segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Inquietude

Se uma sociedade qualquer tivesse tentado realmente materializar a República de Platão ou a Utopia de Tomás Moro, odiaríamos hoje aqueles dois intelectuais tanto quanto odiamos Marx. Se Jesus Cristo, aliás, tem tanto prestígio, é porque ninguém (e especificamente os próprios católicos) faz o que o senhor preconizou.

A maior conquista da Filosofia foi a perda da arrogância. Não tanto o abandono da razão, mas o seu enriquecendo humilde (incluindo a razão religiosa, poética, sensual, sofredora, etc.) O pensamento, de facto, ilumina. Rasga a obscuridade, mostra a verdade do contexto, insinua as hipóteses de percurso: é o candeeiro na noite da pólis. Mas nenhuma luz obriga a seguir esta ou aquela direcção. A liberdade do homem perante o pensamento, perante qualquer pensamento, é o principal garante de uma acção com validade ética.

O Pensamento brilha: é o seu único poder.

Cultura

No imaginário clássico, muitas vezes as mulheres eram autoras materiais de actos magnânimos, e outras tantas vezes autoras morais de actos abjectos. Nunca as mulheres sujavam as próprias mãos com sangue maldito: o seu corpo seria demasiado casto para tais excessos.

Medeia é uma das primeiras figuras femininas a ter cometido, ela mesma, um hediondo crime. E parece-me que isto é uma das primeiras manifestações de feminismo. Explicando: é claro que a importância do feminismo é a atribuição da paridade de direitos entre os dois sexos (direito de voto, igualdade perante o trabalho, as mesmas liberdades e garantias, etc.). No entanto, no âmbito das representações culturais, foi necessário que a mulher também pudesse cometer o crime. Que ela também assumisse o mal: de forma física, pragmática, imediata. Que ela se libertasse de todos os preconceitos.

Mesmo assim, Medeia era uma feiticeira...

Vitórias

Persegue-me uma terrível maldição que nem sequer foi transmitida de geração em geração: tudo aquilo em que eu aposto é sempre bafejado pelo azar. Ele é os Óscares, as eleições, os números do Totoloto. Se eu quero que alguma coisa triunfe naquilo em que pode triunfar, o seu insucesso está de antemão garantido: e não me venham com o encanto das causas perdidas. Chego a pensar que devo ter também apostado no amor (ou o provérbio está errado)...

No entanto, recentemente tive duas vitórias (por interpostos vencedores): não só ganhei (sem jackpot) no referendo da interrupção voluntária da gravidez, como acertei nos Piores Portugueses de Sempre (concurso organizado pelo Eixo do Mal e pelo Inimigo Público). Salazar e Fátima Felgueiras eram as minhas opções. E eis que o meu desejo foi atendido pela realidade.

Poderia pensar que a minha sorte está a mudar. Mas que todas estas vitórias se situem na área do aborto, isso não abona nada em meu favor.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

A criação

Ingénuo não é aquele que não pensa antes de actuar, mas aquele cujo acto não equivale a um pensamento.

S.O.S. Murakami

Já todos sabemos: não se pode ler tudo. Por isso, esperamos que aqueles que defendem um determinado autor nos dêem argumentos sedutores para começarmos a sua leitura. No caso de Murakami, contudo, a coisa está complicada. Eis o que eu ouço dizer sobre o senhor:

- Vende milhões
Não tenho nada contra isso, e espero que os milhões lhe encham a bolsa. No entanto, o sucesso de vendas apenas revela o acaso do funcionamento do mercado, a moda, o peso de uma máquina de promoção, etc. Em si mesmo, não é argumento.

- Pratica um surrealismo cool
O que é isto? Será piroseira onírica? O "E.T." em japonês? "Surrealismo" não rima com "cool" - esse movimento aspirava à inquietação permanente. Entendê-lo de outro modo equivale a insultá-lo.

- Costura alta cultura com cultura popular
Sim, mas qual é o autor pós-qualquer-coisa que não o faz?


Talvez alguém tenha a caridade de me transmitir a sua paixão com a integridade que ela lhe merece. Até lá, já se instalou em mim um preconceito. Com amigos destes...

Confissão 18


Não tenho nenhum apreço por imagens de espectaculares implosões de edifícios. Chego a perguntar-me se isso não foi inventado apenas para alimentar o kitsch telejornalístico. Notícia, para mim, é a inspirada e transpirada construção do sino em "Andrei Rubliov". Notícia também a erosão e a ruína. Mas desfazer em instantes o que demorou uma eternidade (de corpo e alma) a ser feito... Não, obrigado.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Fairy tail

Then, the little mermaid came out of the water closet. She was going to do the washing up where she belonged.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Táctica

O Cristianismo cometeu um erro de cálculo quando presumiu que poderia controlar a moral da espécie humana recorrendo aos mitos do Paraíso e do Inferno. Quem vive e sobrevive sabe bem quão relativas são as condições de júbilo e holocausto, e sabe também que muito depressa o Éden se pode tornar o seu oposto (sem Éden deixar de ser), e vice-versa.

A proposta deveria ter sido outra. Aos bem-aventurados pelos seus pensamentos e obras deveria ser oferecida a continuação da sua existência. Ponto. Já os pecadores por palavras, actos, e omissões, seriam ameaçados com a cessação absoluta do seu Ser, sem nenhuma hipótese de arrependimento ou regresso. Seriam reduzidos ao zero, para sempre esquecidos, sem alma, sem história, sem qualquer contribuição para o nada se perde tudo se transforma dos mundos aquém ou além.

Surgiria assim uma Ética absolutamente diferente. Trágica. Inacessível à superficialidade. Os suicidas seriam escolhidos a dedo. Os fieis, seleccionados às três pancadas.

Partilha 9

Recebi hoje os primeiros exemplares do meu livro "Leilão de pensamentos", editado pela Câmara de Sintra, onde recebi um prémio em 2005. Presumo que a sua venda se fará nas livrarias usuais. Este é o excerto que está transcrito na contracapa:

Toda a gente diz que os rios podem ser imaginados como espelhos. Toda a gente diz também que os Lugares Comuns albergam todos os seus cidadãos sob a bandeira da evidência. Mas do que ninguém se lembra, é do profundo drama que emoldura a condição especular do rio. Pois se, de Heraclito a Luiza Neto Jorge, ninguém duas vezes passa o mesmo rio, os rios correm e recorrem, afastam-se como a vida e o tempo, o certo é que os reflexos que neles se fixam não viajam com o seu espelho líquido, paradoxo doloroso em que a imagem se mantém apesar do nomadismo do seu suporte. Imagine-se um poema em que as palavras mudassem a cada segundo, as construções sintácticas variassem por cada capricho do acaso, os achados do poeta desaparecessem de uma forma tão célere quanto a da sua revelação, mas onde as imagens que ecoam o mundo fossem invariavelmente as mesmas... É isto um rio.

Era, portanto, uma vez um rio.


(Infelizmente, o título do primeiro conto foi grafado de maneira irritantemente incorrecta. O texto chama-se "As magnólias", mas o que por lá aparece como título é... "As agnólias" (???). Espero que o disparate não desincentive o potencial leitor)

terça-feira, fevereiro 13, 2007

No escrínio 15

Poema de Regina Guimarães:

Falavas de dor
e dormias.
Parecias
uma ferida vista de avião.
Onde vai poisar a imagem
se o chão foge do chão?


Talvez por estar a ler a Maria Zambrano, lembrei-me deste pequeno texto que faz parte do livro "Tutta", de Regina Guimarães. Pois também esta autora liga, por conjunção copulativa, duas acções só na aparência distintas: o dormir (em consequência, o sonhar) e o falar de dor. Se muitas vezes enunciamos um sofrimento, fazemos a sua evocação, o seu esquema, não significa isso que dele estejamos a falar de facto. O poema parece mesmo defender que o falar de dor comporta uma atemporalidade análoga à da passividade onírica. O pretérito imperfeito, mais do que situar a acção no passado, evidencia um tempo de algum modo suspenso, isento da sua mutabilidade real.

No entanto, nada disto é assim tão simples. A poeta (porque poeta é) sabe que tem a distância de observação necessária para escrever essa ferida (o escritor é um virtuoso da perspectiva). A dor apresenta-se em toda a sua abrangência, a meio caminho entre o vivê-la e o mapeá-la. Todavia, nenhum poeta resiste a seguir a lógica da imagem que escolheu: e é aqui que o texto se torna metafísico. Pois se a autora quer poisar a sua imagem (aterrar o seu poema), o facto é que o chão foge do chão. Não tanto porque o poeta se mova a uma velocidade excessiva, mas porque a sua visão cria uma superação do movimento (uma temporalidade) onde ele nem sequer pretende existir. A dor apresenta-se andante a quem a ela se dedica com convicção. Pelo exercício da palavra, o poeta atiça a transcendência que apenas estava anunciada no sonho.

Também a ele lhe pertence a criação da imagem-tempo.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Dicionário 6

Quando aplicada ao assunto Homem, a palavra raro só pode descambar em cinismo, em calculismo. Há pouca mão-de-obra barata? Há menos homens férteis? A baixa taxa de natalidade compromete a economia?

Pelo contrário, se substituirmos esse termo por precioso, a valoração afectiva e efectiva que damos ao nome assim adjectivado muda por completo. O Homem precioso é estimado pela sua individualidade, pela sua irredutibilidade, e não pelo défice numérico que ele constitui perante uma necessidade colectiva. É a diferença entre o preço e o apreço.

Se a nossa espécie não tivesse encontrado o conceito de raridade, e partindo do dado inquestionável de que todos os bens existem em quantidades finitas, pergunto-me que Economia teria o Homem desenvolvido se a tivesse construído a partir da ideia de preciosidade.

Se em vez da dor do número (feudalismo, capitalismo, marxismo, etc.), tivéssemos partido de um júbilo diamante...

domingo, fevereiro 11, 2007

"Ordet" - imagem

O INACTUAL 11

"Ordet" - Carl Dreyer (1955)

Este post foi substituído por um novo texto, que pode ser lido aqui.

Pró-escolhas

A blogsemana em links:

- Discordo de algumas destas parcialidades, mas o texto tem piada

- Verdades e verdadinhas

- Alguém lembra o meu Visconti favorito

- O próximo referendo


Bom proveito.

sábado, fevereiro 10, 2007

Viventes aplicados

Lemos alguns textos como se eles fossem cábulas que nos ensinassem isto sobre x assunto, aquilo sobre assunto y, e etc.

Outros, já os lemos de cor. No fundo, no fundo, já deveríamos saber tudo (a literatura é o mero condicional sem o qual não).

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

O argumento

Um argumento é, pois, um acontecer que necessita de um futuro para se desenvolver, não só como acontecimento, mas também como cumprimento e manifestação de um sentido.

Maria Zambrano (tradução de Maria João Neves).


Com espírito (seriamente) lúdico, e sabendo que estou a abusar da inexactidão, proponho que nesta citação se troque uma palavra apenas, de modo a que a frase se possa aplicar (filosoficamente) ao processo de fazer cinema. Assim:

Um argumento é, pois, um acontecer que necessita de uma rodagem para se desenvolver, não só como acontecimento, mas também como cumprimento e manifestação de um sentido.

Casting 8

Raros são os jovens actores que, na bela expressão inglesa, surgem wise beyond their years. O caso mais célebre terá sido o de Lauren Bacall que, com apenas 19 anos, parecia já ter passado por várias guerras, dormido com todos os homens que valiam a pena, e viajado pelos cinco continentes.

Mais raros ainda são aqueles que, tendo sido jovens engraçadinhos, fenómenos da mais duvidosa fama, de súbito adquirem carisma na velhice. É o caso de John Travolta, ou de Diane Lane. O modo como hoje se apresentam no ecrã faz-nos acreditar que, de facto, eles aprenderam alguma coisa com a vida. De gente (pouco) gira passaram a gente.

Adenda (sim)

Ao meu pequeno comentário sobre a questão do referendo do próximo domingo, acrescento as seguintes duas impressões:

- Quando sublinho a importância de aceitarmos a parcialidade que a Natureza teve ao entregar a faculdade de concepção à mulher, estou desde logo a defender a futura mãe de ser obrigada a abortar pelo seu (mais ou menos estável) companheiro, e a aceitar a consequência (mais ou menos violenta) do homem ter de assumir sempre a sua real paternidade.
No entanto, fui uma vez confrontado por um defensor do "Não" com a ideia de que, para o homem que pretenda ter de facto o filho que concebeu, é injusto que a companheira possa abortar, defraudando o seu legítimo direito à paternidade. Ora, isto parece-me um típico conflito de direitos (linguagem tão cara aos partidários do "Não"). Por muito válido que seja o interesse do pai, este não pode instrumentalizar o corpo de uma mulher para que ela transporte um feto que, pelas mais variadas e ponderadas razões, não pretende. Uma mulher não é uma barriga de aluguer. Ou seja, a haver polémica, esta funciona apenas entre mãe e feto.
Qualquer discurso em torno do aborto, se bem que deva salvaguardar os interesses do progenitor masculino (e o ideal destas coisas é sempre a família estável), tem de girar sempre em torno da mulher.

- Surge agora a questão dos negócios escuros associados à interrupção voluntária da gravidez. Falso (e oportunista) problema. O facto de haver muita corrupção na construção, aluguer, compra e venda de imóveis, não impede que todas essas actividades estejam permitidas legalmente. Tem é de haver legislação vigorosa e específica que tutele todas as questões de má fé, todos os actos que, esses sim, acabam por configurar verdadeiros crimes.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Madrigal

O facto de eu saber que a neve é água que congelou, não altera o facto de que os meus olhos não vêem água, mas apenas neve.

A arte é o pensamento dos sentidos: pensamento que pode ser anterior à verdade (quando ignora a explicação do fenómeno), simultâneo da verdade (quando rejubila em torno do conhecimento), ou mesmo posterior (quando a poesia é assumida em liberdade, já sem ilusões quanto à ciência).

Primitivismo, epifania, fantasia: as três dimensões do edifício criativo.