sexta-feira, dezembro 29, 2006

My vagabond shoes 3

Quando visitei Nova Iorque, experimentei um profundo sentimento de desenraizamento. E no entanto, era um mero turista.

Presumo que, quando viajo, sou um ramo de mim mesmo (a habitação faz-me o tronco). E que, por vezes, o excesso de distância espacial faz com que a seiva psicológica não chegue até às flores e aos frutos da satisfação imaginária.

FX

Tenho a filia dos rios. Já escrevi poemas, ficções, peças de teatro, argumentos de cinema, que gravitam em torno do poder de evidência desses entes generosos que permitem a comunicação, o comércio, o lazer, a imaginação. A primeira imagem que postei no blogue foi mesmo a do rio Ganges.

No entanto, no meio da exaltação lírica, apercebo-me de que, hoje, a maior parte dos rios não passa de um drama de poluição. Nas águas calmas dos rios já não nadam as ninfas: é quase tudo merda.

Pergunto-me se, um dia, o mundo tal como ainda o conhecemos (este mundo que herdámos sem precisar de testamento) já só existirá nas imagens que dele consigamos extrair à má-fé. Se, um dia, a beleza de um rio só será possível por efeito especial.


Ser ou não ser

No cinema, a vida apresenta-se infinita. No teatro, acontece o oposto.

Não estou a falar da perenidade do filme (ainda mais assegurada na era digital) por oposição à efemeridade do espectáculo teatral. Digo é que, no cinema, a vida se expande em todas as direcções: o número de intervenientes humanos no filme costuma ser imenso; os espaços da acção podem ser os mais variados, numerosos, e distantes entre si; qualquer tempo, e qualquer distância cronológica, podem ser sugeridos com verosimilhança; a velocidade das acções pode ser manipulada, etc. É aliás, a verosimilhança (permitida pela não-presença) que estica a vida até ao limite, que a multiplica em todas as direcções, ao ponto da morte no cinema ser tão inócua que os cineastas usam e abusam da sua representação sem responsabilidade.

No teatro, a vida está limitada pela presença, pelo espaço, pelas leis da física, pela imperfeição da ilusão. No teatro, o que se passa no palco é uma ameaça para o espectador: o actor pode tocá-lo (o tacto é o mais vivo dos sentidos). O que ali se passa, ali fica. Há mesmo a possibilidade de lá morrer.

Lapa - algumas estranhezas

Nas paisagens de Álvaro Lapa, frágeis imagens que a todo o momento se revelam tecidos presos por cordões, impera uma certa falta de lógica (cores inapropriadas, iluminação errónea, ocultação desconcertante de alguns planos) que me parece conduzida por uma tripla vontade:

- Desejo de conduzir toda a satisfação do espectador para a materialidade da própria pintura (a Pintura é A paisagem).

- Prática de uma ironia pseudo-abstracta: os elementos figurativos provocam a estranheza nos não-figurativos, na medida em que o nosso desejo de reconhecimento não é capaz de lidar com a diferença aparentemente qualitativa entre essas duas posturas.

- Realização de uma prática de imanência em que todos os elementos pertencem ao mesmo plano, e por isso provocam uma ambígua, mas imensa, infinitude semântica. É precisamente a hesitação entre figuração e abstracção que permite que o homem se confunda com a rocha, o pássaro, a tenda, ou a árvore. O Homem sai ampliado por todo o possível.

R

Ser aforrista é o contrário de ser aforista.

Apontamento

O real é mais ubíquo, omnipotente e influente do que Deus. Este precisa da religião, aquele não precisa do realismo.

Homo economicus

Dizia Vasco Pulido Valente, no PÚBLICO de 29 de Dezembro, que há homens que administram a sua vida produtiva sem capacidade de cálculo económico (sem a paciência da visão a longo prazo). Presumo que tenha razão, e que isso explique, em parte, o falhanço português.

Mas o que me perturba é o facto de que, para que esta economia possa funcionar, os seus agentes precisam de ter uma muito concreta estrutura psicológica (e intelectual). Ou seja, a economia de mercado, à sua maneira, também é totalitária: aqueles que tenham uma relação diferente com o trabalho, com o dinheiro, com a produção, sujeitam-se a ser implacavelmente destruídos pela sociedade.


Infantilidade

Os de esquerda gastam espumante com a morte de Pinochet. Os de direita interrogam-se se o champanhe terá idêntico uso aquando da morte de Fidel Castro.

Que lindo, ver esta gente a empurrar os ditadores entre si. Eis a política no seu pior.

A arte do discurso

Quando um homem político inicia o seu discurso dizendo: Portuguesas e portugueses (ou seja, ostentando um feminismo de propaganda e de fachada), perde de imediato o meu respeito e o meu interesse.

Cassavetes

Surgiu-me a ideia de que o título "OPENING NIGHT" não se refere apenas à estreia teatral que esse filme encena, mas também ao facto de que essa noite corresponde ao momento em que os actores/personagens abrem o seu espírito, e assim se revelam mais genuínos, mais inteiros: frágeis.

Amarante

Na obra de Agustina Bessa-Luís, muitas vezes a psicologia das personagens se rege por uma lógica de milagre. Daí as acusações de verborreia irresponsável, falta de plausibilidade, desconhecimento do real, com que se construiu algum preconceito em torno da romancista. Agustina inventa a Verdade.

No piso inferior da exposição dedicada a Amadeo de Souza Cardoso na Gulbenkian, fica mais evidente o esforço do pintor para construir um alfabeto só seu: não tanto ao nível dos assuntos, dos símbolos, ou de uma irredutibilidade icónica, mas a partir da idiossincrasia da maneira de desenhar.

Açores

Vitorino Nemésio tem mais liberdade de concepção: ele divaga, torna o poema impuro, mistura os alhos com o hálito dos bugalhos, amplia, implode, e daí a sensação de desconforto do seu ritmo anti-clássico.

Natália Correia é mais expressiva ao nível sonoro: ela faz coincidir o momento de mais fulgor de uma imagem inesperada com a consonância autoritária de uma rima, ela faz música violenta.

Má língua

Se eu fosse um fotógrafo do tipo Candida Höfer, morreria de tédio.

O conspirador de sugestões 4

Momento de requerimento de serviço público (pedir não custa, sonhar é fácil, e etc., e etc.).

Às diversas editoras que (labore et constantia) ainda conseguem não publicar tudo, eu, Pedro Ludgero, peço que nos facultem o prazer de acesso aos seguintes nadas:

-a reedição (ou uma nova tradução) do texto de Artaud sobre os índios Tarahumaras (acompanhada do dvd do documentário feito recentemente sobre esse texto e esses índios, filme de cujo título me esqueci... ups)
-uma antologia da obra do ganda maluco Khlebnikov, poeta e delirante russo
-a obra literária completa de Álvaro Lapa
-a tradução integral de "A rosa de ninguém" de Paul Celan
-as teorices de Goethe sobre o fenómeno das cores
-a obra completa, anotada mas portátil, do padre António Vieira

Saco roto (de compras): pedir é fácil, sonhar não custa, e etc., e etc.

Confissão 16

Ainda não comprei o bacamarte do Leonardo, tenho a vergonha na cara de não ter a "Rosa do Mundo" à mão de semear, e agora ando a adiar a aquisição da Bíblia de Annes d'Almeida.
Gosto de livros baratos, portáteis (não necessariamente à medida de um bolso), bonitos mas não ofuscantes, bem traduzidos, bem prefaciados (e eventualmente anotados). Sou um daqueles tipos aborrecidos e presumidos que, num livro, o que aprecia é quase só o conteúdo.

sábado, dezembro 23, 2006

"The barefoot Contessa" - imagem

O INACTUAL 8

"The barefoot Contessa" - Joseph L. Mankiewicz (1954)

A missão de um realizador de cinema é a criação de uma ficção que só se torna verdade quando colide com o corpo de um actor. Aliás, não tanto com o seu corpo (e muito menos com a sua personalidade ou biografia), mas com a sensação-de-alma que esse corpo transmite. A fotogenia não é, portanto, uma categoria técnica, nem decorativa, mas o encontro fusional entre pintura e espírito. Ou seja, o realizador, através do corpo do seu intérprete, tenta abolir a diferença entre imagem e consciência.
Sternberg conseguiu-o em "Dishonored", Dreyer em "Gertrud", Fassbinder em "Querelle": Mankiewicz chegou lá em "The barefoot contessa".

De facto, o filme "The killers" (de Siodmak) é interessante, mas tanto poderia ter sido protagonizado por Ava Gardner como por outra actriz qualquer. No extremo oposto, "Mogambo" (de John Ford) e "The night of the iguana" (de Huston) já só sabem explorar o cliché que a star foi construindo filme após filme. Ora, após a visão de "The barefoot contessa", ficamos com a certeza de que Gardner nasceu para fazer esse filme. E que o filme não poderia existir se a actriz o não preenchesse de ponta a ponta.

Na própria história que a obra narra, se mostra a interdependência radical entre um realizador de cinema (Dawes, intepretado por Humphrey Bogart) e uma vedeta de Hollywood (Maria, a personagem de Gardner). Ela brilha quando ele a filma, ele faz bons filmes quando ela os protagoniza.

O triunfo da estrela Maria Vargas não é o triunfo da mera beleza, do mero talento, da mera máquina de propaganda da indústria do cinema. É a sua riqueza individual (a sua grandeza como pessoa) que a torna destinada ao Cinema (enquanto sonho genuíno), ao público, à justiça, à aristocracia. Ela já é condessa, mesmo antes de o ser: o seu estrelato é interior. Não sei se a mulher Ava Gardner era digna de tanta exaltação, mas a imagem Ava Gardner mereceu-a completamente.

O filme está cheio de utopias (por exemplo, o desejo de que o público fosse suficientemente sábio para entender o que vale a pena no cinema), e Mankiewicz é ambivalente e irónico perante elas. Diversos mitos são convocados (Fausto, Pigmalião, Cinderela) para serem todos posteriormente derrubados com a morte de Maria. E se os próprios amores desta evoluem desde um produtor de cinema hipócrita até um aparente Príncipe encantado, o facto é que este príncipe é sexualmente impotente, é uma personagem reduzida ao seu coração, que não pode satisfazer a dimensão descalça da condessa.

Por entre cenas da luta de classes, diálogos venenosos, ódios inexplicáveis, personagens secundárias inesquecíveis, Mankiewicz assume que tudo é encenação (os filmes, o estrelato, a sociedade, a aristocracia, o amor, até a morte), tudo menos o sexo. O cinema equilibra-se, portanto, entre o a sensação-de-corpo do corpo e a sensação-de-alma que esse mesmo corpo pode (poderia?) dar. É a mais velha das profissões de dúvida...

Quando chega o sol no fim, ele varre todas as ficções que tinham sido narradas sob céus chuvosos. Maldito Sol, que é insuportavelmente brechtiano.

Impureza

Nenhum filme pertence a um género único. E nenhum filme é alheio à questão dos géneros. Simplesmente, uma obra pode padecer do excesso de um género específico, enquanto outra cultiva o defeito de todos. E claro, há muitas situações intermédias.

Assim, um film noir pode ter uma componente de comédia superior à dimensão policial ("The big sleep" de Hawks), uma comédia pode ter menos humor do que pintura ("Une femme est une femme" de Godard), a ficção científica cede por vezes à filosofia ("Stalker" de Tarkovsky), outras vezes à poesia ("Alphaville" de Godard), a evocação pictórica descamba em romanesco ("Une partie de campagne" de Renoir), o ensaio impõe-se ao western ("The man who shot Liberty Valance" de John Ford), pode o teatro ser uma canção ("La ronde" de Max Ophüls), uma reconstituição ser um documentário ("Van Gogh" de Pialat), um exercício de autor revelar-se policial sem solução ("Otto e mezzo" de Fellini).

Podemos pegar num filme, e tentar definir a quantidade e a qualidade da influência de todos os géneros que nele co-existem. "Amor de perdição" de Oliveira: destrinçar o romanesco do teatral, da tragédia, da comédia, do policial, da reconstituição de época, da elaboração plástica, da metafísica, do documento, do canto, da arquitectura, da física, da crítica, de....