Os dicionários (que eu conheço) só contemplam a grafia dossel. Mas já vi tanta gente bem-letrada a escrever docel, que fico sempre curioso sobre aquilo que fazem na cama.
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quarta-feira, agosto 15, 2007
quarta-feira, agosto 08, 2007
O estrebuchar da língua
Durante o período do liceu, tive um amigo sui generis que, entre muitas outras bizarrias dignas de nota, julgava que a expressão bode expiatório era aplicada a uma pessoa que estivesse a espiar os outros (a coscuvilhar). No fundo, o rapaz pensava que se tratava de um bode espiatório (e que jeito dava isto de passar da culpa pessoal para a vida alheia).
O erro só podia provocar a mais intensa galhofa adolescente.
O que hoje me parece mais engraçado é que essa gaffe conseguia, por momentos, dar vida a uma expressão morta. Ninguém pensa muito nas palavras que formam o bode expiatório: são dados adquiridos, convenções que usamos com negligência. No entanto, a partir do momento que um cancro de sentido afecta a estabilidade da expressão, começamos logo a pensar naquilo que a compõe. Começamos a analisar.
E então, o bode ganha um inesperado protagonismo. Não podemos deixar de imaginar um bichinho cornudo a espreitar pelo buraco de uma fechadura ou usando um arbusto como janela indiscreta (ainda por cima, o bode é um animal francamente tosco).
Penso que é daí que vem o humor.
O erro só podia provocar a mais intensa galhofa adolescente.
O que hoje me parece mais engraçado é que essa gaffe conseguia, por momentos, dar vida a uma expressão morta. Ninguém pensa muito nas palavras que formam o bode expiatório: são dados adquiridos, convenções que usamos com negligência. No entanto, a partir do momento que um cancro de sentido afecta a estabilidade da expressão, começamos logo a pensar naquilo que a compõe. Começamos a analisar.
E então, o bode ganha um inesperado protagonismo. Não podemos deixar de imaginar um bichinho cornudo a espreitar pelo buraco de uma fechadura ou usando um arbusto como janela indiscreta (ainda por cima, o bode é um animal francamente tosco).
Penso que é daí que vem o humor.
quarta-feira, julho 11, 2007
Dicionário 12
Que sorte.No reino da sinonímia, os pelintras (alguns até já só dão pelo nome de peralvilhos) podem ser conhecidos como petimetres.
Curiosa herança da bela língua francesa, que em português denuncia mais a pequenez dos seres do que a dos supostos mestres.
Mas a maravilha não é essa: é aquele r que ali falta, e que assim faz lembrar um homem ambicioso que, quando arranha o seu mítico esperanto, o faz com uma moleza (e um desconhecimento da pluralidade) que denuncia traição à grandeza ou mestria que almeja (ou que já possuiu).
Já se sabe: tudo cai. O conhecimento peripatético torna-se jogging patético (há aqui uma confusão histórica, eu sei), e etc. Mas se um canhoto vos apertar a mão com moleza, qual é a impressão duradoura que vos deixa?
Antes uma idade do ferro, que uma age (d)e fere.
quinta-feira, julho 05, 2007
Dicionário 11
A velatura do tempo fez com que, no mundo ocidental, o dito objecto perdesse a sua anti-função de ocultação sócio-religiosa (que de algum modo antifazia a dignidade da mulher), e se tornasse mero capricho anacrónico e ornamental. E assim, como o objecto já não impede de facto a face, é natural que hoje todos lhe chamemos apenas véu (vê eu).
quinta-feira, junho 14, 2007
1 x 2
Ao longo do seu célebre e famigerado romance, Cervantes usa e abusa de um específico maneirismo expressivo que eu presumo que fosse típico da sua época: a constante afirmação de uma ideia através de dois sinónimos contíguos (e conjuntos).
Mas, nas suas mãos, este recurso à repetição deixa de ser um mero e simples floreado. Ele representa a relação dual que Quixote e Sancho compõem: a mesma ideia de Homem, repartida por duas distintas opções verbais.
Se cavaleiro e escudeiro se tornam tão amigos e fraternos, é porque ambos têm queda para a loucura. Só que um diz que ela é fantasia, e o outro chama-lhe chanfradice.
Mas, nas suas mãos, este recurso à repetição deixa de ser um mero e simples floreado. Ele representa a relação dual que Quixote e Sancho compõem: a mesma ideia de Homem, repartida por duas distintas opções verbais.
Se cavaleiro e escudeiro se tornam tão amigos e fraternos, é porque ambos têm queda para a loucura. Só que um diz que ela é fantasia, e o outro chama-lhe chanfradice.
segunda-feira, maio 28, 2007
Dicionário 10
Podemos ser cínicos, e achar que é tudo mentira.
Ou podemos escolher o pragmatismo e acreditar um bocadinho na mente.
Seja como for, a quente palavra veemente não engana ninguém. Dois ee com insistência se repetem sem nada entre eles ser consoante - (esses ee que permitem as cópulas na língua portuguesa). E ainda se multiplicam nas duas sílabas do seu eco.
A veemência bem poderia passar por ciência.
Mas é o advérbio que tem a última palavra: generoso compincha que nos faz agir de modo polissémico.
Ou podemos escolher o pragmatismo e acreditar um bocadinho na mente.
Seja como for, a quente palavra veemente não engana ninguém. Dois ee com insistência se repetem sem nada entre eles ser consoante - (esses ee que permitem as cópulas na língua portuguesa). E ainda se multiplicam nas duas sílabas do seu eco.
A veemência bem poderia passar por ciência.
Mas é o advérbio que tem a última palavra: generoso compincha que nos faz agir de modo polissémico.
segunda-feira, abril 30, 2007
Dicionário 9
A polissemia provoca marés (ou estações) em cada palavra onde se aplica.
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Aforismos intitulados,
Línguas,
Poética
quinta-feira, abril 26, 2007
Evolução
H. Sou completamente a favor de um acordo de cavalheiros entre os falantes da língua portuguesa. Desde que seja para tornar a ortografia ainda mais barroca, sonhadora e sugestiva do que já é. Desde que se inventem novos sabores e desafios ortográficos. Menos esperanto, muito mais quimbundo.
K. Sou também a favor da plena aceitação pela língua dos desvios ortográficos que a geração e-mail/telemóvel desenvolveu. Mas sem fazer disso gramática: é preciso deixar o corpo à solta.
K. Sou também a favor da plena aceitação pela língua dos desvios ortográficos que a geração e-mail/telemóvel desenvolveu. Mas sem fazer disso gramática: é preciso deixar o corpo à solta.
Bzz bzz ortográfico
As consoantes mudas servem para dizer o indizível.
Por exemplo, os insectos. No Brasil, eles são o perigo-nosso-de-cada-dia, são quotidianos, vistosos, abundantes, enormes, originais. São insetos. A plebe tu-cá-tu-lá.
Mas no frio Portugal, os pobres bichos são mais raros, mais inofensivos, menos devedores da imaginação, sobreviventes-quase-de-estufa. São mais nobres e indefesos. Precisam de um não sei c de distinção.
Por exemplo, os insectos. No Brasil, eles são o perigo-nosso-de-cada-dia, são quotidianos, vistosos, abundantes, enormes, originais. São insetos. A plebe tu-cá-tu-lá.
Mas no frio Portugal, os pobres bichos são mais raros, mais inofensivos, menos devedores da imaginação, sobreviventes-quase-de-estufa. São mais nobres e indefesos. Precisam de um não sei c de distinção.
domingo, abril 15, 2007
Dicionário 8
Os lógicos dizem que, numa língua ideal, cada nome se refere apenas a um objecto, e cada objecto tem um único nome que o designa.Ora, desde Babel que cada coisa é nomeada de maneiras diferentes pelas várias línguas que existem. A essência de um objecto é encardida pela musicalidade do seu verbo, pela cultura que o acolhe, pelo quotidiano que o usa.
Mas como isto de Babel é uma gangrena imparável, dentro de cada língua passou a haver vários nomes para designar cada ser (e aí se acrescenta o afecto linguístico dos falantes, as suas preferências caprichosas). E mais: certas palavras têm o descaramento de viver da polissemia, parasitam mais do que um sentido, chegam a referir entes antagónicos entre si.
Pois Babel é a lógica da vida. A vida mestiça, rafeira, onde tudo se confunde com tudo, tudo deriva em tudo, onde as botas não batem com as perdigotas, onde reina a ambiguidade, a estupefacção, o absurdo. Babel é psicologia e acaso, ilusão e desilusão.
O facto da poesia ser, no fundo, intraduzível, não é um defeito que ela possui. É o seu maior trunfo, a sua mais fiel ligação à vida real, é o seu garante de universalidade.
terça-feira, março 20, 2007
Dicionário 7
O plural de couve-flor: couves-flores.
A correcção gramatical despreza a metáfora? Serão couves que também são flores (dois objectos hifenizados a partir das suas ontologias distintas), ou couves reunidas (harmonizadas, superadas, unificadas) em torno do conceito de flor?
Proposta: o plural de couve-flor: couves-flor.
A correcção gramatical despreza a metáfora? Serão couves que também são flores (dois objectos hifenizados a partir das suas ontologias distintas), ou couves reunidas (harmonizadas, superadas, unificadas) em torno do conceito de flor?
segunda-feira, março 05, 2007
Não falavam a nossa fala
No duplo CD "Paraísos perdidos" de Jordi Savall (com música do tempo de Cristóvão Colombo), a uma dada altura é recitado um poema azteca em língua nauhatl. O poema é interessante, mas o que mais me impressionou foi a estranha sonoridade dessa língua, praticamente reduzida a um crepitar de consoantes. Como se fosse uma fala pertencente a um naipe de percussão (e que estranhas as línguas actuais, todas tão violeta, oboé d'amor, trompa).
Transcrevo aqui o texto e faço uma tradução aproximativa a partir do inglês.
Cuix oc nelli nemohua oa in tlalticpac Yhui ohuaye?
An nochipa tlalticpac: zan achica ye nican.
Tel ca chalchihuitl no xamani
no teocuitlatl in tlapani
no quetzalli poztequi Ya hui ohuaya
an nochipa tlalticpac: zan achica ye nican.
Vivemos, de verdade, nesta Terra?
Não para sempre nesta Terra: apenas um pouco aqui.
Todas as coisas, mesmo o jade, quebram,
todas as coisas, mesmo o ouro, rompem,
mesmo a plumagem do quetzal se desvanece;
Não para sempre nesta Terra: apenas um pouco aqui.
Transcrevo aqui o texto e faço uma tradução aproximativa a partir do inglês.
Cuix oc nelli nemohua oa in tlalticpac Yhui ohuaye?
An nochipa tlalticpac: zan achica ye nican.
Tel ca chalchihuitl no xamani
no teocuitlatl in tlapani
no quetzalli poztequi Ya hui ohuaya
an nochipa tlalticpac: zan achica ye nican.
Vivemos, de verdade, nesta Terra?
Não para sempre nesta Terra: apenas um pouco aqui.
Todas as coisas, mesmo o jade, quebram,
todas as coisas, mesmo o ouro, rompem,
mesmo a plumagem do quetzal se desvanece;
Não para sempre nesta Terra: apenas um pouco aqui.
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Dicionário 6
Quando aplicada ao assunto Homem, a palavra raro só pode descambar em cinismo, em calculismo. Há pouca mão-de-obra barata? Há menos homens férteis? A baixa taxa de natalidade compromete a economia?Pelo contrário, se substituirmos esse termo por precioso, a valoração afectiva e efectiva que damos ao nome assim adjectivado muda por completo. O Homem precioso é estimado pela sua individualidade, pela sua irredutibilidade, e não pelo défice numérico que ele constitui perante uma necessidade colectiva. É a diferença entre o preço e o apreço.
Se a nossa espécie não tivesse encontrado o conceito de raridade, e partindo do dado inquestionável de que todos os bens existem em quantidades finitas, pergunto-me que Economia teria o Homem desenvolvido se a tivesse construído a partir da ideia de preciosidade.
Se em vez da dor do número (feudalismo, capitalismo, marxismo, etc.), tivéssemos partido de um júbilo diamante...
terça-feira, janeiro 02, 2007
Dicionário 5
Não há paciência para as pessoas que colocam (a não ser que o objecto seja a voz), muito menos para aquelas que efectuam, e deus nos livre da tentação de elaborar.
quarta-feira, dezembro 13, 2006
Dicionário 4
Indo pois, desta maneira, na noite escura, o escudeiro com fome e o amo com vontade de comer...
("Don Quixote de la Mancha", de Miguel de Cervantes, tradução de Serras Pereira: também Miguel)
Defendi, há alguns posts atrás, a impossibilidade de sinonímia, dado o afecto com que nós sobrecarregamos cada palavra. Afecto que modelamos nos usos sociais, na nossa biografia, na relação com a cultura, e que pode chegar a deformar o próprio campo semântico de um termo ou expressão: uma triste figura é digna da nossa compaixão, mas uma figura melancólica tem é compaixão (filosófica) por nós.
Cervantes demonstra-nos que por trás de uma formulação existe, mais até do que um sentido de classe social (a fome de Quixote precisa de mais palavreado e assume menos a sua pungência), um pressuposto de PERSONAGEM. Cada palavra comporta, a partir do trampolim do dicionário, um indício de romanesco que só precisa de um autor que o faça equivaler a um ente de carne-tinta e osso-celulose.
Propõe-se aqui um breve repasto ficcional em torno da palavra fome (não há ausência de método que não dê em escrita criativa). Para cada sinónimo, proponho um personagem indefinido ou ainda mais.
FOME - Quem assim a verbaliza é um trintão de classe média, homem entediante sem interesses literários nem ouvido para o discurso alheio, talvez com ambição de ser notário. Usa a palavra quando está mesmo aflito, e declama-a como se estivesse a dizer um palavrão. Ao filho, ensina-o a tratar o sexo por pénis. Guia um carro com motor alemão.
APETITE - Verbo de eleição de um jovem cravista que odeia a música do século XIX. Lê "O Tripeiro", frequenta meios religiosos para engatar seminaristas, toma duche mais do que uma vez ao dia, e é incapaz de provar sushi. Viagem de sonho: o Peloponeso (?).
AVIDEZ - Pobre frustrado: o que este queria era ser escritor, e nunca tomou consciência disso. É um bom garfo, e tem o paladar tão requintado que, se fosse provador de imperador romano, morreria a tentar definir as minudências do sabor do veneno. Está sempre desempregado, nunca se sabe muito bem porquê. Namora exclusivamente mulheres estrangeiras.
LARICA - Palavra exibida por um vendedor de sapatos que tem a mania que é marialva e que gosta das coisas do povo. É frequentemente convidado para apresentar Concursos de Miss Vestido de Chita. Há anos que usa as pastilhas azuis. Há anos que usa patilhas (independentemente das modas).
SOFREGUIDÃO - A única senhora do grupo. É obesa e sabe porquê. Mesmo assim, arranja namorados esculturais, e vive mais de noite que de dia. Há quem desconfie da virilidade de tais moços, mas não faz mal: ela precisa demasiado de viver para se preocupar com pormenores. Depois do pós-doc sobre a pós-modernidade nos hábitos alimentares, quer fazer parte de uma missão na África subsariana. Nunca regressa de lado nenhum.
("Don Quixote de la Mancha", de Miguel de Cervantes, tradução de Serras Pereira: também Miguel)
Defendi, há alguns posts atrás, a impossibilidade de sinonímia, dado o afecto com que nós sobrecarregamos cada palavra. Afecto que modelamos nos usos sociais, na nossa biografia, na relação com a cultura, e que pode chegar a deformar o próprio campo semântico de um termo ou expressão: uma triste figura é digna da nossa compaixão, mas uma figura melancólica tem é compaixão (filosófica) por nós.
Cervantes demonstra-nos que por trás de uma formulação existe, mais até do que um sentido de classe social (a fome de Quixote precisa de mais palavreado e assume menos a sua pungência), um pressuposto de PERSONAGEM. Cada palavra comporta, a partir do trampolim do dicionário, um indício de romanesco que só precisa de um autor que o faça equivaler a um ente de carne-tinta e osso-celulose.
Propõe-se aqui um breve repasto ficcional em torno da palavra fome (não há ausência de método que não dê em escrita criativa). Para cada sinónimo, proponho um personagem indefinido ou ainda mais.
FOME - Quem assim a verbaliza é um trintão de classe média, homem entediante sem interesses literários nem ouvido para o discurso alheio, talvez com ambição de ser notário. Usa a palavra quando está mesmo aflito, e declama-a como se estivesse a dizer um palavrão. Ao filho, ensina-o a tratar o sexo por pénis. Guia um carro com motor alemão.
APETITE - Verbo de eleição de um jovem cravista que odeia a música do século XIX. Lê "O Tripeiro", frequenta meios religiosos para engatar seminaristas, toma duche mais do que uma vez ao dia, e é incapaz de provar sushi. Viagem de sonho: o Peloponeso (?).
AVIDEZ - Pobre frustrado: o que este queria era ser escritor, e nunca tomou consciência disso. É um bom garfo, e tem o paladar tão requintado que, se fosse provador de imperador romano, morreria a tentar definir as minudências do sabor do veneno. Está sempre desempregado, nunca se sabe muito bem porquê. Namora exclusivamente mulheres estrangeiras.
LARICA - Palavra exibida por um vendedor de sapatos que tem a mania que é marialva e que gosta das coisas do povo. É frequentemente convidado para apresentar Concursos de Miss Vestido de Chita. Há anos que usa as pastilhas azuis. Há anos que usa patilhas (independentemente das modas).
SOFREGUIDÃO - A única senhora do grupo. É obesa e sabe porquê. Mesmo assim, arranja namorados esculturais, e vive mais de noite que de dia. Há quem desconfie da virilidade de tais moços, mas não faz mal: ela precisa demasiado de viver para se preocupar com pormenores. Depois do pós-doc sobre a pós-modernidade nos hábitos alimentares, quer fazer parte de uma missão na África subsariana. Nunca regressa de lado nenhum.
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quarta-feira, novembro 08, 2006
Dicionário 3
Muito gostaria de ter conhecido os habitantes da Lacónia que deram origem à precisão da expressão lacónica.
Mas uma vez que tudo isto se passa ao nível da voz, e como já dos gregos nos veio La Callas, prefiro honrar a pessoa que com tanta nobreza canta com o título celebrador de La Cónica. Pois é no vértice dessa figura geométrica que a personalidade se exprime quanto tem o seu espírito com siso.
terça-feira, outubro 17, 2006
Ingenuidade
Ninguém é mais dependente do que eu deste português que se fala em Portugal. Quando passei um período de mais de dois meses em Inglaterra, senti-me em verdadeiro estado de ressaca intelectual, como se já não soubesse pensar, interrogar, escrever, ou até mesmo desejar.
Vi recentemente, na televisão, a cantora Eugénia Melo e Castro defender que, apesar de viver e trabalhar no Brasil (por razões de afinidade com a Canção desse país), continua a exprimir-se musicalmente com o sotaque de Portugal. Acredito, e até agradeço a militância. Mas o que me saltou aos ouvidos foi o incrível esforço que essa mulher fazia para falar fiel ao seu propósito. Ele era uma vogal que se queria abrir, uma expressão bem mais ipiranga que pessoana, um desarranjo da sintaxe a pedir calor e aguinha de coco… Era uma luta titânica.
Ou talvez entre Davi e Golias, quando o português quer deixar de resistir e entregar-se de alma e canção à virilidade de um sotaque fatal.
Para defender a nossa causa, é preciso ter a lucidez de a saber perdida à partida.
sábado, setembro 23, 2006
Dicionário 2
Simpatizo com este bicharoco que não quer ser mais do que ele mesmo. Mas depois de lhe conhecer a focinheira...
Francamente, há quem nem em plena água saiba baptizar.
sexta-feira, setembro 01, 2006
Dicionário 1
Não acredito em sinónimos.
Já o escrevi num conto (por publicar).
Ao sentido comum de uma palavra, é preciso acrescentar-lhe os nossos afectos e humores.
Por exemplo:
Animal é uma palavra que me parece fria, técnica. Mas alimária (palavra que, infelizmente, já ninguém usa) tem um pouco mais de tensão: é que já estamos quase a chamar besta ao bicho, ainda não estamos, mas quase.
Para que não haja equívocos: adoro animais. E chamo-lhes bichos.
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