sábado, outubro 21, 2006

Confissão 10


De noite, estes frutos são a minha constelação favorita. Oriento-me pela luz que me escolheu.
(Diospireiro)

Clareza em castelo

Quando K. se torna testemunha ocasional do bulício matinal na estalagem dos senhores, fica pasmado com a irracionalidade que caracteriza as relações burocráticas e profissionais. O mundo à sua frente revela a sua imensa loucura. K. pensa ter conhecido algo de essencial: o Poder ficou mais claro.
No entanto, logo lhe vêm dizer que aquele espectáculo a que ele está a assistir não é usual, e que só está a tomar aquelas proporções porque K. está a ocupar a posição ilícita de testemunha. Em "O Castelo", a verdade nunca é objectiva, vemos apenas aquilo que a nossa presença torna visível.
De algum modo, Kafka tem uma pequena costela Kantiana.

A noite

Os secretários de "O Castelo" muitas vezes tratam os seus assuntos oficiais quando estão metidos na cama. Há quem diga a K. que eles fazem isso para poderem dialogar com os seres que desprezam, de uma forma sumária e na meia-penumbra.
Mas isso é uma ilusão. Kafka demonstra como a noite os torna todos (senhores e subordinados) mais frágeis, a intimidade instala-se, a irracionalidade já não precisa de se mascarar.
De qualquer modo, o autor constrói as sua definições da forma mais livre possível: é na NOITE que nos é oferecida a nossa salvação, mas nós nunca a aproveitamos porque estamos a dormir.

Crónica da Coca Cola

A bebida tem tudo o que convém a um império dos sentidos.
Desde logo a sua fórmula é secreta, está guardada no segredo dos deuses, e por isso a sede que convoca é acima de tudo inteligência. Uma inteligência que tenta passar a cortina de ferro do Olimpo (é a guerra fresca com o divino), e que por isso é bem mais Bond (James Bond) do que CIA. Em todo o caso, a sede é sempre íntegra e competente.
Conta-se que a garrafa que guarda o valioso líquido foi inspirada nas curvas e contra-curvas da actriz Ava Gardner (na altura, ainda não havia as auto-estradas do top modelismo). Os boatos são sempre verdadeiros quando neles se contém um ser que não pode ser contido. De qualquer modo, confesso que, para a garrafa dos meus sonhos, escolheria outros corpos (os homens pensam sempre com o seu pigmalião, nunca com a consciência). Esta coisa dos gostos tem muito de snobismo: haverá quem pense que me satisfaz com um Pepsi Prazer? Eu sou um especialista no meu próprio desejo, nenhum falsário me vende gato por rato.
No entanto, aquilo que existe dentro da garrafa (chamemos-lhe alma porque é borbulhante), isso já eu entregaria de boa vontade à condessa descalça. Nenhum conde aceita uma aristocracia abaixo de felino. E quando o outro de súbito nos acelera, ele entranha-se de imediato e só depois deixa um lastro de estranheza. A paixão é gasificada.
De resto, não há Salvação. Se é light, a bebida traz um tédio cancerígeno. Se é intensa, engorda-nos a propensão para a morbidez. Mais tarde ou mais cedo, há-de o mundo ser invadido pela coca-cola (disso falava Nostradamus). Apenas podemos lançar as nossas preces ao nosso Senhor (que é árabe como o Al Gore), e dizer: Deus nos livre da Canada Dry.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Rivolição

Todos conhecemos o Cassete Carvalhas e o Cassete Jerónimo. E é mesmo verdade que, no lado B destes senhores, a música é sempre a mesma. Mas basta ler os ideólogos de direita para ficarmos com a mesmíssima impressão. Não é preciso que o Dr. Pacheco Pereira (aqui o Dr. é necessário) escreva a sua Opinião: já a sabemos de antemão.
A Agustina é a minha romancista portuguesa de cabeceira. Sigo avidamente o blogue do Pedro Mexia. Aprecio os poetas e os pensadores católicos. Nunca tive problemas com a inteligência, quando esta escapa à estreiteza que sempre se lhe pretende impor.
Para além disso, voto sempre em branco (isto de esquerda está preto). Presumo ainda que o folclore da revolução só possa parecer risível à imaginação contemporânea. E se algumas das pessoas envolvidas no caso Rivolivre até são minhas amigas, é com rigor que reclamo que nem sempre essas pessoas respeitaram a minha liberdade com o mesmo rigor que agora devotam ao seu protesto.
Mas estou solidário com a ideia global.
É que, de facto, chegamos a um ponto da nossa História em que o aspecto determinante da nossa vida é tão-somente a economia. Não ria, leitor. Pois houve uma era da Razão, uma era de Deus, falou-se depois muito no Homem, agora é a Economia. É, na verdade, o fim da História. Mas depois do 11 de Setembro, mesmo os mais cegos compreenderam que esse não é um final feliz.
Há coisas evidentes: desde a proliferação nuclear (aproveito para lembrar que o único crime nuclear tem autoria dos Estados Unidos) ao terrorismo, tudo isso passando por esse absurdo que nos dizem ser demagógico mas que é, profundamente, um absurdo: metade do planeta sofre de obesidade mórbida, a outra metade da morbidez da fome.
Há coisas muito pouco evidentes: as pessoas nunca se questionam se todas essas horas que dedicam a um trabalho que só as deixa sobreviver é ou não um esbanjamento do tão curto e precioso tempo da nossa vida; o mundo tornou-se tão complexo que deixámos de o entender (perguntava Monica Vitti, em "L'eclisse" de Antonioni, para onde vai o dinheiro que se perde na Bolsa; e Alain Delon, profissional da especulação, não fazia a menor ideia); e é só pelos equívocos que a liberdade vai permitindo, que o mercado não se torna entidade ditatorial.
E ainda as coisas mais ou menos evidentes: os salários baixam, a reforma está a um passo de desaparecer, o trabalho acaba, a saúde tem de ser paga, os cursos universitários não garantem futuro nenhum, as situações de miséria são gritantes.
Até concedo que, neste mundo que construímos, já não se possa viver de outro modo. O velho Sócrates já não tem razão: há novo Sócrates em acção.
Mas permitam-me o desabafo: este mundo já não me parece construído para mim. Sou eu que tenho de me adaptar aos caprichos, às mediocridades, às pequenas tiranias do dinheiro. O dinheiro é o grande e o único triunfador da nossa humana aventura. E quem mais sofre com tal estado das coisas, é quem mais defende que tem de ser assim. Dizem-me que o que se leva desta vida é o sábado à noite... Pois eu levo esta minha estranheza que pretendo mais filosófica que demagógica.
Ou serei o único que acho que umas centenas de contos pagas a um cineasta alternativo (prefiro dizer bom cineasta) contra o pequeno prejuízo de um público reduzido, é um mal menos constrangedor do que as fortunas que os jogadores de futebol ganham à custa de quem empenha o salário de um mês inteiro para ver meia dúzia de jogos no campeonato do mundo?
Os políticos que defendem um modelo laboral onde as pessoas são meros títeres nas mãos da Economia (que teve um papel tão nobre no princípio da nossa História), são os mesmos que defendem o pobre povinho das arrogâncias herméticas do intelectuais. O Beckett devia ter escrito teatro de revista. Mas nada é assim tão simples.
Penso que os rivolitosos pretendem viver as suas vidas dando preferência a outros aspectos da experiência humana que não apenas a Economia. Serão perdedores, um pouco ridículos, bastante desequilibrados até, mas estão no seu direito. E o direito que tutelam parece-me o mais belo de todos: o de amar o Homem em todo o seu potencial, e na aspiração da sua crescente liberdade. Se as Ideologias se fizeram para o Homem, e não o contrário (o comunismo, nunca mais!!!), também a Economia se fez para o Homem, e não o contrário. Vir falar de público, elites, prestígio, qualidade, rentabilidade... Isso que interessa? Até porque pode um gestor privado ser tão snob que aposte num elitismo pior do que qualquer subsidiodependência.
Que outros pensem o contrário - estejam à vontade. Eu acredito que a missão da Arte se confunde com o mais profundo e o mais amplo que pode ser concedido ao, e conquistado pelo, Homem. Por isso vejo filmes de Bresson e de Eisenstein, leio Miguel Torga e Paul Éluard, aprecio Brecht e Claudel. Quero apenas não caber em mim. Quero sair do labirinto do dinheiro, e a Criação é um dos poucos fios de Ariana que conheço. O Rivoli interessa-me pouco (até posso abandoná-lo em las férias permanentes). Mas o meu credo é este.
Por isso voto em branco.

Galeria 5

Natália Correia

A língua inglesa

Dizem os Clã que a vida devia ser como no cinema, onde a língua inglesa fica sempre bem e nunca atraiçoa ninguém.
Isto de associarmos o inglês à ausência de traição parece-me uma Ideia de Demagogia Maciça, apesar de todos sabermos que tal coisa não existe. Mas mesmo o ficar sempre bem me faz lembrar aquela comediante que dizia: com um vestido preto, eu nunca me comprometo. Ora hoje, temos todos de ser mais políticos do que isso.
Houve mesmo uma fase em que não se ouvia ninguém falar mais inglês do que a palavra fuck (ah! o realismo...). E pouco mais sabemos dessa língua do que a secura da sua terminologia técnica, a herança dos vaqueiros (you guys, you guys) ou a degenerescência do posh britânico.
Só aprecio o inglês quando ele é solene. Quando não conhece nenhuma outra hegemonia a não ser o seu desejo de elegância. Quando não resolve mas cria um problema de expressão. Quando é trabalhado por um ourives que abandonou todas as matérias preciosas à excepção do tempo. Só aprecio o inglês que não pode ser ensinado.
Because I do not hope to turn again
Because I do not hope
Because I do not hope to turn
Desiring this man's gift and that man's scope
I no longer strive to strive towards such things
T. S. Eliot
Como diria aquela comediante: não sei como há Homens que não gostam disto.

No plateau 1

Jean-Look Spiell Bergman chegou ao plateau cheio de ideias.
Pretendia filmar a seguinte imagem: uma flor em muito grande-plano, na zona esquerda do enquadramento; muito ao longe passaria o vulto do protagonista, caminhando da direita para a esquerda, até desaparecer por trás da colossal planta. Total profundidade de campo. Passados alguns segundos daquela acção, sairia um insecto de dentro da flor (uma formiga gigante, ou uma bicha-cadela).
Foi preciso abrir um concurso para contratar um domesticador de insectos. Mas ninguém sabia se tal profissão era um efeito especial.

Hiperbólicos Portugueses

Aquando da sua passagem pela Assembleia da República, a deputada Maria Elisa propôs que se fizesse a trasladação do Panteão para as cinzas do senhor Fernando Pessoa.
(Qualquer semelhança entre esta ficção e a coincidência, é pura irrealidade).

terça-feira, outubro 17, 2006

Imagens

O filme “Little Miss Sunhsine” é extremamente simpático. Não tanto um feel good movie, mas uma pedrada no charco do sucesso e do conformismo. Filme rente ao humano, ao sabor de um veículo que só funciona a descer (é um grupo de falhados) ou que precisa de solidariedade para arrancar (é uma família). Ainda por cima, com alguma provocação directa às Vestais deste mundo.

No entanto, para além do argumento não me parecer suficientemente bem explorado, algumas declarações dos realizadores deixaram-me francamente insatisfeito. Jonathan Dayton e Valerie Faries pretenderam que, no seu filme, se notasse mais a cooperação com um argumentista do que a marca do seu passado como fazedores de videoclips. Compreendo que se referiam essencialmente à estética suja que “Little Miss Sunshine” tenta reproduzir. No entanto, dada a pobreza das imagens efectivamente conseguidas, fico com a sensação de que ainda existe, no cinema, uma distinção artificial entre imagens belas e feias (ou seja, entre o decorativismo e a ausência de expressividade). Ora, esse é um falso problema (um modo errado de entender os conceitos de forma e conteúdo).

“Little Miss Sunshine” é, acima de tudo, um filme palrado. Mas o cinema não é teatro, não é narrativa. O cinema é a montagem de imagens e sons. Uma imagem pode ser assombrosamente fascinante (Tarkovski), ou a mera espuma de um café (Godard). Pode incidir na afectividade da fotogenia (Bergman) ou na perversão fria do que é encenado (Buñuel). Pode exigir a palavra (Oliveira) ou prescindir dela (Murnau). Mas é a sua contundência que decide o assunto de um filme. Filmar é inventar imagens.

Ou seja, é justo que se queira abandonar a futilidade da estética MTV. Mas se isso implica a ausência de criatividade especificamente visual, então não estamos perante cineastas.

Luta de classes

Resolvi fundar um partido: o PCP – Partido Comunista do Prazer.

É que ao lado da desigualdade de copeques que cada um tem para se amanhar na vida, existe uma outra desigualdade que não é grave de um modo intenso, mas sim extenso. Pois há quem exerça uma profissão que verdadeiramente ama, ganhe bem ou menos bem, e há quem seja escravo mais ou menos consciente (menos ou mais anestesiado, portanto) de um labor que não completa a sua inteligência. Ganhe mal ou menos mal. Há aqui, portanto, uma enorme diferença de rendimento: passamos tanto, tanto tempo a trabalhar, que é justo dizer que há quem seja feliz em full-time, e outros apenas em part-time.

Ou já estaremos tão resignados que achamos que o prazer não passa de um subsídio de férias?

Ingenuidade

Ninguém é mais dependente do que eu deste português que se fala em Portugal. Quando passei um período de mais de dois meses em Inglaterra, senti-me em verdadeiro estado de ressaca intelectual, como se já não soubesse pensar, interrogar, escrever, ou até mesmo desejar.

Vi recentemente, na televisão, a cantora Eugénia Melo e Castro defender que, apesar de viver e trabalhar no Brasil (por razões de afinidade com a Canção desse país), continua a exprimir-se musicalmente com o sotaque de Portugal. Acredito, e até agradeço a militância. Mas o que me saltou aos ouvidos foi o incrível esforço que essa mulher fazia para falar fiel ao seu propósito. Ele era uma vogal que se queria abrir, uma expressão bem mais ipiranga que pessoana, um desarranjo da sintaxe a pedir calor e aguinha de coco… Era uma luta titânica.
Ou talvez entre Davi e Golias, quando o português quer deixar de resistir e entregar-se de alma e canção à virilidade de um sotaque fatal.

Para defender a nossa causa, é preciso ter a lucidez de a saber perdida à partida.

Faróis

Não leio revistas de teatro. Mas vou ao teatro, e leio jornais. E no entanto, continuo a sentir-me incapaz de construir um discurso crítico sobre os espectáculos a que assisto. Os críticos de Arte são brilhantes (por vezes mais brilhantes do que…?), os críticos de cinema esforçam-se (e houve o exemplo dos Cahiers), mas o teatro faz figura de parente pobre na imprensa genérica. Além disso, os programas que as companhias disponibilizam nas suas récitas não contêm crítica, por razões óbvias. Por isso agradeço ao blogue O MELHOR ANJO pelo seu serviço público.

Também uma palavra de simpatia para Desidério Murcho que, no suplemento Mil Folhas do jornal PÚBLICO, vai fornecendo pistas para uma biblioteca de filosofia contemporânea. Quem mais o faz? Pergunto-me só se as sugestões não poderiam extravasar o âmbito anglo-saxónico…

E claro, o Rui Tavares, que em matérias de política vai tendo razão algumas vezes mais do que eu.

No escrínio 7

Tradução do soneto de Shakespeare (do post anterior) por Vasco Graça Moura:

Nunca vi precisasses de pintura
e assim não te pus tintas na beleza,
achei-te (ou cri que achava) mais altura
para o que dá poeta em singeleza.
E dormi sobre o que és, para que bem
se visse, porque existes, como desce
um aparo moderno e fica aquém,
falando de valor, do que em ti cresce.
Tomaste esse silêncio por meu crime,
mas terei, mudo, glória mais subida,
nem a beleza o ser calado oprime,
que outros são tumba achando que dão vida.
Um só dos olhos teus mais vida anima
que teus dois vates em louvor e rima.


Shakespeare foi um poeta invulgarmente lúcido, e até por vezes demasiado cansado para se deixar levar pela poesia. No soneto proposto, o próprio poeta assume que escreveu o seu texto apenas para dizer que o seu texto não deveria ter sido escrito. Claro que há aqui não só uma dimensão de modéstia (que não é postiça pois combina com a lucidez), mas também uma hipérbole indirecta: o ser amado é inefável. Mas o aspecto mais moderno do texto é a sua auto-negação. Não ecoará esta atitude na metafísica do não-pensamento que Alberto Caeiro finge defender, ou ainda mais justamente numa obra como a do poeta holandês contemporâneo Gerrit Komrij?

O poema parece defender a sua total irrelevância. E com tanto vigor que, no último verso, certifica mesmo que esse parco valor não aumenta em consequência de uma prática poética baseada na humildade. Mas Shakespeare apenas admite que se manteve silencioso (que não usou tintas), não diz que não fez poesia. Mais: o poeta afirma que dormiu sobre a descrição da amada (slept in your report). Não escrever o poema equivale, assim, a sonhá-lo, ou melhor dizendo: a dormi-lo. Se os poetas que efectivamente accionam a escrita (os ingénuos) acabam por descambar na esterilidade (os seus textos são tumbas), aqueles que se deixam ser accionados pela escrita, encontram a glória poética.

O quinto verso permite, portanto, concluir que esta insatisfação com a poesia não é mera retórica, mas uma preocupação que se abre ao futuro. E se passados alguns séculos, ainda Mallarmé se debatia (exemplarmente) com o vazio inerente à criação artística, foi no espaço de poucos anos a seguir à morte deste que os surrealistas vieram desfazer esse dilema, ao proclamarem a fusão entre poesia, amor, e vitalidade. Com base em quê: no inconsciente. E mesmo que os Holocaustos do século XX tenham (temporariamente?) desfeito a ilusão fundada por Breton, o facto é que um poeta como Paul Celan (próximo do grande Pesadelo) certamente concordaria com este gesto lúcido de Shakespeare, que frontalmente desfaz um dos mais velhos clichés do Homem, ao dizer que o sono NÃO É a morte.

Diria agora eu, por minhas palavras, que todo o poema se escreve na região de pausa de um ser. E digo-o sem interesse nas ciências da psique, mas rendido à imprevisibilidade da criação.

No original

I never saw that you did painting need,
And therefore to your fair no painting set;
I found (or thought I found) you did exceed
The barren tender of a poet’s debt;
And therefore have I slept in your report,
That you yourself, being extant, well might show
How far a modern quill doth come too short,
Speaking of worth, what worth in you doth grow.
This silence for my sin you did impute,
Which shall be most my glory, being dumb;
For I impair not beauty, being mute,
When others would give life, and bring a tomb.
There lives more life in one of your fair eyes
Than both your poets can in praise devise.


William Shakespeare

Duas notas a "Transe"

1. No segmento russo do seu filme, Teresa Villaverde maneja a câmara sob a inspiração clara de Andrei Tarkovski. Já todos sabemos que, quando a influência não nos angustia, nunca nos tornamos plagiadores. Mas o que aqui releva é esta sensação que nos fica de que existe uma continuidade natural, afectiva, entre a estética que o autor de “Andrei Rublev” desenvolveu e a paisagem do seu país de origem. Como aconteceu, de outro modo, a John Ford e ao Monument Valley. Ou talvez não seja isso: as imagens de Tarkovski podem ser de tal modo contundentes que já é difícil contemplar a Rússia não urbana sem recorrer ao filtro de cinema que ele nos legou.
Onde surgiu primeiro o ouro: no ovo ou na galinha?

2. Parece-me que este drama assim exposto sem paninhos quentes, por vias travessas acaba por contribuir para a defesa de uma regulamentação jurídica para a mais velha profissão do mundo (uma discussão na ordem do dia). Onde há Lei, há pelo menos a ilusão de que nem tudo, no inevitável, é inevitável.

O ACTUAL 4

“Transe” – Teresa Villaverde


Confesso que a sensibilidade desta autora é bastante diferente da minha. Há nela uma espécie de peso masoquista que a leva a eleger, no universo religioso, o episódio da Paixão como o seu mito pessoal. Eu sou adepto da Ressurreição (esta vida são três dias…). Além disso, nos grandes assuntos morais, prefiro ficar mais perto de Abbas Kiarostami do que de Lars von Trier. Mas precisamente porque não admito que tentem desviar a minha própria sensibilidade, penso que tenho o dever de não interferir na dos outros, e de os tentar compreender exactamente como eles são.

“Transe” levanta questões deveras importantes: desde uma visão corajosa da Europa, muito diversa daquela que nos é sugerida nos discursos edificantes dos homens políticos (este é o outro lado do sonho europeu), até ao entendimento do mundo moderno como sendo um continente onde se perderam as fronteiras sobretudo morais, passando pela destruição do mito aventuroso da viagem, pelo questionamento do Ocidente como destino de sonho (a viagem faz-se da Rússia até Portugal), e pela afirmação de que a violência que costumamos associar à guerra se mantém no contexto de paz, ainda que sob outras formas (menos visíveis, mas igualmente ferozes).

A direcção de actores é fantástica, e a autora está no cume das suas capacidades para filmar (os planos com Natureza trazem essa evidência, mas eu sublinharia a ousadia dos enquadramentos em torno do rosto e do corpo de Ana Moreira, sempre a explorarem soluções de desequilíbrio e a aceitarem o vazio como produtor de sentido). A escolha de um director de fotografia associado ao documentário não será alheia à crueza com que o filme nos assalta.

Há um plano em que vemos as luzes criadas por uma bola de discoteca a viajarem pela parede da sala de um bordel, Ana Moreira sai de campo, e regressa algum tempo depois com o bâton dos lábios esborratado sobre o rosto. Mas o fascínio das luzinhas mantém-se. Não só fica claro que a Beleza é fria e não se corrompe com o Sofrimento (o plano em que, no princípio da obra, o gelo se fractura, indicia mesmo uma intensificação do sublime), mas acima de tudo a autora parece querer dizer que se existe Sofrimento, é tão-somente porque temos noções, expectativas, afectos de Beleza. Temos a ilusão dos sonhos acordados, e quando o real se torna pesadelo, já nem o sono nos pode fazer felizes. Por isso, a gravidade do tema não descamba nem no estetizante (que é sempre imoral), nem na vontade de fazer sujo. Teresa Villaverde desfaz a aporia com a sageza da sua intuição.

E há todo um conjunto de deliciosas subtilezas. Por exemplo, se Sónia, a partir de dada altura, consegue falar italiano, português, etc.,, isso não só revela a espécie de Babel imoral em que ela caiu, mas acima de tudo sugere que a personagem sofreu tanto que foi tocada pelo Espírito Santo, e por isso consegue fazer-se entender em qualquer língua que pretenda.
Outro exemplo: toda a sequência da prisão no palacete, para servir de odalisca privada a um deficiente, pareceu-me uma perversão gritante do espírito das “1001 noites”. É o maravilhoso que existe no Terror.

Teresa Villaverde quis levar o seu gesto até ao limite (a sequência com o cão), e isso é sempre polémico, gerador de discussão. Só podemos admirar a coragem de quem arrisca para lá da vontade de qualquer consenso.

Tate Modern

Palavras do artista Carsten Höller, responsável por uma instalação apenas feita de escorregas que neste momento ocupa uma sala daquele museu britânico:

“Podíamos ter escorregas a atravessar cidades. São amigos do ambiente e introduzem um elemento de loucura na vida de todos os dias.”

Gralhas

Quando escrevia para uma revista de cinema, as gralhas que sempre surgiam nas primeiras provas de cada edição, mais do que me fazerem sorrir, pareciam-me carregadas de sentido.
Relembro os dois acidentes mais espirituosos.

Num artigo sobre Cassavetes, tive eu o desplante de, em vez de escrever os géneros (ou os dois sexos, ou pura e simplesmente os homens e as mulheres), optar pela insípida expressão os tipos sexuais. Não sei se foi obra e graça de quem tipografou o meu manuscrito (nas editoras haverá gente com sarcasmo), ou mera ironia de um destino de pouca tiragem, o facto é que, aquando da correcção das primeiras provas, no lugar daquele meu literário transporte, eu li: os tiros sexuais. Elas cá se fazem, elas cá se pagam: puseram-me no meu lugar. Pois nisto de sexo, é preciso saber sempre o que mais interessa.

Diferente foi o caso de um outro redactor que havia elogiado, com circunstância e alguma pompa, um cineasta que não fazia o agrado da maior parte dos outros colaboradores. E dizia coisas do género jornalista, como por exemplo: ao longo da sua grande carreira como criador. Chegam as ditas provas, e a vingança trouxe uma geral satisfação. A frase apenas perdera uma letra, mas ganhara dignidade: ao longo da sua grande carreira como criado

Igualmente aqui, no meu arremedo de blogue, já publiquei um pequeno erro, que entretanto corrigi. Não é tão engraçado, mas também fala alto. Na “Crónica do espanta-espíritos”, queria eu escrever o seguinte: Terá John Cage composto para espanta-espíritos? No entanto, um esse distraído alojou-se na frase, e a coisa ficou assim: Terá John Cage compostos para espanta-espíritos? A verdade é que eu quase disse a mesma coisa. Pois não pode a música ser apenas mais um composto a acrescentar aos búzios que fazem o objecto? Desde quando a invenção ocupa uma importância de tamanho maior do que a simples matéria a que se refere?

Confissão 9



Só aprecio o preto-e-branco imperfeito do cinema antigo e frágil (quando ser a-duas-cores era mais condição do que ambição). Hoje, o preto-e-branco de alto teor tecnológico, sumptuoso, virtuoso, controladíssimo, impede-me de sonhar.

(“Sunrise”, “The man who wasn’t there”)