domingo, maio 20, 2007

Segunda Parte, Capítulo XXIII

A uma dada altura, o destemido Dom Quixote entra sozinho na Cova de Montesinos, uma espécie de gruta funda e aparentemente impenetrável, que se havia tornado famosa na região da Mancha por causa das lendas criadas a partir do mistério do seu interior. Quando o cavaleiro regressa à superfície, conta aquilo que supostamente viu dentro da Cova (tudo sonhos, na medida em que ele adormecera durante o cumprimento desta perigosa aventura). A partir deste pressuposto, Cervantes extrai diversas consequências (de modo oblíquo, como sempre).


1. Quixote não considera que as suas visões tenham sido meros sonhos. E defende a veracidade do seu relato com base no facto de que essas visões se deram no interior de um espaço (mágico, aberto a todos os possíveis) como a Cova de Montesinos. Naquele lugar, ele não sonhou: viveu. Dito de outro modo: o lugar onde o corpo sonha confere maior ou menor evidência de realidade ao sonho. Isto faz lembrar, por exemplo, o conceito de nação, que nada mais é do que uma identidade imaginária (uma cultura) a que um território específico confere legitimidade. Basta pensar na retórica do Quinto Império, parcialmente construída a partir do esforço de expansão geográfica de Portugal.

2. A fábula que a Cova de Montesinos esconde (um conjunto de personagens encantados por causa de uma trágica história de amor) permite que Cervantes explique diversos elementos naturais do seu país inventando uma mitologia semelhante à que Ovídio desenvolveu nas suas "Metamorfoses". Assim, num registo encantatório, ele narra a génese das lagoas de Ruidera, do rio Guadiana, etc. Sobre este rio, aliás, o que Cervantes tenta explicar é a inconstância do seu leito (que de vez em quando se submerge nas entranhas da terra), e acima de tudo a sua melancolia. O autor inventa um mito para explicar uma mera impressão: é a modernidade a minar o anacronismo do procedimento.

3. Já quando havia encontrado a mulher que Sancho lhe indicara como sendo a sua sonhada e amada Dulcineia, Dom Quixote a havia achado amargamente feia e grosseira (afinal, era uma mulher do povo escolhido ao acaso). E agora, quando na Cova de Montesinos ele vê a dama que originou toda a rocambolesca história romântica (Belerma), igualmente encontra um corpo sem encanto nenhum. De certo modo, mesmo quando o ser que amamos é fisicamente muito atraente, essa beleza é sempre humilhada pela sublimação da dedicação passional. O amor é uma forma de calúnia que nivela toda a realidade por baixo, assumindo-se ele mesmo como um poder autónomo, tirano, e com tendência para a ubiquidade.

4. O sonho de Dom Quixote é não ter fome sequer em pensamento. O Cavaleiro da Triste Figura não quer sofrer a vida concreta: por isso este romance é uma comédia. Então, não há razão nenhuma para a famigerada eleição trans-histórica que ora valoriza o papel do cavaleiro, ora o do escudeiro. O homem equilibrado talvez seja aquele que em si mesmo consegue gerir a sua porção de Quixote e a sua porção de Sancho (o homem que sabe negociar com o mundo exterior a si).

5. Sancho usa o provérbio "dize-me com quem andas, dir-te-ei quem és", a propósito das amizades contraídas por Quixote no seu sonho da Cova de Montesinos. E de facto, quem constrói o seu caminho na companhia de fantasmas, corre o risco de se tornar, ele mesmo, fantasma.

6. No mundo feérico dentro da Cova, o personagem Montesinos conta ao adormecido Durandarte toda a história do seu trágico amor e das suas consequências. Mas Durandarte padece de um sono eterno e encantado, e por isso não ouve (ou pelo menos não consegue descodificar) o que o amigo lhe conta inúmeras vezes, sem cessar. Montesinos fala para um ser em estado de coma, à espera de que ele desperte (em sentido literal e metafórico). Não sei até que ponto Cervantes pensou nisto, mas o episódio parece ser uma dolorosa parábola sobre a função da literatura. Pois que outra coisa é a escrita, senão a repetição, século após século, milénio após milénio, daquilo que que é essencial à Humanidade, mas que esta, como está encantada, não ouve (nem ouvirá nunca)? Que maior dignidade pode ter um romance?

(Este conjunto de apontamentos, que no blogue eu vou reunindo, são a base de um ensaio que tentarei escrever futuramente.)

quarta-feira, maio 16, 2007

Se poucas vezes vai à fonte

Quando um conceito passa a ser entendido de forma rígida, aí começa a História do seu esvaziamento.

Invulgares de Linneu 10


Pássaro-governo


(Voz: boo-boo-bu-bu-bu-bu, notas ocas e borbulhantes como água a verter de uma garrafa)
Informação do Guia de Aves da Assírio e Alvim

No escrínio 23

Poema de Ibn al-A'lam ash-Shantamarî, traduzido por Adalberto Alves:


este é o rio e estes os seus bosques:
corpo,
cuja a alma é a brisa dos jardins.
rio,
se a brisa dorme à superfície.
cota de malha,
se os ventos sobre ele se perturbam.


No belo poema deste autor luso-árabe do século XII, nascido em Faro, por que razão a alma do corpo fluvial é a brisa dos jardins, e não a dos bosques? Afinal, foram estes os nomeados no primeiro verso (que apresenta os elementos sobre os quais o poema vai discorrer). E um bosque não é, de facto, um jardim. Poderá o escritor ser tão criterioso na sua celebração que, para fazer uma metáfora da alma, não recorre à brisa de um lugar presente (como qualquer outro o faria), mas àquela que (não) chega de um lugar apenas sonhado?

Na verdade, o poeta maneja a metáfora como se esta fosse um recurso deveras metafísico, despido de toda e qualquer intenção ornamental. Repara-se: o rio só conserva a sua verdade ontológica se a alma nele repousar em quietude. Mas quando a alma se acelera e turba, o devir transforma o corpo inicial e faz dele uma cota de malha. Será isso mais, ou menos?

O coleccionador 7

Fragmento de um poema de Abû-l-Walîd al-Bâjî, traduzido por Adalberto Alves:


Alá abençoe aquelas duas tumbas
íntima parte do meu triste coração.
quando longe de meus olhos elas estão
a ausência as junta em minha mente
na constância da dor sempre presente.


As tumbas que o texto refere, pertenciam aos filhos que perdeu este poeta do século XI, nascido em Beja. A formulação do excerto é de tal modo sofisticada, que qualquer autor contemporâneo a poderia ter escrito.

Mas se eu colecciono esta pequena peça, é tão-somente porque ela me lembrou um momento da minha infância no qual tive de me submeter a um tratamento de ortóptica, tratamento esse que se resumia à colocação dos meus olhos no duplo visor de uma máquina, e no posterior esforço de junção de duas imagens separadas (uma por cada vista) numa imagem única e comum. Por exemplo, se um olho via uma baliza, e o outro via uma bola, eu deveria conseguir meter um golo por uma técnica de visão que não andava longe do visionarismo surrealista. Presumo, contudo, que o tratamento apenas tenha servido para prevenir o estrabismo.

Também este poeta luso-árabe, na sua máquina de dor, consegue juntar dois grupos de imagens. Por um lado, junta os túmulos físicos (dos quais está longe) aos túmulos guardados na memória. Mas junta também os dois filhos num mesmo sofrimento comum.

A máquina de golear imagens do meu passado faz-me assim supor que a tecnologia pode ser nada mais do que a hermenêutica da poesia. Por isso a ficção científica nos comove.

Casting 10

Paula Guedes é uma actriz que pretende participar.

Participar no teatro, no cinema, na televisão, na vida de actriz, sobretudo na mitologia de actriz. Todo o seu jogo se pauta por essa disponibilidade que traduz bem mais entusiasmo do que ambição.

Nasceu para interpretar personagens enérgicas (ou a energia em si mesma). Quando representa, de tal forma está, que nem precisa de ser. Ou seja, representa de facto, mas representa algo que não precisa de definição.

Poderá ser irmã numa comédia (ou mãe numa tragédia).

terça-feira, maio 15, 2007

Partilha 13

epopeia


arte
o insecto
assunto adequado
a uma praga de haikus


navegação
a aranha soletra
todo o seu mundo na teia
www


teoria
o mel
talvez o quadrado
do voo da abelha


anúncio
pequena larva procura
tempo para metamor-
fose ou algo mais


política
a revolução
carpintaria do novo
bicho-do-veludo


(Este ciclo de cinco poemas não é enquadrável em nenhum livro que eu esteja a escrever. É aquilo a que pretensiosamente se chama um disperso. Deixo-o aqui virtualmente partilhado.)

Discussão

No último programa Câmara Clara (domingo, 13 de Maio), o arquitecto Nuno Portas assumiu, com a grandeza que sempre é necessária a este tipo de humildade, que no passado se tinha oposto à construção da Ponte 25 de Abril, porque esta lhe parecia uma obra megalómana, pouco estudada, etc. E enfim, Lisboa já nem sequer é hoje pensável sem a dita ponte.

O ponto de vista é interessante. Mas é preciso partilhar dois alertas. Por um lado, há que tomar em consideração o facto de que o momento presente acaba sempre por tomar o aspecto de uma evidência inquestionável. Afinal, vivemos milénios sem telemóvel, e quem é hoje capaz de sobreviver sem um desses irritantes bichos? O que eu quero dizer é que, eventualmente, poderia haver uma outra ponte, colocada num outro lugar (ou mais do que uma ponte, sei lá), que até servisse muito melhor a capital do que esta. É claro que a História não se faz de "ses", mas o Pensamento só sobrevive à custa de um constante espírito de crítica. Talvez nenhum arquitecto devesse aceitar a paisagem urbana sua contemporânea como uma inevitabilidade. E sei que Nuno Portas não o faz.

Por outro lado, há obras que hoje já sabemos terem sido fruto de uma megalomania improdutiva. O que fazer dos famosos dez estádios de futebol do Euro?

Afinação

Na sua crónica do PÚBLICO de hoje (15 de Maio), Eduardo Prado Coelho diz que, no pensamento pós-moderno sobre a criação artística, o conceito de energia se sobrepôs (sem o afectar propriamente) ao conceito de beleza.

A observação é pertinente. Mas eu talvez usasse outras palavras. Pois se há conceitos que tivemos de pôr radicalmente em causa (por exemplo, a legitimidade da escravatura), parece-me que há outros que não precisam de ser superados, mas apenas afinados. De certo modo, a História do Pensamento talvez revelasse mais grandeza se os filósofos não tentassem tanto competir entre si (embora haja momentos em que é preciso tomar posições claramente iconoclastas), mas actualizar aqueles conceitos que deram frutos positivos no Passado (para além de propor novos conceitos, é claro). Actualização essa que passa por uma nova gestão do conceito à luz do que a experiência presente nos ensina (e que nada tem a ver com protecção de património, mas com a defesa da identidade e legitimidade da nossa sobrevivência enquanto Humanidade).

Afinal, o Fellini (tão atacado pelos críticos da contemporaneidade...) dizia que belo era tudo aquilo que comovia (note-se o movimento que está inserido nesta palavra), e não o que obedecia a regras de harmonia, doçura, etc. E haverá alguma coisa mais transbordante de energia do que uma pintura de Dürer?

Talvez se pudesse então dizer que uma obra do passado que ainda continua a ser bela é aquela que nos acomete com a sua energia. E que uma obra do presente, quando válida, pode ser considerada (se assim o quisermos) bela de acordo com o progressivo e imparável alargamento das fronteiras desse conceito (o que é, afinal, a mais justa definição de vanguarda).

domingo, maio 13, 2007

No plateau 10

Na sua versão cinematográfica da peça "O ginjal", de A. Tchékhov, Jean-Look Spiell Bergman resolveu escolher os seus actores de uma maneira perigosa. Não baseou o casting na qualidade criativa dos intérpretes, nem na adequação dos actores às personagens, muito menos na sua anterior experiência na representação do dramaturgo russo. A escolha foi feita de acordo com os fantasmas afectivos que os actores provocavam no próprio Jean-Look. Ou seja, o casting resultou do conluio entre aquilo que o realizador sentia a propósito de cada personagem e os sentimentos concretos de Jean-Look a propósito de cada um dos seus intérpretes. Afinal, o filme era tão seu quanto de Tchékhov.

Assim, a distribuição do elenco foi a seguinte:


LIUBOV A. RANÉVSKAIA - a actriz-fétiche do realizador
ÁNIA - uma jovem actriz que o realizador detestava
VÁRIA - uma actriz da própria família do realizador
LEONID A. GÁEV - um actor esquecido e desempregado
ERMOLAI A. LOPÁKHIN - um actor que era o melhor amigo do realizador
PIOTR S. TROFÍMOV - um actor que provocava desejo erótico no realizador
BORIS B. SIMEÓNOV-PÍCHIK - um actor não-profissional
CHARLOTTA IVÁNOVNA - uma actriz que fazia chorar o realizador
SEMION P. EPIKHÓDOV - uma vedeta do momento
DUNIACHA - uma actriz na qual o realizador se pudesse rever socialmente
FIRSS - um actor famoso que constrangia o realizador
IACHA - um estreante promissor

O filme nunca se chegou a fazer.


(Fotografia de uma produção da Universidade do Colorado em Boulder)

Opus 1

1. A estética da harmonia tonal deveria ser uma pequeníssima ilha da História da Música. Um momento. Magnífico: mas um momento. Bach deveria ser ouvido por uma seita de freaks, Mozart deveria estar gravado em raridades de vinil, a funesta Callas precisaria de protecção policial, o Horowitz sairia dos concertos directamente para o hospício, o oboé estaria protegido como uma jóia ou relíquia, a leitura das partituras dependeria de inúmeras pedras de roseta, e os maestros provocariam tanta desconfiança quanto os médiuns e os endireitas.

A música dominante deveria ser toda concreta, deveria ser a variável comovente do ruído vital, baseada na imprecisão do ritmo do corpo, na ausência de beleza da voz comum, no desprezo pela motricidade fina, no improviso, no amadorismo infantil dos mais rudes instrumentos. Não um palácio para burro contemplar, mas a expressão urgente de cantar em conjunto a existência.


2. O meu cânone musical: "Frère Jaques, frère Jacques. Dormez vous? Dormez vous?"

O meu Titi

Nascido um ano e meio antes do 25 de Abril, tendo vivido toda a minha vida pensante em plena Democracia, e tendo sido sempre alérgico aos ácaros e à coisa política, a verdade é que nunca consegui adoptar grandes romantismos ideológicos. E como quase toda a gente da minha geração, é com um sorriso complacente que encaro a estética da revolução ou a retórica marxista.

No entanto, perante certos avatares da mesquinhez humana, sinto-me por vezes forçado a tornar-me uma espécie de Che Sarcasmo, ou seja, sinto um leve acesso de intervenção cívica à-minha-maneira.

Ontem (sábado, 12 de Maio), a TVI mostrou uma reportagem sobre cidadãos portugueses com empregos de sucesso em Angola. Não vale a pena estar com rodeios: era uma reportagem profundamente colonialista. Basicamente, mostrava-se a vida de alguns lusos que foram para África ganhar três, quatro, cinco vezes mais dinheiro do que no país natal, contratantes de mão-de-obra local a ganhar menos do que o salário mínimo português, e ainda por cima recebidos de braços abertos pelos angolanos por causa da sua superior experiência laboral.

É claro que isto é o nosso provincianismo a falar. Portugal tem tantos problemas dentro de si, que já só consegue ser imperialista em reportagens da TVI (a rima foi propositada).

Agora, não sei se o repórter era um falso neutral, ou se afinal tinha um sentido de humor refinado. Pois uma das portuguesas entrevistadas (literalmente uma cidadã de classe média em terra lusa, promovida a capitalista na sua coloniazinha) andou a mostrar para a câmara a sua criadagem como quem mostra vasos da dinastia Ming (não digo animais de estimação, para não evocar lastimosas sentenças de tribunal). Mostrou-nos, por exemplo, a sua Julinha (uma angolana de ar indecifrável, capaz de, entre outros requintes, cortar a fruta tropical de acordo com os caprichos de sobremesa da sua patroa). Mas quando chegou o momento de nos mostrar o seu Titi (o chauffer privativo), não aguentei mais e tive um monumental ataque de riso (foi a minha manifestação de cidadania).

Portugal será isto? Um desgraçado todo inchado que deseja ter o seu Titi?

Confissão 21



Ao ler um artigo de Luís Miguel Oliveira sobre Nanni Moretti, no Ípsilon do passado dia 11, descobri algo de desagradável sobre mim. Uma indesejada revelação (para isso servem os filmes). Pois, como as personagens das primeiras obras do realizador italiano, sou aquilo a que o crítico chamou de puritano sentimental. Ou seja, uma pessoa insuportável que não tolera nenhuma espécie de hipocrisia nas relações afectivas. (E critico, barafusto, enojo-me, distancio-me, isolo-me.) Até parece bonitinho no papel, mas francamente não me augura muito bom futuro.


(Fotografia retirada de www.nemmelheim.de/angus.htm)

Uma cambada de coveiros

O Pedro Mexia quer enterrar o ponto de exclamação, o Vasco Pulido Valente quer enterrar a França (até porque precisa do espaço para enterrar todo o resto), o Jorge Silva Melo quer enterrar (realisticamente) a Agustina, a Filomena Mónica aponta armas para o Boaventura Sousa Santos, o Miguel Sousa Tavares já comprou a campa do Alberto João Jardim, o Gastão Cruz comete Regiocídio quase todos os dias, o António-Pedro Vasconcelos quer enterrar o Manoel de Oliveira (coisa que, claro está, se afigura francamente difícil), o António Lobo Antunes vai fazer uma esperinha ao sr. Nobel, o Eduardo Pitta tem a mira apontada para os controleiros do inefável, o João César das Neves é mais simples: quer matar a vida toda, o Jorge Mourinha é pago para não ter paciência para o cinema de autor, o planeta inteiro quer tratar da saúde de George W. Bush, (já agora, eu também quero enterrar o cinema de Hollywood). E etc., e etc.

O conspirador de comentários 6



Quando a clareza começa a surgir, traz sempre um gume consigo.

(Fotografia de Susana Neves)

quinta-feira, maio 10, 2007

Livre por ter cão, livre por não ter

Tantas vantagens tem a clareza quanto a ambiguidade.

A primeira exige virtuosismo de decifração (um texto claro só se torna óbvio quando o seu leitor o consegue articular de forma rigorosa).

Quanto à ambiguidade, ela tem toda a fragilidade das coisas requintadas. O seu fulgor depende sempre de uma arte da leitura. O receptor do texto tem de o ler com a mesma generosidade de espírito com que ele foi inicialmente concebido.

De qualquer modo, nada é pior do que intuir grandes metáforas num texto claro, ou dar uma interpretação unívoca de um texto ambíguo.

terça-feira, maio 08, 2007

No estúdio

A prática da fotografia tem em si latente uma componente de caça a que nem o fotógrafo nem o fotografado conseguem escapar. Tudo aponta para isso: a necessidade de enquadrar o objecto com rigor, a precisão de timing que o disparo exige, a irreversibilidade dos seus efeitos, o congelamento do movimento, a perda da alma do indivíduo capturado (ainda que em registo de sobre-metáfora natural), a exposição do troféu, o uso da imagem para serviços fúnebres, álbuns de memórias ou serviços de evocação.

Ninguém consegue mudar a essência de nada. Por exemplo, quando um cineasta faz um filme de um plano só, ele não evita a montagem. Simplesmente logra reduzi-la até um valor zero (e será mesmo zero? ou antes um?).

Mas talvez haja algum fotógrafo que, desesperado por reduzir a maldição predadora da sua actividade criativa, tenha assumido o compromisso de só capturar imagens com uma velocidade de obturação tão lenta que a caça acabe quase por ser feita por um comum acordo formal e performativo com a presa (mais do que um mero acordo jurídico, portanto). Um fotógrafo obcecado por criar imagens sem dor. Nem mesmo dor simbólica.

Diz-nos a experiência e o pensamento que, em circunstâncias excepcionais, o tempo consegue dissolver a agressividade. E então podemos fotografar um rosto que nos comove, tentando não o destruir metafisicamente.

Encher a fotografia com a imperfeição do cinema. Ou talvez colocar subtis fumos de incenso a pintar, com base no acaso, a imagem. (Gotículas)...... E caligrafar com aparas de luz.

Outros limbos

A Igreja C. Apostólica Romana acabou de deslimbar mais um dos seus lugares-comuns. E é ver como agora todos dizem que isso de limbo era treta sem fundamento, pois há céu e céu, há ir e não ficar. E o melhor de Deus até são as crianças.

Já que a instituição vai acabar por aceitar o uso do preservativo, o divórcio, a homossexualidade, o fim do celibato dos padres, a ordenação das mulheres, ou a interrupção voluntária da gravidez até às x semanas (daqui a centenas de anos, mas vai acabar por ceder - mais sida menos suicídio, menos vocação mais proscrição), e já que nessa altura virão todos pedir desculpa e dizer que a culpa afinal foi de uns santos filósofos e de uns exegetas exagerados, seria bom que abreviassem o assunto, e aceitassem tudo bem rapidinho.

É que o limbo é estar vivo e ser subtilmente empurrado para o inferno.

segunda-feira, maio 07, 2007

O artista de plástico 5

Peça: A dependência [Colar & Fita-Colar]


Processo:
COLAR
1. Estenda uma frágil linha de lã, da cor que mais lhe aprouver, sobre um papel ou tecido de cor não exactamente igual mas bastante parecida. A linha tem de ser posicionada com a mesma forma de um fio de colar.
2. Para fixar a linha sobre o suporte, recorra a pequenos fragmentos de uma cola espessa, quente e forte, posicionados ao longo da linha com intervalos exactamente iguais (como se fossem as pérolas do colar). Trate a cola como um material escultórico. Enquanto ela está quente e moldável tente trabalhá-la como se estivesse a moldar vidro, encontrando as formas mais sugestivas que conseguir. Dê largas ao seu virtuosismo e à sua imaginação: os pedaços de cola esculpida são os verdadeiros protagonistas da peça.

FITA-COLAR
1.a) Estenda uma frágil linha de lã, de uma cor complementar da linha da peça anterior, sobre um papel ou tecido de cor não exactamente igual mas bastante parecida. A linha tem de ser posicionada com a mesma forma de um fio de colar.
2.a) Para fixar a linha sobre o suporte, recorra a pequenos fragmentos de fita-cola transparente, posicionados ao longo da linha com intervalos exactamente iguais.
3.a) Na parte do suporte que está por baixo da linha, coloque pequenas pérolas de bijutaria seguras sob os pedaços de fita-cola.

a. Exponha as duas peças em conjunto.

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