segunda-feira, outubro 09, 2006

Mente sã em corpo são

Dizem-me que há homens tão inflamados que preferem o suave prazer masoquista de verem duas lésbicas a fazerem amor, do que a satisfação do seu próprio corpo no objecto de desejo. Presumo que gostem tanto de mulheres, que sonhem com a total feminização do mundo.
Todos nós queremos ser compreendidos, e procuramos a integração no seio daqueles que connosco são solidários. Mas daí a querermos que o mundo seja feito à imagem e semelhança do nosso desejo, vai uma distância muito grande.
Recentemente, li algures que a Vanessa do triatlo só tinha lido dois livros na vida, e nem se lembrava bem do que lera. Ora, eu de facto já li bastante coisa. E espero ler muito mais. E até acho, com sinceridade, que o conteúdo dos livros é essencial a qualquer comunidade humana que tenha ultrapassado a sua fase da sobrevivência. Mas confesso:
nunca marquei um golo em toda a minha vida, o meu único mérito futebolístico foi ter tirado duas vezes a bola ao melhor jogador da minha turma, no voleibol mandava a bola para o tecto e não para a frente, a única vez que joguei andebol não soube o que fazer quando a bola me veio parar às mãos, tentei jogar squash e usei a cabeça do treinador como bola, no karaté faltava-me o mínimo de agressividade, parti quatro vezes os braços e uma vez a perna a praticar desporto, frequentei meia dúzia de ginásios e abandonei-os sempre ao fim de dois ou três meses, quando nado mariposa pareço mas é uma melga, precisei de trinta e cinco lições práticas de condução, e ainda hoje, com trinta e quatro anos não sei estacionar muito bem, e etc., e etc.
Força Vanessa. Os cultos ladram e a campeã passa.

Militância

Oponho-me convictamente a que as técnicas da narrativa sejam objecto de ensino e respectiva aprendizagem.
O que se ensina na pintura é a mistura dos pigmentos, o tratamento dos materiais, a eficácia dos gestos. De resto, os achados que serviram determinada geração quase sempre se tornam truques que a geração seguinte pretende ultrapassar. Ou seja, não se ensina a pintar.
O que se ensina no cinema é o efeito da escolha das lentes, o uso das fontes de luz, a tecnologia da montagem. Se Orson Welles renovou o modo de filmar em "Citizen Kane", isso deveu-se em parte ao facto do estreante não conhecer o que era considerado possível até então, e por isso ter pedido quimeras ao seu director de fotografia. Gregg Toland, técnico magistral, conseguiu materializar as visões do ingénuo. E assim a imagem-tempo (de Deleuze) atingiu uma primeira maturidade. Ou seja, não se ensina a filmar.
O que se ensina na literatura é a gramática.
De resto, o que temos é de ler ou ouvir aquelas meia-dúzia de ideias que são de facto justas, e esperar que a nossa vida (física e intelectual) nos permita, mais tarde ou mais cedo, entendê-las.

Arte romanesca

Gosto mais de personagens secundárias do que de protagonistas.
Por outras palavras: prefiro o desenho à pintura.

Internet

Um link para outras formas de linkar.

sábado, outubro 07, 2006

"Vampyr" - imagens

O INACTUAL 4

"Vampyr" - Carl Dreyer (1932)

Este post foi substituído por um novo texto, que pode ser lido aqui.

Confissão 8


As minhas cidades de eleição: apesar de lá não exercer o direito de voto. É que a minha diáspora só funciona na imaginação.
(Venezia, Edinburgh)

Exílios

Quando comecei a realmente escrever poesia, muitas vezes recorria a virtuosismos de rima rígida ou de manutenção de medidas métricas. Sinceramente, penso que foi melhor assim: pois quando ainda não escrevia poesia realmente, os meus excessos de liberdade não eram mais que patologias de adolescente.
No entanto, comecei a notar que a minha evolução me levava para outras paragens, e a verdade é que acabei por desenvolver um ritmo peculiar (oral, quase pontuado, intuitivo) , e uma liberdade de rima mais próxima da improvisação musical que da matemática. Por isso, escrevi num poema que o artista é um perdedor de ciências. Aliás, na medida em que, recentemente, comecei a escrever a poesia em prosa, tenho até receio de que qualquer dia perca a própria ciência do verso. Nada faço, contudo, para travar tais mutações. Quero ficar com a poesia, não com aquilo que lhe é lateral.
Tenho também tentado escrever em inglês. Os poemas lá vão saindo, é claro, mas sinto-me de facto como aquele famoso peixe que vive nas nossas bocas, mas fora da sua água. Talvez o criador seja apenas perdedor de ciências (todas aquelas que trouxemos da infância), e não tenha direito a ganho nenhum. Não citaria o Pessoa com exactidão, mas diria: o meu exílio é a língua portuguesa. Nisto de poesia, convém ter apenas os direitos que o céu permite.

Galeria 4


Mário Cesariny

No escrínio 6

Poema "ditirambo" de Mário Cesariny

Meu maresperantotòtémico
minha màlanimatógrafurriel
minha noivadiagem serpente
meu èliòtrópolipo polar

meu fiambre de sol de roseira
minha musa amiantulipálida
meu lustrefrenado céu grande
minha afiàurora-manhã

minha fôgoécia de estátuas
minha lábioquimia cerrada
minha ponta na terra meu arsgrima

meu diamantermita acordado!


O poema provavelmente derivará da admiração de Cesariny pela obra-prima "Allo" de Benjamin Péret, um cume da litania amorosa surrealista. Aliás, o poeta português pratica a mesma economia de tema (apenas celebrar o ser amado) e uma equivalente simplicidade técnica que, em vez de empobrecerem o texto, o abrem para um infinito de interpretações. Partilho aquilo que alguns versos concretos me sugerem.
minha noivadiagem serpente
Aparentemente, estamos perante um paradoxo (uma noiva está sempre submetida a uma estabilidade doméstica que em tudo se opõe à vadiagem). Mas será mesmo assim? O facto é que o poeta não opõe dois conceitos semelhantes ("noivàdia", por exemplo), mas uma personagem e um modo de acção. E assim se passa do absurdo para uma liberdade poética: uma noiva, para permanecer noiva, tem de submeter o seu amor à vadiagem (à flutuação) que esse sentimento exige.
Chamo também a atenção para a desnecessidade de trabalhar a palavra serpente. A técnica do poema contagia tudo, e permite-nos descortinar, no réptil, um modo de ser pente. O poeta é aquele que de tal modo inflama sentidos, que chega a retirar ecos de toda a matéria que decidiu não trabalhar.
meu fiambre de sol de roseira
Este verso tem algumas consequências evidentes: não só o ser amado é, conflituosamente, alimento e gordura, como este sol não nasce para todos, mas se dedica à situação privada da roseira (os amantes roubam o astro para si mesmos). Mas chamaria também a atenção para o facto deste verso me parecer derivar (conscientemente ou não) da expressão: uma fatia tão fina que se vê o sol por ela. Ora se juntarmos esta magreza translúcida à semelhança de cor entre o fiambre e a rosa (quando cor-de-si-mesma), podemos pensar que tudo isto poderia ser substituído por minha pétala.
minha afiàurora-manhã
Quando afiamos a aurora (quando lhe retiramos o que a impede de ser penetrante), esta torna-se manhã.
minha fôgoécia de estátuas
Entre os sentidos possíveis para a palavra inventada, podemos supor uma Grécia em fogo, declamada por quem não sabe dizer os erres (uma criança; alguém que fala de modo diferente, como o poeta). Assim não só temos a Razão submetida ao fogo da paixão, como se evoca o ser amado através das suas múltiplas, efémeras, expressões (estátuas belas, mas de fogo: cinza permanente).
meu diamantermita acordado!
Há aqui um diamante, sem vida mas precioso (como o dormidor), e uma térmita, trabalhadora, mas minúscula. O drama é, portanto, manter-se acordado durante o dia. Pois para os surrealistas, o que importa é o sonho.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Galeria 3

Fiama Hasse Pais Brandão

Citação e direito de resposta

Excerto de uma entrevista ao realizador Peter Greenaway, publicada no nº 20 da revista de cinema "A Grande Ilusão":


P. G. - "É extremamente relevante o facto de eu não ter querido continuar a fazer filmes sobre comboios e nadadores... todos os realizadores de vanguarda fazem filmes sobre comboios e nadadores. Podemos encontrá-los nos anos 10, nos anos 20, nos anos 30... nos anos 50, no cinema americano dos anos 60, nos filmes ingleses actuais, nos anos 70, nos anos 90... sempre os mesmos filmes."
Digo eu: mais do que o desconhecimento que os realizadores de todas as épocas têm da História do Cinema que os precedeu, não haverá uma ligação essencial entre os caminhos da 7ª arte e os caminhos-de-ferro? Não pertencerão os dois à mesma (trans-histórica) Idade?

A adopção de uma lei

Presumo que, quando um legislador for decidir se, em Portugal, um casal homossexual pode recorrer à adopção, se vá fundamentar não em preconceitos (religiosos, burgueses, ou até, no sentido contrário, dos próprios homossexuais), mas em sólidos estudos de psicologia, psiquiatria, e sociologia.
Mas isso não me sossega.
Não tenho problemas em assumir que, em tempos passados, tive de recorrer aos serviços de diversos psicólogos e psiquiatras. E o que eu pude notar, para além da maior ou menor competência imediata de cada um, é que todas essas pessoas baseiam a sua prática em convicções ideológicas extremamente cerradas. Quase poderia dizer que há psis do PP, do PSD, do PS, do PC, e do BE.
Os doutores da mente têm de assumir o pouco que ainda sabem sobre o Homem. E o pouco que sempre saberão.
Aconselho o legislador a seguir o mais recto bom senso, e a perceber as mudanças da sociedade e das expectativas daqueles que a compõem.

Kafka, burocrata de personagens

A uma dada altura, diz-se em "O Castelo" que as decisões oficiais são esquivas como as raparigas. Para além da afirmação da ausência de fronteiras entre vida íntima e civil (ideia já lançada noutro post), a frase coloca em perspectiva as várias personagens femininas do romance.
Na verdade, quase todas as mulheres ali descritas se sujeitam a cumprir os caprichos sexuais dos senhores do Castelo. A estalajadeira sobrevive no presente apenas porque foi amante de Klamm no passado (foi o ponto alto da sua existência). Frieda é submissa a qualquer homem, e a qualquer organização jurídica e burocrática. Olga deseja, ardentemente, a possibilidade de se submeter. No fundo, são o oposto da mulher esquiva, na medida em que aceitam as regras oficiosas daquele mundo.
Pelo contrário, Amalia tomou de facto uma decisão: negou-se a cumprir uma ordem sexual. Esquivou-se. O curioso é que a maldição que vai recair sobre si e sobre a sua família nunca é assumida publicamente. Não há provas de nada, nenhum indício, nenhuma certificação. E daí a dificuldade da resolução. No fundo, o funcionamento civil daquele lugar é tão medíocre que responde a uma decisão oficial com uma consequência oficiosa. Isto não é estranho para nenhum de nós, aqui, e agora.
Aliás, sobre o corpo de Klamm não há certezas. A sua descrição é fundada em boatos contraditórios. A sua aparência é tão desejada e inatingível que não pode ser estável.
Kafka é um burocrata das suas personagens: o Tempo e a psicologia do observador complicam de tal modo o ser observado, que este se torna irrepresentável.
Isto apenas confirma o Casting 4.

Casting 4

A autoridade de uma personagem sai-lhe sempre do corpo. É uma virilidade subtil que faz sabotagem com o género, o olhar de quem finge não se comover, uma voz mais próxima do oboé do que da violeta, e a sensação de que nunca aquela pessoa precisará de recorrer à violência para se afirmar.
Para assumir a personagem Amalia de "O Castelo" de Franz Kafka, eu escolheria a estranha actriz Mónica Calle.

Coisas que me ultrapassam

São todos aqueles que se pautam por uma estrita moral convencional, que desprezam a paixão e armadilham a sua prole com a obediência a todas as convenções sociais, que desalmadamente consumem telenovelas. E de que falam as telenovelas? Da integridade do amor perante todas as falsas regras, da libertação dos filhos do jugo de pais injustos, dos progressos libertários da Civilização... Será o encontro de duas formas de futilidade?
Há coisas que me ultrapassam. Pela direita.

Crónica do espanta-espíritos

O hífen é uma das vulgaridades da gramática. Usámo-lo, a maior parte das vezes, com um utilitarismo preguiçoso. Por exemplo, unindo duas palavras no sacramento de uma função: guarda-chuva. Sugiro, aliás, que nestes casos se substitua o hífen pelo underscore (função rasteira merece rasteiro instrumento): guarda_chuva (até porque nos podemos guardar de tudo, menos do ar do tempo, do clima).
Todavia, a quem lhe custa distinguir ensaio de poesia, resta a possibilidade de polemizar em torno do fino traço. Couve-flor. Uma couve que tem a aparência de uma flor. Ou se quisermos ser mais surreais, um modesto vegetal que é, ao mesmo tempo, uma couve e uma flor. As conjunções copulativas são, no entanto, pouco exactas na descrição da cópula entre as palavras. Pois não conhecemos, no nosso mundo, essa quimera que a língua enuncia. Seríamos assim mais fieis ao nosso entendimento se traduzíssemos o hífen por ou. Pois se a nossa inventividade ainda não materializou esse ser híbrido no real, a nossa imaginação só o pode entender de modo disjuntivo: olhamos para a salada, e pensamos (existencialistas...) que aquilo pode ser ou uma couve ou uma flor. A fusão não passa de ilusão.
E se trocássemos o ou pelo mas? A adversativa viria trazer uma dignidade inesperada. O vegetal é couve, sim, mas também flor! Não uma flor estetizante que venha tirar o vigor à couve, mas uma exaltação da função alimentar, uma celebração da possibilidade da vida.
Falam-me do espanta-espíritos. Um conjunto de hífens delicados que seguram bibliotecas de conchas, luas-de-trazer-por-casa, pequenas internets de barras de metal. Hoje, essa delicadeza apenas serve de motivo de decoração.
No entanto, é precisamente hoje que a nossa interpretação poética do mundo apenas surte efeito através de uma fé lúdica no mito. Não uma fé racional, muito menos cega. Presumo que ninguém supõe que o espanta-espíritos consiga afastar almas penadas, mau-olhado, ou vudus... Pelo contrário, a fé lúdica permite abrir a brecha da disjunção, do ou. Pois podemos querer espantar (afastar, assustar) os espíritos dos falecidos (o Além, quando ainda estamos aquém, é um filme de terror). Mas também podemos entender o espanto de outro modo: podemos querer que os espíritos, que os nossos mortos, nos espantem, nos maravilhem, nos seduzam, regressem até nós com palavras mansas, plenas de sabedoria e imaginação. Afinal, que mais pode o espanta-espíritos: recebe um ventinho timorato, e produz uma música tão simples, tão estelar, é o mais mágico dos instrumentos de percussão (John Cage terá composto para o espanta-espíritos?).
E a memória daqueles que nos deixaram, que outra coisa é senão uma música interpretada pela brisa? Um segredo não-verbal, uma companhia sem matéria.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Galeria 2

Carlos de Oliveira

Citação

No PÚBLICO de domingo, 1 de Outubro, encontrei esta magnífica frase de Robert Filliou:

"A arte é aquilo que torna a vida mais interessante do que a arte".

Partilha 4

num só verso, vários blues


o astro a si mesmo se conserva no âmbar da sua luz. não é, portanto, o astronauta, que alguns defendem no calor da discussão.
com o passar do tempo, o ourives das velocidades (deus) move-o com dois pauzinhos repugnados para o quilate da bugiganga. o mercado da delicadeza é um mikado.
e é assim que esta formiga com memória de universo, quando a acometem a mediocridade, o abandono, a solidão da humana porcelana, se torna poeta.


(Poema que será integrado na colectânea "A reconstrução de Nova Orleães". O seu assunto não é o mau poeta.)