quinta-feira, outubro 19, 2006

Rivolição

Todos conhecemos o Cassete Carvalhas e o Cassete Jerónimo. E é mesmo verdade que, no lado B destes senhores, a música é sempre a mesma. Mas basta ler os ideólogos de direita para ficarmos com a mesmíssima impressão. Não é preciso que o Dr. Pacheco Pereira (aqui o Dr. é necessário) escreva a sua Opinião: já a sabemos de antemão.
A Agustina é a minha romancista portuguesa de cabeceira. Sigo avidamente o blogue do Pedro Mexia. Aprecio os poetas e os pensadores católicos. Nunca tive problemas com a inteligência, quando esta escapa à estreiteza que sempre se lhe pretende impor.
Para além disso, voto sempre em branco (isto de esquerda está preto). Presumo ainda que o folclore da revolução só possa parecer risível à imaginação contemporânea. E se algumas das pessoas envolvidas no caso Rivolivre até são minhas amigas, é com rigor que reclamo que nem sempre essas pessoas respeitaram a minha liberdade com o mesmo rigor que agora devotam ao seu protesto.
Mas estou solidário com a ideia global.
É que, de facto, chegamos a um ponto da nossa História em que o aspecto determinante da nossa vida é tão-somente a economia. Não ria, leitor. Pois houve uma era da Razão, uma era de Deus, falou-se depois muito no Homem, agora é a Economia. É, na verdade, o fim da História. Mas depois do 11 de Setembro, mesmo os mais cegos compreenderam que esse não é um final feliz.
Há coisas evidentes: desde a proliferação nuclear (aproveito para lembrar que o único crime nuclear tem autoria dos Estados Unidos) ao terrorismo, tudo isso passando por esse absurdo que nos dizem ser demagógico mas que é, profundamente, um absurdo: metade do planeta sofre de obesidade mórbida, a outra metade da morbidez da fome.
Há coisas muito pouco evidentes: as pessoas nunca se questionam se todas essas horas que dedicam a um trabalho que só as deixa sobreviver é ou não um esbanjamento do tão curto e precioso tempo da nossa vida; o mundo tornou-se tão complexo que deixámos de o entender (perguntava Monica Vitti, em "L'eclisse" de Antonioni, para onde vai o dinheiro que se perde na Bolsa; e Alain Delon, profissional da especulação, não fazia a menor ideia); e é só pelos equívocos que a liberdade vai permitindo, que o mercado não se torna entidade ditatorial.
E ainda as coisas mais ou menos evidentes: os salários baixam, a reforma está a um passo de desaparecer, o trabalho acaba, a saúde tem de ser paga, os cursos universitários não garantem futuro nenhum, as situações de miséria são gritantes.
Até concedo que, neste mundo que construímos, já não se possa viver de outro modo. O velho Sócrates já não tem razão: há novo Sócrates em acção.
Mas permitam-me o desabafo: este mundo já não me parece construído para mim. Sou eu que tenho de me adaptar aos caprichos, às mediocridades, às pequenas tiranias do dinheiro. O dinheiro é o grande e o único triunfador da nossa humana aventura. E quem mais sofre com tal estado das coisas, é quem mais defende que tem de ser assim. Dizem-me que o que se leva desta vida é o sábado à noite... Pois eu levo esta minha estranheza que pretendo mais filosófica que demagógica.
Ou serei o único que acho que umas centenas de contos pagas a um cineasta alternativo (prefiro dizer bom cineasta) contra o pequeno prejuízo de um público reduzido, é um mal menos constrangedor do que as fortunas que os jogadores de futebol ganham à custa de quem empenha o salário de um mês inteiro para ver meia dúzia de jogos no campeonato do mundo?
Os políticos que defendem um modelo laboral onde as pessoas são meros títeres nas mãos da Economia (que teve um papel tão nobre no princípio da nossa História), são os mesmos que defendem o pobre povinho das arrogâncias herméticas do intelectuais. O Beckett devia ter escrito teatro de revista. Mas nada é assim tão simples.
Penso que os rivolitosos pretendem viver as suas vidas dando preferência a outros aspectos da experiência humana que não apenas a Economia. Serão perdedores, um pouco ridículos, bastante desequilibrados até, mas estão no seu direito. E o direito que tutelam parece-me o mais belo de todos: o de amar o Homem em todo o seu potencial, e na aspiração da sua crescente liberdade. Se as Ideologias se fizeram para o Homem, e não o contrário (o comunismo, nunca mais!!!), também a Economia se fez para o Homem, e não o contrário. Vir falar de público, elites, prestígio, qualidade, rentabilidade... Isso que interessa? Até porque pode um gestor privado ser tão snob que aposte num elitismo pior do que qualquer subsidiodependência.
Que outros pensem o contrário - estejam à vontade. Eu acredito que a missão da Arte se confunde com o mais profundo e o mais amplo que pode ser concedido ao, e conquistado pelo, Homem. Por isso vejo filmes de Bresson e de Eisenstein, leio Miguel Torga e Paul Éluard, aprecio Brecht e Claudel. Quero apenas não caber em mim. Quero sair do labirinto do dinheiro, e a Criação é um dos poucos fios de Ariana que conheço. O Rivoli interessa-me pouco (até posso abandoná-lo em las férias permanentes). Mas o meu credo é este.
Por isso voto em branco.

Galeria 5

Natália Correia

A língua inglesa

Dizem os Clã que a vida devia ser como no cinema, onde a língua inglesa fica sempre bem e nunca atraiçoa ninguém.
Isto de associarmos o inglês à ausência de traição parece-me uma Ideia de Demagogia Maciça, apesar de todos sabermos que tal coisa não existe. Mas mesmo o ficar sempre bem me faz lembrar aquela comediante que dizia: com um vestido preto, eu nunca me comprometo. Ora hoje, temos todos de ser mais políticos do que isso.
Houve mesmo uma fase em que não se ouvia ninguém falar mais inglês do que a palavra fuck (ah! o realismo...). E pouco mais sabemos dessa língua do que a secura da sua terminologia técnica, a herança dos vaqueiros (you guys, you guys) ou a degenerescência do posh britânico.
Só aprecio o inglês quando ele é solene. Quando não conhece nenhuma outra hegemonia a não ser o seu desejo de elegância. Quando não resolve mas cria um problema de expressão. Quando é trabalhado por um ourives que abandonou todas as matérias preciosas à excepção do tempo. Só aprecio o inglês que não pode ser ensinado.
Because I do not hope to turn again
Because I do not hope
Because I do not hope to turn
Desiring this man's gift and that man's scope
I no longer strive to strive towards such things
T. S. Eliot
Como diria aquela comediante: não sei como há Homens que não gostam disto.

No plateau 1

Jean-Look Spiell Bergman chegou ao plateau cheio de ideias.
Pretendia filmar a seguinte imagem: uma flor em muito grande-plano, na zona esquerda do enquadramento; muito ao longe passaria o vulto do protagonista, caminhando da direita para a esquerda, até desaparecer por trás da colossal planta. Total profundidade de campo. Passados alguns segundos daquela acção, sairia um insecto de dentro da flor (uma formiga gigante, ou uma bicha-cadela).
Foi preciso abrir um concurso para contratar um domesticador de insectos. Mas ninguém sabia se tal profissão era um efeito especial.

Hiperbólicos Portugueses

Aquando da sua passagem pela Assembleia da República, a deputada Maria Elisa propôs que se fizesse a trasladação do Panteão para as cinzas do senhor Fernando Pessoa.
(Qualquer semelhança entre esta ficção e a coincidência, é pura irrealidade).

terça-feira, outubro 17, 2006

Imagens

O filme “Little Miss Sunhsine” é extremamente simpático. Não tanto um feel good movie, mas uma pedrada no charco do sucesso e do conformismo. Filme rente ao humano, ao sabor de um veículo que só funciona a descer (é um grupo de falhados) ou que precisa de solidariedade para arrancar (é uma família). Ainda por cima, com alguma provocação directa às Vestais deste mundo.

No entanto, para além do argumento não me parecer suficientemente bem explorado, algumas declarações dos realizadores deixaram-me francamente insatisfeito. Jonathan Dayton e Valerie Faries pretenderam que, no seu filme, se notasse mais a cooperação com um argumentista do que a marca do seu passado como fazedores de videoclips. Compreendo que se referiam essencialmente à estética suja que “Little Miss Sunshine” tenta reproduzir. No entanto, dada a pobreza das imagens efectivamente conseguidas, fico com a sensação de que ainda existe, no cinema, uma distinção artificial entre imagens belas e feias (ou seja, entre o decorativismo e a ausência de expressividade). Ora, esse é um falso problema (um modo errado de entender os conceitos de forma e conteúdo).

“Little Miss Sunshine” é, acima de tudo, um filme palrado. Mas o cinema não é teatro, não é narrativa. O cinema é a montagem de imagens e sons. Uma imagem pode ser assombrosamente fascinante (Tarkovski), ou a mera espuma de um café (Godard). Pode incidir na afectividade da fotogenia (Bergman) ou na perversão fria do que é encenado (Buñuel). Pode exigir a palavra (Oliveira) ou prescindir dela (Murnau). Mas é a sua contundência que decide o assunto de um filme. Filmar é inventar imagens.

Ou seja, é justo que se queira abandonar a futilidade da estética MTV. Mas se isso implica a ausência de criatividade especificamente visual, então não estamos perante cineastas.

Luta de classes

Resolvi fundar um partido: o PCP – Partido Comunista do Prazer.

É que ao lado da desigualdade de copeques que cada um tem para se amanhar na vida, existe uma outra desigualdade que não é grave de um modo intenso, mas sim extenso. Pois há quem exerça uma profissão que verdadeiramente ama, ganhe bem ou menos bem, e há quem seja escravo mais ou menos consciente (menos ou mais anestesiado, portanto) de um labor que não completa a sua inteligência. Ganhe mal ou menos mal. Há aqui, portanto, uma enorme diferença de rendimento: passamos tanto, tanto tempo a trabalhar, que é justo dizer que há quem seja feliz em full-time, e outros apenas em part-time.

Ou já estaremos tão resignados que achamos que o prazer não passa de um subsídio de férias?

Ingenuidade

Ninguém é mais dependente do que eu deste português que se fala em Portugal. Quando passei um período de mais de dois meses em Inglaterra, senti-me em verdadeiro estado de ressaca intelectual, como se já não soubesse pensar, interrogar, escrever, ou até mesmo desejar.

Vi recentemente, na televisão, a cantora Eugénia Melo e Castro defender que, apesar de viver e trabalhar no Brasil (por razões de afinidade com a Canção desse país), continua a exprimir-se musicalmente com o sotaque de Portugal. Acredito, e até agradeço a militância. Mas o que me saltou aos ouvidos foi o incrível esforço que essa mulher fazia para falar fiel ao seu propósito. Ele era uma vogal que se queria abrir, uma expressão bem mais ipiranga que pessoana, um desarranjo da sintaxe a pedir calor e aguinha de coco… Era uma luta titânica.
Ou talvez entre Davi e Golias, quando o português quer deixar de resistir e entregar-se de alma e canção à virilidade de um sotaque fatal.

Para defender a nossa causa, é preciso ter a lucidez de a saber perdida à partida.

Faróis

Não leio revistas de teatro. Mas vou ao teatro, e leio jornais. E no entanto, continuo a sentir-me incapaz de construir um discurso crítico sobre os espectáculos a que assisto. Os críticos de Arte são brilhantes (por vezes mais brilhantes do que…?), os críticos de cinema esforçam-se (e houve o exemplo dos Cahiers), mas o teatro faz figura de parente pobre na imprensa genérica. Além disso, os programas que as companhias disponibilizam nas suas récitas não contêm crítica, por razões óbvias. Por isso agradeço ao blogue O MELHOR ANJO pelo seu serviço público.

Também uma palavra de simpatia para Desidério Murcho que, no suplemento Mil Folhas do jornal PÚBLICO, vai fornecendo pistas para uma biblioteca de filosofia contemporânea. Quem mais o faz? Pergunto-me só se as sugestões não poderiam extravasar o âmbito anglo-saxónico…

E claro, o Rui Tavares, que em matérias de política vai tendo razão algumas vezes mais do que eu.

No escrínio 7

Tradução do soneto de Shakespeare (do post anterior) por Vasco Graça Moura:

Nunca vi precisasses de pintura
e assim não te pus tintas na beleza,
achei-te (ou cri que achava) mais altura
para o que dá poeta em singeleza.
E dormi sobre o que és, para que bem
se visse, porque existes, como desce
um aparo moderno e fica aquém,
falando de valor, do que em ti cresce.
Tomaste esse silêncio por meu crime,
mas terei, mudo, glória mais subida,
nem a beleza o ser calado oprime,
que outros são tumba achando que dão vida.
Um só dos olhos teus mais vida anima
que teus dois vates em louvor e rima.


Shakespeare foi um poeta invulgarmente lúcido, e até por vezes demasiado cansado para se deixar levar pela poesia. No soneto proposto, o próprio poeta assume que escreveu o seu texto apenas para dizer que o seu texto não deveria ter sido escrito. Claro que há aqui não só uma dimensão de modéstia (que não é postiça pois combina com a lucidez), mas também uma hipérbole indirecta: o ser amado é inefável. Mas o aspecto mais moderno do texto é a sua auto-negação. Não ecoará esta atitude na metafísica do não-pensamento que Alberto Caeiro finge defender, ou ainda mais justamente numa obra como a do poeta holandês contemporâneo Gerrit Komrij?

O poema parece defender a sua total irrelevância. E com tanto vigor que, no último verso, certifica mesmo que esse parco valor não aumenta em consequência de uma prática poética baseada na humildade. Mas Shakespeare apenas admite que se manteve silencioso (que não usou tintas), não diz que não fez poesia. Mais: o poeta afirma que dormiu sobre a descrição da amada (slept in your report). Não escrever o poema equivale, assim, a sonhá-lo, ou melhor dizendo: a dormi-lo. Se os poetas que efectivamente accionam a escrita (os ingénuos) acabam por descambar na esterilidade (os seus textos são tumbas), aqueles que se deixam ser accionados pela escrita, encontram a glória poética.

O quinto verso permite, portanto, concluir que esta insatisfação com a poesia não é mera retórica, mas uma preocupação que se abre ao futuro. E se passados alguns séculos, ainda Mallarmé se debatia (exemplarmente) com o vazio inerente à criação artística, foi no espaço de poucos anos a seguir à morte deste que os surrealistas vieram desfazer esse dilema, ao proclamarem a fusão entre poesia, amor, e vitalidade. Com base em quê: no inconsciente. E mesmo que os Holocaustos do século XX tenham (temporariamente?) desfeito a ilusão fundada por Breton, o facto é que um poeta como Paul Celan (próximo do grande Pesadelo) certamente concordaria com este gesto lúcido de Shakespeare, que frontalmente desfaz um dos mais velhos clichés do Homem, ao dizer que o sono NÃO É a morte.

Diria agora eu, por minhas palavras, que todo o poema se escreve na região de pausa de um ser. E digo-o sem interesse nas ciências da psique, mas rendido à imprevisibilidade da criação.

No original

I never saw that you did painting need,
And therefore to your fair no painting set;
I found (or thought I found) you did exceed
The barren tender of a poet’s debt;
And therefore have I slept in your report,
That you yourself, being extant, well might show
How far a modern quill doth come too short,
Speaking of worth, what worth in you doth grow.
This silence for my sin you did impute,
Which shall be most my glory, being dumb;
For I impair not beauty, being mute,
When others would give life, and bring a tomb.
There lives more life in one of your fair eyes
Than both your poets can in praise devise.


William Shakespeare

Duas notas a "Transe"

1. No segmento russo do seu filme, Teresa Villaverde maneja a câmara sob a inspiração clara de Andrei Tarkovski. Já todos sabemos que, quando a influência não nos angustia, nunca nos tornamos plagiadores. Mas o que aqui releva é esta sensação que nos fica de que existe uma continuidade natural, afectiva, entre a estética que o autor de “Andrei Rublev” desenvolveu e a paisagem do seu país de origem. Como aconteceu, de outro modo, a John Ford e ao Monument Valley. Ou talvez não seja isso: as imagens de Tarkovski podem ser de tal modo contundentes que já é difícil contemplar a Rússia não urbana sem recorrer ao filtro de cinema que ele nos legou.
Onde surgiu primeiro o ouro: no ovo ou na galinha?

2. Parece-me que este drama assim exposto sem paninhos quentes, por vias travessas acaba por contribuir para a defesa de uma regulamentação jurídica para a mais velha profissão do mundo (uma discussão na ordem do dia). Onde há Lei, há pelo menos a ilusão de que nem tudo, no inevitável, é inevitável.

O ACTUAL 4

“Transe” – Teresa Villaverde


Confesso que a sensibilidade desta autora é bastante diferente da minha. Há nela uma espécie de peso masoquista que a leva a eleger, no universo religioso, o episódio da Paixão como o seu mito pessoal. Eu sou adepto da Ressurreição (esta vida são três dias…). Além disso, nos grandes assuntos morais, prefiro ficar mais perto de Abbas Kiarostami do que de Lars von Trier. Mas precisamente porque não admito que tentem desviar a minha própria sensibilidade, penso que tenho o dever de não interferir na dos outros, e de os tentar compreender exactamente como eles são.

“Transe” levanta questões deveras importantes: desde uma visão corajosa da Europa, muito diversa daquela que nos é sugerida nos discursos edificantes dos homens políticos (este é o outro lado do sonho europeu), até ao entendimento do mundo moderno como sendo um continente onde se perderam as fronteiras sobretudo morais, passando pela destruição do mito aventuroso da viagem, pelo questionamento do Ocidente como destino de sonho (a viagem faz-se da Rússia até Portugal), e pela afirmação de que a violência que costumamos associar à guerra se mantém no contexto de paz, ainda que sob outras formas (menos visíveis, mas igualmente ferozes).

A direcção de actores é fantástica, e a autora está no cume das suas capacidades para filmar (os planos com Natureza trazem essa evidência, mas eu sublinharia a ousadia dos enquadramentos em torno do rosto e do corpo de Ana Moreira, sempre a explorarem soluções de desequilíbrio e a aceitarem o vazio como produtor de sentido). A escolha de um director de fotografia associado ao documentário não será alheia à crueza com que o filme nos assalta.

Há um plano em que vemos as luzes criadas por uma bola de discoteca a viajarem pela parede da sala de um bordel, Ana Moreira sai de campo, e regressa algum tempo depois com o bâton dos lábios esborratado sobre o rosto. Mas o fascínio das luzinhas mantém-se. Não só fica claro que a Beleza é fria e não se corrompe com o Sofrimento (o plano em que, no princípio da obra, o gelo se fractura, indicia mesmo uma intensificação do sublime), mas acima de tudo a autora parece querer dizer que se existe Sofrimento, é tão-somente porque temos noções, expectativas, afectos de Beleza. Temos a ilusão dos sonhos acordados, e quando o real se torna pesadelo, já nem o sono nos pode fazer felizes. Por isso, a gravidade do tema não descamba nem no estetizante (que é sempre imoral), nem na vontade de fazer sujo. Teresa Villaverde desfaz a aporia com a sageza da sua intuição.

E há todo um conjunto de deliciosas subtilezas. Por exemplo, se Sónia, a partir de dada altura, consegue falar italiano, português, etc.,, isso não só revela a espécie de Babel imoral em que ela caiu, mas acima de tudo sugere que a personagem sofreu tanto que foi tocada pelo Espírito Santo, e por isso consegue fazer-se entender em qualquer língua que pretenda.
Outro exemplo: toda a sequência da prisão no palacete, para servir de odalisca privada a um deficiente, pareceu-me uma perversão gritante do espírito das “1001 noites”. É o maravilhoso que existe no Terror.

Teresa Villaverde quis levar o seu gesto até ao limite (a sequência com o cão), e isso é sempre polémico, gerador de discussão. Só podemos admirar a coragem de quem arrisca para lá da vontade de qualquer consenso.

Tate Modern

Palavras do artista Carsten Höller, responsável por uma instalação apenas feita de escorregas que neste momento ocupa uma sala daquele museu britânico:

“Podíamos ter escorregas a atravessar cidades. São amigos do ambiente e introduzem um elemento de loucura na vida de todos os dias.”

Gralhas

Quando escrevia para uma revista de cinema, as gralhas que sempre surgiam nas primeiras provas de cada edição, mais do que me fazerem sorrir, pareciam-me carregadas de sentido.
Relembro os dois acidentes mais espirituosos.

Num artigo sobre Cassavetes, tive eu o desplante de, em vez de escrever os géneros (ou os dois sexos, ou pura e simplesmente os homens e as mulheres), optar pela insípida expressão os tipos sexuais. Não sei se foi obra e graça de quem tipografou o meu manuscrito (nas editoras haverá gente com sarcasmo), ou mera ironia de um destino de pouca tiragem, o facto é que, aquando da correcção das primeiras provas, no lugar daquele meu literário transporte, eu li: os tiros sexuais. Elas cá se fazem, elas cá se pagam: puseram-me no meu lugar. Pois nisto de sexo, é preciso saber sempre o que mais interessa.

Diferente foi o caso de um outro redactor que havia elogiado, com circunstância e alguma pompa, um cineasta que não fazia o agrado da maior parte dos outros colaboradores. E dizia coisas do género jornalista, como por exemplo: ao longo da sua grande carreira como criador. Chegam as ditas provas, e a vingança trouxe uma geral satisfação. A frase apenas perdera uma letra, mas ganhara dignidade: ao longo da sua grande carreira como criado

Igualmente aqui, no meu arremedo de blogue, já publiquei um pequeno erro, que entretanto corrigi. Não é tão engraçado, mas também fala alto. Na “Crónica do espanta-espíritos”, queria eu escrever o seguinte: Terá John Cage composto para espanta-espíritos? No entanto, um esse distraído alojou-se na frase, e a coisa ficou assim: Terá John Cage compostos para espanta-espíritos? A verdade é que eu quase disse a mesma coisa. Pois não pode a música ser apenas mais um composto a acrescentar aos búzios que fazem o objecto? Desde quando a invenção ocupa uma importância de tamanho maior do que a simples matéria a que se refere?

Confissão 9



Só aprecio o preto-e-branco imperfeito do cinema antigo e frágil (quando ser a-duas-cores era mais condição do que ambição). Hoje, o preto-e-branco de alto teor tecnológico, sumptuoso, virtuoso, controladíssimo, impede-me de sonhar.

(“Sunrise”, “The man who wasn’t there”)

A metade que mereces

Faleceu Danielle Huillet.
O cinema perdeu metade de si mesmo (pois o seu número de inteirezas equivale ao número de grandes cineastas que vivem), Straub perdeu o seu cinema.

Arte interpretativa

1. Não sou particularmente comovido pela capacidade de transfiguração de um actor: a entrega absoluta a uma psicologia distinta da sua, a mimese do corpo do ser representado, o perfeccionismo dos sotaques, os tiques da idade, e etc., e etc. Não quero com isto dizer que desvalorize por completo a componente de composição que está na base da arte interpretativa, mas a verdade é que pouco me importa se o Dustin Hoffman dava um bom autista ou se a Meryl Streep tem inveja do camaleão. Que ganhem os Óscares todos que quiserem.

O que me seduz num actor é a tensão que se estabelece entre a personagem composta e a verdade de quem a está a compor. Seduz-me o corpo do actor (desde o desejo até à repulsa), a dança de cada um dos seus gestos, a música que faz com a voz, a vontade que um olhar sempre ostenta de ser irrepetível, a sua velocidade, a maneira de se sentar (Barbara Stanwyck em “Double Indemnity”!), a maneira de correr, o ritmo do silêncio, o desconforto de um guarda-roupa, as hesitações, as marcas irrefutáveis do seu tempo, a resistência pouco profissional à psicologia da personagem, o medo de explorar algumas emoções, o investimento no beijo, o talento para a nudez, os próprios truques, e etc., e etc.

No fundo, defendo que a validade de um intérprete se mede pela conjugação aparentemente contraditória entre o Método do Actors Studio (o actor não deve fingir mas sentir) e a prática e teoria de Robert Bresson (o actor não deve representar mas ser representado). Pois, no fundo, não são as duas horas de um filme (ou de uma peça de teatro) que nos podem dar a verdade inteira de uma personagem. Por isso, o actor deve ser capaz de criar um número de vazios suficientes para que o espectador os possa completar com a sua própria criatividade ficcional. A personagem não existe de forma absoluta, depende daquilo que todos, em conjunto, nela sabem colocar em fantasma.


2. De modo semelhante, a interpretação de um texto não deve cair na obsessão por descobrir a vontade exacta do escritor, mas conjugar aquilo que de facto está expresso com a possibilidade de sentido que o leitor consegue expandir ou encerrar. O leitor é o ACTOR do texto: dá-lhe corpo, imaginação, prazer e sofrimento.

Promessa

Agora que já tenho idade para ler livros infantis, prometo que nunca lerei os livros da Anita.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Mal me quero, bem me quero

Os intelectuais: gente desesperada, sempre preocupada com o sexo dos anjos, incapazes de apreciar as coisas boas da vida, que isto são só dois dias, e a malta tem é de divertir-se.
O povo: tirando os desgraçadinhos, gente que trabalha para não pensar em coisas tristes, sempre em pezinho de dança, o que interessa é ganhar dinheiro e não pensar que a morte é uma bezerra.
Ora eu, que sou snob, escolho um clichê diferente para mim: sou um intelectual com propensão para a esperança, e um Zé Povinho cheio de angústias sofisticadas.
Ora tomem.

Mente sã em corpo são

Dizem-me que há homens tão inflamados que preferem o suave prazer masoquista de verem duas lésbicas a fazerem amor, do que a satisfação do seu próprio corpo no objecto de desejo. Presumo que gostem tanto de mulheres, que sonhem com a total feminização do mundo.
Todos nós queremos ser compreendidos, e procuramos a integração no seio daqueles que connosco são solidários. Mas daí a querermos que o mundo seja feito à imagem e semelhança do nosso desejo, vai uma distância muito grande.
Recentemente, li algures que a Vanessa do triatlo só tinha lido dois livros na vida, e nem se lembrava bem do que lera. Ora, eu de facto já li bastante coisa. E espero ler muito mais. E até acho, com sinceridade, que o conteúdo dos livros é essencial a qualquer comunidade humana que tenha ultrapassado a sua fase da sobrevivência. Mas confesso:
nunca marquei um golo em toda a minha vida, o meu único mérito futebolístico foi ter tirado duas vezes a bola ao melhor jogador da minha turma, no voleibol mandava a bola para o tecto e não para a frente, a única vez que joguei andebol não soube o que fazer quando a bola me veio parar às mãos, tentei jogar squash e usei a cabeça do treinador como bola, no karaté faltava-me o mínimo de agressividade, parti quatro vezes os braços e uma vez a perna a praticar desporto, frequentei meia dúzia de ginásios e abandonei-os sempre ao fim de dois ou três meses, quando nado mariposa pareço mas é uma melga, precisei de trinta e cinco lições práticas de condução, e ainda hoje, com trinta e quatro anos não sei estacionar muito bem, e etc., e etc.
Força Vanessa. Os cultos ladram e a campeã passa.

Militância

Oponho-me convictamente a que as técnicas da narrativa sejam objecto de ensino e respectiva aprendizagem.
O que se ensina na pintura é a mistura dos pigmentos, o tratamento dos materiais, a eficácia dos gestos. De resto, os achados que serviram determinada geração quase sempre se tornam truques que a geração seguinte pretende ultrapassar. Ou seja, não se ensina a pintar.
O que se ensina no cinema é o efeito da escolha das lentes, o uso das fontes de luz, a tecnologia da montagem. Se Orson Welles renovou o modo de filmar em "Citizen Kane", isso deveu-se em parte ao facto do estreante não conhecer o que era considerado possível até então, e por isso ter pedido quimeras ao seu director de fotografia. Gregg Toland, técnico magistral, conseguiu materializar as visões do ingénuo. E assim a imagem-tempo (de Deleuze) atingiu uma primeira maturidade. Ou seja, não se ensina a filmar.
O que se ensina na literatura é a gramática.
De resto, o que temos é de ler ou ouvir aquelas meia-dúzia de ideias que são de facto justas, e esperar que a nossa vida (física e intelectual) nos permita, mais tarde ou mais cedo, entendê-las.

Arte romanesca

Gosto mais de personagens secundárias do que de protagonistas.
Por outras palavras: prefiro o desenho à pintura.

Internet

Um link para outras formas de linkar.

sábado, outubro 07, 2006

"Vampyr" - imagens

O INACTUAL 4

"Vampyr" - Carl Dreyer (1932)

Este post foi substituído por um novo texto, que pode ser lido aqui.

Confissão 8


As minhas cidades de eleição: apesar de lá não exercer o direito de voto. É que a minha diáspora só funciona na imaginação.
(Venezia, Edinburgh)

Exílios

Quando comecei a realmente escrever poesia, muitas vezes recorria a virtuosismos de rima rígida ou de manutenção de medidas métricas. Sinceramente, penso que foi melhor assim: pois quando ainda não escrevia poesia realmente, os meus excessos de liberdade não eram mais que patologias de adolescente.
No entanto, comecei a notar que a minha evolução me levava para outras paragens, e a verdade é que acabei por desenvolver um ritmo peculiar (oral, quase pontuado, intuitivo) , e uma liberdade de rima mais próxima da improvisação musical que da matemática. Por isso, escrevi num poema que o artista é um perdedor de ciências. Aliás, na medida em que, recentemente, comecei a escrever a poesia em prosa, tenho até receio de que qualquer dia perca a própria ciência do verso. Nada faço, contudo, para travar tais mutações. Quero ficar com a poesia, não com aquilo que lhe é lateral.
Tenho também tentado escrever em inglês. Os poemas lá vão saindo, é claro, mas sinto-me de facto como aquele famoso peixe que vive nas nossas bocas, mas fora da sua água. Talvez o criador seja apenas perdedor de ciências (todas aquelas que trouxemos da infância), e não tenha direito a ganho nenhum. Não citaria o Pessoa com exactidão, mas diria: o meu exílio é a língua portuguesa. Nisto de poesia, convém ter apenas os direitos que o céu permite.

Galeria 4


Mário Cesariny

No escrínio 6

Poema "ditirambo" de Mário Cesariny

Meu maresperantotòtémico
minha màlanimatógrafurriel
minha noivadiagem serpente
meu èliòtrópolipo polar

meu fiambre de sol de roseira
minha musa amiantulipálida
meu lustrefrenado céu grande
minha afiàurora-manhã

minha fôgoécia de estátuas
minha lábioquimia cerrada
minha ponta na terra meu arsgrima

meu diamantermita acordado!


O poema provavelmente derivará da admiração de Cesariny pela obra-prima "Allo" de Benjamin Péret, um cume da litania amorosa surrealista. Aliás, o poeta português pratica a mesma economia de tema (apenas celebrar o ser amado) e uma equivalente simplicidade técnica que, em vez de empobrecerem o texto, o abrem para um infinito de interpretações. Partilho aquilo que alguns versos concretos me sugerem.
minha noivadiagem serpente
Aparentemente, estamos perante um paradoxo (uma noiva está sempre submetida a uma estabilidade doméstica que em tudo se opõe à vadiagem). Mas será mesmo assim? O facto é que o poeta não opõe dois conceitos semelhantes ("noivàdia", por exemplo), mas uma personagem e um modo de acção. E assim se passa do absurdo para uma liberdade poética: uma noiva, para permanecer noiva, tem de submeter o seu amor à vadiagem (à flutuação) que esse sentimento exige.
Chamo também a atenção para a desnecessidade de trabalhar a palavra serpente. A técnica do poema contagia tudo, e permite-nos descortinar, no réptil, um modo de ser pente. O poeta é aquele que de tal modo inflama sentidos, que chega a retirar ecos de toda a matéria que decidiu não trabalhar.
meu fiambre de sol de roseira
Este verso tem algumas consequências evidentes: não só o ser amado é, conflituosamente, alimento e gordura, como este sol não nasce para todos, mas se dedica à situação privada da roseira (os amantes roubam o astro para si mesmos). Mas chamaria também a atenção para o facto deste verso me parecer derivar (conscientemente ou não) da expressão: uma fatia tão fina que se vê o sol por ela. Ora se juntarmos esta magreza translúcida à semelhança de cor entre o fiambre e a rosa (quando cor-de-si-mesma), podemos pensar que tudo isto poderia ser substituído por minha pétala.
minha afiàurora-manhã
Quando afiamos a aurora (quando lhe retiramos o que a impede de ser penetrante), esta torna-se manhã.
minha fôgoécia de estátuas
Entre os sentidos possíveis para a palavra inventada, podemos supor uma Grécia em fogo, declamada por quem não sabe dizer os erres (uma criança; alguém que fala de modo diferente, como o poeta). Assim não só temos a Razão submetida ao fogo da paixão, como se evoca o ser amado através das suas múltiplas, efémeras, expressões (estátuas belas, mas de fogo: cinza permanente).
meu diamantermita acordado!
Há aqui um diamante, sem vida mas precioso (como o dormidor), e uma térmita, trabalhadora, mas minúscula. O drama é, portanto, manter-se acordado durante o dia. Pois para os surrealistas, o que importa é o sonho.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Galeria 3

Fiama Hasse Pais Brandão

Citação e direito de resposta

Excerto de uma entrevista ao realizador Peter Greenaway, publicada no nº 20 da revista de cinema "A Grande Ilusão":


P. G. - "É extremamente relevante o facto de eu não ter querido continuar a fazer filmes sobre comboios e nadadores... todos os realizadores de vanguarda fazem filmes sobre comboios e nadadores. Podemos encontrá-los nos anos 10, nos anos 20, nos anos 30... nos anos 50, no cinema americano dos anos 60, nos filmes ingleses actuais, nos anos 70, nos anos 90... sempre os mesmos filmes."
Digo eu: mais do que o desconhecimento que os realizadores de todas as épocas têm da História do Cinema que os precedeu, não haverá uma ligação essencial entre os caminhos da 7ª arte e os caminhos-de-ferro? Não pertencerão os dois à mesma (trans-histórica) Idade?

A adopção de uma lei

Presumo que, quando um legislador for decidir se, em Portugal, um casal homossexual pode recorrer à adopção, se vá fundamentar não em preconceitos (religiosos, burgueses, ou até, no sentido contrário, dos próprios homossexuais), mas em sólidos estudos de psicologia, psiquiatria, e sociologia.
Mas isso não me sossega.
Não tenho problemas em assumir que, em tempos passados, tive de recorrer aos serviços de diversos psicólogos e psiquiatras. E o que eu pude notar, para além da maior ou menor competência imediata de cada um, é que todas essas pessoas baseiam a sua prática em convicções ideológicas extremamente cerradas. Quase poderia dizer que há psis do PP, do PSD, do PS, do PC, e do BE.
Os doutores da mente têm de assumir o pouco que ainda sabem sobre o Homem. E o pouco que sempre saberão.
Aconselho o legislador a seguir o mais recto bom senso, e a perceber as mudanças da sociedade e das expectativas daqueles que a compõem.

Kafka, burocrata de personagens

A uma dada altura, diz-se em "O Castelo" que as decisões oficiais são esquivas como as raparigas. Para além da afirmação da ausência de fronteiras entre vida íntima e civil (ideia já lançada noutro post), a frase coloca em perspectiva as várias personagens femininas do romance.
Na verdade, quase todas as mulheres ali descritas se sujeitam a cumprir os caprichos sexuais dos senhores do Castelo. A estalajadeira sobrevive no presente apenas porque foi amante de Klamm no passado (foi o ponto alto da sua existência). Frieda é submissa a qualquer homem, e a qualquer organização jurídica e burocrática. Olga deseja, ardentemente, a possibilidade de se submeter. No fundo, são o oposto da mulher esquiva, na medida em que aceitam as regras oficiosas daquele mundo.
Pelo contrário, Amalia tomou de facto uma decisão: negou-se a cumprir uma ordem sexual. Esquivou-se. O curioso é que a maldição que vai recair sobre si e sobre a sua família nunca é assumida publicamente. Não há provas de nada, nenhum indício, nenhuma certificação. E daí a dificuldade da resolução. No fundo, o funcionamento civil daquele lugar é tão medíocre que responde a uma decisão oficial com uma consequência oficiosa. Isto não é estranho para nenhum de nós, aqui, e agora.
Aliás, sobre o corpo de Klamm não há certezas. A sua descrição é fundada em boatos contraditórios. A sua aparência é tão desejada e inatingível que não pode ser estável.
Kafka é um burocrata das suas personagens: o Tempo e a psicologia do observador complicam de tal modo o ser observado, que este se torna irrepresentável.
Isto apenas confirma o Casting 4.

Casting 4

A autoridade de uma personagem sai-lhe sempre do corpo. É uma virilidade subtil que faz sabotagem com o género, o olhar de quem finge não se comover, uma voz mais próxima do oboé do que da violeta, e a sensação de que nunca aquela pessoa precisará de recorrer à violência para se afirmar.
Para assumir a personagem Amalia de "O Castelo" de Franz Kafka, eu escolheria a estranha actriz Mónica Calle.

Coisas que me ultrapassam

São todos aqueles que se pautam por uma estrita moral convencional, que desprezam a paixão e armadilham a sua prole com a obediência a todas as convenções sociais, que desalmadamente consumem telenovelas. E de que falam as telenovelas? Da integridade do amor perante todas as falsas regras, da libertação dos filhos do jugo de pais injustos, dos progressos libertários da Civilização... Será o encontro de duas formas de futilidade?
Há coisas que me ultrapassam. Pela direita.

Crónica do espanta-espíritos

O hífen é uma das vulgaridades da gramática. Usámo-lo, a maior parte das vezes, com um utilitarismo preguiçoso. Por exemplo, unindo duas palavras no sacramento de uma função: guarda-chuva. Sugiro, aliás, que nestes casos se substitua o hífen pelo underscore (função rasteira merece rasteiro instrumento): guarda_chuva (até porque nos podemos guardar de tudo, menos do ar do tempo, do clima).
Todavia, a quem lhe custa distinguir ensaio de poesia, resta a possibilidade de polemizar em torno do fino traço. Couve-flor. Uma couve que tem a aparência de uma flor. Ou se quisermos ser mais surreais, um modesto vegetal que é, ao mesmo tempo, uma couve e uma flor. As conjunções copulativas são, no entanto, pouco exactas na descrição da cópula entre as palavras. Pois não conhecemos, no nosso mundo, essa quimera que a língua enuncia. Seríamos assim mais fieis ao nosso entendimento se traduzíssemos o hífen por ou. Pois se a nossa inventividade ainda não materializou esse ser híbrido no real, a nossa imaginação só o pode entender de modo disjuntivo: olhamos para a salada, e pensamos (existencialistas...) que aquilo pode ser ou uma couve ou uma flor. A fusão não passa de ilusão.
E se trocássemos o ou pelo mas? A adversativa viria trazer uma dignidade inesperada. O vegetal é couve, sim, mas também flor! Não uma flor estetizante que venha tirar o vigor à couve, mas uma exaltação da função alimentar, uma celebração da possibilidade da vida.
Falam-me do espanta-espíritos. Um conjunto de hífens delicados que seguram bibliotecas de conchas, luas-de-trazer-por-casa, pequenas internets de barras de metal. Hoje, essa delicadeza apenas serve de motivo de decoração.
No entanto, é precisamente hoje que a nossa interpretação poética do mundo apenas surte efeito através de uma fé lúdica no mito. Não uma fé racional, muito menos cega. Presumo que ninguém supõe que o espanta-espíritos consiga afastar almas penadas, mau-olhado, ou vudus... Pelo contrário, a fé lúdica permite abrir a brecha da disjunção, do ou. Pois podemos querer espantar (afastar, assustar) os espíritos dos falecidos (o Além, quando ainda estamos aquém, é um filme de terror). Mas também podemos entender o espanto de outro modo: podemos querer que os espíritos, que os nossos mortos, nos espantem, nos maravilhem, nos seduzam, regressem até nós com palavras mansas, plenas de sabedoria e imaginação. Afinal, que mais pode o espanta-espíritos: recebe um ventinho timorato, e produz uma música tão simples, tão estelar, é o mais mágico dos instrumentos de percussão (John Cage terá composto para o espanta-espíritos?).
E a memória daqueles que nos deixaram, que outra coisa é senão uma música interpretada pela brisa? Um segredo não-verbal, uma companhia sem matéria.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Galeria 2

Carlos de Oliveira

Citação

No PÚBLICO de domingo, 1 de Outubro, encontrei esta magnífica frase de Robert Filliou:

"A arte é aquilo que torna a vida mais interessante do que a arte".

Partilha 4

num só verso, vários blues


o astro a si mesmo se conserva no âmbar da sua luz. não é, portanto, o astronauta, que alguns defendem no calor da discussão.
com o passar do tempo, o ourives das velocidades (deus) move-o com dois pauzinhos repugnados para o quilate da bugiganga. o mercado da delicadeza é um mikado.
e é assim que esta formiga com memória de universo, quando a acometem a mediocridade, o abandono, a solidão da humana porcelana, se torna poeta.


(Poema que será integrado na colectânea "A reconstrução de Nova Orleães". O seu assunto não é o mau poeta.)

sábado, setembro 30, 2006

Efémero? Enquadrado.


(Fotografia de Mapplethorpe)

Post efémero

Há quem defenda que a beleza é sempre efémera, e que o trabalho do artista só releva enquanto manifestação da tentativa vaidosa de atingir tal beleza. Assim, as flores da amendoeira, paradigmas do sublime, apesar de apenas durarem alguns dias, teriam um impacto infinitamente superior a qualquer poema, filme, ou quadro.

Em primeiro lugar, parece-me que tal afirmação é produto de alguém que, no fundo, não acredita no Homem. Estamos a um passo de consagrar a superioridade incólume de Deus (seja este o Pai religioso, ou um conceito mais sofisticado).

E depois, está aqui patente uma visão totalitária da beleza. Pois não há tanta gente a quem a flor não traz nenhuma comoção... E aqueles que só amam a flor pintada, e são insensíveis ao modelo real? A beleza é válida porque, precisamente, não gera unanimidade.

Com um aspecto eu concordo: a efemeridade da comoção. Mas é preciso polemizar em torno do conceito efemeridade. Pois é apenas a comoção, a beleza presente, que não tem eternidade. Nada disso tem a ver com o suporte que gera o sublime.

Não há poema digno desse nome que não seja perene. Mas a sua beleza é muito, muitíssimo efémera: dura o tempo breve de uma leitura. De igual modo, a contemplação de uma escultura, a presença num espectáculo teatral, a projecção de um filme. E mesmo quando, ao longo da vida, vamos relendo os textos que no passado nos cativaram, muitas vezes eles se tornam mudos, estéreis, de tal modo nós mudámos nesses lapsos de tempo. Ou vice-versa. Que diferença existe entre ler Baudelaire com vinte anos e regressar ao poeta com meia-idade...

Além disso, cada arte tem a sua especificidade. O cinema é coisa de espectros, é ambição de conquistar o Tempo sem os constrangimentos do mundo físico. Pelo contrário, o teatro é assunto de vivos, urgência presente, corpórea, precisa de arder rápido e de não deixar mais do que cinzas.

Sou solidário com as delicadezas de Christo. Mas também com as palavras de Cristo conservadas no âmbar bíblico. A beleza é, acima de tudo, diversa.

E quem me garante, filosoficamente, que a floração da amendoeira é efémera? Pois não se renova a árvore todos os anos com a sua ornamentação invariável, podendo esse ciclo preencher, ou mesmo transcender, o período inteiro de uma vida humana? As estações do ano podem não ser mais que um sistema controlado de abertura do Livro da Natureza em páginas determinadas. Livro com tendência para a perenidade, para o déjà vu. E se por vezes amamos as flores, outras vezes elas nos deixam indiferentes.
A beleza é um mistério, sim. Que envolve os mares, os céus, os ventos, o sol e o solo, o Homem e suas ilusões.

Post de pescada

Pelos vistos (e ouvidos na TV), existe uma doença psíquica com nome semelhante ao espargo, cuja sintomatologia é, essencialmente, a seguinte: teimosia, timidez e perfeccionismo.
É com má fé que presumo que uma nação de marias-vão-com-as-outras sem vergonha na cara e orgulhosamente trapalhonas é um rebanho de gente sã.
Alguém me diz se em Portugal se cultivam espargos?

Confissão 7



Provavelmente, os dois poetas que mais me fascinaram até ao presente (gostaria mesmo de aprender russo, ou de melhorar o meu francês - caprichos). Curiosamente, o primeiro não gostava muito da poesia do segundo.
Ele há coisas...

(Óssip Mandelstamm, Arthur Rimbaud)

O conspirador de sugestões 2

Sugiro que os estudiosos da câmara escura tentem definir qual é o elemento relevante da fotogenia de um primeiro-ministro que lhe garante, nas fotografias que tira com outros líderes, um indesejado insucesso ou um sucesso indesejado.

sexta-feira, setembro 29, 2006

O ACTUAL 3

"Lady in the water" -M. Night Shyamalan

Dizem-me que, na actualidade, Shyamalan conseguiu recuperar a fórmula mágica de um equilíbrio possível entre espectáculo hollywoodesco e personalidade autoral. Talvez seja verdade, mas exemplos desses sempre existiram.
Penso que será mais justo entendê-lo como um realizador que tenta conjugar as convenções do cinema americano contemporâneo com o universo dos contos infantis. E não me parece que o faça com o humor que os Cahiers du Cinéma lhe atribuem, mas com evidente pretensiosismo. Mas é isso que o torna interessante: Shyamalan acredita de facto no poder dos contos de fadas, e quer usá-los como esqueletos da sua visão do mundo.
Até agora rendidos ao novo prodígio, os críticos desiludiram-se com este "Lady in the water". E eu não percebo porquê. O filme segue, com toda a coerência, a estratégia que o realizador foi construindo nas suas quatro obras anteriores. O que havia para gostar ou não gostar, mantém-se. Todo este cinema cai no ridículo? Talvez, mas haverá filme mais ridículo do que "Unbreakable" (e de qualquer modo, o ridículo pode ter essencialmente a ver com a nossa descrença num determinado tipo de imaginário)? Isto é infantil, ingénuo (ah, o líder que nos virá salvar!...)? Talvez, mas 99% do cinema contemporâneo rege-se pela mesma bitola. Shyamalan é imodesto (a sua personagem é a única que nunca muda de função na fábula, e ainda por cima sabe de antemão que vai ser... mártir)? Mas eu sou espectador, não moralista! O tom é quase sempre insuportável? Claro, mas são os críticos que gostam do misticismo à Spielberg (aliás, este filme é uma rescrita de "E.T."). Há momentos de mau gosto (aqueles gorilas que aparecem no final...)? Isso, para mim, é irrelevante. Shyamalan tem vindo a banalizar a sua maneira de filmar ("The 6th sense" era todo estilo, "Unbreakable" até tinha citações de Tarkovski)? Mas ninguém consegue ser Godard a tempo inteiro...
Na minha opinião, o melhor filme do realizador, até ao momento, é "The village". E aí, o rapaz acertou à grande e à francesa (sim, sim, sou francófilo). A esse filme regressarei no Inactual. Os outros? "The 6th sense" é um mero filme de terror que se leva demasiado a sério (fazia-lhe bem o humor de Tim Burton), "Unbreakable" é um ovni delirante (confesso que simpatizo com a obra, de tal modo ela é diferente de tudo o que se faz em torno dos super-heróis), de "Signs" não gosto (não acredito que a fé se confunda com um argumento muito bem carpinteirado).
Dito isto, "Lady in the water" trabalha dois aspectos muito interessantes. Por um lado, o reenvio da figura feérica para a sua casa funciona de maneira simbólica - não só o personagem de Giamatti se apazigua com o seu lar desfeito no passado (isso é pouco interessante, qualquer crítico diria ao autor que isso já foi feito dezenas de vezes... sinto um cão atrás de mim... ah, é apenas a minha cadela Violeta, a mansidão em canino), como o grupo de pessoas envolvidas na história acaba por entender o sentido do conceito casa (e entender é regressar). A mensagem do filme (mesmo assim: mensagem) é que só existe casa quando ela ultrapassa o individualismo e é vivida em comunidade. Isto faz ponte com "The village": o símbolo é essencial à sociedade.
Por outro lado, apesar do virtuosismo do argumento (Shyamalan mata o crítico porque ele já não acredita na originalidade... mas qual de nós não gostaria de tirar a tosse a um desses senhores?), o filme dá-nos a ver uma SESSÃO DE CASTING. Aí, ele aproxima-se, na verdade, do discurso hitchcockiano sobre o cinema. Ou seja, a originalidade da obra não reside no facto do argumento nos trocar as voltas (os americanos gostam tanto de twists in the plot, que os aconselho a fazerem pela vida nas próximas eleições que por lá houver), mas do facto de quase só corresponder à busca da pessoa certa para executar uma determinada função. E o realizador acredita que igual delicadeza se passa ao nível da vida, e da fé.
De qualquer modo, que fé tão complicada! Cruzes canhoto. Continuo fiel ao despojamento total, contagiante, de Carl Dreyer.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Galeria 1

Vitorino Nemésio

No escrínio 5

Início do poema "A virgem da cova" de Vitorino Nemésio:


Límpida e prestes, rosa a nuvem. Toca
Quanto não tem nem orla nem pecíolo.
Apetece meter pedras na boca
Para haver sangue, ao chamá-la Gladíolo.

Não me reconheço na religiosidade genuína de Vitorino Nemésio, mas a sua poesia é-me estranhamente familiar.
Nos primeiros dois versos acima transcritos, o poeta descreve uma aparição que é mais iminente do que propriamente concreta - a Virgem, afinal, está prestes. E, de facto, uma aparição caracteriza-se precisamente pela indistinção entre a presença e a mera ameaça de uma presença. Assim, é esta ambiguidade ontológica que permite que a Imagem entre em contacto com tudo o que não pode ser tocado - ou porque não tem borda, ou porque lhe falta o istmo. O resto é hipérbole comovida.
Todavia, são os dois versos seguintes que me merecem a indistinção entre partilha e escrínio. O autor começa por assumir uma espécie de auto-flagelação (e se esse duvidoso ritual religioso é situado na boca, é tão-somente porque é aí que o verbo se faz carne). No entanto, o martírio faz surgir o sangue. Deste modo, o ofertório do poeta (a chamada, a evocação da Virgem enquanto Flor) perde a secura do pensamento, e ganha a plena dor da vida. Não me espantaria de ver o poeta com um gladíolo real a sair-lhe dos lábios: pois para além da maiúscula com que consagra a flor, o que aqui se dá a ver é nada menos que um milagre. O cor de rosa da nuvem endurece, ou o vermelho do sangue clareia, passos simples para dar à luz uma metáfora, para fazer uma ideia florir. A poesia confunde-se com magia ancestral.
Eu sou ateu. Mas se a religião, de certo modo, me fascina, é porque a entendo como um polémico prolongamento da poesia. Vamos levar Nemésio ao Ratzinger e aos imames.

segunda-feira, setembro 25, 2006

O conspirador de sugestões 1

Àqueles que têm a paixão e a ciência do documentário, sugiro que corram para o Darfur.
As imagens não existem lá em teoria.

My vagabond shoes

Eu viajo para alimentar a imaginação.

Há cidades que já visitei mais de uma vez. Em alguns casos (Veneza, Edimburgo), não só o lugar me estimula a criatividade (chego tão cheio de projectos que aumento logo alguns anos à minha esperança de vida - ao que parece, a última coisa a morrer), como gosto também de lá estar. O meu corpo gosta de passear por ali, os meus sentidos acham sentido em tudo o que lhes é oferecido. Parece que descobri a minha orientação sensorial.
Confesso que Nova Iorque foi uma parcial decepção. Talvez porque toda a gente me contava maravilhas, e eu tenho esta mania infantil de ser do contra. Ou talvez não seja nada disso. O clique não se deu.
No entanto, foi uma decepção parcialmente proustiana. Pois o facto é que a cidade não me saiu do espírito. Talvez por causa da poesia (basta pensar em Lorca ou Cendrars) e do cinema (Scorsese, Woody Allen, mas também o já aqui falado "Metropolis" de Lang) que toma a grande metrópole por referência, talvez porque Nova Iorque exista essencialmente como mito (e o 11 de Setembro é uma variação negra desse poder de agitação), a cidade continua a fornecer combustível ao meu imaginário. A minha Nova Iorque é mais sonhada do que vivida. E essa distância (estimulante, criativa) só pode ser atravessada por sapatos de vagabundo.

(Fotografia de Stieglitz)

O ACTUAL 2


World Trade Center - Oliver Stone

Penso que se chama tearjerker: é um filme que pretende arrancar lágrimas ao espectador, esmagando o mínimo esforço de criatividade cinematográfica a favor da encenação codificada daquele tipo de situações que, na vida real, nos comovem de forma profunda e legítima. É o desaparecimento de um filho, a doença de uma mãe, a morte galopante de uma criatura angélica, etc. E eu digo que dessa água já bebi: protegido pela obscuridade da sala de projecção, também me dou à baba e ao ranho, mesmo quando consigo não chorar... Mas não amo um filme por causa de tão cínica manipulação. E muito menos quando as cenas de impacto que se pretende mostrar são decalcadas de uma situação real como o onze de Setembro, situação que a todos espantou pelo absurdo e inesperado da sua tragédia. Muita gente gostará do filme de Stone, não porque o filme se imponha enquanto proposta ética, política, e estética, mas porque não há mãe que consiga não fantasiar o seu doce rebento fatalmente sujeito a tão grave apocalipse.
A proposta do realizador americano poderia ter tomado vários caminhos. Por exemplo, na medida em que os dois polícias permanecem debaixo dos escombros resultantes da queda das Torres do World Trade Center sem saberem o que, de facto, se passou (não estavam sequer informados do embate do segundo avião na Torre Sul), sem terem a noção de que o acidente fora causado por uma agressão criminosa, o filme poderia ter tomado o ponto de vista do homem comum que sofre as grandes catástrofes históricas em plena inocência, sem ter sequer um interesse específico na vida política. Seria, portanto, um retrato do absurdo. Mas para isso era preciso contratar Ésquilo ou Sófocles para escrever o argumento. Stone preferiu aqueles insuportáveis diálogos à Spielberg, aos quais só faltava a referência aos hot dogs e ao baseball. Toda a retórica da boa, velha vida na paz yankee de uma família modelo.
Outra hipótese era construir um discurso político a partir do ponto de vista dos escombros, discurso desesperado, retirado a custo do corpo sofredor.
Nada disso. O que vemos é um melodrama banalíssimo, com uns pozinhos de suspense e acção (salva, não salva?, morre, não morre?), que tanto se poderia referir à tragédia concreta, como a uma ficção qualquer com ambição comercial.
O realizador atinge os limites do execrável ao encenar um Cristo pirosíssimo, e ao enobrecer a figura do marine com visíveis problemas psíquicos, tornando-o incólume missionário ao serviço de uma duvidosa causa americana. Menos subtil, mais irresponsável: não há.
Vi, no entanto, uma cena curiosa: quando a personagem de N. Cage é finalmente retirada dos escombros, a câmara filma esse movimento como se ele estivesse a sair de um caixão. Mas, em assuntos tão graves, eu não quero ver grande cinema, mas cinema justo.
Não há nada mais perigoso do que um suposto rebelde que se emburguesou. Oliver Stone nunca foi grande espada, mas não precisava de exagerar na imbecilidade.
Que não se consiga acrescentar nenhuma imagem ao cinema, isso é normal. Mas que se chegue a diminuir o potencial polémico das imagens reais... isso é obra!

Palavras trouxe-as o vento

Para quem tem curiosidade sobre o passado das palavras portuguesas que agora usamos, aconselho este fascinante blogue.

sábado, setembro 23, 2006

Dicionário 2


Pelos vistos, existe um discreto peixe que se chama apenas mero.

Simpatizo com este bicharoco que não quer ser mais do que ele mesmo. Mas depois de lhe conhecer a focinheira...

Francamente, há quem nem em plena água saiba baptizar.

No escrínio 4

Poema "Dicionário" de Carlos de Oliveira:

"Lado
a lado
no tosco dicionário
da terra
o suor
palavra rude
que desprende
calor
e as sílabas
do orvalho
a dor
friíssima
da água."

Carlos de Oliveira é um escritor extremamente delicado (chega a atribuir legendas às estrelas). Mas pratica sempre essa qualidade com virilidade tranquila. Aqui, o poeta limita-se a contemplar pequenas gotas, quentes e frias. Parece meditação japonesa, mas não é.

O que aqui se inscreve, de modo enxuto, é o projecto utópico do autor. Pois deseja-se que haja uma paridade equilibrada, justa, entre a dádiva da terra e o labor do agricultor. Tal paridade nunca existiu: a relação entre homem e natureza foi e será desigual. Mas o poeta supõe que a palavra pode alterar a ordem agressiva das coisas. O que, aliás, está lado a lado, não é o suor e o orvalho, mas as palavras que os nomeiam. Assim, é a palavra suor que desprende calor, e a palavra orvalho que se oferece friíssima. E como o poema é sempre revolução, a própria dor do trabalhador passa para a terra.

Que tudo isto se chame dicionário, só significa que o autor quer fornecer um sentido para o trabalho humano, mas fá-lo de forma tão humilde (quase não-poesia) quanto universal. É uma didáctica comovida que redescobre uma das origens da poesia.

Confissão 6



O instrumento (musical?) que menos amo. Contra tudo e contra todos (que é o mesmo que dizer contra nada e ninguém).

A resistência ao papel

Muito se tem falado do imprevisível melhoramento da capacidade de representação de Penélope Cruz no último Almodóvar.

De facto, a sua composição é notável (e ninguém percebe o que a rapariga andou a fazer em Hollywood). Mas o que mais me interessa é que, por baixo da vitalidade (e das emoções à flor da pele) que a personagem insiste em transmitir, o rosto da actriz mantém a sua melancolia quase oculta, cheia de pudor.

É o cinema em conluio (e confronto) com a pintura.

"Uma abelha na chuva" - imagem

quinta-feira, setembro 21, 2006

O INACTUAL 3

Uma abelha na chuva - Fernando Lopes (1971)

Fernando Lopes adaptou o belo romance de Carlos de Oliveira como se a narrativa fosse o mero fantasma daqueles lugares (interiores e paisagens). Daí que as opções de encenação tivessem o seu passo suspenso na fronteira do incompreensível: hipnotismo assumido (preto e branco, planos longos, lentidão), característica que o cineasta tem vindo a tentar actualizar nos seus filmes recentes; imagens que param (recurso muito pouco explorado na história do cinema); travellings líricos, musicalmente esporádicos; jumpcuts; dissociação entre voz e imagem; repetições na montagem; aproveitamento da expressividade visual dos actores (a tristeza aristocrática de Laura Soveral, ou o mutismo rural de Ruy Furtado); declamação melódica dos diálogos, etc. Tudo características do irreverente cinema da época, que o autor dominou com segurança, liberdade, e alguma idiossincrasia.
Aliás, quando acrescentou à matriz romanesca a referência a Verdi e ao "Amor de Perdição", Fernando Lopes parece ter querido denunciar a contaminação operática daquelas vidas demasiado reais (reais são os corpos, e os lugares) para se poderem perder em ilusões. Assim, o projecto global do filme não foi tanto a tradução da poesia do próprio Carlos de Oliveira para uma narrativa da sua lavra, mas a tentativa política de suspender um tempo falso (porque contaminado pelas diversas ficções que a vida sempre impõe) recorrendo à eclosão da violência.

Dou dois exemplos.
A segunda vez que assistimos à discussão de D. Maria com Álvaro, a banda sonora resume-se ao tique taque de um relógio aparentemente imparável. Mas eis que a música do tempo se suspende quando Álvaro dá uma bofetada na mulher.
Mais eloquente ainda é o efeito do crime que encerra a obra. A verdade é que, se os senhores são acometidos pelo remorso, o destino dos plebeus não é tão generoso: é-lhes servida a própria morte (o fim do tempo individual). Daí que o filme conclua em tom de documento, com as imagens do povo rural agarrado à oração, incapaz de se libertar da mais incompreensível das ficções.

O compromisso do livro de Carlos de Oliveira (que atingiria um muito mais nobre conseguimento com o formidável "Finisterra. Paisagem e povoamento") é aqui reduzido à filigrana, o que curiosamente o torna mais justo, mais contundente do que qualquer realismo. Agora sim, chegámos à poesia: a matéria dá-se a ver, lacerada pelo espírito.

Resquícios

Numa conversa com um antigo colega da faculdade, ele falava-me de um escritor qualquer que, nos seus textos, por vezes mencionava termos ou desenvolvia conceitos extraídos da sua formação académica, formação essa que o dito teria repelido a favor de outros interesses.
Resolvi tentar lembrar-me de quais seriam os resquícios do curso de Direito na minha escrita. E concluí que, pelo menos, três ideias jurídicas visitam esporadicamente os meus textos. A saber:

Comoriência - apenas porque é uma ficção proto-lírica que, em certos casos, consagra a simultaneidade da morte dos cônjuges para alguns efeitos legais (andará por aqui o mito do orgasmo simultâneo)

Usucapião - apenas pela crença metafísica de que o Tempo nos concede, de facto, direitos

Direito natural -porque sou fascinado pela "Antígona" (personagem, peça, assunto) de Sófocles

Todos os casos constituem desvios ao funcionamento regular do Direito. O que só confirma o meu desprezo por tal actividade.

A leitura prossegue

O protagonista kafkiano não é nenhum modelo de virtudes. E duvido que haja muitos leitores que se sintam plenamente identificados com ele (em "O Castelo", as dúvidas de Frieda quanto à rectidão moral de K. parecem perfeitamente legítimas).
Diria que é um personagem cuja perplexidade é bastante menor do que a que qualquer um de nós teria em idênticas situações (continua a pensar que é possível devolver alguma normalidade ao pesadelo, nem que este tenha a forma de um insecto), sendo essa falta compensada com uma combatividade não muito lúcida. Não é um herói hitchcockiano. Para Kafka, o Homem já está parcialmente contaminado pelas próprias regras da suspensão onírica.
Já agora, como não entender Klamm, do romance acima citado, à luz do contra-luz?

segunda-feira, setembro 18, 2006

Crónica do sabonete

Os traumas não se medem aos palmos. Era eu ainda uma criança de palmo e meio (não louro, no entanto), quando me pregaram uma partida que nunca esqueci. Umas meninas de bem, presumo que precoces vestais da higiene, perguntaram-me se eu tomava banho por prazer ou por obrigação. Respondi com sinceridade: por obrigação! Como aliás, a maior parte das crianças responderia. No entanto, há aspectos da moral que provocam muito mais histeria do que reflexão, aspectos em que nenhuma argumentação é capaz de vencer a crispação tonta dos paladinos da triste figura, e as ditas meninas sentenciaram-me com um lacónico: PORCO! Que o simples facto de eu cumprir fielmente o ritual do banho, apesar do desprazer que me causava, fizesse de mim precisamente o oposto de um porco, nunca seriam capazes de o compreender. Na casa de banho, só o politicamente correcto é permitido.
Adiante. Com o passar dos anos, como é normal, fui ganhando o gosto do banho. Mas ficou-me sempre atravessada na garganta essa obsessão pelo prazer. De vez em quando, dou por mim a procurar sabonetes com perfumes raros, de produção artesanal, ou bonitos de serem olhados, compro esponjas que se distinguem pela macieza, já flirtei com sais, espuma, e etc., e etc. E não resisto mesmo a fazer uma infantil proposta aos Professores Pardais da inovação higiénica. É que já houve o sabão: escorreito, sem poesia, meramente funcional. Depois puxou-se pelas sílabas da coisa, e veio o sabonete: já se apostava no perfume, na cor, na textura, à limpeza uniu-se a fruição. Hoje, toda a gente usa o gel de banho. Ora, como eu dizia, peço aos inventores destas coisas que puxem ainda mais pela palavra e nos apresentem o sabonetino. E o que seria isso, perguntam-me? Um sabonete que já não servisse tanto para livrar o corpo do esterco, mas que estivesse quase só ao serviço do prazer: sabonetino de cores oníricas, perfumes orientais, consistência de mel, com agentes afrodisíacos, a macieza similar à pele do género que nos orienta o sexo, formas sugestivas, tudo muito mil e uma noites...
Dizia a minha avó que a maçã era o sabonete da alma. Uma avó tem sempre razão (quando lha damos). A verdade é que nunca fui grande adepto desse fruto, matador de brancas de neve, iniciador da alta costura, e que ainda por cima se declina em raineta, golden, e outras paroladas do género, mas sempre amei os produtos que dele derivam: tartes, purés, sumos, gelados, rebuçados...

Tudo isto é sobre poesia.
Ao contrário do discurso crítico em Portugal, não me importo nada se a poesia é limpa ou porca (os traumas, os traumas...). A primeira é o mero papel higiénico que impede que se forme o selo de qualidade da segunda.
Gosto da poesia que em si mesma não se contém, que aponta para o seu horizonte de evolução, e nos deixa um travo de paraíso e conhecimento. Gosto da poesia que não distingue entre missão e insatisfação. Gosto de tarte de poesia.

A oitava e meia arte

Dizem-me que é preciso escolher entre Vida e Criação. Estas palavras não precisam de maiúsculas, mas quem mas diz, pronuncia-as assim. Parece que, afinal, a Vida tem um conteúdo perfeitamente identificável.
Viver é ter o coração a bater, o oxigénio a circular, e os neurónios a comandar estas pacíficas tropas. Podemos, isso sim, falar de modos de viver. Aí já temos matéria para um debate.
Quanto a mim, penso que criar é a melhor maneira de viver.
O grande vivente, aliás, é tão-somente aquele que consegue trazer um significado à vida.
A utopia de Buster Keaton (a arte do enquadramento).

Lianor

No Centro de Arte Moderna, da Gulbenkian, uma turista resolveu tirar os sapatos, provavelmente por não se sentir segura sobre os seus tacões.
De imediato surgiu um funcionário zeloso que ordenou a reunião entre pé e sapato (já se sabe, a Deus o que é de César...). Porquê? Não porque o chão sujasse os pés à senhora, nem porque os pés sujassem o chão. Nem mesmo por causa do imemorial dilema do chulé. O problema era a falta de respeito.
 
O Ocidente, moderníssimo, também tem as suas burkas.

Homenagem a Craigie Horsfield

A passagem da arte figurativa para a abstracção pode, afinal, não ter sido uma evolução, nem mesmo a descoberta da essência pictórica, mas uma pequena deslocação do ponto de vista (da objectiva): do rosto para as nuvens, de uma garrafa para o fluxo da água corrente...
Para além disso, existe a focagem: mais do que um cuidado técnico, mais do que uma opção expressiva, é um verdadeiro instrumento de pensamento. Criar é seleccionar focagens e desfocagens.
A fotografia não veio substituir a pintura, nem é o seu parente pobre. Veio explicá-la, ou melhor dizendo, ampliá-la (blow up).

(Fotografia do homenageado)

Confissão 5


Nem às paredes confesso que gosto de graffiti.

(Quadro de Basquiat)

sexta-feira, setembro 15, 2006

Jovem, tu és jovem

Não vejo como se possa fazer cinema sobre outra coisa que não o presente. Mas isso não se deve exclusivamente (ou essencialmente...) à selecção dos temas. A própria ideia de abordar um tema hoje, outro amanhã, já sugere que se anda a picar o ponto em todas as causas das quais se pode fazer efeito.
Andava eu numa inanidade monstruosa chamada grupo de jovens (homens de amanhã), e o senhor cura também tinha escrito um livro, com trinta temas, que dava para tudo... Isto para não falar das inesquecíveis aulas de moral, cada uma dedicada a uma polémica, enfim, todos os anos lá tínhamos de falar do aborto, da eutanásia, da toxicodependência, nunca chegando a lado nenhum, e sempre a almejar um 5 na pauta, ou pelo menos um 4 (que era sinal de que não estávamos bêbados). Falar, falavam eles, que eu, apesar de menino bem comportado, desde cedo abortei nessa arte da tertúlia.
O cinema é presente porque o seu material de eleição, os actores, por muito que se esforcem não se livram daquilo que em si trazem do mundo onde não representam (ou onde representam menos...): a língua, o sotaque, a beleza, o corpo, o movimento, a gestualidade, o olhar, a psicologia, a imaginação. Também a tecnologia é sempre presente, a fotografia, os conceitos por trás da cenografia e do guarda-roupa, as ideias sobre montagem, a própria maneira de entender a História ou o Futuro estão submissas à época da filmagem. E um plateau não é uma ilha: a actualidade tenta-o, e há autores infinitamente permeáveis ao bulício do momento.
Daí o ridículo de algumas reconstituições históricas e de alguns filmes de ficção científica, quando os realizadores são ingénuos ao ponto de suporem que conseguem esconder esse Presente que às criações sempre se impõe de modo lapidar.
A feitura de imagens do tempo actual tem tanta urgência como a que existe na relação pão-boca. Mas até para tal é preciso ter talento: Godard foi mestre nisso, Hsiao-Hsien está a tentar fazê-lo agora. De qualquer modo, nunca a vida moderna deve constituir uma obsessão oportunista. Sob pena do cinema começar a não se distinguir de uma espécie de jornalismo de luxo...
Até porque os Baudelaires contam-se pelos dedos de uma mão amputada.

quinta-feira, setembro 14, 2006

No escrínio 3

Poema "Túnel", de A. M. Pires Cabral:

E então, de quando em quando,
no meio da escuridão,
a redundância de um túnel.

Deus, por onde andava eu
quando a luz foi repartida?



O túnel, por onde passa o comboio polissémico do poeta, é redundante porque cria escuridão onde já havia escuridão. Mas, na verdade, tem algum significado: é uma arquitectura protectora, é também (ou alternativamente) uma arquitectura sufocante, e sofre do famoso mito da luz ao fundo do túnel, que tanto indicia a entrada no Além como a obtenção de uma Resposta.
Quer-me parecer que este túnel ocasional equivale, neste poema, à ideia de Deus. Na verdade, o poeta só se lembra de inquirir o seu Criador quando entra naquele espaço. E que conhecemos nós de mais redundante que Deus? Pois se Ele existe, existe enquanto ontologia que não se distingue do resto do Universo. E no entanto, sentimo-lo protector, também (ou alternativamente) sufocante, e sabemo-lo Senhor do mundo que (não) há após a morte e das Grandes Respostas que se mantêm obscuras na grande viagem da nossa vida.
No túnel, pode o poeta fazer uma pergunta. A questão é existencial, mas parece-me menos relevante do que o desejo que nela está implícito de que, no fundo do túnel, haja uma Luz.

Algumas notas sobre "O Castelo"

Um dos aspectos em que Kafka insiste no seu romance é a impossibilidade de intimidade. Nos momentos em que K., personagem perplexa mas combativa como todos nós, desejaria, ou melhor, precisaria de estar sozinho, de criar uma sensação de lar, os espaços são continuamente invadidos por criadas, ajudantes, estalajadeiras, professores, crianças... K. não consegue ter um quarto, não tem possibilidade de ser ele mesmo a não ser quando dorme.
Ora, a separação entre sono e quarto provoca um hiato onde se aloja o pesadelo da realidade.
Pois é isso mesmo que acontece. Kafka descreve o mundo profissional, oficial, público, como não sendo mais do que a total perversão (e não a mera metamorfose) dos esquemas psíquicos da infância. Não esqueçamos que os professores da escola da aldeia, a uma dada altura repreendem K. como fariam com um aluno, e chega a falar-se de punição física.
K. regressa continuamente à infância. Mas sem precisar de grande fantasia. Daí o papel importante daqueles momentos em que o calor (do trenó que espera Klamm na estalagem dos senhores, na sala de aula depois de roubados os pedaços de lenha) protege do clima frio à maneira de um berço ou de um ventre. A reacção de K. não é a de um adulto que se aquece, mas confunde-se com uma regressão.
Por vezes, a pulsão infantil é tanta, que o mundo de infinitas hierarquias e burocracias é evocado à maneira de um poema. Não por cedência do autor ao lirismo (que aqui seria injustificável), mas porque a monstruosidade acaba por só ser suportável por uma percepção ingénua.

Exemplo:
Nos telefones locais, ouvimos estas chamadas ininterruptas como um sussurro, como alguém a cantar, o senhor decerto também terá ouvido. Pois bem, daquilo que os nossos telefones locais transmitem, só este sussurro e este canto são de confiança, tudo o mais é enganador.

(Tradução: Isabel Castro Silva)

quarta-feira, setembro 13, 2006

Confissão 4

O cinema que me preenche.
E, no entanto, não sou crente, dou-me pouco à fé, e não muito à nostalgia. Mas perco-me nos fascínios generosos.
("Nostalghia" - Andrei Tarkovsky)

Casting 3

Para fechar o capítulo das minhas viagens por outras terras, transmito algumas impressões acerca das possibilidades de casting para "The tempest" de Shakespeare, peça sobre a qual já falei noutro post (recuso-me a chamar posta a isto...)

Vi duas encenações da obra aquando da minha estadia no Reino Unido, uma incluída no Fringe de Edimburgo (companhia Theatre Alba, encenador Charles Nowosielski), a outra levada a cabo pela Royal Shakespeare Company, dirigida por Rupert Goold, em Stratford-upon-Avon (comme il ne faut pas?...).

Em relação ao personagem Gonzalo, devo dizer que preferi a solução encontrada por Nowosielski, na medida em que o actor escolhido tinha uma atitude mais proletária do que o intérprete de Stratford. Explicando melhor, a maior rudeza do primeiro Gonzalo impediu que esta personagem caísse no ridículo (o que é fácil, dado o seu discurso ingénuo), mas já não posso dizer o mesmo do actor da Royal, cujo ar de intelectual praticante colidia com a extrema fragilidade do discurso. No primeiro caso, acreditávamos na veracidade daqueles sonhos (projectos mais do corpo que da inteligência), no segundo, julgaríamos estar perante um velho ensandecido.

Também no teatro Alba encontrei o meu Stephano. Todos conhecemos o vinho e o efeito que ele tem. O actor de Goold, excelente actor sem dúvida, parecia um virtuoso a condescender numa pantomima para inglês ver. O intérprete de Edimburgo, porventura menos profissional, trazia no corpo todos os traços da embriaguez, como se de facto não precisasse de a representar (o actor em questão até pode ser abstémio, isso é irrelevante). O álcool exigirá algo mais que o fingimento?

Todavia, foi na produção da Royal Shakespeare Company (muito superior à outra, de resto), que vi uma Miranda verosímil. O encenador encontrou um equilíbrio, que me pareceu exacto, entre a adolescência da personagem, a sua candura, e a sua selvajaria natural. É preciso tomar em consideração o facto de a jovem ter sido educada numa ilha deserta, longe da sociedade refinada, sem exemplos de feminilidade de onde poderia copiar o requinte dos seus gestos. Uma Miranda demasiado angélica, demasiado bonita, ou que apenas andasse para trás e para diante tentando sugerir sentimentos como os de outra rapariga qualquer da sua idade, essa Miranda não seria credível. Como também não o seria se a opção fosse a de a transformar num Tarzan fêmea. Penso que o tom trabalhado por Goold foi justo.

Quanto a Próspero... é um personagem tão fascinante que sobre ele ainda sei muito pouco.

Partilha 3

a montanha


foguetão desactivado
por ser demasiado antigo
porém mantém-se apontado
para o céu
como um castigo


(Isto é um excerto do poema "a montanha", pertencente ao livro "descoberta seguido de invenção", já terminado, mas ainda não publicado.
Assumo que, na primeira colectânea de poemas que publiquei, havia dois ou três textos dolorosos que se reduziam a clichés da tradição lírica, nos quais deixei de me rever. Obviamente. Pretendo exilá-los da recolha, na eventualidade de uma reedição. Ora, este pedaço de poema que aqui partilho parece-me genuinamente doloroso...)

Divertimento

Segundo conta Danielle Darrieux, Max Ophüls (na foto) era um cavalheiro charmoso que tratava os seus actores de forma exemplar. A breve mitologia do cinema conta também que Cecil B. de Mille era um déspota irascível, sempre aos gritos com as pessoas que, por gentileza ou necessidade, trabalhavam para si. Conta, por fim, o lugar-comum, que o grande artista é sempre um temperamental filho da mãe que em tudo se opõe às propostas mais ou menos generosas da sua criação. Ora, na minha pouco modesta opinião, o cinema de Ophüls é mil vezes superior ao de Cecil B. de Mille.

Caso para dizer que, por vezes, há justiça neste mundo.

segunda-feira, setembro 11, 2006

11 de Setembro

Convém regressarmos sempre àqueles homens que fizeram, da ética, o centro motor das suas vidas.
Tento analisar o que me interessa em Bento de Espinosa.

A sua grande obra moral está cheia de disparates sexuais/sentimentais (apesar de não saber se podemos chamar puritano a alguém que quer apenas racionalizar), e de ingenuidades quanto ao verdadeiro funcionamento psíquico do Homem. Mas isto é fruto da época em que o pensador viveu, e nem outra coisa poderíamos esperar do século XVII (Espinosa já foi maldito o bastante).
Há também uma espécie de confiança cega na lógica, o que, em certos passos pode levar o leitor a reagir com acusações de delírio (logo a primeira definição?), de sofisma, ou a aceitá-los apenas enquanto enérgicas polémicas que incitam a pensar.

O que me faz então solidário de Espinosa?
Em primeiro lugar, a sua defesa intransigente da urgência do pensamento, do esforço de conhecimento adequado de todas as situações, para que as acções não sejam levianas. Mesmo que a nossa adequação não corresponda à do filósofo, temos de seguir o exemplo da sua resistência irreverente, da sua vontade de ver.
Toda a sua ética é construída para promover a alegria, ou seja, para conservar Alma e Corpo. No seu vocabulário, alegria significa mesmo acção. Espinosa revoltou-se contra as morais religiosas que derivam do espírito de sacrifício, do entrave à vida. A sua pulsão é a oposta.
O pensador manifesta também um claro desprezo pela convivência intelectual com o vício, com a melancolia. Não se trata de fugir ao confronto com os assuntos dolorosos, mas de incitar o Homem a construir a sua vida em torno da positividade (um prenúncio de Nietzsche?).
Há ainda a defesa de que a ética serve uma comunidade, e nada tem a ver com eremitérios ou clausuras.
E claro, o mais importante, o genial entendimento de Deus como uma substância imanente, nem criador, nem castigador, uma espécie de absoluto ao qual todos pertencemos. Neste Deus, até eu acredito (aconselharia o mesmo a muita gente). E pergunto se, em vez de uma imanência de mecânica racional, não a poderemos entender de forma sensual, lírica, ou até cómica?

Não se pode fazer um minuto de silêncio, porque ainda não conhecemos a cronologia de tão grande dor.

Projecto de romance de ficção científica

E eis que, num muito distante 2007 d.c. (esperança de vida: umas fresquinhas oitenta meias-estações), o crédito à habitação já podia ser alargado até aos 328 anos...

E vice-versa?

Em Fiama, tudo é rigor. Em Nemésio, tudo fascínio.

domingo, setembro 10, 2006

Confissão 3


O meu tipo de imagem, enquanto espectador: não necessariamente, a imagem que eu faria...

(Nunca vi este "O último dos homens", de Murnau)