Quando visitei Nova Iorque, experimentei um profundo sentimento de desenraizamento. E no entanto, era um mero turista.sexta-feira, dezembro 29, 2006
My vagabond shoes 3
Quando visitei Nova Iorque, experimentei um profundo sentimento de desenraizamento. E no entanto, era um mero turista.FX
No entanto, no meio da exaltação lírica, apercebo-me de que, hoje, a maior parte dos rios não passa de um drama de poluição. Nas águas calmas dos rios já não nadam as ninfas: é quase tudo merda.
Pergunto-me se, um dia, o mundo tal como ainda o conhecemos (este mundo que herdámos sem precisar de testamento) já só existirá nas imagens que dele consigamos extrair à má-fé. Se, um dia, a beleza de um rio só será possível por efeito especial.
Ser ou não ser
No teatro, a vida está limitada pela presença, pelo espaço, pelas leis da física, pela imperfeição da ilusão. No teatro, o que se passa no palco é uma ameaça para o espectador: o actor pode tocá-lo (o tacto é o mais vivo dos sentidos). O que ali se passa, ali fica. Há mesmo a possibilidade de lá morrer.
Lapa - algumas estranhezas
Nas paisagens de Álvaro Lapa, frágeis imagens que a todo o momento se revelam tecidos presos por cordões, impera uma certa falta de lógica (cores inapropriadas, iluminação errónea, ocultação desconcertante de alguns planos) que me parece conduzida por uma tripla vontade:- Desejo de conduzir toda a satisfação do espectador para a materialidade da própria pintura (a Pintura é A paisagem).
- Prática de uma ironia pseudo-abstracta: os elementos figurativos provocam a estranheza nos não-figurativos, na medida em que o nosso desejo de reconhecimento não é capaz de lidar com a diferença aparentemente qualitativa entre essas duas posturas.
- Realização de uma prática de imanência em que todos os elementos pertencem ao mesmo plano, e por isso provocam uma ambígua, mas imensa, infinitude semântica. É precisamente a hesitação entre figuração e abstracção que permite que o homem se confunda com a rocha, o pássaro, a tenda, ou a árvore. O Homem sai ampliado por todo o possível.
R
Apontamento
Homo economicus
Mas o que me perturba é o facto de que, para que esta economia possa funcionar, os seus agentes precisam de ter uma muito concreta estrutura psicológica (e intelectual). Ou seja, a economia de mercado, à sua maneira, também é totalitária: aqueles que tenham uma relação diferente com o trabalho, com o dinheiro, com a produção, sujeitam-se a ser implacavelmente destruídos pela sociedade.
Infantilidade
A arte do discurso
Cassavetes
Amarante
No piso inferior da exposição dedicada a Amadeo de Souza Cardoso na Gulbenkian, fica mais evidente o esforço do pintor para construir um alfabeto só seu: não tanto ao nível dos assuntos, dos símbolos, ou de uma irredutibilidade icónica, mas a partir da idiossincrasia da maneira de desenhar.
Açores
Natália Correia é mais expressiva ao nível sonoro: ela faz coincidir o momento de mais fulgor de uma imagem inesperada com a consonância autoritária de uma rima, ela faz música violenta.
Má língua
O conspirador de sugestões 4
-a reedição (ou uma nova tradução) do texto de Artaud sobre os índios Tarahumaras (acompanhada do dvd do documentário feito recentemente sobre esse texto e esses índios, filme de cujo título me esqueci... ups)
-uma antologia da obra do ganda maluco Khlebnikov, poeta e delirante russo
-a obra literária completa de Álvaro Lapa
-a tradução integral de "A rosa de ninguém" de Paul Celan
-as teorices de Goethe sobre o fenómeno das cores
-a obra completa, anotada mas portátil, do padre António Vieira
Saco roto (de compras): pedir é fácil, sonhar não custa, e etc., e etc.
Confissão 16
Ainda não comprei o bacamarte do Leonardo, tenho a vergonha na cara de não ter a "Rosa do Mundo" à mão de semear, e agora ando a adiar a aquisição da Bíblia de Annes d'Almeida.Gosto de livros baratos, portáteis (não necessariamente à medida de um bolso), bonitos mas não ofuscantes, bem traduzidos, bem prefaciados (e eventualmente anotados). Sou um daqueles tipos aborrecidos e presumidos que, num livro, o que aprecia é quase só o conteúdo.
terça-feira, dezembro 26, 2006
sábado, dezembro 23, 2006
"The barefoot Contessa" - imagem
O INACTUAL 8
"The barefoot Contessa" - Joseph L. Mankiewicz (1954)A missão de um realizador de cinema é a criação de uma ficção que só se torna verdade quando colide com o corpo de um actor. Aliás, não tanto com o seu corpo (e muito menos com a sua personalidade ou biografia), mas com a sensação-de-alma que esse corpo transmite. A fotogenia não é, portanto, uma categoria técnica, nem decorativa, mas o encontro fusional entre pintura e espírito. Ou seja, o realizador, através do corpo do seu intérprete, tenta abolir a diferença entre imagem e consciência. Sternberg conseguiu-o em "Dishonored", Dreyer em "Gertrud", Fassbinder em "Querelle": Mankiewicz chegou lá em "The barefoot contessa".
De facto, o filme "The killers" (de Siodmak) é interessante, mas tanto poderia ter sido protagonizado por Ava Gardner como por outra actriz qualquer. No extremo oposto, "Mogambo" (de John Ford) e "The night of the iguana" (de Huston) já só sabem explorar o cliché que a star foi construindo filme após filme. Ora, após a visão de "The barefoot contessa", ficamos com a certeza de que Gardner nasceu para fazer esse filme. E que o filme não poderia existir se a actriz o não preenchesse de ponta a ponta.
Na própria história que a obra narra, se mostra a interdependência radical entre um realizador de cinema (Dawes, intepretado por Humphrey Bogart) e uma vedeta de Hollywood (Maria, a personagem de Gardner). Ela brilha quando ele a filma, ele faz bons filmes quando ela os protagoniza.
O triunfo da estrela Maria Vargas não é o triunfo da mera beleza, do mero talento, da mera máquina de propaganda da indústria do cinema. É a sua riqueza individual (a sua grandeza como pessoa) que a torna destinada ao Cinema (enquanto sonho genuíno), ao público, à justiça, à aristocracia. Ela já é condessa, mesmo antes de o ser: o seu estrelato é interior. Não sei se a mulher Ava Gardner era digna de tanta exaltação, mas a imagem Ava Gardner mereceu-a completamente.
Por entre cenas da luta de classes, diálogos venenosos, ódios inexplicáveis, personagens secundárias inesquecíveis, Mankiewicz assume que tudo é encenação (os filmes, o estrelato, a sociedade, a aristocracia, o amor, até a morte), tudo menos o sexo. O cinema equilibra-se, portanto, entre o a sensação-de-corpo do corpo e a sensação-de-alma que esse mesmo corpo pode (poderia?) dar. É a mais velha das profissões de dúvida...
Quando chega o sol no fim, ele varre todas as ficções que tinham sido narradas sob céus chuvosos. Maldito Sol, que é insuportavelmente brechtiano.
Impureza
Assim, um film noir pode ter uma componente de comédia superior à dimensão policial ("The big sleep" de Hawks), uma comédia pode ter menos humor do que pintura ("Une femme est une femme" de Godard), a ficção científica cede por vezes à filosofia ("Stalker" de Tarkovsky), outras vezes à poesia ("Alphaville" de Godard), a evocação pictórica descamba em romanesco ("Une partie de campagne" de Renoir), o ensaio impõe-se ao western ("The man who shot Liberty Valance" de John Ford), pode o teatro ser uma canção ("La ronde" de Max Ophüls), uma reconstituição ser um documentário ("Van Gogh" de Pialat), um exercício de autor revelar-se policial sem solução ("Otto e mezzo" de Fellini).
Podemos pegar num filme, e tentar definir a quantidade e a qualidade da influência de todos os géneros que nele co-existem. "Amor de perdição" de Oliveira: destrinçar o romanesco do teatral, da tragédia, da comédia, do policial, da reconstituição de época, da elaboração plástica, da metafísica, do documento, do canto, da arquitectura, da física, da crítica, de....


