Mostrar mensagens com a etiqueta Poemas para serem ditos no cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poemas para serem ditos no cinema. Mostrar todas as mensagens

sábado, abril 07, 2012

Partilha 137

voz de judy dench



(e=117)


está a mona lisa posta em sossego
numa parede lá de casa

isto é tanto mais evidente
quanto não é costumeiro ver-se-me andar
com um bando de japoneses
pela frente

mas eu gostava mais de ter
como um poder privado
exposto o chão que a japoneira pisa
não há nada de mais caro
do que o chão que a japoneira pisa
(como um bigode que se apara
quando o inverno já termina)

e sou tão rico
(tão próspero)..............................
que tenho uma coleção de pedras de roseta
não há praia que não se me revele
a epopeia tão verbal da sua areia
nem cordilheira que não se eroda
na narrativa
do seu passado dromedário
(ideário lírico)

mas que saudade, pobre coitado, tenho eu
de ser analfabeto entre perfumes
de passear como mero turista
na plenitude do mero enigmático

e após ter visto os filmes do harry potter
decidi mesmo a alma minha repartir
pelos mais valiosos sete horcruxes
a saber:
o meu primeiro bilhete de identidade
(ai deus, e u é?)
o pas de chat da esfinge de gizé...

mas eu não gosto de truques
[além do mais
o que se leva desta vida
são os horcruxes]

domingo, março 18, 2012

Partilha 136

voz de jeremy irons



(e=71)

tenho todo um tempo de juventude
polido no vazio
(em deserto)..........................

talvez tal exceção
me dê direito a um voucher
com um temporada num hotel
do lido de veneza
um desses
com praias exclusivas
onde até o clima deve ser mais fresco
e as brisas aquecidas

em todo o caso
esse tempo assim precioso
pretendo usá-lo no céu
como um diamante de sangue

não porque os sofrimentos sejam comparáveis
é mas é o céu
que é bem menor do que o mediterrâneo
e os que nele se perdem não conhecem
a raça da sua infância
a classe do seu anseio
[ou orientação de dor]

domingo, fevereiro 12, 2012

Partilha 135

voz de marlon brando


(x)

ok
sejamos um número de circo
mas de conteúdo difícil de definir
(como acontece ao sindicalista e ao patrão
com a adesão à greve)
sejamos propaganda da carochinha

era preciso que o mundo parasse
que no trapézio entre dois arranha-céus
dois pássaros, delicados e isósceles,
se cruzassem com o canto:
"eu sois um outro"..........................................

era preciso que
multiplicados por si mesmos
palhaço rico
palhaço pobre
gargalhada pública
fossem linhagem pitagórica

e que as bestas indómitas, perigosas
(o sancho e o quixote)
atacassem com provérbios tão em forma
que pudessem prescindir da terminação
- é assim que eu ladro

[quem quer casar com el gordo?]

sábado, janeiro 14, 2012

Partilha 134

voz de cecilia bartoli



(e= 82)


nem sabes o trabalho que te vou dar
se me quiseres pôr nos píncaros

vais ter de me levar ao colo
como se eu fosse uma noiva preguiçosa
(já peso mais de noventa quilos)
em zonas de oxigenação duvidosa
exigirei respiração boca a boca
(tudo o que seja preciso
para fazer espécie
e não fazer o género)
e quando me julgares na crista de um tsunami
verás como é efémero
o branco pré-reverso


 
detesto poetas mariquinhas
que só ficam felizes se lhes fizerem
festinhas
e lhes disserem
"muito bem!"...........................

se ninguém alguma vez ler este poema
espero ao menos que deus não exista
[o que eu quero é ir passar dois dias
com o marky mark
a bora bora:
deixo isso ao cuidado das academias]

domingo, novembro 20, 2011

Partilha 132

voz de bette davis



(o=51)

boa noite
o meu nome é pedro ludgero
e sou um poeta

para atingir este nível de aceitação
foi preciso percorrer um longo caminho
muitos versos muitos vómitos dias em claro
(mais ou menos treze passos)

mas talvez não queira ainda o fim da poesia
e nem é pelo seu estatuto de tradição
nela não se espeta só o dorso do touro
espetam-se ovos, vinhos passados
estacas no coração.....................................................

[se o sol nasce para todos
todos têm de viver um dia de cada vez]

terça-feira, novembro 01, 2011

Voltas que o tempo dá

O poema "Voz de Maria Casarès" foi rescrito. O post em que o tinha partilhado foi, portanto, devidamente atualizado: aqui.

sábado, outubro 15, 2011

Partilha 131

voz de leonard cohen



(e=55)


queremos tudo de bom para o poeta

paisagens simples e eloquentes
rapazes que por lá passeiam como um feitiço involuntário
e o vento.......................................
que é uma teia de aranha
mas a contrario
insinuando em todas as coisas
(ao princípio de algum tempo)
o desejo de sair do sítio

também uma biblioteca de sóis
que a leitura torna noite ou ficção
as mais subtis lérias científicas
o décimo terceiro mês
e o subsídio de férias

[tudo
para que o poeta chegue à boca de cena
e
caso seja essa a sua verdade
diga que não é feliz]

Partilha 130

voz de judy garland



(e=47)


então penso
(dado o modo como o mundo se processa)
que um eventual triunfo pessoal
talvez não tenha tento

estatelam-se logo estes meus ossos
até que volto a ser um velho invertebrado
mas se toda a outra gente é padecente
por que não haveria eu de
padecer?.........................................

[não aguento
(a minha carne é alegre)
e quero logo
como o falador de laugharne
viver voltado para a tumidez dos rios]

quarta-feira, outubro 05, 2011

Partilha 129

voz de edith piaf

(poema conhecido como "windblown l. g.")

(e=92)


tanto trabalho teve o real em tudo isto
(vénus passando à frente de saturno
um qualquer signo que no dobre de uma esquina
nos mete em sinecuras
a brisa agindo no cabelo)

tanto trabalho para que agora uma astrolepra
desmembre a par e passo o meu amor
já se sente o fedor da despedida
um braço
uma pupila sine die
o rasto de sangue azul deixado
pela pavana de tudo quanto disse

é o almanaque com aragens em filinha
que usei para o escrever em vendaval
segundo a translação do mundo,
que agora tenho de vender em amaragens

e é também o seu nome de latim
que de si fez uma vera espécie única
(pulchreza integrissima).........................................................
que, como quem não quer, se liquefaz
numa espécie de nome de veneza

ah! como a página de um in-fólio
o amor é zona intertidal

[morro
e sou logo petróleo]

sábado, setembro 17, 2011

Partilha 128

voz de maggie smith


"Apenas em cima do cavalo e na mazurka passava despercebida a pequena estatura de Deníssov, e todos o viam como o belo rapagão que ele próprio se imaginava."
Lev Tosltói (trad. de Nina e Filipe Guerra)


(a=94)




se eu fosse fino como um alho
era um rapaz mais alegre 

já que o não sou
(e a gordura é apanágio dos pândegos)
podia ao menos ter o dom da magreza
como melancólica compensação

mas enquanto não perco toda a carne
como quem perde uma fortuna ao jogo
vou-me treinando p'ra logografia material
ou seja
para ser anjo
(p'ra ser um logro)
um anjo mas ao contrário do ordinário
um ser que fosse de só-sexo
(o que
como toda a gente sabe
é uma corruptela de iupiii!)

outras vezes quero ser uma velha garda
descoberta no momento em que a voz
já não consegue gritar
- aqui-d'el-rei!

ou então uma dessas mulheres negras
que se encontram à chegada a nova iorque
e que conseguem fazer chegar ao céu
tanto a risada como o decote

[tudo isto a propósito de um chiste:
- de que maneira é que a memória
atravessa a cheia do tempo?
- saltando................................................
suavemente
de chocho em chocho]

sábado, setembro 03, 2011

Partilha 127

voz de dietrich fischer-dieskau



(e=34)


certa vez
certo dia
certa cidade amanheceu em paz
e ficou tudo em bolandas

era preciso fugir pelos telhados
fazer segredo dos recados
esconder-se da ausência de violência
e da ausência de pavor
(surgiu o mercado branco)

não
foi apenas a neve que caiu
à margem do tempo

[.............]..........................

segunda-feira, agosto 15, 2011

Partilha 126

voz de marlene dietrich




(a/e=28)


"no âmbito do meu trabalho literário
era bem capaz de me especializar
em inscrições para cravos

escrever coisas em línguas já antigas
(e em carateres dourados)..................................................
como
winona forever
ou
you have the right to remain sore"

[esta é a música que faz
o inseto polinizador]

quinta-feira, agosto 11, 2011

Partilha 125

voz de anna magnani




(a=74)


no seu leito de reconversão das ânsias
a minha avó pediu
um prato de sardinhas
(tenho a andado a pensar nisso)

mas por que raio estou já a marcar
com tanta antecedência
a minha última ceia?
como se a morte desse pelo nome
ferran adrià
ou eu fosse uma dessas socialites
que a morte recebe sempre
à frente de toda a gente

carpa à moda do dia?
sopa de rabo de boi
(é a sugestão da carroça)?
ou devo antes escolher a companhia?

p'ra arreganhar a taxa de mortalidade
Dizem-me que é preciso
primeiro
morrer de riso....................

[e eu acrescento que a morte
como a sardinha
não é boa se não for pequenina
]

quarta-feira, julho 27, 2011

Partilha 124

voz de maria casarès



(e=67)


 ninguém me demove da suposição
de que
para um novo dia amanhecer
é quase sempre preciso pôr ao sol
um processo de extradição

e é melhor ter tais pruridos
é melhor ter esses sentimentos
em tudo aquilo que possa envolver
os movimentos que nunca dão a cara

todos os dias me treino p'ra copérnico
não me serve a tradição que diz
que uma rede
(de gangster
ou de pescador).....................
tem sua estância no centro do universo

[é bem mais fácil escrever no outono
do que na primavera
porque na primavera os ser's nos chegam
em pdf
e no outono tudo está
em ficheiro
word]

sábado, julho 23, 2011

Partilha 123

voz de antónio zambujo



(e=48)


hoje
o fisális e o louva-a-deus
tiveram de vir trinta vezes
ao palco.................................................
(como se diz que à fonteyn e ao nureyev
uma vez
também aconteceu)

não sei como há quem possa pensar
que o mundo é apenas matéria

não ter mais do que dez a celacanto
reprovar a marés vivas
e usar cábula só p'ra responder
ao perfume de alguém que nos chama

[entre o nariz de cyrano
e o do boneco de collodi
venha a esfinge
e escolha]

sábado, julho 02, 2011

Partilha 122

voz de tom waits




(a=50)


poetas há que vivem mais a evocar a vida
do que a viver uma vida
evocável.................................................

- conduzir uma ambulância em cenário de guerra
quem isto escreve é um cobarde
que ainda por cima abomina a condução

e no entanto
nada é mais belo do que conduzir uma ambulância
(num cenário de guerra)

e ele há também a guerra das palavras
os ilógicos mimos retorquidos
entre símios sem idade p'ra condizer

[o poeta não sabe se é o condutor
se porventura o conduzido
quando escreve ti-no-nis]

domingo, junho 19, 2011

Partilha 121

voz de andreas scholl




(a=56)


teria o mundo solução, sabe
por meio de gestos tão simples
como aquele que desfaz
velhas bolas de sabão

por exemplo
a liberdade.........................................


o insecto embate contra a dura transparência:
um voejar um pouco para o lado
e acharia a evidência da janela
aberta
(pura e simples)

mas há bem outras maneiras
de desmantelar cristais
é o caso do casulo
cuja existência em riste é preciso perceber
ou é partir a loiça
ou é fazer um terço de pontos finais

[e agora o poeta zumbe
para fora do que disse]

domingo, maio 29, 2011

Partilha 120

voz de maria joão



(a =67 )


ando co'a estranha gulodice
de doar o meu corpo à acupunctura
ser todo eu um disco de vinil
(ser todo eu próstata)

fazer a aposta de que uma mera agulha
mareando um dedo do meu pé
me cure subitamente do coração
ou que outra agulha
de trás da orelha
seja tão benta e tão mansa que me traga
uma bonança por cada copo de água
ou que sempre que o meu sexo se
liberte............................................................................
dos instantes que o eternizam em palheiro
seja solto um prisioneiro no tibete

[talvez consiga
propor a teoria
de que o bater de asas de uma borboleta
pode um dia chegar a provocar
o bater de asas de uma outra borboleta]

domingo, maio 08, 2011

Partilha 119

voz de joão gilberto




(e=85)


é de tal modo triste
fria
total
esta eterna condição de estar
Homem

que às vezes penso que muito gostaria
de ser tratado como uma mulher

que me dessem flores (isso é bem Claro)
e que me abrissem portas
muitas portas

que me impedissem um futuro de trabalho
porque deus houvera ameaçado
fazer da minha massa gorda
um recendente nascituro

ou então que me metessem num sininho
capaz de pôr todo um lar a debandar

e estar na posse do belo jeito moral
que permite ser mais objecto que sujeito
das belas artes da agressão

demorar muito mais tempo a reviver
mas colher o benefício
das múltiplas mortes

[ou talvez
dada a imperícia da espécie
ser do género que nem chega a morrer]

sexta-feira, abril 15, 2011

Partilha 118

voz de mário viegas



( a=62)


gosto imenso de conjunções adversativas
são justas
elegantes
são uma carga de preocupações..............................

veja-se como quase toda a vida
está contida em todavia

apetece quase conhecer uma rainha
só para lhe dizer não obstante

majestade
a verdade quer vir ao de cima

porém é a parte de baixo
de um avião que não levita

mas sempre haverá uma desculpa
p'ra não vivermos para sempre ao sol do sul?

[nesse dia
a morte não chegou
por causa das cinzas do eyjafjallajökull]