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sábado, setembro 14, 2013

Lucas 11, 33-36

Leitura: o que decide a higiene moral do corpo é a maneira como este olha para o mundo.

sexta-feira, setembro 13, 2013

Fail again...

Quando, interrogado pelos fariseus sobre a validade do divórcio, Jesus Cristo deu a célebre resposta: "o que Deus uniu não o separe o homem", ele poderia na verdade estar a defender a legitimidade do divórcio, alegando que, quando este se revela necessário, é porque nada de divino foi unido num determinado casamento (a união é ilegal). Ora, é preciso tentar de novo...

segunda-feira, setembro 09, 2013

Discordância

1. Na sequência de uma investigação requerida por um projeto criativo pessoal, estou neste momento a ler o excelente "The Cambridge Companion to the Sonnet". Aconselho vivamente a quem se interessar por tal assunto que não interessa nem ao menino Jesus (o único senão é que, a partir do capítulo dedicado ao Shakespeare, o enfoque dos ensaios se reduz à literatura anglo-saxónica). São textos claros, com a extensão justa, sem demasiadas remissões, partilhando teses que em simultâneo resumem o conhecimento mais relevante sobre cada assunto e propõe novas perspetivas. 

Até agora, o artigo que mais apreciei foi o da professora Catherine Bates, mas é também aquele que mais me apetece rebater.

A ideia defendida pela académica de que aquilo que o escritor de sonetos medievais/renascentistas vê na mulher amada não é tanto a integridade desse objeto mas a própria ideia de Amor (ideia essa que reflete muito mais o poeta-Narciso do que a destinatária desse seu afeto espetacular), precisa de ser contrabalançada com o reconhecimento de que, numa obra de arte (ou seja, de pensamento), todo o ser real é vampirizado pelo intelecto até se tornar um lugar mental. 
Quando Godard filma Anna Karina em "Vivre sa vie", é verdade que nos dá belas imagens da sua beleza e que quase nos consegue convencer de que, em alguns momentos, podemos olhar para a alma da atriz sua mulher. Mas, apesar de toda essa comoção (mais do que mimética), Anna Karina não deixa de ser um lugar mental, um lugar de cinema, e é só nessa condição que ela pode existir e comover no contexto de um filme. Mesmo que o filme abra brechas psíquicas na sua encenação que o façam por vezes ultrapassar o mero fingimento.
Agora, se as sequências de sonetos da Renascença britânica não conseguem construir uma imagem relevante da amada por estarem demasiado dependentes das convenções retóricas iniciadas por Petrarca, isso já é outra história...


2. Outra tese de Catherine Bates: toda a paródia (pelo menos no contexto da lírica renascentista) não deixa de ser uma forma de bajulação do modelo parodiado, modelo esse de que o poeta que se julga inovador não se consegue afinal libertar.
É uma ideia muito perigosa. Todos nós temos uma infância na nossa relação com a cultura, e essa infância a todos coloca mitos no imaginário. É muito difícil abandoná-los por completo (impossível?), especialmente porque os mitos têm o condão prático de permitirem uma comunicação célere e eficaz, na medida em que tendem a ser universais. Todo o poeta que escreve sobre amor, escreve de facto com a lírica de Petrarca algures em suspenso no seu pensamento. Mas isso não significa que o diálogo com o modelo seja sempre sorvido por este.
Poderemos afirmar que o "Ulysses" de Joyce não é um objeto formal e materialmente distinto da "Odisseia" de Homero? Ou que "Une femme est une femme" (Godard de novo) é um filme com a mesma índole conceptual dos musicais de Hollywood?

sábado, setembro 07, 2013

Tradição, tradução

Nunca compreenderemos uma experiência se a abordarmos com as mesmas palavras com que ela se costuma apresentar.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Political Geographic

1. A dificuldade arriscada e a infinita paciência que é exigida aos operadores de câmara dos documentários sobre a vida natural nunca transparece na montagem (no sentido de conceção geral) do produto audiovisual acabado. O pacote final é tão lustroso, tão limado, tão ilusoriamente inconsútil, que não faz justiça nem ao cinema nem à natureza. Ao técnico virtuoso (que recolhe imagens notáveis) corresponde um realizador/montador desonesto. Mesmo os making of são decalcados da estrutura narrativa mais grosseira do entretenimento.


2. No primeiro episódio da série da BBC "Planet Earth", a atividade natural mais exibida é o ritual predatório de várias espécies. Pergunto-me se nos documentários do mesmo género produzidos pelos países comunistas se insiste na mesma leitura da natureza...

Percurso do método

Não tenho grande imaginação para produzir conceitos. Se escrevo ensaios, é para combater o delírio cultural. Nesse aspeto sinto-me próximo da sensibilidade de um autor como Luis Buñuel, que filmava contra o obscurantismo (mas com muito mais piada, claro).

Mesmo assim os poemas parecem-me sempre mais verdadeiros do que os ensaios.


(Na verdade, o corpo essencial do meu ensaísmo é o exercício independente da leitura)

domingo, agosto 18, 2013

Confissão de meados de agosto

A minha tentação é sempre fazer um comentário inesgotável a um poema de três versos e reduzir um livro de mil páginas a um mero parágrafo.

quarta-feira, maio 22, 2013

Lendo António Maria Lisboa

Em Portugal, parece não haver escritores propriamente "surrealistas", mas sim escritores que refletem sobre a sua relação com a esperança do surrealismo.

quarta-feira, novembro 14, 2012

"Píramo e Tisbe"

"Píramo e Tisbe eram vizinhos em tudo menos na permissão de o serem em figurado. Para contornarem, fraco consolo!, a sensação de apartamento, falavam por um glory hole que havia numa parede comum às suas casas (naquele tempo, ainda não se tinha descoberto a função do buraco, sabia-se apenas que tinha as dimensões do prazer - como o prazer de falar em namorado).
Desejosos de fugirem juntos para longe dali poderem estar perto um do outro, combinaram uma amoreira como ponto de encontro e de partida: naquele tempo, essas árvores davam frutos brancos e a candura, quando silvestre, é sempre adequada a fugas de frugal motivação.
Como não havia montras em seu caminho exigente, Tisbe conseguiu chegar em primeiro lugar ao lugar de reunião. Uma leoa de telenovela que por ali andava, focinho manchado de sangue comme il faut, assustou a jovem que de imediato se afastou dali, não sem antes ter deixado o seu xalinho a jeito do bicho o manchar de comme il faut.
O resto é previsível: Píramo viu a prova irrefutável do que nunca aconteceu e suicidou-se com um canivete suiço (que, ao contrário do punhal, também dá para matar quando não há razão para tal); chegou Tisbe e, perante o cadáver irrefutável do amante, inferiu que a única maneira de tornar os frutos pretos seria matar-se a si mesma também. Desde então, o fruto da amoreira chama-se amora. Quanto aos autores do luto, foram enterrados no mesmo apartado."



Notas:

1. Com este buraquinho não se brinca em serviço. Num mito que descreve, mais do que uma paixão contrariada, a essência incomunicável de cada humano, o orifício vale pela brecha que a paixão parece abrir nessa condição, mas também pelo facto de que, mesmo na penetração sexual (o buraco é uma cona), o que passa de amante para amante são as palavras e não os corpos.

2. De resto, a estabilidade do conteúdo que une Píramo a Tisbe (a sua inequívoca paixão), ao não poder ser acompanhada por uma forma que a revele e a faça existir em exatidão (o matrimónio), só pode degenerar numa metamorfose monstruosa. Que cada um de nós imagine, para cada injustiça que o destino lhe amplificou, um morango azul, uma lua quadrada, um mar de fogo.

sábado, novembro 03, 2012

"Eco e Narciso"

Primeiro, foi a solidariedade feminina que tramou Eco. Quando Juno, mulher que ainda nada tinha lido sobre o poliamor, descobriu que ela a entretinha com conversas de gaja enquanto Júpiter, seu marido, dava largas à mania das ninfas, Eco foi condenada a só saber repetir o fim das frases dos outros.
Depois veio o amor por Narciso ("siso, siso, siso - toda a palavra muitas vezes repetida perde o seu sentido!"). Rapaz na flor da idade, tinha o mau hábito de dar tampa a fosse quem fosse que o quisesse polinizar. Despeitada até ao desespero, Eco recolheu-se a uma gruta acusticamente bem construída (o que é raro) e ficou reduzida à sua voz.
Mas para Narciso, a vida não seria muito melhor. Amaldiçoado por alguém que também tinha ficado a chuchar no dedo (diria a Agatha Christie, num livro sobre o oriente, que foi toda a gente), foi ao ver-se refletido pela primeira vez numa poça de água cristalina que Narciso finalmente desencalhou. Convenhamos que é complicado fazer amor com a imagem de si mesmo: o espelho é um preservativo que só sabe preservar a distância. E foi assim que Narciso se transformou na flor que hoje se compra e vende em dias de finados ou de outra coisa qualquer.


Notas:

1. Eis o que os antigos pensavam sobre a mulher: ela era apenas o final do homem. Entre costela e eco, venham as Pussy Riot e escolham...

2. Talvez o Sócrates, esse que estudou filosofia, não ficasse contente com a ideia de que um efetivo conhecimento de si próprio (e da merda que cada um é capaz de fazer) só poderia levar à loucura e a um definhamento fatal.

3. Em todo o caso, o feminismo está aqui previsto: o reflexo é uma espécie de vingança do eco, uma sua variação degenerada, mais próxima do onanismo que do desejo de durar. Narciso, exportador de solidões, aprende que ninguém se basta a si mesmo: ensinamento que as mulheres costumam trazer no cabelo e os homens na lapela.

domingo, outubro 14, 2012

"Atalanta e Hipómenes"

Atalanta tinha duas qualidades notórias: uma beleza estonteante e uma velocidade jamaicana na prática da corrida. Não pretendia casar, mas não lhe faltavam moços com a pretensão contrária a si dirigida. Tinha por isso instituído um exercício muito típico das raparigas dos mitos: quem a vencesse numa corrida teria direito à sua mão, quem fosse por ela vencido estava condenado à pena capital. Ninguém, claro está, lhe levava a melhor. Hipómenes, bisneto do mar, apesar de consciente dos perigos em que se estava a meter (falamos da corrida, claro), pediu ajuda a Vénus para vencer, por doping feérico, a resistência olímpica de Atalanta. Os deuses ajudam a quem se ajuda, e a verdade é que a moça já estava algo hesitante quando deu de caras com o diferente pretendente. Mas Vénus lá deu três maçãs de ouro a Hipómenes que, durante a célebre corrida nupcial, as foi atirando, uma de cada vez, para o chão, o que forçou Atalanta a uma curiosidade que a fez atrasar-se, perder a corrida e ganhar uma aliança comprada na Tiffany's.


Notas:
1. A beleza é uma forma de velocidade que, se não for limitada/atrasada, pode ser letal (Marlene). O letal é figurado, claro, mas entende-se.

2. Só se consegue mergulhar a fundo na herança matrimonial, se a questão se colocar sem papas na lei: o casamento ou a vida?

3. Uma mulher pouco disponível para o sentimental pode acabar por ser vencida pela perspetiva dos frutos, ou seja, dos filhos. Aliás, o atraso nos ciclos femininos é geralmente sinónimo de gravidez.


Notinha:
a. É possível que esta décalage de velocidades seja um espelho invertido das dificuldades de timing do coito heterossexual.

domingo, setembro 09, 2012

Cadernos rimbaldianos 10

Embora Rimbaud e a sua poética algo vulcânica não sejam modelos do típico criador de poesia contemporâneo, a verdade é que a sua obra foi no passado objeto de uma receção apaixonada e apaixonante, que a colocaram a jeito do mito. Os seus textos costumam provocar fascínios sinceros, mas não deixa de ser irónico o facto de que muitos dos incensadores da lírica rimbaldiana não tinham meios de conhecimento suficientes para poderem decifrar esse corpo textual. Ninguém nega a imaginação incomensurável do prodígio, e muito menos se supõe que poemas com tão grande carga de ambiguidade sejam decifráveis à maneira das palavras cruzadas. No entanto, a lenta investigação académica tem vindo a encontrar dados contextuais que revelam que muitas das aparentes bizarrias fantasiosas de Rimbaud eram na verdade referências inequívocas a entidades e acontecimentos concretos da sua (e não só da sua) época. Tal investigação tem se mostrado muito mais ágil na primeira parte da obra, mas ninguém nos diz que um dia não cheguemos à conclusão de que a madame *** era, afinal, uma prostituta de Charleville... Em todo o caso, se o disparate hermenêutico pode atingir o píncaro de Paul Claudel, que via em Rimbaud um místico, ainda que selvagem (se bem que, neste caso, ninguém pode estar seguro da boa fé do intérprete preconceituoso), o texto produzido pelo adolescente aparece sempre como uma armadilha que seduz aqueles que defendem que o poema deve ser lido como uma música é ouvida (ou seja, em plena anarquia semântica).

Vejamos o seguinte passo do poema "O que a gente diz ao Poeta a propósito de flores":

"Ó branco Caçador sem meias,
Correndo na Pastagem pânica,
Não te passa pelas ideias
Saber melhor a tua botânica?

A Cantárida ao Grilo ruivo
Temo que suceder farias,
O Rio de ouro ao Reno azul,
Ou às Noruegas as Floridas:"
(tradução pessoal)

Jacques Gengoux informou o leitor deste texto que os dois insetos referidos na segunda estrofe citada eram matéria-prima de afrodisíacos, sendo que o grilo produziria um efeito suave, enquanto que o célebre pó de cantárida tinha repercussões violentas (esse pó era usado há séculos, resultando o seu efeito de aparente excitação erótica do facto de ele provocar uma inflamação urinária).

Ora, sendo este um texto que parodia a célebre associação da mulher à flor, torna-se evidente que o jovem autor está a criticar a inexperiência sexual dos poetas que falam do Amor como se este não fosse uma atividade com implicações escatológicas. Não se trata de saber se Rimbaud estava na posse da razão erótica (se as mulheres preferem que primeiro se foda à bruta e só depois com mansidão), mas de perceber que a menção do nome das duas espécies de insetos não é um delírio de alucinado verbal, mas uma estratégia de sentido perfeitamente controlada.

Ainda por cima, ao expandir a citação por via metafórica, ou seja, ao mostrar que o (mau) Poeta manifestará sempre preferência pela amenidade europeia (o Reno, a Noruega) em detrimento da excitação torrencial do Novo Mundo (um Rio qualquer da América do Sul, a Florida), ele acumula, ao subtexto sexual, diversos outros níveis de leitura: estético (a defesa de um determinado tipo de poética, radicalmente diferente da impassibilidade parnasiana), político (a crítica ao colonialismo, ainda que esse não fosse um tópico tão sofisticado como hoje o podemos conceber) e filosófico (a oposição ao conservadorismo epistemológico). Esta junção dos vários níveis da atividade humana no mesmo nó górdio de uma formulação é o garante da sinceridade visceral de Rimbaud e da ausência de limites do seu projeto de espírito.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Of books and men

Presumo que seja uma experiência pela qual todos passam.

Resolvi, uma vez, ler vários livros sobre um autor que muito prezo, Tchékhov. Cheguei ao fim dessa maratona para-académica sem ter adquirido uma visão mais clara e luminosa do senhor (a despeito de factos, análises, teses e opiniões). A beleza incomensurável de "A gaivota" ou "O ginjal" permaneceu ela mesma, mas igualmente misteriosa e maior do que eu.

Recentemente, ao consultar um livro sobre direção de atores, o comentário sucinto do seu autor ao "Rei Lear" de Shakespeare (comentário oblíquo à problemática desse livro), fez-me perceber de forma tão evidente e tão simples o conteúdo do texto isabelino que deixei de perceber por que razão alguma vez ele me pareceu misterioso e maior do que eu. Isto, sem que a peça tenha perdido nem um grama da sua beleza incomensurável.

É verdade, os livros também não se medem aos palmos. E eu estou tão ocupado com o ato de conhecer que não tenho vagar para ir para a universidade.

segunda-feira, outubro 17, 2011

O amor aos livros (recordações)

1. Com onze anos de idade, parti um pé, o que me fez naufragar no calor das margens da piscina da Granja, enquanto toda a outra gente, absurdamente sem um gesso de castidade, se empanturrava com a água fresca e provavelmente mijada de que os verões da minha infância se alimentavam. Para me entreter, levava para o tédio humilhado uma edição de "Os Lusíadas" do tempo em que os meus pais, forçados pelo estudo, tinham fingido ler "Os Lusíadas".

A minha mãe dizia a toda a gente que eu estava a ler a epopeia da raça com umas magras onze primaveras (quanto mais primavera, mais se lhe rima - diz o povo). Eu não confirmava nem desmentia: lia era as notas do volume, que falavam de deuses, heróis, prodígios, fantasias, toda uma mitologia clássica que foi a minha bd de nerd e a minha decisiva literatura infantil. E era só isso que eu lia, e muito isso contribuiu para o meu amor pelos livros.

Claro que os meus companheiros de pré-parvoeira me achavam uma abécula social. Teriam a sua razão, mas hoje importa-me muito menos o anátema do que a inexatidão do seu teor.


2. Outra aventura foi um "Evangelho" (livro sagrado, diz-se) que havia lá por casa, verde por fora, maduro por dentro. Estava separado da árvore-bíblia. Risquei-o de uma ponta à outra, com palavreado infantil e completamente à margem do assunto em epígrafe civilizacional. Ainda hoje sinto a volúpia de ter escrito (n)um livro comme il faut, e chego a pensar que nesse ato de vandalismo terno (ninguém me chateou) está a primeira pedra das minhas futuras veleidades de auto-edição. Educadores de todo o mundo, desuni-vos.

domingo, setembro 25, 2011

Post a um crítico repetitivo

Em todas as suas recensões a romances (rigorosamente não em todas, mas eu adoro fazer generalizações que são, na verdade, hipérboles), dizia eu portanto que, em todas as suas recensões a romances, o crítico Eduardo Pitta elogia o estilo sem floreados e sem pirotecnia retórica da escrita do autor em causa.

(Não sei muito bem o que são floreados. Quando comecei a aprender órgão eletrónico, num ambiente de profundo provincianismo, as pessoas chamavam floreados às putativas improvisações jazzísticas que os jeitosos da coisa sobrepunham às melodias-de-sempre... Quanto a "pirotecnia retórica": trata-se de uma metáfora, portanto, de um exercício de pirotecnia retórica, ainda por cima de mau gosto, como tudo o que envolve foguetes.)

Eu compreendo a fidelidade a um determinado gosto pessoal (ódios e paixões são clubismos a que não devemos renunciar sem alguma luta). Compreendo também a cena do orgulho: quase toda a história do pensamento é feita de re-argumentações para re-comprovar teses pessoais atacadas, e não de genuínas mudanças de opinião.

Mas se alguém, vá lá saber-se porquê, resolve ganhar a vida a foder a paciência de quem toma verdadeiros riscos (e Pitta também é autor), eu espero que, da sua parte, haja pelo menos um verdadeiro esforço de pensamento. Talvez não seja preciso fazer uma "Summa Theologiae", mas o crítico que ataca, por exemplo, o adjetivo, a metáfora e o ponto de exclamação (até que venha nova doxa demonizar outros elementos da criatividade literária), deve teorizar profundamente em torno da sua opinião, precisamente para que esta não seja uma opinião, ou um tique, mas um argumento (e filosófico e tudo!).

Fico, portanto, a aguardar o "Tratado do Floreado" e os "Prolegómenos a um Manifesto contra a Pirotecnia Retórica", da autoria de Eduardo Pitta.

sábado, setembro 03, 2011

Nem respeitinho nem desrespeitão (cantiga de amigo)

Para mim, o cânone é o "Frère Jacques" que, em criança, eu cantava com outras crianças (ou as coisas um pouco mais complicadas que o Bach compôs). Mas a verdade é que mesmo os críticos, académicos e comentadores com mais tomates costumam respeitar com severidade essa instituição do Cânone artístico, e preocupam-se com coisas como: quais autores se (des)aprendem na escola, sobre quais há teses de mestrado, doutoramento e pós-doc, sobre quais se escreve nos jornais (o tema não me é suficientemente caro para eu apagar esta rima que aqui se intrometeu), e etc.

Defendo que a arte é uma linha indivisa desde o passado incognoscível até ao futuro imprevisível. Numa comparação bem ao gosto dos economistas do presente (que misturam os alhos do estado aos bugalhos da gestão doméstica), eu diria que, assim como cada sujeito tem uma noção evidente da inteireza da sua consciência, do seu "eu penso" estendido no tempo, mesmo não sendo capaz de recriar pela memória todos os momentos que constituíram essa consciência, também não precisamos de conhecer todos os momentos da existência da arte para compreendermos que só uma tentativa de apreensão da sua história global (do passado e do futuro) nos pode dar a medida aproximada daquilo que nela se investe em termos de humanidade. Sou pouco dadaísta, neste aspeto: não pretendo abolir o passado (ainda por cima, os bárbaros estão sempre à espreita, pois sabem que podem destruir uma milenar barreira de corais estéticos no espaço de uns anos de ignorância).

Daí até chegar à veneração do cânone, vai uma grande distância. O cânone será nada mais que um grande, grande amigo, de todo o tempo e de todo o lugar, que me diz: "Olha, tenho cá um feeling de que o "Don Quijote de la Mancha" é um livro que tu vais curtir, no sentido mais penetrante e seminal da palavra curtir". E eu espero que o meu amigo não se engane muitas vezes, e que nunca tenhamos de chegar ao corte de relações.

Tirando isso, o cânone não me interessa para nada.

domingo, junho 12, 2011

Na contracapa...

... da edição em DVD do filme "Love streams", de John Cassavetes, aparece o seguinte texto elucidativo, que nos elucida sobretudo sobre o seu péssimo português:


"Reconhecido melodrama de John Cassavetes que descreve os dias vividos na vida do escritor Robert Harmon e da sua irmã Sarah.
A vida decadente de Robert está consumida pelo álcool, tabaco e das curtas relações com mulheres que consegue seduzir, e que para ele são só para diversão de uma noite.
A sua irmã divorcia-se do marido por causa do seu comportamento excêntrico e insano.
Debbie (?), assustada pelo comportamento da sua mãe, prefere ficar com o seu pai, uma decisão onde Sarah fica muito triste e que vem a reforçar o seu mau estado de saúde mental."

(negritos e ponto de interrogação meus)


Quando se permite que um produto saia para o mercado com esta falta de brio no tratamento da sua superfície, não podemos esperar nada de bom da economia que alimenta esse mercado.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Ética do comentador

Já mencionei, há uns posts atrás, que estava a ler o livro "Stratégies de Rimbaud", um conjunto de ensaios (de assunto evidente) da autoria de Steve Murphy, professor universitário francófono. Devo dizer que é uma leitura que me está a dar um gozo infinito (confesso que preferiria passar o resto da vida a ler ensaios sobre poesia do que a ler romances). Para além disso, a competência do autor é absolutamente notável. Trata-se, provavelmente, da mais intensa estratégia de close reading a que já tive acesso (o que só clarificará a triste pobreza das minhas leituras, claro).

No entanto, nenhuma erudição me assusta o suficiente para me abafar o sentido crítico. Passo a explicar. O artigo central do livro é uma análise do (excelente) poema "Mémoire", mais de cem páginas de investigação obsessiva sobre uns míseros quarenta versos. Algumas das intuições propostas têm, francamente, uma utilidade inesgotável. Por exemplo, na sua leitura dos versos "Elle / sombre, ayant le Ciel bleu pour ciel-de-lit, appelle / pour rideaux l'ombre de la colline et de l'arche" (tradução em baixo), Murphy defende que Rimbaud recorre ao discurso indirecto livre (ou seja, a voz de uma personagem imiscui-se, sem que isso seja directamente assumido, na voz do narrador) para mostrar a psicologia feminina do rio (que sonha uma felicidade doméstica). Não só essa tese adquire de imediato o peso de uma evidência interpretativa (legitimando o tipo de imagens atípicas e algo estereotipadas usadas por Rimbaud neste passo), como vai com certeza ao encontro das intenções perfeitamente conscientes e calculadas do poeta. O comentador fez, aqui, serviço público.

Noutro momento do seu ensaio, Murphy propõe que, depois do escritor comparar os vestidos verdes de umas meninas espectrais a um conjunto de salgueiros, os pássaros que se desprendem dessa ilusão figurada voam com o mesmo tipo de frustração que terá dispersado os pássaros que tomaram o trompe-l'oeil das uvas do pintor Zeuxis por uvas verdadeiras. Eis um momento em que o ensaio se torna um poema. Se a imagem de Rimbaud é potente, o seu prolongamento na imaginação do ensaísta adquire uma espécie de paroxismo expressivo. Mas a verdade é que, se a intuição não é, em si mesma, um erro de coerência na leitura de "Mémoire", nada no texto a parece legitimar. Se, em vez de salgueiros, os vestidos fossem comparados a videiras, ou se a palavra "trompés" estivesse associada a estas aves polémicas, a opinião de Murphy seria um achado científico. Assim sendo, é uma liberdade que aproveita mais à vaidade do comentador do que à justiça do comentado.

Li, uma vez, que o mundo estava tão velho que já não se escreviam comentários sobre os textos, mas comentários aos comentários sobre os textos... Mas o facto de o mundo ser um caos, isso não impede que não continuemos a pugnar por nele engendrarmos a nossa quota-parte de diamantes (falo de dureza, valor, coerência interna). Quero com isto dizer que não estou a comentar o comentário, mas a defender uma ética do comentário: pois postulo que só devemos ler num texto aquilo que ele nos oferece a ler (o que inclui as eventuais remissões intertextuais que ele prodigalize ou a cultura de lugares comuns da época em que ele foi escrito). De facto, Rimbaud podia muito bem ter pensado nos pássaros da lenda de Zeuxis. Mas se o pensou, não o escreveu, nem da maneira mais oblíqua possível. Assim sendo, nenhum leitor será auxiliado pelo ensaísta quando ele toma a sua liberdade (note-se que o objectivo não é pensar a partir do texto, mas simplesmente lê-lo, adivinhar as intenções do autor). Pelo contrário, o leitor pode até ser confundido, e induzido a entrar em delírios hermenêuticos noutras aventuras literárias por que decida passar. Como me parece que a utilidade do pensamento é incitar o seu receptor a continuar a pensar, talvez a função do leitor avalizado seja também a de incitar o seu leitor a ser melhor leitor. Nada mais.


(Tradução de Maria Gabriela Llansol: "Ela / tomba, tendo por dossel o Céu azul, chama, / para cortinas, a sombra da arca e da colina." - Outras das utilidades imensas do ensaio académico é o manancial de informação que ele fornece à actividade do tradutor. Tivesse Llansol, minha escritora tão cara, lido o texto de Murphy, e teria percebido que a palavra "arche", neste caso, se refere a um arco de ponte ou aqueduto por baixo do qual o rio passa, e não a uma putativa arca que só vem trazer confusão semântica à leitura de um poema que não prima, como é normal em Rimbaud, pela transparência imediata.)


Imagem retirada daqui

sábado, janeiro 08, 2011

Crónica da Universidade

A minha experiência universitária resume-se a uma licenciatura no falhanço. Excelente aluno na área das Humanidades, fui-me encaminhado para o Curso de Direito na Universidade Católica do Porto, onde confirmei o meu total desinteresse pelas profissões sisudas, o meu agnosticismo de estimação, e uma saudável alergia aos ácaros da alta roda conservadora. Alcancei uma única nota memorável, um dezoito, na disciplina de Economia, porventura o ramo de todo o saber que menos me interessa. De resto, saí da aventura académica com depressão, menos inteligência e já outra profissão.

Talvez por causa disso, ou talvez não, a verdade é que acabei por formar uma imagem fantasiosa do que seria uma verdadeira vida académica. Assim como gostaria de ter escrito um livro intitulado "InterRail e outras coisas que não fiz" (especialmente dada a frustração heróica do decassílabo que o estrutura), poderia com toda a facilidade dedicar-me a um projecto "Entre Hogwarts e Salamanca". A universidade, como o Brasil ou a parentalidade, é uma daquelas existências que sempre idolatrei porque só delas participei enquanto turista acidental. Oxford, Cornell, Sorbonne, seduzem-me de maneira pueril como só as constelações de estrelas o conseguem, e nelas vejo-me rodeado de livros-que-eu-quero-de-facto-ler e de outonos-de-brochura, para sempre dedicado ao estudo e ao sexo com todas as protecções insulares que a gratuitidade, a civilidade e a inesgotável profusão nos podem oferecer.

Mas não é preciso ir para a universidade para poder, enfim, desconfiar da universidade. Estou neste momento a meio da leitura do excelente livro "Stratégies de Rimbaud", um conjunto de micro-leituras do autor do "Bateau ivre" pelo académico inglês de expressão francesa Steve Murphy. A erudição do estudo é exuberante, talvez sem mácula, a sua aplicação é invariavelmente eficaz, a clareza do discurso é total. No entanto, vive em mim a impressão de que essa erudição talvez esteja sempre a ser utilizada pelo ensaísta para defender a sua imagem (apriorista?) de um Rimbaud militante de esquerda. De qualquer modo, isso talvez seja o que todos fazemos. O que verdadeiramente me inquieta é a dúvida sobre qual a real utilidade literária de todo este esforço para um leitor que não seja um hamster de universidade.

Se não há sombra de dúvida sobre a utilidade das pesquisas altamente especializadas no âmbito das ciências (mais tarde ou mais cedo têm uma aplicação pragmática), eu já não estou tão certo de que um texto literário tenha uma maior repercussão sobre o seu potencial leitor se for observado com o auxílio de um microscópio ou de um telescópio. Quem escreve, fá-lo para encontrar uma brecha de troca directa com um receptor que não pode alcançar no espaço e/ou no tempo. Mas a distância a que o texto tem de estar do seu leitor é a distância do olho nu. Claro que a investigação académica pode contribuir, por exemplo, para uma anotação esclarecedora das obras, ou para um apoio pedagógico à sua circulação (nomeadamente quando se trate de obras de leitura pouco evidente). Tenho, contudo, a certeza absoluta de que Rimbaud não escreveu para ser estudado, mas para intervir no espírito generoso de quem com ele queira entabular uma conversa de café (no sentido nobre, tertuliano, da expressão). A utilidade das artes e das humanidades exerce-se num regime quase oposto (porque mais íntimo, essencial, e menos urgente) ao da utilidade das ciências de índole matemática.

Estamos numa época da história humana em que temos de (podemos?) assumir que o paradigma que nos rege é o da ignorância selectiva. Isto seria impensável noutros tempos, mas a verdade é que, dada a quantidade de conhecimento que foi produzido pelo homem, mais do que escolhermos o que queremos saber, temos hoje de escolher o que não poderemos nunca saber. Só o computador terá ainda hipótese de ser um sábio renascentista... E que difícil é equilibrar a curiosidade intelectual para não se descambar nem no diletantismo-trivial-pursuit nem na especialização deformadora. De qualquer modo, postulo que, ou os livros são abre-te-sésamos para todo e qualquer intelecto, ou então não vale a pena continuar a fazê-los.

Nos textos sobre cinema que tenho vindo a escrever no Cabo da Boa Tormenta, estou a tentar justificar o meu gosto cinéfilo ligeiramente impopular (ao que parece). É a Universidade Pedro Ludgero: se me dizem que não percebem o porquê da minha adesão a (ou o próprio conteúdo de) um filme, eu tento, em textos de clareza e dimensão legíveis, esgrimir as minhas razões objectivas e desvelar alguns aspectos da obra que podem parecer obscuros mas que, afinal, até nem o são. Não pretendo uma graduação académica, mas seguir um pouco o espírito de Agostinho da Silva, que dizia que uma Universidade deveria ser apenas um sítio onde íamos perguntar aquilo que não sabíamos. Tento ser tão útil quanto o médico, o bombeiro ou o agricultor.