sábado, novembro 11, 2006

No escrínio 9

Poema "Assis" de Paul Celan, traduzido por João Barrento:

Noite úmbrica.
Noite úmbrica com a prata do sino e da folha de oliveira.
Noite úmbrica com a pedra que para aqui trouxeste.
Noite úmbrica com a pedra.

Mudo o que entrou na vida, mudo.
Esvazia e enche os jarros.

Jarro de terra.
Jarro de terra que traz no barro a mão do oleiro.
Jarro de terra que a mão de uma sombra para sempre fechou.
Jarro de terra com o selo da sombra.

Pedra para onde quer que olhes, pedra.
Deixa entrar o burrico.

Animal a trote.
Animal a trote na neve espalhada pela mais nua mão.
Animal a trote adiante da palavra que se fechou.
Animal a trote que vem comer o sono à mão.

Brilho que não consola, brilho.
Os mortos, Francisco, ainda pedem esmola.

Este poema (escrito por um judeu inquieto a propósito de um santo católico) foi inserido no livro "De limiar em limiar", publicado por Celan em 1955 (quando contava com cerca de trinta e cinco anos de idade), e dedicado à sua mulher Gisèle.
Não será absurdo perceber aqui (como Felstiner) uma alusão encapotada ao filho que o casal esperava, mas que acabou por morrer. A criança chamar-se-ia François, e de facto, se na vida entrou, entrou muda. Mas parece-me que esse não é um bom ponto de partida.
Há, na poesia de Celan, um espírito de bifurcação ao nível da ambiguidade. Pois se o discurso é geralmente bastante claro (aqui, a constatação de uma agónica Espera de índole religiosa, na qual a polémica em torno do Messias parece diplomaticamente ocultada), os seres convocados para dar corpo a esse discursso tanto podem ser valorizados positiva como negativamente. O que, desde logo, baralha as regras do jogo: é o discurso que costuma ser hermético, não a realidade. Por exemplo, a pedra que aqui se evoca, tanto se pode referir às edificações religiosas da cidade de Assis (e não nos esqueçamos que S. Pedro foi a primeira pedra da Igreja), como pode ser a esterilidade monótona que o olhar contempla no verso onze. Outro exemplo: no fabuloso poema Recordação, o poeta valoriza o figo e humilha a amêndoa sem que haja qualquer complacência simbólica nessa opção de afecto. Simplesmente, o real apresenta-se-nos mudo, pedra, e é o discurso que o contorna, que o usa para fazer sentido, sem contudo lhe corromper a liberdade e a amplitude.
O tom do poema é humilde porque o homenageado é S. Francisco. Os versos seis, doze, e dezoito, descrevem um quotidiano simples: a renovação (esvaziar e voltar a encher), o acolhimento (do animal, criatura prezada pelo santo), e a súplica. O trabalho do dia a dia confunde-se com a prática religiosa: um é espelho do outro. É essa a missão do santo, do poeta, do homem, enquanto se movimentam a trote, na terra, em plena noite.
O poema fala de uma certa mão: é claramente a mão de Deus, que selou a terra com uma sombra, com a noite nevada, melhor dizendo: com o Seu silêncio. No entanto, não esqueçamos que umbria pode aludir, mais do que a uma região de Itália, à parte ocidental de um monte que está na sombra quando o sol se levanta. Mas continuará assim, quando o astro já está no oeste? E no belíssimo poema que neste livro Celan dedica a René Char (os vasos comunicantes...), não é a noite equiparada à Palavra destinada a amanhecer?
O brilho (da prata do sino, talvez das estrelas) não consola. É que essa prata é afinal a da moeda de um Deus cuja Mão continua a negar aos Mortos suplicantes a sua Salvação.
Ainda?
(O poema é suficientemente vago para poder ser levado numa direcção um pouco divergente desta)

Vasos comunicantes














Assis:

S. Francisco (por Giotto), a cidade , oliveiras

quinta-feira, novembro 09, 2006

O INACTUAL 6

"Cinco" - Abbas Kiarostami (2003)

Sobre este seu filme, documentário que não se distingue do poema, Kiarostami revelou que a estratégia que adoptou foi a redução da sua intervenção (a realização) quase até ao valor zero. Curiosamente, o resultado não podia ser mais distante do aleatório, do caótico, ou do vazio. Dada a sua raridade, cada gesto criativo adquire uma inesgotável ressonância de sentido, assim como uma autoridade expressiva que renova, de facto, o legado que pretende homenagear (o cinema de Yasujiro Ozu).
Lemos o filme plano a plano.
1. O primeiro plano parece ser, ainda, uma espécie de prólogo (o assunto é um mero tronco). Apresenta-se o problema que o filme vai debater: a relação entre as forças da criação (neste caso, a tirania do enquadramento) e as potências da vida (aqui metaforizadas na improvisação do mar). O mar parte um tronco em duas partes. Uma das partes começa a andar à deriva devido à agitação das ondas. De repente, o tronco sai para fora de campo - o cinema tornou-o invisível. Depois aparece noutra região da imagem, apenas para desaparecer no mar - a vida tornou-o invisível. Mar e câmara trabalham em conjunto para encenar, mas o desaparecimento na vida é mais radical que o desaparecimento no cinema. Por enquanto?
2. O segundo plano, o mais próximo do típico cinema do autor iraniano, é um haiku de infinita ambição. Na orla marítima, o movimento das pessoas faz lembrar o movimento errático mas cíclico das ondas no plano anterior. Os homens são levados pela vida como o tronco era levado pelo oceano. Algumas pessoas descem para a praia, e entram numa zona de ocultação. Ao fim de algum tempo, quatro indivíduos param para conversar. Espontaneamente, forma-se uma comunidade humana. Frágil, breve, parcialmente derivada do acaso. É uma lição de História (Kiarostami é um aparente pedagogo).
3. Abandonamos qualquer ilusão didáctica, e entramos numa área mais abstracta e indefinível. Um conjunto de cães repousa ociosamente na praia. Muito lentamente, a imagem fica cada vez mais sobreexposta até tudo se dissolver num branco incandescente. É de novo uma demonstração do poder do cinema, não aquele que deriva do enquadramento (da fronteira), mas o poder da ocultação e da duração (da morte e da eternidade). Desesperadas, as ondas criam variações minimais na brancura em crescendo.
4. Segue-se uma parábola. Seguindo a direcção sugerida pelas ondas do mar (direcção que resulta da forma como estão enquadradas), um conjunto de aves atravessa a imagem da esquerda para a direita. Ao fim de algum tempo, regressam na direcção contrária, mas em maior número, num grupo mais denso, e com mais velocidade. Dois sentidos, pelo menos, são decifráveis: ou a cena é a representação da Onda da vida (difícil na subida, fácil na descida), ou o retrato impiedoso da carneirada, como se a comunidade já não pudesse ser exemplar (fundada numa necessidade genuína). Pobres aves: tão inutilmente atarefadas quanto os cães permaneciam repousados.
5. Tudo se torna abstracto. Tanto ao nível da imagem (negrume nocturno, reflexo da lua fraccionado na água em movimento, nuvens negras visíveis devido ao luar), como do som (um cão a ladrar e um pássaro a piar, trovoada e, por fim, a chuva). O mundo das trevas (a ocultação decisiva) é uma pintura abstracta, dramática e desesperada; é também uma composição musical, improvisada; é uma canção sem palavras. O cinema transforma-se numa coisa outra, no limite de si mesmo. No fim, regressa a manhã: como se o cinema tivesse de ultrapassar a sua própria fronteira (a sua dissolução), para poder retomar uma mensagem de esperança. Disso depende a comunidade.
Kiarostami tem estado em silêncio. Talvez já esteja para além da criação. Ou então, prepara uma arte plena de luz.

J'entends plus la guitare


Alguns dos diálogos mais belos do cinema, reduzidos a cinzas pelo branco queimado da imagem e da droga (do conteúdo e da forma, respectivamente).
(Realizador: Philippe Garrel)

quarta-feira, novembro 08, 2006

O conspirador de comentários 1



A leitura é um constante processo de desenquadramento.

(Imagem gentilmente roubada ao blogue Câmara Clara)

Blogante

Inicio a leitura do "Dom Quixote". Já tudo, mas mesmo tudo, terá sido dito sobre o seminal romance. Mas tal não me impedirá de ir fazendo o diário da minha leitura, sem outra ambição que não seja a de me entender comigo mesmo e com o mundo onde me romanceio. Tentarei registar apenas o que for menos óbvio.
O magistral Prólogo da obra, para além do procedimento gracioso que prolonga o escritor num amigo que só pode ser imaginário (o eterno tema do duplo), leva-me a supor que essa cisão já é uma previsão da parelha Quixote/Sancho. Pois enquanto o autor está cheio de pruridos morais que o impedem de contornar a feitura de um prólogo tradicional, o amigo resolve tudo às três pancadas, com uma esperteza saloia que é tão justa que não se confunde com desonestidade. Se a coisa se pauta por convenções, não merece outra atitude que não seja a manha. Concordo: todo o escritor assim deveria tratar a sua badana, todo o cineasta o seu trailer, etc.
Esta fusão Quixote/Sancho dá frutos imediatos no primeiro capítulo, quando o fidalgo em processo de conversão em cavaleiro andante, tendo a primeira experiência que faz com as suas armas redundado num fracasso, decide não voltar a testar a eficácia destas mesmo após uma tentativa de melhoria. Isto tem tanto de Quixote (não querer confrontar-se com a realidade) como de Sancho (resolver as coisas de forma medíocre). Que outra coisa se pode dizer daquele que nunca se liberta da ilusão? Nobreza e mediocridade cavalgam lado a lado.
O processo de metamorfose do fidalgo recorre a todos os mecanismos associados à literatura: a escolha de pseudónimo para si, a invenção de um nome para o cavalo (presumo que Rocinante seja uma espécie de neologismo feito a partir da palavra rocim; é nesse espírito de levar a identidade de uma coisa até às suas últimas consequências que, com pretensiosismo, intitulei este meu post); concebe diálogos que ainda não existem; tem cuidados de escrita poética na escolha do nome da amada. Ao mesmo tempo, quando sofre alguma hesitação na busca das acções (da narrativa) a que se propôs, a loucura (o intelecto) vem salvá-lo e compelo-o a continuar. Ou seja, apesar de ainda só ter lido duas dezenas de páginas, não sei se este é apenas um livro sobre livros (a definição do autor como aquele que questiona a mediocridade da arte a que se dedica), ou se não se referirá à vida de qualquer homem, pois ser humano é precisamente esta coisa de só agir quando a literatura (o espírito) confere validade a essa acção.
Abismo incontornável, cómico, trágico, frutuoso.

Dicionário 3

Muito gostaria de ter conhecido os habitantes da Lacónia que deram origem à precisão da expressão lacónica.
Mas uma vez que tudo isto se passa ao nível da voz, e como já dos gregos nos veio La Callas, prefiro honrar a pessoa que com tanta nobreza canta com o título celebrador de La Cónica. Pois é no vértice dessa figura geométrica que a personalidade se exprime quanto tem o seu espírito com siso.

terça-feira, novembro 07, 2006

Galeria 9


João Cabral de Melo Neto

Terceira passa

No próximo ano, desejo ter lata suficiente para dizer àqueles que pretendem caucionar o valor dos seus poemas com o muito tempo que chafurdaram em cada um (e assim humilhar os que trabalham por impulso), que o Emanuel também levou seis meses a compor o "Nós Pimba" (ou teriam tido sete)...
(O respeito deve ser adquirido a despeito da brancura dos cabelos)

Vícios Imorais

Ontem tive a possibilidade de ver o documentário extremamente justo sobre o poeta Vinicius de Moraes.
A uma dada altura, fala-se do facto de a crítica ter considerado, em tempos, que Vinicius era um poeta menor. E conta-se que João Cabral de Melo Neto lamentava que aquele não fizesse poesia a sério, pois se fosse possível fundir o talento de Vinicius com a disciplina de Melo Neto, o Brasil teria, finalmente, um grande poeta.
Na minha imodesta opinião, a poesia de Vinicus, quando considerada em si mesma, é de facto um pouco frágil (pouca inventividade, tendência para o lugar-comum). Como compará-lo com Drummond de Andrade? Mas parar o nosso julgamento aqui, seria não compreender o legado do autor. Pois a escrita de Vinicius só existe enquanto condenação à música, seja a música de Tom Jobim ou Baden Powell, ou as magníficas melodias que o próprio poeta inventou. E quando esta escrita de súbito se vê fundida na magia da bossa nova, ganha uma nobreza inesperada, um poder de contágio dilacerante, e já não conseguiríamos ler aqueles versos sem os sons que com eles cantam, nem suportaríamos aquela música com outro tipo de letra que não fosse aquela.
Ainda para mais, Vinicius foi um personagem magnífico (daqueles que todos sonhamos conhecer), e foi o elemento fundamental na criação de uma dinâmica para a música popular brasileira. Foi um trovador. Celebrou uma visão da vida tão genuína quanto simples. Que mais é preciso?
E que bom ver todos aqueles cantores e compositores a falar, gente que sabe que fez (faz) coisas muito relevantes, mas que o assume sem falsa modéstia nem insegurança arrogante. Ainda por cima, parece-me não ter ouvido a palavra máaráavilhoso uma única vez...
Agora, isso de Melo Neto não se achar um grande poeta, é caso para dizer: cê não se enxerga mesmo!

Sombras da ribalta

Também há quem goste verdadeiramente de teatro.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Galeria 8


Blaise Cendrars (não pintado por Modigliani)

Blog-fleuve

Este blogue não é financiado pela Câmara Municipal do Porto.

Fora de Campo

Cada vez sou menos militante da pequena sala de cinema associada ao Teatro do Campo Alegre. São os filmes que me levam lá, e não a exemplaridade com que o público cinéfilo é tratado.
Demoraram meses a aderir ao King Card (agora mudado para Medeia Card), o que fazia com que o cartão desse acesso a dezenas de salas em Lisboa (abrangendo quase toda a oferta interessante), mas apenas às quatro salas de projecção do centro comercial Cidade do Porto (onde a programação se tem tornado cada vez menos ousada e relevante). Invicta sempre vencida.
O local onde o teatro está situado é deserto, inóspito, nada mais tendo a oferecer senão lugar para estacionamento e um restaurante para quem gostar de quequices.
Todas as longas-metragens têm de ser interrompidas a meio, por razões técnicas que o espectador pagante não tem de aturar.
Ontem, colocou-se a cereja em cima da falta de bolo. Depois da segunda interrupção na projecção de "Les amants réguliers" de Philippe Garrel, surgiu um qualquer contratempo técnico no funcionamento do som que distorcia por completo a banda sonora, ao ponto do visionamento da obra se tornar insuportável (não fiquei até ao fim da exibição).Para além de ser inaceitável que uma casa com a missão de fornecimento de serviços não tenha uma maneira de suprir imediatamente o mau funcionamento de uma máquina, os responsáveis por esse serviço nem sequer tiveram a cortesia (o dever?) de se dirigirem aos espectadores para lhes perguntarem se queriam continuar a ver o filme naquelas condições, se queriam ser reembolsados, ou se pretendiam um bilhete grátis para assistir a uma sessão, num outro dia, mas nas devidas condições.
Ora, na medida em que, a partir de hoje, o filme vai passar a ser apenas mostrado na sessão das 18h30, talvez não o consiga ver na íntegra, e com integridade, durante o breve período de tempo que os senhores distribuidores nos resolveram conceder para matar fome cinéfila. Portanto, não falarei já sobre essa obra aqui no blogue, apesar de esta me ter parecido uma das mais relevantes que (quase) vi ultimamente.

Jours de fête

Não fui ver nenhum dos filmes que passaram na Festa do Cinema Francês. E isto apesar de ser cine-francófilo (o que quer apenas dizer que amo as obras de Gance, Vigo, Renoir, Bresson, Jacques Becker, Cocteau, Max Ophüls, Tati, Godard, Truffaut, Rivette, Rohmer, Resnais, Varda, Demy, Duras, Garrel, Pialat, etc., e não a ideia genérica de um cinema de irredutíveis gauleses). Atrevo-me a elencar as razões que levaram a tal omissão:
1º - Pura Preguiça (sem comentários)
2º - O cinema francês tornou-se muito menos relevante nos tempos recentes (é claro que há sempre objectos interessantes, mas os novos autores não são propriamente arrebatadores)
3º - Muitos dos filmes previstos para a Festa vão passar, mais tarde ou mais cedo, no circuito comercial (o que faz com que o certame seja um ritual de promoção, e não um mecanismo de oferta alternativa)
4º - A promoção em torno dos filmes baseou-se na ideia de que os espectadores tendem a pensar que o cinema francês é hermético, mas estão errados porque isso JÁ NÃO é assim.
a) Argumento sério - o que, geralmente, se quer dizer com esse chavão é que o cinema francês também está a ficar parecido com o cinema americano; porquê então fazer uma festa de cinema xerox?
b) Argumento ainda mais sério - os filmes verdadeiramente herméticos são raros; o que acontece é que a maioria dos espectadores não tem competências para ler outro tipo de cinema que não seja o que deriva do modelo hollywoodiano; ora essas competências são fáceis de adquirir.
c) Argumento decisivo - se um filme é hermético, quando dele saimos somos uns verdadeiros Houdinis (espectadores com poder de lidar com toda a ilusão).
Quando houver uma Festa de Cinema, lá estarei.

domingo, novembro 05, 2006

Segunda passa

No próximo ano, espero ganhar o Euro Milhões, para poder deixar de ser trabalhado, e poder trabalhar à vontade.
(Não fumo. Nem sequer coisas esquisitas)

Primeira passa

No próximo ano, desejo ir viver para a cidade do Porto, de modo a poder não votar no senhor Rui Rio.
(Série que inicia uma antecipação do Ano Novo)

Inspiração

Se no cinema, a câmara (cuja função é espiritualizar) é continuamente obrigada a respirar com o real, poderíamos supor que no caso da poesia, o autor estaria condenado a respirar com a mera memória do mundo.
Nada mais falso: se um homem é poeta, é porque para si a palavra é real, é uma coisa, dura como a pedra, viva como um órgão humano. Uma das fragilidades do cinema, aliás, é o tratamento ingénuo que confere ao verbo, tomando-o como algo qualitativamente distinto dos outros elementos em campo. O cinema não requer a palavra, mas se a usa, deve-lhe a humildade de a tornar irmã do actor, do cenário, do foco de luz.

Legítima defesa

No fundo, todo o acto é precedido de uma reflexão. Desde o caso do sábio chinês que viveu toda uma vida para escrever um bravo haiku, ao simples gesto de defender a integridade do rosto numa queda. Desde a pesquisa sistemática de um Kant computadorizado, até à mecânica da erecção masculina.
E a diferença não se restringe à duracção do pensamento (um nanosegundo, uma infinidade guterresiana), mas à própria amplitude do que significa pensar. Reduzir o pensamento à serenidade racional é empobrecer o âmbito de possibilidades com que a humanidade a si mesma se muda e se conserva. O reflexo também é reflexão. A Filosofia ainda está na sua pré-história.

Casting 5


O actor Louis Garrel é senhor de uma tremenda fotogenia no cinema, o que só precipita a desilusão quando o meio que o revela é a fotografia: esta nada mais faz do que subexpô-lo (metaforica-mente).
Poderíamos especular que há corpos que nasceram para ser belos em movimento, e outros que fazem o seu sentido no tempo congelado. Mas não é nada disso. O actor ainda não encontrou quem o quisesse fotografar com a mesma convicção com que tem sido filmado.

Perder a trindade

Num artigo da revista do PÚBLICO de hoje (escrito por Maria Filomena Mónica), dizia-se que o dogma da virgindade de Nossa Senhora resultara do erro de um tradutor que, não sabendo que a palavra grega parthenos queria dizer "rapariga de idade casadoira", a tinha traduzido por "virgem".
Para além da maior ou menor justeza deste (nada pequeno) pormenor histórico, o que me fascinou foi a relação inesperada entre um elemento da moral dos costumes e um outro da actividade literária.
Pois a verdade é que um corpo virgem talvez seja aquele que ainda não foi traduzido.

sábado, novembro 04, 2006

Vidinha

É por certas e determinadas coisas que, às vezes, sinto a tentação de transformar este confessionário (que tenho vindo a construir) num precionário.

Confissão 12

Sou terrivelmente fetichista. E tudo começa nos botões das rosas.
("Citizen Kane")

Piloto automático

Quando comecei a escrever poesia, lia e relia tantas vezes os Manifestos Surrealistas que não resisti a tentar a minha sorte nos meandros da escrita automática. Contudo, ou porque não sabia fazer a coisa com jeito (nisto de surrealismo, há muito de proeza na cama), ou porque a minha chávena de chá era outra (canela-maçã, ou mesmo café), os textos resultantes desse processo podiam todos servir de chão para o meu cão lhe passar por cima.
Um dia (uma noite?), saiu uma coisa com piada. Como não conto publicá-la, partilho-a com os passageiros deste blog.
Num poema em prosa, em que dois amantes entravam num quarto de hotel pelo buraco da fechadura, apenas para descobrirem que o quarto não tinha chão, surgia a seguinte frase:
Então, as substâncias pairantes de que o amor se faz, foram plenamente assumidas.
E foram estas as minhas aventuras na república de Breton. Descobri em mim um problema de visão que me impede de fazer profissão (de fé) surreal.
Os meus sonhos são heréticos, apócrifos, apóstatas.

Crónica do chocolate

Mark Rothko morreu sem ter pintado esta sua última obra-prima. Na Sotheby's, já crescia água na boca de toda a gente. Talvez fosse aquilo a que os britânicos chamam word of mouth, e por isso mesmo se espalhou, doce porque elo-quente.
Havia quem já lhe desse o título A face oculta da lua. O autor, tendo atingido o maior valor calórico (colérico) da sua criatividade, afirmava que o verdadeiro quadro não era o resultado evidente desta sua cozinha, mas o branco amargo que permanecia indomado nas traseiras da tela.
Os miúdos só pensavam em fazer dedadas no quadrado: pequenos passos para as mãos, grandes pegadas para as bocas.
Aliás, muita agitação surgiu em torno da obra omissa: os hermeneutas supuseram um recheio, os falsários reconstituiram a receita original, os pensadores dela derivaram conceitos (juntaram-na à Razão, que é menos ordem do que ordenha), os coleccionadores aprimoraram as suas técnicas de congelamento, os comerciantes sonharam com cacau.
Os poetas comeram o quadro. Não por estarem rotos de fome (ou aluados pela sugestão das pratinhas), mas porque não resistem às iguarias de um museu imaginário.

Menção

O excelente Pastoral Portuguesa transformou os nomes dos blogs na sua lista de links com recurso à figura do anagrama.
A quem encontrar a formulação que coube a este mui pouco honroso endereço, dar-lhe-emos o prémio da nossa consolação.
(Não vale clicar até acertar)

quinta-feira, novembro 02, 2006

Galeria 7


Blaise Cendrars (pintado por Modigliani)

Partilha 5

Um micro-conto:

Homem de muitos recursos, bastara-lhe um fio achado por acaso para ele fazer a sua cítara. A essência da corda não é a sua matéria, mas a tensão que a estica e lhe retira consequências. Os enforcados sabem-no. E, no entanto, muitas vezes ele cantava a velha história de um condenado à corda, que não se importava de morrer desde que o deixassem escolher o último material a fazer amor com o seu corpo.
O tocador de cítara percorria as ruas estreitas de Veneza, sempre à espera de achar o Inferno ao virar da esquina. Contavam os seus antepassados que a entrada para o Além tinha o tamanho do buraco de uma agulha, e que por ela passavam camelos, mas não dromedários. Pois os Homens morrem melhor quando são indecisos na sua reserva.
Monomaníaco, o cantor ainda não estava pronto para deixar a vida. Mas tinha perdido a sua maior riqueza: a amada tinha regressado ao baú das sombras sem que isso tivesse sido previsto no mapa profético da sua vida. Por isso ele se recusava a contemplar as suas mãos inúteis, e as submetia à acção da cítara, esperando encantar a ilha que o acolhia.
Enquanto não abria a porta que lhe permitiria ir buscar a morta como se a vida fosse apenas uma forma de despojo, ele vagueava pela bela cidade, cidade de infinitas significações. Corriam boatos de que ele domava feras. Não havia leão, touro, ou serpente, que sob a sua música não se amansasse em forma de signo. Mas essa astrologia efémera, que constantemente reclamava que fosse accionada a corda da inspiração, não se aplicava a todos os animais. Os pássaros, os gatos, as sardaniscas, já tinham a paz de quem não se deixa constelar. A música era-lhes tão estranha como o silêncio era indecifrável pelo cão Cérbero. E era precisamente este, o monstro que ele tinha de adormecer, para poder entrar no país do sono sem sentido.
Talvez não fosse verdade, mas dizia-se que até as pedras se moviam perante os acordes que a mágica cítara fazia soar. Aliás, ele caminhava sempre por ruas diferentes, não porque estivesse perdido, mas para não incomodar a serenidade da arquitectura veneziana. Porventura pensava que só por hábito podem as pedras chorar.
Os anos passaram. O Inferno nunca se lhe revelou. Ele colocou a hipótese de dar um uso mais radical ao cordame da sua cítara. E bastou essa hesitação para o pôr mais próximo da Praça da Morte. Mas a ironia do destino é feita com a cera de Dédalo, não com a de Ícaro.
E assim ele continuou, vadio perdido numa cidade feita à sua medida. Talvez Veneza não o quisesse libertar porque uma gaiola só é bela quando expõe um sofrimento. Ele chegou a pensar que se tinha fundido com a sua lira, e que nunca entraria no Inferno porque a música aí forma a água do Rio Letes. Havia mesmo quem lhe chamasse a Ave-do-Paraíso.
Mas ele chamava-se apenas Teseu.
(Micro-conto pertencente ao projecto "Cadernos de Xochimilco", livro que não sei se alguma vez me vai apetecer concluir)

Com senso

Estou de acordo com Eduardo Pitta, Vasco Graça Moura, e Maria Alzira Seixo (tal conjugação de astros não voltará a acontecer tão cedo). Isto é uma estupidez.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Beware of the third film

Houve um tempo em que eu dava especial atenção ao terceiro filme de um novo autor (apesar dos cineastas se preocuparem acima de tudo com o segundo, quando o primeiro lhes corre bem). O terceiro filme do Mamet consagrou-o, o mesmo para os irmãos Coen, e Zhang Yimou, antes de iniciar a sua decadência a pique, realizou essa obra-prima que em português recebeu o título de "Esposas e concubinas". Hoje estou muito mais distraído.
Pelos vistos, "Marie Antoinette" não é o terceiro filme de Sofia Coppola. Mas é o terceiro dos que lhe fizeram a fama. Infelizmente, não me convenceu.
Parece-me que a realizadora quis fazer um filme feminista, ou pelo menos em torno do feminino (o que seria óptimo), mas acabou por fazer um filme de gaja (o que é péssimo). A ideia seria filmar Kirsten Dunst como um ser humano demasiado genuíno (nas suas fraquezas, belezas, expectativas, inocências) para poder ser enquadrado no cenário absurdo da corte de Versalhes. Mankiewicz fê-lo em "The barefoot comtessa" em torno da relação Ava Gardner/Hollywood. Outro pressusposto do filme seria o de encenar Maria Antonieta como sendo uma teenager do fim do século XX (ideia excelente, e bastante bem materializada). Não é só a música punk que é anacrónica. Tudo no filme se reenvia para a adolescência de Sofia Coppola.
Mas em vez do rigor de "Virgens suicidas" ou do charme inteligente de "Lost in translation", a realizadora perdeu-se na futilidade que quis polemizar. Ao fim do centésimo sapato, de bolinhos de todas as cores, da infindável parafernália daqueles vestidos sumptusos com que as meninas sonham, fica claro que a cineasta se deixou ludibriar pelo luxo. É, de resto, um problema que assombrou o seu pai, mas também Scorsese, Kubrik e Greenaway: por vezes os anglo-saxónicos confundem ambição com fausto, querem mostrar todo o dinheiro que gastaram com os seus delírios, e perdem a noção da fronteira entre beleza e kitsch. Eu que até gostava de falar da roupinha de antanho, fiquei tão enjoado que ninguém mais me convence a vestir uma personagem feminina a não ser com calças de ganga (algo de semelhante me aconteceu em "Singing in the rain" a propósito da cor amarela). Ficamos sem saber o que Sofia Coppola pensa, de facto, sobre aquela futilidade que é própria das mulheres (a ambiguidade aqui é pouco interessante). E no meio de tantos folhos e talhas douradas, o filme fica vazio de todo e qualquer discurso consistente ou desafiador (político, histórico, psicológico, feminista, etc.).
Estes americanos em Paris... Só desejo que a autora fique mais segura de si e da sua própria cultura, para não mais escorregar num filme para inglês ver.

Recomendações a martelo

Momento de publicidade mal paga. Ou Plano Privado de Leitura.

Seja como for, dois livrinhos que eu vivamente (é pôr bastante vida nisto) me aconselho:

_ Acaba de sair um volume com poesia de A. C. Swinburne, apresentada por Fernando Guimarães. Swinburne foi um ganda maluco, personagem inquietante e misterioso, o totoloto de um romancista. A pouca poesia que dele conheço parece-me igualmente estranha e fascinante (apesar de ser um poeta muito pouco cotado hoje em dia - o nasdaq da moda?). Não sei quais os poemas que estão na colectânea, não conheço ainda as traduções, mas já sei que este livro não me vai escapar.
_ Para quem gosta de ler em inglês, chamo as atenções para Paul Celan - Poet, survivor, jew de John Felstiner, uma biografia do grande poeta que se exprimiu em alemão. A narrativa da vida está feita com equilíbrio e abundância de pormenores, as interpretações são justas (mas não muito criativas), e acima de tudo, as traduções estão tão bem legitimadas que não há nada que lhes possamos apontar. Não sou, contudo, tão devoto dos meus leitores que garanta que este livro ainda esteja em circulação.

Subtileza

Admiro aquele que, tendo perdido o ser com quem viveu um amor cheio de plenitude, não consegue encarar a possibilidade de uma nova relação (e admiro, com igual fervor, quem nesse caso decide partir para outra ou para outro).
Mas quando alguém encerra a sua disponibilidade sexual e sentimental por causa de uma paixão que nem sequer se cumpriu (desculpas, desculpas), isso só me provoca indiferença. Trata-se de um mero problema psiquiátrico - e não de uma opção lírica.
(A propósito das mulheres que ficaram virgens por não terem sido correspondidas por Oliveira Salazar)

terça-feira, outubro 31, 2006

Narratividade

Um quarto de hora: ainda tenho tempo suficiente para chegar ao emprego. Sou o próximo a ser atendido nos serviços financeiros dos Correios. Mas os outros clientes têm demasiado tempo: estão a contar as vidas deles aos funcionários (e já as têm bem compridas e cumpridas). Assim, apesar de eu ainda ter um bom número nas mãos, o tempo que me resta já não me vai permitir fazer uma poupança. Afinal, tempo é dinheiro. Saio dos Correios e não fui atendido.
O meu sapato descolou (é demasiado aristocrata para aguentar esperas mesquinhas). Pareço um tolo a caminhar pelas ruas (simbolismos). Mas o automóvel está perto, tudo se resolverá.
Sentado na minha máquina-do-espaço, verifico se tenho dinheiro suficiente para pagar o Parque (o custo normal é 1 euro pela primeira hora). Só tenho moedas: conto (narro). Moeda após moeda, descubro que tenho apenas... 99 cêntimos. Mas não desespero: há sempre a hipótese de comover o funcionário que controla os pagamentos, e de lhe ficar a dever uma (um). Mas um senhor simpático diz-me que, nesse dia, é preciso fazer o pagamento na máquina automática. Estou perdido: a máquina não se comove. Um cêntimo é um cêntimo e é um cêntimo.
Saio do carro. Estou definitivamente atrasado. De novo caminho com o meu sapato descolado. Lá vai o tolo à procura de uma máquina multibanco (terceira máquina da narrativa). Não há nenhuma por perto. E a primeira que encontro, não me pode atender por dificuldades de comunicação (presumo que Deus esteja num acesso de misantropia).
Regresso ao automóvel (sempre o sapato de palhaço a cativar os olhares dos transeuntes). Dirijo-me à maquina de pagamentos, meto o cartão, e o valor que tenho de pagar é... 90 cêntimos.
Isto aconteceu de verdade: não é narratividade.
O que eu precisava então era de uma máquina-do-tempo que me fizesse chegar a horas ao local de trabalho. Mas as máquinas mais úteis ainda não foram inventadas.
Gastei 90 euros num par de sapatos novos. Era o dinheiro da poupança.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Galeria 6

René Char

No escrínio 8

Poema de René Char, traduzido por Margarida Vale do Gato

CONDUTA

Passa.
A enxada sideral
Aí de novo se abismou,
Esta noite uma aldeia de pássaros
altiva exulta e passa.

Escuta com as têmporas rochosas
das presenças dispersas
a palavra que fará o teu sono
quente como uma árvore de Setembro.

Vê que se move o cruzamento
das certezas que chegaram
junto de nós à sua quintessência,
ó minha Forquilha, minha Sede ansiosa!

O rigor de viver corrói-se
incessantemente a convocar o exílio.
Através de uma chuva fina de amêndoa
misturada de dócil liberdade,
manifestou-se a tua alquimia guardiã,
ó bem-Amada!


Apesar da sua obscuridade, o texto fornece (de soslaio) um conjunto de circunstâncias que nos permitem situar a sua acção de uma maneira razoavelmente concreta. O poeta está a falar numa noite de Setembro, provavelmente exilado numa aldeia (na altura, Char era líder da resistência francesa, vivendo refugiado na aldeia provençal de Céreste, um lugar rochoso habitado por amendoeiras). Este exílio não se refere apenas à deslocação espacial, mas essencialmente à situação de desterro humano causada pelo nazismo e pela II Guerra Mundial. Talvez esteja a chover.
No entanto, esses dados vão ser transformados (libertados) pela alquimia própria do fazer poético. Assim, a agricultura (actividade por excelência do mundo rural) deixa de se fazer na terra e torna-se sideral. A aldeia passa a ser constituída por pássaros, cujo trabalho é nada mais que exultar (este poema é exultante, exaltante). O fruto da amendoeira torna-se matéria de chuva. E Setembro assume-se como símbolo de um calor estival moribundo, mas que ainda permanece devido ao poder da palavra.
A dor espiritual provocada pela guerra (que estraga o rigor de viver) vai ser então mitigada pelo amor FÍSICO que o poeta vai receber da amada. Por isso, a palavra conduta tanto se refere a uma moral do amor corroída pelo contexto bélico (as primeiras três estâncias começam com imperativos semelhantes aos de uma ética qualquer), como à condução física provocada pelos materiais (neste caso, o corpo da amada). Assim, o autor começa por falar de pássaros (seres vivos, sólidos quentes), que logo se transformam em presenças dispersas (onde o espectral se acumula), por sua vez estas tornam-se certezas (um conceito intelectual), e tudo isto depois cai em chuva de amêndoa (a amêndoa pode evocar a cor da amada, o sabor da sua pele, mas acima de tudo refere-se a um fruto seco, concreto, o oposto do inefável). Esta flutuação entre conceitos físicos e conceitos espirituais é, portanto, causada pela duplicidade de sentidos da palavra conduta. Para o poeta de formação surrealista, a conduta moral mais perfeita é a que deriva da prática do sexo (da condução dos prazeres através dos corpos).
Esta alquimia bem terrena exige, então, uma queda. A acção do pensamento sobre os pássaros que no início exultam tem como efeito a sua queda sob a forma de chuva alimentar. Afinal, se a Forquilha é um símbolo mágico, é essencialmente porque é com ela que desbravamos a terra que nos permite sobreviver. E se a Guerra é uma luta corpo a corpo, também é com o corpo que o Amor tem de responder.

No original

CONDUITE

Passe.
La bêche sidérale
autrefois là s'est engouffrée.
Ce soir un village d'oiseaux
três haut exulte et passe.

Écoute aux tempes rocheuses
des présences dispersées
le mot qui fera ton sommeil
chaud comme un arbre de septembre.

Vois bouger l'entrelacement
des certitudes arrivées
près de nous à leur quintessence,
ô ma Fourche, ma Soif anxieuse!

La rigueur de vivre se rode
sans cesse à coinvoiter l'exil.
Par une fine pluie d'amande,
mêlée de liberté docile,
ta gardienne alchimie s'est produite,
ô Bien-aimée!

René Char

sábado, outubro 28, 2006

No plateau 3

O projecto de Jean-Look Spiell Bergman requeria a colaboração de um compositor. Falaram-lhe de Johann-Joachim van B. B. B., que era um estudioso de J. S. Bach, preocupado com a permanente actualização e renovação da pulsão polifónica.
A ideia era fazer uma Arte da Fuga com os meios do cinema. Ideia nebulosa, claro está, e que por essa altura se resumia ao desejo de, na realização de cada filme, se acharem equivalências plásticas para o progresso polifónico de cada fuga a ser encenada. Ou seja: Se numa fuga a duas vozes, o soprano efectuasse uma escala ascendente, enquanto o contralto se alongava numa nota única, a imagem poderia, por exemplo, mostrar um muro recto, paralelo à zona inferior do enquadramento, coabitando com uma linha arquitectónica ascendente que, apesar de não estar situada à mesma distância do dito muro, perderia lonjura devido à diminuição da profundidade de campo causada por uma tele-objectiva. E se a melodia do soprano fosse articulada em stacatto, também poderia a linha arquitectónica (na imagem) sofrer descontinuidades na sua evolução. Tudo dependente da imaginação que acontece no plateau.
A montagem manter-se-ia como a operação-chave desses filmes, na medida em que criaria linhas de compasso distintas daquelas sugeridas pela pauta do compositor. Aliás, para não se confundir com a edição mais formal que narrativa preconizada pelos soviéticos do mudo, a montagem tentaria comportar-se como mera barra de compasso, tentaria ser invisível, mais conciliadora do que expressiva, destinada a uma harmonia capaz de diluir a agressividade de cada corte. Esforço, de resto, inglório, pois nenhuma continuidade pode surgir quando se encadeia um muro/igreja com uma ponte de dois tabuleiros, e esta com a linha cuidadosamente podada de um canteiro de flores.
No fundo, Jean-Look Spiell Bergman queria filmar cidades. E queria fazê-lo com uma sistematicidade que não se pudesse distinguir de uma espécie de Grande Logro das Esferas.

quinta-feira, outubro 26, 2006

"Sunset Boulevard" - imagem

O INACTUAL 5

"Sunset Boulevard" - Billy Wilder (1950)

No famoso clássico de Wilder, prefiro ver não tanto a crítica à máquina cruel de Hollywood, mas a construção de uma parábola sobre a sétima arte feita através de um subtil desvio às regras do cinema de género. Neste sentido, este film noir aproxima-se de obras-primas como "Peeping Tom" de Michael Powell (filme de terror) e "Rear window" de Alfred Hitchcock (filme de suspense).
O autor atribui, à personagem do argumentista (ou seja, àquele que aparentemente providencia o conteúdo do filme), toda a componente vital da obra: William Holden representa um homem novo, vivido, libidinoso, imerso na sua época, realista. Em compensação a personagem do realizador (interpretada por um dos mais geniais cineastas do tempo do mudo, Erich von Stroheim) toma a função do embalsamador (Bazin deve tê-lo dito na altura), daquele que vem justificar o conteúdo numa forma que se pauta pelas regras da morte (congelamento do corpo numa inconsistência espectral, eternização das acções, etc.). Não esqueçamos que Unamuno disse que as palavras são realidades, e as visões são ilusões (precisamente o contrário daquilo que de imediato suporíamos).
O argumentista tem portanto de morrer às mãos da matéria principal do filme (a Actriz), pois é ela quem faz a mediação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Assim, a personagem de Holden morre numa piscina rectangular, iluminada, à noite, que me parece uma evidente metáfora do ecrã. E ao morrer, transforma-se em voz-off, assim denunciando o carácter ambíguo de um recurso que, mais do que estilístico, é metafísico (o que é uma voz, quando separada do corpo?).
Quando no fim, a actriz (inesquecível Gloria Swanson) se aproxima da câmara pronta para filmar o seu close-up, a imagem fica desfocada porque se atingiu a essência perigosa do cinema - a perda do sentido (resta saber se da realidade, ou da fantasia).
Em conclusão, o amor não pode vingar (o velho realizador vive humilhado, a velha actriz ama um gigolo, o argumentista não é honesto com a namorada), porque o que se passa no cinema é demasiado grande e delicado para aguentar a coabitação com um funcionamento industrial.

No divã

(Por favor, não façam isto em casa)

Há alguns posts atrás, eu escrevi uma Crónica da Coca Cola. Concluo agora que esse texto tinha, ao mesmo tempo e em plena fusão, um sentido poético e um sentido político. Contudo, aquilo que no texto era válido para a poesia (a coco-alma a invadir o mundo dos que desejam), era catastrófico no âmbito político (o aumento do nível dos mares).
Ou seja, o texto pode ser considerado ora realista (é essa a fractura que podemos observar no real), ora pessimista (a tentativa de viver poeticamente pode até acelerar a decadência do mundo).
Você decide.

Stand up

Depois de uma psicobreve análise a mim mesmo, concluí que muitas das características da minha personalidade são temas de stand up comedy.
(Penso que esta não é uma auto-crítica).

EUA

A evolução deste blogue já deve ter denunciado a variação que avaria a cabeça do autor (depois de Pessoa, somos todos heteronímicos). É toda uma amálgama de estados de alma contraditórios (botas que não batem com as perdigotas), que o leitor distraído pode tomar como indício de esquizofrenia.
Por isso, em defesa da minha saúde mental, afirmo que estes estados estão muito bem unidos.
(Penso que este post não é sobre mim).

Confissão 11


Em plena febre de votações, também tenho direito ao meu disparate. Por isso assumo que, apesar da flutuação dos estados de alma, do crescimento do meu produto interno bruto, e de todas as obras-mais-ou-menos-primas, este é o filme da minha vida.
("O espírito da colmeia" de Victor Erice).

O destino do corpo

Pergunta-se: como pode o Rei D. Dinis estar lado a lado com a Rosa Mota?

Ora, há uns posts atrás, eu dei uma numa cravo. Vou agora passar à ferradura, utilizando as imortais palavras do rei-poeta:
Ai flores, ai flores do verde pino
Se sabedes novas da Rosa Mota?
Ai Deus, onde isso já vai...
(Moral do poema: quem corre mais rápido, chega mais cedo à meta).

A minha Lista

Também vou apresentar uma Lista.

A Lista de toda a gente que desejei ao longo da vida (não há quem não seja Dom João de Platão). E depois mando o Leporello ao supermercado, que isto não é olha para o que eu sonho, não olhes para o que eu concretizo.

Um pouco de misantropia

Depois de ontem ter assistido ao programa em torno dos Big Portugueses, confirmei a minha já antiga aversão ao debate. E fiquei com a sensação de ter perdido um tempo que nunca vou querer reencontrar.
Pois, para além de termos ficado a saber que os jovens portugueses são mais complicados do que irreverentes, a única coisa de que ouvimos falar foi de Oliveira Salazar. (E no fim, dizem-me que é tudo uma brincadeira).
Em verdade vos digo, Salazar é talvez o português mais falhado (ups, falhei), dizia o Português mais Falado de Sempre.

Os mais aborrecidos

Da experiência que acumulei ao longo das minhas singelas trinta e quatro vidas (sou mais gato que estações), já posso afirmar que os Portugueses Mais Aborrecidos de Sempre são os historiadores.
E os professores de História (se bem que estes estejam enganchados na Terra do Nunca).

terça-feira, outubro 24, 2006

O pior português

Aqui estão as minhas sugestões para a lista de candidatos a Pior Português de Sempre (eleição criada pelo Inimigo Público e pelo Eixo do Mal):
- Zezé Camarinha
(não precisa de fundamentação)
- A Padeira de Aljubarrota
(entre duas coisas quentes, o pão e a guerra, escolheu a que arrefece pior)
- A Nossa Senhora de Fátima
(pela amostra, parece que só gostava de poesia bucólica; ora, espera-se que uma divindade seja mais abrangente e variada nos seus gostos - para bem das aparições a todos nós).

segunda-feira, outubro 23, 2006

Leitura concluída

Últimas notas sobre "O Castelo"

- A eficácia da autoridade depende menos da força física ao seu dispor do que da fantasia que cria naqueles a quem se dirige. Os familiares de Barnabas têm consciência de que poderiam ter de algum modo contornado a maldição que sobre eles caiu, mas ficaram quietos, como se tivessem um prazer masoquista em se oferecerem como sacrifício à omnipotência do Castelo. O próprio K., no fim do romance, já está completamente fascinado pela relação de Frieda (sua namorada) com Klamm (poderoso senhor do castelo). O Poder implica sempre uma satisfação imaginária.
- As personagens falam, falam, trocam pontos de vista, defendem teses, constroem argumentações aparentemente infalíveis, expandem-se em relatos longuíssimos (muitas vezes em discurso indirecto), lutam com o verbo. Ninguém convence ninguém, o mundo não é revelado: é o falhanço da advocacia, a retórica depende mais de necessidades íntimas do que da fidelidade à verdade.
- K. é o homem desprezado. Mas todos se identificam com ele, todos de algum modo o desejam (as mulheres apaixonam-se aos magotes). Pois há nele uma irreverência (não muito inteligente, digo eu) através da qual os outros sentem a vaga esperança de verem resolvidas as suas frustrações. Mas o que é curioso é que K. é amado na condição de que continue a ser verbalmente considerado medíocre. O heroísmo é demasiado precioso para ser celebrado, no mundo moderno precisamos de anti-heróis.
- Há exemplos famosos de especialistas que terminaram grandes obras que ficaram incompletas. É o caso da ópera "Lulu" que Alban Berg não conseguiu concluir, mas à qual um discípulo deu a forma final. No entanto, espero que nunca ninguém se lembre de completar "O Castelo". O precipício em que o romance acaba diz tudo o que faltava dizer. É um murro no estômago, o livro fecha-se como o Castelo que ele próprio encena. A falta passa a fazer parte da sua estrutura, o leitor sofre o fim da vida de Franz Kafka.

No plateau 2

A nova curta-metragem de Jean-Look Spiell Bergman tinha uma estrutura aparentemente simples.
Um lento travelling circular em torno da ilha de Murano (em Veneza), fundido com um texto da autoria do poeta Jean-Charles Rimelaire chamado a fragilidade não é uma opção. A acompanhar este letárgico plano-sequência, o vidro que separava a câmara da ilha (a janela de um barco) ia quebrando paulatinamente.
Mas Jean-Look estava insatisfeito. Mandou chamar um especialista no trabalho de vidro e colocou-lhe as seguintes questões:
- Seria possível sincronizar o quebrar do vidro com a duração global do plano-sequência?
- Haveria algum modo de tratar a rachadela de uma forma pictórica? (a fenda progressiva sendo dirigida por um pincel imaginário previamente programado no ADN do vidro)
- E música? Poder-se-ia tratar o desfazer do vidro como se isso fosse música concreta? Ligá-la ao ritmo e ao sentido do texto, comentar a paisagem insular lentamente revelada?
O cinema, quando não se submete aos efeitos especiais, comporta uma tremenda exigência de futuro.

Post de chuto

Dependentes somos todos. Mas nem todos escolhemos bons cogumelos.

sábado, outubro 21, 2006

Confissão 10


De noite, estes frutos são a minha constelação favorita. Oriento-me pela luz que me escolheu.
(Diospireiro)

Clareza em castelo

Quando K. se torna testemunha ocasional do bulício matinal na estalagem dos senhores, fica pasmado com a irracionalidade que caracteriza as relações burocráticas e profissionais. O mundo à sua frente revela a sua imensa loucura. K. pensa ter conhecido algo de essencial: o Poder ficou mais claro.
No entanto, logo lhe vêm dizer que aquele espectáculo a que ele está a assistir não é usual, e que só está a tomar aquelas proporções porque K. está a ocupar a posição ilícita de testemunha. Em "O Castelo", a verdade nunca é objectiva, vemos apenas aquilo que a nossa presença torna visível.
De algum modo, Kafka tem uma pequena costela Kantiana.

A noite

Os secretários de "O Castelo" muitas vezes tratam os seus assuntos oficiais quando estão metidos na cama. Há quem diga a K. que eles fazem isso para poderem dialogar com os seres que desprezam, de uma forma sumária e na meia-penumbra.
Mas isso é uma ilusão. Kafka demonstra como a noite os torna todos (senhores e subordinados) mais frágeis, a intimidade instala-se, a irracionalidade já não precisa de se mascarar.
De qualquer modo, o autor constrói as sua definições da forma mais livre possível: é na NOITE que nos é oferecida a nossa salvação, mas nós nunca a aproveitamos porque estamos a dormir.

Crónica da Coca Cola

A bebida tem tudo o que convém a um império dos sentidos.
Desde logo a sua fórmula é secreta, está guardada no segredo dos deuses, e por isso a sede que convoca é acima de tudo inteligência. Uma inteligência que tenta passar a cortina de ferro do Olimpo (é a guerra fresca com o divino), e que por isso é bem mais Bond (James Bond) do que CIA. Em todo o caso, a sede é sempre íntegra e competente.
Conta-se que a garrafa que guarda o valioso líquido foi inspirada nas curvas e contra-curvas da actriz Ava Gardner (na altura, ainda não havia as auto-estradas do top modelismo). Os boatos são sempre verdadeiros quando neles se contém um ser que não pode ser contido. De qualquer modo, confesso que, para a garrafa dos meus sonhos, escolheria outros corpos (os homens pensam sempre com o seu pigmalião, nunca com a consciência). Esta coisa dos gostos tem muito de snobismo: haverá quem pense que me satisfaz com um Pepsi Prazer? Eu sou um especialista no meu próprio desejo, nenhum falsário me vende gato por rato.
No entanto, aquilo que existe dentro da garrafa (chamemos-lhe alma porque é borbulhante), isso já eu entregaria de boa vontade à condessa descalça. Nenhum conde aceita uma aristocracia abaixo de felino. E quando o outro de súbito nos acelera, ele entranha-se de imediato e só depois deixa um lastro de estranheza. A paixão é gasificada.
De resto, não há Salvação. Se é light, a bebida traz um tédio cancerígeno. Se é intensa, engorda-nos a propensão para a morbidez. Mais tarde ou mais cedo, há-de o mundo ser invadido pela coca-cola (disso falava Nostradamus). Apenas podemos lançar as nossas preces ao nosso Senhor (que é árabe como o Al Gore), e dizer: Deus nos livre da Canada Dry.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Rivolição

Todos conhecemos o Cassete Carvalhas e o Cassete Jerónimo. E é mesmo verdade que, no lado B destes senhores, a música é sempre a mesma. Mas basta ler os ideólogos de direita para ficarmos com a mesmíssima impressão. Não é preciso que o Dr. Pacheco Pereira (aqui o Dr. é necessário) escreva a sua Opinião: já a sabemos de antemão.
A Agustina é a minha romancista portuguesa de cabeceira. Sigo avidamente o blogue do Pedro Mexia. Aprecio os poetas e os pensadores católicos. Nunca tive problemas com a inteligência, quando esta escapa à estreiteza que sempre se lhe pretende impor.
Para além disso, voto sempre em branco (isto de esquerda está preto). Presumo ainda que o folclore da revolução só possa parecer risível à imaginação contemporânea. E se algumas das pessoas envolvidas no caso Rivolivre até são minhas amigas, é com rigor que reclamo que nem sempre essas pessoas respeitaram a minha liberdade com o mesmo rigor que agora devotam ao seu protesto.
Mas estou solidário com a ideia global.
É que, de facto, chegamos a um ponto da nossa História em que o aspecto determinante da nossa vida é tão-somente a economia. Não ria, leitor. Pois houve uma era da Razão, uma era de Deus, falou-se depois muito no Homem, agora é a Economia. É, na verdade, o fim da História. Mas depois do 11 de Setembro, mesmo os mais cegos compreenderam que esse não é um final feliz.
Há coisas evidentes: desde a proliferação nuclear (aproveito para lembrar que o único crime nuclear tem autoria dos Estados Unidos) ao terrorismo, tudo isso passando por esse absurdo que nos dizem ser demagógico mas que é, profundamente, um absurdo: metade do planeta sofre de obesidade mórbida, a outra metade da morbidez da fome.
Há coisas muito pouco evidentes: as pessoas nunca se questionam se todas essas horas que dedicam a um trabalho que só as deixa sobreviver é ou não um esbanjamento do tão curto e precioso tempo da nossa vida; o mundo tornou-se tão complexo que deixámos de o entender (perguntava Monica Vitti, em "L'eclisse" de Antonioni, para onde vai o dinheiro que se perde na Bolsa; e Alain Delon, profissional da especulação, não fazia a menor ideia); e é só pelos equívocos que a liberdade vai permitindo, que o mercado não se torna entidade ditatorial.
E ainda as coisas mais ou menos evidentes: os salários baixam, a reforma está a um passo de desaparecer, o trabalho acaba, a saúde tem de ser paga, os cursos universitários não garantem futuro nenhum, as situações de miséria são gritantes.
Até concedo que, neste mundo que construímos, já não se possa viver de outro modo. O velho Sócrates já não tem razão: há novo Sócrates em acção.
Mas permitam-me o desabafo: este mundo já não me parece construído para mim. Sou eu que tenho de me adaptar aos caprichos, às mediocridades, às pequenas tiranias do dinheiro. O dinheiro é o grande e o único triunfador da nossa humana aventura. E quem mais sofre com tal estado das coisas, é quem mais defende que tem de ser assim. Dizem-me que o que se leva desta vida é o sábado à noite... Pois eu levo esta minha estranheza que pretendo mais filosófica que demagógica.
Ou serei o único que acho que umas centenas de contos pagas a um cineasta alternativo (prefiro dizer bom cineasta) contra o pequeno prejuízo de um público reduzido, é um mal menos constrangedor do que as fortunas que os jogadores de futebol ganham à custa de quem empenha o salário de um mês inteiro para ver meia dúzia de jogos no campeonato do mundo?
Os políticos que defendem um modelo laboral onde as pessoas são meros títeres nas mãos da Economia (que teve um papel tão nobre no princípio da nossa História), são os mesmos que defendem o pobre povinho das arrogâncias herméticas do intelectuais. O Beckett devia ter escrito teatro de revista. Mas nada é assim tão simples.
Penso que os rivolitosos pretendem viver as suas vidas dando preferência a outros aspectos da experiência humana que não apenas a Economia. Serão perdedores, um pouco ridículos, bastante desequilibrados até, mas estão no seu direito. E o direito que tutelam parece-me o mais belo de todos: o de amar o Homem em todo o seu potencial, e na aspiração da sua crescente liberdade. Se as Ideologias se fizeram para o Homem, e não o contrário (o comunismo, nunca mais!!!), também a Economia se fez para o Homem, e não o contrário. Vir falar de público, elites, prestígio, qualidade, rentabilidade... Isso que interessa? Até porque pode um gestor privado ser tão snob que aposte num elitismo pior do que qualquer subsidiodependência.
Que outros pensem o contrário - estejam à vontade. Eu acredito que a missão da Arte se confunde com o mais profundo e o mais amplo que pode ser concedido ao, e conquistado pelo, Homem. Por isso vejo filmes de Bresson e de Eisenstein, leio Miguel Torga e Paul Éluard, aprecio Brecht e Claudel. Quero apenas não caber em mim. Quero sair do labirinto do dinheiro, e a Criação é um dos poucos fios de Ariana que conheço. O Rivoli interessa-me pouco (até posso abandoná-lo em las férias permanentes). Mas o meu credo é este.
Por isso voto em branco.

Galeria 5

Natália Correia

A língua inglesa

Dizem os Clã que a vida devia ser como no cinema, onde a língua inglesa fica sempre bem e nunca atraiçoa ninguém.
Isto de associarmos o inglês à ausência de traição parece-me uma Ideia de Demagogia Maciça, apesar de todos sabermos que tal coisa não existe. Mas mesmo o ficar sempre bem me faz lembrar aquela comediante que dizia: com um vestido preto, eu nunca me comprometo. Ora hoje, temos todos de ser mais políticos do que isso.
Houve mesmo uma fase em que não se ouvia ninguém falar mais inglês do que a palavra fuck (ah! o realismo...). E pouco mais sabemos dessa língua do que a secura da sua terminologia técnica, a herança dos vaqueiros (you guys, you guys) ou a degenerescência do posh britânico.
Só aprecio o inglês quando ele é solene. Quando não conhece nenhuma outra hegemonia a não ser o seu desejo de elegância. Quando não resolve mas cria um problema de expressão. Quando é trabalhado por um ourives que abandonou todas as matérias preciosas à excepção do tempo. Só aprecio o inglês que não pode ser ensinado.
Because I do not hope to turn again
Because I do not hope
Because I do not hope to turn
Desiring this man's gift and that man's scope
I no longer strive to strive towards such things
T. S. Eliot
Como diria aquela comediante: não sei como há Homens que não gostam disto.

No plateau 1

Jean-Look Spiell Bergman chegou ao plateau cheio de ideias.
Pretendia filmar a seguinte imagem: uma flor em muito grande-plano, na zona esquerda do enquadramento; muito ao longe passaria o vulto do protagonista, caminhando da direita para a esquerda, até desaparecer por trás da colossal planta. Total profundidade de campo. Passados alguns segundos daquela acção, sairia um insecto de dentro da flor (uma formiga gigante, ou uma bicha-cadela).
Foi preciso abrir um concurso para contratar um domesticador de insectos. Mas ninguém sabia se tal profissão era um efeito especial.

Hiperbólicos Portugueses

Aquando da sua passagem pela Assembleia da República, a deputada Maria Elisa propôs que se fizesse a trasladação do Panteão para as cinzas do senhor Fernando Pessoa.
(Qualquer semelhança entre esta ficção e a coincidência, é pura irrealidade).

terça-feira, outubro 17, 2006

Imagens

O filme “Little Miss Sunhsine” é extremamente simpático. Não tanto um feel good movie, mas uma pedrada no charco do sucesso e do conformismo. Filme rente ao humano, ao sabor de um veículo que só funciona a descer (é um grupo de falhados) ou que precisa de solidariedade para arrancar (é uma família). Ainda por cima, com alguma provocação directa às Vestais deste mundo.

No entanto, para além do argumento não me parecer suficientemente bem explorado, algumas declarações dos realizadores deixaram-me francamente insatisfeito. Jonathan Dayton e Valerie Faries pretenderam que, no seu filme, se notasse mais a cooperação com um argumentista do que a marca do seu passado como fazedores de videoclips. Compreendo que se referiam essencialmente à estética suja que “Little Miss Sunshine” tenta reproduzir. No entanto, dada a pobreza das imagens efectivamente conseguidas, fico com a sensação de que ainda existe, no cinema, uma distinção artificial entre imagens belas e feias (ou seja, entre o decorativismo e a ausência de expressividade). Ora, esse é um falso problema (um modo errado de entender os conceitos de forma e conteúdo).

“Little Miss Sunshine” é, acima de tudo, um filme palrado. Mas o cinema não é teatro, não é narrativa. O cinema é a montagem de imagens e sons. Uma imagem pode ser assombrosamente fascinante (Tarkovski), ou a mera espuma de um café (Godard). Pode incidir na afectividade da fotogenia (Bergman) ou na perversão fria do que é encenado (Buñuel). Pode exigir a palavra (Oliveira) ou prescindir dela (Murnau). Mas é a sua contundência que decide o assunto de um filme. Filmar é inventar imagens.

Ou seja, é justo que se queira abandonar a futilidade da estética MTV. Mas se isso implica a ausência de criatividade especificamente visual, então não estamos perante cineastas.

Luta de classes

Resolvi fundar um partido: o PCP – Partido Comunista do Prazer.

É que ao lado da desigualdade de copeques que cada um tem para se amanhar na vida, existe uma outra desigualdade que não é grave de um modo intenso, mas sim extenso. Pois há quem exerça uma profissão que verdadeiramente ama, ganhe bem ou menos bem, e há quem seja escravo mais ou menos consciente (menos ou mais anestesiado, portanto) de um labor que não completa a sua inteligência. Ganhe mal ou menos mal. Há aqui, portanto, uma enorme diferença de rendimento: passamos tanto, tanto tempo a trabalhar, que é justo dizer que há quem seja feliz em full-time, e outros apenas em part-time.

Ou já estaremos tão resignados que achamos que o prazer não passa de um subsídio de férias?

Ingenuidade

Ninguém é mais dependente do que eu deste português que se fala em Portugal. Quando passei um período de mais de dois meses em Inglaterra, senti-me em verdadeiro estado de ressaca intelectual, como se já não soubesse pensar, interrogar, escrever, ou até mesmo desejar.

Vi recentemente, na televisão, a cantora Eugénia Melo e Castro defender que, apesar de viver e trabalhar no Brasil (por razões de afinidade com a Canção desse país), continua a exprimir-se musicalmente com o sotaque de Portugal. Acredito, e até agradeço a militância. Mas o que me saltou aos ouvidos foi o incrível esforço que essa mulher fazia para falar fiel ao seu propósito. Ele era uma vogal que se queria abrir, uma expressão bem mais ipiranga que pessoana, um desarranjo da sintaxe a pedir calor e aguinha de coco… Era uma luta titânica.
Ou talvez entre Davi e Golias, quando o português quer deixar de resistir e entregar-se de alma e canção à virilidade de um sotaque fatal.

Para defender a nossa causa, é preciso ter a lucidez de a saber perdida à partida.

Faróis

Não leio revistas de teatro. Mas vou ao teatro, e leio jornais. E no entanto, continuo a sentir-me incapaz de construir um discurso crítico sobre os espectáculos a que assisto. Os críticos de Arte são brilhantes (por vezes mais brilhantes do que…?), os críticos de cinema esforçam-se (e houve o exemplo dos Cahiers), mas o teatro faz figura de parente pobre na imprensa genérica. Além disso, os programas que as companhias disponibilizam nas suas récitas não contêm crítica, por razões óbvias. Por isso agradeço ao blogue O MELHOR ANJO pelo seu serviço público.

Também uma palavra de simpatia para Desidério Murcho que, no suplemento Mil Folhas do jornal PÚBLICO, vai fornecendo pistas para uma biblioteca de filosofia contemporânea. Quem mais o faz? Pergunto-me só se as sugestões não poderiam extravasar o âmbito anglo-saxónico…

E claro, o Rui Tavares, que em matérias de política vai tendo razão algumas vezes mais do que eu.

No escrínio 7

Tradução do soneto de Shakespeare (do post anterior) por Vasco Graça Moura:

Nunca vi precisasses de pintura
e assim não te pus tintas na beleza,
achei-te (ou cri que achava) mais altura
para o que dá poeta em singeleza.
E dormi sobre o que és, para que bem
se visse, porque existes, como desce
um aparo moderno e fica aquém,
falando de valor, do que em ti cresce.
Tomaste esse silêncio por meu crime,
mas terei, mudo, glória mais subida,
nem a beleza o ser calado oprime,
que outros são tumba achando que dão vida.
Um só dos olhos teus mais vida anima
que teus dois vates em louvor e rima.


Shakespeare foi um poeta invulgarmente lúcido, e até por vezes demasiado cansado para se deixar levar pela poesia. No soneto proposto, o próprio poeta assume que escreveu o seu texto apenas para dizer que o seu texto não deveria ter sido escrito. Claro que há aqui não só uma dimensão de modéstia (que não é postiça pois combina com a lucidez), mas também uma hipérbole indirecta: o ser amado é inefável. Mas o aspecto mais moderno do texto é a sua auto-negação. Não ecoará esta atitude na metafísica do não-pensamento que Alberto Caeiro finge defender, ou ainda mais justamente numa obra como a do poeta holandês contemporâneo Gerrit Komrij?

O poema parece defender a sua total irrelevância. E com tanto vigor que, no último verso, certifica mesmo que esse parco valor não aumenta em consequência de uma prática poética baseada na humildade. Mas Shakespeare apenas admite que se manteve silencioso (que não usou tintas), não diz que não fez poesia. Mais: o poeta afirma que dormiu sobre a descrição da amada (slept in your report). Não escrever o poema equivale, assim, a sonhá-lo, ou melhor dizendo: a dormi-lo. Se os poetas que efectivamente accionam a escrita (os ingénuos) acabam por descambar na esterilidade (os seus textos são tumbas), aqueles que se deixam ser accionados pela escrita, encontram a glória poética.

O quinto verso permite, portanto, concluir que esta insatisfação com a poesia não é mera retórica, mas uma preocupação que se abre ao futuro. E se passados alguns séculos, ainda Mallarmé se debatia (exemplarmente) com o vazio inerente à criação artística, foi no espaço de poucos anos a seguir à morte deste que os surrealistas vieram desfazer esse dilema, ao proclamarem a fusão entre poesia, amor, e vitalidade. Com base em quê: no inconsciente. E mesmo que os Holocaustos do século XX tenham (temporariamente?) desfeito a ilusão fundada por Breton, o facto é que um poeta como Paul Celan (próximo do grande Pesadelo) certamente concordaria com este gesto lúcido de Shakespeare, que frontalmente desfaz um dos mais velhos clichés do Homem, ao dizer que o sono NÃO É a morte.

Diria agora eu, por minhas palavras, que todo o poema se escreve na região de pausa de um ser. E digo-o sem interesse nas ciências da psique, mas rendido à imprevisibilidade da criação.

No original

I never saw that you did painting need,
And therefore to your fair no painting set;
I found (or thought I found) you did exceed
The barren tender of a poet’s debt;
And therefore have I slept in your report,
That you yourself, being extant, well might show
How far a modern quill doth come too short,
Speaking of worth, what worth in you doth grow.
This silence for my sin you did impute,
Which shall be most my glory, being dumb;
For I impair not beauty, being mute,
When others would give life, and bring a tomb.
There lives more life in one of your fair eyes
Than both your poets can in praise devise.


William Shakespeare

Duas notas a "Transe"

1. No segmento russo do seu filme, Teresa Villaverde maneja a câmara sob a inspiração clara de Andrei Tarkovski. Já todos sabemos que, quando a influência não nos angustia, nunca nos tornamos plagiadores. Mas o que aqui releva é esta sensação que nos fica de que existe uma continuidade natural, afectiva, entre a estética que o autor de “Andrei Rublev” desenvolveu e a paisagem do seu país de origem. Como aconteceu, de outro modo, a John Ford e ao Monument Valley. Ou talvez não seja isso: as imagens de Tarkovski podem ser de tal modo contundentes que já é difícil contemplar a Rússia não urbana sem recorrer ao filtro de cinema que ele nos legou.
Onde surgiu primeiro o ouro: no ovo ou na galinha?

2. Parece-me que este drama assim exposto sem paninhos quentes, por vias travessas acaba por contribuir para a defesa de uma regulamentação jurídica para a mais velha profissão do mundo (uma discussão na ordem do dia). Onde há Lei, há pelo menos a ilusão de que nem tudo, no inevitável, é inevitável.

O ACTUAL 4

“Transe” – Teresa Villaverde


Confesso que a sensibilidade desta autora é bastante diferente da minha. Há nela uma espécie de peso masoquista que a leva a eleger, no universo religioso, o episódio da Paixão como o seu mito pessoal. Eu sou adepto da Ressurreição (esta vida são três dias…). Além disso, nos grandes assuntos morais, prefiro ficar mais perto de Abbas Kiarostami do que de Lars von Trier. Mas precisamente porque não admito que tentem desviar a minha própria sensibilidade, penso que tenho o dever de não interferir na dos outros, e de os tentar compreender exactamente como eles são.

“Transe” levanta questões deveras importantes: desde uma visão corajosa da Europa, muito diversa daquela que nos é sugerida nos discursos edificantes dos homens políticos (este é o outro lado do sonho europeu), até ao entendimento do mundo moderno como sendo um continente onde se perderam as fronteiras sobretudo morais, passando pela destruição do mito aventuroso da viagem, pelo questionamento do Ocidente como destino de sonho (a viagem faz-se da Rússia até Portugal), e pela afirmação de que a violência que costumamos associar à guerra se mantém no contexto de paz, ainda que sob outras formas (menos visíveis, mas igualmente ferozes).

A direcção de actores é fantástica, e a autora está no cume das suas capacidades para filmar (os planos com Natureza trazem essa evidência, mas eu sublinharia a ousadia dos enquadramentos em torno do rosto e do corpo de Ana Moreira, sempre a explorarem soluções de desequilíbrio e a aceitarem o vazio como produtor de sentido). A escolha de um director de fotografia associado ao documentário não será alheia à crueza com que o filme nos assalta.

Há um plano em que vemos as luzes criadas por uma bola de discoteca a viajarem pela parede da sala de um bordel, Ana Moreira sai de campo, e regressa algum tempo depois com o bâton dos lábios esborratado sobre o rosto. Mas o fascínio das luzinhas mantém-se. Não só fica claro que a Beleza é fria e não se corrompe com o Sofrimento (o plano em que, no princípio da obra, o gelo se fractura, indicia mesmo uma intensificação do sublime), mas acima de tudo a autora parece querer dizer que se existe Sofrimento, é tão-somente porque temos noções, expectativas, afectos de Beleza. Temos a ilusão dos sonhos acordados, e quando o real se torna pesadelo, já nem o sono nos pode fazer felizes. Por isso, a gravidade do tema não descamba nem no estetizante (que é sempre imoral), nem na vontade de fazer sujo. Teresa Villaverde desfaz a aporia com a sageza da sua intuição.

E há todo um conjunto de deliciosas subtilezas. Por exemplo, se Sónia, a partir de dada altura, consegue falar italiano, português, etc.,, isso não só revela a espécie de Babel imoral em que ela caiu, mas acima de tudo sugere que a personagem sofreu tanto que foi tocada pelo Espírito Santo, e por isso consegue fazer-se entender em qualquer língua que pretenda.
Outro exemplo: toda a sequência da prisão no palacete, para servir de odalisca privada a um deficiente, pareceu-me uma perversão gritante do espírito das “1001 noites”. É o maravilhoso que existe no Terror.

Teresa Villaverde quis levar o seu gesto até ao limite (a sequência com o cão), e isso é sempre polémico, gerador de discussão. Só podemos admirar a coragem de quem arrisca para lá da vontade de qualquer consenso.

Tate Modern

Palavras do artista Carsten Höller, responsável por uma instalação apenas feita de escorregas que neste momento ocupa uma sala daquele museu britânico:

“Podíamos ter escorregas a atravessar cidades. São amigos do ambiente e introduzem um elemento de loucura na vida de todos os dias.”

Gralhas

Quando escrevia para uma revista de cinema, as gralhas que sempre surgiam nas primeiras provas de cada edição, mais do que me fazerem sorrir, pareciam-me carregadas de sentido.
Relembro os dois acidentes mais espirituosos.

Num artigo sobre Cassavetes, tive eu o desplante de, em vez de escrever os géneros (ou os dois sexos, ou pura e simplesmente os homens e as mulheres), optar pela insípida expressão os tipos sexuais. Não sei se foi obra e graça de quem tipografou o meu manuscrito (nas editoras haverá gente com sarcasmo), ou mera ironia de um destino de pouca tiragem, o facto é que, aquando da correcção das primeiras provas, no lugar daquele meu literário transporte, eu li: os tiros sexuais. Elas cá se fazem, elas cá se pagam: puseram-me no meu lugar. Pois nisto de sexo, é preciso saber sempre o que mais interessa.

Diferente foi o caso de um outro redactor que havia elogiado, com circunstância e alguma pompa, um cineasta que não fazia o agrado da maior parte dos outros colaboradores. E dizia coisas do género jornalista, como por exemplo: ao longo da sua grande carreira como criador. Chegam as ditas provas, e a vingança trouxe uma geral satisfação. A frase apenas perdera uma letra, mas ganhara dignidade: ao longo da sua grande carreira como criado

Igualmente aqui, no meu arremedo de blogue, já publiquei um pequeno erro, que entretanto corrigi. Não é tão engraçado, mas também fala alto. Na “Crónica do espanta-espíritos”, queria eu escrever o seguinte: Terá John Cage composto para espanta-espíritos? No entanto, um esse distraído alojou-se na frase, e a coisa ficou assim: Terá John Cage compostos para espanta-espíritos? A verdade é que eu quase disse a mesma coisa. Pois não pode a música ser apenas mais um composto a acrescentar aos búzios que fazem o objecto? Desde quando a invenção ocupa uma importância de tamanho maior do que a simples matéria a que se refere?

Confissão 9



Só aprecio o preto-e-branco imperfeito do cinema antigo e frágil (quando ser a-duas-cores era mais condição do que ambição). Hoje, o preto-e-branco de alto teor tecnológico, sumptuoso, virtuoso, controladíssimo, impede-me de sonhar.

(“Sunrise”, “The man who wasn’t there”)

A metade que mereces

Faleceu Danielle Huillet.
O cinema perdeu metade de si mesmo (pois o seu número de inteirezas equivale ao número de grandes cineastas que vivem), Straub perdeu o seu cinema.

Arte interpretativa

1. Não sou particularmente comovido pela capacidade de transfiguração de um actor: a entrega absoluta a uma psicologia distinta da sua, a mimese do corpo do ser representado, o perfeccionismo dos sotaques, os tiques da idade, e etc., e etc. Não quero com isto dizer que desvalorize por completo a componente de composição que está na base da arte interpretativa, mas a verdade é que pouco me importa se o Dustin Hoffman dava um bom autista ou se a Meryl Streep tem inveja do camaleão. Que ganhem os Óscares todos que quiserem.

O que me seduz num actor é a tensão que se estabelece entre a personagem composta e a verdade de quem a está a compor. Seduz-me o corpo do actor (desde o desejo até à repulsa), a dança de cada um dos seus gestos, a música que faz com a voz, a vontade que um olhar sempre ostenta de ser irrepetível, a sua velocidade, a maneira de se sentar (Barbara Stanwyck em “Double Indemnity”!), a maneira de correr, o ritmo do silêncio, o desconforto de um guarda-roupa, as hesitações, as marcas irrefutáveis do seu tempo, a resistência pouco profissional à psicologia da personagem, o medo de explorar algumas emoções, o investimento no beijo, o talento para a nudez, os próprios truques, e etc., e etc.

No fundo, defendo que a validade de um intérprete se mede pela conjugação aparentemente contraditória entre o Método do Actors Studio (o actor não deve fingir mas sentir) e a prática e teoria de Robert Bresson (o actor não deve representar mas ser representado). Pois, no fundo, não são as duas horas de um filme (ou de uma peça de teatro) que nos podem dar a verdade inteira de uma personagem. Por isso, o actor deve ser capaz de criar um número de vazios suficientes para que o espectador os possa completar com a sua própria criatividade ficcional. A personagem não existe de forma absoluta, depende daquilo que todos, em conjunto, nela sabem colocar em fantasma.


2. De modo semelhante, a interpretação de um texto não deve cair na obsessão por descobrir a vontade exacta do escritor, mas conjugar aquilo que de facto está expresso com a possibilidade de sentido que o leitor consegue expandir ou encerrar. O leitor é o ACTOR do texto: dá-lhe corpo, imaginação, prazer e sofrimento.

Promessa

Agora que já tenho idade para ler livros infantis, prometo que nunca lerei os livros da Anita.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Mal me quero, bem me quero

Os intelectuais: gente desesperada, sempre preocupada com o sexo dos anjos, incapazes de apreciar as coisas boas da vida, que isto são só dois dias, e a malta tem é de divertir-se.
O povo: tirando os desgraçadinhos, gente que trabalha para não pensar em coisas tristes, sempre em pezinho de dança, o que interessa é ganhar dinheiro e não pensar que a morte é uma bezerra.
Ora eu, que sou snob, escolho um clichê diferente para mim: sou um intelectual com propensão para a esperança, e um Zé Povinho cheio de angústias sofisticadas.
Ora tomem.

Mente sã em corpo são

Dizem-me que há homens tão inflamados que preferem o suave prazer masoquista de verem duas lésbicas a fazerem amor, do que a satisfação do seu próprio corpo no objecto de desejo. Presumo que gostem tanto de mulheres, que sonhem com a total feminização do mundo.
Todos nós queremos ser compreendidos, e procuramos a integração no seio daqueles que connosco são solidários. Mas daí a querermos que o mundo seja feito à imagem e semelhança do nosso desejo, vai uma distância muito grande.
Recentemente, li algures que a Vanessa do triatlo só tinha lido dois livros na vida, e nem se lembrava bem do que lera. Ora, eu de facto já li bastante coisa. E espero ler muito mais. E até acho, com sinceridade, que o conteúdo dos livros é essencial a qualquer comunidade humana que tenha ultrapassado a sua fase da sobrevivência. Mas confesso:
nunca marquei um golo em toda a minha vida, o meu único mérito futebolístico foi ter tirado duas vezes a bola ao melhor jogador da minha turma, no voleibol mandava a bola para o tecto e não para a frente, a única vez que joguei andebol não soube o que fazer quando a bola me veio parar às mãos, tentei jogar squash e usei a cabeça do treinador como bola, no karaté faltava-me o mínimo de agressividade, parti quatro vezes os braços e uma vez a perna a praticar desporto, frequentei meia dúzia de ginásios e abandonei-os sempre ao fim de dois ou três meses, quando nado mariposa pareço mas é uma melga, precisei de trinta e cinco lições práticas de condução, e ainda hoje, com trinta e quatro anos não sei estacionar muito bem, e etc., e etc.
Força Vanessa. Os cultos ladram e a campeã passa.

Militância

Oponho-me convictamente a que as técnicas da narrativa sejam objecto de ensino e respectiva aprendizagem.
O que se ensina na pintura é a mistura dos pigmentos, o tratamento dos materiais, a eficácia dos gestos. De resto, os achados que serviram determinada geração quase sempre se tornam truques que a geração seguinte pretende ultrapassar. Ou seja, não se ensina a pintar.
O que se ensina no cinema é o efeito da escolha das lentes, o uso das fontes de luz, a tecnologia da montagem. Se Orson Welles renovou o modo de filmar em "Citizen Kane", isso deveu-se em parte ao facto do estreante não conhecer o que era considerado possível até então, e por isso ter pedido quimeras ao seu director de fotografia. Gregg Toland, técnico magistral, conseguiu materializar as visões do ingénuo. E assim a imagem-tempo (de Deleuze) atingiu uma primeira maturidade. Ou seja, não se ensina a filmar.
O que se ensina na literatura é a gramática.
De resto, o que temos é de ler ou ouvir aquelas meia-dúzia de ideias que são de facto justas, e esperar que a nossa vida (física e intelectual) nos permita, mais tarde ou mais cedo, entendê-las.

Arte romanesca

Gosto mais de personagens secundárias do que de protagonistas.
Por outras palavras: prefiro o desenho à pintura.

Internet

Um link para outras formas de linkar.

sábado, outubro 07, 2006

"Vampyr" - imagens

O INACTUAL 4

"Vampyr" - Carl Dreyer (1932)

Este post foi substituído por um novo texto, que pode ser lido aqui.

Confissão 8


As minhas cidades de eleição: apesar de lá não exercer o direito de voto. É que a minha diáspora só funciona na imaginação.
(Venezia, Edinburgh)

Exílios

Quando comecei a realmente escrever poesia, muitas vezes recorria a virtuosismos de rima rígida ou de manutenção de medidas métricas. Sinceramente, penso que foi melhor assim: pois quando ainda não escrevia poesia realmente, os meus excessos de liberdade não eram mais que patologias de adolescente.
No entanto, comecei a notar que a minha evolução me levava para outras paragens, e a verdade é que acabei por desenvolver um ritmo peculiar (oral, quase pontuado, intuitivo) , e uma liberdade de rima mais próxima da improvisação musical que da matemática. Por isso, escrevi num poema que o artista é um perdedor de ciências. Aliás, na medida em que, recentemente, comecei a escrever a poesia em prosa, tenho até receio de que qualquer dia perca a própria ciência do verso. Nada faço, contudo, para travar tais mutações. Quero ficar com a poesia, não com aquilo que lhe é lateral.
Tenho também tentado escrever em inglês. Os poemas lá vão saindo, é claro, mas sinto-me de facto como aquele famoso peixe que vive nas nossas bocas, mas fora da sua água. Talvez o criador seja apenas perdedor de ciências (todas aquelas que trouxemos da infância), e não tenha direito a ganho nenhum. Não citaria o Pessoa com exactidão, mas diria: o meu exílio é a língua portuguesa. Nisto de poesia, convém ter apenas os direitos que o céu permite.

Galeria 4


Mário Cesariny