Voos de papagaios varam-me a cabeça quando te vejo de perfil
e o céu de gordura estria-se em relâmpagos azuis
que traçam o teu nome em todos os sentidos
Rosa de chapéu
e o chapéu é uma tribo negra disposta num lanço de escadas
onde os seios agudos das mulheres vêem pelos olhos dos homens
Hoje vejo pelos teus cabelos
Rosa de opala da manhã
e acordo pelos teus olhos
Rosa de armadura
e penso pelos teus seios de explosão
Rosa de charco verde de rãs
e durmo no teu umbigo de mar Cáspio
Rosa de eglantina durante a greve geral
e perco-me entre os teus ombros de via láctea galada pelos cometas
Rosa de jasmim na noite de barrela
Rosa de casa assombrada
Rosa de floresta negra alagada de selos azuis e verdes
Rosa de estrela de papel acima dum terreno ermo onde brigam crianças
Rosa de fumo de charuto
Rosa de espuma do mar feita cristal
Rosa
Quanto à técnica de escrita, o piscar de olho equivale à figura do zapping. Como a cabeça do sujeito lírico é atravessada por voos de papagaios (por imagens de tagarela: de poetastro) quando ele contempla o perfil do seu objecto, o que faz com que o nome da amada (a palavra Rosa) seja traçado no céu (gorduroso, pois quem disse que só as magras têm direitos?) em todos os sentidos, e como aparentemente não há maneira de, pela escrita, os mostrar todos de uma só vez, então é preciso mostrar esses sentidos um a um, em brevíssimas imagens, que se alternam por um simples piscar de olho (por um efeito de montagem). Já o defendi num outro post, a poesia é um movimento de liberdade-pálpebra perante o real (e de modo algum uma evasão).
Rosa escrita em todos os sentidos: nos cinco sentidos da percepção (cheira a jasmim, sabe a charuto, é dura como o cristal, faz ruído de greve ou de explosão, a visão é o próprio tema do poema), nos vários pontos cardeais (a escrita automática provoca relâmpagos indómitos em todas as direcções da folha de papel), e com diversos significados. Quanto a este último aspecto, veja-se que Rosa provoca o voo, a revolta, a manhã, o terror, a estagnação, a limpeza, a selvajaria, etc.
Conforme vai carregando o nome Rosa com toda uma épica de associações (até ele poder aparecer sozinho no fim, tornado sublime e infinito), o poeta discorre sobre o olhar. Quando diz que, na tribo do cabelo de Rosa, as mulheres vêem pelos olhos dos homens, e logo a seguir assume que ele próprio vê pelo cabelo da amada, ele assume que o amor é nada mais que a construção de um olhar-em-conjunto, uma solidariedade de perspectiva.
E por isso, cada imagem traz um elemento de ligação que constitui a sua principal força sedutora. Se a princípio o autor ainda tem que recorrer à conjunção copulativa para descrever o efeito do corpo-outro no seu próprio-corpo (como Rosa é uma manhã preciosa, especial portanto, ele já só pode acordar no próprio abrir dos olhos dela), logo logo isso é substituído pela fulgurância reprodutora que está latente na própria imagem.
Por exemplo, sendo Rosa um charco, o dormir do poeta no seu corpo faz com que, dentro desse charco, o minúsculo umbigo tenha o imenso tamanho (e a vitalidade) do mar Cáspio. Se a noite, mulher-a-dias do sono, é o lugar da lavagem do mundo com lixívia, Rosa redime-a com seu perfume de jasmim. E Rosa fica eglantina (silvestre, portanto), para acompanhar as actividades políticas. Ou então, enquanto floresta negra, é alagada de selos que, independentemente do que possam significar (espermatozóides?, luzinhas de animais desconhecidos?, a própria água que é sempre azul e verde?), a verdade é que trazem em si o traço semântico da epistolografia: da utopia da comunicação constantemente reclamada pelo grande poeta surrealista.
Por fim, como quem não é capaz de decidir entre o olho direito e o olho esquerdo (o existencialismo de Péret não é moral mas sim sensual), o poeta vê a amada sofrer uma sublimação química (o fumo do charuto é gasoso), para logo a seguir se solidificar em cristal.
Renovando toda a história da poesia lírica, Péret demonstra, à maneira de um cientista maluco, como dar, numa só palavra (a "Rosa" do fim), todos os sentidos que o real permite.
(Imagem retirada daqui)






