Os meus pés
De novo sobre a areia
São os pés de outro povo
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quinta-feira, junho 27, 2013
Partilha 149
quinta-feira, maio 09, 2013
Um texto sobre o "Checkpoint Sunset"
OS SAPATOS REPESCADOS
"Primeiro há um muro. Depois um título, ou seja um programa, a postulação de um sentido: Checkpoint sunset... Logo o muro é uma fronteira, há qualquer coisa por detrás (provérbio foldulógico: «a liberdade está sempre do outro lado do muro»). Há indícios: palavras grafitadas, que aludem a uma população marinha, um marulhar. Ora o mar aparece, visivelmente pintado, frente ao muro, também ele pintado: as referências do «real» caem por terra, o atrás e o à frente são invertidos, tal como o antes e o depois não vão tardar a diluir-se. Estamos num universo retiniano: pura superfície, imagem. O cinema é convocado quase a título de acessório, de caução, com um carril e um chariot inúteis, um reflector incómodo, medidas e claquete supérfluas. Trata-se mais propriamente de um rito: a passagem da imagem à projecção (a perda da materialidade), isto é ao cliché (o beijo convencional, a felicidade terminal). As sereias anunciadas só pelo canto estão presentes, solúveis como o peixe de Breton, substituídas por candidatas – ao papel, à glória, ao mito, ao príncipe encantado – providas de pés. Porque, no cerne do filme, há o drama da eleição, cujos dados também estão invertidos já que a eleita é precisamente aquela que não encontra «sapato que convenha a seu pé» (com todas as conotações psicanalíticas do motivo). O falso muro também é um falso obstáculo (pode ser galgado), o falso mar sobe mais depressa do que o verdadeiro, apenas o falso filme se revela finalmente autêntico, uma vez livre de seus figurantes, de sua fanfarra, de sua projecção, quando a aurora regressa e a eleita dá consigo sozinha, encostada à parede (porventura tudo não terá passado de um sonho). A ironia de Pedro Ludgero, que torna ambivalentes todos os sinais, é demasiado forte para não camuflar uma falta, precisamente a falta da ilusão, do sonho materializado no ecrã. Durante a primeira parte do filme, as candidatas tricotaram um sol, fizeram-no passar do estado de novelo ao de disco, concretizando em lã aquilo que é, por natureza, imaterial (a luz). Esse sol sem brilho é portanto um ersatz simbólico do cinema, grande transformador de luz. Mas esse falso sol eclipsa o verdadeiro e as estrelas têm de cair no chão para que a projecção comece. O aparato e o aparelho cinematográficos estão condenados à destruição (pela água ou pelo fogo). A imagem é, por essência, vã, mas constitui, para os aprendizes-demiurgos que os realizadores são, a única possível redenção (eppur si muove: e contudo é preciso continuar a «rodar»)."
Saguenail, 7 de Maio de 2013.
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sábado, maio 04, 2013
Autorretrato em dia de sol
Na nossa infinita vaidade histórica, todos nos vemos alinhavados numa determinada linhagem, mesmo que seja numa linhagem de pontas soltas. Hoje apetece-me dizer que, a despeito da minha militância pela vanguarda, se há coisa em que não me reconheço é num agente da arte contemporânea.
(Imagem de Czarno Biale)
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sábado, abril 20, 2013
Partilha 148
(tema)
era uma vez um poeta
que queria pôr no mar coisas da terra
já lá havia estrelas
cavalos
e anémonas
que mais se haveria de arranjar?
talvez uma roda de oleiro
lentamente formando ondas
que nunca se hão de quebrar
(pelo menos não serão esquecidas)
talvez pólvora muito húmida
fazendo o mar rebentar
em polvorosa
ou em pôr-de-rosa
talvez até uma peça a duas vozes
(ora o tema em maré cheia
ora o tema em maré vaza)
fazendo, de todas as horas, vagas
que se podem continuamente inventar
era uma vez um poeta
que queria pôr no mar coisas da terra
já lá havia estrelas
cavalos
e anémonas
que mais se haveria de arranjar?
talvez uma roda de oleiro
lentamente formando ondas
que nunca se hão de quebrar
(pelo menos não serão esquecidas)
talvez pólvora muito húmida
fazendo o mar rebentar
em polvorosa
ou em pôr-de-rosa
talvez até uma peça a duas vozes
(ora o tema em maré cheia
ora o tema em maré vaza)
fazendo, de todas as horas, vagas
que se podem continuamente inventar
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Partilha 147
P'ra falar da preguiça
Que une praia e primavera
Mais preciso seria um aliterar suave.
Que une praia e primavera
Mais preciso seria um aliterar suave.
sábado, abril 06, 2013
Começo agora,
que o meu filme "Checkpoint Sunset" está concluído, a ter uma perspetiva mais lata e consciente do que tentei fazer. Partilho aqui algumas das brechas que o filme pretendeu abrir:
1. Há uma tangente política numa obra que é essencialmente lírica. Essa tangente está toda concentrada na ideia de muro e no paradoxo de, ao longo do filme, o muro que se destaca no seu cenário se ir tornando o lugar de representação do oceano. Tanto a política (citação do Muro de Berlim) como a religião (alusão ao Muro das Lamentações) se apresentam idealmente como formas de abrir horizontes. A recente leitura atenta dos Evangelhos permite-me concluir que a figura histórica de Jesus Cristo adquiriu relevo precisamente porque esse Filho do Homem (como a si mesmo ele se chamava) tinha a vontade genuína e prática de expandir a mundividência humana. Cristo cometeu, contudo, o erro de palmatória de ter instituído uma Igreja (não era filho de um Deus, portanto). A Religião e a Política acabam sempre por funcionar como formas de murar o horizonte. Nada é mais triste do que um muro. Quando o sol do meu filme se põe, põe-se sobre a linha do horizonte do mar ou sobre a linha que encima o obstáculo?
2. Uma das características imprescindíveis da virilidade é a sua propensão para a fanfarronice. Quase todo o macho, para ir de encontro às expectativas sociais que condicionam o seu género, tem de constantemente reivindicar o caráter imaculado do seu ser masculino (claro que, como bastantes homens são bissexuais, essa fanfarronice não passa de uma forma de controlo da sua integração social). Eventualmente a brutalidade que se exige à ereção do pénis (a lubrificação feminina é um gesto biológico mais sofisticado) exige que a cultura viril tenha essa característica de exorcismo contínuo de uma potencial insegurança... Erguer pirâmides, abrir mares, suspender jardins... O "Checkpoint Sunset" tem uma única linha de diálogo, uma brincadeira com o famoso discurso de John Kennedy quando visitou o Muro de Berlim. A frase é: "Ich bin eine Frau" (Eu sou uma mulher) e funciona como paródia da mencionada fanfarronice. O sentido é político, claro (as características associadas à feminilidade parecem-me mais consentâneas com uma gestão pragmática e tranquila do viver sedentário), mas sobretudo desafia a equivalência entre género e biologia (todos conhecemos a senhora Thatcher e a senhora Merkel). O próprio facto de a frase ser gritada por varias vozes pretende refletir a libertadora polifonia de impulsos que existe ou pode existir dentro de cada um.
3. A arte é um momento de suspensão no tempo útil da realidade em que se reflete sobre essa mesma realidade. Nunca a arte se confunde plenamente com o real (essa fermata de pura consciência não lho permite) nem pode fugir à ubiquidade temática que o real lhe impõe (não se pode falar de outra coisa). Um filme (um poema, um quadro) propõe uma representação do mundo. E não há artista que não balance entre a revelação inspirada da verdade desse mundo e a ocultação de tal verdade por via da produção de possibilidade. Quando tapamos o sol com a peneira (como acontece num dos planos de "Checkpoint Sunset"), não há desonestidade se a peneira é, no fundo, um sol-representado. O que é preciso é não parar, nem na aceitação nem na reivindicação. Os estudiosos da lógica já concluíram que, muitas vezes, não é possível destrinçar o que é verdade e o que é mentira numa ideia.
4. "Checkpoint Sunset" é também o relato alegórico da aprendizagem da solidão. O filme evolui desde o tagarelar que está no cerne das amizades femininas até à imagem conclusiva de uma mulher isolada e que talvez só esteja isolada porque assim se sente. Ninguém nasce sozinho, é a flutuação das expectativas perante o afeto que nos pode ensinar tal condição. O solitário é aquele que tanto deseja o Messias sentimental como se impede, a si mesmo, de nisso acreditar.
5. E também a beleza. Atacada por gregos e troianos. Capas das Edições Paulistas e excelentes poetas que contudo pretendem impor a sua poética sem qualidades. O reino do kitsch e a república dos cínicos. O cansaço das imagens e o snobismo dos intelectuais. Vi apenas dois ou três pores-do-sol em toda a minha vida. Pergunto-me, contudo, se esse espetáculo singular não poderia ver restaurada a sua pura maravilha. No meu filme, tudo funciona por gestão semântica, e o sentido do beijo entre o sol e o mar (a eternidade, segundo Rimbaud) é decetivamente ocultado ao espetador, diferido para um tímido momento de projeção. Parece-me que isso é reflexo do meu pudor, não moral, antes uma forma de, no contrarrelógio do meu próprio envelhecimento, ir reclamando que as coisas podem regressar todas aos seus lugares se pudermos reencontrar a quantidade e a qualidade justas de desejo. Por isso o género do filme é o desenho infantil.
1. Há uma tangente política numa obra que é essencialmente lírica. Essa tangente está toda concentrada na ideia de muro e no paradoxo de, ao longo do filme, o muro que se destaca no seu cenário se ir tornando o lugar de representação do oceano. Tanto a política (citação do Muro de Berlim) como a religião (alusão ao Muro das Lamentações) se apresentam idealmente como formas de abrir horizontes. A recente leitura atenta dos Evangelhos permite-me concluir que a figura histórica de Jesus Cristo adquiriu relevo precisamente porque esse Filho do Homem (como a si mesmo ele se chamava) tinha a vontade genuína e prática de expandir a mundividência humana. Cristo cometeu, contudo, o erro de palmatória de ter instituído uma Igreja (não era filho de um Deus, portanto). A Religião e a Política acabam sempre por funcionar como formas de murar o horizonte. Nada é mais triste do que um muro. Quando o sol do meu filme se põe, põe-se sobre a linha do horizonte do mar ou sobre a linha que encima o obstáculo?
2. Uma das características imprescindíveis da virilidade é a sua propensão para a fanfarronice. Quase todo o macho, para ir de encontro às expectativas sociais que condicionam o seu género, tem de constantemente reivindicar o caráter imaculado do seu ser masculino (claro que, como bastantes homens são bissexuais, essa fanfarronice não passa de uma forma de controlo da sua integração social). Eventualmente a brutalidade que se exige à ereção do pénis (a lubrificação feminina é um gesto biológico mais sofisticado) exige que a cultura viril tenha essa característica de exorcismo contínuo de uma potencial insegurança... Erguer pirâmides, abrir mares, suspender jardins... O "Checkpoint Sunset" tem uma única linha de diálogo, uma brincadeira com o famoso discurso de John Kennedy quando visitou o Muro de Berlim. A frase é: "Ich bin eine Frau" (Eu sou uma mulher) e funciona como paródia da mencionada fanfarronice. O sentido é político, claro (as características associadas à feminilidade parecem-me mais consentâneas com uma gestão pragmática e tranquila do viver sedentário), mas sobretudo desafia a equivalência entre género e biologia (todos conhecemos a senhora Thatcher e a senhora Merkel). O próprio facto de a frase ser gritada por varias vozes pretende refletir a libertadora polifonia de impulsos que existe ou pode existir dentro de cada um.
3. A arte é um momento de suspensão no tempo útil da realidade em que se reflete sobre essa mesma realidade. Nunca a arte se confunde plenamente com o real (essa fermata de pura consciência não lho permite) nem pode fugir à ubiquidade temática que o real lhe impõe (não se pode falar de outra coisa). Um filme (um poema, um quadro) propõe uma representação do mundo. E não há artista que não balance entre a revelação inspirada da verdade desse mundo e a ocultação de tal verdade por via da produção de possibilidade. Quando tapamos o sol com a peneira (como acontece num dos planos de "Checkpoint Sunset"), não há desonestidade se a peneira é, no fundo, um sol-representado. O que é preciso é não parar, nem na aceitação nem na reivindicação. Os estudiosos da lógica já concluíram que, muitas vezes, não é possível destrinçar o que é verdade e o que é mentira numa ideia.
4. "Checkpoint Sunset" é também o relato alegórico da aprendizagem da solidão. O filme evolui desde o tagarelar que está no cerne das amizades femininas até à imagem conclusiva de uma mulher isolada e que talvez só esteja isolada porque assim se sente. Ninguém nasce sozinho, é a flutuação das expectativas perante o afeto que nos pode ensinar tal condição. O solitário é aquele que tanto deseja o Messias sentimental como se impede, a si mesmo, de nisso acreditar.
5. E também a beleza. Atacada por gregos e troianos. Capas das Edições Paulistas e excelentes poetas que contudo pretendem impor a sua poética sem qualidades. O reino do kitsch e a república dos cínicos. O cansaço das imagens e o snobismo dos intelectuais. Vi apenas dois ou três pores-do-sol em toda a minha vida. Pergunto-me, contudo, se esse espetáculo singular não poderia ver restaurada a sua pura maravilha. No meu filme, tudo funciona por gestão semântica, e o sentido do beijo entre o sol e o mar (a eternidade, segundo Rimbaud) é decetivamente ocultado ao espetador, diferido para um tímido momento de projeção. Parece-me que isso é reflexo do meu pudor, não moral, antes uma forma de, no contrarrelógio do meu próprio envelhecimento, ir reclamando que as coisas podem regressar todas aos seus lugares se pudermos reencontrar a quantidade e a qualidade justas de desejo. Por isso o género do filme é o desenho infantil.
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segunda-feira, abril 01, 2013
Mais 3 frames de "Checkpoint Sunset"
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sábado, março 30, 2013
Partilha 146
(pessoas)
Esmeralda é uma joia de pessoa
Rosa é uma flor de pessoa
Estrela é um brilho de pessoa
que só brilha noite sim dia não
mesmo a Rosa só é flor
durante uma estação
e a joia da Esmeralda
(tão bela e preciosa)
é tão penoso arrancá-la
que mais vale deixá-la sonhada
no bater do coração
(Este poema, como todos os que são etiquetados como "Poemas para a Joaninha", faz parte de um livro infantil em construção cujo título será "Pôr no mar coisas da terra")
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segunda-feira, março 25, 2013
Algumas colaborações essenciais
Talvez nenhum homem de poder conheça essa sincera e imensa alegria que atinge o realizador de um filme quando este vê que um conjunto numeroso de pessoas estão, com generosidade militante, a tentar realizar o seu imaginário. Essa alegria não se encontra, todavia, completa sem o reconhecimento de que, se o realizador é a "anima" do filme, este depende de um conjunto variado de inteligências que são muitas vezes tão decisivas para o seu sucesso eventual como a energia do seu autor. Há, de facto, uma sumptuosidade do coletivo no cinema que só pode impressionar um escrevinhador com tendência para o isolamento como o Pedro Ludgero.
Gostaria de mencionar aqui quatro momentos de pura "magia no trabalho" que beneficiaram de forma decisiva o "Checkpoint Sunset".
1. Regina Guimarães - Para a sequência representada no primeiro frame que partilhei aqui, a minha ideia criativa original era a de uma espécie de jogo de eclipse-contraeclipse entre o astro solar e o sol artesanal elaborado pelas quatro personagens femininas ao longo do filme. A impossibilidade de enquadrar o fenómeno da forma como eu o havia imaginado (apenas as mãos das mulheres fazendo um efeito de cortina, com o sol tricotado tapando e destapando a estrela de facto) deu origem a um conjunto de sugestões de resolução do impasse. Penso que foi a Regina Guimarães quem teve a ideia de se filmar os corpos inteiros de duas das mulheres ao longe e de, em vez de elas produzirem um movimento horizontal (como aconteceria com uma cortina), fazerem uma variação vertical do sol tricotado (como ficou posteriormente registado no filme). Ou seja, ora o objeto simbólico cobre por completo o sol verdadeiro, ora fica em posição deitada dando carta de alforria plena aos efeitos de luz natural. A partir dessa sugestão, lembrei-me de fazer uma marcha das quatro mulheres ao longo da duna onde era conveniente filmar, marcha essa que deveria ter uma característica de parábola visual. Só quando as duas personagens carregando em mãos o sol artificial atingiam o ponto no espaço em frente ao sol real é que produziriam o desejado eclipse. A verdade é que esta conjunção de esforços pensantes fez com que este se tornasse um dos planos que me parecem mais conseguidos de todo o filme.
2. Rui Coelho - Nos planos de abertura e conclusão da obra, utilizei as primeiras três notas musicais do refrão da "Valsa do beijo-talvez" (tocadas no glockenspiel) como uma espécie de tiro de partida e sinal de chegada. O som do filme foi todo pós-sincronizado, liberdade italiana que muito me divertiu e que impediu qualquer veleidade de realismo num filme que é todo ele uma fantasia. Num plano em que havia uma queda ruidosa de um dos intérpretes masculinos, como tal movimento estava casualmente repartido por três instantes, o Rui Coelho (responsável pelo som da obra) lembrou-se de misturar o ruído dos embates físicos com cada uma dessas três notas por mim previamente destacadas. O achado veio completamente ao encontro da estética do filme e revelou-se mesmo algo Tatiano... A verdade é que essa mistura humorística entre ruído e música me parece uma boa sugestão para desenvolver em trabalhos futuros.
3. Carlos Brito Dias - A "Valsa do beijo-talvez" foi composta pelo jovem Carlos Dias. A uma dada altura, eu pedi-lhe uma versão variada do mesmo material para ilustrar duas das cenas da parte final do filme. Acredite-se ou não, a minha sugestão ia no sentido da emotividade sentimental da música de crooner. Ora, o Carlos apresentou-me uma brilhante contra-sugestão em piano alucinado por ressonâncias que de imediato adquiriu o sentido de uma evidência para mim. Hoje, quase não consigo conceber essas cenas sem essa música, estranha e portadora de uma eternidade magoada.
4. Jonas Nunes - Quando estávamos a tentar rodar a cena representada no terceiro frame do post anterior, todos os membros da equipa de rodagem me estavam gentilmente a dizer que essa filmagem era impossível. Ou seja, não se podia registar o sol real de frente para a câmara e esperar ter claridade no primeiro plano da imagem para iluminar o cenário e os atores (pois tudo estaria submetido a um efeito de contra-luz). Foi o bravo Jonas Nunes, recém-saído do seu curso universitário de cinema (e a assumir a posição de assistente estagiário) quem se lembrou da possibilidade óbvia (mas a todos interdita pelo calor do momento) de se dividir horizontalmente a imagem em duas partes que seriam filmadas em dois momentos diferentes. Um efeito de "máscara" que já é mesmo corriqueiro na tecnologia digital. E foi assim, com recurso a uma solução compósita, que o filme foi literalmente salvo!
Falo apenas destas quatro colaborações que me pareceram radicalmente decisivas. Mas elas são uma ínfima parte da dádiva de todos os que trabalharam no "Checkpoint Sunset". Impõe-se destacar o inestimável empenho do meu amigo Saguenail, sem cuja fé, experiência e inteligência cinematográfica nunca o filme teria sido possível. Um grande obrigado a todos!
Falo apenas destas quatro colaborações que me pareceram radicalmente decisivas. Mas elas são uma ínfima parte da dádiva de todos os que trabalharam no "Checkpoint Sunset". Impõe-se destacar o inestimável empenho do meu amigo Saguenail, sem cuja fé, experiência e inteligência cinematográfica nunca o filme teria sido possível. Um grande obrigado a todos!
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domingo, março 17, 2013
"Checkpoint Sunset" - 3 frames
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quarta-feira, março 13, 2013
Ainda a propósito do "Checkpoint Sunset"
Sempre houve rivalidades curiosas no imaginário dos cinéfilos. "La dolce vita" ou "L'avventura"? Chaplin ou Keaton? Marlene ou Garbo?
Alain Resnais diz que prefere rodar em estúdio porque isso lhe permite ficar livre de uma grande parte dos dados imprevisíveis de uma rodagem (uma dor de cabeça, é certo). Já Godard diz gostar de inserir o acaso na sua produção fílmica e de o tratar como se trata uma evidência. Ora, a verdade é que a frescura dos filmes deste autor não se encontra nos monumentos calculados do realizador de "Muriel, ou le temps d'un retour".
Não previ a existência de uma forte ventania no local das filmagens de "Checkpoint Sunset". Mas esse vento acabou por ficar fortemente registado nas imagens e por contaminar toda a banda sonora. Na verdade, hoje ser-me-ia impensável conceber o meu filme sem a dimensão agreste do elemento eólico e até me parece que ele não poderia ser defendido se essa dimensão não existisse.
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segunda-feira, março 11, 2013
Partilha 145
(beleza)
o pombo é correio
mas o colibri é e-mail
repara
como a flor tem forma de arroba
no centro de endereços de brisa ou de vento
(forma de ar-roubo)
repara
como a língua do colibri é tão comprida
que o néctar na linha do seu beijo
chega a ter quinze quilos
de distância e de desejo
o pombo é correio
mas o colibri é e-mail
repara
como a flor tem forma de arroba
no centro de endereços de brisa ou de vento
(forma de ar-roubo)
repara
como a língua do colibri é tão comprida
que o néctar na linha do seu beijo
chega a ter quinze quilos
de distância e de desejo
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sábado, fevereiro 23, 2013
Fim, contudo, de...
... a rubrica "O ATUAL" pois, na medida em que realizei eu próprio um filme, não quero que se possa pensar que utilizo a arma da crítica como estratégia de demarcação de posição perante outros fazedores de filmes. O poder só interessa aos profundamente inseguros.
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E ao terceiro dia...
... o blogue ressuscita, com grande vergonha minha: pelos vistos, não consigo matar nenhuma coisa em definitivo (é já a segunda vez que me desdigo em termos de boa tormenta). Simplesmente, havia porções de discurso que não queriam caber em mais nenhum lugar. Queiram os potenciais leitores perdoar-me e regressar a este cabo de trabalhos.
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sábado, novembro 03, 2012
Partilha 144
(folha de oliveira)
Acabou, enfim, o mundo, na data prevista pelos novembras: foi quando fechámos a porta do quarto e ficámos só nós e o que de nós queríamos. Tu, um rapaz recomendado por sessenta marcas de arcas de não-é; eu, primeira pedra atirada por Pirra a quem nunca morreu (a terra).
Dissenso!, estou é sozinho no quarto, estou com o poema. Quem é a mãe do texto, o poeta ou o leitor? - pergunta Salomão. Os dois, responde o autor. Em todo o caso, o poema não é uma venda de Abraão nem um relâmpago com prefácio de Eduardo Lourenço.
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quinta-feira, novembro 01, 2012
A montagem de "Checkpoint Sunset"

O meu filme "Checkpoint Sunset" iniciou agora o seu processo de montagem. Com o objetivo de evitar que o seu possível espetador se possa sentir desconfortável com o facto de essa montagem não se submeter ao modelo-padrão dos filmes que normalmente são consumidos, alerto para duas das características essenciais que esse trabalho está a tomar:
1. Na medida em que se trata de uma universo infestado por laivos de messianismo (em sentido doméstico, claro; diria a Elis Regina: "porque foste na vida / a última esperança"), muitas imagens surgem como elementos de revelação, de prolepse, mas sem que esse efeito de profecia apareça excessivamente sublinhado. Por exemplo, uma das primeiras imagens da obra é nada mais que o ecrã invadido pela cor azul que funciona como um mar avant la lettre (um mar irá sendo pintado ao longo da narrativa que o filme apresentará). Não é o efeito de flash forward que é estranho (muitos filmes o utilizam), mas sim o facto de ele não aparecer sinalizado de modo evidente e de a sua colocação no alinhamento de montagem surgir como uma irrupção não preparada.
2. Toda a ação do filme decorre contra um telão impositivo onde está pintada a imagem de um muro tosco. A junção que se estabelece entre os planos (que aqui funcionam essencialmente como blocos) pretende imitar a imperfeição do cimento que liga as pedras impedindo que o muro adquira uma suavidade polida. Se a honra de todo o montador é fazer com que o seu trabalho passe despercebido (ao contrário da exuberância vaidosa de todos os outros labores cinematográficos), no meu filme pressuponho que haja algum desconforto na ação de "corta-e-cola" e que o salto de transcendência que cada plano impõe ao seu antecessor seja minimamente experimentado pelo espetador.
(Fotografia de um momento da rodagem, da autoria de JAS)
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quinta-feira, outubro 11, 2012
Partilha 143
(scarface)
Dado o teor da minha relação com a camélia, decidi colher as outras flores em despedida de solteiro. Poderia ter pousado cinco euros no soutien de cada estigma )(, mas preferi dar nomes de nós a essas espécies de efemeridade. À garança chamar cadeirinha de bombeiro, não pelo recamo sedentário mas por aflição do vermelho. O talictro, doravante volta de fiador, ficar seguro por um fio de mero cálice. Nó de trança ser sinónimo de capuchinha.
Quanto ao rasto, se as cordas elétricas com que a camélia se moldou poderiam fazer soar um alarme ininterrupto, a verdade é que a natureza está submetida a uma lei de "don't ask! don't tell!". Mas eu não. Nesse teu rosto doravante postulado pela memória de esplendores na relva, eu canto a liberdade de gravata, a liberdade cega, orográfica, árvore que agora sou para atrasar a tua queda.
Dado o teor da minha relação com a camélia, decidi colher as outras flores em despedida de solteiro. Poderia ter pousado cinco euros no soutien de cada estigma )(, mas preferi dar nomes de nós a essas espécies de efemeridade. À garança chamar cadeirinha de bombeiro, não pelo recamo sedentário mas por aflição do vermelho. O talictro, doravante volta de fiador, ficar seguro por um fio de mero cálice. Nó de trança ser sinónimo de capuchinha.
Quanto ao rasto, se as cordas elétricas com que a camélia se moldou poderiam fazer soar um alarme ininterrupto, a verdade é que a natureza está submetida a uma lei de "don't ask! don't tell!". Mas eu não. Nesse teu rosto doravante postulado pela memória de esplendores na relva, eu canto a liberdade de gravata, a liberdade cega, orográfica, árvore que agora sou para atrasar a tua queda.
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domingo, setembro 16, 2012
Há um novo ensaio...
... no meu sítio "Orfeu de corpo inteiro": aqui.
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sábado, setembro 08, 2012
Notas
No sítio "Orfeu de corpo inteiro", estão transcritas algumas das notas que acompanharam o argumento do meu projeto de curta-metragem cinematográfica "Checkpoint Sunset", que está neste momento em fase de pós-produção: aqui.
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sábado, agosto 25, 2012
Partilha 142
(potência minguante)
O luar é o habeas corpus da luz solar, mas o mesmo não pode ser dito dos corpos que detêm tais ilícitos de luz. Diz-se que, entre noite e dia, o mundo é muito belo (torres assombradas por joias, o bilingue chateau d'If, os jardins suspensos de sing sing). É muito belo, mas só me chega a mim em forma de eco, de eppur.
Sou uma antígona de trazer por casa. Passeio no meu quintal sem saber os nomes das plantas, e digo "o alegado acanto", "o alegado paquissandro", "a alegada físalis-múndi". Sou um gato, sou o quarto porquinho, aquele que fez o seu lar do próprio sopro do lobo. Sou a tartaruga de Senão, aquela que a justiça nunca alcança. Sou o calcanhar da noite.
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