terça-feira, março 13, 2007

A passagem do tempo


Este blog já falou o suficiente sobre neve.
E como não tem a oriental (pa)ciência do tempo, vai passar bruscamente para um espírito de primavera.

O virtual não está imune ao real, mas à velocidade do real.

Crónica da neve

É sabido que Deus pode fazer o que quiser. Pois faça o que fizer, não há a menor prova de que Ele tenha feito o que fez. A proximidade verbal entre o ânus e o ónus da prova mostra logo quão frágil é a situação daquele que leva com os diversos sentidos da sua graça.

Noé era um menino como muitos outros. Mas como poucos outros vivia no interior e no sul. Combinação perigosa que fecha quem a vive na ausência de neve e de mar. Noé nunca tinha visto neve (o que era uma saudade vertical). Noé nunca tinha visto o mar (e isso já era horizontal ignorância).

E Deus disse-lhe: Escolhe, fiel meu, um dos dois modos de viver. E eu te premiarei de acordo com as tuas obras.

Conforme foi crescendo, Noé foi-se tornando um homem vertical. Viveu de acordo com os mandamentos. E foi de tal modo um homem moral, que teria sido capaz de conservar todos os princípios éticos dentro da arca do seu frio coração, mesmo que todo o resto da humanidade entrasse em dilúvio de crueldade.

Um dia, Noé viu a neve cair das nuvens. E como a neve era rara no sul e no interior, Noé pensou que era um milagre destinado a suprir a sua velha saudade.

Num outro dia, Noé viu o mar cair das nuvens. E como era ignorante, não sabia que o mar lhe era especificamente dirigido.

De qualquer modo, nem pegadas Ele deixou.

Da crueldade

Um dos aspectos mais estimulantes da série britânica "The office" (uma das poucas desventuras televisivas a que não me importei de me submeter) é a inacreditável crueldade com que, de episódio para episódio, o personagem principal (interpretado por R. Gervais) vai sendo tratado. Desde o simples desconforto causado pela sua presença até ao seu brutal despedimento e à exposição ao mais humilhante ridículo, tudo o espectador é levado a assistir com inconfesso prazer. Não quer isto dizer que os fazedores de "The office" sejam apoiantes do sadismo. Agora, o que eles levam até ao fim é aquela máxima que diz que cada um tem aquilo que merece, o que em si mesmo é uma ilusão, mas consegue despertar o instinto de raiva que cada um de nós possui.

O cinema está cheio de histórias de agressividade. Cada uma menos credível do que a anterior. A crueldade da sétima arte é quase sempre obscena, gratuita, exibicionista, coisa de geeks emocionais. Lembro-me de um único filme que conseguiu desenvolver uma poética da crueldade, e esse filme é o inclassificável "Il bidone" ("O conto do vigário") de Federico Fellini. Objecto perigoso, sem paliativos, capaz de suscitar o que de mais maldito existe em nós.

E por isso festejo a coragem de Bénard da Costa por o ter considerado um dos 50 mais belos filmes de sempre.

Mais-que-ciência

No PÚBLICO de domingo, 11 de Março:

Os tumores são conjuntos de células que se esqueceram de morrer.

domingo, março 11, 2007

:

Escrever é passar de um ponto a outro ponto:








A ficção traça uma linha _________ de união

A poesia faz a travessia de barco sobre o branco do papel



O primeiro sentido

Uma das dificuldades que um ateu experimenta na sua relação com o pensamento religioso é a compreensão da figura do milagre.

Como já sabemos que tudo o que aconteceu in illo tempore (e agora já não acontece), se resume sempre à categoria da lenda (e descamba em mito), e como ninguém no seu perfeito juízo pode imaginar Cristo multiplicando pães com a assistência técnica de George Lucas (o investimento nos efeitos especiais parece-me, de resto, uma das causas da decadência onírica do cinema), pressinto que a missão do teólogo contemporâneo deveria também passar pela tentativa de pensar o significado daquilo a que se convencionou chamar o milagre. E não vale simplificar dizendo que é uma metáfora.

É claro que temos sempre "Ordet" ("A Palavra") de Dreyer.

A hora da verdade

"O sonho criador", de Maria Zambrano, é um livro fulgurante. Basicamente, a autora teoriza em torno daqueles momentos da vigília que são formalmente análogos ao sonho (momentos de contacto com a atemporalidade do Ser), e que por isso mesmo permitem uma espécie de despertar metafísico (um salto da consciência que é indissociável da palavra). De despertar em despertar, o homem joga então a sua liberdade de modo a cumprir, ou não, o argumento da sua vida (aquilo para que ela tende como se fosse um destino).

Zambrano defende que cada despertar é um momento de transcendência. Mas a mim quer-me parecer que a grande figura simbólica por trás desta conceptualização é nada menos do que a morte. Ou seja, aquele último despertar em que descobrimos que a vida afinal era sonho, ou pelo contrário, em que entramos no sonho definitivo (a autora fala muito de nascer).

Como cada livro tem também um destino, apetece-me pensar que, cada um dos leitores de "O sonho criador", no momento derradeiro da sua vida, descobrirá por fim o sentido daquilo que leu. Pois se houver nem que seja um resquício de Além, o leitor saberá que leu um livro de filosofia. Mas se nada houver, e o fim for mesmo o fim, então o leitor não saberá que leu um livro de poesia.

De resto, é o que sempre acontece com a filosofia e com a poesia.

Crítica da crítica

1. Um caso de fé cega, esse, o dos críticos que acreditam em blockbusters com alma. Pede-se então coerência: o desprezo assumido por tais corpos fílmicos.

2. Dizem os críticos que, de um filme de entretenimento, não vem mal ao mundo. Ora bolas, tanto neurónio gasto, tanto suor, tantas horas de trabalho, dinheiro, conflitos... e depois disso tudo, não resulta nem um bocadinho de Mal? Que tédio.

Tentações

Este blog esteve para começar a escrever os nomes dos escritores a que se vai referindo, precedidos pela sua situação exacta perante os prémios literários mais relevantes. Assim, Saramago seria sempre referido como nobel award winner, enquanto Lobo Antunes se ficaria por um modesto nobel award nominee.

Mas este blogger, que é super-cota, e tem ego-chato, não o deixou.

quinta-feira, março 08, 2007

No plateau 8



Jean-Look Spiell Bergman queria que a câmara não tivesse apenas a função de filmar.

Em colaboração com Mel Luckàs, começou a acoplar engenhocas simples a cada um dos seus aparelhos. Poderia ser uma bisnaga subtilíssima, uma chaminé, uma ventoinha de trazer por casa. Para além de filmar, a câmara passaria a também humedecer o filmado, passaria a fazer sinais de fumo (o realizador deve ser o indígena do seu filme), a agitar os materiais leves. Tomaria para si o objectivo de intervir na vida.

Agora, Jean-Look queria filmar a neve a derreter. E por isso tinha montado um aquecedor potente na sua câmara digital. O filme era apenas isso: a câmara a captar um terreno nevado, o aquecedor a apressar loucamente o trabalho do tempo, e as palavras de um texto dramático de Segismundus Globovitch B., que dissertava sobre a possibilidade do ascetismo.

Era grande a excitação da equipa. Quanto tempo seria necessário para que o real acontecesse? O que pode uma câmara fazer ao estado químico do mundo?

Quando a neve derreteu (ao fim de várias horas), a frustração foi completa: sob o manto rigorosamente branco, estava escondido um tesouro antigo, esquecido, opulento.

(fotografia de Abbas Kiarostami)

Tomar partido

A transcendência é apenas a metade oculta da imanência.



Sublime ironia

Pois tudo o que é especificamente humano se perde à medida que vai ganhando a perfeição, que se cumpre e revela ao extinguir-se.

Maria Zambrano (tradução de Maria João Neves)

segunda-feira, março 05, 2007

No comment


(fotografia de Abbas Kiarostami)

No escrínio 17

Poema "Divisão de orações" de Gastão Cruz:

Creio afinal que era um prazer ouvi-las
como peixes no rio do poema
fora dele saltar e mergulhar

novamente no leito que fluía
ondulante e diverso, os ques principalmente
descobrir

que espécie de oração introduziam:
causais comparativas integrantes
relativas finais consecutivas

concessivas, num ponto da estrofe
começavam e por
vezes somente na seguinte

o seu sentido concluíam sendo
preciso persegui-lo, no fundo o que fazia
e faz, talvez em vão, a poesia; e tudo era

o jogo real dos dias
falar nadar correr olhar os corpos
o próprio e os alheios

na frescura do sol ou no calor da
casa, esse um tempo feliz
e belo se algum tempo pode sê-lo.


Gastão Cruz é um poeta contido, labora a emoção de modo oblíquo, calibrando a sua inclinação reflexiva com a omnipresença do corpo e de uma sensualidade em parte herdada das paisagens da sua infância algarvia. O seu último livro ("A moeda do tempo", 2006) contém textos que me parecem particularmente conseguidos, como "A forma do amor", "Saturno", "Coisas contemporâneas", "Rua da marinha" ou "Linha sobre a Ásia".

No caso do poema aqui partilhado, o autor relembra a idade de todos os porquês. Mas como já não está nessa idade, ainda que nela permaneça à distância da memória, é forçoso que a veja como a idade dos ques. Afinal, a sua vida adulta terá vagueado pelo espectro completo da experiência humana (que se pode decompor em momentos causais, comparativos, integrantes, etc.), mas só agora o trabalho de análise (dos poemas, da vida) une presente e passado numa noção de prazer. O que antes era interrogação adquiriu serenidade.

O rio flui. Mas o nosso devir existencial não é liquído, antes se fragmenta por instantes. Perseguir o sentido da vida confunde-se por isso com a técnica do enjambement, com a tentativa de unificar num sentido-fleuve aquilo que talvez nem sentido tenha.

Assim, o poeta termina celebrando a beleza da infância e da juventude. Falar nadar correr olhar os corpos: esse tempo era belo (se algum tempo pode sê-lo) porque tudo isso cabia num verso único.

Não falavam a nossa fala

No duplo CD "Paraísos perdidos" de Jordi Savall (com música do tempo de Cristóvão Colombo), a uma dada altura é recitado um poema azteca em língua nauhatl. O poema é interessante, mas o que mais me impressionou foi a estranha sonoridade dessa língua, praticamente reduzida a um crepitar de consoantes. Como se fosse uma fala pertencente a um naipe de percussão (e que estranhas as línguas actuais, todas tão violeta, oboé d'amor, trompa).

Transcrevo aqui o texto e faço uma tradução aproximativa a partir do inglês.

Cuix oc nelli nemohua oa in tlalticpac Yhui ohuaye?
An nochipa tlalticpac: zan achica ye nican.
Tel ca chalchihuitl no xamani
no teocuitlatl in tlapani
no quetzalli poztequi Ya hui ohuaya
an nochipa tlalticpac: zan achica ye nican.


Vivemos, de verdade, nesta Terra?
Não para sempre nesta Terra: apenas um pouco aqui.
Todas as coisas, mesmo o jade, quebram,
todas as coisas, mesmo o ouro, rompem,
mesmo a plumagem do quetzal se desvanece;
Não para sempre nesta Terra: apenas um pouco aqui.

Casting 9



Nick Nolte: um excelente actor de decomposição.

sábado, março 03, 2007

Galeria 21


Cesare Pavese

Partilha 10

“quando piove sul mare, ogni goccia è perduta”
Cesare Pavese


noite
um rebanho de formigas brancas labora
deixa palavras de limão sobre o papel
(dos poemas amados chove cinza)
de repente
o vaivém das imagens contamina a pele
um doce vento começa a folhear
(a desfolhar) ondulações
e enquanto o cavalinho da madrugada
fino e delicado como o arroz
(ou outro alfabeto vegetal)
acusa a acidez do mundo
um sol de cigarras em fogo esbanja Beleza
o mar rasga e esvai-se em silêncio
(em cirílico)


(este poema faz parte do meu livro inédito: "dar o dizer por Não dizer")

sexta-feira, março 02, 2007

O coleccionador 4

Num cinema de rigor obsessivo como o de Manoel de Oliveira, a mínima opção (ou desvio) formal implica sempre uma desmesura de expressividade. A própria parcimónia das evidências de encenação (as formas estão dilatadas no tempo) intensifica qualquer excepção à regra que o filme a si mesmo se impõe.

Por exemplo, numa cena de "Amor de perdição" em que Mariana leva uma carta a Teresa já enclausurada num convento, a princípio vemos a jovem camponesa através de um gradeamento. No entanto, quando Teresa por fim aparece na imagem, a câmara muda subitamente de posição, ficando então as grades a marcar o centro do plano, desse modo separando as duas mulheres no espaço. O movimento da câmara não foi pensado por meras razões pragmáticas ou decorativas. O que acontece é que o sentido da cena muda por completo. O cárcere deixa de ser visto como cárcere (o confronto especular revela às duas que, neste ponto da tragédia, elas já se encontram libertas pelo amor) e torna-se fronteira (Teresa e Mariana são rivais).

Na mesma obra, quando Simão parte de barco para o degredo, a sensação de balanço provocada pelas águas é filmada de tal maneira que temos consciência de que é a câmara, e não o barco, que se está a mover. As partidas, o ostinato da dor: tudo isso é assunto do espírito. Afinal, não é o mundo que roda em torno do homem, mas a alma que se entorna na roda do mundo.

Vontade de rir

1. E não é que o exterminador implacável descobre que o maior alien que o planeta já teve afinal morreu de morte não ressuscitada, e assim se põe a jeito de encenar um dos mais terríveis naufrágios de que há memória?
Para um ateu praticante como eu, a figura de Cristo será sempre relevante por questões que o sobrenatural desconhece. Mas isto de um comerciante de Hollywood querer ter uma palavra (a palavra) a dizer a propósito de religião, dá-me muita vontade de rir. Muita.

2. De qualquer modo, o assunto de Deus tem muito que se lhe diga. Ele há quem se converta por causa da música de Bach, por causa da profusão de estrelas do universo, da complexidade do corpo humano, da irredutível beleza de uma florinha, da generosidade. Eu tento ser mais modesto.
Por exemplo, que uma pessoa como Dick Cheney tenha uma filha que é lésbica assumida, é um facto de tal modo irónico que me faz intuir uma espécie de sentido secreto na vida. Chego a sentir uma vaga esperança. Afinal, um mundo com este sentido de humor tem de ter autor.