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quinta-feira, janeiro 14, 2010

Raison en chantée

Recentemente, uma jornalista comentava que o quadro de Nikias Skapinakis dedicado ao quarto (imaginário) de Paul Klee estava investido de uma geometria algo sufocante. Não me lembro desta obra específica de Skapinakis (que penso ter visto na Fundação Árpád Szenes - Vieira da Silva), por isso não posso confirmar ou desmentir a afirmação. Mas a regularidade com que realmente a geometria visita a obra de Klee, juntamente com o facto de ele ter sido professor numa instituição tão associada à racionalidade como a Bauhaus, levaram-me a especular por que razão eu, que me aborreço de morte com Malevitch ou Mondrian, sinto tanta empatia pela pintura do grande autor suiço (é, de longe, o meu artista plástico de eleição).

Há motivações evidentes: a puerilidade latente em todo o seu trabalho (os ingleses têm uma expressão bem bonita para isso: childlike), a valorização da ironia, o flirt (sempre infiel) com diversos pensamentos estéticos (por vezes contraditórios entre si), a relação com a música, o gosto pela escala reduzida.

Mas no que se refere à obsessão pela geometria (e pelos números, letras, setas, etc.), eu diria que ela progride na obra de Klee lado a lado com uma pulsão onírica que é tudo menos sufocante. É como se uma não pudesse passar sem a outra (o pensamento e a poesia não se confundem, mas continuam-se). E nessa perplexidade tomo consciência de uma das linhas orientadoras do meu próprio trabalho criativo (é de nós que falamos quando falamos dos outros, e vice-versa), a que eu daria o nome de : lirismo vertebrado.

domingo, janeiro 03, 2010

sábado, janeiro 02, 2010

Uma intuição

Dizem os especialistas que a floresta Amazónia cresce sobre o seu solo, e não do seu solo (que é paupérrimo, infértil), utilizando-o essencialmente para proceder à fixação dos nutrientes que resultam da reciclagem dos seres vivos (o que de certa maneira explica a desmesura das árvores tropicais: elas precisam de desenvolver raízes que cubram a maior superfície possível, de modo a apanharem qualquer elemento químico disponível), e não como fonte de nutrientes.

Também a escrita cresce sobre o papel e não do papel, na medida em que os seus nutrientes provêm todos da reciclagem da experiência da vida (o papel é o suporte de fixação dessa experiência). Ora, parte da novidade (e da estranheza) da obra de Stéphane Mallarmé resulta precisamente do facto de ele ter pretendido extrair a sua poesia do papel em branco (ou de uma certa ideia de papel em branco). É claro que isto não passa de sugestão (e de ilusão), mas pode configurar uma linha de abordagem fértil quando aplicada ao autor de "L'après-midi d'un faune".

sábado, dezembro 26, 2009

Cravos-ferraduras (mais alguns)

1. Nas últimas páginas de "O homem livre" (ver este post), Filipe Verde fornece ao seu leitor a seguinte citação: "Devemos portanto estudar a excelência do carácter, tentar descobrir o que o constitui e como é que ele se forma e evitar enredar-nos em discussões sobre epistemologia moral ou de fundamentação da ética" - Gisela Striker.

Para todo o moralista céptico da moral, estas palavras são preciosas. Aliás, estou cada vez mais convicto de que os grandes pensadores éticos são os romancistas, e não os filósofos. Precisamente porque não escondem o relativismo do seu ponto de vista, porque analisam a irredutibilidade de cada carácter e a tirania das circunstâncias em que ele tem de evoluir (Herberto Helder afirma não se interessar pela prosa de ficção por causa da pretensão moral que os seus cultores ostentam; contudo, dada a irrisória quantidade de romancistas que o grande poeta madeirense tolera, eu acho que será mais justo dizer que, sendo a ética um assunto privilegiado do romance, a maior parte dos exemplares relevantes dessa arte não são propriamente moralistas).

Não me incluo no grupo acima mencionado: para além de ter mais curiosidade pelos dilemas éticos do que expectativas punitivas sobre as actuações concretas, eu sou tão céptico da moral como céptico do cepticismo. Considero, claro, que a dúvida é um dos fundamentos nobres daquilo a que chamamos humanidade. Já Descartes demonstrou que nada consegue ser mais ético do que o questionamento da autoridade do edifício cultural que cada indivíduo herda. Em qualquer altura da história da civilização, podemos assumir o exaltante direito-dever de tudo pôr em causa. É a pergunta eleita da criança: porquê?

Ora, essa prerrogativa traz consigo uma fatalidade: para não cedermos por completo à pulsão de morte, é preciso que o momento da dúvida seja sempre seguido de um passo de construção. É preciso fundamentarmos, para nós mesmos, a possibilidade de um caminho. E essa fundamentação acaba por ser, em grande parte, racional.

Eu também desconfio profundamente da atitude de Platão. Os disparates de Descartes são assinaláveis. Kant foi tão brilhante que acabou por ocupar demasiado espaço na cultura ocidental. No entanto, continuo a achar que a formulação do conceito de imperatico categórico é colossal. Se podemos defender que uma cultura da vergonha, como a dos índios Bororo, é uma cultura ética (na medida em que, nas próprias palavras de Filipe Verde, o outro que impede o acto pernicioso para a comunidade é um outro imaginário, interno portanto, e imaginado enquanto entidade especificamente moral), não sei se podemos defender que os indíviduos que a assumiam eram homens completamente livres. Eram livres na medida em que viviam de acordo com os "direitos da natureza" (aí estou completamente de acordo), mas já não o eram se tivermos em conta que a sua cultura, para ser eficaz, nunca era propriamente questionada.

Basicamente, o que estou a tentar dizer é que a razão pode ser (ou deve ser) um dos instrumentos privilegiados da construção da liberdade, e não há liberdade enquanto não questionarmos mesmo aquilo que é, supostamente, bom. Não é por acaso que Espinosa construiu a sua "Ética" segundo o modelo da geometria, que Freud construiu as suas teorias a partir de uma (hoje questionável) pretensão científica, e que o próprio Filipe Verde se pode assumir herdeiro desses moralistas cépticos da moral na sua especulação de base antropológica. Se nem todos os meios justificam os fins, é porque o meio de chegar ao fim não pode ter menos valor do que este tem. Se é pela razão que conseguimos admirar a ética do mundo Bororo, é porque a razão terá os seus méritos.



2. A razão é um instrumento. Mas não é o único, e não é necessariamente o principal.

Conforme vou lendo o que Paul Ricoeur escreveu sobre a metáfora, vou-me apercebendo do seu desprezo pela capacidade que essa figura de estilo tem de fascinar o receptor de uma mensagem verbal. Critica-se a metaforização quando ela é um mero ornamento. Claro que tudo aquilo que for gratuito na construção de um texto, tudo aquilo que nele não tiver uma pertinência, acaba sempre por enfraquecer a sua possibilidade de comunicação. Ovídio, por exemplo, foi useiro e vezeiro na criação de metáforas para romano ver (aliás, Ricoeur reconhece que a teorização retórica dos latinos foi medíocre, e que constituiu logo um passo atrás em relação aos escritos de Aristóteles).

No entanto, é bem curioso este ódio contemporâneo ao ornamento. Voltando aos índios Bororo, saúdo o seu respeito religioso pela ornamentação (a começar pela ornamentação do próprio corpo humano). Mas não é preciso ir para tão longe, basta reconhecer a sua importância na configuração de uma liberdade improvisadora (de composição em tempo real, portanto) ao intérprete de música barroca (algo que em grande parte se perdeu a partir do classicismo com resultados empobrecedores para a cultura musical).

Mas estou a incorrer no preconceito de Ricoeur, estou a tentar dar uma legitimidade racional àquilo que não tem, nem precisa de ter, uma pertinência racional. Pois há outros tipos de pertinência. A começar pela pertinência sexual.

Se hoje vivemos num mundo onde a sexualidade strictu sensu veio cobrar os seus merecidíssimos direitos, a criação artística perdeu alguma da sumptuosidade que a esse nível sempre a marcara. O triunfo do conceptualismo é um sinal (note-se que não estou a defender o conceito de beleza de uma época em particular, estou a lamentar a relativa indiferença de algum pensamento estético em relação à comunicabilidade das formas). Sinal também é a cisão que alimenta a história do cinema: assistimos ao triunfo do chamado cinema de entretenimento (que tem uma clara dimensão sexual, disso sou solidário, mas que depende por completo de um sistema de calculismo financeiro, e por isso configura um caso evidente de prática de prostituição) perante aquilo que seria um cinema de conteúdo (cuja dimensão sexual ou é minimizada pelos autores com vontade de respeitabilidade, ou é trabalhada com tanto amor que não pode por definição convencer a totalidade de uma audiência, o que é mal visto pela racionalização económica).

Já alguém fez o estudo sociológico do público que se arrasta com apatia ou ironia pelo sucesso de Serralves?

Podemos deixar de lado palavras como ornamento, beleza ou até mesmo fascínio (cuja ligação a determinadas ideologias estéticas é susceptível de provocar equívocos). Mas se, no âmbito da criação artística, acolhêssemos sem complexos os "direitos da natureza", talvez nenhuma das "perversões" acima descritas pudessem vingar.

Há monstros do sono da razão, mas igualmente há monstros da razão. Talvez o poeta deva ser também pensador, e o pensador deva ser também poeta.

sábado, dezembro 19, 2009

Give away the ending

Comecei, há já alguns anos, a escrever pequenos ensaios avulsos sobre poesia. Com o passar do tempo, os ensaios começaram a pedir uma articulação recíproca (a armarem-se em livro, portanto). Penso que precisarei de bastante tempo ainda para concluir a obra que configurará uma espécie de teoria poética pessoal. O imenso tempo decorrido não terá correspondência no número de páginas: como sempre acontece comigo, o livro (intitulado "Orfeu de corpo inteiro") ostentará uma dimensão modesta.

Os ensaios já escritos são: uma leitura improvável do "Dom Quixote", uma teoria da enumeração a partir de poemas de Yeats e Christina Rossetti, uma leitura de "L'invitation au voyage" de Baudelaire, uma teorização do sublime em oposição à sua formulação romântica, uma análise de um poema de Alberto Caeiro, uma análise de um poema de João Cabral de Melo Neto.

Recentemente apercebi-me de que a teorização está a caminhar a passos largos para uma ideia aglutinadora, que eu resumiria na fórmula: o princípio de desvalorização da transcendência. Basicamente é isto: se nada podemos conhecer da única e verdadeira Transcendência que é o (não)mundo após a morte, é preciso que todas as manifestações de transcendência que perturbam este mundo sejam reconduzidas até à evidência POÉTICA da sua cognoscibilidade. Dito de outro modo, se aquilo a que se chama realidade é transcendente ao domínio da linguagem, a poesia é o domínio dessa mesma linguagem que oferece a certeza intuitiva de que ela pode tocar a realidade. O poeta olha para trás, para o real, e este não desaparece.

Os três ensaios que precisam de ser escritos (sobre a metáfora, a musicalidade da poesia, e a poética de Rimbaud) serão agora conscientemente organizados de modo a caminharem nesta direcção.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Ajuste

Como parece que corro o risco de ser um dia saudado como uma espécie de nerd do simbolismo, esclareço que o meu diferendo com a literalidade não se confunde com a apologia de uma hermenêutica grosseira. A leitura de Paul Ricoeur está a fornecer-me instrumentos para eu poder explicar com mais precisão a minha prática de leitura.

Como diz o autor de "La métaphore vive", se todas as palavras de um texto forem metafóricas, esse texto tem de ser classificado como uma alegoria (repare-se: no enunciado especificamente metafórico, há apenas uma palavra cujo sentido sofre um desvio). Quando eu questiono a probabilidade teórica do conceito de literalidade, não estou, pois, a defender que um texto tem de ser sempre interpretado à luz de uma cosmética de substituição (esta palavra quer dizer aquela, x frase significa y, etc.), ou seja, não estou a defender que todos os textos sejam alegóricos.

É porque concordo com a ideia de Ricoeur de que o sentido depende sempre da totalidade de um discurso (do con-texto criado pelo texto), que me parece que nenhum livro pode ser interpretado a partir da literalidade. Ou seja, o discurso de um autor não altera necessariamente o sentido que o dicionário fornece às palavras com que ele se exprimiu (como acontece no enunciado metafórico), mas submete esse sentido imediato à dinâmica da sua impertinência global. Um discurso de escrita pede, portanto, um discurso de leitura. Uma obra é mais do que a mera soma das suas partes.

Durante o recente episódio da polémica entre José Saramago e a Igreja Católica, houve quem dissesse que os consumidores do texto bíblico não têm conhecimentos teológicos e históricos suficientes para fazerem uma sua leitura que não seja literal. Isto não só me parece falso como, acima de tudo, se revela paternalista. É claro que, abaixo de um certo nível de literacia, não se pode ler nada... No entanto, eu não preciso de ser um perito na História francesa do século XIX, nem de ter lido o Walter Benjamin, para conseguir construir o meu discurso de leitura a partir da poesia de Baudelaire. Claro que uma maior informação pode trazer resultados mais satisfatórios, mas a informação não equivale a criatividade (ler é criar) nem a rigor.

Compreenderia as declarações do Nobel se, precisamente, ele tivesse querido alertar para os perigos de uma leitura literal, da devoção a um livro único, ou da fé ingénua na possibilidade de uma obra ser de facto sagrada, se tivesse questionado os valores que o texto bíblico no seu todo defende (por exemplo, a noção de pecado), se até tivesse pretendido recriminar as monstruosidades históricas que a cegueira intelectual dos cristãos provocou. Da forma como o fez, foi no mínimo desajeitado.

Mas não foi Saramago quem ficou mal na fotografia. O seu romance pode ser, aliás, muito bom. Talvez até nem tenham sido os inefáveis representantes da Igreja quem mais se pôs a jeito do ridículo: mesmo que os cristãos sejam uns vidrinhos de cheiro que ninguém pode ofender, a verdade é que têm o direito à sua defesa. O nojo foi todo direitinho para certas fileiras do Partido Social Democrata. Então essas liberdades individuais, por onde andam?

segunda-feira, outubro 05, 2009

Confissão 25 (Lubitsch's touch)

Se eu pudesse fazer cinema, o mais provável é que as películas saídas do meu imaginário não contivessem cenas de sexo.

Não por uma questão de deontologia profissional, como diz o imemorial Manoel de Oliveira. Porque o que o realizador quer dizer com isso é que teve uma educação católica muito rígida, e que é o recalcamento a falar quando ele defende que o sexo deve ser sempre vivido no recato da intimidade (os meus avós, aliás, diziam coisas muito semelhantes).

Não, o meu recato deve-se a duas razões específicas, que passo a partilhar. Em primeiro lugar, fundamenta-o o meu escrupuloso respeito pelo actor. No presente contexto histórico, um trabalhador do sexo continua a ser um ser de excepção (a sua relação com o impudor erótico é uma forma de marginalidade). Não está aqui implícita nenhuma crítica nem nenhuma solidariedade: é uma mera constatação. Ora, o actor, apesar de ser um trabalhador do corpo, não é um trabalhador do sexo. O erotismo em torno do qual todo o cinema gira é mais ou menos equivalente ao erotismo que é suportável em termos de vida pública. E, de qualquer maneira, o actor é acima de tudo um trabalhador do espírito (a sua matéria-prima é a emoção humana). Mesmo que as cenas de sexo não passem de encenações ilusórias, quer-me parecer que constituem uma invasão relativamente violenta da disponibilidade do intérprete. Pelo menos, eu não gostaria de passar por isso. Mas eu não sou actor, não posso negar uma educação também ela de raiz católica, e acima de tudo admito (e aplaudo) a possibilidade de um intérprete ultrapassar todos os limites que pretenda ultrapassar. Esta razão não é, portanto, muito válida. Ainda por cima, quem sabe um dia o sexo público se torna norma, e tudo isto passa a ser um discurso de velho... E depois, ó Pedro Ludgero, os filmes não se fazem para provocar tudo o que está estabelecido? Não foi a nudez foi também liberta pelo cinema?


Eu diria que a minha relutância aparentemente puritana se deve mais ao facto de eu achar que o sexo é um buraco negro de tal modo intenso que é capaz de sugar um filme inteiro para dentro de si. O estado de sonho sensual em que muitos filmes nos colocam não se deve, por isso, confundir com a urgência de concretização sexual. Dito à maneira de um gajo, o sexo explícito é tão maravilhoso, tão potente, tão pleno, que é capaz de obliterar a cabeça de cima a favor da cabeça de baixo. E quando falo de cabeça de cima, não me estou a referir apenas ao pensamento, mas também à memória, à emotividade, à vontade, à capacidade para sonhar, etc. Ora, quem faz cinema também faz sexo, é certo, mas sexo implícito. Quem conseguiria entregar o seu amor a um filme se estivesse submetido a uma dor física avassaladora?

Eu colocaria a questão nestes termos: se me aparecesse um génio da lâmpada com alto orçamento para eu realizar três filmes, mas me pusesse como condição da sua generosidade a inclusão obrigatória de muitas cenas de sexo nessas produções, eu dir-lhe-ia, sem hesitar, que faria então três filmes pornográficos. E tudo estaria bem.

Dito tudo isto, adoro o "Império dos sentidos" de Naguisa Oshima.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Duas adendas

1. Se a Dra. Manuela (Deus a tenha em eterno e laranja descanso) lesse o meu blogue, poderia ter objectado a isto, dizendo que, se os noivos de Banguecoque se guiam pelo perfume dos frutos, e se os frutos são as manifestações de fertilidade das árvores, então o rapaz manso está a sugerir que o objectivo do casamento é, afinal, a procriação.

Ao que eu responderia que nada no poema nos orienta para uma metaforização tão rasteira e que, de qualquer modo, o sentido do texto é o da aproximação ao indizível (a algo mais amplo do que pode ser dito por palavras), o que afasta qualquer hipótese de leitura redutora.

Enfim, mas os portugueses já votaram.




2. Quando falei em papel vegetal, aqui, não quis fazer uma apologia da sinceridade, e muito menos a apologia de uma arte ingenuamente mimética. Ao contrário de todos os que desconfiam da palavra, eu acho que o jogo que com ela se joga permite construir um plano de transparência (a palavra é o papel), sem o qual não tomaríamos consciência da possibilidade de discorrermos sobre o mundo. Depois, o que cada um desenha sobre o papel: isso é a liberdade.

domingo, setembro 20, 2009

Dizer 2

O poeta Manuel António Pina, que muito admiro (ver aqui), defende que a declamação de um poema deve ser o mais branca possível. Neutra o suficiente para que a multiplicidade semântica do texto não seja reduzida a uma interpretação que condicione o seu receptor.

Em primeiro lugar, parece-me que essa distância é difícil de conseguir mesmo ao nível da leitura directa do poema em livro (confesso, não sem vergonha, que sempre gostei dos volumes de poesia da Cotovia, quando eles vinham embrulhados em papel vegetal, ainda antes de os começar a ler...).

Mas descontando esta infantilidade que não será só minha, a verdade é que aquilo que pode ser valorizado num intermediário é precisamente a sua leitura parcial do poema que connosco partilha (só uma máquina seria capaz de uma neutralidade genuína). Pois nenhum humano consegue transmitir um texto sem que essa transmissão contenha, em si latente, um discurso sobre esse mesmo texto (ninguém está aqui a defender cabotinos nem hermeneutas infantis, claro).

Por exemplo, Pier Paolo Pasolini conseguiu um consenso verdadeiramente histórico na leitura cinematográfica politizada que fez do Evangelho Segundo (São) Mateus. Todavia, a sua encenação de Sade como uma ilustração do fascismo é muitas vezes criticada pelo empobrecimento (e deturpação) que fez do material de origem. É preciso arriscar. E colocar-se a si mesmo, por inteiro, numa leitura.

A fé na neutralidade deve ser a mesma com que os jornalistas da televisão do Estado servem, sem o saber, o poder instituído. A riqueza inicial de qualquer poema precisa sempre do investimento do seu herdeiro.

quarta-feira, setembro 16, 2009

A metamorfose da situação da mulher

1. Uma metáfora não precisa de ser estruturada em torno do modelo evidente "isto é aquilo". Quando, no Livro I das "Metamorfoses" de Ovídio, Apolo diz à ninfa Dafne: - "Já que minha esposa não podes ser, / serás ao menos a minha árvore." (trad. Paulo Farmhouse Alberto), surge no espírito do leitor um conjunto de metáforas de leitura (chamemos-lhes assim) que sintetizam os diversos sentidos possíveis da alegoria que o poeta acaba de narrar. Na verdade, a transformação de Dafne num loureiro, por causa desta não querer perder a castidade às mãos do Deus solar, é uma metamorfose que pode revelar a noção culturalmente trans-histórica de que a mulher, quando deixa de ser virgem, muda de estatuto (torna-se outro "ser"). Mais relevante para este post é contudo a seguinte hipótese de leitura política da mesma alegoria: "a esposa é a árvore do marido". Note-se que, em qualquer metáfora, está sempre latente uma metamorfose. Um ser tem de devir outro para que a metáfora se dê. No entanto, em algumas das histórias de Ovídio, a metamorfose é por vezes derrogada por acasos da narrativa, sem que tal afecte o sentido que se alcançou por via metafórica. É como se a metáfora fosse o paradoxo de um devir sincronizado num ser exemplar (hipótese que tiraria o sono a muito filósofo, diga-se de passagem). De cada vez que a metáfora é lida, o devir volta a ser accionado (a metamorfose tem de dar-se de novo), e volta a ser suplantado pelo sentido estável que dele emana.


2. Uma catacrese é o recurso a uma metáfora com o fim utilitário de suprir uma lacuna vocabular: por exemplo, a "perna da mesa" (como não havia palavra para essa parte do objecto "mesa", criou-se uma metáfora capaz de a designar). Claro, a catacrese é uma metáfora morta, e o seu uso generalizado pelos falantes de uma língua faz com que a sua origem figurada se torne inconsciente, esquecida. Ora, parece-me que uma metáfora qualquer, usada e abusada na linguagem comum até se tornar convenção, conforma aquilo que poderíamos chamar de "catacrese moral". Se "a mulher se quer pequena como a sardinha" (a comparação é uma metáfora deformada - ler aqui), a pequenez (seja física, seja intelectual) apregoada pela expressão não tem um impacto meramente jocoso (ou decorativo), mas acaba por moldar uma determinada concepção ético-cultural.


3. Por que não tentar então uma "leitura coperniciana"? Longe de mim defender aqui uma revolução. Esse foi o erro dos modernos (pobre Schönberg, que julgou que ia mesmo mudar a música...). Mas a traquinice tem os seus méritos e, enquanto se mantiver traquinice, só pode dar frutos de irrisão. Por "leitura coperniciana" entendo a liberdade para desequilibrar a relação de poder semântico que existe numa metáfora. Se "a esposa é a árvore do homem", o elemento "árvore" está aqui a ser utilizado apenas para caracterizar o elemento "esposa". Como se o homem dissesse: "a minha esposa é arbórea". A "árvore" é um mero instrumento. Ora, não poderei eu subverter o processo de leitura, e tentar perceber o que se diz, nesta metáfora, sobre a árvore? Poderíamos ler assim: "A árvore, para um homem, é uma verdadeira esposa". Há aqui um enaltecimento do vegetal que se atinge em virtude da declaração implícita da superioridade do feminino. Por virtude de uma inversão (pouco natural, repito, nada disto poderia descambar em sistema), a humilhação política da mulher metamorfoseia-se na sua exaltação. O que poderíamos nós descobrir sobre os grandes textos da humanidade, sobre a nossa cultura e civilização, se de vez em quando os tratássemos com uma leitura coperniciana?



(Imagem de Antonio del Pollaiuolo. Vale a pena clicar para ver em pormenor.)

domingo, setembro 13, 2009

Dizer

Um artigo do PÚBLICO de hoje mencionava a discordância de opiniões que existe entre duas famosas actrizes portuguesas quanto à forma como a poesia deve ser dita perante um público. São José Lapa defende que a partilha da poesia deve ser sempre encenada, com um tratamento tão completo e cuidado como qualquer espectáculo teatral, enquanto Maria do Céu Guerra toma o partido da declamação tradicional, que se baseia em nada mais que o corpo-a-corpo entre o intérprete e o texto. É divertido que pensem assim, já que São José Lapa tem um vozeirão que lhe permitiria emocionar sem qualquer outro artefacto, e Maria do Céu Guerra é, só por si, uma encarnação da teatralidade.

Em princípio, concordo com Lapa. Gostaria mesmo de um dia criar uma micro-companhia de dizedores de poesia, que trabalhassem a declamação a partir da sua relação com a música, a teatralidade, o contexto plástico, etc. No entanto, para ser rigoroso, devo dizer que aquilo que Guerra defende é também uma encenação. Pode ser uma encenação mais convencional (os corais são convencionais só por serem antigos?), pode eventualmente parecer despojada em demasia (porém quão belo é osso das coisas!), mas não deixa de ser uma encenação. E basta esta tomada de consciência para que a liberdade surja logo perante o modesto diseur. E depois, que bela encenação, esta, a que nos expõe a fragilidade essencial que existe na relação do homem com a palavra...

quarta-feira, setembro 09, 2009

Retirando do contexto

"Sans le pouvoir de se taire ou de dire autre chose, il n'est pas de parole qui vaille (...)"


Gérard Genette (na Introdução a "Les figures du discours" de Pierre Fontanier)

segunda-feira, setembro 07, 2009

Sobre Aristóteles

"En dernière analyse, le concept de mimêsis sert d'index pour la situation du discours. Il rapelle que nul discours n'abolit notre appartenance à un monde."


Paul Ricoeur ("La métaphore vive")

sexta-feira, agosto 28, 2009

... lendo sobre a metáfora

Tenho andado a investigar a figura (de retórica?) que todos conhecemos pelo nome de metáfora. Deixo aqui algumas notas preliminares sobre o assunto:

1º- É notável como todas as boas teorias sobre a metáfora recalcam o seu putativo carácter ornamental. É claro que o ornamento, na criação artística, é um vício (dada a sua função nula). No entanto, a questão está mal colocada. Pois, assim como foram, em parte, os movimentos de câmara de Samuel Fuller e de Max Ophüls que fizeram de mim um cinéfilo (pois, de cinema já eu gostava antes), também a beleza das metáforas foi um dos principais responsáveis por eu me ter tornado amante de poesia e por ter acabado por também escrevê-la. Não estou aqui a fazer uma apologia da beleza, nem de um determinado tipo de literatura. Estou a dizer que separar a questão do prazer do problema da metáfora me parece ser nostalgia anacrónica do absolutismo da razão (e eventualmente um certo recalcamento platónico-religioso). Um entendimento sincero da metáfora tem de passar forçosamente pela aceitação do factor "prazer do texto".

2º- Outra impressão que se impõe é a complexidade e a vastidão de um assunto que de tal modo nos acompanha desde o início da cultura que não pode ser varrido para debaixo do tapete por meia dúzia de artes poéticas arrivistas. A metáfora não pode ser vista de um só ponto de vista, pois as suas repercussões são imensas (do mero prazer à evidência filosófica).

3º- É também notória a vocação que a metáfora tem para provocar a polémica (que começa logo por não existir uma definição consensual da figura...). O que deriva um pouco de uma certa grosseria de Aristóteles (que a resumiu a uma espécie de regra de três simples, embora tenha sido o primeiro pensador a entendê-la como possibilidade de conhecimento, o que só voltaria a acontecer... no século XX), e desse pormenor terrível que é o critério da semelhança. De facto, parece um critério infantil, e hoje será mais correcto dizer que a metáfora expõe correlações entre algumas dimensões de dois signos, do que propriamente semelhanças. No entanto, quando Iosif Brodskii diz que as nuvens estão desarrumadas no céu como a roupa num quarto de solteiro (isto é uma comparação, mas as duas figuras têm uma relação muito íntima), a comoção expressiva resulta, precisamente, da revelação da semelhança. O que fazer com isto?

domingo, agosto 23, 2009

Guerrilha



















Banksy e coraleira, como saudação de boas-vindas aos meus novos seguidores.

This is it

Desde o exemplo mítico de Rimbaud, a maior parte dos escritores têm tido uma relação de insatisfação com os textos que produzem. Cada frase, cada página, cada poema acabam por ser os depositários do sonho de um texto mais justo do que aquele que foi efectivamente escrito (um texto mais aberto ao futuro, menos mentiroso, mais subtil na comunicação).

Eu confesso que, quando tento fazer isso, saio-me mal (vou destruir um longo poema que estava a escrever nesse espírito, chamado "Badinerie"). Não direi que os meus textos sejam exactamente aquilo que sonhei (o que seria pretensioso), mas são a imagem estável (como no clique fotográfico) do conjunto de factores que levaram à produção desses textos: o que eu sonhei para eles, claro, mas também o acaso de sugestões que os rodeou, o meu mood, a minha biografia, as leituras do momento, talvez até mesmo uma dor de dentes...

Penso que isto se deve ao facto de eu acreditar numa palavra imperfeita. Não confundo o verbo com a verdade, mas também não desconfio dele. Os textos são a minha matéria. Mesmo o facto do seu sentido nunca ser literal resulta de uma prática da imanência que assumo quase ideologicamente. Isto (o texto) é o que eu posso dizer (o máximo e o mínimo ao mesmo tempo).

terça-feira, julho 21, 2009

Nota "Harry Potter"

Acho piada ao Harry Potter. Parecem-me bem pedagógicas as ideias da identificação da criança espectadora com um jovem feiticeiro, do carácter de eleito desse jovem, e da escola encenada como um ambiente de aquisição de conhecimento lúdico. Já não me pronuncio (por ignorância científica) sobre a pertinência educativa do maniqueísmo moral que as narrativas fornecem.

Presumo que os livros sejam mais interessantes do que os filmes (mas não os lerei: prioridades). De qualquer modo, não sei se há algum episódio da saga cinematográfica que é melhor ou pior (os críticos que se preocupem com tão graves assuntos). E nem me vou pronunciar sobre a exuberante negligência criativa que os realizadores demonstram (por exemplo: é certo que o estudo das relações sentimentais não tem de ter aqui a profundidade de um Cassavetes, mas reduzir tudo a um mau teatro de revista, a um esquematismo que nem consegue fazer rir... Volta "Morangos com açúcar"!).

O que me entristece um pouco é a própria preguiça com que a féerie é trabalhada (basicamente, tudo se resolve com os - muito feios - efeitos especiais). É claro que os miúdos gostam dos filmes, e ninguém os quer pôr a apreciar Bresson... No entanto, deve ser possível realizar uma fantasia que seduza e divirta as crianças, e ao mesmo tempo as prepare para uma futura cinefilia adulta.

A iniciação a uma arte não deveria ser uma espécie de doença que condena o jovem adulto a um destino de seita, mas apenas a metamorfose por que a verdade infantil vai passando ao longo da maturação de toda e qualquer pessoa.

sexta-feira, julho 10, 2009