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sábado, setembro 29, 2012

Ainda no mesmo sítio...

... publiquei sete traduções de poemas de Rimbaud, entre os quais o célebre "Ce qu'on dit au Poète à propos de fleurs", de que não conheço nenhuma versão disponível em português de Portugal: aqui.

domingo, setembro 09, 2012

Cadernos rimbaldianos 10

Embora Rimbaud e a sua poética algo vulcânica não sejam modelos do típico criador de poesia contemporâneo, a verdade é que a sua obra foi no passado objeto de uma receção apaixonada e apaixonante, que a colocaram a jeito do mito. Os seus textos costumam provocar fascínios sinceros, mas não deixa de ser irónico o facto de que muitos dos incensadores da lírica rimbaldiana não tinham meios de conhecimento suficientes para poderem decifrar esse corpo textual. Ninguém nega a imaginação incomensurável do prodígio, e muito menos se supõe que poemas com tão grande carga de ambiguidade sejam decifráveis à maneira das palavras cruzadas. No entanto, a lenta investigação académica tem vindo a encontrar dados contextuais que revelam que muitas das aparentes bizarrias fantasiosas de Rimbaud eram na verdade referências inequívocas a entidades e acontecimentos concretos da sua (e não só da sua) época. Tal investigação tem se mostrado muito mais ágil na primeira parte da obra, mas ninguém nos diz que um dia não cheguemos à conclusão de que a madame *** era, afinal, uma prostituta de Charleville... Em todo o caso, se o disparate hermenêutico pode atingir o píncaro de Paul Claudel, que via em Rimbaud um místico, ainda que selvagem (se bem que, neste caso, ninguém pode estar seguro da boa fé do intérprete preconceituoso), o texto produzido pelo adolescente aparece sempre como uma armadilha que seduz aqueles que defendem que o poema deve ser lido como uma música é ouvida (ou seja, em plena anarquia semântica).

Vejamos o seguinte passo do poema "O que a gente diz ao Poeta a propósito de flores":

"Ó branco Caçador sem meias,
Correndo na Pastagem pânica,
Não te passa pelas ideias
Saber melhor a tua botânica?

A Cantárida ao Grilo ruivo
Temo que suceder farias,
O Rio de ouro ao Reno azul,
Ou às Noruegas as Floridas:"
(tradução pessoal)

Jacques Gengoux informou o leitor deste texto que os dois insetos referidos na segunda estrofe citada eram matéria-prima de afrodisíacos, sendo que o grilo produziria um efeito suave, enquanto que o célebre pó de cantárida tinha repercussões violentas (esse pó era usado há séculos, resultando o seu efeito de aparente excitação erótica do facto de ele provocar uma inflamação urinária).

Ora, sendo este um texto que parodia a célebre associação da mulher à flor, torna-se evidente que o jovem autor está a criticar a inexperiência sexual dos poetas que falam do Amor como se este não fosse uma atividade com implicações escatológicas. Não se trata de saber se Rimbaud estava na posse da razão erótica (se as mulheres preferem que primeiro se foda à bruta e só depois com mansidão), mas de perceber que a menção do nome das duas espécies de insetos não é um delírio de alucinado verbal, mas uma estratégia de sentido perfeitamente controlada.

Ainda por cima, ao expandir a citação por via metafórica, ou seja, ao mostrar que o (mau) Poeta manifestará sempre preferência pela amenidade europeia (o Reno, a Noruega) em detrimento da excitação torrencial do Novo Mundo (um Rio qualquer da América do Sul, a Florida), ele acumula, ao subtexto sexual, diversos outros níveis de leitura: estético (a defesa de um determinado tipo de poética, radicalmente diferente da impassibilidade parnasiana), político (a crítica ao colonialismo, ainda que esse não fosse um tópico tão sofisticado como hoje o podemos conceber) e filosófico (a oposição ao conservadorismo epistemológico). Esta junção dos vários níveis da atividade humana no mesmo nó górdio de uma formulação é o garante da sinceridade visceral de Rimbaud e da ausência de limites do seu projeto de espírito.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

No escrínio 56 + Tradução 28

Tradução pessoal do poema "Festas da fome", de A. Rimbaud:


"
........Ana, ó Ana, a minha fome
........Em cima da tua burra foge.

Já não tenho mais paladar
A não ser para terra e pedras.
Sempre que a barriga dá horas,
Comamos ferro, carvões, ar.

Minhas fomes, rodai, pastai
........No farelório das pradarias!
E o veneno alegre aliciai
........Dessas flores que são campainhas;

Comei
Calhaus por um um pobre rachados,
As antigas pedras de igrejas,
Os seixos, de dilúvios nados,
Pães em cínzeos vales deitados!

Minhas fomes, bocados de ar negro;
........É o firmamento sineiro;
- É o estômago que me demove.
........É a má sorte.

Surgiram folhas sobre a terra:
Dou-me ao desfrute de um pomar velho.
Colho no seio de uma fenda
Alfaces de lobo e de cordeiro.

........Ana, ó Ana! a minha fome
........Em cima da tua burra foge.
"


Numa versão aproximada, a expressão idiomática "Faire l'âne pour avoir du son" (literalmente: "fazer-se de burro para ter farelo") era cara a Rabelais, criador de um personagem, o gigante Pantagruel, cuja popularidade sempre se deveu sobretudo ao seu apetite mítico. Não conheço nenhum estudo literário que legitime o que vou defender, mas acho pouco provável que esta expressão satírica (o seu verdadeiro significado é: "fazer-se de tonto para, desse modo, obter vantagens") não tenha sido uma das influências decisivas do poema "Fêtes de la faim".

No meu ensaio "O princípio de desvalorização da transcendência" (publicado aqui), proponho algumas pistas de interpretação deste texto que conservam a ambiguidade generosa (e filosófica) a que ele tem pleno direito. No entanto, o presente post pretende sugerir uma leitura da obra enquanto manifestação velada da homossexualidade.

O sujeito lírico diz que a sua fome fugiu sobre a burra de Ana, uma mulher. Isto pode ser a confissão de um desgosto amoroso heterossexual, claro, mas pode revelar também o desvio da fome viril do poeta para o continente do desejo feminino. O burro é um animal híbrido (como, de uma outra forma, o gay o é) e estéril. Essa esterilidade aparece sinalizada em todo o imaginário do texto, e muito particularmente na evocação do mito grego do dilúvio, que narrava um modo de gestação da vida humana (Deucalião e Pirra atirando pedras para trás das costas) que nada tinha a ver com a cópula heterossexual. Encontram-se no poema todas estas linhas de sentido ancoradas na inacreditável simplicidade das suas formulações: o lento renascer do mundo após uma tristeza diluviana (note-se como a dieta do sujeito evolui das pedras para as frutas sorvadas e as alfaces), uma aprendizagem dos hábitos nutricionais (o poeta tornado burro acaba por entender qual a alimentação adequada ao seu novo estado, após ter errado por entre carvões e ferro) e uma arte poética que descreve as possibilidades de criação de vida que estão disponíveis para o macho (a criação lírica, entendida como arte que revela o desejo através dos sons verbais).

O fazer-se de tonto (que tentei, na minha tradução, evocar através da expressão portuguesa "dar-se ao desfrute") não quer dizer que Rimbaud fosse misógino (pelo contrário!), mas que ele teria consciência de que, para os trâmites culturais da sua época, a sua assunção do desejo por um homem equivaleria a uma exposição ao ridículo. Fá-lo, contudo, para levar a água ao seu moinho (o moinho do amor). A partir daqui, as carnes meias podres da fruta que o poema menciona (na minha tradução, o "pomar velho") não podem ser outras senão as de Verlaine, companheiro sentimental e criativo do autor na época em que "Fêtes de la faim" foi escrito.

Este apoucamento de si mesmo encontra equivalência nas mesquinhices sonoras (um falar por baixo da burra) que a escrita propõe: rimas demasiado fáceis ("Anne, âne"), rimas desafiadoras das regras clássicas da versificação em francês ("blettes", "violette"), a ausência inesperada de uma rima ("déluges"), ironias etimológicas ("liseron" é um diminutivo de "lis", flor-símbolo dos poetas parnasianos que tinham grande sucesso à época), trocadilhos de gosto duvidoso (como muitos comentadores já reconheceram, a onomatopeia sugestiva de sino ou campainha, "dinn", faz lembrar o imperativo do verbo "jantar": "dîne"), paronímias pouco assumidas (tenho a certeza de que as palavras "doucette" e "violette", nomes de plantas, foram escolhidas por se aproximaram dos conceitos de "douceur" e "violence", já que a doçura e a violência são os dois pólos entre os quais se organiza toda a relação sentimental, nomeadamente a dos próprios Rimbaud e Verlaine), etc.

Não encontrando, na língua portuguesa, uma onomatopeia de igual alcance à usada pelo escritor francês, optei por recorrer à expressão "Sempre que a barriga dá horas", capaz de cobrir todo o espaço semântico que a minha hermenêutica levanta. Por outro lado, permiti-me uma pequena liberdade, que passo a descrever. O termo "doucette" é um regionalismo que, em português, pode ser traduzido por "alface-de-cordeiro". A solução encontrada no antepenúltimo verso da tradução pretende sugerir o mesmo efeito bipolar do poema original. Na verdade, só me interessa traduzir se o texto que resulta dessa atividade tiver um poder de sugestão, na língua de chegada, que de algum modo possa competir com aquele que foi originariamente criado na língua de partida.


(O texto original pode ser lido aqui)

domingo, outubro 30, 2011

Cadernos Rimbaldianos 9
















Neste último agosto de muito pouca felicidade privada, confesso que a overdose de leitura do (e sobre o) poeta de Charleville me despertou um estranho mas, em todo o caso, bem estival, interesse pela cerveja. Bebi bastantes minis, daquelas que estavam em promoção no Pingo Doce (isto anda tudo ligado: pingos, pingas, frescuras e azedumes). Nunca antes tinha apreciado esse licor de macho e penso que não terá passado de um subtil amor de verão.

Mário Cesariny traduziu (celebremente) o título de "Une saison en enfer" por "Uma cerveja no inferno" porque um tal de fulano ou sicrano tinha descoberto que "Saison" era uma marca de cerveja popular no contexto (epocal e regional) de Rimbaud. Discordo em grande parte da ousadia do tradutor, pois, mesmo que houvesse alguma traquinice lexical por parte do jovem poeta (e as traquinices são mato na sua escrita), o paradoxo de temporalidade que o título do seu livro pseudo-confessional exprime (uma mera estação na condição eterna de danado) é bastante mais relevante para o seu entendimento do que o indício de boémia que a levedura revela. No entanto, é impossível não se ficar alerta. E já faz todo o sentido que Cesariny traduza "O saisons, ô chateaux! / Quelle âme est sans défauts?" por "Esta cerveja! essa rua! / A miséria que isto sua!". Talvez o leitor possa até ser mais facilmente sugestionado por uma versão sem preocupações sonoras: "Ó cerveja, ó rua das putas! Que alma não tem defeitos?"...

Um pouco ébrio de tudo isto, fiz por vezes uma leitura alquímica da poesia de Rimbaud. O ponto alto desse delírio foi a interpretação, completamente abusiva, do poema "L'éternité" como sendo uma homenagem figurada aos efeitos sublimes da cerveja: o mar que parte com o sol fez-me lembrar (os viciados na intertextualidade podem chegar à alucinação) o raio de sol poente sobre a espuma de cerveja que conclui o soneto "Au Cabaret-Vert, cinq heures du soir", um momento antes de ela ser bebida. De qualquer modo, o autor de "Comédie de la soif" teria com toda a certeza preferido que o lessem como um borracho do que como um místico selvagem.

segunda-feira, setembro 26, 2011

Tradução 27















Tradução pessoal do poema "Vogais" de A. Rimbaud:


"A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
De vós direi um dia as nascenças latentes:
A, veloso corpete de moscas frementes
Que bombinam em torno dos fedor's lobais,

Golfo umbroso; E, canduras de vapor's e tendas,
Tremor's de umbelas, reis brancos, lanças glaciais;
I, púrpuras, escarro em sangue, risos tais
Que o vinho e a ira tornam belos penitentes;

U, ciclos, vibrar sacro dos mar's em verdura,
Paz dos pastos em bichos férteis, paz das rugas
Que a alquimia transmite aos rostos estudiosos;

O, supremo Clarim de fragores estranhos,
Silêncios trespassados por Mundos, por Anjos,
Raio violeta - Ómega -, desses Seus Olhos!"



(Nota: Este poema é uma demonstração da fatalidade arbitrária que preside a todo o jogo de linguagem, mas do ponto de vista da celebração (imagens, possíveis, nexos!) e da ironia (a linguagem comporta, no seu funcionamento intrínseco, uma dimensão de Apocalipse, a sua alquimia engendra sempre uma expectativa imaterial).

Por isso me pareceu necessário manter, nesta tradução, a subtileza do uso de um neologismo como faz Rimbaud. "Bombus" é a palavra latina para "zumbido" e, a partir dela, o poeta inventou o verbo "bombiner" que muito facilmente se adapta à solução que proponho para a língua portuguesa.)



(O texto original pode ser lido aqui)
(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, setembro 08, 2011

Cadernos Rimbaldianos 8

1."Je est un autre" e não "Je es un autre", porque Rimbaud não está a falar consigo mesmo, mas a observar-se como um estranho (como um outro). O desejo de imanência universal implícito neste célebre aforismo deriva da ultrapassagem que o poeta faz do número 2 (da "companhia") para chegar ao número 3 (à "multidão"). Mais do que apenas sentimental, a "reinvenção do amor" de que falava o adolescente tinha uma ambição política.



2. "Une saison en enfer" é um texto sobre o inferno transitório da Terra, sendo este situado no passado pseudo-biográfico do autor. Pelo contrário, as "Illuminations", todas voltadas para um possível futuro da humanidade, estão carregadas de desejo pelo paraíso. Para conseguirmos ler os dois textos (ambos críticos da "reinvenção do amor" sugerida por Cristo), temos de os entender como reconduções do discurso infernal ou do discurso paradisíaco a uma plena aceitação do purgatório. Cair e levantar-se. Levantar-se e cair.

sexta-feira, agosto 05, 2011

No escrínio 55

Comentário ao poema "Oraison du soir" de A. Rimbaud:



Rezar é ser Deus um pouco: quando o real nos parece irredutível, há que tentar desafiar (sobrenaturalmente) a força de destino (sobrenatural) com que ele se nos apresenta. Se Rimbaud se descreve como um "Anjo no barbeiro", não é só porque na infância do seu rosto estejam já a assomar os vestígios hormonais que lhe darão a marca da virilidade (ou porque as suas asas de nómada estejam a ser depenadas), mas também por causa da queda luciferina que, e esta é a verdadeira blasfémia do texto, sempre resulta da hybris da oração.

O que podemos pedir a Deus? O poeta não pede curas milagrosas, fortunas ou a salvação da alma. É bastante óbvio que a prece, desesperadíssima, tem como objectivo a libertação do autor dos seus próprios sonhos. Já muitas vezes se disse que a cabala fonética permite que o nome Rimbaud seja entendido como reins beaux ("rins belos"), o que faz com que, neste caso mais do que em qualquer outro, mijar equivalha a "mijar-se para fora de si mesmo".

Com todo o cuidado que sempre merece a escatologia, o poeta tenta identificar qual o melhor escorrimento que o possa libertar dos sonhos. O fumo criador (de velas de navio) que sai do seu cachimbo? A seiva que se derrama dos samos das árvores? A urina é a resposta de tom justo. Mijando com prazer (com doçura) sobre os heliotropos, ele tenta livrar-se de toda a esperança que engoliu. E como os heliotropos respondem vergando-se sob o peso do lírico líquido, exactamente como fariam se o sol se estivesse a pôr sobre a promessa de noite, torna-se claro que é o próprio autor quem, armado em divindade, está a criar o fim da tarde: está a tentar envelhecer a todo o custo.

Só que há um problema. Velames de fumo, ouro que jorra das árvores, urina: tudo isso é apenas jogo figurativo. São metáforas, tropos, mais precisamente "hélio-tropos". A verdade é que, pela manhã, as plantas que não estiverem danificadas voltarão a erguer-se com a ascensão do astro solar. O jovem pode berrar o que quiser: ninguém se consegue, realmente, livrar dos seus sonhos.


(Imagem de Anthony Ralph)

quinta-feira, agosto 04, 2011

Tradução 26

Tradução pessoal do poema "Oração de fim de tarde", de A. Rimbaud:


"Qual Anjo no barbeiro, sentado é que eu vivo:
Cerveja em copo cheio de estrias gritantes,

Até ao pescoço arqueado o hipogástrio, um cachimbo
Nos dentes cobre os céus de impalpáveis velames.


Como excrementos quentes de um velho pombal,

Mil Sonhos em mim fazem azias amenas:

Por instantes o meu coração terno é um samo

Que ensanguenta o ouro jovem e escuro das perdas.


Mal engulo os meus sonhos com aplicação,

Tendo bebido uns trinta ou quarenta canecos,

É a hora do retiro, da acre dejecção:


Doce como o Senhor da trave e dos argueiros,

Mijo p'ra os céus castanhos, em toda a extenção,
E os grandes heliotropos respondem ordeiros."




No décimo segundo verso deste soneto, Rimbaud escreveu "Doce como o Senhor do cedro e dos hissopos" (tradução literal). Extraída do imaginário bíblico (Reis, Levítico, Êxodo), a expressão "depuis le cèdre jusqu'à l'hysope" entrou no uso da língua francesa com o sentido de "do maior ao menor". De facto, nesse verso Rimbaud define Deus como sendo o Senhor de tudo, desde aquilo que é muito grande até àquilo que é muito pequeno.

Não existe uma expressão idiomática semelhante em português. Mas, se eu cedesse à tradução literal, o passo do texto iria ser virtualmente incompreensível para um leitor da minha língua. Ciente das dificuldades inerentes ao acto de supor analogias, passaram-me pela cabeça várias hipóteses de solução bem delirantes e cómicas ("Senhor do oito e do oitenta", "Senhor da vinha e seu contrário", "Senhor da chaga e da mezinha"), mas acabei por optar por um dito que também tem origem bíblica (no Evangelho segundo S. Mateus): "ver um argueiro nos olhos dos outros e não ver uma trave nos seus". Segundo A. Nogueira Santos, o sentido é: "reparar nas pequenas imperfeições ou falhas dos outros e não se aperceber das próprias, mesmo quando evidentes".

Para alem de conservar o sentido do original rimbaldiano, a minha tradução acrescenta algum conteúdo, o que só pode ser polémico. No entanto, esse acrescento não é mais do que a minha leitura do poema, pois este é um soneto em que Rimbaud está a dar, de si mesmo, uma imagem muito dura e acusadora (está a observar-se, fiel a uma das consequências da sua célebre divisa: "Je est un autre").

Não me parece que a minha leitura seja redutora (é, aliás, quase redundante...), e agrada-me que o texto traduzido tenha o vigor próprio da língua de chegada. De qualquer modo, sempre defendi que a tradução é o terreno por excelência da polémica e estou pronto para enfrentar quaisquer feras. Reivindico apenas que isto é uma tradução, e não uma versão, ou transcriação.


(Este trabalho baseou-se na cópia que Paul Verlaine fez do texto. Não se encontra tal versão na internet... Neste site, pode ser lida a variação mais conhecida, e estão especificadas as diferenças entre as duas.)

sábado, julho 30, 2011

Esboço de uma teoria da linguagem

Bertrand Russell conseguiu provar que a função de uma palavra não se resume à sua capacidade de referir um ente que existe no mundo. A filosofia da linguagem foi assim cindida em duas vias que parecem mais conflituosas do que conciliáveis: a palavra entendida como instrumento de referência, a palavra entendida como instrumento de significação.

Basta observar uma criança quando esta começa a apropriar-se dum aparelho linguístico para se notar que a questão da referencialidade não pode ser elidida. A criança aprende a falar atribuindo, precisamente, um conjunto rígido de sons a um objecto concreto que lhe despertou curiosidade ou afecto ("papá", "mamã", "ão ão", "papa", etc.). No entanto, essa curiosidade e esse afecto são desde logo modificadores de qualquer pretensão de neutralidade associável à linguagem: no seu intelecto aparentemente rudimentar, a criança já está a estabelecer sentidos ao conjunto de objectos que consegue nomear. Em breve, começará a fazer pedidos ("abre!", "anda!", "pão!", etc.) e a construir o seu discurso sobre os seres todos que está a descobrir.

Penso que seríamos mais rigorosos se formulássemos o problema do seguinte modo: uma palavra refere sempre um discurso sobre um ente que existe no mundo (sendo importante sublinhar que a própria linguagem faz parte do mundo, o que torna possível a nomeação de seres que só nela podem existir). No dicionário, esse discurso torna-se definição, porque o dicionário é um instrumento ético que tem de conter os limites da discursividade num denominador comum que permita que uma língua/linguagem seja factor de comunicação. Mas o fenómeno é o mesmo: uma palavra, por si só, não tem valor nenhum, até o dicionário precisa de construir um mini-discurso para ensinar a alguém aquilo a que uma palavra se refere (e sabemos como esses discursos são incompletos e polémicos).

O que caracteriza a linguagem não é, portanto, a faculdade de aludir a x ou y ser da realidade, mas a possibilidade de pensar (e repensar) esse ser x ou y. A incoincidência discurso-objecto é por isso um dado essencial, o que quer dizer que o Crátilo mencionado no diálogo homónimo de Platão estava completamente errado quando pensava que cada ser tinha (ou deveria ter) o nome correcto que lhe pertencia por natureza. Essa assumpção (que terá forçado os filósofos a subjugarem o pensamento sobre a linguagem aos ditames da lógica) pressuporia um mundo estável, indiscutível, no limite, fascista.

Não, o desajuste, a atribuição convencional, o acaso histórico, o facto dos nomes serem não-correctos, tudo isso é que permite a emancipação do homem nas questões que estão ligadas à sua especificidade antropológica (obviamente que o homem não pode impedir que H2O seja "água", mas pode escrever um conjunto de Direitos Fundamentais para a sua espécie que nenhuma lógica estrita poderia conceber). Talvez o domínio para-matemático a aplicar à linguística seja a probabilidade, e não a lógica. No mesmo texto platónico, Sócrates acaba por se aperceber de que a linguagem é sobretudo um fenómeno de devir (se isso não lhe agradava muito, agrada-me a mim).

Os nomes não foram dados por Deus. No seu magnífico soneto "Voyelles", Rimbaud parodia a figura do "legislador dos nomes" ao propor um génesis linguístico tendencialmente gratuito. A razão pela qual certos sons (ou certas marcas visuais) adquiriram um sentido mais ou menos concreto é tão antiga, tão aleatória, tão não-legislável, que o cratilismo só pode ser aceite como fantasia literária. É lógico que uma língua traz, em si, as marcas do mundo antiquíssimo onde ela começou a ser gerada (por exemplo, a superioridade social do homem sobre a mulher). Mas a solução não passa pela superficialidade do neologismo (reactivando a rigidez referencial), como fez Lula da Silva ao cunhar o termo "Presidenta". O que é vivo na linguagem, o que é político na linguagem, é todo o jogo de incoincidências que ela consegue gerar através do discurso (formal, conceptual). Foi isso que não perceberam os intérpretes de "Voyelles", quando tentaram atribuir um sentido rígido a um texto que é, sobretudo, um parto (como o início de "Après le déluge").

Mesmo que estejamos apenas reunidos em torno de umas imperiais a dizer meia dúzia de disparates, estamos a tentar construir a possibilidade de relações afectivas (o silêncio que se estabelece entre velhos amantes não deixa de ser uma gestão discursiva do verbo: escolher o que se diz, o que se não diz, o que se diz literalmente, o que se diz com o olhar, etc.). Defendem alguns teóricos que a condição de verdade de uma frase é o conjunto de mundos possíveis nos quais a frase é verdadeira. A possibilidade é, isso sim, a marca d'água da linguagem. Permite tanto formular hipóteses científicas como juras de amor eterno, permite encontrar o conceito de Democracia ou sonhar o Paraíso. Naturalmente, é pela linguagem que nos enganamos, a mentira (consciente ou não) existe em abundância. Mas é só porque nos podemos enganar que podemos também acertar.

O que nos diz a lenda linguística da Torre de Babel? O homem pode construir, não pode é chegar aos céus. Possibilidade e impotência. Discurso e défice de omnisciência. Força ilocucionária e erro. A linguagem é o nosso maior escudo contra o totalitarismo.

sexta-feira, julho 22, 2011

Confissão 31 + Cadernos Rimbaldianos 7

Exactamente como Arthur Rimbaud, eu posso dizer que tive uma infância naturalmente feliz e uma juventude miticamente penosa. Todavia, o poeta francês construiu o seu sofrimento em excesso de vida (quando deixou de escrever, aos vinte anos, parecia ter experimentado uma biografia de muitas décadas), enquanto eu passei a pouca seriedade dos anos em que não se é sério na clausura da minha casa, como Emily Dickinson. Penso que, fascínio crítico à parte, esta será uma das razões subterrâneas pelas quais elegi o autor de "Une saison en enfer" como interlocutor privilegiado (e em torno da sua obra gravitarei certamente durante alguns anos). À aporia faulkneriana que hesita entre a dor e o nada, eu acrescentaria aquela outra que não sabe o que pedir ao génio que sai da lâmpada-do-desejo-único: a felicidade ou a juventude?

sexta-feira, junho 24, 2011

Tradução 25

Tradução pessoal do poema "Na Taberna-Verde, cinco horas da tarde", de A. Rimbaud:



Vinha há já oito dias a romper as botas
Nas pedras do caminho. Charleroi, por fim.
- Na Taberna-Verde: eu mandei vir umas tostas
Com manteiga e também fiambre um pouco aquecido.

Rei-criança, estiquei as pernas sob a mesa
Verde: então pus-me a olhar os motivos naïfs
De uma tapeçaria. - E foi uma beleza,
Quando a moça mamuda e de olhos atrevidos,

- Não há-de esta ter medo de dar um linguado! -
Risonha, trouxe as tostas que eu tinha pensado
E fiambre morno em prato como el' colorido,

Róseo fiambre de aroma dado por um dente
De alho - e me enche a caneca enorme, com cerveja
Dourada por um raio de sol já antigo.



Para construir esta minha tradução, consultei três propostas prévias: a do brasileiro Ivo Barroso (que começa logo por pecar ao situar a acção do poema às cinco horas da manhã, aurora que torna inexplicável o "raio de sol em atraso" do último verso), a passagem para o inglês por Martin Sorrell (que deu origem a um excelente texto, mas tão livre, que é difícil encontrar nele a escrita de Rimbaud: tratar-se-á mais exactamente de uma variação) e a versão de Maria Gabriela Llansol, indubitavelmente a melhor das três.

Sobretudo, Llansol abriu uma clarividente brecha de leitura ao ousar traduzir "Bienheureux" por "Sentido-me rei". A escritora percebeu a importância do ponto de chegada do sujeito lírico ser uma cidade chamada "Charleroi". A minha proposta, ao procurar uma tradução dos valores métricos e rimáticos que não interessou à autora de "Lisboaleipzig", tenta levar essa sugestão um pouco mais além.

Rimbaud fugiu de Charleville (cidade francesa baptizada segundo o nome de um príncipe) para Charleroi (cidade belga baptizada segundo o nome de um rei, por acaso, um rei-criança). Esta promoção, inversamente proporcional às situações políticas de então nos dois países, provoca uma estranha rima com o texto "Royauté", das "Illuminations". Numa continuidade entre o lírico e o político, Rimbaud (guerreiro em momento de repouso, Ulisses que já só tem casa num local de passagem, como ele assume em "Ma Bohème"), reclama a sua própria realeza, que aqui se resume ao facto de a comida sonhada ser a comida de facto servida. E assim, a régia forma do soneto serve para falar de mamas grandes, fiambre morno, motivos naïfs, prerrogativas da coroa que todo o homem comum pode exigir independentemente (ou por causa) do seu nascimento. Note-se como a cesura mais estranha do texto é aquela que, no terceiro verso, corresponde à palavra "eu"...

(O poema original pode ser lido aqui)

sábado, maio 07, 2011

No escrínio 54 + Tradução 24

Tradução pessoal do poema "A minha Boémia (Fantasia)" de Rimbaud:



Eu partia, de punhos nos bolsos rasgados;
Também o meu casaco se tornava ideal;
Ó Musa!, neste mundo eu seguia-te, leal;
Xi! que esplêndidos foram meus amor's sonhados!

Só tinha um par de calças com um grande furo.
- Pol'garzinho a sonhar, espalhava na estrada
Rimas. A Ursa Maior era a minha pousada.
- Faziam as estrelas um doce frufru

Que eu 'scutava sentado numa qualquer via,
Nas noites de um feliz Setembro em que sentia
Na minha testa o orvalho: um vinho de tesão;

Onde, a rimar em plenos negrumes fantásticos,
Tal como se de lira, eu puxava os elásticos
Do sapato ferido, um pé no coração!



Também em francês, a palavra "idéal" tem o duplo sentido de perfeito e de imaginário. Ora, o facto de a perfeição ser uma prerrogativa exclusiva da imaginação faz com que este mundo real em que vivemos ("sous le ciel"), tenha forçosamente de funcionar de maneira invertida (o casaco do sujeito lírico é ideal porque está roto).

Não foi por mero atavismo e/ou ambição carreirista que Rimbaud recorreu à forma pré-fabricada e por demais testada do soneto para falar da sua vadiagem. Precisamente, ele quer sublinhar a tensão entre uma forma perfeita (como perfeita é a constelação da Ursa Maior que lhe serve de farol) e a pulsão da fantasia (que é um género que se define pela desobediência a esquemas formais apriorísticos). Note-se como a palavra rimas surge num momento isento de qualquer homofonia, ao mesmo tempo que se cria a primeira inadequação textual entre estrutura métrica e estrutura sintáctica.

É um soneto, de facto, mas do qual Yves Bonnefoy disse que remetia para a categoria da mera literatura todos os poemas sobre deambulação escritos antes dele. Essa frescura é evidente, mas o poeta não nega que esteja a rimar em plenos negrumes fantásticos... Na Bélgica francófona, a constelação Ursa Maior é conhecida como "char de Petit Poucet" (carro de Polegarzinho). A partir deste dado, as contradições do texto tornam-se palpáveis: por via de uma metáfora, o vadio elege como pousada uma constelação definida pelo movimento; ora, na verdade, as estrelas caracterizam-se pela fixidez, o que torna estranho que o nómada as escolha como parceiras para a sua escrita figurada; sabemos também que o Polegarzinho da lenda espalhava pedras e migalhas pelo chão, não porque quisesse partir sem destino, mas para poder regressar à casa dos pais que o haviam abandonado... E que raio de boémia é esta, tão plena de solidão?

O paradoxal sincretismo de imaginários que o poema explora (alusões ao classicismo, à opereta, aos contos populares, a regionalismos linguísticos, à fisiologia sexual) e o que hoje sabemos sobre a sua datação (correspondente à primeira fuga de casa do poeta para a Bélgica, país que estava numa situação de maior liberdade política do que a sua França natal) levam-nos a crer que o que Rimbaud tenta formular, em "Ma Bohème", é a ideia para sempre actual de que, se não nos mexermos, as coisas saem dos seus lugares.


(Nota: traduzir "vin de vigueur" por vinho de tesão pode parecer uma ousadia excessiva. No entanto, o poema está cheio de sugestões eróticas, desde o onanista punho dentro do bolso até à elasticidade dos cordões dos sapatos, evocativa da elasticidade do sexo masculino, e a própria expressão "gouttes de rosée" era muitas vezes usada na época em que o texto foi escrito para aludir ao sémen.)

(O texto original pode ser lido aqui)

sábado, abril 23, 2011

Tradução 23

Poema "Os deslumbrados" de Arthur Rimbaud, traduzido por mim:


Negros na neve e na neblina,
Quando o respiradouro se ilumina,
.....Os seus cus lado a lado,

De joelhos, cinco miúdos - abjecção! -
Observam o Padeiro em confecção
.....Do denso pão dourado.

E vêem que o seu braço branco mexe
Com nervo a massa parda, e que a mete
.....Numa fenda luzidia;

Ouvem o apetitoso pão cozer.
Canta o Padeiro, com sorriso cheio,
.....Uma velha melodia.

Estão bem aninhados, ninguém bule,
No calor do respiradouro rubro
.....Que é como um seio bom.

Quando, para um jantar à meia-noite,
Com forma de brioche,
.....Se faz sair o pão,

E, por baixo das vigas afumadas,
Se ouvem cantar as côdeas perfumadas
.....E ainda as cegarregas,

Quando enfim a fenda quente arfa com vida,
Eles ficam com a alma possuída
.....Sob as rotas farpelas,

E sentem-se viver com tanta gala,
Estes pobres Jesus cheios de geada,
.....Que lá 'stão eles, todos,

Colando ao gradeamento as focinheiras
Cor-de-rosa, rosnando baboseiras
.....Pelos rombos,

Uns animais que rezam orações
Tão inclinados sobre esses clarões
.....Do céu reaberto,

Que as suas calças rasgam
E deixam as camisas ao acaso
.....Do ar de inverno.



Este é um dos poucos textos pelos quais Rimbaud parece ter mantido um certo afecto contínuo ao longo da sua muito breve carreira como poeta. Traduzi a última versão que se conhece, aquela da qual o seu companheiro Verlaine (que muito gostava do poema) fez ele próprio uma cópia manuscrita. Optei por essa versão na medida em que se trata, provavelmente, da manifestação da última vontade do autor sobre o texto, mas também porque aqui, como disse o académico Steve Murphy, se faz uma alusão distante ao famoso dito atribuído à rainha Marie Antoinette sobre o consumo de pão pelas esfomeadas classes populares. Para além disso, não conheço nenhuma tradução deste texto para português de Portugal disponível neste momento (apesar de existir uma excelente proposta, no catálogo da Relógio d'Água, feita a partir da primeira versão por Gaëtan Martins de Oliveira).

Apesar dos seus desejos iniciais, Rimbaud nunca terá sido verdadeiramente um Parnasiano, e por isso não me senti compelido a obedecer ao rigor métrico do texto. Pelo contrário, num poema onde tudo canta, e no qual até se ouve uma velha melodia, já me parece fazer algum sentido propor uma tradução rimada, até porque as escolhas do poeta neste domínio manifestam toda a aparência de terem sido profundamente pensadas.

O original pode ser lido aqui.

quarta-feira, abril 13, 2011

Cadernos Rimbaldianos 6

Uma das consequências do célebre soneto "Voyelles", no qual Rimbaud atribui, a cada vogal do abecedário, a evidência de uma cor (inspirado na teoria sinestésica de outro soneto célebre, o "Correspondances" de Baudelaire), é que, a partir desse pressuposto, passa a ser legítimo defender que, às consoantes, cabe o papel de realizarem os contornos das imagens construídas pela linguagem.


(Nota: por uma questão de rigor lúdico, cabe aqui propor que o amarelo, cor primária que não aparece no prisma rimbaldiano, pode ser provavelmente encontrado no w, enquanto decomposição do u-verde).

domingo, abril 10, 2011

Cadernos Rimbaldianos 5

1. Há um grande consenso académico quanto à singularidade temporal do título do único livro que Rimbaud esteve prestes a publicar em vida por sua própria vontade, "Une saison en enfer" (livro que só não foi distribuído porque o poeta não teve dinheiro para pagar à editora): se a definição de Inferno tem de passar pelo poder de evidência da eternidade do sofrimento que nele se oferece (o que valeu belas páginas a Joyce no seu "Portrait of the artist as a young man"), Rimbaud, que era um campeão da imanência, vem caracterizar o seu inferno privado como uma intensidade temporária (o que constitui uma contradição).

Ora, como diz Yves Bonnefoy, no pensamento do autor das "Illuminations" a lucidez é sempre indissociável de uma vocação para a esperança. Por muito terrível que seja a saison infernal (e Rimbaud viveu as suas decepções com a fúria própria da adolescência), ela não é insuperável. O aforismo que, no texto do próprio livro, dá a resposta simétrica ao problema colocado no seu título, é o célebre "Il faut être absolument moderne". A modernidade pressupõe a relatividade das estruturas de pensamento e acção sobre as quais triunfa através de processos sempre novos de emancipação. Nada será menos absoluto, então, do que a modernidade. No entanto, para que o inferno não se instale, precisamente para que ele não se torne absoluto, é preciso um constante desprezo pelo status quo, é preciso desafiar todos os pontos de chegada, é preciso ser absolutamente moderno.

Tenho quase a certeza de que, se Rimbaud tivesse escrito poesia no fim da sua vida (ele que termina "Une saison en enfer" fascinado por uma paciência que visivelmente não possuía), teria confessado o falhanço de não sei quantos mais delírios proporcionados pelo continente africano. Falhanços, sim, mas também a luta pela sua superação, como um bravo paysan perante a realidade rugosa.



2. Os estudos recentes sobre a vida rimbaldiana não sabem mais sobre a sua putativa actividade heterossexual do que a menção que Verlaine faz, numa carta a uma amigo seu, à mania que o jovem tinha de estourar dinheiro com mulheres (referência provável a prostitutas). Em compensação, é quase impossível negar a índole erótica do seu relacionamento com o autor de "Poèmes saturniens": convenhamos que o facto de Rimbaud e Verlaine terem escrito em conjunto um "(...) sonnet du Trou du Cul" não ajuda a dissipar as suspeitas...

Se havia, de facto, um bloqueio edipiano à interacção sexual do poeta com o sexo oposto, julgo que isso não seria de modo algum aceite por si mesmo de forma pacífica. Mesmo que o século XIX não permitisse a sinceridade com que hoje enfrentamos as diversas orientações sexuais, parece-me difícil que um autor que tanto lutou por exprimir nos seus textos uma verdade bem mais profunda do que aquela permitida pelo lirismo convencional (numa espécie de antecipação da psicanálise) tenha cometido o mesmo logro de Proust quando transformou Albert em Albertine... Textos como "Au Cabaret-Vert (...)" ou "Enfance" apresentam-se tão genuínos na sua celebração do feminino, que só podemos supor que Rimbaud terá tido grande sofrimento psicológico por não ter conseguido construir uma relação sentimental heterossexual.

Rimbaud foi um "caso", como diria José Régio (e a poesia é a arte por excelência dos "casos" psíquicos...). Aliás, por muito que os modernos se tenham esforçado por abolir a dimensão mais imediatamente subjectiva da sua poesia, a verdade é que muitas vezes a sua singularidade como homens se impôs com um estardalhaço que nenhum romântico confessional poderia sequer conceber: basta lembrar o "caso" Ezra Pound. No entanto, parece-me que não há, no corpo poético rimbaldiano, uma preocupação directa em polemizar em torno das suas eventuais dificuldade sexuais, o que faz com que uma excessiva obsessão por esse tópico da sua biografia-obra possa degenerar em curiosidade mundana. Mesmo que as preocupações políticas de Rimbaud possam ter uma componente de sublimação da sua frustração nesse campo, a verdade é que, de tudo isto, o que podemos retirar de mais seguro é o evidente feminismo pelo qual esta literatura militou. O bravo soneto "Vénus anadyomène" não é a descrição de uma repulsa pelo corpo da mulher, como já se defendeu, mas a denúncia do aviltamento que esta pode sofrer no seio dos valores da sociedade ocidental. O que Rimbaud conseguiu dizer (e dizer é bem difícil) é que a mulher voluntária e orgulhosamente submetida ao cárcere burguês nunca poderia ter sido sua companheira.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Cadernos Rimbaldianos 4

Rimbaud terá sido um dos primeiros poetas a perceber o justo alcance funcional da polissemia (com ilustres percursores como William Blake). Os seus textos não são ilegíveis, não podem ser interpretados de qualquer maneira (o que aliás equivaleria a sentenciá-los à ilegibilidade...), não são literais, nem podem ser dissecados com a ambição de uma interpretação definitiva.

As "Illuminations" são um catálogo de procedimentos conceptuais de enorme repercussão semântica, textos onde o poeta apresenta de forma rigorosíssima as coordenadas do problema que quer debater, sem contudo apresentar de forma directa um ponto de vista limitado que nunca poderia abranger a complexidade de cada um desses problemas. Não se trata de uma estratégia de não-compromisso, mas a intuição de que é preciso exigir tudo à linguagem para que ela possa produzir um mínimo de honestidade discursiva.

Por exemplo, em "Démocratie", Rimbaud mostra como o sistema político que intitula o poema em prosa se define pela possibilidade (essencial e trágica ao mesmo tempo) de aqueles que usufruem da sua liberdade debitarem discursos profundamente anti-democráticos. Claro que o escritor não era um João Pereira Coutinho do século XIX, sinistramente defendendo a liberdade de se odiar homossexuais, negros ou estrangeiros (liberdade essa que não pode estar em causa, note-se), porque o conjunto de textos que compõem a sua obra são suficientemente explícitos quanto ao elevado grau de exigência utópica que o levava às mais desesperadas estratégias discursivas de irrisão.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Notas (preliminares) sobre tradução

Embora ainda não tenha lido as grandes obras de referência que reflectem sobre o trabalho do tradutor (Steiner, Eco, Ricoeur, etc.), a minha (ainda pequena) experiência nesse campo já me deixa entrever algumas tomadas de posição teórica que de forma mais ou menos consciente vão norteando o meu fazer. Não sou, de resto, favorável à ideia de que só se deve fazer depois de pensar, antes defendo que fazer e pensar devem ser contemporâneos na sua mútua iluminação.

A primeira evidência que se me impõe é a imperfeição insanável de todo o esforço de tradução. Alguns autores confessam que, se muito dificilmente aceitariam rescrever a sua própria obra, estão sempre dispostos a tentar uma nova versão de um texto que traduziram. De facto, ainda que seja por vezes possível fazer um texto com o valor da jóia (dureza, valor, coerência interna), o mesmo estado de graça nunca recai sobre uma tradução, não porque esta funcione como uma inevitável degenerescência do texto original, mas porque implica um conjunto de opções demasiado arriscadas e polémicas que lhe impedem a possibilidade de uma sedução universal. É preciso que o tradutor esteja preparado para falhar, e para falhar rotundamente. A humildade é a palavra de ordem em tal labor.

Dito isto, postulo que todo o texto é traduzível (isto é uma loucura, claro, mas a esperança racional é sempre uma loucura). O que não quer dizer que haja interesse em traduzir todos os textos. Pedro Tamen já defendeu que, por exemplo, uma tradução do "Finnegans Wake" de James Joyce é francamente desaconselhável. Aliás, neste caso, seria lícito perguntar qual é exactamente a língua do texto de origem... O livro do autor irlandês talvez seja uma babel que superou o próprio conceito de babel.

Penso, no entanto, que, pelo menos de um ponto de vista teórico, a riqueza semântica integral de um texto pode ser invariavelmente transposta para um outro texto numa língua diferente. Não pode é ser reproduzida da mesma maneira. Um exemplo: na minha versão do poema "Ode to concrete" de Joseph Brodsky, optei por dar ao texto português o título "Ode ao concreto" (ao conceito abstracto de concreto, passe o paradoxo), e mantive no corpo do poema a referência imediata do discurso do autor que é, claro, o cimento. Embora no português de Portugal não haja uma palavra que reúna, ambiguamente, esses dois significados no mesmo significante, a riqueza semântica do enunciado de Brodsky pôde, julgo eu, ser mantida.

Se me parece claro que o tradutor deve esgotar todos os seus esforços para transpor a plenitude semântica do texto no qual trabalha (para isso é necessário estar atento à investigação académica), as questões formais merecem talvez outro tipo de distância. O poema "Mémoire", de Rimbaud, foi muito relevante para a sua época enquanto estratégia de demolição do verso alexandrino a partir do seu interior, mas fará algum sentido "reencenar" esse golpe de rins para o leitor do século XXI, habituado que este está a uma total arbitrariedade métrica? Será legítimo fazer corresponder, à modalidade dialectal em que está escrito um texto, um dialecto da cultura que o vai receber, quando não há qualquer equiparação possível entre as duas culturas?

Não quero com isto dizer que privilegio traduções meramente semânticas. Muito pelo contrário. Penso é que o tradutor deve escolher com cautela quais são as dimensões formais que podem e devem ser disponibilizadas para o leitor a quem se dirige. Se a tradução de um soneto de Mallarmé deverá certamente pautar-se por uma atenção parnasiana à perfeição formal (a reflexão sobre a Forma, de resto, é um dos Conteúdos principais desse autor francês), não me parece tão necessário construir sonetos ortodoxos a partir dos textos que, em torno dessa forma, Shakespeare escreveu (até porque a métrica do inglês e a do português são algo incompatíveis). Shakespeare escreveu a partir de um molde cuja autoridade estética é francamente questionável para o leitor contemporâneo. Se um certo trabalho de regularidade rítmica e rimática poderá fazer parte do prazer investido no soneto traduzido, isso não deve levar a soluções artificiais.

De resto, o tradutor deve escolher se pretende traduzir o soneto shakespeariano de acordo com o português da época em que este foi escrito, ou se prefere tomar o leitor da sua própria época como destinatário. Sou completamente favorável a esta segunda opção (até porque a primeira não me parece estar ao alcance honesto de ninguém). Não se trata de pôr personagens elisabetanos a exprimirem-se com linguagem de rappers, claro, mas de procurar um texto que seja válido dentro da expressividade potencial do português a que o tradutor, na gestão do seu quotidiano linguístico, tem acesso.

Por fim, postulo que o texto traduzido deve ser um excelente texto na língua portuguesa. O tradutor é também um escritor. Apesar de isto parecer uma evidência, este é talvez o maior defeito com que por vezes o leitor se depara em alguns trabalhos: a mediocridade especificamente literária da tradução. Nunca averiguei qual o grau de rigor da versão que Álvaro Cunhal fez de "O Rei Lear" (se bem que me parece um pouco constrangida pelo pudor), mas a absoluta delícia oral do seu português dão ao texto a carta de alforria necessária para uma provável montagem em cena.

Acima de tudo, o tradutor é um ensaísta oblíquo. Humildade não significa ausência de ideologia. Não tenhamos ilusões sobre a invisibilidade do trabalho do tradutor (aliás, neste país onde ninguém quer aparecer, não há falta de convidados para programas televisivos de culinária). Se a grandeza criadora pertence obviamente ao autor original, o tradutor tem que investir o seu texto da sua concepção de literatura, da sua concepção de escrita, da sua concepção de língua portuguesa, da sua concepção de tradução e do seu entendimento do autor que está disponibilizar. Brancos são os votos para a Presidência da República.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Ética do comentador

Já mencionei, há uns posts atrás, que estava a ler o livro "Stratégies de Rimbaud", um conjunto de ensaios (de assunto evidente) da autoria de Steve Murphy, professor universitário francófono. Devo dizer que é uma leitura que me está a dar um gozo infinito (confesso que preferiria passar o resto da vida a ler ensaios sobre poesia do que a ler romances). Para além disso, a competência do autor é absolutamente notável. Trata-se, provavelmente, da mais intensa estratégia de close reading a que já tive acesso (o que só clarificará a triste pobreza das minhas leituras, claro).

No entanto, nenhuma erudição me assusta o suficiente para me abafar o sentido crítico. Passo a explicar. O artigo central do livro é uma análise do (excelente) poema "Mémoire", mais de cem páginas de investigação obsessiva sobre uns míseros quarenta versos. Algumas das intuições propostas têm, francamente, uma utilidade inesgotável. Por exemplo, na sua leitura dos versos "Elle / sombre, ayant le Ciel bleu pour ciel-de-lit, appelle / pour rideaux l'ombre de la colline et de l'arche" (tradução em baixo), Murphy defende que Rimbaud recorre ao discurso indirecto livre (ou seja, a voz de uma personagem imiscui-se, sem que isso seja directamente assumido, na voz do narrador) para mostrar a psicologia feminina do rio (que sonha uma felicidade doméstica). Não só essa tese adquire de imediato o peso de uma evidência interpretativa (legitimando o tipo de imagens atípicas e algo estereotipadas usadas por Rimbaud neste passo), como vai com certeza ao encontro das intenções perfeitamente conscientes e calculadas do poeta. O comentador fez, aqui, serviço público.

Noutro momento do seu ensaio, Murphy propõe que, depois do escritor comparar os vestidos verdes de umas meninas espectrais a um conjunto de salgueiros, os pássaros que se desprendem dessa ilusão figurada voam com o mesmo tipo de frustração que terá dispersado os pássaros que tomaram o trompe-l'oeil das uvas do pintor Zeuxis por uvas verdadeiras. Eis um momento em que o ensaio se torna um poema. Se a imagem de Rimbaud é potente, o seu prolongamento na imaginação do ensaísta adquire uma espécie de paroxismo expressivo. Mas a verdade é que, se a intuição não é, em si mesma, um erro de coerência na leitura de "Mémoire", nada no texto a parece legitimar. Se, em vez de salgueiros, os vestidos fossem comparados a videiras, ou se a palavra "trompés" estivesse associada a estas aves polémicas, a opinião de Murphy seria um achado científico. Assim sendo, é uma liberdade que aproveita mais à vaidade do comentador do que à justiça do comentado.

Li, uma vez, que o mundo estava tão velho que já não se escreviam comentários sobre os textos, mas comentários aos comentários sobre os textos... Mas o facto de o mundo ser um caos, isso não impede que não continuemos a pugnar por nele engendrarmos a nossa quota-parte de diamantes (falo de dureza, valor, coerência interna). Quero com isto dizer que não estou a comentar o comentário, mas a defender uma ética do comentário: pois postulo que só devemos ler num texto aquilo que ele nos oferece a ler (o que inclui as eventuais remissões intertextuais que ele prodigalize ou a cultura de lugares comuns da época em que ele foi escrito). De facto, Rimbaud podia muito bem ter pensado nos pássaros da lenda de Zeuxis. Mas se o pensou, não o escreveu, nem da maneira mais oblíqua possível. Assim sendo, nenhum leitor será auxiliado pelo ensaísta quando ele toma a sua liberdade (note-se que o objectivo não é pensar a partir do texto, mas simplesmente lê-lo, adivinhar as intenções do autor). Pelo contrário, o leitor pode até ser confundido, e induzido a entrar em delírios hermenêuticos noutras aventuras literárias por que decida passar. Como me parece que a utilidade do pensamento é incitar o seu receptor a continuar a pensar, talvez a função do leitor avalizado seja também a de incitar o seu leitor a ser melhor leitor. Nada mais.


(Tradução de Maria Gabriela Llansol: "Ela / tomba, tendo por dossel o Céu azul, chama, / para cortinas, a sombra da arca e da colina." - Outras das utilidades imensas do ensaio académico é o manancial de informação que ele fornece à actividade do tradutor. Tivesse Llansol, minha escritora tão cara, lido o texto de Murphy, e teria percebido que a palavra "arche", neste caso, se refere a um arco de ponte ou aqueduto por baixo do qual o rio passa, e não a uma putativa arca que só vem trazer confusão semântica à leitura de um poema que não prima, como é normal em Rimbaud, pela transparência imediata.)


Imagem retirada daqui

sábado, janeiro 08, 2011

Crónica da Universidade

A minha experiência universitária resume-se a uma licenciatura no falhanço. Excelente aluno na área das Humanidades, fui-me encaminhado para o Curso de Direito na Universidade Católica do Porto, onde confirmei o meu total desinteresse pelas profissões sisudas, o meu agnosticismo de estimação, e uma saudável alergia aos ácaros da alta roda conservadora. Alcancei uma única nota memorável, um dezoito, na disciplina de Economia, porventura o ramo de todo o saber que menos me interessa. De resto, saí da aventura académica com depressão, menos inteligência e já outra profissão.

Talvez por causa disso, ou talvez não, a verdade é que acabei por formar uma imagem fantasiosa do que seria uma verdadeira vida académica. Assim como gostaria de ter escrito um livro intitulado "InterRail e outras coisas que não fiz" (especialmente dada a frustração heróica do decassílabo que o estrutura), poderia com toda a facilidade dedicar-me a um projecto "Entre Hogwarts e Salamanca". A universidade, como o Brasil ou a parentalidade, é uma daquelas existências que sempre idolatrei porque só delas participei enquanto turista acidental. Oxford, Cornell, Sorbonne, seduzem-me de maneira pueril como só as constelações de estrelas o conseguem, e nelas vejo-me rodeado de livros-que-eu-quero-de-facto-ler e de outonos-de-brochura, para sempre dedicado ao estudo e ao sexo com todas as protecções insulares que a gratuitidade, a civilidade e a inesgotável profusão nos podem oferecer.

Mas não é preciso ir para a universidade para poder, enfim, desconfiar da universidade. Estou neste momento a meio da leitura do excelente livro "Stratégies de Rimbaud", um conjunto de micro-leituras do autor do "Bateau ivre" pelo académico inglês de expressão francesa Steve Murphy. A erudição do estudo é exuberante, talvez sem mácula, a sua aplicação é invariavelmente eficaz, a clareza do discurso é total. No entanto, vive em mim a impressão de que essa erudição talvez esteja sempre a ser utilizada pelo ensaísta para defender a sua imagem (apriorista?) de um Rimbaud militante de esquerda. De qualquer modo, isso talvez seja o que todos fazemos. O que verdadeiramente me inquieta é a dúvida sobre qual a real utilidade literária de todo este esforço para um leitor que não seja um hamster de universidade.

Se não há sombra de dúvida sobre a utilidade das pesquisas altamente especializadas no âmbito das ciências (mais tarde ou mais cedo têm uma aplicação pragmática), eu já não estou tão certo de que um texto literário tenha uma maior repercussão sobre o seu potencial leitor se for observado com o auxílio de um microscópio ou de um telescópio. Quem escreve, fá-lo para encontrar uma brecha de troca directa com um receptor que não pode alcançar no espaço e/ou no tempo. Mas a distância a que o texto tem de estar do seu leitor é a distância do olho nu. Claro que a investigação académica pode contribuir, por exemplo, para uma anotação esclarecedora das obras, ou para um apoio pedagógico à sua circulação (nomeadamente quando se trate de obras de leitura pouco evidente). Tenho, contudo, a certeza absoluta de que Rimbaud não escreveu para ser estudado, mas para intervir no espírito generoso de quem com ele queira entabular uma conversa de café (no sentido nobre, tertuliano, da expressão). A utilidade das artes e das humanidades exerce-se num regime quase oposto (porque mais íntimo, essencial, e menos urgente) ao da utilidade das ciências de índole matemática.

Estamos numa época da história humana em que temos de (podemos?) assumir que o paradigma que nos rege é o da ignorância selectiva. Isto seria impensável noutros tempos, mas a verdade é que, dada a quantidade de conhecimento que foi produzido pelo homem, mais do que escolhermos o que queremos saber, temos hoje de escolher o que não poderemos nunca saber. Só o computador terá ainda hipótese de ser um sábio renascentista... E que difícil é equilibrar a curiosidade intelectual para não se descambar nem no diletantismo-trivial-pursuit nem na especialização deformadora. De qualquer modo, postulo que, ou os livros são abre-te-sésamos para todo e qualquer intelecto, ou então não vale a pena continuar a fazê-los.

Nos textos sobre cinema que tenho vindo a escrever no Cabo da Boa Tormenta, estou a tentar justificar o meu gosto cinéfilo ligeiramente impopular (ao que parece). É a Universidade Pedro Ludgero: se me dizem que não percebem o porquê da minha adesão a (ou o próprio conteúdo de) um filme, eu tento, em textos de clareza e dimensão legíveis, esgrimir as minhas razões objectivas e desvelar alguns aspectos da obra que podem parecer obscuros mas que, afinal, até nem o são. Não pretendo uma graduação académica, mas seguir um pouco o espírito de Agostinho da Silva, que dizia que uma Universidade deveria ser apenas um sítio onde íamos perguntar aquilo que não sabíamos. Tento ser tão útil quanto o médico, o bombeiro ou o agricultor.

domingo, dezembro 26, 2010

Cadernos Rimbaldianos 3 & Pessoanos 1

À primeira impressão, Rimbaud parece ser um poeta de irracionalidades evidentes e histéricas, paralelas à dispersão mal-comportada da sua biografia, enquanto Fernando Pessoa se nos apresenta como um mestre do auto-controlo reflexivo.

A maior parte dos comentadores da obra do francês apressam-se, contudo, a sublinhar a importância da palavra "raisonné" na sua famosa expressão programática "raisonné dérèglement de tous les sens". Na verdade, Rimbaud sempre procurou trabalhar com método, mesmo que esse método lhe servisse precisamente para tornar consciente aquilo que (ainda) era inconsciente. A sua leitura atenta mostra um artesão com perfeito domínio das várias ferramentas da sua arte, pesando e sopesando todos os níveis da inesgotável polissemia dos textos que estava a produzir.

Pelo contrário, Pessoa é um pensador superficial e incoerente quando comparado com Rimbaud (este fez uma das mais subtis críticas de sempre ao capitalismo). "O livro do desassossego" é uma obra-prima do politicamente incorrecto (no sentido pejorativo da expressão), e vale sobretudo como esplendor de disparates geniais (é a minha opinião). Ao mesmo tempo, a despeito do tom filosofante dos seus poemas e do fingimento assumido da emoção, Pessoa está constantemente a revelar as suas exemplares fragilidades. Mesmo quando assume as máscaras heteronímicas (ou sobretudo quando as assume...). A obra pessoana é um drama psíquico vibrando, sem qualquer sentimentalismo, nas entrelinhas de uma pseudo-filosofia.

Rimbaud sabia como escrever bem. Foi um poeta e um pensador. Pessoa escrevia bem sem o querer. Foi um poeta, maravilhoso, mas apenas poeta.