Agora o sol, o solo, a solo, encadeiam-me nas palavras. Esta madrugada aproximei-me da certeza de que o texto era um ser.
quarta-feira, dezembro 20, 2006
Citação
Crónica do ovo
Três fragmentos do livro inacabado “Branco é”, da autoria de William Black (tradução de Richard Nadir).No escrínio 12
Poema “Matéria orgânica a distância astronómica” de Vitorino Nemésio:
Ó alma da manhã fosforilada
Na crusta daquele pobre caranguejo
Que, apesar de mexer numa pedra azulada
Debaixo da água, na ilha ao longe, eu ainda vejo:
Abres-te a céus de metano e amónia,
A mais de dois biliões de anos biológicos,
Mas és tão nova ao coração maníaco
Do poeta!
Agora mesmo intacta vieste aos sons ilógicos,
Como uma seta.
Imitando a claridade racional
Desta angústia de velho ausente das suas pedras,
Com caranguejos de sangue imaginários nos olhos,
Cascas de dores reais cravadas na sua alma,
Palavras loucas silicadas no seu lápis
E no bafo expelido ao coração das faias velhas.
Apertada ao meu peito, que a perdi,
A milhões de anos-luz para o marciano emigrado
Nalguma galáxia afastada
Quer de Marte quer de mim (que lembro o caranguejo),
Das cinzas de meu Pai, azoto que não vejo,
E até – meu Deus que chamo e não oiço – de Ti.
O poeta lamenta a distância cronológica e emocional de uma suposta recordação de infância (a visão de um caranguejo na água do mar). No entanto, como a infância é aqui identificada com a manhã de uma vida, o autor faz com que esse caranguejo se confunda com o sol. Veja-se: é no sol que a manhã fosforila a sua alma (que a torna incandescente). O próprio caranguejo, avermelhado, está rodeado por patas que fazem lembrar o desenho infantil dos raios de um astro de luz. E a manhã está apertada ao peito do poeta como se tivesse tenazes para nele se prender.
O lirismo de Nemésio é tão contagiante que ele não se contenta com os limites desta metáfora. O poeta tem caranguejos de sangue nos olhos: traço comum nos velhos. Mas logo a seguir, ele fala de cascas de dores reais, querendo talvez assim assumir que esta dor chamada memória pertence ao mundo dos sentimentos imaginários (aqueles que, por poesia, inventamos), e não deriva de uma contrariedade efectiva.
E a insistência no coração? Não será o caranguejo aquilo que bate sob a crusta que a idade do poeta lhe proporcionou?
Estando assim tão carregada semanticamente, é natural que a imagem do caranguejo não esteja perdida na distância de seis ou sete décadas de vida, mas a milhões de (míticos) anos-luz. O frankenpoema faz da sua matéria um monstro.
A emoção do texto balança, portanto, entre tempo verdadeiro e tempo lendário. O pai do poeta é maiusculizado como se fosse Deus, mas logo a seguir é reduzido ao azoto em que se desfez. E a segunda estância parece estar a falar da lua (o coração vítreo no céu da noite), que traz uma angústia biográfica contrastante com a restante inquietação essencialmente metafísica.
E quem é este marciano (mar ciano)? Será Nemésio enquanto poeta (enquanto extra-terrestre existencial) emigrado dos seus Açores natais? Ou será o leitor, sempre estranho ao escritor distante?
Enfim: a saudade e a distância da recordação são tais, que até de Deus esta se afastou.
Noutro poema do mesmo livro, Nemésio fala ainda da constelação de Câncer, e da palavra brasileira para designar cancro. Seria o autor do signo caranguejo? Teria uma doença oncológica? Especulações pouco importantes, pois o que releva é a alma da manhã fosforilada.
To get even is very odd
O lirismo não é a submissão do real à subjectividade, mas o registo da infinita estranheza que liga e separa o eu do Outro (daí o tema recorrente do amor). Não é preciso, portanto, desprezar a metáfora. Ela é válida quando em si mesma contém a denúncia da sua efemeridade (é uma inspiração: logo, logo, põe o poeta os pés na terra). A metáfora é o diálogo.
O coleccionador 2
No brilhante “Dinner at eight”, filme de George Cukor de 1933, depois de um genérico exuberantemente musical, toda a acção decorre com mais nenhuma banda sonora a não ser a voz dos actores a debitarem, com teatralidade, um texto teatral. Por seu lado, a câmara mantém-se discreta enquanto capta um conjunto de personagens sofrendo as mais diversas decadências (físicas, financeiras, profissionais, sentimentais, etc.).
Até que surge uma sequência excepcional, de coleccionador. A personagem de John Barrymore, confrontada com o total falhanço da sua vida, decide suicidar-se. Então, dirige a luz de um candeeiro para o sofá onde pretende morrer (é um projector de luz), e abre a torneira do gás, provocando uma fuga que produz um ruído ao mesmo tempo sinistro e ampliado. É a primeira música do filme propriamente dito. E é também a primeira vez que a câmara se faz sentir através de um movimento muito expressivo.
O encontro da morte com a plena assunção do formalismo funciona como uma charneira que permite a conclusão da obra. A partir daí, o filme torna-se convencional: música constante, os actores podem fingir à vontade, tudo tende para o happy end.
Cukor parece querer dizer que, para que o cinema (e o teatro da vida) possa decorrer, é preciso que a morte se torne sentida, pungente. Todas as personagens vão então sofrer uma morte que as liberta e que permite a dinâmica de uma existência toda feita de excesso de expectativas.
Time is honey
Desde que comecei a escrever um blogue, muitas das ideias que me assaltam já não as conduzo de imediato para a poesia. Muitas delas passam directamente para a blogosfera.
À primeira vista, isto parece nocivo. Ainda sou fiel à minha hierarquia de valores, e continuo a considerar a poesia como a mais importante actividade que faço em torno da escrita. Ou seja, em princípio as energias deveriam estar todas canalizadas para aí.
No entanto, pressinto que esta (indi)gestão de tempo acaba por ser bastante benéfica. Pois esta coisa da bloguice impede-me de recorrer ao poema por dá cá aquela palha, impede-me os textos de circunstância, as tentações diarísticas. Já não escrevo com a consciência antecipada e complacente de estar a fazer um poema dispensável.
E isto não quer dizer que considere que a participação na blogosfera é uma actividade menor, mas que nela encontrei o lugar apropriado para algumas das pulsões que andavam por maus caminhos.
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Confissão 15

Diz isto algo sobre mim.
quarta-feira, dezembro 13, 2006
Quixotismos
Ao contrário do que acontece, por exemplo, em "As mil e uma noites", no livro de Cervantes uma nuvem de poeira não revela o bravo e mítico exército com que sonha D. Quixote, mas um rebanho tão mero que nem ovelhas negras deve ter. O autor desconstrói lugares-comuns.
E assim, aproveita logo para, como quem não quer a coisa, dizer das suas:
- A religião não é mais do que um assunto de carneiros (Quixote imagina que os rebanhos são dois exércitos guerreando por desavenças de fé).
- É o medo que nos impede de viver mais na imaginação do que no real (é a tese de Quixote, que revela não só uma poética visionária da sensação, mas também uma metafísica: o Bem é a coragem da deformação).
- D. Quixote, no fundo, é um homem da palavra, um efabulador literário (Sancho diz que seu amo dava para pregador, pois ele sabe dizer melhor do que fazer).
O autor não aceita menos do que criar os seus próprios lugares-comuns. O seu dizer é fazer.
Dicionário 4
("Don Quixote de la Mancha", de Miguel de Cervantes, tradução de Serras Pereira: também Miguel)
Defendi, há alguns posts atrás, a impossibilidade de sinonímia, dado o afecto com que nós sobrecarregamos cada palavra. Afecto que modelamos nos usos sociais, na nossa biografia, na relação com a cultura, e que pode chegar a deformar o próprio campo semântico de um termo ou expressão: uma triste figura é digna da nossa compaixão, mas uma figura melancólica tem é compaixão (filosófica) por nós.
Cervantes demonstra-nos que por trás de uma formulação existe, mais até do que um sentido de classe social (a fome de Quixote precisa de mais palavreado e assume menos a sua pungência), um pressuposto de PERSONAGEM. Cada palavra comporta, a partir do trampolim do dicionário, um indício de romanesco que só precisa de um autor que o faça equivaler a um ente de carne-tinta e osso-celulose.
Propõe-se aqui um breve repasto ficcional em torno da palavra fome (não há ausência de método que não dê em escrita criativa). Para cada sinónimo, proponho um personagem indefinido ou ainda mais.
FOME - Quem assim a verbaliza é um trintão de classe média, homem entediante sem interesses literários nem ouvido para o discurso alheio, talvez com ambição de ser notário. Usa a palavra quando está mesmo aflito, e declama-a como se estivesse a dizer um palavrão. Ao filho, ensina-o a tratar o sexo por pénis. Guia um carro com motor alemão.
APETITE - Verbo de eleição de um jovem cravista que odeia a música do século XIX. Lê "O Tripeiro", frequenta meios religiosos para engatar seminaristas, toma duche mais do que uma vez ao dia, e é incapaz de provar sushi. Viagem de sonho: o Peloponeso (?).
AVIDEZ - Pobre frustrado: o que este queria era ser escritor, e nunca tomou consciência disso. É um bom garfo, e tem o paladar tão requintado que, se fosse provador de imperador romano, morreria a tentar definir as minudências do sabor do veneno. Está sempre desempregado, nunca se sabe muito bem porquê. Namora exclusivamente mulheres estrangeiras.
LARICA - Palavra exibida por um vendedor de sapatos que tem a mania que é marialva e que gosta das coisas do povo. É frequentemente convidado para apresentar Concursos de Miss Vestido de Chita. Há anos que usa as pastilhas azuis. Há anos que usa patilhas (independentemente das modas).
SOFREGUIDÃO - A única senhora do grupo. É obesa e sabe porquê. Mesmo assim, arranja namorados esculturais, e vive mais de noite que de dia. Há quem desconfie da virilidade de tais moços, mas não faz mal: ela precisa demasiado de viver para se preocupar com pormenores. Depois do pós-doc sobre a pós-modernidade nos hábitos alimentares, quer fazer parte de uma missão na África subsariana. Nunca regressa de lado nenhum.
terça-feira, dezembro 12, 2006
O coleccionador 1
"Rapace" de João Nicolau e "Les deux vies de la serpent" de H. Cisterne estão a ser exibidos conjuntamente, no Porto. De cada um dos filmes, extraí um plano para a minha colecção de raridades.No filme português, escolhi o travelling que capta a fachada de diversos bancos, que me parece um dos planos mais genuinamente divertidos que o cinema me serviu recentemente (e que difícil é filmar com humor...). A graça advém de que, tendo a imagem tudo para ser extremamente lírica dada à conjugação do movimento sensual com um ângulo estranho (faz lembrar alguns momentos de "Belarmino"), esse lirismo é contudo destruído pelo assunto filmado: instituições bancárias. João Nicolau (herdeiro do musical filtrado por Godard e César Monteiro) é, de facto, cineasta.
Na obra de Cisterne, encontrei um plano de génio. Quando o adolescente observa a mulher mais velha de uma espécie de trupe de feira, a sensualidade que se pretende transmitir é ao mesmo tempo questionada e ampliada pela súbita visão de um automóvel a viajar pelos ares e a estampar-se no chão. Tudo isto na mesma imagem. Sem sair do âmbito do realismo, é possível atingir momentos de uma intensidade quase feérica.
domingo, dezembro 10, 2006
No plateau 5
Jean-Look Spiell Bergman pôde finalmente materializar um projecto acarinhado desde o início do seu trabalho criativo. O filme chamava-se "L'Atalante - remake líquido", e consistia na reencenação dessa obra-prima, tomando como pressuposto a acentuação do papel que a água teve tanto na narrativa como na mise en scène de Jean Vigo.Sexta passa
(Sem metamorfose, claro, mas também sem metáfora)
Cinema




