terça-feira, janeiro 09, 2007

Close reading

Um livro apelativo não é aquele que não conseguimos parar de ler (aquilo que, por patetice, se alcunhou de page turner).

Pelo contrário, um livro seduz quando nos obriga a parar a leitura: a emoção é uma suspensão do tempo. E só em fermata o pensamento se torna peripatético.

A vida é dura

Por amor de Deus - disse Sancho -, que olhe vossa mercê que se dá essas cabeçadas, em tal penhasco poderá dar e em tal ponto, que com a primeira se acabe a máquina desta penitência; e seria eu de parecer que, já que a vossa mercê parece que são aqui necessárias cabeçadas e que não se pode fazer esta obra sem elas, se contentara, digo, com dá-las na água, ou em alguma coisa branda, como algodão; e deixe-me a mim o encargo, que eu direi a minha senhora que vossa mercê as dava numa ponta de penhasco, mais dura que a de um diamante.

Miguel de Cervantes (tradução de Miguel Serras Pereira)

domingo, janeiro 07, 2007

Guarda-post

No escrínio 13

Poema "Abrigo" de Edmundo de Bettencourt:

Presa da chuva corre a prostituta,
corre presa,
e em frente é a porta aberta do palácio que lhe acena.

Mas à entrada,
o resto duma sereia emerge do escuro,
e um lobo acorda do sono dum tapete,
com uma risonha flor nos dentes,

que a uma claridade subterrânea
o palácio está sem tecto,
suas paredes transparecem,
todo ele é uma poça de água cintilando!

Fora,
uma lira de chuva num deserto
acena à prostituta...


No prefácio da edição que a Assírio & Alvim fez de toda a obra de Edmundo de Bettencourt, Herberto Helder (que devido a uma brevíssima troca epistolar comigo, sempre me pareceu uma pessoa de uma correcção excepcional) não revela quais as especiais condições da vida desse poeta que lhe permitiram a luxúria da imaginação do magnífico livro "Poemas surdos" (de onde este texto é retirado). Se isso faz sentido ao nível da reserva da intimidade da vida do autor, penso que no futuro será preciso um conhecimento mais profundo da biografia de Bettencourt para que a força dos seus poemas nos surja ainda mais misteriosa, ainda menos interpretável.

O texto explica-nos, por recursos exclusivamente poéticos, em que consiste a ilusão de um refúgio. A prostituta foge da chuva como quem foge de uma vida sórdida, ou até da própria polícia (ela corre presa) e esconde-se num abrigo. Mas a partir do momento em que entra no palácio (que é metáfora de lar), todas as ferocidades se vão diluindo. É ela própria que retoma a condição sexualmente pura da sereia (se bem que não saibamos qual a parte do corpo da sereia que, como um fantasma, surge no escuro). É o leão, o predador (homem ou polícia), que segura delicadamente uma flor risonha entre os dentes. É a casa que se liberta de tudo o que nela pudesse também constituir prisão: pode-se fugir pela ausência de tecto, pode-se ver através das paredes, o escuro tornou-se água cintilante.

Estar protegido equivale, para o poeta, à liberdade para alucinar. Já se sabe: a ternura transforma o significado de todas as coisas. A rede de metáforas cria então os elos de sentido: a mulher espelha-se numa sereia porque a água as une (chuva para a prostituta, mar para o ser feérico); o palácio é uma poça de água, ou seja, é líquido consolidado por oposição à deriva da chuva; etc.

O que resta à mulher, depois de tudo isto? Volta a olhar o exterior de forma serena. O deserto que existe lá fora (é deserto porque não tem o elemento de maravilhoso do palácio) chama-a, de novo, com uma lira de chuva (no instrumento, as cordas caem como imaginárias tiras de gotas): a polícia tornou-se música.

Ou a prostituta não se consegue manter num lar pois tudo a empurra para a má vida, ou basta-lhe sentir um abraço do lar para se reconciliar completamente com a bondade da vida: pessimismo, optimismo (ideologias). O poeta não diz de sua justiça, e ainda bem. O seu texto tem uma profundidade psíquica e sociológica que nenhum neo-realismo ou moralismo bem-intencionado consegue ter.

Talvez o único abrigo seja o POEMA.


Crónica do guarda-chuva

Dizem as más línguas que o guarda-chuva é um dos poucos esperantos que não evoluiu. Assim como guarda o Homem da chuva, guarda-se a si mesmo da invenção. Afinal, se em equipa vencedora não se mexe, é melhor deixar chover no molhado do que fazer, por capricho, revolução. E a engenhoca é suficientemente ambígua para saber que a sua beleza é só um giro sobre si mesma.

Mas nada pode parar o ciclo da invenção. Ela existe perdida no passado, oculta no presente, nebulosa no futuro. Aliás, a preguiça da imaginação só morre à sede à beira da água, quando a água se faz rogada, quando exige vontade. Isso não acontece no fenómeno da chuva: a água cai para todos, e para matar a sede basta fechar o... guarda-chuva. O guarda-chuva evolui por negação.

Que maior invenção pode haver, portanto, do que usar um guarda-chuva quando faz sol? Se a isso se chama sombrinha, é só para que ninguém se esqueça de que o guarda-chuva a si mesmo se anulou para devir coisa diversa: na caverna de todas as alegorias, o fogo das ironias secou o arquétipo para que ele se tornasse ilusão. De qualquer modo, a essência é apenas uma forma de precipitação (que o digam os perfumes que formam as varetas dos sistemas de pensamento).

Um dia, quando a pintura estiver menos morta, surgirá um movimento estético que substituirá a tela tradicional pelo tecido do guarda-chuva. As ruas serão museus onde as exposições mudarão a cada segundo (curadas apenas pela ignorância do clima), onde os quadros se abrirão e fecharão, serão úteis e inúteis, mas estarão sempre ao preço da chuva. A Sotheby's será um mero clube de meteorologistas.

Também no cinema aparecerá um autor que filmará as suas histórias sempre em picado. As acções transformadoras das personagens surgirão todas do céu. Desgraças, coincidências, reviravoltas, surpresas, finais felizes: será tudo torto argumento escrito pelo divino Certo. Os actores abrirão ou fecharão a câmara sobre as suas cabeças conforme se queiram ou não proteger das narrativas que sobre eles caem. O cineasta limitar-se-á a aperfeiçoar o tecido (luz, nitidez, cor, geometria) esticado entre as varetas do enquadramento. E o sucesso do filme dependerá não do box-office, mas do efeito-Mary-Poppins sobre o espectador.

O guarda-chuva deixará de ser esperanto.


sábado, janeiro 06, 2007

No comment

("O sol do marmeleiro", de Victor Erice)

Partilha 7

(Esta litania amorosa foi publicada no meu livro de estreia, "Se o poema tem areia", de 2001. É um dos meus primeiros rebentos do tempo em que comecei a escrever a sério, e é o texto de que mais gosto nessa colectânea - o que não quer dizer que seja o melhor. Assumidamente lírico, contra todas as grilhetas)


Minha orvalhada de luz
Minha avalanche de fogo
Minha nuvem passageira
Com a forma da Terra inteira
Minha casa
Minha cama
Minha nascente de desejos
Jorrando no útero da voz
Minha copa
Minha cova
Meu epitáfio só de sol
Para o jazigo dos meus beijos
Minha ciranda de arrebol
Meu vau de noite vacilante
Que se cair enverga o talhe
De um oceano esvaziado
Meu descampado de afeição
Com forma de óbolo do olhar
De passaporte de andorinha
Ou de casquinha de luar
Minha asa
Minha ama
Minha alva flor de uma magnólia
Em forma de acha de silêncio
Minha coroa de silêncio

Lição de música

Uma pessoa sensível não é aquela que chora na rosa púrpura do escuro, que dá esmola de vez em quando e de quando em vez (Natal é dia de São Sempre à tarde), ou que cuida de um porquinho da Índia sentimental.

Uma pessoa sensível é aquela que só se sabe resolver em TÓNICA.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Outra versão

O encenador de bancada 2

Lucinda, a amada de Cardénio, é uma personagem misteriosa. Quando se despede do seu namorado, desata a chorar convulsivamente (porque já sabe que D. Fernando congemina pedir a sua mão em casamento, traindo a amizade de Cardénio, que é partido menos vistoso para a sua família). Passados alguns dias, no instante anterior à realização da cerimónia que fará de Fernando seu marido, ela promete a Cardénio que irá negar o consentimento matrimonial, e porventura acabar mesmo com a sua própria vida. Di-lo com lágrimas de mártir e de heroína. No entanto, no momento em que tudo se poderia resolver, ela diz que Sim, aceita o pacto matrimonial: cobarde, demasiado lúcida, ou completamente doida.

Mas por que razão chora ela? O que traduzem essas lágrimas onde não se resolve a contradição entre o seu discurso e a sua acção?

A actriz que interprete este papel não pode ter demasiada técnica (não pode ser alguém como Beatriz Batarda, por exemplo). Contentar-me-ia com lágrimas postas nos olhos a conta-gotas. É preciso que uma genuína incapacidade de representar dor verdadeira (e forte) crie mistério sob o choro.

Como se as lágrimas fossem demasiado quixotescas para a sanchice do rosto.

Casting 7

Dinarte Branco é um actor que traz em si a ameaça do desregramento. De tal modo, que precisa de ser sempre limado, moldado por um encenador, para que o informe não destrua a comunicabilidade do seu jogo.

É ainda um intérprete cujos gestos estão sempre demasiado próximos da ironia. Pode dizer o mais belo soneto de Shakespeare, que nunca deixaremos de sentir os seus pés de bom barro.

Para mim, é o Cardénio de Cervantes: alguém que não merece a loucura que em si descobriu, pela simples razão de que essa loucura não é meritória.

Em guarda

1. No capítulo XX do "D. Quixote de la Mancha", Sancho narra ao seu amo a história de um pastor que, para fugir de uma colega de profissão pela qual já não sentia calores do coração, resolveu atravessar o Guadiana em direcção a Portugal. Ele, mais as suas trezentas cabras. No entanto, como o barco que arranjou só permitia a tripulação de um homem e de um bicho, foi preciso fazer a travessia do rio tantas vezes quantas as cabras sujeitas à emigação. Sancho, enquanto narra minuciosamente as travessias todas que foram necessárias, diz a seu amo que tem de ir contando sempre o número exacto de cabras, sob pena de ele interromper a narrativa. Aborrecido, Quixote incita Sancho a não se deter nessas repetições inúteis, e a avançar no conto. Mas eis que o escudeiro lhe pergunta quantas cabras já passaram o rio, e Quixote não o sabe. Sancho dá por terminado o seu ofício de narrador. Quixote fica frustrado, mas elogia a novidade (a vanguarda) do gesto narrativo de Sancho.
Parece-me que, neste passo aparentemente apenas cómico, Cervantes elenca algumas das mais relevantes características da inovação romanesca:

- a proximidade entre a ingenuidade (no sentido metafísico) e a originalidade

- a necessidade da participação activa do receptor do texto

- o papel da frustração, do corte brusco, da ausência de conclusão


2. Alguns capítulos mais tarde, o pastor Cardénio, quando conta a história da sua desgraçada vida, pede para não ser interrompido em nenhum momento do seu relato (a dor é tanta, que a narração tem de se fazer num sopro único). Quixote interrompe-o, e o pastor deixa a história a meio. Só que a história já tinha atingindo um tal poder de sugestão, que o seu final já era razoavelmente previsível. Não era preciso contar até ao fim. É o que acontece em muita prosa moderna, pós, pós-pós, e etc.

3. Por fim, o resto da história de Cardénio é narrado por este, já não a D. Quixote, mas ao cura e ao barbeiro. Ou seja, o leitor é cindido em dois: primeiro confunde-se com o Cavaleiro da Triste Figura (receptor emotivo que se perde na ilusão da narrativa), depois com dois personagens que se pautam pelo distanciamento perante aquilo que está a ser contado. É o objectivo de toda a grande arte: por um lado, seduzir o espectador, por outro, potenciar-lhe as suas faculdades críticas.

4. Ingenuidade consciente, necessidade da participação criadora do espectador, valorização da elipse e da suspensão, redução da ficção à sugestão, distanciamento do receptor: tudo isto recebemos no magistral cinema de Sergei Paradjanov.
Mais do que qualquer vanguarda, é a mais absoluta das liberdades.

Meet me in St. Louis

O musical é um género cinematográfico que francamente me custa a engolir. E como toda a gente, já não aguento "It's a wonderful life", "The sound of music", "E. T." ou qualquer outro barbitúrico que nos impingem na época caló-rica-rosa de que acabámos de nos livrar. No entanto, apesar de me ter barricado dentro deste rivoelitismo (esta não saiu muito bem), reconheço que há alguns musicais (a dedo escolhidos) que profundamente adoro. "Meet me in St. Louis" combina todas as regras do género com o mais reaccionário kitsch natalício. E é um filme maravilhoso.

Gravei-o uma vez, há muitos anos atrás, para uma cassete VHS. Só que, ou porque a emissão televisiva fora defeituosa, ou porque o suporte vídeo tinha alguma conjuntivite, o facto é que, no filme que eu vi (e com o qual convivi durante muito tempo), as cores estavam tão carregadas, tão rutilantes, tão pincelada de impressionista, que perante o clássico de Minnelli sempre fiz figura de burro a olhar, comovido e de câmara na mão, para o Taj Mahal ou o palácio de Schönbrunn. Mais do que cinema, aquilo era a matéria de que os sonhos são feitos (dizia o outro).

Descobri mais tarde, por azar meu (e perda de um dos muitos três que nos vão abandonando), uma boa cópia. Sim, coisa melhor, tudo no sítio, cores equilibradas, brilhos verosímeis, bem mais bom gosto do que eu supunha. Que tristeza: puseram-me a metadona. Não há problema: ainda hoje penso no filme como uma das memórias mais agradáveis do tempo em que a cinefilia não começara a convalescer.

Amarcord

Sou professor. Com vontade de deixar de o ser se um dia agarrar coisa que mais me satisfaça, é certo, mas sou professor.

Isso não me impede de reconhecer que um dos mais sublimes prazeres da vida consiste em, na adolescência obrigada à escola, baptizar professores chatos (e cheios dos tiques da vida adulta) com as mais escabrosas, insultuosas, e deliciosas alcunhas.

Tudo pelos jovens.

Rede Globo

Soube tarde na vida (demasiado tarde, dirão alguns) que o Vasco Graça Moura não era irmão do Miguel Graça Moura. Soube hoje pelo meu dentista que, ao contrário do que eu sempre supus, o Dr. Emílio Peres, endocrinologista famoso no Porto, não era irmão do Dr. Fernando Peres, estomatologista no Porto famoso, ambos médicos de distintas maleitas de mim mesmo.

Mas aonde é que isto vai parar? Irei descobrir que a Shirley McLaine afinal não é irmã do Warren Beatty (pois se nem partilham apelido)? Seria Sartre irmão da Simone, tendo ambos vivido em sofisticado e existencial incesto comum? Será que nem a Virgem Maria foi a real mãe de Cristo (ainda por cima, o ADN engana quando é o divino que se pretende pôr a limpo)? E os Redgrave, os pobre Redgrave: que grave confusão de sangue reinará em tudo aquilo?

Quanto mais vai ter de sofrer este meu coração, enquanto espectador da vida feita telenovela?

(Este é um post sério)


terça-feira, janeiro 02, 2007

Galeria 17



Herberto Helder

No plateau 6

No primeiro dia de rodagem, não filmaram nada. Jean-Look Spiell Bergman convocou toda a equipa e organizou uma almoçarada descomunal. Hors d'oeuvres (ainda não havia rushes...), prato de peixe, pratos de carne, fruta da era, doces eventuais, tabuada de queijos, café incompatível com adoçante, digestivos, charutos democráticos, tudo em abundância, cozinhado com os melhores ingredientes e segundo as receitas mais secretas.

O objectivo do repasto não era a criação de elos de sociabilidade, o levantamento da moral, ou o cumprimento de qualquer regra ancestral (e tribal).

Jean-Look queria que no filme se sentisse a saudade do prazer, queria que a câmara registasse (nos rostos, nos gestos, nos movimentos de câmara, nas inspirações da iluminação) a lenta digestão que o trabalho sempre provoca da verdade edénica do Homem. Ele acreditava que num filme, tudo ficava registado. Tudo.

A seguir, pensava fazer um filme pornográfico...

Dicionário 5

Não há paciência para as pessoas que colocam (a não ser que o objecto seja a voz), muito menos para aquelas que efectuam, e deus nos livre da tentação de elaborar.

O conspirador de comentários 4


O Homem não faz a sua sorte, mas restringe-a a um conjunto de possíveis.

(pintura de Serguei Paradjanov)

Crítica da crítica

1. Fico sempre amargurado quando valorizo positivamente um texto que, não me tendo comovido nada, se me afigurou, todavia, original.

2. Recentemente, o jornal PÚBLICO noticiou que a tradução da poesia de Herberto Helder para espanhol foi bem recebida pela crítica do país vizinho, em grande parte por causa deste poeta não ser absolutamente indecifrável, ou seja, por o seu hermetismo não ser excessivo (palavras minhas, que eu sou muito perífrase e ponto-acrescentado). Que tédio: com tantas coisas extraordinárias que se poderiam dizer sobre tão extraordinário autor, foi isto que o jornal quis assinalar.

3. Não há nada mais inútil do que um crítico de cinema que venha falar de argumentos bem carpinteirados, elencos de luxo, adequados meios de produção, rossios metidos em betesgas, pretensiosismos indecifráveis, ritmos suportáveis, e sei lá mais o quê. Para cada filme sobre o qual escreve (e só se deveria escrever sobre o que se ama), o crítico tem de inventar um discurso, um estilo, um tom, que traduzam a originalidade que esse filme provocou no seu pensamento. Se não houve faísca, agradece-se o silêncio (que há muito que ler, e muito papel a poupar).