terça-feira, dezembro 12, 2006

O coleccionador 1

"Rapace" de João Nicolau e "Les deux vies de la serpent" de H. Cisterne estão a ser exibidos conjuntamente, no Porto. De cada um dos filmes, extraí um plano para a minha colecção de raridades.

No filme português, escolhi o travelling que capta a fachada de diversos bancos, que me parece um dos planos mais genuinamente divertidos que o cinema me serviu recentemente (e que difícil é filmar com humor...). A graça advém de que, tendo a imagem tudo para ser extremamente lírica dada à conjugação do movimento sensual com um ângulo estranho (faz lembrar alguns momentos de "Belarmino"), esse lirismo é contudo destruído pelo assunto filmado: instituições bancárias. João Nicolau (herdeiro do musical filtrado por Godard e César Monteiro) é, de facto, cineasta.

Na obra de Cisterne, encontrei um plano de génio. Quando o adolescente observa a mulher mais velha de uma espécie de trupe de feira, a sensualidade que se pretende transmitir é ao mesmo tempo questionada e ampliada pela súbita visão de um automóvel a viajar pelos ares e a estampar-se no chão. Tudo isto na mesma imagem. Sem sair do âmbito do realismo, é possível atingir momentos de uma intensidade quase feérica.

domingo, dezembro 10, 2006

No original


L'ATALANTE - Jean Vigo

No plateau 5

Jean-Look Spiell Bergman pôde finalmente materializar um projecto acarinhado desde o início do seu trabalho criativo. O filme chamava-se "L'Atalante - remake líquido", e consistia na reencenação dessa obra-prima, tomando como pressuposto a acentuação do papel que a água teve tanto na narrativa como na mise en scène de Jean Vigo.
Na cena pungente em que o marido procura, como um louco, a mulher desaparecida para as seduções da grande cidade, Jean-Look tinha decidido encenar a acção com referência a um elemento forte como a chuva. Não só porque a chuva só pode ser filmada na sua relação com a luz (o que lhe parecia atender ào estado de dupla condição espectral da personagem feminina e da ontologia cinematográfica nesse momento da narrativa), mas também porque as superfícies chovidas estão condenadas a tornarem-se espelhos que são sempre mágicos devido à sua intensidade.
A sequência revelou-se menos complexa do que se supunha. O ecrã negro (anoitecido) começava por estar habitado pelo som reconhecível de uma forte chuvada. Por vezes, uma explosão de luz (um relâmpago, a luz da montra de uma loja, um candeeiro) revelava a deriva ansiosa do sucessor de Jean Dasté através da grelha inconstante da precipitação. Por fim, a chuva cessava, e no chão urbano molhado, surgiria a imagem-fantasma mulher vestida de noiva.
O que atormentava Jean-Look era um problema técnico. Deveria ele criar esse reflexo-citação recorrendo ao processo antiquíssimo da transparência, subjugando o plateau a truques virtuosos de encenação, ou facilitando um efeito digital? Ou seja: passado, presente, ou futuro?
Jean-Look acabou por decidir fazer a projecção do filme de Vigo no ecrã de água. Por coerência com os assuntos que pretendia tratar.

Sexta passa

No próximo ano, desejo tornar-me uma ave migratória.

(Sem metamorfose, claro, mas também sem metáfora)

Cinema


Em relação ao trabalho plástico que F. Calhau fez em torno do negro, tenho a sensação de que a infinita gama de emoções, pensamentos ou imagens que ele convoca, só pode ser pressentida quando estamos na presença física das obras. Quando estas se projectam ao vivo para nós. E isto não é aplicável a qualquer autor.
pintura que não pode mesmo ser dvdida.

Itálico sem aspas

Em confirmação disto, também eu vou lendo poemas nas páginas científicas dos jornais.
No entanto, não procuro as formas usuais do fazer lírico, mas as fórmulas com que a ciência consegue ser mais grave do que gostaria. Assim, o meu exemplo balança entre o mero documento, a arte poética, e a fábula filosófica:
(...) os pássaros urbanos desenvolveram cantos mais curtos, variados e agudos para que possam sobressair ao som de comboios, aviões e do tráfego automóvel.
(Jornal PÚBLICO)

Epifania condicional

Gostaria de ter escrito isto.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Galeria 14


Tsai Ming-Liang

Cautela

Pelo sim, pelo não, vou votar no referendo. Se não me sair a sorte grande, sai-me pelo menos a terminação.
(Este não é um post ambíguo)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Café


O trabalho finge não ser trabalho quando em torno do prazer.

Partilha 6

(O seguinte fragmento faz parte da minha novela não publicada "O ofício de habitar personagens". Como em princípio o irei retirar do texto final na medida em que ele não se insere bem no ritmo geral da escrita, deixo-o aqui partilhado. É o momento em que a personagem principal, Benjamim, assume a rotina de um trabalho de café.)
"Mas como ninguém navega para as Índias Espirituais sem recorrer ao modem da realidade, Benjamim desceu à terra – este mar era étagée là-haut comme sur les gravures. A rotina não tem muito que se lhe diga, mas tem bastante que se lhe faça. A máquina do Cimbalino, complicada como uma comédia isabelina, pedindo instruções muito precisas para construir o sabor do café, do descafeinado, do mero carioca; ou a torradeira que já nasceu velha, e que tenta mitigar as rugas que apertam o pão com delicados cremes de manteiga; os boiões de guloseimas, trazidos de Arábias do passado pelos dromedários da mitologia; a prisão dos criminosos maços de cigarros, esporadicamente libertos pela amnistia de alguém que não tem medo da vida; as passerelles de pastéis, imponderáveis notícias para a fome cor-de-rosa; o glaciar de garrafas, império dos sentidos a ser bebido com degelo… Todas estas coisas, que aqui dizemos com graça porque não sabemos escrever de nenhum outro modo, dão muito trabalho. Um trabalho mecânico, redutor, que só pode ser feito com alegria se a alegria já pertencer ao programa do trabalhador – contingências de robótica."

terça-feira, dezembro 05, 2006

"Viaggio in Italia" - imagem

O INACTUAL 7

"Viaggio in Italia" - R. Rossellini (1953)

Rossellini descarna as duas pulsões que sempre acompanharam o seu cinema (a ficção e o documentário) de modo a que elas possam conviver como um casal sem ilusões. Assim, "Viaggio in Italia" pouco mais capta do que a influência do real sobre duas personagens imaginárias (um casal em viagem por aquele país, descobrindo a fragilidade da sua relação). Mas mesmo essas personagens parecem sucedâneos do autor e da sua verdadeira mulher na altura (Ingrid Bergman), de tal modo o filme se apresenta doméstico (Rossellini parece ter filmado apenas para dizer à companheira que, apesar de tudo, ainda a amava). Filme barato, avesso à qualidade (literária, técnica, plástica), pessoalíssimo, ao mesmo tempo desequilibrado pela presença dos famosos actores (Bergman e George Sanders), belos, snobs, estelares, dois mitos caminhando por entre os simples, na paisagem.

Disponível para a preguiça e até para o humor, o filme constrói os seus dois retratos a partir da digressão das personagens. O marido aproxima-se de várias mulheres (diz-se que a virilidade está mais sujeita aos imperativos do corpo). Em contrapartida, a personagem de Ingrid Bergman segue a influência espiritual de um homem do seu passado (um suposto poeta), e por isso percorre, não outros homens, mas as sugestões de um poema que traz decorado. Os guias que ela encontra nos seus passeios não passam de caricaturas masculinas, pois ela está em busca de uma alma. Homem e mulher divididos porque ele procura o real na ficção, e ela a ficção no real?

Quando o dois encontram os cadáveres de um casal morto nas famosas erupções de Pompeia, vêem-se a si mesmos mortos no seu amor. Ou porque o sentimento se está de facto a extinguir, ou porque o desejo final de todos os amantes é a comoriência - o espelho é ambíguo. Ambíguo também o fim: terá Deus metido uma colher benéfica entre aqueles amantes, ou será a religião um cinema tão forte que consegue convocar todos os mistérios da vitalidade, do amor, e da morte? É irrelevante ser ou não ser ateu. O que importa é como se crê no mundo.

Perversamente, Rossellini filma (o seu país, o seu argumento, a religião, o amor, Ingrid Bergman, ele mesmo) como um estrangeiro. Daí a sensação de desconforto ideológico que sentem todos os que o querem catalogar. Lega-nos o mistério como ética de vida, e um conjunto de imagens nuas sobre o mais belo dos países: uma Itália palradora, fértil, sonolenta, crente, e indiferente a toda a cortesia.

domingo, dezembro 03, 2006

Por Amadeo...


(Aprender a ler a Natureza)

De bestas a bestiais

Espinosa dizia que, para um Homem, aquilo que mais lhe podia assegurar a conservação e a alegria era o interesse por outro Homem.

Por outro lado, ninguém respeita a Natureza se a tratar com uma piedade que ofenderia a própria Natureza. Como se diz aqui, há algo de ridículo na moda vegetariana.

No entanto, se as pessoas sensíveis não fazem mal às galinhas mas cometem atrocidades no relacionamento com outros humanos, o facto é que há quem faça mal à galinha e à vizinha, e quem tenha pingos de decência para oferecer a todos os vivos do planeta. Esta coisa de nas touradas se respeitarem os touros, ainda me deixa um pouco perplexo.

Se somos mais história que natureza (como dizia o Ortega), qualquer uma daquelas duas pulsões nos fez carnívoros, pastores, cavaleiros, dominadores da Terra. E ainda não conhecemos nada no Universo que a nós se compare em grandeza e mesquinhez. Mas penso que não é preciso exagerar. Podemos continuar a dessacralizar as vacas entre os nossos dentes sem que isso nos impeça um mínimo de ética animal.

Sentir-me-ia melhor como Homem (inclusive, como Homem espinosano), se pudesse ver os animais a viverem com um pouco de ar fresco, com a possibilidade de darem umas corridas, umas fodas, e de executarem um pouco do seu instinto (da sua Natureza).

A carne pesa-se ao quilo. A vida mede-se em dignidade.


Não sou especialista

O que está em causa na TLEBS não é a legitimidade do progresso da ciência linguística. Se a ciência avança, temos de partilhar os seus pontos de chegada e de desconforto. E é claro que a terminologia tem de ser comum a todos os falantes de uma língua.

No entanto, se o objectivo é ensinar a LEITURA e a ESCRITA às crianças e aos adolescentes, parece-me que isso tem de ser feito com base em metodologias e conceitos muito simples, claros, e sugestivos. Os conceitos de ponta (exactos, mas frios e impronunciáveis) vão certamente atrapalhar a aquisição daquelas competências. Imagine-se se alguém tinha que saber os mais intrincados detalhes da mecânica para poder conduzir bem um automóvel... Ou então, que precisávamos de conhecer os nomes dos músculos para aprendermos a andar de bicicleta.

Não é uma questão de escolher entre os alicerces e os palácios da literatura, como levianamente disse Rui Tavares. A escolha faz-se entre uma escola eficaz (e diga-se, arejada) e um ensino toldado pela nostalgia da memorização de conceitos e definições. Já sabemos que os quilos e quilos de subtilezas linguísticas, que até agora tivemos de engolir, não deram origem a uma sociedade que se distinga propriamente pela literacia (quanto mais pela literatura...). Ensinar a ler e a escrever é uma generosidade que se confunde com a diluição das fronteiras e a agilização das burocracias do nosso pensamento.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Por Max Ernst...


O SOL

Galeria 13


Hildegard von Bingen

No escrínio 11

Poema de Hildegarda de Bingen traduzido por J. Félix de Carvalho e José Tolentino Mendonça:


De Santa Maria
Responsório

Ó como preciosa é
a virgindade desta Virgem,
que tem fechada a porta,
e cujas entranhas a santa Divindade
com seu calor inundou,
assim que nela cresceu a flor,
e o Filho de Deus
no secreto mistério dela
aurora resplandeceu.

Por isso o doce gérmen, seu próprio Filho,
através da clausura do seu ventre
o paraíso abriu.
E o Filho de Deus
no secreto mistério dela
aurora resplandeceu.
Confesso que isto de colocar latim na internet me dá um certo gozo. Se tudo aqui é suposto ser navegabilidade, quando uma língua morta é apanhada na teia virtual, não podemos deixar de imaginar que a blogosfera fica habitada por espectros de um mundo que já não ou ainda não é nosso. Um manjar estranho para a aranha da comunicação.
Hildegarda de Bingen foi abadessa, ganda maluca (há quem diga mística), escritora, compositora, pintora, acima de tudo mulher famosa e influente num século XII avesso a tais feminismos.
Há algum tempo atrás, a Assírio e Alvim publicou um livrinho com parte da sua produção poética. A primeira ideia que o livro me deixou é que Hildegarda era bastante obcecada com a ideia de virgindade (quase todos os textos mais fortes rodam em torno deste assunto). Como não conheço biografias da senhora (e desconfio que a Idade Média só poderá ser de facto conhecida após a invenção da Máquina do Tempo), aceito todo o tipo de opinião sobre tão irrisório tema. Faites vos jeux. Podemos dizer que tudo isto é uma farsa (Hildegarda foi mulher poderosa numa instituição poderosa). Podemos ser mais prosaicos e acusar a casta poeta de ser apenas doida varrida. Podemos entendê-la como funcionária do poema, trabalhando em torno do mito como o fazem todos os que se inscrevem em tal profissão de fé. Haverá umas senhoras provocadoras que falarão de lesbianismo (o voto de castidade também pode ter orientação sexual...). Mas ninguém deve colocar de parte a hipótese da abadessa poder ser um indivíduo excepcional. Em Deus não acredito eu, e por isso os supostos santos me parecem mais personagens do que humanos seres.
Seja como for, nada me impede de fazer uma leitura profana desta poesia tão serenante (apesar de não serena). É o meu responsório ateu.
Nos vários poemas sobre a virgindade (o texto transcrito é um mero exemplo), a condição da mulher pura é sempre misturada com a adoração do Sol. Num dos seus momentos mais magníficos, Nossa Senhora é comparada ao astro-rei, enquanto Deus, mera águia (violento, portanto), a contempla com intelectual desejo. Mais: bastou que o Criador concebesse o projecto de uma virgem para resolver o problema do despacho de seu Filho para a Terra, para que uma flor brilhante nascesse em Maria quase à revelia desse mesmo Criador (como se Ele tivesse um inconsciente criativo que afinal dirigisse o seu impulso só na aparência omnipotente). Noutro texto, Maria cria raiz no astro solar, e enquanto este lhe fornece a perfeição da circunferência e o abraço dos mistérios divinos (compreende-a nos vários sentidos de que a Terra não é capaz), é ela quem brilha. E brilha serena e fresca, como se a estrela devesse mais à estilização da pintura do que à verdade científica.
O que Deus traz à Virgem é o calor. E ela limita-se a expulsar de si mesma uma flor brilhante, uma flor de luz (Cristo resplandecendo a aurora). Daqui se tiram várias conclusões. Por um lado, o convivío com o Sol (com a luz) exige uma espécie de virgindade radical da nossa parte (lirismo puro, sem peso religioso: arte de vida). Por outro lado, o acto de parir está desde sempre equiparado à ideia de dar à luz.
Por fim, aquilo que ouço da voz distante de Hildegarda é que a mulher só é virgem no momento do parto. O que acontece antes ou depois é assunto de outra poesia (onde o sexo existe sem taras). Aqui sublinha-se, com paixão, a absoluta esperança que o nascimento de cada nova criança implica. E se alguma beleza há na história da carochinha da concepção sem pecado da Virgem Maria, é esta vontade utópica de que essa constante virgindade, esse estado perene de esperança, se possa estender para trás e para diante do momento do parto. Coisa impossível, já se sabe. Há mais noite do que estrelas no Universo.

No original

De Sancta Maria
Responsorium

O quam pretiosa est
virginitas Virginis huius,
quae clausam portam habet,
et cuius viscera sancta Divinitas
calore suo infudit,
ita quod flos in ea crevit,
et Filius Dei
per secreta ipsius
quasi aurora exivit.

Unde dulce germen, quod ipsius Filius est,
per clausuram ventris eius
paradisum aperuit.
Et Filius Dei
per secreta ipsius
quasi aurora exivit.

Hildegard von Bingen