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sábado, novembro 14, 2009

Tradução 18

Poema "Um par", de Algernon Charles Swinburne, traduzido por mim:



Se o amor fosse o que é a rosa,
.....E eu tal como a folha fosse,
Medraríamos a par
Com pesar no clima ou júbilo,
Vento ou flor abrindo o solo,
.....Prazer verde ou parda dor;
Se o amor fosse o que é a rosa,
.....E eu tal como a folha fosse.

Fosse eu tal como as palavras,
.....E o amor como a cantiga,
Com som dual e um só deleite
Ligar-se-iam nossos lábios
Em felizes beijos de ave
.....Fresca à chuva do mei'-dia;
Fosse eu tal como as palavras,
.....E o amor como a cantiga.

Se, meu bem, fosses a vida,
.....E eu teu caro a morte fosse,
Brilho e neve os dois seríamos
Até Março trazer graça
Com narcisos e estorninhos
.....E um sem-fim de fértil sopro;
Se, meu bem, fosses a vida,
.....E eu teu caro a morte fosse.

Se da mágoa fosses serva,
.....E eu um pajem para o gozo,
Toda a vida folgaríamos
Com olhinhos e traições,
Choros da alva e da noitinha,
.....Irrisões de moça e moço;
Se da mágoa fosses serva,
.....E eu um pajem para o gozo.

Se de Abril tu fosses lady,
.....E fosse eu um lorde em Maio,
Jogaríamos com folhas
E com flor's empataríamos
Até ser sombrio o dia
.....E ao contrário a noite clara;
Se de Abril tu fosses lady,
.....E fosse eu um lorde em Maio.

Se reinasses no prazer,
.....E eu da dor fosse o monarca,
O amor ambos caçaríamos,
Seu voar depenaríamos
P'ra aos seus pés darmos um metro
.....E à sua boca rédea curta;
Se reinasses no prazer,
.....E eu da dor fosse o monarca.


(O texto original pode ser lido aqui)

quinta-feira, outubro 08, 2009

No escrínio 50

Poema "Se os atritos do amor me provocassem cócegas " de Dylan Thomas, traduzido por mim:



"Se os atritos do amor me provocassem cócegas,
Uma miúda sabida p'ra si me roubando
Sua palha e meu cordão enfaixado rompesse,
Se as cócegas carmim como o parir do gado
Ainda uma gargalhada em meu pulmão coçassem,
Não temeria uma maçã nem o dilúvio
Nem o primaveril sangue queimado.

As células perguntam Será macho ou fêmea?,
E largam a cereja qual fogo da carne.
Se cócegas fizesse o cabelo a chocar,
A ossada alada que brotou nos calcanhares,
A sarna adulta sobre a coxa do bebé,
Não temeria forca nem machado
Nem os cruzados paus da guerra.

E Será macho ou fêmea? perguntam os dedos
Que nas paredes gizam moças e seus homens.
Não temeria a tensa imiscuição do amor
Se me fizessem cócegas fomes de putos
Ensaiando calor num nervo mal afiado.
Não temeria a coisa-ruim no lombo
Nem o sepulcro franco.

Se a mim me cocegassem atritos de amantes
Que não varrem madeixas nem pés-de-galinha
Da estiolada hombridade de dentes com trismo,
O tempo e os chatos e o bercinho do namoro
Deixar-me-iam tão frio como papa p'ra moscas,
Poderia afogar-me o mar quebrando espumas
De morte aos pés das namoradas.

Este mundo é metade do demónio e meu,
Tolo co'a droga que fumega numa miúda
E enleado no botão que trespassa o olho dela.
Partilhando a medula co'a perna de um velho,
Ante um mar abundante em arenques fedendo,
Sento-me e observo o verme sob as minhas unhas
Desgastando o que é vivo.

E esses são os atritos, os que fazem cócegas.
O macaco abonado que swinga o seu sexo
Desde as húmidas trevas-do-amor e o twist da ama
Nunca consegue pôr de pé a meia-noite
De um riso surdo, nem quando encontra beleza
Num peito amante, no da mãe, ou nos seus sete
Palmos no pó do atrito.

E qual atrito? A pluma da morte no nervo?
Tua boca, meu amor, o cardo no beijar?
O meu manel de Cristo nado espíneo na árvore?
São mais secos os verbos mortais que o seu corpo,
Com teu cabelo imprimo as feridas verbosas.
Far-me-ia cócegas o atrito que é:
Homem sê a minha metáfora."



(O texto original pode ser lido aqui)



Este poema foi escrito por Dylan Thomas quando tinha cerca de vinte anos de idade (ele auto-denominava-se o Rimbaud de Cwmdonkin Drive), e a verdade é que o seu assunto é o fim da adolescência. Ou mais correctamente, o desejo de que adolescência finde.

De verso em verso, o poeta vai protestando contra o excesso de gravidade com que encara o amor e a morte - precisamente o estado de alma que caracteriza aquela idade. Por exemplo, se ele já conseguisse lidar com o amor de forma distanciada, não teria medo da noção católica de pecado (assim entendo a primeira estância).

O jovem é aquele que se define por ainda não ser. É, por excelência, a arena do devir psicológico. As primeiras quatro estâncias sugerem, precisamente, um percurso de metamorfoses: na primeira, o sujeito lírico engravida uma rapariga e ela dá à luz, a segunda estância evoca um nascimento (e de imediato o sujeito se apropria da nova figura poeticamente parida), segue-se a sugestão da masturbação adolescente ("putos / Ensaiando calor num nervo mal afiado"), e por fim tudo regressa ao amor.

Apesar de haver um sujeito comum a todo o texto, Thomas está consciente do seu carácter de abstracção, e por isso pode modificá-lo ao sabor das necessidades discursivas. Repare-se que, quando no início da segunda estância, as células perguntam "Será macho ou fêmea?", o passo refere-se à dúvida sobre o sexo que vai ter o sujeito nascente. Mas quando, alguns versos mais tarde, surge a mesma pergunta, o que aí está em causa já é a orientação sexual do adolescente: ele vai preferir homens ou mulheres?

Ao longo de todo esse percurso, a mutação é efectuada através da técnica metafórica. O sujeito é metaforizado como boi, ave (a chocar num ovo), Hermes (deus que possuía umas sandálias com asas), macaco, Cristo, etc. Apesar do jogo me repugnar um pouco, pode-se tentar decifrar cada um dos desvairados tropos de que Dylan era capaz. William York Tindall, por exemplo, defende que a "coisa-ruim no lombo" é um símbolo fálico, e o "sepulcro franco" é o sexo feminino (e se lermos com atenção essa estância, isso faz todo o sentido). Eu atrever-me-ia a defender que o "mar abundante em arenques fedendo" é uma imagem do esperma, e que o "verme sob as minhas unhas desgastando o que é vivo" é o pénis masturbado.

Mas não é isso o mais importante. Thomas dá, do adolescente, uma imagem de impotência (espiritual - não conseguir "pôr de pé a meia-noite / De um riso surdo"). O último (e genial) verso é uma espécie de exortação tremendamente obscura: o sujeito lírico pede para o Homem ser a sua metáfora. Defendo que "Homem", neste caso, se refere ao macho adulto, e não, propriamente, à generalização "humanidade", como defendem alguns comentadores. Todavia, note-se que a metaforização pressupõe que a referência a um ser se faça através de uma palavra que, no seu uso denotativo, não refere esse ser. Ora, haverá aqui uma contradição: um humano quer que o humano seja a sua metáfora?

A ousadia tem várias consequências semânticas. Por um lado, Thomas exprime a inquietação do adolescente: ele já quer ser um homem adulto quando ainda não o é (e por isso, só o alcança por via metafórica - por um desvio na lógica). Por outro lado, a exortação marca paradoxalmente o fim imaginário do devir (da metaforização): ao tornar-se homem, o adolescente passa a SER, o seu atrito é aquele "que é" (pelo menos é essa a ilusão que temos na juventude). E por fim, ao desejar não ser outra coisa que não um homem, mas querer sê-lo enquanto metáfora, isso faz com que a maturidade se imponha ao adolescente de forma distanciada. Poderíamos adulterar os dois versos finais, explicando-os do seguinte modo: "Se o adulto for a minha metáfora, eu poderei finalmente viver o amor e a morte sem drama doentio".

Thomas escreveu este poema depois de ter estreitado um relacionamento com Pamela Hansford Johnson . À sua maneira oblíqua e abstrusa, escreveu-lhe aqui um poema de amor.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Tradução 17

Poema "Onde a princípio as águas da tua face" de Dylan Thomas, traduzido por mim:




Onde a princípio as águas da tua face
Minha hélice agitavam, venta teu 'spectro seco,
Alça o cadáver o olho;
Onde a princípio erguiam sua pelagem
Os tritões no teu gelo, conduz o árido vento
Por sal, raízes e ovas.

Onde a princípio os teus verdes nós afundavam
Suas costuras na corda da maré,
Lá vai o verde desenlaçador.
Bem oleada a tesoura, a faca branda alçada
P'ra cortar os canais na sua nascente
E por terra o fruto húmido deitar.

Invisíveis, as tuas marés pontuais
Sobre os ninhos de amor das algas quebram;
Mantém-se seca a alga do amor;
Lá, em torno das tuas pedras andam
As sombras das crianças que, da ausência,
Gritam para os delfins do mar.

Secas qual tumba, as tuas pálpebras de cor
Não fecharão enquanto a tão sábia magia
Deslizar sobre a terra e sobre o céu;
Haverá em teus tálamos corais,
Serpentes haverá nas tuas marés,
Até que morra todo o nosso mar-de-fés.



(O texto original pode ser lido aqui)

terça-feira, setembro 01, 2009

Tradução 16

Poema "O meu herói desnuda os nervos" de Dylan Thomas, traduzido por mim:



O meu herói desnuda os nervos ao longo do punho
Que regula do punho até à espádua,
Desempacota a cabeça que, fantasma com sono,
Se inclina sobre a minha mortal régua,
A altiva espinha desdenhando o giro e o torço.

E estes coitados nervos ao crânio tão conectados
Padecem no mal-amado papel
Que eu abraço p'ra amar com rabiscos desregulados
Que do amor a fome toda proferem
Dizendo à página a vazia enfermidade.

Desnuda o herói o meu costado e vê seu coração
A caminhar, como uma nua Vénus,
Pela praia da carne, e a enrolar a trança cor de sangue;
Desvestindo o meu lombo de promessa,
Ele promete uma oculta acaloração.

Ele sustém o arame desde a sua caixa de nervos
Louvando o erro fatal
Da nascença e da morte, tristes gatunos traiçoeiros,
E o imperador da fome;
Ele puxa a corrente, a cisterna procede.



(Nota: o texto original pode ser lido aqui)

segunda-feira, agosto 10, 2009

Tradução 15

Poema "The force that through the green fuse" de Dylan Thomas, traduzido por mim:




A força que p'la mecha verde

A força que p'la mecha verde impele a flor
Minha verdura impele; a que estoura raízes
É minha destrutora.
E sou mudo a dizer à rosa retorcida
Que também meu frescor cai em febre invernosa.

A força que impele água p'las rochas, impele
Meu sangue; a que ressica os desbocados rios
Transmuda o meu em cera.
E sou mudo a bradar às minhas rubras veias
Que na fonte da serra a mesma boca suga.

A mão que redemoinha a água na poça, açula
A areia movediça; a que ata o vento em sopro
O meu sudário enfuna.
E sou mudo a dizer a alguém ante a sua forca
Que do meu barro é feita a cal viva do algoz.

Sanguessugam-se os lábios do tempo à nascente;
Goteja e empola o amor, mas o sangue cadente
Acalmará suas chagas.
E sou mudo a dizer a um climático vento
Que o tempo pulsa um Céu ao redor das estrelas.

E sou mudo a dizer ao sepulcro da amante
Que avança em meu lençol o retorcido verme.



Nota: A tradução de "And I am dumb to tell" é difícil. Os comentadores do poeta dizem que ele poderia estar a pensar no calão americano quando escolheu a palavra "dumb", o que levaria a que ela significasse não apenas "mudo", mas também "palerma". A princípio, optei pela hipótese "E sou mono a dizer". No entanto, o sentido do texto tornava-se um pouco obscuro e até risível, o que, neste caso, é desaquedado ("The force that through the green fuse" é um dos textos mais claros e imediatos de Thomas). Mas também não me satisfazia a expressão (demasiado bonitinha): "E não tenho palavras para dizer". Acabei por me render à simplicidade de "E sou mudo a dizer", na medida em que esta expressão despojada acaba por contribuir para a tensão paradoxal que o poema todo encena. De qualquer modo, isto de traduzir é render-se à impossibilidade de evidência.


(O texto original pode ser lido aqui)

segunda-feira, julho 27, 2009

Exhibit

Tradução 14

Poema "Antes de eu ter batido" de Dylan Thomas, traduzido por mim:



Antes de eu ter batido e a carne aberto,
Co'a instalação das mãos no ventre-d'água,
Eu que era informe como a mijoca
Que o Jordão meu vizinho formava
Era irmão da filha de Mnetha
E irmã do verme paternal.

Eu que era surdo p'ra verão e primavera,
Que pelo nome não sabia sol e lua,
Ouvia o baque sob o arnês da minha pele,
Que ainda era forma dissoluta,
Das plúmbeas 'strelas, do pluvial martelo
Brandido por meu pai desde a sua cúpula.

Eu sabia a mensagem do inverno,
O granizo flechado, a neve pueril,
E minha irmã era amada pelo vento;
Vento e infernal orvalho saltavam em mim;
O clima do Levante andava nas veias;
Não gerado eu sabia a noite e o dia.

Embora não gerado, de facto eu sofria;
A tortura dos sonhos as minhas ossadas
Passiflóreas torcia em cifra viva,
E a carne era rasgada p'ra passar
Marcas tais gallow crosses sobre o fígado
E espinheiros em crânios a penar.

A minha goela soube a sede antes da estrutura
De pele e veia em torno do poço
Onde palavras e água fazem uma mistura
Incansável até que o sangue fica torpe;
O coração sabia o amor, o ventre a míngua;
Cheirei o verme em meu esterco.

E o tempo arremessou minha mortal criatura
Nas derivas e nos p'rigos das águas
Que conhecem a salina aventura
Das marés que nunca atingem as praias.
Eu que era rico aumentei a fortuna
Gole após gole na vinha dos dias.

Eu, nascido de carne e espírito, nem homem
Nem 'spírito era, mas espírito caduco.
E fui derrubado pela pluma da morte.
Fui mortal até ao último
Longo suspiro que levou ao genitor
A mensagem do seu cristo moribundo.

Tu que te ajoelhas ante o altar e a cruz,
Recorda-te de mim e tem pena d'Aquele
Que meus ossos e carne tomou por arnês
E bateu coro dúplice ao ventre materno.




Nota: No quinto verso da quarta estância, optei por não traduzir para português a expressão "gallow crosses". Apesar de nunca ter encontrado essa hipótese em nenhum comentador ou tradutor do poeta galês, a verdade é que Gallows Cross (mais conhecido como Bewell's Cross) refere-se a um marco em pedra que, na Idade Média, estabelecia a fronteira entre o condado de Bristol e o País de Gales. Ora, parece-me evidente que Thomas (apreciador de Joyce e perito em trocadilhos) alude aqui precisamente à passagem de uma fronteira: a fronteira da morte (mesmo a palavra "liver", em inglês, para além de "fígado" também significa "o vivente"). Como o nome do referido marco é literalmente traduzível por "cruzes de forca", torna-se clara a razão pela qual Thomas o resolveu discretamente evocar. Claro que, para o leitor português, a passagem seria mais evidente se a citação se referisse a um mito ("Taj Mahals", ou "Torres Eiffel"). Assim, parece simplesmente que o tradutor se esqueceu daquelas duas palavras. É um passo que, por isso, exige uma nota de rodapé.



Pode ler-se aqui o texto original.

domingo, julho 05, 2009

Tradução 13

















Ode ao concreto (tradução minha)


Meu bom velho cimento, durarás para além da minha vida,
como eu durei, assim consta, para além de alguma gente
que me tinha tomado, também, por uma espécie de via,
citando a cor dos olhos, ou o semblante.

Por isso eu louvo a tua porosa e inânime feição
não por inveja mas por ser um bem directo
parente - menos durável, em aflição
desconjuntado, ainda assim grato aos arquitectos.

Aplaudo a tua humilde - para ser mais exacto,
insignificativa - origem, um rugir penetrante,
contudo condizente, na íntegra, com o abstracto
destino, fora do meu alcance.

Não é que o nada gere o seu género
mas que o futuro é por opção o pretendente
de um encontro tão às cegas quanto cego
e envolto em saia petrificada e ingente.



Notas:

1. Brodskii escreveu o seu texto a partir da polissemia associada à palavra "concrete" (que em inglês significa, ao mesmo tempo, "concreto" e "cimento"). Decidi então traduzir o título do poema como "Ode ao concreto". Em primeiro lugar porque, estando o poema escrito em inglês dos Estados Unidos (basta atentar na grafia de "color" e na expressão "blind date"), pareceu-me subtil empregar a palavra "concreto" num sentido mais usado no Brasil do que em Portugal (o sentido de "cimento armado"). Mas essa opção foi sobretudo motivada pela capacidade que o leitor tem para juntar, na mesma imagem que faz do poema, o conceito de "concreto" ao qual o meu título promete uma ode e o objecto "cimento" a que a ode, na verdade, faz louvor. Mesmo sem recorrer à polissemia, a duplicidade das intenções do poeta podem ser transmitidas.

2. A última estância do poema é de difícil tradução, na medida em que o autor joga com as especificidades da língua inglesa. Insisti na ideia de cegueira, não só dada a importância que o sentido da visão tem na mundividência de Brodskii, mas porque ela me parece essencial à compreensão deste texto em particular (como explico neste post). Usando as expressões "às cegas" e "cego", tento evocar as diversas camadas de sentido latentes em toda a quadra: a ideia do encontro às cegas com o futuro (do "blind date", bela expressão para a qual não há, infelizmente, uma tradução idiomática eficaz em português), a ideia de que a rapariga que vai a esse encontro é cega (e portanto não pode ler a ode) e, por fim, a tradução de "resolutely". É uma proposta polémica da minha parte, mas parece-me mais concreta do que a tradução do passo em causa como "encontro imprevisível".

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

domingo, fevereiro 15, 2009

O coleccionador 13

If there be nothing new, but that which is
Hath been before, how are our brains beguiled,
Which, labouring for invention, bear amiss
The second burden of a former child?
O that record could with a backward look
Even of five hundred courses of the sun
Show me your image in some antique book,
Since mind at first in character was done,
That I might see what the old world could say
To this composed wonder of your frame;
Whether we are mended, or whe'er better they,
Or whether revolution be the same.
.....O sure I am, the wits of former days
.....To subjects worse have given admiring praise.


William Shakespeare



Na língua inglesa, a palavra revolution tanto refere o movimento de um corpo em torno do seu eixo (rotação) como ao longo da sua órbita (translação). Parece-me que Shakespeare, neste soneto, está ao mesmo tempo a averiguar a vitalidade (frame of mind) de uma relação amorosa do sujeito poético que já duraria há cerca de quinhentos dias, e a interrogar-se sobre se a passagem do tempo em sentido lato (quinhentos anos) trará de facto algum progresso ao espírito humano. Assim sendo, o sentido político do texto (o outro sentido, bem conhecido, de revolution) deriva da tensão entre a capacidade de acção de cada indivíduo no curto espaço de tempo da sua vida e as grandes estruturas seculares que fornecem o contexto no qual ele age.

Abro aqui esta pequena hipótese polémica porque, nas duas versões portuguesas deste texto que conheço (de Vasco Graça Moura e de Carlos de Oliveira), não sinto que a ambiguidade do texto tenha sido cabalmente traduzida. Qualquer um daqueles poetas só deu atenção ao sentido da translação, porque o texto talvez assim o sugira (mas que dizer do anacronismo da referência a uma imprensa, compose a character, num mundo antigo em que ela ainda não estaria inventada?), descurando os factos de que courses of the sun costuma referir-se ao movimento do sol no céu ao longo de um dia, e de que nem todos os dicionários definem revolution como translação (pelo que será um significado mais raro).

Mas isto sou eu a tresler - hábito e vício que tenazmente acarinho.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Tradução 11

Poema "Quando outrora o cabelo do crepúsculo" de Dylan Thomas, traduzido por mim:


Quando outrora o cabelo do crepúsculo
Não mais fechava à chave o longo verme do meu dedo
Nem reprendia o mar acelerado no meu punho,
Mamava a boca-tempo, qual esponja,
Ácido lácteo em cada gonzo,
Chupava até secarem as águas do meu peito.

Quando mamado foi o mar galáctico
E o seco fundo seu foi destrancado,
Mandei minha criatura a explorar o globo,
O globo el' mesmo de cabelo e osso
Que, a mim cosido por miolo e nervo,
Meu frasco de matéria atara à sua costela.

Do seu coração fiz bomba-relógio,
E ele estourou qual pólvora ante a luz
Comemorando com o sol um sabatzinho,
Mas quando as 'strelas, assumindo forma,
Sortearam sono nos seus olhos com palitos,
Ele afogou as artes mágicas do pai num sonho.

Tudo broto blindado, do jazigo,
O cancro ruivo ainda vivo,
Sobre o seu pano cataratas de filme dos olhos;
Cadáveres desfaziam barbudas queixadas,
E bolsinhas de sangue soltavam suas moscas;
Ele tinha de cor o abecedário em cruz dos mortos.

O sono navega as marés do tempo;
Os Sargaços secos da tumba
Dão os mortos que neles há a esse mar operário;
E o sono ondula mudo sobre os leitos
Onde o manjar dos peixes nutre as sombras
Que florescem em periscópio até ao empíreo.

Quando outrora outra volta em parafusos do crepúsculo
Entesou como areia o leite mãe,
Mandei meu próprio embaixador p'ra a luz;
Por ventura ou travessura adormeceu
E uma forma de carcaça ele invocou
P'ra me roubar os fluidos no seu coração.

Acorda, meu dormente, para o sol,
Operário na vila matinal,
E deixa o estupefacto sicofanta onde ele jaz;
Estão por terra as vedações da luz,
Só não tombou quem cavalgou veloz,
E mundos pendem das árvores.


(O texto original pode ser lido aqui)

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Não, não sou o único

"(...) translations that attempt "faithfulness" to meter and rhyme-scheme of the originals are usually unfaithful in a more important sense: they fail to have the same effect on an English reader as the original on a reader in the original language."

James Greene (no prefácio das suas traduções de "Selected Poems" de Osip Mandelshtam, da Penguin, livro comprado na Poesia Incompleta).

domingo, novembro 16, 2008

Tradução 10

Vejo os rapazes de verão


I

Vejo os rapazes de verão na sua ruína

Depreciando dízimas de ouro,

Desvalorizando colheitas, gelando solos;

Ali no seu calor que o inverno inunda

Com frígidos amores buscam moças,

E a carga das maçãs em suas marés afundam.


Rapazes de luz que coalham na loucura,

Azedando o mel em fervura;

Tocando os seus homens das neves nas colmeias;

Ali no sol sustentam nervos

Com fios glaciais de dúbias trevas;

Nos seus vazios a lua emblemática é zero.


Vejo os meninos de verão nas suas mães

Partindo os rijos climas uterinos,

Com mãos de fada dia e noite separando;

Ali na sombra funda e esquartejada

Com lua e sol os diques mátrios pintam

Como o sol pinta a carapaça dos seus crânios.


Vejo que dos rapazes só homens de nada

Vão crescer por germinação danada,

Ou mutilar o ar com cios fulgurantes;

Ali dos corações o canicular pulso

Com luz e amor explode nas gargantas.

Oh vede a pulsação do verão no sincelo.


II

Mas afrontemos as estações ou elas caem

No quarto consonante

Onde, pontuais de morte, tangemos as estrelas;

Ali, na sua noite, o homem hiberno

Maneja os carrilhões de língua negra,

Nem recobra da lua-e-meia-noite o alento.


Convoquemos, nós, escuros negadores,

De uma mulher de verão a morte,

Musculatura de amantes na sua cãibra,

Dos claros mortos que alagam o oceano

Verme radioso em lanterna de Davy,

E do ventre sementado o homem palhaço.


Rapazes de verão quatro ventos dobando,

De um ferro de algas esverdeados,

Vertemos aves do mar ruidoso que erguemos,

Tomamos o globo de espuma e vaga

P'ra afogar nas suas marés os desertos,

E penteamos jardins públicos em grinalda.


Co'azevinho cruzamos as testas vernais,

Ora bolas p'ra o sangue e baga,

E pregamos nas árvores ledos fidalgos;

Cá seca e morre o músculo do amor,

Pedreira em desamor que um beijo estala.

Oh vede os pólos da promessa nos rapazes.


III

Eu vejo-vos rapazes de verão em ruína.

O homem como larva baldia.

Rapazes inteiros e estranhos no marsúpio.

Sou o homem que o vosso pai foi.

Somos filhos de sílex e hulha.

Oh vede a cruz que os pólos fazem no seu beijo.


Dylan Thomas (tradução minha)


(O texto original está aqui)

quarta-feira, outubro 29, 2008

Traduzindo Dylan Thomas

Estou a começar a tradução da obra poética de Dylan Thomas. Até agora, apenas consegui desbravar meio poema! É, de facto, o autor mais desafiante que já traduzi. No entanto, posso já partilhar duas ou três notas sobre o processo:

- A nobreza da dicção thomasiana acaba por invadir o texto na língua de chegada. Ou seja, o poema traduzido parece estar destinado a uma voz tão solene, profunda e musical como a que o autor galês possuía.

- Apesar da obscuridade evidente dos textos, a verdade é que uma leitura feita com bisturi revela a extrema precisão com que eles são construídos (como se fossem pequenas selvas desenhadas por um relojoeiro suíço).

- Tenho tomado algumas decisões bastante polémicas ao longo da tradução. Para tentar ser o mais fiel possível ao espírito do original, e ao mesmo tempo criar um texto válido em português. Cada vez mais se torna evidente para mim que não existem traduções definitivas.

quinta-feira, julho 10, 2008

Tradução 9

Muito alto as puras unhas consagrando o ónix,
A Angústia, à meia-noite, sustém, lampadófora,
Vário vesperal sonho queimado p'lo Fénix
Cujas cinzas não jazem em nenhuma ânfora

Nas credências, da sala vazia: vão ptyx
Abolido bib'lô, mera inânia sonora,
(Pois o Mestre foi lágrimas buscar ao Estige
Com esse único objecto de que o Nada se honra.)

Mas perto da janela ao norte vago, um ouro
Agoniza imitando talvez o décor
Dos licornes coiceando fogo contra nixe,

Ela, desanuviada morta em 'spelho, embora,
No oblívio enquadrado em quiasmo, se fixe
De cintilações logo logo o septuor.


Para ler o texto original, visitar este post do meu site no myspace.
Para ler uma paráfrase "simplificadora" do texto, visitar este post do mesmo site.
Para analisar uma fundamentação desta tradução, seguir para este outro post ainda do mesmo site.

terça-feira, maio 20, 2008

Tradução 8

Poema de Stéphane Mallarmé, traduzido por mim:




Salve!


Nada, esta espuma, virgem verso
Designando apenas o flute;
Longe assim se afoga uma trupe
De sereias várias do avesso.


Navegamos, ó meus diversos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós luxo de proa que corta
A vaga de raios e Invernos;


Me anima a bela inebriação
Sem medo da trepidação
A fazer de pé este brinde


Solidão, recife, estrela
A tudo de que não prescinde
A branca inquietação da vela.



(O texto original pode ser consultado no meu site do myspace)

domingo, abril 06, 2008

Tradução 7

Poema de John Donne (um dos meus textos favoritos), traduzido por mim:



Um discurso de despedida: proibindo o pranto




Como morrem com calma homens virtuosos,

....
E exilam a sua alma num sussurro,
Dizendo alguns amigos pesarosos:

....
"Parte a respiração", e outros: "Não",


Assim soframos, sem qualquer barulho,

....
Sem fazermos do pranto tempestade;
Seria profanação do nosso júbilo

....
Do amor contar aos leigos a verdade.


Traz mal’s e medos o mover da Terra;

....
O Homem calcula qual o seu desígnio:
Mas a trepidação destas esferas

....
É inocente, apesar da vastidão.


O chato amor dos sublunar’s amantes

....
(Cuja a alma é os sentidos) não consente
A ausência, porque a ausência torna inane

....
Toda a matéria-prima que o preenche.


Mas nós, por um amor tão refinado

....
Que nem nós conhecemos o seu ser
(O espírito entre os dois assegurado),

....
Não tememos o que é carnal perder.


Assim, nossas duas almas, que uma são,

....
Deva eu partir embora, não padecem
Qualquer ruptura, antes expansão

....
Como ouro lapidado até ar leve.


Nossas almas são duas co’a condição

....
Dos exactos pés gémeos do compasso:
A tua, pé fixo, não dá a impressão

....
De se mover, mas da outra vai no encalço.


E embora ela no centro esteja assente,

....
Quando a outra, porém, longe anda a vaguear,
Inclina-se p’ra ouvir a discorrente,

....
E apruma-se se aquela volta ao lar.


Assim serás pr’a mim, que necessito,

....
Como o outro pé, de obliquamente andar:
Traça perfeito a tua firmeza o círculo

....
Que no início me leva a terminar.



(O texto original pode ser lido no meu site do myspace)

quinta-feira, março 06, 2008

Tradução 6

Poema "A pulga", de John Donne, traduzido por mim:


Repara é nesta pulga, e nisso vê
Quão pouco aquilo que me negas é;
Sugou-me a mim, e agora a ti te suga,
'Stão nossos sangues em união na pulga;
Sabes que isto não pode ser tomado
Como defloração, como pecado,
....Mas sem fazer a corte ela desfruta,
....Intumesce de um sangue com origem dupla,
....Ah, como isso é bem mais do que a nossa conduta.

Pára, três vidas numa pulga poupa,
Onde nós quase... não!, já sup'rámos a boda:
Esta pulga é tu e eu, e tal
É o nosso templo e o nosso leito nupcial;
Estamos, a despeito dos pais e de ti,
Reunidos neste vivo claustro de azeviche.
....Mesmo se com direito me podes matar,
....Não queiras, a esse tanto, o suicídio juntar,
....E o sacrilégio, e assim por três vezes pecar.

Já purpureaste, com crueldade brusca,
Em sangue de inocência a tua unha?
De que pod'ria a pulga ser culpada,
Senão daquela gota que em ti foi sugada?
Todavia tu triunfas, e garantes
Que nenhum de nós dois 'stá mais fraco do que antes:
....Certo; compreende então o absurdo dos receios;
....Não terá mais valor, quando a mim te renderes,
....A honra, que a vida que na pulga tu perdeste.


(O texto original pode ser lido no meu site do myspace)

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Tradução 5

Poema "O sonho", de John Donne, traduzido por mim:



Querido amor, por nada menos do que tu
Teria interrompido este sonho ditoso;
.....O seu teor
Era forte demais para uma fantasia,
Por isso com razão me acordaste; e todavia
Mais do que interromper, tu continuaste o meu sonho,
Tu és tão realidade, que os teus meros pensamentos
Fazem, de devaneios, História e Verdade;
Deixa que eu te abrace: já que achaste mais certo
Que o sonho ficasse a meio, vivamos o seu resto.

Qual relâmpago, ou luz de círio,
O teu olhar, e não teu ruído, me acordou;
.....No entanto, à primeira vista,
Supus-te apenas Anjo (tu que amas a verdade),
Mas quando eu vi que conhecias
O meu imo, p'ra além do Anjo e sua arte,
Como sabias o que eu sonhava, e ainda quando
Me acordaria a euforia, e portanto vieste,
Confesso que seria uma evidente blasfémia
Supor-te um outro alguém que não tu mesma.

O teu vir e ficar mostrou que tu és tu,
Agora o levantar faz par'cer heresia
.....Essa tautologia.
O amor é fraco quando o medo é como ele forte;
E não é todo espírito valente e puro
Se tem mistura de honra, de medo ou vergonha.
Porventura como há quem a tempo e horas
Acenda e apague as tochas, assim comigo fazes,
Vieste p'ra inflamar, partiste p'ra voltar; então
P'ra não morrer, de novo sonharei essa esperança.



(O texto original pode ser consultado no meu outro site)

domingo, dezembro 16, 2007

Tradução 4

Poema "O bom dia" de John Donne, traduzido por mim:



Pergunto-me, por minha fé, o que eu e tu
Antes do amor fizemos? seríamos rústicos
Miúdos 'inda por desmamar? arfávamos
Na caverna dos Sete Adormecidos?
Assim era.
Salvo este, todos os prazeres são caprichos.
Se alguma vez beleza alguma eu vi,
Desejei e alcancei, foi mero sonho de ti.

Agora, bom dia às nossa almas que acordam
E não se olham uma à outra devido ao medo;
Porque o amor, todo o amor de outras visões controla,
E de um pequeno quarto faz um universo.
Deixa que alguns por mar descubram novos mundos,
Que a outros os mapas mostrem os restantes fundos,
Fiquemos nós co' aquele que temos e somos.

Surge em teus olhos o meu rosto e surge o inverso,
Pois todo o puro coração jaz no semblante;
Onde acharemos nós dois melhores hemisférios
Sem o cortante Norte nem o Oeste declinante?
A morte é uma mistura não proporcional;
Se os nossos dois amor's são um, ou tão igual
É cada qual que nenhum pode embrandecer,
Nenhum pode então morrer.