domingo, março 11, 2007

A hora da verdade

"O sonho criador", de Maria Zambrano, é um livro fulgurante. Basicamente, a autora teoriza em torno daqueles momentos da vigília que são formalmente análogos ao sonho (momentos de contacto com a atemporalidade do Ser), e que por isso mesmo permitem uma espécie de despertar metafísico (um salto da consciência que é indissociável da palavra). De despertar em despertar, o homem joga então a sua liberdade de modo a cumprir, ou não, o argumento da sua vida (aquilo para que ela tende como se fosse um destino).

Zambrano defende que cada despertar é um momento de transcendência. Mas a mim quer-me parecer que a grande figura simbólica por trás desta conceptualização é nada menos do que a morte. Ou seja, aquele último despertar em que descobrimos que a vida afinal era sonho, ou pelo contrário, em que entramos no sonho definitivo (a autora fala muito de nascer).

Como cada livro tem também um destino, apetece-me pensar que, cada um dos leitores de "O sonho criador", no momento derradeiro da sua vida, descobrirá por fim o sentido daquilo que leu. Pois se houver nem que seja um resquício de Além, o leitor saberá que leu um livro de filosofia. Mas se nada houver, e o fim for mesmo o fim, então o leitor não saberá que leu um livro de poesia.

De resto, é o que sempre acontece com a filosofia e com a poesia.

Crítica da crítica

1. Um caso de fé cega, esse, o dos críticos que acreditam em blockbusters com alma. Pede-se então coerência: o desprezo assumido por tais corpos fílmicos.

2. Dizem os críticos que, de um filme de entretenimento, não vem mal ao mundo. Ora bolas, tanto neurónio gasto, tanto suor, tantas horas de trabalho, dinheiro, conflitos... e depois disso tudo, não resulta nem um bocadinho de Mal? Que tédio.

Tentações

Este blog esteve para começar a escrever os nomes dos escritores a que se vai referindo, precedidos pela sua situação exacta perante os prémios literários mais relevantes. Assim, Saramago seria sempre referido como nobel award winner, enquanto Lobo Antunes se ficaria por um modesto nobel award nominee.

Mas este blogger, que é super-cota, e tem ego-chato, não o deixou.

quinta-feira, março 08, 2007

No plateau 8



Jean-Look Spiell Bergman queria que a câmara não tivesse apenas a função de filmar.

Em colaboração com Mel Luckàs, começou a acoplar engenhocas simples a cada um dos seus aparelhos. Poderia ser uma bisnaga subtilíssima, uma chaminé, uma ventoinha de trazer por casa. Para além de filmar, a câmara passaria a também humedecer o filmado, passaria a fazer sinais de fumo (o realizador deve ser o indígena do seu filme), a agitar os materiais leves. Tomaria para si o objectivo de intervir na vida.

Agora, Jean-Look queria filmar a neve a derreter. E por isso tinha montado um aquecedor potente na sua câmara digital. O filme era apenas isso: a câmara a captar um terreno nevado, o aquecedor a apressar loucamente o trabalho do tempo, e as palavras de um texto dramático de Segismundus Globovitch B., que dissertava sobre a possibilidade do ascetismo.

Era grande a excitação da equipa. Quanto tempo seria necessário para que o real acontecesse? O que pode uma câmara fazer ao estado químico do mundo?

Quando a neve derreteu (ao fim de várias horas), a frustração foi completa: sob o manto rigorosamente branco, estava escondido um tesouro antigo, esquecido, opulento.

(fotografia de Abbas Kiarostami)

Tomar partido

A transcendência é apenas a metade oculta da imanência.



Sublime ironia

Pois tudo o que é especificamente humano se perde à medida que vai ganhando a perfeição, que se cumpre e revela ao extinguir-se.

Maria Zambrano (tradução de Maria João Neves)

segunda-feira, março 05, 2007

No comment


(fotografia de Abbas Kiarostami)

No escrínio 17

Poema "Divisão de orações" de Gastão Cruz:

Creio afinal que era um prazer ouvi-las
como peixes no rio do poema
fora dele saltar e mergulhar

novamente no leito que fluía
ondulante e diverso, os ques principalmente
descobrir

que espécie de oração introduziam:
causais comparativas integrantes
relativas finais consecutivas

concessivas, num ponto da estrofe
começavam e por
vezes somente na seguinte

o seu sentido concluíam sendo
preciso persegui-lo, no fundo o que fazia
e faz, talvez em vão, a poesia; e tudo era

o jogo real dos dias
falar nadar correr olhar os corpos
o próprio e os alheios

na frescura do sol ou no calor da
casa, esse um tempo feliz
e belo se algum tempo pode sê-lo.


Gastão Cruz é um poeta contido, labora a emoção de modo oblíquo, calibrando a sua inclinação reflexiva com a omnipresença do corpo e de uma sensualidade em parte herdada das paisagens da sua infância algarvia. O seu último livro ("A moeda do tempo", 2006) contém textos que me parecem particularmente conseguidos, como "A forma do amor", "Saturno", "Coisas contemporâneas", "Rua da marinha" ou "Linha sobre a Ásia".

No caso do poema aqui partilhado, o autor relembra a idade de todos os porquês. Mas como já não está nessa idade, ainda que nela permaneça à distância da memória, é forçoso que a veja como a idade dos ques. Afinal, a sua vida adulta terá vagueado pelo espectro completo da experiência humana (que se pode decompor em momentos causais, comparativos, integrantes, etc.), mas só agora o trabalho de análise (dos poemas, da vida) une presente e passado numa noção de prazer. O que antes era interrogação adquiriu serenidade.

O rio flui. Mas o nosso devir existencial não é liquído, antes se fragmenta por instantes. Perseguir o sentido da vida confunde-se por isso com a técnica do enjambement, com a tentativa de unificar num sentido-fleuve aquilo que talvez nem sentido tenha.

Assim, o poeta termina celebrando a beleza da infância e da juventude. Falar nadar correr olhar os corpos: esse tempo era belo (se algum tempo pode sê-lo) porque tudo isso cabia num verso único.

Não falavam a nossa fala

No duplo CD "Paraísos perdidos" de Jordi Savall (com música do tempo de Cristóvão Colombo), a uma dada altura é recitado um poema azteca em língua nauhatl. O poema é interessante, mas o que mais me impressionou foi a estranha sonoridade dessa língua, praticamente reduzida a um crepitar de consoantes. Como se fosse uma fala pertencente a um naipe de percussão (e que estranhas as línguas actuais, todas tão violeta, oboé d'amor, trompa).

Transcrevo aqui o texto e faço uma tradução aproximativa a partir do inglês.

Cuix oc nelli nemohua oa in tlalticpac Yhui ohuaye?
An nochipa tlalticpac: zan achica ye nican.
Tel ca chalchihuitl no xamani
no teocuitlatl in tlapani
no quetzalli poztequi Ya hui ohuaya
an nochipa tlalticpac: zan achica ye nican.


Vivemos, de verdade, nesta Terra?
Não para sempre nesta Terra: apenas um pouco aqui.
Todas as coisas, mesmo o jade, quebram,
todas as coisas, mesmo o ouro, rompem,
mesmo a plumagem do quetzal se desvanece;
Não para sempre nesta Terra: apenas um pouco aqui.

Casting 9



Nick Nolte: um excelente actor de decomposição.

sábado, março 03, 2007

Galeria 21


Cesare Pavese

Partilha 10

“quando piove sul mare, ogni goccia è perduta”
Cesare Pavese


noite
um rebanho de formigas brancas labora
deixa palavras de limão sobre o papel
(dos poemas amados chove cinza)
de repente
o vaivém das imagens contamina a pele
um doce vento começa a folhear
(a desfolhar) ondulações
e enquanto o cavalinho da madrugada
fino e delicado como o arroz
(ou outro alfabeto vegetal)
acusa a acidez do mundo
um sol de cigarras em fogo esbanja Beleza
o mar rasga e esvai-se em silêncio
(em cirílico)


(este poema faz parte do meu livro inédito: "dar o dizer por Não dizer")

sexta-feira, março 02, 2007

O coleccionador 4

Num cinema de rigor obsessivo como o de Manoel de Oliveira, a mínima opção (ou desvio) formal implica sempre uma desmesura de expressividade. A própria parcimónia das evidências de encenação (as formas estão dilatadas no tempo) intensifica qualquer excepção à regra que o filme a si mesmo se impõe.

Por exemplo, numa cena de "Amor de perdição" em que Mariana leva uma carta a Teresa já enclausurada num convento, a princípio vemos a jovem camponesa através de um gradeamento. No entanto, quando Teresa por fim aparece na imagem, a câmara muda subitamente de posição, ficando então as grades a marcar o centro do plano, desse modo separando as duas mulheres no espaço. O movimento da câmara não foi pensado por meras razões pragmáticas ou decorativas. O que acontece é que o sentido da cena muda por completo. O cárcere deixa de ser visto como cárcere (o confronto especular revela às duas que, neste ponto da tragédia, elas já se encontram libertas pelo amor) e torna-se fronteira (Teresa e Mariana são rivais).

Na mesma obra, quando Simão parte de barco para o degredo, a sensação de balanço provocada pelas águas é filmada de tal maneira que temos consciência de que é a câmara, e não o barco, que se está a mover. As partidas, o ostinato da dor: tudo isso é assunto do espírito. Afinal, não é o mundo que roda em torno do homem, mas a alma que se entorna na roda do mundo.

Vontade de rir

1. E não é que o exterminador implacável descobre que o maior alien que o planeta já teve afinal morreu de morte não ressuscitada, e assim se põe a jeito de encenar um dos mais terríveis naufrágios de que há memória?
Para um ateu praticante como eu, a figura de Cristo será sempre relevante por questões que o sobrenatural desconhece. Mas isto de um comerciante de Hollywood querer ter uma palavra (a palavra) a dizer a propósito de religião, dá-me muita vontade de rir. Muita.

2. De qualquer modo, o assunto de Deus tem muito que se lhe diga. Ele há quem se converta por causa da música de Bach, por causa da profusão de estrelas do universo, da complexidade do corpo humano, da irredutível beleza de uma florinha, da generosidade. Eu tento ser mais modesto.
Por exemplo, que uma pessoa como Dick Cheney tenha uma filha que é lésbica assumida, é um facto de tal modo irónico que me faz intuir uma espécie de sentido secreto na vida. Chego a sentir uma vaga esperança. Afinal, um mundo com este sentido de humor tem de ter autor.

quinta-feira, março 01, 2007

Um problema de contexto

Capítulo XXXII, Primeira Parte ("Dom Quixote de la Mancha" de Cervantes)

O cura exalta um cavaleiro com carne e osso de existência, que detinha com um dedo uma roda de moinho a meio da sua fúria. Clara hipérbole (mesmo que tal fosse verdade, seria a vida a parecer irreal de tão excepcional).

Mas logo o estalajadeiro sobrepõe um cavaleiro desses dos livros, capaz de partir cinco gigantes pela cintura, de um só revés. Mas nesses livros, em todos, tudo é possível: a verosimilhança é a única excepção à regra da literatura.

Conclusão: na fantasia não existe a hipérbole.

Saving private & public Ryan

A História faz-se de factos e de pensamento sobre factos. Mas a passagem dos primeiros para os segundos exige idade, classe social, e feitio.

Assim, alguns seres apenas mudam quando confrontados com os FACTOS.

Que o Ryan realizador não enverede pelo cinema comercial (claro), nem pelo cinema dito independente (menos claro).

Que o Ryan actor, que pode ter o cinema a seus pés, não perca o seu pé singular (sobretudo nunca se encurrale entre o ser galã e o parecer autista).

(filme "Half Nelson" de Ryan Fleck)

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Tentações

Este blogue esteve tentado a fazer:

1. um index ao contrário com a listagem dos blogues onde a Llansol é mencionada (gente de bem, portanto)

2. uma colagem a partir dos 10 mandamentos divinos, dos 10 mandamentos de Gilbert & George e de 10 dos muitos mandamentos de Bruna Surfistinha.

Mas este blogger não o deixou.

O conspirador de títulos 2

A esta fotografia de Abbas Kiarostami, eu daria o seguinte título:

Quando a lenta marcha mostra o seu diâmetro

"Close-up"- imagem

O INACTUAL 12

"Close-up" - Abbas Kiarostami (1990)


A obra de Kiarostami é o resultado do surpreendente encontro dum pensamento de vanguarda (sempre consistente, dinâmico, e inquieto) com a paisagem humana e física específica do Irão. Não só essa especificidade contextual abriu o cinema a novas possibilidades de imagens (que o realizador recolhe à margem tanto do exotismo como do jornalismo), como o próprio contraste entre um ponto de vista libertário e uma sociedade repressiva nos coloca a nós, espectadores, renovadas questões éticas e políticas.

Em "Close-up", Kiarostami parece querer defender que um realizador de cinema é alguém que assume, de forma algo megalómana, um papel que, no fundo, não lhe pertence. E isto não se refere ao personagem do aldrabão que o filme documenta, mas a F. Murnau, Robert Bresson e Peter Bogdanovich. Aquilo que está prometido na mitologia do realizador é de tal modo amplo (tanto ao nível das liberdades estéticas, como do ponto de vista da notoriedade mundana), que ultrapassa sempre a realidade do indivíduo.

Entrando assim pela porta da parábola, posso defender que o aldrabão de "Close-up" pretendia, de facto, roubar a família rica. Roubar, pelo cinema, o seu estatuto social (a imagem desse estatuto e as suas consequências). Roubar, pela imagem da realidade, a realidade da ficção.

O verdadeiro realizador é, então, aquele que devolve, aos destinatários do seu cinema, aquilo que a sociedade lhes tirou (a capacidade de expressão do sofrimento, a dignidade, o horizonte de futuro: no fundo, a inadequação entre ficção e real). E é nessa reviravolta na ordem da generosidade que se distingue o mero arrivista do autor íntegro.

Kiarostami assume a sua responsabilidade pelo povo que filma (é o único realizador que consegue filmar as pessoas como se estas fossem crianças, sem que alguma vez fiquemos incomodados com qualquer paternalismo), e a sua câmara compromete-se a registar a Justiça em sentido lato (daí que a imagem que desta formamos dependa essencialmente da Montagem global).

O close-up no qual insiste ao longo da obra é uma afirmação ética: não precisa de ser inflacionado por uma aura de sonho (como, de um modo rigorosíssimo, acontece em "La passion de Jeanne d'Arc" de Dreyer, ou "Vivre sa vie" de Godard), porque Kiarostami não estabelece diferenças artificiais entre pensar sobre a vida, intervir na vida, e fazer cinema. Não precisa de transcendência.

Entre as árvores outonais e a alegria mozartiana das flores, o autor reinventa a candura e redescobre a esperança.

domingo, fevereiro 25, 2007

sábado, fevereiro 24, 2007

No escrínio 16

Poema de Paul Celan, traduzido por Y. K. Centeno


Com chave mutável

Com chave mutável
abres a casa em que
vagueia a neve daquele que foi silenciado.
Conforme o sangue que te brota
dos olhos, da boca ou dos ouvidos,
muda a tua chave.

Muda a tua chave, muda a palavra
que pode vaguear com os flocos.
Conforme o vento que te empurra
assim aumenta a neve em torno da palavra.



Na juventude, Celan manteve um relacionamento algo conflituoso com o judaísmo (não só devido à sua liberdade de espírito, mas também por causa da relação difícil com o pai). No entanto, os dramas colectivo e individual que resultaram do Holocausto, se não fizeram dele um religioso convicto, tornaram-no pelo menos consciente da sua pertença a um povo historicamente espezinhado para além de todo o suportável.

A primeira ideia que ressalta da leitura deste poema é o facto da neve daquele que foi silenciado estar condenada a vaguear. Mesmo sendo Celan um blasfemo dos símbolos (a sua leitura dos textos sagrados é a de um cabalista do desespero), parece claro que este silenciado que vagueia é o judeu sentenciado a errar pelo mundo. Mas não só errante: também esmagado até à mudez.

A escolha da palavra neve comporta toda a força ambígua do poema. Não me parece que a neve esteja aqui para sinalizar o branqueamento (ou pelo menos o embelezamento) da tragédia hebraica às mãos dos apaziguadores da História (embora a poesia de Celan destile uma raiva mais complexa contra o lirismo fácil do que qualquer tese de Adorno). Não, a neve entra no poema como solidificação do silêncio-dor, como memória que não desapareceu mas que já só queima por estar terrivelmente fria.

Para vivificar essa memória, é preciso que os outros estados químicos activem a palavra. O sangue líquido, o vento gasoso: eles garantem que a palavra se junte aos flocos no seu vaguear. Se tudo no poema é errante (o vento empurra o poeta; o seu sangue pode mesmo sair de diversos órgãos porque a dor não tem especialidade), também a palavra o tem de ser.

Nesta arte poética grave, Celan defende que o regresso a casa (regresso ao judaísmo onde vagueia neve, ou porque essa casa está desabitada e em ruínas, ou porque constitui um exterior dentro de um interior:uma liberdade, portanto) deve ser feito com uma chave mutável. Não é preciso entrar em imbricados simbolismos. Esta não é a chave-mestra que abre todas as portas. Não é a gazua do assaltante. É a chave da plena disponibilidade, do devir inquieto daquele que pretende dar voz ao silêncio. Pois se esse silêncio é agora de cristal, a palavra, ao fundir-se com ele, não só deixa o poeta regressar a casa, como deixa o judeu sair do seu silêncio (as portas têm dupla função). A palavra age.

Poema-neve: o seu único imperativo é a mudança constante do mundo.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Posts light

1. Não costumo ler banda desenhada. Mas é com muito agrado que me lembro daquele livro de Asterix no qual os bretões insistiam em parar a guerra às cinco da tarde para poderem beber o seu chá com um farrapo de leite. Presumo que esta passagem se tenha alojado na minha memória devido a esse delicioso achado do tradutor que é o farrapo de leite. Uma metáfora coalhada na essência de uma questão. Mas era mesmo isto que lá estava escrito?

2. Por vezes parece-me que poderia reduzir a minha dvdteca aos filmes de Sergei Paradjanov.

3. Miguel Bombarda: magníficas exposições de Gerardo Burmester e Álvaro Siza, mas também cafés, lojas de comida que se reivindica saudável, externatos infantis, garagens, o fantasma da Assírio & Alvim, anacrónicas mercearias... Como se pode querer viver num subúrbio?

Ponto de chegada

A liberdade pertence ao reino do que se tem para dar e que só verdadeiramente se tem quando se dá, como a palavra, como o próprio pensamento.

Maria Zambrano (tradução de Maria João Neves)

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

"Letters from Iwo Jima" - imagem

O ACTUAL 9

"Letters from Iwo Jima" - Clint Eastwood

A velhice pode trazer maior ousadia: Eastwood cada vez é mais grave quando se debruça sobre a morte. Definitivamente, interessa-lhe polemizar (como se fosse um pensador inquieto) o teorema onde perecimento e vontade se relacionam em desconforto. Este filme forma um díptico com "Million Dollar Baby": onde aqui éramos levados até uma eutanásia fundada no amor (e não num argumento), na ilha de Iwo Jima revela-se tudo aquilo que pode ser (ou não) válido num suicídio.

Como um clássico, Eastwood denuncia a fronteira ténue entre nobreza e estupidez. Como um moderno, critica todos os fundamentos da cultura (aqui, a mentalidade harakiri do Japão). Como humanista, resiste a todas as abstracções, e dá uma atenção sensata a cada personagem.

A masculinidade do tom (que já lhe permitiu encenar melodramas sentimentais) ajuda-o a filmar a epistolografia como um recurso de paz (como uma suspensão na brutalidade, uma conjunto de ilhas dentro da ilha).

Só lamento que, não acreditando eu nos espirros de sangue e nas explosões como formas de filmar o horror (tu n'as rien vu à Hiroxima), o realizador não tenha tido mais tempo para desenvolver as suas personagens: o padeiro que gostava de ler, ou esse extraordinário Barão Nishi de que Homero, por certo, não desdenharia. O filme, afinal, é delas...

"Das leben der anderen" - imagem

O ACTUAL 8

"Das leben der anderen" - Florian Henckel von Donnersmarck

Já há algum tempo que não tinha vontade de falar sobre nenhum filme em cartaz. Mas eis que chegam dois títulos políticos que não pretendem passar despercebidos.

O cinema alemão contemporâneo tem-se regulado por uma relativa mediania (longe vão as ambições de Lang ou Fassbinder). Mesmo assim, chegam-nos filmes com aquilo a que os críticos gostam de chamar bons valores de produção, filmes sobretudo interessados em dissecar a História recente do seu país (e que História...), não recuando perante as muitas feridas que por ali ainda estão abertas. E isto já é relevante.

"As vidas dos outros" é uma obra politicamente consensual (daí o recurso ao thriller), e talvez até um pouco ingénua (fiquei com a impressão de que o falhanço da Alemanha de leste não resultou de um problema político de fundo, mas da má vontade corrupta de meia dúzia de dirigentes). No entanto, à margem deste discurso, há pormenores curiosos que suscitam o interesse do espectador.

Em primeiro lugar, há uma diferença abismal entre o relato que o polícia arrependido faz da sua escuta, e aquele que resulta da pena do seu substituto: o primeiro constitui-se como uma narração limpa onde não podem ser detectadas falhas, o segundo é tão desajeitado que tudo revela das fragilidades ideológicas do sistema comunista. Só que este último relato é feito por quem só sabe da missa a metade. Pois quanto mais lúcido (e cínico) é o homem político, melhor consegue ele controlar a higiene daquilo que escreve, melhor ele evita os actos falhados, as denúncias espontâneas, as confissões não pretendidas. Ao contrário da ingenuidade do seu fundo, o filme mostra as costuras com que a forma se cose.

Mas o que me seduziu foi sobretudo o tema do anjo da guarda. Todas as vezes que a actriz se encontra com o seu polícia protector, este surge como uma aparição pré-religiosa. Primeiro, no café, ele aparece (literalmente) do nada para lhe mudar o rumo da vida. Em seguida, é o interrogador capaz de salvar essa vida. E por último, ressurge no momento da morte dela. Quando ele a questiona, no momento-chave da sua vida ética, as palavras adquirem uma densidade tal que praticamente ouvimos um sobretexto calando tudo o que ele diz: é, deveras, a língua do espírito.

O mais belo é deixado para o fim. Pois que mais pode um escritor do que dedicar um dos seus livros a um anjo? E um homem cuja vida está destruída, que melhor sentido pode essa vida adquirir do que aquele que resulta de ter um livro escrito especificamente para si?

Por entre os destroços do cenário político, algumas brechas se abrem para outras formas de ser homem em plenitude.

Não era bem isso

As correspondências simbólicas, mais emendas que pilares de Baudelaire. Ou o ginjal a partir do qual se abateu uma época afectiva. E aquele peixe que trouxe a velhice a Hemingway. Vanessa Redgrave passeando por Howard's End. E, claro, a febre de Vincent.

Agora, é forçoso que todos sejamos militantes da ecologia. Mas não era bem isso que estava prometido na nossa relação com a Natureza.

(já nem a cidadania é subtil)

Publicidade

Acabo de saber que o meu livro "Leilão de pensamentos", como é uma publicação da Câmara de Sintra, apenas estará à venda na Livraria Municipal, no Museu Ferreira de Castro, e noutros museus dessa cidade.
Talvez num momento posterior a entidade camarária recorra a uma distribuidora.

Linkonvite

Será hoje publicada a entrevista que dei ao blogue Miniscente.

Os meus dez caracteres de fama...

Fábulas

1. Já não há mais paciência para formigas e cigarras. O mundo não hesita entre workaholics e irresponsáveis.

Eu sou todo pelas abelhas:
trabalham - mas no mel e na cera
voam como todos sonhamos - mas defendem-se com um ferrão de pesadelo,
e ainda por cima fazem música concreta.


2. Li uma vez que a poesia é coisa que não merece que alguém abandone pai e mãe para a ela se dedicar.
Vi
o Ângelo de Sousa, numa entrevista, defender que ninguém deve cortar orelhas por causa da arte.

Ora, é precisamente porque a arte combate a auto-mutilação, que vale a pena abandonar quem dela nos quiser mutilar.

De qualquer modo, artista é quem não confunde paixão com sisudez.

(E)vidência

Este blogue já conhece o título que vai ser atribuído ao seu último post. Será qualquer coisa como:

Ao fim e ao cabo

Todavia, o conteúdo desse post mantém-se em aberto. Afinal, todos sabemos o que vamos escrever na lápide, mas não o que vamos meter ao certo dentro do caixão.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Blogsemana

Treslendo a blogosfera, sinto-me em casa aqui:

- Uma belíssima foto de Jaques Rivette

- A revelação da verdadeira Holanda

- Mozart explicado às criancinhas

- O ensaio como um poema sem eu?

- Uma antológica e uma metafísica

- Outra metafísica

- Como ler bem um gráfico

- Uma deliciosa definição

- É isso mesmo

Crónica do vinho

Depois de alguns anos de abstinência, ele achou que podia recomeçar a tomar um copo de vinho em cada refeição. O prazer, quando abre as suas urnas, não permite a abstenção. Entre a dor e o nada, o desejante não é eleito pela segunda hipótese.

Com o peixe, um copo de vinho branco. Com a carne, um copo de vinho nulo. Mas em ambos o casos, um carimbo abstracto sobre a independência da alma.

Nos assuntos doces, as fronteiras querem deixar de o ser. Cada mancha (cada copo de vinho) quer diluir-se na mancha mais próxima. Primeiro é o mero desejo de arquipélago, a constelação que se forma com as linhas da obsessão. Mas depois as manchas exigem mais manchas: os momentos felizes precisam de ser multiplicados. Tudo o que pode trazer alegria requer fermentação.

Assim seja: um copo de vinho também no intervalo de dez minutos na manhã de trabalho, um copo de vinho quando o filho telefona, um copo de vinho quando o sol passa para a janela do seu lado, um copo de vinho quando passa na rádio a música do Chico Buarque, quando a colega da secretária em frente mostra sem querer uma parte do corpo, quando só falta uma hora para o fim do trabalho, quando só faltam cinco minutos, quando descalça os sapatos ao chegar a casa, quando na televisão passa "Some came running", quando a companheira quer fazer amor.

Lentamente, as manchas perdem a condição insular, e tornam-se borrão (horizonte) único: mágoa. Que subtil diferença não existe entre prazer e perdição.

Mas ele era um homem civilizado: ele tomava copos de vinho, mas nunca os enchia.

Inquietude

Se uma sociedade qualquer tivesse tentado realmente materializar a República de Platão ou a Utopia de Tomás Moro, odiaríamos hoje aqueles dois intelectuais tanto quanto odiamos Marx. Se Jesus Cristo, aliás, tem tanto prestígio, é porque ninguém (e especificamente os próprios católicos) faz o que o senhor preconizou.

A maior conquista da Filosofia foi a perda da arrogância. Não tanto o abandono da razão, mas o seu enriquecendo humilde (incluindo a razão religiosa, poética, sensual, sofredora, etc.) O pensamento, de facto, ilumina. Rasga a obscuridade, mostra a verdade do contexto, insinua as hipóteses de percurso: é o candeeiro na noite da pólis. Mas nenhuma luz obriga a seguir esta ou aquela direcção. A liberdade do homem perante o pensamento, perante qualquer pensamento, é o principal garante de uma acção com validade ética.

O Pensamento brilha: é o seu único poder.

Cultura

No imaginário clássico, muitas vezes as mulheres eram autoras materiais de actos magnânimos, e outras tantas vezes autoras morais de actos abjectos. Nunca as mulheres sujavam as próprias mãos com sangue maldito: o seu corpo seria demasiado casto para tais excessos.

Medeia é uma das primeiras figuras femininas a ter cometido, ela mesma, um hediondo crime. E parece-me que isto é uma das primeiras manifestações de feminismo. Explicando: é claro que a importância do feminismo é a atribuição da paridade de direitos entre os dois sexos (direito de voto, igualdade perante o trabalho, as mesmas liberdades e garantias, etc.). No entanto, no âmbito das representações culturais, foi necessário que a mulher também pudesse cometer o crime. Que ela também assumisse o mal: de forma física, pragmática, imediata. Que ela se libertasse de todos os preconceitos.

Mesmo assim, Medeia era uma feiticeira...

Vitórias

Persegue-me uma terrível maldição que nem sequer foi transmitida de geração em geração: tudo aquilo em que eu aposto é sempre bafejado pelo azar. Ele é os Óscares, as eleições, os números do Totoloto. Se eu quero que alguma coisa triunfe naquilo em que pode triunfar, o seu insucesso está de antemão garantido: e não me venham com o encanto das causas perdidas. Chego a pensar que devo ter também apostado no amor (ou o provérbio está errado)...

No entanto, recentemente tive duas vitórias (por interpostos vencedores): não só ganhei (sem jackpot) no referendo da interrupção voluntária da gravidez, como acertei nos Piores Portugueses de Sempre (concurso organizado pelo Eixo do Mal e pelo Inimigo Público). Salazar e Fátima Felgueiras eram as minhas opções. E eis que o meu desejo foi atendido pela realidade.

Poderia pensar que a minha sorte está a mudar. Mas que todas estas vitórias se situem na área do aborto, isso não abona nada em meu favor.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

A criação

Ingénuo não é aquele que não pensa antes de actuar, mas aquele cujo acto não equivale a um pensamento.

S.O.S. Murakami

Já todos sabemos: não se pode ler tudo. Por isso, esperamos que aqueles que defendem um determinado autor nos dêem argumentos sedutores para começarmos a sua leitura. No caso de Murakami, contudo, a coisa está complicada. Eis o que eu ouço dizer sobre o senhor:

- Vende milhões
Não tenho nada contra isso, e espero que os milhões lhe encham a bolsa. No entanto, o sucesso de vendas apenas revela o acaso do funcionamento do mercado, a moda, o peso de uma máquina de promoção, etc. Em si mesmo, não é argumento.

- Pratica um surrealismo cool
O que é isto? Será piroseira onírica? O "E.T." em japonês? "Surrealismo" não rima com "cool" - esse movimento aspirava à inquietação permanente. Entendê-lo de outro modo equivale a insultá-lo.

- Costura alta cultura com cultura popular
Sim, mas qual é o autor pós-qualquer-coisa que não o faz?


Talvez alguém tenha a caridade de me transmitir a sua paixão com a integridade que ela lhe merece. Até lá, já se instalou em mim um preconceito. Com amigos destes...

Confissão 18


Não tenho nenhum apreço por imagens de espectaculares implosões de edifícios. Chego a perguntar-me se isso não foi inventado apenas para alimentar o kitsch telejornalístico. Notícia, para mim, é a inspirada e transpirada construção do sino em "Andrei Rubliov". Notícia também a erosão e a ruína. Mas desfazer em instantes o que demorou uma eternidade (de corpo e alma) a ser feito... Não, obrigado.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Fairy tail

Then, the little mermaid came out of the water closet. She was going to do the washing up where she belonged.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Táctica

O Cristianismo cometeu um erro de cálculo quando presumiu que poderia controlar a moral da espécie humana recorrendo aos mitos do Paraíso e do Inferno. Quem vive e sobrevive sabe bem quão relativas são as condições de júbilo e holocausto, e sabe também que muito depressa o Éden se pode tornar o seu oposto (sem Éden deixar de ser), e vice-versa.

A proposta deveria ter sido outra. Aos bem-aventurados pelos seus pensamentos e obras deveria ser oferecida a continuação da sua existência. Ponto. Já os pecadores por palavras, actos, e omissões, seriam ameaçados com a cessação absoluta do seu Ser, sem nenhuma hipótese de arrependimento ou regresso. Seriam reduzidos ao zero, para sempre esquecidos, sem alma, sem história, sem qualquer contribuição para o nada se perde tudo se transforma dos mundos aquém ou além.

Surgiria assim uma Ética absolutamente diferente. Trágica. Inacessível à superficialidade. Os suicidas seriam escolhidos a dedo. Os fieis, seleccionados às três pancadas.

Partilha 9

Recebi hoje os primeiros exemplares do meu livro "Leilão de pensamentos", editado pela Câmara de Sintra, onde recebi um prémio em 2005. Presumo que a sua venda se fará nas livrarias usuais. Este é o excerto que está transcrito na contracapa:

Toda a gente diz que os rios podem ser imaginados como espelhos. Toda a gente diz também que os Lugares Comuns albergam todos os seus cidadãos sob a bandeira da evidência. Mas do que ninguém se lembra, é do profundo drama que emoldura a condição especular do rio. Pois se, de Heraclito a Luiza Neto Jorge, ninguém duas vezes passa o mesmo rio, os rios correm e recorrem, afastam-se como a vida e o tempo, o certo é que os reflexos que neles se fixam não viajam com o seu espelho líquido, paradoxo doloroso em que a imagem se mantém apesar do nomadismo do seu suporte. Imagine-se um poema em que as palavras mudassem a cada segundo, as construções sintácticas variassem por cada capricho do acaso, os achados do poeta desaparecessem de uma forma tão célere quanto a da sua revelação, mas onde as imagens que ecoam o mundo fossem invariavelmente as mesmas... É isto um rio.

Era, portanto, uma vez um rio.


(Infelizmente, o título do primeiro conto foi grafado de maneira irritantemente incorrecta. O texto chama-se "As magnólias", mas o que por lá aparece como título é... "As agnólias" (???). Espero que o disparate não desincentive o potencial leitor)

terça-feira, fevereiro 13, 2007

No escrínio 15

Poema de Regina Guimarães:

Falavas de dor
e dormias.
Parecias
uma ferida vista de avião.
Onde vai poisar a imagem
se o chão foge do chão?


Talvez por estar a ler a Maria Zambrano, lembrei-me deste pequeno texto que faz parte do livro "Tutta", de Regina Guimarães. Pois também esta autora liga, por conjunção copulativa, duas acções só na aparência distintas: o dormir (em consequência, o sonhar) e o falar de dor. Se muitas vezes enunciamos um sofrimento, fazemos a sua evocação, o seu esquema, não significa isso que dele estejamos a falar de facto. O poema parece mesmo defender que o falar de dor comporta uma atemporalidade análoga à da passividade onírica. O pretérito imperfeito, mais do que situar a acção no passado, evidencia um tempo de algum modo suspenso, isento da sua mutabilidade real.

No entanto, nada disto é assim tão simples. A poeta (porque poeta é) sabe que tem a distância de observação necessária para escrever essa ferida (o escritor é um virtuoso da perspectiva). A dor apresenta-se em toda a sua abrangência, a meio caminho entre o vivê-la e o mapeá-la. Todavia, nenhum poeta resiste a seguir a lógica da imagem que escolheu: e é aqui que o texto se torna metafísico. Pois se a autora quer poisar a sua imagem (aterrar o seu poema), o facto é que o chão foge do chão. Não tanto porque o poeta se mova a uma velocidade excessiva, mas porque a sua visão cria uma superação do movimento (uma temporalidade) onde ele nem sequer pretende existir. A dor apresenta-se andante a quem a ela se dedica com convicção. Pelo exercício da palavra, o poeta atiça a transcendência que apenas estava anunciada no sonho.

Também a ele lhe pertence a criação da imagem-tempo.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Dicionário 6

Quando aplicada ao assunto Homem, a palavra raro só pode descambar em cinismo, em calculismo. Há pouca mão-de-obra barata? Há menos homens férteis? A baixa taxa de natalidade compromete a economia?

Pelo contrário, se substituirmos esse termo por precioso, a valoração afectiva e efectiva que damos ao nome assim adjectivado muda por completo. O Homem precioso é estimado pela sua individualidade, pela sua irredutibilidade, e não pelo défice numérico que ele constitui perante uma necessidade colectiva. É a diferença entre o preço e o apreço.

Se a nossa espécie não tivesse encontrado o conceito de raridade, e partindo do dado inquestionável de que todos os bens existem em quantidades finitas, pergunto-me que Economia teria o Homem desenvolvido se a tivesse construído a partir da ideia de preciosidade.

Se em vez da dor do número (feudalismo, capitalismo, marxismo, etc.), tivéssemos partido de um júbilo diamante...

domingo, fevereiro 11, 2007

"Ordet" - imagem

O INACTUAL 11

"Ordet" - Carl Dreyer (1955)

Este post foi substituído por um novo texto, que pode ser lido aqui.

Pró-escolhas

A blogsemana em links:

- Discordo de algumas destas parcialidades, mas o texto tem piada

- Verdades e verdadinhas

- Alguém lembra o meu Visconti favorito

- O próximo referendo


Bom proveito.

sábado, fevereiro 10, 2007

Viventes aplicados

Lemos alguns textos como se eles fossem cábulas que nos ensinassem isto sobre x assunto, aquilo sobre assunto y, e etc.

Outros, já os lemos de cor. No fundo, no fundo, já deveríamos saber tudo (a literatura é o mero condicional sem o qual não).

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

O argumento

Um argumento é, pois, um acontecer que necessita de um futuro para se desenvolver, não só como acontecimento, mas também como cumprimento e manifestação de um sentido.

Maria Zambrano (tradução de Maria João Neves).


Com espírito (seriamente) lúdico, e sabendo que estou a abusar da inexactidão, proponho que nesta citação se troque uma palavra apenas, de modo a que a frase se possa aplicar (filosoficamente) ao processo de fazer cinema. Assim:

Um argumento é, pois, um acontecer que necessita de uma rodagem para se desenvolver, não só como acontecimento, mas também como cumprimento e manifestação de um sentido.

Casting 8

Raros são os jovens actores que, na bela expressão inglesa, surgem wise beyond their years. O caso mais célebre terá sido o de Lauren Bacall que, com apenas 19 anos, parecia já ter passado por várias guerras, dormido com todos os homens que valiam a pena, e viajado pelos cinco continentes.

Mais raros ainda são aqueles que, tendo sido jovens engraçadinhos, fenómenos da mais duvidosa fama, de súbito adquirem carisma na velhice. É o caso de John Travolta, ou de Diane Lane. O modo como hoje se apresentam no ecrã faz-nos acreditar que, de facto, eles aprenderam alguma coisa com a vida. De gente (pouco) gira passaram a gente.

Adenda (sim)

Ao meu pequeno comentário sobre a questão do referendo do próximo domingo, acrescento as seguintes duas impressões:

- Quando sublinho a importância de aceitarmos a parcialidade que a Natureza teve ao entregar a faculdade de concepção à mulher, estou desde logo a defender a futura mãe de ser obrigada a abortar pelo seu (mais ou menos estável) companheiro, e a aceitar a consequência (mais ou menos violenta) do homem ter de assumir sempre a sua real paternidade.
No entanto, fui uma vez confrontado por um defensor do "Não" com a ideia de que, para o homem que pretenda ter de facto o filho que concebeu, é injusto que a companheira possa abortar, defraudando o seu legítimo direito à paternidade. Ora, isto parece-me um típico conflito de direitos (linguagem tão cara aos partidários do "Não"). Por muito válido que seja o interesse do pai, este não pode instrumentalizar o corpo de uma mulher para que ela transporte um feto que, pelas mais variadas e ponderadas razões, não pretende. Uma mulher não é uma barriga de aluguer. Ou seja, a haver polémica, esta funciona apenas entre mãe e feto.
Qualquer discurso em torno do aborto, se bem que deva salvaguardar os interesses do progenitor masculino (e o ideal destas coisas é sempre a família estável), tem de girar sempre em torno da mulher.

- Surge agora a questão dos negócios escuros associados à interrupção voluntária da gravidez. Falso (e oportunista) problema. O facto de haver muita corrupção na construção, aluguer, compra e venda de imóveis, não impede que todas essas actividades estejam permitidas legalmente. Tem é de haver legislação vigorosa e específica que tutele todas as questões de má fé, todos os actos que, esses sim, acabam por configurar verdadeiros crimes.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Madrigal

O facto de eu saber que a neve é água que congelou, não altera o facto de que os meus olhos não vêem água, mas apenas neve.

A arte é o pensamento dos sentidos: pensamento que pode ser anterior à verdade (quando ignora a explicação do fenómeno), simultâneo da verdade (quando rejubila em torno do conhecimento), ou mesmo posterior (quando a poesia é assumida em liberdade, já sem ilusões quanto à ciência).

Primitivismo, epifania, fantasia: as três dimensões do edifício criativo.

Confissão 17

Com 18 anos de idade, estava de tal modo em ponto morto automóvel, que tive de ser fortemente manobrado para tirar a carta de condução. E hoje dizem-me que ainda bem: o carrinho far-me-ia tanta falta...

Seja. No entanto, nunca me livrei da impressão de que a falta que esse carro hoje me faz, se deve em parte à própria contribuição do carro para esse estado de coisas (para esse círculo vicioso). Pois se eu não conduzisse, poderia ter construído a minha vida de outra maneira: viveria muito perto do emprego, habitaria o centro de uma cidade, escolheria aliás uma cidade bem servida de metropolitano, até talvez encontrasse uma outra profissão. Quem sabe.

O que eu sei é que agora realizo uma acrobacia que não me dá prazer, sou uma ameaça ecológica, ainda por cima incompetente (16 anos depois, ainda não sei estacionar bem), e sofro com a sensação de que, de cada vez que saio para a estrada, estou a pôr em risco não sei quantas vidas (a minha incluída).

Necessidade? Necedade?

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Partilha 8

(Como juízo não o tenho em abundância, alguns dos livros que desejei escrever, decidi escrevê-los em simultâneo. Estou por isso a trabalhar numa meia-dúzia de projectos ao mesmo tempo. São meses e meses que se passam sem que eu termine seja o que for. Ora agora escrevo ali, depois acolá, e a coisa não se dá por terminada.

Visto que consegui concluir uma pequena peça de teatro, resolvi abrir o champanhe sob a forma da partilha de um brevíssimo excerto do texto. É claro que agora a coisa vai arrefecer, e será sujeita a posterior reescrita. Mas isso não impede que o narciso, sempre impaciente, não se mostre um bocadinho.

A peça chama-se "A luz dada não se olha o teatro ". A personagem Beatriz é cega.)

(...)

BEATRIZ (entusiasmada)

Estamos no jardim? Naquele jardim de que me falavas?


LUCÍLIO

Não te cheira?


BEATRIZ

Ainda há constelações de diospiros?


LUCÍLIO

Mas tu pensas que as coisas do céu se vão embora assim sem mais nem menos?


BEATRIZ

Tu foste a minha coisa do céu, e permaneceste em mim pouco tempo.


A iluminação integral do palco é substituída pelo foco.


BEATRIZ

Às vezes penso que não foste tu que estiveste dentro de mim, mas um pássaro, ou outra coisa assim insignificante.

(...)


Bem feito

Dom Quixote foi bem-aventurado pelos livros que leu.

Quando se torna bem-aventuroso, o mundo tem demasiados matizes para que ele os possa compreender. Não é louco, apenas simplório.

O real exige uma literatura requintada nos seus advérbios.

Nonsense

Ao longo da sua vida, o Homem sente que vai recuperando o seu ser originário, num processo de auto-conhecimento imprevisível constituído por sucessivos despertares (esta ideia de Zambrano evita qualquer estatismo que pudesse ter sido mal percebido no pensamento socrático).

Mas os despertares do planeta, esses crepúsculos que há uma eternidade criam o dia e a noite em todos os planetas de todas as estrelas, esses despertares nada revelam sobre esse ser originário de tudo que é Deus. O Universo não evolui.

Só o Homem tem ilusões.

O sonho criador

Maria Zambrano usa a palavra despertar em dois sentidos: o homem desperta dos sonhos em que o sono o embrenha para poder assumir a vigília, mas também desperta da realidade consciente devido à intromissão intermitente da atempo- ralidade onírica na sua vida (atempo- ralidade que lhe permite ir recuperando o seu ser, sem que para isso ele se aliene de uma existência suportável). Esta polissemia do despertar pode até criar alguma confusão ao seu leitor, enquanto ele não se aperceber de que, para a pensadora, o sonho e a vigília estão relacionados entre si como duas transcendências mútuas.

A palavra em questão é utilizada com a mesma ambiguidade que colocamos na ideia de crepúsculo: este tanto se refere à transformação da noite em dia, como ao ocaso que esconde a nossa estrela tutelar no outro lado do planeta. De facto, bastaria que Zambrano não pensasse em termos de despertar, e se agarrasse à dinâmica do crepúsculo, para que o seu antropocentrismo evoluísse num sentido quase cósmico. Pois não há nenhum salto qualitativo no movimento da Terra em torno do Sol. Tudo nele é continuidade, não há transcendência.

A autora podia ter encontrado uma espécie de imanência do sonho criador, o que talvez fosse mais libertário. Mas Zambrano é humanista até à medula, entende a nossa espécie sem absurdo. Eu também coloco o Homem como horizonte essencial do meu pensamento, mas a excepção que ele constitui sempre me pareceu mais angustiante do que exemplar.

No fundo, a inteligência humana pode ser a mera aceleração da inteligência do universo.

domingo, fevereiro 04, 2007

Auto

Não há que ter receio do polícia da ignorância: o saber não ocupa lugar.

sábado, fevereiro 03, 2007

Galeria 19


Marina Tsvetáeva

No plateau 7

Sugestionado pelo final de "Solaris" de A. Tarkovsky, Jean-Look Spiell Bergman decidira construir todo um filme com base no parti pris técnico do movimento de uma câmara que, partindo de um ângulo picado sobre uma determinada cena, se ergueria em direcção a um céu hipotético, e desse modo revelaria todo o oceano de realidade rodeando um determinado cenário (revelaria, portanto, o plateau).

Mas decidira combinar esse procedimento com a sua antiga obsessão pela figura do remake. Assim sendo, o seu projecto consistia na reconstituição de algumas cenas pertencentes a filmes-chaves da história do cinema, reconstituição essa que seria interrompida pelo acima referido movimento de câmara, dando lugar ao ponto de vista aéreo sobre o plateau em actividade em torno de cada uma das sequências. O discurso sobre cada filme (e sobre o cinema em geral) seria transmitido através da encenação desses plateaus, e não através das refilmagens propriamente ditas.

Aplicou o estratagema a diversas obras: "L'Atalante" de Jean Vigo, "You only live once" de Fritz Lang, "La maman et la putain" de Jean Eustache, "Medea" de P. P. Pasolini, "Silvestre" de João César Monteiro. E também refez uma cena de "A lenda da Fortaleza de Surame" de Sergei Paradjanov.

Mas quando chegou o momento de evocar este último filme, deu-se um episódio estranho (um episódio fantástico, para dizer a verdade). A câmara embrenhou-se no seu já rotineiro voo, mas em torno do cenário não apareceu nenhum plateau: o enquadramento continuou a registar as referências visuais do filme de Paradjanov. Conforme o campo de visão da câmara ia aumentando (devido à distância), mais o filme se distendia, como uma realidade alternativa ocupando o lugar de toda a realidade. Como se "A lenda da fortaleza de Surame" constituísse um cinema tão íntegro e intenso que não pudesse ser desvelado por nenhum processo.

A verdade é que todos os filmes se fazem da tristeza que a realidade lhes impôs. No entanto, talvez porque Paradjanov tenha sofrido um injusto e escandaloso encarceramento durante vários anos, neste seu filme a realidade aparece em estado de júbilo imaculado, absoluto ("Ashik Kerib", rodado a seguir, já é tão livre que se torna estranho; o próprio autor declarou que queria morrer após a sua concretização). Daí que o sacrifício contado na lenda (o homem que tem de ser emparedado para que a fortaleza não caia) não seja o resultado de uma vingança (a vidente que exigiu o martírio era uma antiga amante despeitada do emparedado), mas de um equilíbrio do destino (tudo aconteceu assim, porque o universo o exigia).


Só em júbilo pode a realidade não ser ilusão.

O monstro da lagoa negra

Gosto de cinema a duas dimensões.

Mas quando me meto na sala escura, estou pronto para as maiores monstruosidades: cinema a uma dimensão, a zero dimensões, a quatro dimensões, a cinco, a seis, a sete, negativo, raiz quadrada, e etc., e etc.

Só não me venham com os três da praxe.

Coagulação

A partir dos conceitos que a leitura de Maria Zambrano me traz, apercebo-me de que, num desespero, o mais relevante talvez não seja a gravidade da circunstância real que o produz, mas sim o grau com que essa realidade possui o desesperado: o modo como o ocupa de forma excessiva.

Daí a impressão que temos de que algumas pessoas se suicidaram por bagatelas, enquanto outras resistiram a holocaustos. Mas não há nisto nem futilidade nem heroísmo. Tudo depende do modo específico (não muito voluntário) como a realidade se relaciona com a nossa disponibilidade para o sonho e para as suas formas análogas (distracção, esquecimento, êxtase, obsessão, alienação, criação artística, etc.).

Tudo depende de como comemos uma romã.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Citação

A verdade que raras vezes se descobre apresenta-se como uma Pátria que em sonhos - ainda que estejamos acordados - nos chama.

É a mentira ou o semi-engano das figurações que procura ser crida, enquanto a verdade chama como derradeiro período total, cuja figuração apenas se insinua; deserto do pensamento, mar da alma, montanha do coração.


Por isso, quando a verdade é dita parece mentira e não costuma ser crida, enquanto mentira e engano são avidamente tomados como certos, e por isso o inocente, o acusado, o idiota, o exilado, calam. Calam porque fora dessa Pátria a sua palavra pareceria mentira e na pátria não seria preciso falar.

Maria Zambrano (tradução de Maria João Neves)

terça-feira, janeiro 30, 2007

Sim

Confesso que não me revejo na maioria dos argumentos tanto daqueles que pretendem responder "Não", como dos que vão responder "Sim", à questão levantada no referendo de 11 de Fevereiro.

A razões que me aproximam (sem demasiada convicção) da resposta afirmativa são as seguintes:

a) Os partidários do "Não" radicam a sua defesa da Vida numa concepção científica primária: a partir do momento em que há uma célula de embrião, há Vida a ser protegida. Ora, no presente estádio da nossa civilização, não há nenhuma evidência científica (nenhuma) que possa ser aceite sem uma reflexão ética sobre ela. Ou seja, eu não sou pró-escolha, sou pró-vida. Simplesmente acho que a vida não ganha relevância (moral, filosófica, jurídica) quando a ciência ingenuamente o determina, mas quando nós, enquanto comunidade, lhe atribuímos essa relevância. Daí a importância do referendo, e acima de tudo da discussão que o está a preceder, para que a sociedade para si mesma assuma o que é, na verdade, e para nós humanos, a Vida.

b) Não me incomoda nada a questão das dez semanas. É uma quantidade pragmática (não nos podemos livrar disso), presumo que encontrada com critérios de razoabilidade. A legislação está cheia de prazos absurdos: por que razão condenar um homem a vinte anos de prisão, e não a vinte anos e um mês? As dez semanas constituem uma convenção pragmática, e com certeza que uma mulher que interrompa a gravidez às dez semanas e um dia, não será tão penalizada como uma que o faça aos nove meses menos um dia...

c) É claro que tudo isto gira em torno da mulher. É a injustiça da Natureza: o sexo feminino foi o escolhido para dar à luz. Um homem não pode obrigar uma mulher a manter a gravidez se ela não o quiser? Mas esse mesmo homem tem de assumir a paternidade se ela decidir de outro modo? Como se costuma dizer, e agora com mais propriedade: é a vida. Ninguém tem o direito de violentar a própria condição física que, para o bem e para o mal, é exclusiva da mulher.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Psicanálise barata

Um conjunto de gente, com formação em Humanidades, defende a progressiva diminuição da importância da literatura na disciplina de Português durante a escolaridade pré-universitária. Não vou aqui discutir a total falta de pertinência de tal posição.

A verdade é que talvez não se consiga defender a literatura com argumentos racionais (Deus nos livre de um Santo Agostinho da arte). Perante as sacrossantas palavras do economista, do lógico, do pragmático, é difícil responder a não ser com argumentos profanados pela paixão (e pela mais herética das fés). O que é preciso é questionar a relevância da concepção clássica de Razão. Mas isso é outra história (que até já foi feita e tudo).

Ora esses professores que, com motivações, argumentos, citações, estudos, e sei lá mais o quê, não sentem necessidade de defender a literatura, esses professores talvez não gostem de literatura. Por um momento, senhor Freud, chamo-o à liça. É que esta coisa de tomada de posições tem muito que se lhe diga...

Se não vivesse no Porto, eu mandava-os abaixo de Braga.

O resto do corpo

Independentemente das circunstâncias concretas da sua vida, o poeta sempre abre uma fonte de exultação para o futuro. Mesmo a poesia mais trágica (de Mário de Sá-Carneiro a Sylvia Plath) contém, na intensidade com que traduz o mundo, os germes de uma alegria profunda que será fruída por todos aqueles que vivem o real em estado-de-palavra. Ou seja, aqueles que, de pés firmes na terra, entregam o resto do corpo ao tempo, ao desejo, à dúvida, à insatisfação.

No entanto, o poeta também abre um manancial de sofrimento. Aquela alegria é demasiado grande, demasiado inteira, para não provocar uma dor profunda quando embate na dureza que sempre caracterizou a vida humana, e que sempre a caracterizará. Aquele que ama a poesia tem de confrontar-se com a violência do mundo. E esse sofrimento é necessário para que possamos entender a nossa relação connosco e com os outros fora dos âmbitos redutores da utopia ou da resignação, da ingenuidade ou do cinismo. Aquele que ama a poesia não se torna culto, mas perde, de facto, ignorância. Compreende esta coisa absurda de ser humano num universo que (para o melhor, e para o pior) não foi feito para tal. Sabe as guerras que têm de ser impedidas, e as que têm de ser assumidas. Distingue a Aventura.

E sofre por causa da alegria. Mas também se alegra mais, porque sofre.

domingo, janeiro 28, 2007

Pausa

Uma vez por semana, leio os blogues linkados aqui ao lado (se o fizesse todos os dias, não fazia eu outra coisa). Eis o que mais me entusiasmou:

sábado, janeiro 27, 2007

Ironing and irony

No escrínio 14

Fragmento de um Romance da Filha de Ayres Corrêa, de Vitorino Nemésio:

Vem Janeiro, o Santo Amaro,
E, como em fome, a pão raro,
Batem à sua janela
Mais mãos do que pés de vento.


Este pequeno excerto pertence ao conjunto de poemas que Nemésio escreveu, no fim da vida, para celebrar a paixão nele desencadeada por Dona Margarida Vitória, Marquesa de Jácome Correia. Os textos foram publicados postumamente, e apesar de o poeta não ter levado o perfeccionismo do seu acabamento a todo o conjunto lírico, o certo é que este capricho de velho se apresenta ao leitor como o fabuloso testamento do ocaso sentimental de um escritor inquieto.

Neste poemas algo secretos, cifrados pelas contingências quotidianas da vida de cada um dos amantes (mesmo assim, descobrimos que a Marquesa tinha sido suficientemente promíscua para catalisar o ciúme de Nemésio, sabemos que estava falida, etc.), o autor encontra-se no ponto óptimo de fazer poesia com tudo. Assim, este Romance gira à volta do talento de engomadeira de Dona Margarida (não sei em que circunstâncias ela o praticava), mas parte desse prosaico encanto (para quem encanto o ache) para construir o seu desvio lírico. Desvio com uma tonalidade inimitável, para o qual concorrem a ironia, a biografia sublimada, a mesquinhez de alguns sentimentos, a atribuição de papeis dramáticos a todos os objectos que testemunham a relação, e o descaramento assolapado de uma paixão fora de tempo.

No pequeno fragmento que fui buscar ao meu escrínio, a grande concorrência das gentes do povo na aquisição dos serviços de engomadeira da Marquesa (se é que ela prestava tais serviços), sofre uma metamorfose insolente: a amante assume o papel de Santa, oferecendo a sua roupa impecavelmente engomada como quem pratica a caridade de saciar fomes terríveis com a dádiva do pão. A roupa é promovida a alimento essencial (porque cobre o corpo, o pão-nosso-de-cada-dia dos amantes), e o povo todo é impiedosamente empobrecido, para que a marquesa, por momentos baudelairiana, lhe possa dispensar uma polémica generosidade do alto do seu pedestal. Afinal, se é Marquesa sem tusto, alguma coisa nela deve ser aristocrática.

Mas o elemento mais conseguido do fragmento é o facto de que, à janela da casa da marquesa, batem mais mãos do que pés de vento. Há várias operações que aqui são efectuadas. Pé de vento, enquanto metáfora morta, evocará certamente a vida sentimental conturbada da senhora, vida essa que seria mítica tanto para o poeta como para o jet-set da altura. No degrau inferior da metáfora (pois esta expressão passou por vários mundos no seu Além), o pé de vento é a simples ventania que eventualmente assolaria a casa da Marquesa (e não posso deixar de ver aqui um pé de dança a reunir o movimento do vento e o vento fútil da vida mundana).

Mas o poeta fala em mãos de vento. É que esta mulher é demasiado amada para ser cantada ao nível do pé. É a mão (de cada pedinte do pão raro) que aqui ganha protagonismo: no jogo erótico, o pé pertence ao fetichismo, mas a mão é senhora da carícia. E não se pedem mãos em casamento? Nemésio dá à sua marquesinha (a cadela pura) o maior presente que um poeta pode dar a quem ama: inventa para ela uma nova metáfora, cria-lhe um um lugar comum na linguagem.

Dona Margarida Vitória: que mão-de-vento à sua passagem (a ferro)...

terça-feira, janeiro 23, 2007

Fuga ("Vertigo")

No teatro, a liberdade descobre-se.
No cinema, conquista-se.

Anotações: "Vertigo"

1. Se o símbolo for ingenuamente aplicado à porção do real que lhe está destinada, o real corre o risco de sofrer o destino trágico que nesse símbolo estava latente. A ingenuidade muda a utopia em ditadura.

2. Alguém quer ser o Pigmalião da sua felicidade. Mas quem sofre as vertigens da memória, sujeita-se à criatividade prévia de um metteur en scène do desastre. É a essência da tragédia.

3. Há uma diferença entre representar o símbolo em primeira inocência ou em segunda inocência. A segunda escolhe sempre os palcos dos lugares tornados comuns.

4. Sempre no cinema, às vezes na vida: o amor termina no mesmo mundo por onde começou a sua investigação.

Galeria 18


Fiama Hasse Pais Brandão

Fuga (Ophüls)

Desde o primeiro instante, os amantes já têm um passado comum. Ao mesmo tempo, sonham com um futuro que não pode ser menos do que incomum. Mas é o presente quem decide estes prefixos, na sua hesitação constante entre spleen e ideal (entre rotina e invitation au voyage).

Anotação: Ophüls

Confesso que o (por mim) tão aguardado encontro com o filme "Letter from an unkown woman", do período americano do realizador Max Ophüls, me deixou razoavelmente desiludido. É claramente um bom produto, e nele se pressente mesmo uma maturidade criativa quase a eclodir. Mas apenas quase.

Os temas de Ophüls já lá estão todos: a descrição minuciosa das vidas dedicadas aos prazeres mundanos, a contrastante santificação do amor absoluto, a tristeza da felicidade burguesa, etc.

O imaginário é também o mesmo: a vida fútil do fim do século XIX e do princípio do seguinte. Mas esse universo é apenas sinalizado no filme americano, é a circunstância que justifica (e decora) a narrativa sentimental. Nos quatro filmes finais da última fase francesa, Ophüls passa a assumir o prazer que esse imaginário lhe dá, escancarando-o com tanto gozo quanta irónica distanciação. É uma relação erótica entre o autor e o seu universo (como acontece em Fellini ou Paradjanov). E por isso, o tom meloso de "Letter from..." é substituído em "La ronde" por uma jouissance delicada mas que, definitivamente, não se leva a sério.

O gosto pelas histórias também se torna mais patente no período final: as narrativas passam a evocar figuras geométricas, caprichos das "1001 noites", são em si mesmas materiais de fruição pré-circense, exibem os seus esqueletos fátuos e brilhantes. Numa palavra: seduzem.

E o estilo, tornado maleável pela maquinaria de Hollywood, adquire por fim a complexidade de um formalismo assumido e desenvolvido até à exaustão. Cada enquadramento, cada movimento de câmara, cada gesto de actor ou peculiaridade do décor, cada mínimo elemento contribui para a construção semântica que o filme enceta. E por isso Ophüls pertence aos maiores (em "Lola Montès", filme que a sua morte prematura deixou montado sem o seu aval, ele já estava a modificar por completo o cinema).

Até a música dos últimos filmes é mais inspirada (Ophüls é todo melodia). Como esquecer a cançãozinha das prostitutas de "Le plaisir", provavelmente a sua obra-prima?

Trata-se, no fundo, da diferença entre falar de champanhe ("Letter from an unkown woman") e ser o próprio champanhe ("Madame de").

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Fuga ("Lilith")

Os jovens não podem ler os clássicos? Aborrecem-se?

Pois eu acho que sim: é na adolescência que se devem ler Baudelaire, Rimbaud, John Donne, o próprio Pessoa. Não para se ser culto, mas um pouco mais maldito (agora até o rock foi substituído pelos morangos com adoçante). A vida é que é aborrecida perante aqueles esplendores.

Depois, as hormonas mais pacificadas, lá chegará o tempo de Hölderlin, Celan, e Fiama. Como dizia Eliot, a nossa relação com a poesia altera-se aos vinte e cinco anos (mais ano, menos ano). Antes que passe o prazo de validade, façam o favor de charrar os klássikus.


Anotação: "Lilith"

O derradeiro gesto criativo de Robert Rossen não põe em causa a moral sexual da sua época. Hoje, ninguém no seu perfeito juízo colocará a homossexualidade e a pedofilia no mesmo saco, como este autor o faz. No entanto, o espectador que viaje pelo cinema todo, tem de ser historiador das mentalidades. Distante, portanto, daquilo que merece distância.

Expurgado dos clichés do classicismo hollywoodiano, capaz por isso de ser um dos mais líricos filmes de sempre, esta narrativa de crueldade omnívora (tudo é agressivo - no fora de campo bélico, no mundo dos loucos, no mundo da gente normal) deixa-nos uma ideia estarrecedora: um homem pode regressar da crueldade da guerra com a intenção de ser homem melhor, mas nunca isso acontece quando a crueldade resultou da Beleza.

Uma evidência nada evidente, um filme polémico.

1938-2007

1. Ontem, não se encontrava o PÚBLICO em nenhum quiosque de Lisboa. Diziam-me que o jornal ia sair mais tarde do que o diário costume. Como se alguém quisesse esconder uma notícia, ou pelo menos escolher o momento mais adequado para a partilhar. Falava-se em mudanças de gráfica (agitação nas letras, portanto). Consegui comprar o jornal ao fim do dia, quando regressava ao Porto: Fiama Hasse Pais Brandão tinha falecido.

2. Muito bonita, clara, e justa, a maneira como, nesse jornal, Luís Miguel Queirós se aproximou do legado da autora.

3. Confissão escandalosa: De Fiama, só li a colectânea que a Teorema fez da sua poesia até aos anos noventa. Desde então, a poeta escreveu mais 4 livros, incluídos recentemente na "Obra Breve" da Assírio & Alvim, livros esses que foram os que mais sucesso e consenso granjearam junto da crítica e do público, mas que francamente eu não conheço. E no entanto, já Fiama se havia tornado uma das minhas poetas de eleição. Ou seja, não só o melhor, para mim, ainda está para ser lido (fixe, fixe), como se torna evidente que a sua obra é, desde o início, muito cativante, e que Fiama, com o passar do tempo, foi escrevendo cada vez melhor (o que é raro).

4. Jorge Silva Melo diz que o teatro de Fiama pertence ao futuro, porque ainda não temos os meios para o fazer. E digo eu: apressemos o futuro.

5. Escrevi este pequeno poema numa altura em que pretendia fazer um conjunto de comentários líricos às obras dos autores portugueses que mais me interessavam. Acabei por só concluir este, e como não tenho intenção de o publicar em livro, faço aqui a partilha:

f.h.p.b.
o rural e o experimental
seu mútuo atear
só pode cumular em simbólico verão

é preciso traduzir as línguas do fogo
(suas mútuas heresias)
para que arda a alma toda
não o corpo

num cômoro de cinzas
não digo chama
mas Fiama


Vanitas

Paula Rego maneja a composição dos seus quadros de modo a poder significar sem a intenção de significar (sem a vaidade). Como se a pintura fosse uma peça de lego que cumprisse um encaixe sem que para isso tivesse sido criada.

Por isso a pintora se comporta como ingénua perante a sua mestria. Por isso os destinatários dos quadros constroem as mais desvairadas interpretações.

É uma espécie de dadaísmo em surdina, mas nem por isso menos exultante.

Óbito tardio

Mais do que as suas inovações formais (que ele próprio banalizou e muitas vezes usou de forma gratuita), o que me interessa em Robert Altman é o facto de, em cada filme, ele mergulhar de cabeça num imaginário diferente, como se fosse um puto sempre pronto a experimentar mundos que ainda lhe parecem abertos à aventura. Ora sai uma inglesada com Agatha Christie, ora vamos fazer o apito dourado de Hollywood, e etc., e etc.

Os seus admiradores deveriam tentar discernir quando é que o mergulho o deixou à superfície ("Kansas City", ou este lamentável filme final), e quando é que ele atingiu as zonas mais profundas de um imaginário, descobrindo as espécies raras que nele sobrevivem em plena obscuridade ("Short cuts", "Prêt-à-porter").

Lição de música 2

Os professores de fagote são os faquires da orquestra. Às vezes olham para o tremendo réptil que têm nas mãos e que lhes mostra a língua bífida. Depois de hipnotizado deitam-no nos braços e ali se fica, extáctico.

Luis Buñuel (tradução de Mário Cesariny)