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quinta-feira, agosto 26, 2010

Concluí, por estes dias,...

... um livro de poesia intitulado "p.s. - o trabalho do milionário". Alguns dos seus textos foram publicados neste blogue.

sábado, abril 03, 2010

Partilha 78

catálogo dos pássaros - voos
"como posso saber viver
se não sei voar?"

pedro ludgero


oriolus oriolus
voamos em bandos de trinta dinheiros: chamamos um figo ao tema do Céu

charadrius alexandrinus
não fosse o pássaro a pôr as coisas nos seus lugares, e tomaríamos o Céu por um close up

carduelis carduelis
já não há Céu, apenas imensos blues onde tentamos cair nos buracos de deus

monticola solitarius

quero ir para a cama com uma paisagem para fazer do Céu um bom lençol

delichon urbicum
deixo nuvens a marcarem o regresso, mas joão e maria fazem danças da chuva

estrilda astrild (aka banksy)
apenas isto o dia do juízo final: todas as linhas que os pássaros voaram ficarão visíveis

acrocephalus scirpaceus
voarei, revoarei, devoarei até que os homens inventem o nó cabeça-de-rouxinol

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Partilha 69

listen very carefully
i shall say this only once




follow that car
e não sei dizer mais nada
na vossa língua

....................................

presumo que me vão falar da vida
como se ela fosse
uma anedota sobre bêbados
mas eu já soube tantas tantas coisas

até já soube o que era a matéria clara
e fui eu que lancei a teoria
de que nenhum clima aguentaria
uma subida de mais de dois graus

descobri que, para a lua, as marés
são algo menos que escalas tonais
e aprendi a distinguir os homens
entre venenosos
comestíveis
ou medicinais

chamava à andorinha jocasta
não fosse o frio tornar-se enigmático
era doutor na arte de escandir
hoje sirvo pinga amoris causa

e é quando a matrícula da pedra
se torna finalmente discernível
(porque a morte se aliou ao inimigo)
que eu percebo que só eu remo
na direcção que está correcta

sábado, novembro 28, 2009

Partilha 68

jaculatória



o fim de um poema é precioso
e eu espero que o último verso deste
qual música de elevador
suba até ao seu princípio
e o torne mais valioso

deixe-me agradecer-lhe
.........................................em poema
o ter dormido comigo
não se preocupe
não irei carpir em vanglória
nem ejacular ao corrente do seu tema

estou aqui apenas
para o baptizar prolegómeno a um
............................................................altar
para me oferecer todo eu em raspadinha
membrana de pedra antiquando
uma mole de cabernet sauvignon

estou aqui para lhe cantar um coral
(os corais
como toda a gente
................................sabe
são os óscares do sexo)
é assim profunda e em extinção a minha gratidão

a alma escreve-se
a carne mata-se
mas consigo eu fiz as duas por três:
vim
.........por fim
......................a mim mesmo
ao pôr toda a escrita em espuma

quarta-feira, novembro 04, 2009

Partilha 67

vladi private islands



eis o que eu vou levar
na minha mochila
................................para westerbork:

uma garrafa de altas quintas Obsessão
(colheita de 2004)
para um momento especial

um vibrador
e o meu brevíssimo programa de governo
constituído por três pontos, a saber:

prometo limpar o rio de ouro
prometo incitar à desobediência militar
e prometo fazer

de cada poema
uma montanha-russa
num parque de sofrimentos

sábado, outubro 31, 2009

Partilha 66

paisagem islandesa


convidaram-me
para ser a próxima alma armani
mas o que eu gostava
era de ser uma coisa que só acontece aos outros

o alegado eu
tem uma chocante vida dupla
de dia é um fabro
que labuta para a sociedade
de noite
um antiquíssimo poeta

com isso
aprendi que a musa é um gps de vias de facto

aliás
mais de direito serão os projectos
de erguer uma biblioteca no meu bairro
e de fundar um imenso harém
todo p'ra mim

à minha volta
como paparazzis
andam os anjos brandindo provas
em como afinal até existi
ao que eu respondo passando de ultraleve
por baixo de todo o desvario

e apesar da lei não escrita
que prevê que toda a alma
se cosa um dia com o topo do mundo
nesse dia de altíssima costura
'starei pronto a voltar ao desfile da rua

domingo, outubro 18, 2009

Partilha 65

exílio em astros de ouropel



aqui estou eu
lesado na pátria e na majestade
mas também in the sky with diamonds

o céu está magnífico
talvez seja mesmo o melhor amigo
de um rapaz materialista

fosse eu dado por exemplo aos prazeres dos trópicos
e subiria até ao excêntrico e febril
mercúrio

mas eu prefiro vénus claro
o único ponto do universo
onde a noite ainda não é americana
porque as suas nuvens só publicam
vogais

mais longe
há mundos com dezenas de luas
haréns de aerossóis que tornam o amor
mais simples
e não deixam que nenhum nobre fique só

há blues previstos pela matemática
mares cianos que não existem
mas são verdes
há anéis de turquesa que ficam
enquanto vão as feridas do lesim

e também o tédio extremo sentido por mim
(que ainda sou do tempo
em que plutão era um narcótico)
quando percebo que há nos meus olhos
mais caleidoscópio
do que no suposto poema das estrelas

segunda-feira, setembro 28, 2009

Partilha 64

dendrocronologia



foi só quando por fim eu percebi
que a morte é na verdade necessária
que caindo em mim mesmo como pedra
me esqueci de quem era por completo

a custo a muito custo
fui reactivando a circulação do ruído
(desde o grilo saturno
até ao branco elefante)
quando ainda pouco esperava, vi
um davi de silêncio
enfrentando golias
& sons
e disse de mim para mim
sim este sou eu
vi depois um sexo estilita
em perenes erupções de santidade
vinha gente de muito perto
para o adorar
e disse de mim para mim
sim este sou eu
vi um cacheiro de tal modo viajante
que estava eriçado de hong kong
e nova iorque
sim não haja dúvidas este sou eu
ou as folhas de uma copa
como se diz unputdownable
escritas com imagens
por harmonizar
sim sim
eu num baloiço
com um belo rapaz eslavo
ora inventando ora descobrindo
um quarto com vista sobre a cidade
sim: eu que tenho o trabalho de milionário
de não deixar que seja ocaso nem ornato
o vário pôr-da-camélia

sábado, setembro 12, 2009

Partilha 63

tratado de podalírio


são três as causas possíveis
das palavras sobre o poema:
sarampo
alergia
ou picada certeira de insecto

só três por cento do poema
ainda que num raio de três tempos
é colhido
na realidade
mas é tal percentagem que lhe dá
o seu tom inigualável

é preciso ter pó a alguma coisa
para manter a febre de a limpar
(as palavras aliás só perdem
os verticilos ulteriores)
é preciso ter pólen para fecundar

só trinta por mil da vida
e num raio de três erupções
é colhido
na linha da poesia

mas não coce
(por quem é)
a palavra tem neste mundo
um terrível papel vegetal

sexta-feira, setembro 04, 2009

Partilha 62

arrivée d'un train en gare à la ciotat



no princípio
era a indecisão entre a luz
e o seu reflexo na resina do dragoeiro
mas acabei por ser dado à locomoção
e o burro foi

não sabia se o burro era mordente
quando saímos do meu doce bairro na flandres
certo é que ao passarmos p'las paisagens pirenaicas
senti-me um ignorante face ao poltergeist
do mundo:
homens de piropo, mulheres de coral
ricos a vapor sobre pobres capilares

com a ajuda de um chicote queimado
encontrei-a por fim já com bambas cordas vocais
até agora obnubilada à andaluza
eis uma oferta que não podeis recusar:
.....

sábado, agosto 29, 2009

Partilha 61

auto-retrato enquanto sentimental



de dez em dez anos
acontece-me uma guerra de tróia

sei que nela tenho
o papel de uma das fêmeas
mas qual em concreto isso já não sei

diz o povo que tudo o que não nos isola
nos torna mais fortes

sendo assim
quando monto o meu cavalo de batalha
armo-me com todas todas as armas

como helena faço das coisas graves agudas
e torno-me flâneur no meu transporte

como ifigénia decido restaurar
o lufar lufar incerto das mil rosas-

como cassandra declaro-me
que é o mesmo que fazer luas de morte
na colmeia de-oiro de clitemnestra

ameaço qual circe ser a viruta
da influência do mundo em pandemónio

lamento-me com música de purcell

mas como nada nada disto resulta
abro em mim doze vaginas de ternura
e volto a tudo pôr
nas mãos do Amor

sexta-feira, agosto 21, 2009

Partilha 60

o tearjerker dos corais



talvez o homem que encontrou o melhor modo
de chorar o finamento dos corais
tenha sido usain bolt

a puta também não se sai mal
quando atinge por fim o orgasmo
da sua primeira ruga

sempre que florescem
as coraleiras ganham papel principal
em todas as cosmogonias

e já que falo de um foder escancarado
é como poeta sem vergonha na cara
(como al capone)

que ordeno a londres, a camberra e à rubra moscovo
que sejam o alvo da minha pena
.........................................................inaugural

domingo, agosto 16, 2009

Partilha 59

acta de uma reunião do conselho de estado de ânimo do poeta
"quem foi ao relevo
perdeu o lugar"




desde que os dias me laurearam poeta
tenho um conselho para o estado de ânimo
que quer tomar decisões de tirano
como a cisão entre lirismo e epopeia

farto-me de lhes dizer
que eles não passam de um órgão consultivo
e que hei-de fazê-los apanhar
a gripe a
o tsé tsé da mosca
ou até mesmo uma praga de míldio

mas eles insistem em fazer reuniões
eis uma acta:


"aos dezasseis dias do mês de agosto de dois mil e nove
realizou-se nesta folha de papel uma reunião
do conselho de estado de ânimo do poeta
com a seguinte ordem de trabalhos

o poeta em desespero
uns clamam por mais estado
outros por menos
o ânimo é ideologia burocrática

o poeta apaixonado
é preciso fazer estudos prévios
e acima de tudo as reformas imprescindíveis
para que certa comunicação social
não lance mais cabalas cabalinas

o poeta com sono
antes de mais falta saber se o ânimo
é conjuntural
ou estrutural

nada mais havendo a lavrar
deixa-se o presente texto em pousio
até que alguém o venha desactar"


e o poeta vai-se tornando um cameo
dentro do tempo do seu próprio poema
que é um precioso sonómetro-de-batalha
saltando sobre a liquidez

quinta-feira, agosto 06, 2009

Partilha 58

os painéis de samsara
"Atravessarei no barco de Shyam
o oceano das reencarnações"

Mirabai



são muitas as teses (lapsos) que dizem quem é quem

nestes painéis de samsara; há quem sugira que a flor
foi noutra vida algodão-do-árctico que por via verde
de um caule se aqueceu jarro de si mesmo, que cada
corda da tiorba deixou a fílula no silêncio
genealógico, que o gato tem na lebre o siamês

antepassado, e que a foto do infante sou eu antes

.............................................................................................

de partir: a louça; cada ser veio dos anjinhos

que o libertaram; o meu Amigo por exemplo é
também meu gémeo colaço: à nascença separados
por não sermos comparáveis, fomos morrendo em lei-
tura de uma comum via láctea para acordarmos
cordados no ciclo infindo da alegria (palavras);

p'ra apanhar astros com lábio não são muitas as formas.

quarta-feira, julho 29, 2009

Partilha 57

ode ao sofrimento
"há fogo e fogo
há ir e voltar"



(estrofe)

viagens tantas se fizeram por terra
pelo mar pelo ar até, fosse o fogo
apenas luminescente e veríamos
cavalos épicos líricos místicos
e políticos até, chamejando
em direcção ao mais fundo e aceitando
a brevidade do curso em brevet



(antístrofe)

cada extremófilo tendo o direito
ao seu nome próprio até, donzelices
valiosas como a destrinça do Grave
o sério conhecimento do Amor
a Magnificência até, belas bruxas
de cem moedas com as quais o sentido
se inverte moedor porquê a porquê



(epodo anacreôntico)

mas o fogo é também
incandescente
..........................(sem até onde)
uma sopa de mim mesmo cansado
onde eu relincho
como um exilado
por um gole de leveza

quinta-feira, julho 23, 2009

Partilha 56

doçaria eventual


sob uma vinha de mil pormenores
jaz uma casa de sono aquecido
com canela

nenhum âmbar envelhece a atlântida onírica
à tona desta sangria

se a eternidade é a identidade
por quem dobram as estrelas
o relógio brilha as horas
em cascata de silêncio

e a manhãzinha demolhada
das nuvens faz uma barreira de coral
que o vento lentamente ordenha

duas mãos viris
abrem um pão de cristal dúctil
de onde se evola o perfume ainda quente
da generosidade

ora o céu tem bandeira azul
ora é um búzio de horizonte

mas tudo isto nos dá papo e barriga

domingo, julho 12, 2009

Partilha 55

tempestade imperfeita



(prelúdio)

a terra está sobrepovoada
só pode até ser sobrevoada
porque o céu é um deserto de pó

mas se alguém chocar contra deus
faz de pássaro ou faz de avião?



(coral)

pudesse o poema fazer um vitral
só com os trilos das mariposas
pudesse deus ser de noite nonato
e de dia ser deiscente
....................................(pousar aqui e ali)
pudesse o vento parir nova iorque
urbanizando o céu
como um dente-de-leão



(fuga)

sob essa copa rosácea e deíctica
onde nenhuma alteração climática
altera o ciclo de viver-morrer

o poema é finalmente a passadeira
que o leitor pode com efeito atravessar
mas não 'stá livre de aqui ser atropelado
porque a bonança é obrigada a parar

quarta-feira, julho 08, 2009

Partilha 54

indicativo de Guerra



eu sou um poeta ou melhor
dizendo sou um baptista
não há porém um acordo
de cavalheiros entre esta
missão e o apelido real
eu salto eu parto eu agito
faço do sangue uma juba

deixo um traço de dita-
dura morro em plena mor-
dedura o meu nome é leão
dente-de-leão _ _ .
eu sou um poeta ou pior
dizendo sou moita de onde
só sai silêncio ou alvor

tudo o que mexe eu fecundo
faço de duplo jogral
trinco como o infante o mundo
rio como quem é velho
no fundo e agora o leitor
já sabe o meu nome é coelho
dente de coelho _ _ .

quinta-feira, julho 02, 2009

Partilha 53

antiques roadshow

"foi-me dada por um ser
que deixou de ser crido"


a chuva é a letra miudinha
do contrato do mundo

é à socapa que ela cai
já no antigo estado civil

na sintaxe dos dois seres
prevê o pranto a forma

que pode o insólito isolado
soluçar como consolo

no seu solilóquio
sem deus amor ou vida

a não ser a aliteração
que desanuvia a palavra
...........................................sol

domingo, junho 21, 2009

Partilha 52

crítica da razão desconhecida


sim
.......o primeiro ataque foi precoce
poderoso
resultado não tanto do seu corpo
afinal demasiado diplomático
para insurgir os amargos da boca
mas do espectro de aromas:
nobreza vermelha, sémen silvestre
com notas de trabalho
e sugestões de morte e chocolate

mas logo a adstringência
levou ao final
prolongado e exuberante
do disparate

foi um voto, um talento, uma paixão
que abortou