segunda-feira, novembro 06, 2006
Blog-fleuve
Este blogue não é financiado pela Câmara Municipal do Porto.
Fora de Campo
Cada vez sou menos militante da pequena sala de cinema associada ao Teatro do Campo Alegre. São os filmes que me levam lá, e não a exemplaridade com que o público cinéfilo é tratado.
Demoraram meses a aderir ao King Card (agora mudado para Medeia Card), o que fazia com que o cartão desse acesso a dezenas de salas em Lisboa (abrangendo quase toda a oferta interessante), mas apenas às quatro salas de projecção do centro comercial Cidade do Porto (onde a programação se tem tornado cada vez menos ousada e relevante). Invicta sempre vencida.
O local onde o teatro está situado é deserto, inóspito, nada mais tendo a oferecer senão lugar para estacionamento e um restaurante para quem gostar de quequices.
Todas as longas-metragens têm de ser interrompidas a meio, por razões técnicas que o espectador pagante não tem de aturar.
Ontem, colocou-se a cereja em cima da falta de bolo. Depois da segunda interrupção na projecção de "Les amants réguliers" de Philippe Garrel, surgiu um qualquer contratempo técnico no funcionamento do som que distorcia por completo a banda sonora, ao ponto do visionamento da obra se tornar insuportável (não fiquei até ao fim da exibição).Para além de ser inaceitável que uma casa com a missão de fornecimento de serviços não tenha uma maneira de suprir imediatamente o mau funcionamento de uma máquina, os responsáveis por esse serviço nem sequer tiveram a cortesia (o dever?) de se dirigirem aos espectadores para lhes perguntarem se queriam continuar a ver o filme naquelas condições, se queriam ser reembolsados, ou se pretendiam um bilhete grátis para assistir a uma sessão, num outro dia, mas nas devidas condições.
Ora, na medida em que, a partir de hoje, o filme vai passar a ser apenas mostrado na sessão das 18h30, talvez não o consiga ver na íntegra, e com integridade, durante o breve período de tempo que os senhores distribuidores nos resolveram conceder para matar fome cinéfila. Portanto, não falarei já sobre essa obra aqui no blogue, apesar de esta me ter parecido uma das mais relevantes que (quase) vi ultimamente.
Jours de fête
Não fui ver nenhum dos filmes que passaram na Festa do Cinema Francês. E isto apesar de ser cine-francófilo (o que quer apenas dizer que amo as obras de Gance, Vigo, Renoir, Bresson, Jacques Becker, Cocteau, Max Ophüls, Tati, Godard, Truffaut, Rivette, Rohmer, Resnais, Varda, Demy, Duras, Garrel, Pialat, etc., e não a ideia genérica de um cinema de irredutíveis gauleses). Atrevo-me a elencar as razões que levaram a tal omissão:
1º - Pura Preguiça (sem comentários)
2º - O cinema francês tornou-se muito menos relevante nos tempos recentes (é claro que há sempre objectos interessantes, mas os novos autores não são propriamente arrebatadores)
3º - Muitos dos filmes previstos para a Festa vão passar, mais tarde ou mais cedo, no circuito comercial (o que faz com que o certame seja um ritual de promoção, e não um mecanismo de oferta alternativa)
4º - A promoção em torno dos filmes baseou-se na ideia de que os espectadores tendem a pensar que o cinema francês é hermético, mas estão errados porque isso JÁ NÃO é assim.
a) Argumento sério - o que, geralmente, se quer dizer com esse chavão é que o cinema francês também está a ficar parecido com o cinema americano; porquê então fazer uma festa de cinema xerox?
b) Argumento ainda mais sério - os filmes verdadeiramente herméticos são raros; o que acontece é que a maioria dos espectadores não tem competências para ler outro tipo de cinema que não seja o que deriva do modelo hollywoodiano; ora essas competências são fáceis de adquirir.
c) Argumento decisivo - se um filme é hermético, quando dele saimos somos uns verdadeiros Houdinis (espectadores com poder de lidar com toda a ilusão).
Quando houver uma Festa de Cinema, lá estarei.
domingo, novembro 05, 2006
Segunda passa
No próximo ano, espero ganhar o Euro Milhões, para poder deixar de ser trabalhado, e poder trabalhar à vontade.
(Não fumo. Nem sequer coisas esquisitas)
Primeira passa
No próximo ano, desejo ir viver para a cidade do Porto, de modo a poder não votar no senhor Rui Rio.
(Série que inicia uma antecipação do Ano Novo)
Inspiração
Se no cinema, a câmara (cuja função é espiritualizar) é continuamente obrigada a respirar com o real, poderíamos supor que no caso da poesia, o autor estaria condenado a respirar com a mera memória do mundo.
Nada mais falso: se um homem é poeta, é porque para si a palavra é real, é uma coisa, dura como a pedra, viva como um órgão humano. Uma das fragilidades do cinema, aliás, é o tratamento ingénuo que confere ao verbo, tomando-o como algo qualitativamente distinto dos outros elementos em campo. O cinema não requer a palavra, mas se a usa, deve-lhe a humildade de a tornar irmã do actor, do cenário, do foco de luz.
Legítima defesa
No fundo, todo o acto é precedido de uma reflexão. Desde o caso do sábio chinês que viveu toda uma vida para escrever um bravo haiku, ao simples gesto de defender a integridade do rosto numa queda. Desde a pesquisa sistemática de um Kant computadorizado, até à mecânica da erecção masculina.
E a diferença não se restringe à duracção do pensamento (um nanosegundo, uma infinidade guterresiana), mas à própria amplitude do que significa pensar. Reduzir o pensamento à serenidade racional é empobrecer o âmbito de possibilidades com que a humanidade a si mesma se muda e se conserva. O reflexo também é reflexão. A Filosofia ainda está na sua pré-história.
Casting 5

O actor Louis Garrel é senhor de uma tremenda fotogenia no cinema, o que só precipita a desilusão quando o meio que o revela é a fotografia: esta nada mais faz do que subexpô-lo (metaforica-mente).
Poderíamos especular que há corpos que nasceram para ser belos em movimento, e outros que fazem o seu sentido no tempo congelado. Mas não é nada disso. O actor ainda não encontrou quem o quisesse fotografar com a mesma convicção com que tem sido filmado.
Perder a trindade
Num artigo da revista do PÚBLICO de hoje (escrito por Maria Filomena Mónica), dizia-se que o dogma da virgindade de Nossa Senhora resultara do erro de um tradutor que, não sabendo que a palavra grega parthenos queria dizer "rapariga de idade casadoira", a tinha traduzido por "virgem".
Para além da maior ou menor justeza deste (nada pequeno) pormenor histórico, o que me fascinou foi a relação inesperada entre um elemento da moral dos costumes e um outro da actividade literária.
Pois a verdade é que um corpo virgem talvez seja aquele que ainda não foi traduzido.
sábado, novembro 04, 2006
Vidinha
É por certas e determinadas coisas que, às vezes, sinto a tentação de transformar este confessionário (que tenho vindo a construir) num precionário.
Confissão 12
Piloto automático
Quando comecei a escrever poesia, lia e relia tantas vezes os Manifestos Surrealistas que não resisti a tentar a minha sorte nos meandros da escrita automática. Contudo, ou porque não sabia fazer a coisa com jeito (nisto de surrealismo, há muito de proeza na cama), ou porque a minha chávena de chá era outra (canela-maçã, ou mesmo café), os textos resultantes desse processo podiam todos servir de chão para o meu cão lhe passar por cima.
Um dia (uma noite?), saiu uma coisa com piada. Como não conto publicá-la, partilho-a com os passageiros deste blog.
Num poema em prosa, em que dois amantes entravam num quarto de hotel pelo buraco da fechadura, apenas para descobrirem que o quarto não tinha chão, surgia a seguinte frase:
Então, as substâncias pairantes de que o amor se faz, foram plenamente assumidas.
E foram estas as minhas aventuras na república de Breton. Descobri em mim um problema de visão que me impede de fazer profissão (de fé) surreal.
Os meus sonhos são heréticos, apócrifos, apóstatas.
Crónica do chocolate
Mark Rothko morreu sem ter pintado esta sua última obra-prima. Na Sotheby's, já crescia água na boca de toda a gente. Talvez fosse aquilo a que os britânicos chamam word of mouth, e por isso mesmo se espalhou, doce porque elo-quente.Havia quem já lhe desse o título A face oculta da lua. O autor, tendo atingido o maior valor calórico (colérico) da sua criatividade, afirmava que o verdadeiro quadro não era o resultado evidente desta sua cozinha, mas o branco amargo que permanecia indomado nas traseiras da tela.
Os miúdos só pensavam em fazer dedadas no quadrado: pequenos passos para as mãos, grandes pegadas para as bocas.
Aliás, muita agitação surgiu em torno da obra omissa: os hermeneutas supuseram um recheio, os falsários reconstituiram a receita original, os pensadores dela derivaram conceitos (juntaram-na à Razão, que é menos ordem do que ordenha), os coleccionadores aprimoraram as suas técnicas de congelamento, os comerciantes sonharam com cacau.
Os poetas comeram o quadro. Não por estarem rotos de fome (ou aluados pela sugestão das pratinhas), mas porque não resistem às iguarias de um museu imaginário.
Menção
O excelente Pastoral Portuguesa transformou os nomes dos blogs na sua lista de links com recurso à figura do anagrama.
A quem encontrar a formulação que coube a este mui pouco honroso endereço, dar-lhe-emos o prémio da nossa consolação.
(Não vale clicar até acertar)
quinta-feira, novembro 02, 2006
Partilha 5
Um micro-conto:
Homem de muitos recursos, bastara-lhe um fio achado por acaso para ele fazer a sua cítara. A essência da corda não é a sua matéria, mas a tensão que a estica e lhe retira consequências. Os enforcados sabem-no. E, no entanto, muitas vezes ele cantava a velha história de um condenado à corda, que não se importava de morrer desde que o deixassem escolher o último material a fazer amor com o seu corpo.
O tocador de cítara percorria as ruas estreitas de Veneza, sempre à espera de achar o Inferno ao virar da esquina. Contavam os seus antepassados que a entrada para o Além tinha o tamanho do buraco de uma agulha, e que por ela passavam camelos, mas não dromedários. Pois os Homens morrem melhor quando são indecisos na sua reserva.
Monomaníaco, o cantor ainda não estava pronto para deixar a vida. Mas tinha perdido a sua maior riqueza: a amada tinha regressado ao baú das sombras sem que isso tivesse sido previsto no mapa profético da sua vida. Por isso ele se recusava a contemplar as suas mãos inúteis, e as submetia à acção da cítara, esperando encantar a ilha que o acolhia.
Enquanto não abria a porta que lhe permitiria ir buscar a morta como se a vida fosse apenas uma forma de despojo, ele vagueava pela bela cidade, cidade de infinitas significações. Corriam boatos de que ele domava feras. Não havia leão, touro, ou serpente, que sob a sua música não se amansasse em forma de signo. Mas essa astrologia efémera, que constantemente reclamava que fosse accionada a corda da inspiração, não se aplicava a todos os animais. Os pássaros, os gatos, as sardaniscas, já tinham a paz de quem não se deixa constelar. A música era-lhes tão estranha como o silêncio era indecifrável pelo cão Cérbero. E era precisamente este, o monstro que ele tinha de adormecer, para poder entrar no país do sono sem sentido.
Talvez não fosse verdade, mas dizia-se que até as pedras se moviam perante os acordes que a mágica cítara fazia soar. Aliás, ele caminhava sempre por ruas diferentes, não porque estivesse perdido, mas para não incomodar a serenidade da arquitectura veneziana. Porventura pensava que só por hábito podem as pedras chorar.
Os anos passaram. O Inferno nunca se lhe revelou. Ele colocou a hipótese de dar um uso mais radical ao cordame da sua cítara. E bastou essa hesitação para o pôr mais próximo da Praça da Morte. Mas a ironia do destino é feita com a cera de Dédalo, não com a de Ícaro.
E assim ele continuou, vadio perdido numa cidade feita à sua medida. Talvez Veneza não o quisesse libertar porque uma gaiola só é bela quando expõe um sofrimento. Ele chegou a pensar que se tinha fundido com a sua lira, e que nunca entraria no Inferno porque a música aí forma a água do Rio Letes. Havia mesmo quem lhe chamasse a Ave-do-Paraíso.
Mas ele chamava-se apenas Teseu.
(Micro-conto pertencente ao projecto "Cadernos de Xochimilco", livro que não sei se alguma vez me vai apetecer concluir)
Com senso
Estou de acordo com Eduardo Pitta, Vasco Graça Moura, e Maria Alzira Seixo (tal conjugação de astros não voltará a acontecer tão cedo). Isto é uma estupidez.
quarta-feira, novembro 01, 2006
Beware of the third film
Houve um tempo em que eu dava especial atenção ao terceiro filme de um novo autor (apesar dos cineastas se preocuparem acima de tudo com o segundo, quando o primeiro lhes corre bem). O terceiro filme do Mamet consagrou-o, o mesmo para os irmãos Coen, e Zhang Yimou, antes de iniciar a sua decadência a pique, realizou essa obra-prima que em português recebeu o título de "Esposas e concubinas". Hoje estou muito mais distraído.
Pelos vistos, "Marie Antoinette" não é o terceiro filme de Sofia Coppola. Mas é o terceiro dos que lhe fizeram a fama. Infelizmente, não me convenceu.
Parece-me que a realizadora quis fazer um filme feminista, ou pelo menos em torno do feminino (o que seria óptimo), mas acabou por fazer um filme de gaja (o que é péssimo). A ideia seria filmar Kirsten Dunst como um ser humano demasiado genuíno (nas suas fraquezas, belezas, expectativas, inocências) para poder ser enquadrado no cenário absurdo da corte de Versalhes. Mankiewicz fê-lo em "The barefoot comtessa" em torno da relação Ava Gardner/Hollywood. Outro pressusposto do filme seria o de encenar Maria Antonieta como sendo uma teenager do fim do século XX (ideia excelente, e bastante bem materializada). Não é só a música punk que é anacrónica. Tudo no filme se reenvia para a adolescência de Sofia Coppola.
Mas em vez do rigor de "Virgens suicidas" ou do charme inteligente de "Lost in translation", a realizadora perdeu-se na futilidade que quis polemizar. Ao fim do centésimo sapato, de bolinhos de todas as cores, da infindável parafernália daqueles vestidos sumptusos com que as meninas sonham, fica claro que a cineasta se deixou ludibriar pelo luxo. É, de resto, um problema que assombrou o seu pai, mas também Scorsese, Kubrik e Greenaway: por vezes os anglo-saxónicos confundem ambição com fausto, querem mostrar todo o dinheiro que gastaram com os seus delírios, e perdem a noção da fronteira entre beleza e kitsch. Eu que até gostava de falar da roupinha de antanho, fiquei tão enjoado que ninguém mais me convence a vestir uma personagem feminina a não ser com calças de ganga (algo de semelhante me aconteceu em "Singing in the rain" a propósito da cor amarela). Ficamos sem saber o que Sofia Coppola pensa, de facto, sobre aquela futilidade que é própria das mulheres (a ambiguidade aqui é pouco interessante). E no meio de tantos folhos e talhas douradas, o filme fica vazio de todo e qualquer discurso consistente ou desafiador (político, histórico, psicológico, feminista, etc.).
Estes americanos em Paris... Só desejo que a autora fique mais segura de si e da sua própria cultura, para não mais escorregar num filme para inglês ver.
Recomendações a martelo
Momento de publicidade mal paga. Ou Plano Privado de Leitura.
Seja como for, dois livrinhos que eu vivamente (é pôr bastante vida nisto) me aconselho:
Seja como for, dois livrinhos que eu vivamente (é pôr bastante vida nisto) me aconselho:
_ Acaba de sair um volume com poesia de A. C. Swinburne, apresentada por Fernando Guimarães. Swinburne foi um ganda maluco, personagem inquietante e misterioso, o totoloto de um romancista. A pouca poesia que dele conheço parece-me igualmente estranha e fascinante (apesar de ser um poeta muito pouco cotado hoje em dia - o nasdaq da moda?). Não sei quais os poemas que estão na colectânea, não conheço ainda as traduções, mas já sei que este livro não me vai escapar.
_ Para quem gosta de ler em inglês, chamo as atenções para Paul Celan - Poet, survivor, jew de John Felstiner, uma biografia do grande poeta que se exprimiu em alemão. A narrativa da vida está feita com equilíbrio e abundância de pormenores, as interpretações são justas (mas não muito criativas), e acima de tudo, as traduções estão tão bem legitimadas que não há nada que lhes possamos apontar. Não sou, contudo, tão devoto dos meus leitores que garanta que este livro ainda esteja em circulação.
Subtileza
Admiro aquele que, tendo perdido o ser com quem viveu um amor cheio de plenitude, não consegue encarar a possibilidade de uma nova relação (e admiro, com igual fervor, quem nesse caso decide partir para outra ou para outro).
Mas quando alguém encerra a sua disponibilidade sexual e sentimental por causa de uma paixão que nem sequer se cumpriu (desculpas, desculpas), isso só me provoca indiferença. Trata-se de um mero problema psiquiátrico - e não de uma opção lírica.
(A propósito das mulheres que ficaram virgens por não terem sido correspondidas por Oliveira Salazar)
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