domingo, fevereiro 11, 2007
Pró-escolhas
A blogsemana em links:
- Discordo de algumas destas parcialidades, mas o texto tem piada
- Verdades e verdadinhas
- Alguém lembra o meu Visconti favorito
- O próximo referendo
Bom proveito.
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- Alguém lembra o meu Visconti favorito
- O próximo referendo
Bom proveito.
sábado, fevereiro 10, 2007
Viventes aplicados
Lemos alguns textos como se eles fossem cábulas que nos ensinassem isto sobre x assunto, aquilo sobre assunto y, e etc.
Outros, já os lemos de cor. No fundo, no fundo, já deveríamos saber tudo (a literatura é o mero condicional sem o qual não).
Outros, já os lemos de cor. No fundo, no fundo, já deveríamos saber tudo (a literatura é o mero condicional sem o qual não).
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
Redefinição
Fantasiar não é dar corpo ao impossível, mas à alma do possível.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
O argumento
Um argumento é, pois, um acontecer que necessita de um futuro para se desenvolver, não só como acontecimento, mas também como cumprimento e manifestação de um sentido.
Maria Zambrano (tradução de Maria João Neves).
Com espírito (seriamente) lúdico, e sabendo que estou a abusar da inexactidão, proponho que nesta citação se troque uma palavra apenas, de modo a que a frase se possa aplicar (filosoficamente) ao processo de fazer cinema. Assim:
Um argumento é, pois, um acontecer que necessita de uma rodagem para se desenvolver, não só como acontecimento, mas também como cumprimento e manifestação de um sentido.
Maria Zambrano (tradução de Maria João Neves).
Com espírito (seriamente) lúdico, e sabendo que estou a abusar da inexactidão, proponho que nesta citação se troque uma palavra apenas, de modo a que a frase se possa aplicar (filosoficamente) ao processo de fazer cinema. Assim:
Um argumento é, pois, um acontecer que necessita de uma rodagem para se desenvolver, não só como acontecimento, mas também como cumprimento e manifestação de um sentido.
Casting 8
Raros são os jovens actores que, na bela expressão inglesa, surgem wise beyond their years. O caso mais célebre terá sido o de Lauren Bacall que, com apenas 19 anos, parecia já ter passado por várias guerras, dormido com todos os homens que valiam a pena, e viajado pelos cinco continentes.Mais raros ainda são aqueles que, tendo sido jovens engraçadinhos, fenómenos da mais duvidosa fama, de súbito adquirem carisma na velhice. É o caso de John Travolta, ou de Diane Lane. O modo como hoje se apresentam no ecrã faz-nos acreditar que, de facto, eles aprenderam alguma coisa com a vida. De gente (pouco) gira passaram a gente.
Adenda (sim)
Ao meu pequeno comentário sobre a questão do referendo do próximo domingo, acrescento as seguintes duas impressões:
- Quando sublinho a importância de aceitarmos a parcialidade que a Natureza teve ao entregar a faculdade de concepção à mulher, estou desde logo a defender a futura mãe de ser obrigada a abortar pelo seu (mais ou menos estável) companheiro, e a aceitar a consequência (mais ou menos violenta) do homem ter de assumir sempre a sua real paternidade.
No entanto, fui uma vez confrontado por um defensor do "Não" com a ideia de que, para o homem que pretenda ter de facto o filho que concebeu, é injusto que a companheira possa abortar, defraudando o seu legítimo direito à paternidade. Ora, isto parece-me um típico conflito de direitos (linguagem tão cara aos partidários do "Não"). Por muito válido que seja o interesse do pai, este não pode instrumentalizar o corpo de uma mulher para que ela transporte um feto que, pelas mais variadas e ponderadas razões, não pretende. Uma mulher não é uma barriga de aluguer. Ou seja, a haver polémica, esta funciona apenas entre mãe e feto.
Qualquer discurso em torno do aborto, se bem que deva salvaguardar os interesses do progenitor masculino (e o ideal destas coisas é sempre a família estável), tem de girar sempre em torno da mulher.
- Surge agora a questão dos negócios escuros associados à interrupção voluntária da gravidez. Falso (e oportunista) problema. O facto de haver muita corrupção na construção, aluguer, compra e venda de imóveis, não impede que todas essas actividades estejam permitidas legalmente. Tem é de haver legislação vigorosa e específica que tutele todas as questões de má fé, todos os actos que, esses sim, acabam por configurar verdadeiros crimes.
- Quando sublinho a importância de aceitarmos a parcialidade que a Natureza teve ao entregar a faculdade de concepção à mulher, estou desde logo a defender a futura mãe de ser obrigada a abortar pelo seu (mais ou menos estável) companheiro, e a aceitar a consequência (mais ou menos violenta) do homem ter de assumir sempre a sua real paternidade.
No entanto, fui uma vez confrontado por um defensor do "Não" com a ideia de que, para o homem que pretenda ter de facto o filho que concebeu, é injusto que a companheira possa abortar, defraudando o seu legítimo direito à paternidade. Ora, isto parece-me um típico conflito de direitos (linguagem tão cara aos partidários do "Não"). Por muito válido que seja o interesse do pai, este não pode instrumentalizar o corpo de uma mulher para que ela transporte um feto que, pelas mais variadas e ponderadas razões, não pretende. Uma mulher não é uma barriga de aluguer. Ou seja, a haver polémica, esta funciona apenas entre mãe e feto.
Qualquer discurso em torno do aborto, se bem que deva salvaguardar os interesses do progenitor masculino (e o ideal destas coisas é sempre a família estável), tem de girar sempre em torno da mulher.
- Surge agora a questão dos negócios escuros associados à interrupção voluntária da gravidez. Falso (e oportunista) problema. O facto de haver muita corrupção na construção, aluguer, compra e venda de imóveis, não impede que todas essas actividades estejam permitidas legalmente. Tem é de haver legislação vigorosa e específica que tutele todas as questões de má fé, todos os actos que, esses sim, acabam por configurar verdadeiros crimes.
terça-feira, fevereiro 06, 2007
Madrigal
O facto de eu saber que a neve é água que congelou, não altera o facto de que os meus olhos não vêem água, mas apenas neve.A arte é o pensamento dos sentidos: pensamento que pode ser anterior à verdade (quando ignora a explicação do fenómeno), simultâneo da verdade (quando rejubila em torno do conhecimento), ou mesmo posterior (quando a poesia é assumida em liberdade, já sem ilusões quanto à ciência).
Primitivismo, epifania, fantasia: as três dimensões do edifício criativo.
Confissão 17
Com 18 anos de idade, estava de tal modo em ponto morto automóvel, que tive de ser fortemente manobrado para tirar a carta de condução. E hoje dizem-me que ainda bem: o carrinho far-me-ia tanta falta...
Seja. No entanto, nunca me livrei da impressão de que a falta que esse carro hoje me faz, se deve em parte à própria contribuição do carro para esse estado de coisas (para esse círculo vicioso). Pois se eu não conduzisse, poderia ter construído a minha vida de outra maneira: viveria muito perto do emprego, habitaria o centro de uma cidade, escolheria aliás uma cidade bem servida de metropolitano, até talvez encontrasse uma outra profissão. Quem sabe.
O que eu sei é que agora realizo uma acrobacia que não me dá prazer, sou uma ameaça ecológica, ainda por cima incompetente (16 anos depois, ainda não sei estacionar bem), e sofro com a sensação de que, de cada vez que saio para a estrada, estou a pôr em risco não sei quantas vidas (a minha incluída).
Necessidade? Necedade?
Seja. No entanto, nunca me livrei da impressão de que a falta que esse carro hoje me faz, se deve em parte à própria contribuição do carro para esse estado de coisas (para esse círculo vicioso). Pois se eu não conduzisse, poderia ter construído a minha vida de outra maneira: viveria muito perto do emprego, habitaria o centro de uma cidade, escolheria aliás uma cidade bem servida de metropolitano, até talvez encontrasse uma outra profissão. Quem sabe.
O que eu sei é que agora realizo uma acrobacia que não me dá prazer, sou uma ameaça ecológica, ainda por cima incompetente (16 anos depois, ainda não sei estacionar bem), e sofro com a sensação de que, de cada vez que saio para a estrada, estou a pôr em risco não sei quantas vidas (a minha incluída).
Necessidade? Necedade?
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Partilha 8
(Como juízo não o tenho em abundância, alguns dos livros que desejei escrever, decidi escrevê-los em simultâneo. Estou por isso a trabalhar numa meia-dúzia de projectos ao mesmo tempo. São meses e meses que se passam sem que eu termine seja o que for. Ora agora escrevo ali, depois acolá, e a coisa não se dá por terminada.Visto que consegui concluir uma pequena peça de teatro, resolvi abrir o champanhe sob a forma da partilha de um brevíssimo excerto do texto. É claro que agora a coisa vai arrefecer, e será sujeita a posterior reescrita. Mas isso não impede que o narciso, sempre impaciente, não se mostre um bocadinho.
A peça chama-se "A luz dada não se olha o teatro ". A personagem Beatriz é cega.)
BEATRIZ (entusiasmada)
Estamos no jardim? Naquele jardim de que me falavas?
LUCÍLIO
Não te cheira?
BEATRIZ
Ainda há constelações de diospiros?
LUCÍLIO
Mas tu pensas que as coisas do céu se vão embora assim sem mais nem menos?
BEATRIZ
Tu foste a minha coisa do céu, e permaneceste em mim pouco tempo.
Às vezes penso que não foste tu que estiveste dentro de mim, mas um pássaro, ou outra coisa assim insignificante.
Bem feito
Dom Quixote foi bem-aventurado pelos livros que leu.
Quando se torna bem-aventuroso, o mundo tem demasiados matizes para que ele os possa compreender. Não é louco, apenas simplório.
O real exige uma literatura requintada nos seus advérbios.
Quando se torna bem-aventuroso, o mundo tem demasiados matizes para que ele os possa compreender. Não é louco, apenas simplório.
O real exige uma literatura requintada nos seus advérbios.
Nonsense
Ao longo da sua vida, o Homem sente que vai recuperando o seu ser originário, num processo de auto-conhecimento imprevisível constituído por sucessivos despertares (esta ideia de Zambrano evita qualquer estatismo que pudesse ter sido mal percebido no pensamento socrático).
Mas os despertares do planeta, esses crepúsculos que há uma eternidade criam o dia e a noite em todos os planetas de todas as estrelas, esses despertares nada revelam sobre esse ser originário de tudo que é Deus. O Universo não evolui.
Só o Homem tem ilusões.
Mas os despertares do planeta, esses crepúsculos que há uma eternidade criam o dia e a noite em todos os planetas de todas as estrelas, esses despertares nada revelam sobre esse ser originário de tudo que é Deus. O Universo não evolui.
Só o Homem tem ilusões.
O sonho criador
Maria Zambrano usa a palavra despertar em dois sentidos: o homem desperta dos sonhos em que o sono o embrenha para poder assumir a vigília, mas também desperta da realidade consciente devido à intromissão intermitente da atempo- ralidade onírica na sua vida (atempo- ralidade que lhe permite ir recuperando o seu ser, sem que para isso ele se aliene de uma existência suportável). Esta polissemia do despertar pode até criar alguma confusão ao seu leitor, enquanto ele não se aperceber de que, para a pensadora, o sonho e a vigília estão relacionados entre si como duas transcendências mútuas.A palavra em questão é utilizada com a mesma ambiguidade que colocamos na ideia de crepúsculo: este tanto se refere à transformação da noite em dia, como ao ocaso que esconde a nossa estrela tutelar no outro lado do planeta. De facto, bastaria que Zambrano não pensasse em termos de despertar, e se agarrasse à dinâmica do crepúsculo, para que o seu antropocentrismo evoluísse num sentido quase cósmico. Pois não há nenhum salto qualitativo no movimento da Terra em torno do Sol. Tudo nele é continuidade, não há transcendência.
A autora podia ter encontrado uma espécie de imanência do sonho criador, o que talvez fosse mais libertário. Mas Zambrano é humanista até à medula, entende a nossa espécie sem absurdo. Eu também coloco o Homem como horizonte essencial do meu pensamento, mas a excepção que ele constitui sempre me pareceu mais angustiante do que exemplar.
No fundo, a inteligência humana pode ser a mera aceleração da inteligência do universo.
domingo, fevereiro 04, 2007
Auto
Não há que ter receio do polícia da ignorância: o saber não ocupa lugar.
sábado, fevereiro 03, 2007
No plateau 7
Mas decidira combinar esse procedimento com a sua antiga obsessão pela figura do remake. Assim sendo, o seu projecto consistia na reconstituição de algumas cenas pertencentes a filmes-chaves da história do cinema, reconstituição essa que seria interrompida pelo acima referido movimento de câmara, dando lugar ao ponto de vista aéreo sobre o plateau em actividade em torno de cada uma das sequências. O discurso sobre cada filme (e sobre o cinema em geral) seria transmitido através da encenação desses plateaus, e não através das refilmagens propriamente ditas.
Aplicou o estratagema a diversas obras: "L'Atalante" de Jean Vigo, "You only live once" de Fritz Lang, "La maman et la putain" de Jean Eustache, "Medea" de P. P. Pasolini, "Silvestre" de João César Monteiro. E também refez uma cena de "A lenda da Fortaleza de Surame" de Sergei Paradjanov.
Mas quando chegou o momento de evocar este último filme, deu-se um episódio estranho (um episódio fantástico, para dizer a verdade). A câmara embrenhou-se no seu já rotineiro voo, mas em torno do cenário não apareceu nenhum plateau: o enquadramento continuou a registar as referências visuais do filme de Paradjanov. Conforme o campo de visão da câmara ia aumentando (devido à distância), mais o filme se distendia, como uma realidade alternativa ocupando o lugar de toda a realidade. Como se "A lenda da fortaleza de Surame" constituísse um cinema tão íntegro e intenso que não pudesse ser desvelado por nenhum processo.
A verdade é que todos os filmes se fazem da tristeza que a realidade lhes impôs. No entanto, talvez porque Paradjanov tenha sofrido um injusto e escandaloso encarceramento durante vários anos, neste seu filme a realidade aparece em estado de júbilo imaculado, absoluto ("Ashik Kerib", rodado a seguir, já é tão livre que se torna estranho; o próprio autor declarou que queria morrer após a sua concretização). Daí que o sacrifício contado na lenda (o homem que tem de ser emparedado para que a fortaleza não caia) não seja o resultado de uma vingança (a vidente que exigiu o martírio era uma antiga amante despeitada do emparedado), mas de um equilíbrio do destino (tudo aconteceu assim, porque o universo o exigia).
Só em júbilo pode a realidade não ser ilusão.
O monstro da lagoa negra
Gosto de cinema a duas dimensões.
Só não me venham com os três da praxe.
Mas quando me meto na sala escura, estou pronto para as maiores monstruosidades: cinema a uma dimensão, a zero dimensões, a quatro dimensões, a cinco, a seis, a sete, negativo, raiz quadrada, e etc., e etc.
Só não me venham com os três da praxe.
Coagulação
A partir dos conceitos que a leitura de Maria Zambrano me traz, apercebo-me de que, num desespero, o mais relevante talvez não seja a gravidade da circunstância real que o produz, mas sim o grau com que essa realidade possui o desesperado: o modo como o ocupa de forma excessiva.Daí a impressão que temos de que algumas pessoas se suicidaram por bagatelas, enquanto outras resistiram a holocaustos. Mas não há nisto nem futilidade nem heroísmo. Tudo depende do modo específico (não muito voluntário) como a realidade se relaciona com a nossa disponibilidade para o sonho e para as suas formas análogas (distracção, esquecimento, êxtase, obsessão, alienação, criação artística, etc.).
Tudo depende de como comemos uma romã.
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Citação
A verdade que raras vezes se descobre apresenta-se como uma Pátria que em sonhos - ainda que estejamos acordados - nos chama.
É a mentira ou o semi-engano das figurações que procura ser crida, enquanto a verdade chama como derradeiro período total, cuja figuração apenas se insinua; deserto do pensamento, mar da alma, montanha do coração.
Por isso, quando a verdade é dita parece mentira e não costuma ser crida, enquanto mentira e engano são avidamente tomados como certos, e por isso o inocente, o acusado, o idiota, o exilado, calam. Calam porque fora dessa Pátria a sua palavra pareceria mentira e na pátria não seria preciso falar.
Maria Zambrano (tradução de Maria João Neves)
É a mentira ou o semi-engano das figurações que procura ser crida, enquanto a verdade chama como derradeiro período total, cuja figuração apenas se insinua; deserto do pensamento, mar da alma, montanha do coração.
Por isso, quando a verdade é dita parece mentira e não costuma ser crida, enquanto mentira e engano são avidamente tomados como certos, e por isso o inocente, o acusado, o idiota, o exilado, calam. Calam porque fora dessa Pátria a sua palavra pareceria mentira e na pátria não seria preciso falar.
Maria Zambrano (tradução de Maria João Neves)
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