicamente.

Encher a fotografia com a imperfeição do cinema. Ou talvez colocar subtis fumos de incenso a pintar, com base no acaso, a imagem. (Gotículas)...... E caligrafar com aparas de luz.

Outros limbos

A Igreja C. Apostólica Romana acabou de deslimbar mais um dos seus lugares-comuns. E é ver como agora todos dizem que isso de limbo era treta sem fundamento, pois há céu e céu, há ir e não ficar. E o melhor de Deus até são as crianças.

Já que a instituição vai acabar por aceitar o uso do preservativo, o divórcio, a homossexualidade, o fim do celibato dos padres, a ordenação das mulheres, ou a interrupção voluntária da gravidez até às x semanas (daqui a centenas de anos, mas vai acabar por ceder - mais sida menos suicídio, menos vocação mais proscrição), e já que nessa altura virão todos pedir desculpa e dizer que a culpa afinal foi de uns santos filósofos e de uns exegetas exagerados, seria bom que abreviassem o assunto, e aceitassem tudo bem rapidinho.

É que o limbo é estar vivo e ser subtilmente empurrado para o inferno.

segunda-feira, maio 07, 2007

O artista de plástico 5

Peça: A dependência [Colar & Fita-Colar]


Processo:
COLAR
1. Estenda uma frágil linha de lã, da cor que mais lhe aprouver, sobre um papel ou tecido de cor não exactamente igual mas bastante parecida. A linha tem de ser posicionada com a mesma forma de um fio de colar.
2. Para fixar a linha sobre o suporte, recorra a pequenos fragmentos de uma cola espessa, quente e forte, posicionados ao longo da linha com intervalos exactamente iguais (como se fossem as pérolas do colar). Trate a cola como um material escultórico. Enquanto ela está quente e moldável tente trabalhá-la como se estivesse a moldar vidro, encontrando as formas mais sugestivas que conseguir. Dê largas ao seu virtuosismo e à sua imaginação: os pedaços de cola esculpida são os verdadeiros protagonistas da peça.

FITA-COLAR
1.a) Estenda uma frágil linha de lã, de uma cor complementar da linha da peça anterior, sobre um papel ou tecido de cor não exactamente igual mas bastante parecida. A linha tem de ser posicionada com a mesma forma de um fio de colar.
2.a) Para fixar a linha sobre o suporte, recorra a pequenos fragmentos de fita-cola transparente, posicionados ao longo da linha com intervalos exactamente iguais.
3.a) Na parte do suporte que está por baixo da linha, coloque pequenas pérolas de bijutaria seguras sob os pedaços de fita-cola.

a. Exponha as duas peças em conjunto.

No comments

Províncias

Como não conheço suficientemente a região visada pelo espectáculo, não posso dizer se "Por detrás dos montes", peça concebida pelo Teatro Meridional (e agora mostrada no Porto), consegue exprimir a sua identidade, ou apenas mostrá-la (como talvez dissesse Wittgenstein).

De qualquer modo, não é preciso pertencer a um lugar para a partir dele realizar uma criação legítima. Tudo depende da identificação possível entre o criador e os aspectos do lugar aos quais ele se torna sensível. Uma das razões do desastre do filme "It's all true" talvez tenha sido a osmose excessiva que houve entre o espírito indómito de Orson Welles e a magia da terra brasileira. Em compensação, quando Wenders esteve em Portugal, o que ele viu foi fado e uns eléctricos, e não sei mais o quê.

Pelo menos, há um aspecto do espectáculo que patenteia toda a sua legitimidade: o trabalho rural é magistralmente evocado através dos mais delicados processos de sugestão teatral. Como se isso fosse ao mesmo tempo um manifesto e uma evidência. Assim, o grupo de Miguel Seabra parece reclamar para o seu fazer criativo a mesma radicalidade essencial das sobrevivências ancestrais. Porque a utilidade muda de sinal, mas não de peso.

IndieDoc

O corpo do actor é um cancro vital que impede que o filme de ficção apenas seja ficção.

Partilha 12

Estrelas do mar são saudade
Dos astros que brilham no céu
Igualmente a morte dos homens
Só tem forma de eternidade

(Poema incluído no meu primeiro livro editado: "Se o poema tem areia", 2001)

Explicação dos evangelhos

"(...) Que a maior parte da gente do mundo está do parecer de que não houve cavaleiros andantes; e por me parecer a mim que se o céu milagrosamente não lhes dá a entender a verdade de que os houve e de que os há, qualquer trabalho que se tome há-de ser em vão, como muitas vezes mo mostrou a experiência, não quero ora deter-me em tirar vossa mercê do erro que com muitos tem: o que penso fazer é rogar ao céu dele o tire e lhe dê a entender quão proveitosos e quão necessários foram ao mundo os cavaleiros andantes nos passados séculos, e quão úteis no presente seriam se se usassem; (...)"

Miguel de Cervantes (tradução de Miguel Serras Pereira)

sábado, maio 05, 2007

"Fury" - imagem

O INACTUAL 15

"Fury" - Fritz Lang (1936)


O primeiro filme de Lang em Hollywood, produzido pelo sempre ousado Joseph L. Mankiewicz, tem um título curto e grosso, belo pela violência concisa que ao mesmo tempo anuncia e expande.

"Fury" mantém a estratégia de observação paralela que o autor havia adoptado em "M" (a sua obra-prima germânica). Mas enquanto neste filme rodado em torno de um culpado, o paralelismo era assumido pela própria montagem (a boa sociedade e o submundo perseguindo ao mesmo tempo a figura do serial killer, como se este vértice de terror os obrigasse à sincronia), "Fury" distribui os seus dois pesos e medidas em dois momentos diferentes do filme. Ou seja, a personagem de Spencer Tracy (que aqui é o inocente) tem de evoluir psicologicamente para que a narrativa exponha o seu duplo ponto de vista. Assim, a primeira metade do filme encena um linchamento ilegal, a segunda um linchamento ilegítimo (ainda que legal). É o direito positivo contra o direito natural, a justiça institucional contra a boa fé.

É rigorosa a crítica de Lang ao facilitismo moral do cinema. No tribunal, os rostos dos linchadores (dos culpados) são revelados através de uma projecção num ecrã. À partida, o cinema surgiria assim como instrumento de verdade. Mas Lang constrói as imagens de modo tão distinto do resto do filme (recorre a still frames, a ângulos estranhos, à profusão do fogo, da água, dos contrastes de luz e sombra, como se o expressionismo ainda fosse a sua vocação criativa), que nos leva a supor que a dignidade de uma arte está sempre hipotecada numa utopia de que só podemos ter breves vislumbres. O que se defende no tribunal é, aliás, uma causa imoral. Mas defende-se com a verborreia virtuosa e limpa típica de filme de tribunal, como se Lang lançasse uma perversa maldição a todo esse género de cinema que haveria de fazer a boa fortuna de Hollywood. Depois de "Fury", o grande número que todo o actor gosta de fazer no papel de advogado, é sempre apadrinhado pelo fantasma do diabo.

Por outro lado, os elementos típicos de policial, em vez de serem usados para descobrir um criminoso, ou um cadáver, servem para descobrir um vivo, o que vai precipitar a libertação com que o filme se encerra.

E o rosto dessa liberdade é Sylvia Sidney. Talvez porque Lang viu o seu destino dolorosamente separado daquele que a sua mulher Thea von Harbou (que ficou na Alemanha a servir os nazis) escolheu, as suas primeiras figuras de mulheres americanas encarnam uma espécie de generosidade feminina que é, claro está, apenas mítica. Será a sua catarse? Em "You only live once", Sidney será mesmo o anjo que acompanha o herói até aos portões da morte.

Uma ideia

Na conferência que Peter Sloterdijk deu em Serralves na passada quinta-feira, este autor partilhou uma ideia inquietante com o seu público. Segundo o seu julgamento, enquanto no mundo moderno o indivíduo já está razoavelmente domesticado (assuma-se esta palavra sem conotações positivas nem negativas), sendo a violência privada sempre um caso de excepção, a nação, pelo contrário, ainda se encontra num estado de relativa barbárie. O que explica um caos de política internacional que nenhum de nós, em seu perfeito juízo, defenderia.

Digo eu, então, que a democracia não está a cumprir a sua função.


Invulgares de Linneu 9



Tui-tui-ferrão


(Canto: titi-terit)
Informação do Guia de Aves da Assírio e Alvim

Adenda a "No escrínio 22"

No poema de A. F. Alexandre, a protecção do retratado com folhas de acetato alude também à figura tutelar da estufa (do afecto). Não é por acaso que o sujeito lírico diz que vai florescer: tem condições adequadas para o fazer. No entanto, o poema corrói este sentimento pacífico quando, uns versos mais tarde, o retratado já não é protegido, mas sim perseguido. É que o acto de retratar hesita sempre entre a perfilhação e a mais crua caça.

sexta-feira, maio 04, 2007

Galeria 24


António Franco Alexandre

No escrínio 22

Poema de António Franco Alexandre:


em folhas de acetato me proteges
floresço em avenida litoral
breve serei semente um céu e a terra
plantado azul e sopro de marés

as palavras fechadas com o jeito
que a boca tem ao ver-se
retratada
quase um sabor razão acidulada

me persegues de nomes, me retratas
igual ao branco hotel onde regressa
a não lembrada sombra de verão

e pousam de ouro em água o só
engano breve
das rosas e da neve despertadas.



O poema descreve uma situação simples: alguém tira uma fotografia ao sujeito lírico, provavelmente em frente ao hotel onde fotógrafo e fotografado passaram uns dias de Verão. As folhas de acetato surgem aqui como metáfora da película de 35 mm. É claro que o retrato que o poema evoca pode ser uma descrição escrita: não só o retratista persegue o poeta com nomes, como as próprias folhas de acetato são normalmente usadas como suporte de uma escrita destinada a ser projectada (e atente-se na localização da única vírgula do texto).

Mas o mais relevante é que, enquanto os poetas costumam usar a sua arte para descrever as pessoas que amam, o autor deixa-se aqui ser descrito, é um sujeito que se objectiva a si mesmo. Ou, num palavreado menos sonso: escreve-se a si mesmo enquanto ser amado. Daí que o tom deste texto seja algo dissonante dos restantes poemas do livro em que se insere ("A pequena face", de 1983), na medida em que o poeta simula uma sensibilidade distinta da sua. Afinal, ele pretendeu que o seu livro fosse um mero muro de água onde se tecessem rumores, e que nele se desenvolvesse uma estética próxima do pão e da água, uma estética pequena, portanto (curiosamente, o acetato tem também a ver com a transformação do vinho em vinagre, o que insere uma nota de irrisão na aparente luxúria deste hetero-poema).

A primeira estância é fulgurante. Quando for fotografado (o engano breve), o poeta vai florescer em avenida litoral (provavelmente um dos versos mais belos que A. F. Alexandre escreveu até agora). Daí se retiram os restantes versos. O clique torná-lo-á semente, um céu (talvez o autor distinga sky de heaven, talvez se refira a um dos míticos sete céus, ou pelo menos não conceba o céu como um absoluto indiviso), a terra (o artigo é determinante), sopro de marés. E plantado azul: ou seja, uma flor azul saída da semente, mas também o céu e o mar que assim são simplificados em humildade vegetal. De qualquer modo, tudo isto é litoral (fronteira entre o íntimo e o exterior).

A fotografia permitirá, então, avivar a memória. Se não existisse, a sombra do verão continuaria a regressar ao branco hotel sem que dela houvesse consciência nem lembrança. A fotografia permitirá um despertar. É essa eternidade que só podemos experimentar no instante, e que por isso é uma razão acidulada. A última estância do soneto (chave de ouro sobre a aquosa página, pôr-do-sol, luz sobre os sais de prata) não é mais convencional. É que a imagem poética (e é isso que afinal está aqui em causa sob a retórica da fotografia) consegue congregar, no seu breve e repentino florescer, todos os ex-libris do espectro do tempo. Desde as rosas da primavera até à neve do inverno.

quinta-feira, maio 03, 2007

Pedagogia

Esclarecer é seduzir para um mistério específico.

Pragmatismo

Não me considero um indivíduo optimista. Nada, nada mesmo. Mas como não encontro nenhuma utilidade no pessimismo, tento manter a minha esperança em níveis aceitáveis de combatividade.

terça-feira, maio 01, 2007

Uma perspectiva

Nocturno 1

No Capítulo XIV da Segunda Parte do "Dom Quixote", Cervantes põe o seu personagem a conversar, durante a noite, com um estranho Cavaleiro dos Espelhos (um presumível reflexo do Cavaleiro da Triste Figura) que, apesar de descrever com máximo detalhe a figura de Dom Quixote, não o consegue, contudo, reconhecer.

De certa maneira, a noite é um momento existencial. É aquele momento da vida em que a nossa verdade se separa da consciência dessa mesma verdade. Mas esta é uma alienação que pode trazer benefícios.

A noite é o espaço do sonho de Maria Zambrano, quando o homem, desligado do peso omnívoro do tempo, se aproxima do seu ser e pode assim sofrer a progressiva revelação do seu destino. Em "O Castelo", é durante a noite que Kafka dá uma chance de salvação ao seu personagem. Só que enquanto o salvador descreve essa hipótese, K. adormece.

Como somos luminodependentes, talvez a nossa liberdade fosse possível se nos soubéssemos conduzir sob a luz múltipla e democrática das estrelas. Não é por acaso que estas se organizam em constelações, que não são mais do que imaginárias possibilidades.

Mas tudo o que é corpo exige a proximidade devoradora do sol. A vida impede-nos a revolução que a mentira poderia trazer.

Segunda Parte, Capítulo XVI

Incapaz de aceitar a verdadeira dinâmica da realidade, Quixote pensa que tudo aquilo que lhe acontece sem obedecer às suas representações mentais, é causado pela acção de uns malignos magos encantadores que o querem prejudicar. Ou seja, Cervantes defende que o fundamento de qualquer narrativa é o encantamento: tanto no sentido de aceleração da inverosimilhança do real (o desnível entre subjectividade e objectividade), como no de comoção qualificada. Não é por acaso que as primeiras grandes narrativas humanas foram poemas que cumpriram essa dupla função.

O romance moderno tentou desesperadamente afastar-se desse pressuposto (o realismo é a confusão de real com jornalismo), mas os seus melhores exemplos constituem renovações gloriosas do princípio do encantamento (a sua narração deve tanto ao funcionamento da mente como à resistência do mundo a esse funcionamento). Foi o que Proust e Kafka, em estéticas muito diferentes, conseguiram fazer.

segunda-feira, abril 30, 2007

Necrofobia

Se eu escrevesse uma biografia de Cristo, não falaria sobre a sua vida sexual. Não para ser simpático com dogmas e tabus (que a Igreja usa para conformar uma moral de costumes no limite do criminoso), mas porque as pessoas cuja vida sexual me interessa estão todas vivas.

Dr. Strangelove

Um líder sinistro de um país qualquer veio dizer que não percebe o interesse da comunidade internacional na situação trágica do Darfur, porque há problemas em África que são bem mais graves. Ora, os outros problemas têm de ser sinalizados, analisados, resolvidos. Mas não percebo como é que se pode menosprezar uma catástrofe humanitária classificando-a num espectro de gravidade. Será que ele dá notas, como o Professor Marcelo?

Perante isto, confesso-me bronco, bruto, curto e grosso: não tenho paciência para estes jogadores de xadrez.

Dicionário 9

A polissemia provoca marés (ou estações) em cada palavra onde se aplica.

Uma questão de validade

Neste blogue, o autor confessa a um dado momento que nunca entendeu a poesia do mar. Ora, é precisamente isso que confere validade à poesia. As suas evidências não são impostas por uma autoridade qualquer, mas dependem de um conjunto de acasos, alegrias, sofrimentos, revelações, caprichos, teimosias, sei lá mais o quê, tudo aquilo que não pode ser previsto e torna todos os homens mestiços.

É por Paulo Kellerman não entender a poesia do mar, que eu me sinto legitimado a entendê-la.

Menu

A verdadeira fantasia erótica do realizador de "Les anges exterminateurs" (Claude Brisseau) é a possibilidade de alguém encenar, na vida de outrem, uma experiência sexual de tal modo intensa que tenha o valor de uma revelação. Cada tolo tem a sua mania, e é assim que deve ser. Ainda por cima é uma fantasia de metteur en scène, e por isso faz todo o sentido que desse fantasma surja um filme. Buñuel, Hitchcock, Fassbinder ou Oliveira partilharam as suas obsessões nesse domínio com os seus espectadores.

Já o dilema moral do artista-mártir por ter dado novos mundos ao mundo, não sei porquê, mas não me conseguiu convencer.

E como o filme tem pouco a oferecer do ponto de vista da criatividade cinematográfica, a sua validade depende essencialmente do encontro das fantasias do espectador com as do autor. Ou seja, o filme funciona para quem gosta de mulheres, para quem gosta de lésbicas, para quem sonha fazer sexo em locais tabu, etc., etc.

sábado, abril 28, 2007

Invulgares de Linneu 8


Guarda-rios

(Canto: zii-ti, raramente ouvido)
Informação do Guia de Aves da Assírio e Alvim

O coleccionador 6

No poema "A furna" (incluído no livro "O Bicho Harmonioso"), Vitorino Nemésio diz ao leitor que se debruçou no seu próprio poço de modo a poder ouvir o seu coração (tudo isto é conotação convencional), e que por causa disso ficou pálido e sem pulso: o sangue fora-lhe todo para os ouvidos (agora surge uma denotação que desconstrói).

Uma deliciosa ironia que muito nos diz sobre a relação corpo/pensamento.

Relicário de Vitorino Nemésio

Eis alguns notáveis excertos de poemas do livro "O Bicho harmonioso" (1938):


Já resolvi ficarmos tristes
Para matar a fome,
Que os tristes a tudo são fatais.
--------------------------------

Seja a tristeza como cousa
Que só o peso realiza
E a alegria do que não ousa
Aceitar a terra que pisa.
-------------------------

Deixem-me ouvir nesse antigo
Búzio de sala (que agora
Os sobrados são o mar)
As vozes que ele traz consigo
Como o relógio dá a hora
Sem a gente lhe tocar.
-----------------------

Deixem-me só no mar, não aluguem o bote:
Medi o salto e o mundo antes de me atirar.
Assim, não há ninguém que me derrote:
Afogado ou flutuante, hei-de chegar.
--------------------------------------

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim -

O artista de plástico 4

Peça: Ice Tea


Processo:
1. Disponha, sobre um suporte que considere adequado, um conjunto de grandes cubos de gelo, de modo a formar uma cruz.
2. Sobre o T assim formado, coloque a imagem de um Cristo crucificado.
3. Acelere o processo de passagem do gelo a água líquida com um secador, uma aquecedor, ou qualquer aparelho do género.
4. Registe a cena em vídeo (a sua peça será o registo, não a performance).
5. Para a banda sonora, registe a encenação de uma conversa de respeitáveis senhoras a tomarem o seu chá das cinco, enquanto discutem (com conhecimento de causa) alguns dogmas do cristianismo. A cena deverá revelar uma absoluta tranquilidade.
6. Junte a imagem ao som.
7. Sirva sem enfeites.

a. Não acelere a imagem captada pelo vídeo. O espectador deverá ter a impressão de que o gelo está a derreter em tempo real.
b. Variante: pode construir uma peça semelhante, mas fazendo incidir a conversa das senhoras em torno do sentido da bela mas misteriosa palavra "cristel". Terá alguma coisa a ver com Cristo? Com cristal?

Post desinteressante

Talvez não fosse assim tão absurdo conceber uma Ética baseada na ideia do desinteresse pelo próximo.

Algum benefício haveria de resultar do facto dos Outros não serem suficientemente interessantes para lhes infligirmos sofrimento. Visto que o Mal implica sempre ou algum prazer ou pelo menos a concepção do Outro como obstáculo, o desinteresse traria preguiça para o impulso cruel, sem que para isso fosse preciso alimentar ilusões quanto à natureza humana.

E por outro lado, que esplendoroso mundo seria este se ninguém tivesse interesse na modificação do Outro, na sua salvação? Já tivemos os missionários a imporem o catolicismo aos povos colonizados, Bush levando a democracia ao mundo à força de bombas, os taliban a protegerem o sexo feminino da suposta imoralidade. E sejamos francos: não é claro se o falhanço do comunismo se deveu apenas a uma traição da Revolução, ou se haveria uma componente da sua utopia que era sádica não por ser interesseira, mas simplesmente por ser interessada. Gosto mais do Cristo que tentava libertar do que aquele que conseguía salvar.

Importante seria o restabelecer de um sentido de urgência, que desapareceu por completo do mundo confortável do Ocidente (como esquecer Nova Orleães). Uma urgência fundada no mais puro instinto de sobrevivência. Talvez assim pudéssemos sentir interesse pelo distante.

Um bocadinho de idealismo

No suplemento ípsilon do PÚBLICO de 27 de Abril, um conjunto de compositores queixava-se (com muita razão) do facto de a dinâmica da música contemporânea ainda estar encerrada no âmbito do gueto dos seus militantes, em vez de fazer parte da regular vida cultural da cidade. No entanto, manifestavam alguma desconfiança face à acção pedagógica sobre os públicos, defendendo que, em certos casos, a música se consegue mesmo impor por mero efeito da emoção imediata que provoca.

Ora, é claro que, se uma obra musical só consegue convencer o seu ouvinte recorrendo ao exibicionismo teórico, isso leva-nos a supor que a sua eficácia é medíocre. O sofrimento que os jovens têm de suportar para entender o funcionamento de algo como a harmonia tonal (muitas vezes nem o chegam a assimilar) mostra como o excesso de complexidade conceptual tende a afastar do convívio com a música todos aqueles que não têm uma vocação especificamente teórica. E a música faz-se sem palavras: sem palavras talvez se possa fazer amar.

No entanto, não podemos cair na má-fé oposta de aceitar de braços abertos o espectador mal preparado, de modo a legitimar o status quo das instituições artísticas com argumentos de romantismo serôdio. Se Julião Sarmento afirma que cria apenas para outros artistas (e como eu o lamento), também já ouvi criadores que defendem que o bom homem ignaro (um avatar do bom selvagem?) é capaz de apreciar a obra de arte à sua maneira, e que isso basta. Assim, os curadores salvaguardam o sucesso das exposições com base num mito, os sobranceiros artistas garantem a sua sobrevivência, e o público (que muitas vezes se passeia pelos museus despejando sarcasmo sobre as peças que vê) sente-se socialmente elevado pela cultura.

Ora eu pergunto: E A COMUNICAÇÃO? A comunicação VERDADEIRA?

O facto é que, no melhor concerto comentado a que alguma vez assisti, o orador era nem mais nem menos do que António Pinho Vargas (um dos compositores referidos no artigo do PÚBLICO). Falou claro, falou apaixonado pela sua matéria, e mais: conseguiu fascinar-me. Foi a partir daí que comecei a apreciar a música de Messiaen. E tenho muita pena de, por causa do horário laboral, não poder integrar os grupos das visitas guiadas do João Fernandes no Museu de Serralves, sempre tão luminosas e despidas de arrogância.

Espanto-me com a proliferação de cursos de escrita criativa (será erro meu, mas se me parece que se pode de facto ensinar a escrever, já não entendo como se pode ensinar a criatividade, que é sempre uma forma de quebrar barreiras estabelecidas), quando precisamos é de cursos de leitura criativa como de pão para boca.

Ninguém precisa de saber quais são as leituras academicamente relevantes e discutidas, ninguém precisa de conhecer Tratados de Estética. E nenhuma opinião deve ter a pretensão de autoridade. Mas é preciso aprender a ler. E é isso que um concerto comentado pode promover. É preciso dar ferramentas, a quem ouve uma peça musical, a quem assimila um texto, a quem contempla um quadro, para que o saiba ler (tendo em conta de que o coeficiente verbal da leitura é diferente em cada tipo de arte).

Nunca consegui separar, em mim, a emoção do pensamento. É como se fossem dois atributos distintos mas coincidentes na mesma substância (diria o Espinosa). E muitas vezes, a emoção acelera a minha necessidade de conceitos, ou a inteligibilidade de uma ideia me faz nascer uma emoção.

E apesar de isto hoje ser politicamente incorrecto, confesso que sempre adorei ter aulas, quando o professor tinha a autoridade do conhecimento e da sedução. Gosto de aprender (em livros, conversas, na blogosfera). Nenhuma oportunidade pode ser desperdiçada.

E quanto aos meus textos, ofereço-os ao leitor para que ele neles viva (se o quiser). Não para que ele finja que os aprecie (muito menos para si mesmo). Na arte, só a sinceridade tem valor. Escrevo para ser mais, cada vez mais igual ao meu leitor.

sexta-feira, abril 27, 2007

"The wayward cloud" - imagem

O ACTUAL (número especial)

"The wayward cloud" - Tsai Ming-liang (2005)

Tendo tomado contacto com este filme no Festival de Curtas-Metragens de Vila do Conde há já dois anos, acabei por perder a esperança de que ele se estreasse em salas portuguesas. Como muita gente não terá, portanto, acesso fácil à obra, considero este um número especial da série "O ACTUAL".

Filme genuinamente violento, cheio de negrume, presta-se mesmo ao equívoco de nele não se notar mais nada a não ser uma exploração histérica do acto sexual. Mas o cinema já não produz escândalos pornográficos, pelo que a eventual reacção de rejeição do espectador tenderá a ser fundada em critérios de gosto. Ora, Ming-liang sabe que fez um filme de impossível consenso.

A obra parece ser uma paródia a dois tipos de cinema opostos: por um lado, o musical (onde o amor é adoçado e infantilizado, onde o sexo é sempre sublimado e nenhum incómodo real tem lugar), por outro, a pornografia (cinema cínico, sem alma, onde ninguém ama ninguém). Ou seja, o amor sem realidade, e a realidade sem amor. A cena em que o par protagonista falha a sua primeira relação sexual toma lugar precisamente numa loja com prateleiras cheias de DVDs. E toda a beleza da encenação de Ming-liang passa essencialmente pela apropriação ao mesmo tempo lírica e perversa dos códigos dos dois géneros cinematográficos.

O cinema deixa assim um lastro de satisfação imaginária que os amantes gerem ora melhor, ora pior. A cena mais serena dá-se quando, ao som de música nenhuma, o rapaz está a dançar com a rapariga equilibrado sobre os seus pés. O sexo é substituído pela dança, a música pelo silêncio. Os géneros não se completam: entre-anulam-se. É uma definição, desesperada, do amor. Pois na verdade, não há aqui esperança nenhuma para a dimensão relacional do humano.

Duas cenas levam a fita ao rubro. No início, um homem tem uma relação sexual com uma mulher. No entanto, no lugar do sexo dela, está uma melancia (trata-se de uma fantasia de um filme porno). E é em torno disso que eles retiram o prazer. Eles fodem, portanto, por interposto símbolo (aliás, a lenta aproximação do futuro par é feita através de encontros gastronómicos). Cena surreal, burlesca e, vá lá, erótica, mas acima de tudo metafísica: ninguém faz amor directamente com ninguém. O que os sexos partilham é a ideia do amor.

No fim do filme, o símbolo é descarnado, geometrizado. O rapaz, filmando uma cena hardcore com uma actriz pornográfica inanimada (morta?, boneca insuflada baudelairiana?, monstro felliniano?, revés da Bela Adormecida?), de súbito enfia o seu pénis na boca da namorada, mas fá-lo através de uma janela redonda que tem a forma de uma... melancia. Uma espessa parede separa (visualmente) o par. Num momento de delírio tanto do ponto de vista formal como ficcional, é convocada toda a impossibilidade eterna da união das almas através da reunião dos corpos. A cena é tão comprida, pesada, insistente, violenta, que parece que o autor teve vontade de encenar toda a frustração humana a respeito deste assunto.

No momento da ejaculação, o líquido que vemos não é o esperma, mas sim as lágrimas da rapariga. Mas ninguém sai do filme entristecido (como acontece com "Splendor in the grass"). O incómodo é bem mais drástico.

Entre a insensibilidade e o cliché

"(...) Mas, posto tudo isto, caí, Sancho, na conta de uma coisa, e é que me pintaste mal sua formosura: porque, se não recordo mal, disseste que tinha os olhos de pérolas, e os olhos que parecem de pérolas antes são de besugo que de dama; e, ao que eu creio, os de Dulcineia devem ser de verdes esmeraldas, rasgados, com dois celestiais arcos que lhes servem de sobrancelhas; e essas pérolas, tiras-lhas dos olhos e pões-lhas nos dentes, que sem dúvida te trocaste, Sancho, tomando os olhos pelos dentes."

Miguel de Cervantes (tradução de Miguel Serras Pereira)

Segunda Parte, Capítulo XI

Perante uma trupe de actores trajada de modo a parecer a Morte com o seu séquito, Dom Quixote, um pouco mais sensato que o usual, diz que está impedido de os combater, por não haver entre eles nenhum cavaleiro andante. Mas se Sancho se quiser mandar à aventura... Coisa que o tosco escudeiro rejeita com prontidão.

Tudo o que um louco faz tem sentido. E o Cavaleiro da Triste Figura mostra assim como a Morte não lhe chega aos calcanhares, é coisa plebeia contra a qual não vale a pena lutar porque não se compara nem aos seus sonhos nem à sua generosidade. Alguns gregos da Antiguidade não desdenhariam desta soberba.

quinta-feira, abril 26, 2007

Evolução

H. Sou completamente a favor de um acordo de cavalheiros entre os falantes da língua portuguesa. Desde que seja para tornar a ortografia ainda mais barroca, sonhadora e sugestiva do que já é. Desde que se inventem novos sabores e desafios ortográficos. Menos esperanto, muito mais quimbundo.

K. Sou também a favor da plena aceitação pela língua dos desvios ortográficos que a geração e-mail/telemóvel desenvolveu. Mas sem fazer disso gramática: é preciso deixar o corpo à solta.

Bzz bzz ortográfico

As consoantes mudas servem para dizer o indizível.

Por exemplo, os insectos. No Brasil, eles são o perigo-nosso-de-cada-dia, são quotidianos, vistosos, abundantes, enormes, originais. São insetos. A plebe tu-cá-tu-lá.

Mas no frio Portugal, os pobres bichos são mais raros, mais inofensivos, menos devedores da imaginação, sobreviventes-quase-de-estufa. São mais nobres e indefesos. Precisam de um não sei c de distinção.

quarta-feira, abril 25, 2007

Tentações

Este blogue esteve para publicar um post com o título Cartão Vermelho.

Mas este blogger, que não é livre de grandes penalidades, não o deixou.

Cartão amarelo







Poema-desenho


(De Ana Hatherly)

Cont.

O poema comentado no post anterior tem mais duas partes. Transcrevo aqui a última, que me parece particularmente bem conseguida:


O voo do pavão
cruza o ar da página
e logo pára
pousando na copa do sentido

O seu largo leque
só se abre
quando alguém o vê
quando alguém o quer

Só então desdobra
o radioso encanto
do seu frágil mistério

(Nota: a segunda estância está transcrita com uma disposição gráfica diferente da verdadeira, porque eu não a consigo reproduzir correctamente aqui no blog)

No escrínio 21

Primeira parte do poema "O pavão negro", de Ana Hatherly:


O pavão negro da escrita
abre um leque de opções
exibe o luxo
do seu traje-cárcere

Babel silente
no vazio da página
prende o tumulto da voz
fixa o assalto da mão

Última instância rebelde
é jogo
luta
luto
grito calado


Este poema da escritora-pintora apresenta um discurso relativamente claro: o texto escrito está sempre aberto a múltiplas possibilidades de sentido, na medida em que aquilo que ele guarda dentro de si é precisamente essa potencialidade. Ou seja, assim como a cor negra possui todas as cores, sem revelar nenhuma, também a escrita (geralmente tipografada a preto) tende para uma obscuridade fértil.

No fim do texto, a poeta enumera quatro características da escrita. Ela é um jogo, uma luta, um luto, um grito calado. E o poema dá cabal cumprimento a este vasto programa.

A escrita é um jogo. Jogo demiúrgico, na medida em que autora inventa uma ave que não existe na realidade (todos os pavões são coloridos). Jogo especificamente verbal na criação da palavra traje-cárcere. Mas também, e abandonando esta esfera do brinquedo, jogo social: a poeta apresenta-se vestida com um luxuoso traje, segurando um leque típico do imaginário burguês de antanho. Claro que o verdadeiro luxo é o facto do traje ser ao mesmo tempo um cárcere (um guarda-cores).

Além do mais, o negro é uma cor que indicia uma certa distinção, que a escritora reclama quando pega numa expressão popular (a metáfora morta do leque de opções), e lhe dá um sentido ao mesmo tempo mais amplo e perverso. E haverá alguma coisa mais arrogante do que a construção da Torre de Babel?

A escrita é também uma luta. Nela estão condensados o tumulto e o assalto dos rebeldes. De certo modo, esta dimensão mítica entra em contradição com a anterior (não a anula, mas provoca uma tensão).

E a escrita é ainda um luto. A cor negra o simboliza, mas também o vazio da página, o silêncio de Babel, ou a paragem do tumulto. Luto talvez pela cor (pelo sentido), pela vida (que sofreu uma pequena morte para se tornar literatura), ou tão-somente pela fixação do movimento. De qualquer modo, tanto a vaidade como a missão política são abaladas por algo mais profundo.

E por fim, grito calado. Se esta Babel (esta multiplicidade de vozes) está silente, se o negro é portanto mudo, o facto é que na última estância do poema, a escrita é reconhecida como a última instância rebelde. É uma urgência (jogo, luta), um último recurso (luto), um tribunal supremo onde o juiz foi substituído por um irreverente que dita leis ambíguas.

Disposto assim no vazio da página (artista plástica, Ana Hatherly exibe, expõe, o quadro-texto), o poema abre-se perante nós como uma magnífica cauda de pavão. Três instâncias cada vez mais latas: a criação surrealista da imagem, o discurso que ela produz, a exploração de todas as consequências que derivam da criação e do pensamento.

Trata-se de uma Arte Poética: um poema que abre o leque dos poemas que se podem ou não escrever.

Venha o próximo leitor, e continue a escavar o negro.

(Nota: a última estância está transcrita com uma disposição gráfica diferente da verdadeira, porque eu não a consigo reproduzir correctamente aqui no blog)

terça-feira, abril 24, 2007

A tragédia

"E aquilo que se exprime no sacrifício é o princípio pelo qual na vida humana o infinito toma a mesma direcção do finito."
Northrop Frye (tradução de Luís Lima Barreto)

Cantiga

Se o chapim-de-bigodes não tivesse estudado, era o Pedro Abrunhosa.

sexta-feira, abril 20, 2007

Invulgares de Linneu 7


Chapim-de-bigodes

(Canto: pshin-dshick-tschreeh)
Informação do Guia de Aves da Assírio e Alvim

O artista de plástico 3

Peça: Pássaros de corpo e alma (celebração do lápis)


Processo:
1. Como base, use uma folha A5 de papel azul-céu.
2. Afie um lápis várias vezes, sempre com cuidado extremo. Recolha as suas aparas o mais inteiras que conseguir, e conserve-as intactas.
3. Com um spray de tinta amarela pouco requintada, desenhe um sol tosco no papel.
4. Cole algumas aparas no suporte. Com o lápis que lhes deu origem, desenhe, de um lado de cada apara, uma esfera negra (uma cabeça). Do outro lado de cada apara, desenhe duas linhas sugestivas da cauda de uma ave. Faça assim diversos pássaros estilizados (crie o seu bando).

a. Repita a operação com lápis de diversas cores, nunca formando um pássaro cujas asas não sejam a apara do lápis com que desenhará a cabeça e a cauda.
b. Seja criativo com a composição geométrica de cada bando de pássaros. Relacione-a com a esfericidade do sol.
c. Aplique outros elementos celestes (por ex., nuvens).
d. Nunca use uma folha maior do que A5: esta é uma peça devocional.
e. Nunca decida, para você mesmo, que parte do lápis representa o corpo, e que parte representa a alma.
f. Dedique o trabalho a Lourdes Castro (que usou aparas nos seus trabalhos), a Tápies (que fez celebrações), e a Messiaen (o compositor que deu voz aos pássaros).

Vanguarda interpretável

A imagem artística é sempre uma vanguarda interpretável.

Vanguarda, porque o seu tempo é distinto do tempo da realidade. Um louco ou um homem de fé (não estou aqui a confundi-los) podem mesmo supor que a imagem é sempre, sempre verdadeira (como se o homem não pudesse conceber o inconcebível). E por isso, aquilo que nela nos parece fantasia, pode resultar apenas do facto circunstancial de que, na época em que a imagem foi feita ou é contemplada, ainda não ter sido resolvido o possível que a imagem já consegue encenar.

Interpretável, porque a sua verdade depende sempre de uma leitura. A verdade científica é independente da sua aceitação social ou do seu eventual conhecimento pelo público. Mesmo a verdade filosófica resulta em parte de um debate trans-histórico onde o melhor argumento impõe a autoridade da sua racionalidade (e onde não se pode ser subjectivo, mas sim crítico). Em compensação, a verdade criativa é sempre o fruto do modo como a criação é lida.

E ler é difícil. Não se pode ler o que não está na imagem. É irrelevante ler como outros já leram. Não se faz justiça simplificando grosseiramente aquilo que na imagem é clareza ou ar do seu tempo. Nem complicando à toa a denotação. A leitura é a medida da generosidade da imagem, é o alargar sensato e sobretudo honesto das fronteiras do seu sentido. É a segunda parte da criação.

Por isso eu digo a mim mesmo muitas vezes: é por querer viver, na arte, o real, que eu não acredito no realismo.

quinta-feira, abril 19, 2007

O sentido de urgência

É preciso tomar muita atenção a esta notícia, e a outras semelhantes que aí venham.

Confissão 20


Confesso que os meus dias favoritos do ano são aqueles dois ou três dias específicos que, pela acção de um sol ainda brando mas já evidente, sepultam definitivamente o Inverno e profetizam o Verão.

Dias que cheiram a calor (mas que ainda a ele não sabem). Estes dias.

Confissão (ensaio)

Rossellini construiu o catolicismo mais original, livre e até herético da História do Cinema.

Em "O medo", filme ainda hoje considerado menor, a apropriação que o Homem sempre faz da figura religiosa da confissão é fortemente criticada pelo realizador (basicamente, o confessor reduz-se a um manipulador do conceito da culpa, a um chantagista).

Ora, o Deus do autor é a Sinceridade (daí a relevância deste filme no seu pensamento). Seja na epifania do final de "Viaggio in Italia", seja na erupção que conclui "Stromboli", as suas personagens são sempre levadas até ao mais fundo de si mesmas. Por isso, em "O medo", o que está em causa não é o pecado, mas a constatação de que a única virtude da ameaça de confissão é a possibilidade de pôr em causa a validade e o sentido de estar vivo. Assim sendo, confessar é picar o ponto; mas ter vontade de confessar já é metafísica.

Tudo se passa no íntimo, sem instituições (religiosas ou cinematográficas), sem representantes da divindade, sem dogmas nem sermões.

Poesia, pintura, cinema

"Os elementos da imagem são mandatários dos objectos na imagem."
Ludwig Wittgenstein (tradução de M. S. Lourenço)



De qualquer modo:

a imagem só é falsa quando pretende ser verdadeira, e a comparação com a realidade desmente tal pretensão.

terça-feira, abril 17, 2007

Crónica da manga

Um dia destes, uma manga mais espaçosa e grosseira sugeriu-me que aquilo que eu estava prestes a comer se parecia com uma bola de rugby.

Metáfora nada indigesta, aliás mais aperitivo que digestivo. Comecei logo a supor que desde a plantação inicial do fruto num país tropical, até ao meu prato, passando pelo cuidado agrícola, o esforço de colheita, a viagem sobre o oceano, a venda, tudo isso fora feito por homens rudes, fortes, francos, homens ainda capazes de fazerem valer o seu corpo, sem delicadezas desnecessárias, nem maldades requintadas.

O próprio acto de retirar a casca à manga se me afigurou um desafio (como se eu fosse ainda criança a descascar o meu primeiro fruto). E aí tudo surge: a adrenalina, a vontade de vencer, um certo sentido de táctica, faltas, cartões punitivos de mau comportamento, por vezes até a excitação de um público.

E não sei se isso se refere especificamente à minha bola de rugby, mas nestas andanças de descascar frutos e separar ossos de frango, há sempre imensas superstições que arranjam maneira de se impor. Pode ser o não ficar solteiro, o ter filhos rapazes ou raparigas, o morrer mais tarde ou mais cedo, o ter sorte na vida, ou o sair vencedor nos jogos da paixão, preocupações simples que pertencem à infância do mundo, e que por isso mesmo me parece bem que estejam na mão de homens que não pretendem crescer.

E no fim de tudo, o golo: o sabor do fruto a invadir a minha boca.

Galeria 23


Vladimir Nabokov

Ao contrário

E se o mundo fosse ao contrário?

Se houvesse uma única gota garantindo o sistema de planetas, e os dias se sucedessem em estados de água sólida, líquida ou gasosa? (Se os primitivos tivessem sido forçados a descobrir como produzir água)

Se de nuvens luminosas chovessem milhares de sóis, ficando a luz dependendo das condições climatéricas, das estações? (Se houvesse um ciclo da luz)


)Post inspirado por isto(

Mais olhos que barriga

O cinema contemporâneo resolve o problema dos custos e incómodos logísticos associados à filmagem de multidões através da substituição dos corpos humanos necessários a essas imagens por miragens digitais.

Procedimento correcto do ponto de vista da economia. Mas já coloco as minhas reservas quanto à bondade ética da estratégia. Custa-me compreender a ligeireza do realizador que é capaz de encenar um outro ser humano reduzindo-o a um efeito especial. Mais do que a demissão, espanta-me a indiferença perante a dignidade com que (suponho) uma câmara deveria tratar qualquer indivíduo (mesmo que ele seja irrelevante para a dramaturgia proposta). Questão de valores, claro está.

(O próprio gosto de filmar grandes multidões talvez não seja indício de uma estética fascizante, mas pelo menos sugere uma megalomania com eventuais contornos psiquiátricos. Em inglês, para designar um figurante utiliza-se a palavra extra.)

De qualquer modo, mesmo do ponto de vista estético a atitude nem sempre tem grande lógica. Que vejamos Jessica Rabbit feita desenho-animado com ambição antropomórfica, isso é legitimado pela estética de um filme que (goste-se dele ou não) é formalmente coerente. Ora, o uso das novas tecnologias (fascinante em abstracto) nem sempre é acompanhado por um pensamento teórico (que não precisa de ser verbalizado, nem sequer particularmente consciente) que integre essas tecnologias no mecanismo de sentido de cada filme.

Assim, o que vemos são homens e mulheres substituídos pelo produto das máquinas que eles próprios criaram. Nada de muito grave. Mas é assim que os cineastas se vão definindo.

O artista de plástico 2

Peça: Fogo Morse


Processo:
1. Como base, use um papel denso e amarelado.
2. Pegue num conjunto de fósforos. Incendeie alguns. Separe todas as cabeças (as que estão queimadas e as que não o estão) dos seus palitos. Com o material assim encontrado (- e .), escreva sobre o papel, em código morse, a expressão "Pintura moral".
3. Cole a frase assim achada sobre o suporte.
4. Exponha a obra, devidamente emoldurada.

a. Use cabeças queimadas ou não queimadas conforme isso lhe parecer mais apropriado para cada letra a ser representada. Crie a sua interpretação da peça através dessa estratégia.
b. Use apenas palitos por queimar.

segunda-feira, abril 16, 2007

Tecnologia de ponta

O poeta não deve dizer o mel. Deve dizer o mel de Suleimaniya.

A poesia é uma arma de precisão. E por isso aquele que a pratica deve nomear os seres na sua irredutível individualidade, na sua ligação a um contexto concreto, a uma narrativa concreta, a uma mitologia inconfundível. A vida nunca é vaga.

O poeta nem deve recear que assim a sua obra se torne densa e provocadora como uma selva luxuriante. O seu melhor leitor será aquele que no seu texto descobre um continente muito antigo, mas inexplorado. Leitor que se tenta tornar cientista de um mistério. Uma mosca no mel.

O poeta deve resistir aos colonizadores, aos missionários, aos arroteadores.

domingo, abril 15, 2007

Partilha 11

azure pearls

os teus olhos são dois agératos-do-méxico
a secar dentro dos ventres
de dois escaraVelhos

carregam seu imenso destino dioscuro
ora na posse do visconde de noailles
ora na do barão nicolas de gunzburg

estrabismo de a césar dar o que é de césar
quando ser nobre é partir nozes
directamente com a mão


(Excerto do poema "Catálogo da Cartier", pertencente ao meu livro inédito "nu abrir em nó". O livro é a minha contribuição para o universo da lírica amorosa)

Invulgares de Linneu 6


Gauro Whirling Butterfly

O INACTUAL 14

"O FIM" (1992) e "VIDA" (1993) - Artavazd Pelechian


O FIM
A morte é definível através de uma pintura metafísica. Pelechian sabe-o, e ao longo da viagem simbólica desta sua curta-metragem documental, filma sempre com base na mesma premissa plástica: o primeiro plano da imagem é ocupado pelo negro desfocado, o fundo pela luz nítida.

É assim que o autor filma as pessoas (a preto e a branco). A sua vida (evocada pelo movimento descuidado que o comboio provoca na câmara) caracteriza-se pelo sentido de comunidade (idades, sexos, classes, raças, religiões). Cada indivíduo só é visível através da sua referência a outros indivíduos - que perfazem o seu enquadramento imprevisível e incómodo.

É assim também que ele filma as paisagens. As árvores negras, demasiado próximas do comboio em movimento, são desfocadas até se tornarem grossas e irrazoáveis pinceladas. Quando o fundo é o mar com sol poente, a intensidade plástica é tal que supera a abstracção da pintura filmada de Stan Brakhage.

Ora, a uma dada altura, o comboio entra num túnel. E aí, o movimento altera-se por completo. O travelling faz-se para a frente. O negro invade a visão. Mas vão surgindo pequenos focos luminosos que vêm do fundo do plano. Até que uma dessas luzes parece não avançar. E vai crescendo muito lentamente até, de repente, ocupar a totalidade da imagem. É a luz ao fundo do túnel.

Ou melhor dizendo, é a definição da morte: quando a luz abandona o fundo e ocupa o primeiro plano em plenitude. Tudo se torna conteúdo. Entendemos com nitidez.


VIDA
O nascimento é indefinível. E por isso, Pelechian recorre a uma pintura lírica. O seu registo de um parto é feito tão-somente de exaltação (a cor, o canto, a luz intermitente e ofuscante).

Os seus grandes-planos obsessivos do rosto da mulher a dar à luz são pintados por ténues transparências azuladas que se insinuam, frias, entre a câmara e corpo. Quando finalmente vemos o recém-nascido, o autor regista-o em contra-picado contra uma miríade de luzes pouco focadas. Parece um bebé sob um céu estrelado: e são dos mais belos planos da História do Cinema.

Dicionário 8

Os lógicos dizem que, numa língua ideal, cada nome se refere apenas a um objecto, e cada objecto tem um único nome que o designa.

Ora, desde Babel que cada coisa é nomeada de maneiras diferentes pelas várias línguas que existem. A essência de um objecto é encardida pela musicalidade do seu verbo, pela cultura que o acolhe, pelo quotidiano que o usa.

Mas como isto de Babel é uma gangrena imparável, dentro de cada língua passou a haver vários nomes para designar cada ser (e aí se acrescenta o afecto linguístico dos falantes, as suas preferências caprichosas). E mais: certas palavras têm o descaramento de viver da polissemia, parasitam mais do que um sentido, chegam a referir entes antagónicos entre si.

Pois Babel é a lógica da vida. A vida mestiça, rafeira, onde tudo se confunde com tudo, tudo deriva em tudo, onde as botas não batem com as perdigotas, onde reina a ambiguidade, a estupefacção, o absurdo. Babel é psicologia e acaso, ilusão e desilusão.

O facto da poesia ser, no fundo, intraduzível, não é um defeito que ela possui. É o seu maior trunfo, a sua mais fiel ligação à vida real, é o seu garante de universalidade.

quinta-feira, abril 12, 2007

0$00

O gratuito é o inútil com pretensões de utilidade.

No escrínio 20

Poema "Hoje há língua" de Rui Pires Cabral:


Às vezes perdemos
a maior parte do tempo
a descrer e a dormir -
chama-nos ao quarto
uma voz nocturna
e desesperada.
Mas depois ainda temos
de passar pelos correios
e é preciso comprar óleo
para as rodas do Outono.
Nem sempre entendemos
que a brancura dos comércios
é contígua à mais extrema
escuridão. Em poças
de espesso xarope
jazem pequenas criaturas
sem pele nem movimento
na coluna vertebral.
Hoje
há língua. Sentados de costas
descobrem as canelas ossudas
os anónimos ao balcão:
pediram o prato da noite
e o silêncio senta-se
e janta com eles, é o mais
destemido comensal.

Na vida, somos tanto mais ricos quanto mais coisas inúteis possuímos. Defendo que a única postura ética perante tal facto se reduz à advertência de que a riqueza material não implica riqueza espiritual. Mas a verdade é que só existe tutela assumida sobre as coisas úteis (aquelas que uma sociedade deve garantir a cada um dos seus cidadãos), ficando a opulência hipocritamente relegada para o imaginário da futilidade.

Ora, a maior parte das actividades intelectuais pretende também cingir-se à utilidade (a razão na filosofia, a verosimilhança no romance, a verdade física na ciência). A poesia, porém, construiu todo o seu edifício com base na inutilidade das suas palavras. Algumas das suas obras-primas praticamente nem têm discurso - são meras dádivas inesgotáveis. Hoje acusa-se a metáfora de ser uma decoração grosseira (quando a metáfora é o pão nosso de cada dia do imaginário), os poetas advogam a regra da contenção (porventura um recalcamento cultural derivado do medo do ridículo). A poesia quer definir-se pelo rigor da sua utilidade. E essa é uma muito legítima provocação.

No entanto, o mundo espiritual funciona ao contrário do mundo físico. Este exige um conjunto de elementos para assegurar a sua sobrevivência, e está por definição impossibilitado de se esticar até ao infinito (agora sim, podemos dizer que a maior parte das riquezas se constroem à custa das pobrezas circundantes). A inteligência, pelo contrário, só consegue melhorar esse mundo físico quando o ultrapassa em dinâmica e expectativa. A inteligência só funciona a partir do limiar do seu próprio enriquecimento. Talvez o homem tenha assim nascido para ser moderado na posse das coisas, e milionário na partilha das ideias. É tudo uma questão de economia.

Quando um poeta põe em causa a vocação inútil da poesia (que, claro está, também degenerou em imensas futilidades e insensibilidades graves), talvez encontre um território de eleição na ironia com que aborda a diferença de urgência entre o poético e o real. É o caso deste excelente poema de Rui Pires Cabral.

O lúcido autor reconhece a contiguidade que existe entre o requinte do sofrimento (pejorativamente associado ao dormir) e a pragmática do quotidiano (a necessidade de passar pelos correios). Mas tudo isto é ambíguo: dormir não passa afinal da mais simples necessidade física, enquanto que o óleo não é comprado para as rodas do carro, mas para as do Outono (da melancolia do envelhecimento). A que se refere então a brancura dos comércios e a extrema escuridão? O poeta deixa que seja o leitor a decidir consoante a sua sensibilidade.

Assim, exige-se que a poesia atinja a plenitude de um empenhamento ético. A língua tem de ser, ao mesmo tempo, alimento corpóreo e digestão intelectual (aqui, a polissemia é metafísica). Indirectamente, o poeta acusa a poesia de não ter movimento na coluna vertebral (parece-me claro que aqui está uma... metáfora). E por isso, no seio do seu imaginário urbano, rarefacto, e dado à solidão, oferece-a ao silêncio. Não porque este traduza o inefável originário, mas porque ele é simplesmente destemido (a qualidade requerida para sobreviver).

Por inversão de toda a tradição, a poesia torna-se tanto maior quanto mais útil se assume. Não é esta a minha estratégia (o simples facto de eu afirmar isto já me valeu injustos dissabores), mas reconheço-lhe todo o seu rigor.

Invulgares de Linneu 5


Oenotera Lemon Sunset