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sábado, junho 20, 2009

Intratado (e sem curador)

1. O espírito imaginoso não é um sintoma de evasão à realidade. Especialmente porque não nos é possível imaginar nada que não seja real. O espírito imaginoso é aquele que usa os átomos da realidade para criar moléculas de liberdade. A física do texto não é a física da vida. E se há química entre ambos, isso chama-se metafísica.

Dito isto, não gostava de ser como o Borges, que nasceu para ser cego. O que eu aprecio na imaginação é a duplicidade da imagem que ela é capaz de engendrar: por um lado exultando numa anarquia puramente mental, por outro pesando com a sensualidade da experiência. Quero escreviver um mundo onde haja árvores que dão laranjas e árvores que dão gambozinos.

Espero que isto não seja uma poética de bloco central.


2. Devo ser a única pessoa que acha que ler Dicionários de Poética e Retórica é uma modalidade do erotismo.


3. Conforme vou escrevendo, vou-me apercebendo de que os fenómenos de homofonia (como a rima) podem ser libertadores se não forem usados para estruturar o poema. Sinto agora a vontade de investigar se é possível uma igual atitude experimental perante as tendências formais que a história da poesia tentou cristalizar (em sonetos, sextinas, vilancetes, etc.). Ou seja: será possível usar uma intencionalidade formal prévia de modo a abrir o campo da forma poética em vez de o encerrar? Poderá o soneto ser uma fonte, em vez de um espartilho? Afinal, a matemática usa os números (verdadeiros modelos de rigidez) para realizar multiplicações, potências, raízes quadradas... Não sei se, no presente, ainda é impossível inventar (mas também não nasci velho como o Vasco Pulido Valente). Sei, isso sim, que o mundo antigo (esse que inventou a liberdade, a aspiração, o amor, a inquietação) não pode ser abandonado sem um pouco de luta.


4. Penso que "o trabalho do milionário", que agora estou a começar, será o livro onde eu vou formular a minha anarquia personalizada. Fuck you (diria o comendador Berardo).

quarta-feira, junho 17, 2009

Partilha 51

charivari


veja, caro e-leitor

se este fosse um poema de tema político
de imediato eu construiria uma auto-estrada
que ligasse o primeiro ao último verso

mas aí você criticaria
o meu modelo de desenvolvimento
e eu não gosto de ser cinzento
como as united colours of betão

não

eu 'stou aqui para falar da nostalgia
que é ela mesma uma maneira de falar
mas à distância
uma espécie de petição de princípio
das andorinhas online
no fim de cada verão

eu 'stou aqui para anunciar
uma nuvem melancólica
o lento minar da paciência
atrás do camião do cachorreo
esperando encontrar por fim a hora
num relógio de sol a sol

para anunciar a alegria
o je ne sais pourquoi imarcescível
antologia de armas do futuro
o martinete de ouro que floresce
só quando há sanguechuva

venho falar-vos do desejo
mas depois
dizem-me as musas que há uma ameaça de bomba
e o poema tem de ser evacuado


Nota 1. Este é o primeiro poema de um livro cujo título será "o trabalho do milionário" (juro que não me inspirei no Cristiano Ronaldo). Tentarei, pela primeira vez, partilhar aqui todos os textos que, em princípio, completarão a recolha.

Nota 2. O cachorreo é um sistema salarial utilizado na exploração mineira nos Andes, que prevê que o operário trabalhe de graça 30 dias por mês, tendo direito a, no 31º dia, trazer consigo uma quantidade de pedra da mina, onde pode estar uma fortuna em ouro, ou, o que é mais frequente, absolutamente nada de valioso.

quinta-feira, maio 28, 2009

Poema para um heterossexual

Conade(e)p


eu e tu:
o e é sempre copulativo

espero que o meu leitor
(especialmente se for argentino)
não pense que eu confundo
lirismo com tragédia

só me parece terrivelmente político
dizer que alguém só pode desaparecer
dentro do corpo da sua amante

no cinema
o Pedro já o disse
precisamente quando falava com ela

porque ele sabe
que para quem prefere o johnny depp
a via para o interior do amor
não é feita de chocolate
mas de uma merda quase literal


(Nota: Conadep, iniciais de Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas, uma comissão criada na Argentina para averiguar os atentados aos direitos humanos praticados pela ditadura militar do país durante a guerra de 1976-1983)